Foi o Cambodja.

De sorriso fácil.

De essência simples. Genuíno. Doce. E simpático. De olhos de amêndoa. Pele escura. Sorriso no rosto. De boas gentes. De um verde infinito. De sabores. De cheiros. De calma e euforia, num misto. De história. De crenças. De budistas. De frutas tropicais. De flores. De aromas. De tuk tuks. De Khmers.

É o Cambodja.

(E adiantamos já que nos rendemos ao seu encanto.)

Chegámos a Phnom Penh, vindos de Ho Chi Minh, no Vietname. Na fronteira, mesmo com a chuva intensa que se fazia sentir, foi de boa vontade que nos receberam e a ajudaram a tratar do visto. Mas burocracias à parte, sentimo-nos em casa!

Descansados, seguimos. Seguimos a pé e sempre à boleia, até apanharmos a nossa primeira boleia, de um autocarro turístico. A zona, fronteiriça, embora pobre e pouco cuidada, ostentava em seu redor uma vasta panóplia de casinos – já velhos e pouco cuidados, mas aparentemente a funcionar!

No autocarro que nos levou seguiam pouco mais de 10 passageiros, vindos das Filipinas e com um inglês fluente. E muito embora não tenhamos partilhado o nosso tempo, tivemos a infelicidade de assistir a um atropelamento, que deu azo a conversação, de um senhor numa mota, e fuga. Ficou estendido e inconsciente. E nós alarmados. Mas segundo consta, não foi fuga, nem abandono, nem nada: foi o normal. Ups, bateu. Seguiu.

Continuámos viagem e chegámos a Phnom Penh já o sol se tinha posto. No autocarro, quem lá seguia deixou para trás várias embalagens ainda fechadas de comida, sandes ou folhados, ou coisas do género, que embora tivessem carne, recolhemos e entregámos a quem vimos a necessitado. Uma tristeza, este capitalismo exacerbado e o desperdício de comida a que assistimos diariamente.

Na cidade esperámos pelo couchsurfer com quem ficámos por duas noites: duas noites calmas, no encanto e no sossego desta nova cidade, duas noites de descobertas e muitas partilhas.

É tão bom ficar com um local, deixar que as tradições e o que são se nos entranhe na pele e no coração.

Loucos com a quantidade de tuk tuks por cada rua, visitámos a cidade, por entre sorrisos e o Khmer que íamos apreendendo com cada condutor que entusiasmado perguntava “do you want tuk tuk with me?”.

E com tudo em dólares, seja no mercado ou lojas, com esquecimento sobre os rials (moeda oficial), mandam preços para o ar de forma convidativa, sem noção do que queremos, esperando que queiramos o que todos os turistas querem!

Muitos templos, muitas pagodas, muito sol, muitos mercados, muitos monges, muitos turistas. Muita fruta, muitos legumes frescos. E muita coisa gira para ver. E fazer!

Muita história gravada na pele de todos aqueles que fomos conhecendo, nomeadamente nos templos que fomos visitando. Sentimos muita pobreza e encontrámos várias crianças/famílias sem abrigo, muitas delas a viver onde se reza e a ser educadas e instruídas por monges. Habituadas a pedir a todos aqueles que lhes pareçam estrangeiros, o contacto torna-se superficial e até mesmo estranho. Às crianças, fogem-lhes por entre os dedos as brincadeiras de rua, estendendo as mãos para pedir uma esmola sempre que a imaginam.

Já na última noite, fomos nós ajudados. Sem que pudéssemos prever (mas podendo imaginar), molhou-nos a chuva batida a vento e o cheiro a terra molhada, por ruas estreitinhas e ratinhos a passear. Mas foi aqui mesmo, nesta aventura, que uma mãe e o seu filhote de olhos em bico nos ofereceu um chapéu de chuva amarelinho – o nosso melhor amigo neste Sudeste Asiático, percebemo-lo então.

Na manhã seguinte, seguimos para o aeroporto. E não, não foi para voar! Lá, esperámos uma amiga de Portugal, a Iolinda, como lhe costumamos chamar. A aterrar vinda de Lisboa, ou das trinta mil escalas que fez!, e a caminho de Kampot: o nosso destino seguinte, lá em baixo, no sul do Cambodja.

Assim fomos, com uma boleia boa, pré-combinada, cheia de conversas, partilhas, risadas e mimos. Cheia de ananás aos cubos e em modo lento, como o trânsito exige! E à chegada, à chegada tínhamos uma equipa fantástica à nossa espera, pataniscas vegetarianas e o Tertúlia (o melhor restaurante português das bandas!) e muita saudade – que só nós, portugueses, sabemos o que é.

E gratos por tudo, por lá passámos três noites, e em nada mentimos se dissermos que nem demos por elas. Foi dias de descanso. De uma calma que só em Kampot. De sentir em casa. De estar em casa. De cozinhar. De conversar. De escrever. De sentir.

E só quase por entre as estrelas, visitámos a cidade pelo pedalar de duas bicicletas e o silêncio raro de uma cidade!

Voltámos então depois para Phnom Penh, entre gargalhadas e muito vento na cara, com uma boleia de uma pick-up! Lá atrás, vimos as nuvens passear no céu, as casas e palhotas à beira da estrada, as crianças em carrinhos de brincar e o sol, sempre, a brilhar.

Estávamos felizes.

Somos felizes!

Foi uma boleia que teve tanto de demorado, como de rápido, mas que abriu um precedente muito valioso: o de que estamos preparados para fazer curtas e longas distâncias lá atrás, naquela parte do carro que de confortável tem pouco, mas de belo e vivido tem tudo. Gostámos!

Desta segunda vez em Phnom Penh ficámos num hotel – You Khin House, uma vez mais a troco de uma parceria nossa. Este, por um motivo especial. Surgiu depois de criada uma escola com um sistema de ensino baseado no modelo montessoriano – que a nós nos diz muito, como fonte de sustento para a mesma.

Contudo, hoje em dia o lucro não cobre os gastos e por isso que está a decorrer um crowdfunding* por forma a permitir que a educação destas crianças seja garantida.

Assim, aproveitámos o dia para visitar a escola, o centro de lazer e atividades a ela associado e, de tarde, o museu S-21. Este, criado após o genocídio associado ao Khmer Rouge, permitiu-nos aprofundar a história do Cambodja, a dor por todos sentida, a tristeza e desgraça vivida. O Khmer Rouge saiu do poder em 1979, com o apoio dos vietnamitas, os mesmos que os ajudaram a subir até lá em 1975. Após este período, foi declarado genocídio associado a este mesmo mandato, durante o qual foram perseguidas, interrogadas, torturadas e mortas cerca de 2 milhões de pessoas, com especial enfoque naqueles que eram literados. Visitámos por isso o museu, mas decidimos não visitar os “killing fields”. Foi intenso e ainda bem que o fizemos juntos.

Mais à noite, e para terminar o dia no auge das experiências, jantámos no DID. E vale tanto a pena partilharmos isto, que temos até medo de não conseguir deixar transparecer o que vivemos!

O DID – Dine in the Dark, é um restaurante onde os nossos sentidos são deixados no limite. Embora não seja uma ideia inovadora, e embora exista já na Europa e redores, não deixará nunca de se original e desafiante. O conceito é inesquecível, a equipa também, e a comida não lhes fica atrás.

Criado num espaço “abandonado”, uma pequena galeria de arte, começa por ter tudo em tons baixos e fraca luminosidade. Lá, fomos convidados a escolher o menu surpresa: Menu Vegetariano. De seguida, fomos convidados a retirar o relógio (por ter ponteiros luminosos) e a arrumar o telefone e equipamentos electrónicos numa caixa ou na nossa mochila. E por fim, foi-nos atribuído um guia: um guia cego, o Fredo. O Fredo ficou responsável por nós, e encaminhou-nos, de mãos no ombro dos outros, até à sala escura. Não, não era uma sala com pouca luz. Não, não tinha velas. Era verdadeiramente escuro. Negro.

Nunca tínhamos visto nada assim.

Ouvíamos os risos, como nunca, daqueles que preenchiam também a sala.

Sentimos o fresco do ar condicionado. O arrepio do desconhecido.

Sensação de claustrofobia. E sentámo-nos, sob as indicações das mãos delicadas do Fredo.

Pouco depois, serviu-nos as entradas. Depois o prato principal. Depois a sobremesa.

Não vimos nenhum deles. Mas sentimo-los chiques e cuidados. Pratos arranjados. Sabores intensos. Apurados!

A descoberta tomou conta de nós. Primeiro com talheres, depois já com as mãos: queríamos tanto saber mais, sentir mais. Saborear mais. E estava tudo divinal!

Antes de deixarmos para trás este espaço, fomos por fim convidados a ver os pratos que havíamos recebido. E o mais engraçado, foi a surpresa que não tivemos. “Bom trabalho!”, pensámos, orgulhosos pela nossa perspicácia e desembaraço.

Fica assim agora o nosso convite para que visitem um espaço assim ou que façam do vosso espaço um espaço para está experiência sensitiva. Vale a pena!

E quanto ao DID, vale ainda mais a pena quando aliado à integração de todos. (❤ de psicomotricista!)

Partimos então para Siem Reap de coração cheio, de alma preenchida. Não era tarde quando nos pusemos à boleia, e sabíamos que tínhamos um autocarro urbano, muito embora só haja três linhas de há dois anos para cá, com pouquíssimos autocarros em cada.

Contudo, enquanto o esperávamos calmamente, fomos deixando ver aos carros que passavam a nossa placa, onde tínhamos escrito o nosso destino. E, por entre a azáfama de tuk tuks e motas – onde também as crianças as conduzem! –encostou um carro com dois coreanos, que sem que conseguíssemos comunicar na perfeição, nos levaram. Mas não, não levaram para onde pretendíamos ir com o autocarro, e no fim ainda nos pediram dinheiro. É verdade, foi tão triste e tão constrangedor em nós. Temos sempre o cuidado de antes de entrar num carro explicar que não pretendemos pagar pela boleia, e assim se acusam táxis ou aqueles que realmente nos querem ajudar. Mas com dois coreanos sentimos que não havia necessidade de qualquer explicação… e estávamos tão enganados.

Mas enfim, lá nos explicámos conforme conseguimos e lá aceitaram que não pagássemos: e verdade seja dita, nem sequer nos tinham levado para onde precisávamos, e sim para onde iam; portanto estávamos de consciência tranquila.

Seguimos então a pé, sem alternativa agora de autocarro. Não faltava assim tanto para a ponte, mas por poucos que fossem os quilómetros, com as mochilas, tudo parece imenso.

Durante a pequena jornada fomos parando para descansar e aproveitando para pedir boleia; e foi por entre um desses instantes que parou um outro senhor com a sua esposa. Decididos a ajudar-nos, levaram-nos até à tal ponte que tínhamos de atravessar de forma a encontrar o melhor lugar para nos pormos. Estoirados quando lá chegámos, abrigámo-nos no chapéu de chuva como sendo de sol, e pedimos boleia.

Muita boleia nós pedimos, e nada.

Vimos o sol rodar, girar lá em cima e derreter-nos o corpo. Mudámos as mochilas várias vezes de posição em função de uma pequena sombra. E destilámos: estava difícil de apanhar boleia.

E nos entretantos rimo-nos e muito com os locais que por ali andavam:
– O que fazem uma data de homens a correr atrás de um autocarro? São condutores de tuktuk.
– E o que são homens a correr à frente dos tuktuk? São condutores de autocarros (vans).
Todos, na busca de mais clientes!

Até que parou um jipe, por entre macacadas para chamar à atenção de todos os carros. Era um pai com o seu filho e iam diretos também para Siem Reap! Fizemos então uma viagem de sonho, prudente mas rápida, e chegámos já ao pôr-do-sol.

No lusco-fusco, visitámos o mercado local para comprar alguma comida. Por todo o lado há padarias, com influência francesa, sendo a baguette a mais famosa. Nos mercados reina ainda a confusão, embora com menos ratos. O arroz mantém-se como primordial na alimentação. Muitas mangas, papaias, maracujás, anonas, maçãs, bananas, ananáses, e outros tantos que nem lhes sabemos o nome!

Só depois seguimos para o primeiro hotel da cidade com quem havíamos feito parceria – New Riverside Hotel. Longe do centro, mas com uma paz inexplicável, ficámos duas noites num quarto de sonho, com uma piscina de sonho e pequeno-almoço também de sonho. Como nem nós algum dia pudéssemos pensar vir a viver!

No dia seguinte, descansámos, espreguiçámos, ronhámos (sim, de ronha!). E passeámos. No centro, no mercado local onde apetece comprar tudo pelas cores e beleza, pelos cheiros e simpatia. Vimos roupas, acessórios, bugigangas e hammocks lindos. E já ao anoitecer, fomos jantar ao Little Kroma, um restaurante pequenino e caseiro, com pratos típicos e vários vegetarianos, e muito familiar! Perdemo-nos ali com novos sabores.

Nas últimas duas noites no Cambodja, ficámos num outro hotel –Lemon&Gingergrass Hotel, com quem também trabalhámos e com quem vivemos a experiência de visitar os Templos de Angkor e aprender a cozinhar aquilo que dizem ser o mais tradicional que por lá vimos: os famosos spring rolls, a salada de manga e o amok de tofu. Inexplicável! E inesquecível. Trazemos agora guardadinho em nós a imensidão dos templos que pisámos por entre o silêncio da surpresa e as receitas de cada prato que fizemos.

Foram dias intensos, bem vividos e apaixonantes. Dias que dificilmente algum dia conseguiremos pôr por palavras, mas onde algumas das fotografias falam por si! Da loucura que é visitar os templos de Angkor Wat e Angkor Thom; à magia da noite do “night market” no centro da cidade: um misto de passado e presente que fica no coração.

Gostámos! Muito.

E gostámos também muito do lugar onde fomos convidados a provar vários pratos típicos Khmer, deliciosos e lindos, exóticos e saborosos, com um serviço de excelência – Khmer Touch Cuisine, mesmo no centrinho do centro.

E com tantas maravilhas, tantas experiências, tantas partilhas e tantos momentos, só podemos estar gratos pela passagem no Cambodja; onde nem tudo foi perfeito, nem tudo foi magnífico ou ideal, mas onde fomos abençoamos com uma viagem rodeada de boas pessoas, bons lugares e boas vivências!

Já no último dia, caminhámos tanto quanto pudemos para nos afastar da cidade, sempre de placa em punho, até conseguirmos boleia para uma cidade próxima. Lá sim, caminhámos vários quilómetros, subimos subimos e chegámos. De suor escorrido no corpo e respiração ofegante. Cansados. Mas chegámos. Chegámos à fronteira.

– Não sem antes pelo caminho termos sido inundados pelos habituais “tuk tuk?”. Faz parte!

E por fim, estávamos tão tão exaustos, mas quase quase do lado de lá. Carimbámos o passaporte à saída, sem percalços, e seguimos. Tínhamos à nossa espera o nordeste da Tailândia, uma rota não-turística até ao Laos e muitos locais à nossa espera.

Despedimo-nos assim de sorriso no rosto, ansiosos do mundo, de mão dada, com amor: até um dia Cambodja!

* Crowdfunding – https://www.generosity.com/education-fundraising/free-education-for-children-in-poverty-in-cambodia/x/1595936

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6 meses: FAQ

São 6:
6 meses de viagem
6 meses de aventura
6 meses de amor

E por estes, e por todos os que virão ainda, pelo mundo, estamos muito felizes!

Partilhamos assim as respostas a todas as questões que nos fizeram chegar, na esperança de que satisfaça a curiosidade de cada um, e faça sorrir, faça viver, faça sonhar!

É muito amor não é? E loucura também?

Tiago – Um pouco dos dois, mas mais gosto por conhecer e aprender.
Joana – Amor decerto! Quanto à loucura… pobres dos sãos!

Qual foi, até à data, a melhor e pior experiência?

Tiago – A melhor experiência foi termos sido hospedados por locais em aldeias remotas. A pior foi andar à boleia com quem não confiávamos, no final correu tudo bem, mas foi uma viagem muito tensa.
Joana – Partilhamos a pior, quanto à melhor, não consigo escolher. Esta viagem é feita de boas experiências! Talvez guarde com carinho a chegada ao Irão: não estava à espera de tamanha hospitalidade. Não há reflexo da realidade do país fora deste, o que é uma pena!

Nunca tiveram medo?

Tiago – Nunca tive medo, mas senti alguma tensão quando um condutor se desviou do caminho: afinal ia só visitar uns amigos.
Joana – Já senti sim, e uma das vezes foi exatamente nessa situação. Queria sair do carro, não queria esperar para ver. Sou mais medrosa! Mas há uma linha muito tênue que separa o medo da tranquilidade; quero com isto dizer que sempre que tive receio de alguma coisa, foi num segundo que me acalmei e vi que estava tudo bem.

Do que mais sentem falta?

Tiago – De azeite, da minha família e amigos. E da minha bicicleta! E embora só tenha descoberto há três dias, também tinha saudades de bolachas Maria.
Mas nesta viagem estamos sempre ocupados e por isso não temos muito tempo para sentir saudades. O nosso dia é conhecer pessoas, caminhar, apanhar boleia, conhecer pessoas outra vez e dormir.
Joana – Da minha família e amigos, embora estejamos sempre em contacto. Também sinto muita falta do meu espaço (coisa que nunca tinha pensado gostar tanto), da minha cozinha e dos meus lápis-de-cor. Tenho saudades de conduzir, e de passear na baixa em Lisboa.

Acham que vão conseguir voltar e ficar?

Tiago – Encaramos esta fase como uma experiência que queríamos ter e por isso sabemos que a vida terá outras fases pelas quais também queremos passar. É como perguntar a um estudante universitário se vai conseguir adaptar-se à vida de trabalhador… O que tem de ser tem muita força.
Joana – Não tenho a menor dúvida!

Dão-se bem a tempo inteiro?

Tiago – Temos algumas desavenças, claro. Não somos perfeitos e é assim que nos tornamos mais fortes. Mas especialmente quando nos faltam boleias ou passa do meio dia e ainda não temos poiso certo, há maior tensão. Mas sei que quando por qualquer momento não estamos juntos, nos sentimos vazios.
Joana – Importa que no fim fique tudo bem, que não nos deixemos adormecer de costas voltadas. Acredito que, mais que tudo, somos pessoas. Como tal, temos os nossos momentos: e melhores ou piores, e especialmente neste tipo de viagem nem sempre é fácil gerir sentimentos. Só nos temos a nós e sabemos bem disso. Sabemos que somos a nossa companhia a cem por cento, mesmo quando estamos insuportáveis.

Quanto dinheiro já gastaram? Têm conseguido manter a vossa proposta de orçamento?

Tiago – Gastámos à volta de 1300€ em 6 meses. Significa que estamos completamente dentro do nosso orçamento inicial de 10€ diários para os dois.
Joana – Só em vistos fizemos um investimento de 700€, quase tanto quanto o que gastámos até agora em bens (alimentares ou de cosmética). É uma pena não termos passaportes diplomáticos!!

Têm conseguido manter o vosso estilo de vida alimentar, o veganismo?

Joana – Esse começou por ser um grande desafio e aprendemos, com o tempo, a levar os dias sem culpa. Depois da Turquia, a comunicação começou a ser uma barreira cada vez mais acentuada. Pensávamos que conseguíamos explicar sempre que éramos vegetarianos, mas por muitas vezes as pessoas recebiam-nos em suas casas com grandes banquetes, recheados de carne, laticínios e ovos. Até mesmo do pão não lhe sabíamos a origem. Foi uma gestão pessoal muito complicada, porque saímos de Portugal veganos e sem consumir produtos processados. Açúcar estava fora da lista, por exemplo. Hoje sem comprometimentos sabemos que nos limitámos a adaptar a este momento da nossa vida, do qual não nos orgulhamos a nível alimentar. Não compramos produtos de origem animal e ovos sabemo-los caseiros. Não podemos dizer que vivemos felizes no que respeita a esta opção, mas sabemos ser a mais sensata face à viagem que estamos a fazer. Carne, peixe e leite continua absolutamente fora do nosso cardápio. E sabemos que aquando o nosso regresso continuaremos a ser o que já um dia fomos: amigos e respeitadores da vida. Pelo mundo, a nossa atitude não é diferente; mas impõe-se respeitar os que nos estão a receber e que, por muitas vezes, nos partilham aquilo que têm no prato. Em casa as coisas são diferentes, aqui estamos completamente fora da nossa zona de conforto.
Tiago – É possível dar a volta ao mundo como veganos, mas com o nosso molde de viagem é que é mais difícil. Quando estamos numa aldeia remota e as pessoas nos acolhem nas suas casas e nos dão aquilo que têm, não podemos recusar tudo. Quanto mais quando existem barreiras linguísticas e culturais que dificultam qualquer explicação. Em relação à carne e ao peixe não somos flexíveis, cada vez nos custa mais entender que continuemos (sociedade) a comer carne sem pensar no que estamos a fazer. Já quanto aos ovos temos sido bastantes flexíveis, leite não bebemos, mas de vez em quando não existem outras opções além de derivados do leite e esporadicamente consumimo-los. Por favor, revoltem-se com esta flexibilidade e espetem-nos as vossas farpas de todos os lados.

Têm algum cuidado especial?

Joana – Na viagem em geral, tentamos ter algum cuidado com aquilo que comemos e a forma como o fazemos. Normalmente, se é algo cru, não temos água potável para lavar e não dá para descascar, não comemos. Outro tipo de cuidado especial, só no que respeita a atitudes. Eu sei que sou mais impulsiva e explosiva que o Tiago, o que por vezes lhe dá trabalho! Tenho dificuldade em conter-me perante uma injustiça, por exemplo; mas tenho-me tornado cada vez mais cuidadosa, muito embora nem sempre saiba reagir da melhor forma, o que é importante perante um mundo desconhecido.
Tiago – Uma regra importante: faz como vires fazer, até ao teu limite. Por exemplo, eu não consigo atirar lixo para o chão, mas consigo sentar-me no chão e comer com as mãos, todos do mesmo prato. Outra regra de ouro é fugir dos problemas: se alguém nos quer arranjar problemas, primamos por sair dessa situação sem repostar ou sequer tentar dar uma chapinha de luva branca, como tanto gostamos noutros contextos. Acreditamos que esta atitude a longo prazo nos é retribuída em forma de energia positiva, o que não só nos influência a nós próprios, como a todos os que cruzam o nosso caminho. “Be ALWAYS polite”, se bem que para um de nós isso é um desafio muito grande.

Conseguem descrever um momento caricato ou embaraçoso?

Tiago – Numa boleia no Quirguistão, o senhor levou alguma tempo a dizer-me em russo que ia ao hospital visitar um familiar com cancro e eu sem perceber muito bem, seguia dizendo: “sim, muito bom”. Quando percebi, já era tarde; mas no final da viagem disse-lhe que esperava que tudo corresse pelo melhor.

O que trazem nas mochilas?

Tiago – Uma tenda, um marcador (para escrever num pedaço de cartão para onde vamos), meia dúzia de trapos para vestir e para durante a noite nos aquecer, uns electrónicos para manter o contacto e tirar fotografias e muitos sorrisos. Também temos uma mochila mais pequena com comida e água. E a bandeira de Portugal!
Joana – Além da roupa e calçado (que inicialmente era de verão e inverno, mas que agora se resumiu à primeira), uma rede mosquiteira de casal, repelentes, cosméticos (shampo e sabonete sólidos, cremes, desodorizante e coisas de menina!), bijuterias, e alguns medicamentos de rotina e outros de emergência. Tenho também música e um caderno.

Há recomendações específicas para andar à boleia?

Joana – Paciência, é o mais importante. Mas eu diria que não há nada específico, a não ser o bom senso. Primeiro, há que confiar na pessoa que parou, pelo menos à primeira vista. É preferível não chegar ao destino, e estar bem, que o contrário. Depois, há que partilhar a nossa história com quem nos está a ajudar, que é a única coisa que podemos dar em troca (a não ser que a barreira linguística não o permita, mas é por isso também que o Tiago se empenha tanto na aprendizagem da língua de cada país por onde passamos). E por fim, deixar bem claro sempre que estamos à boleia, que não pretendemos que a pessoa altere a sua rota e nos leve apenas para onde já está a ir, sem que paguemos por isso. Cabe-nos também no carro respeitar as pessoas e, por exemplo, não começar a mexer nas mochilas ou a falar Português entre nós – por vezes quem nos leva também tem algum receio. Ainda assim, no que toca a viajar por países por culturas distintas é que encontro uma recomendação/regra fundamental: não julgar. Às vezes é difícil, às vezes não percebemos nada, mas é mesmo assim.
Tiago – “Quem está à boleia, sujeita-se”. Ter sempre isto em mente, e depois tentar criar confiança com o condutor: partilhar o mais que consigamos e o mais que ele queira saber.

À data, qual o maior impacto da viagem na vossa vida? E em vocês próprios?

Joana – Acredito que só teremos resposta para estas perguntas aquando o nosso regresso, contudo acredito também que a cada dia que passa nos conhecemos melhor.
Tiago – Com esta viagem aprendemos a dar valor a uma simples cama ou garrafa de água. Cada barreira que ultrapassamos faz-nos enfrentar as próximas barreiras com mais confiança e isso é algo que levamos para a vida. Ao nível dos valores, creio que nos tornámos já mais tolerantes, pacientes e reflexivos.

Oh Quirguistão

Oh Quirguistão! Quirguistão de paisagens soberbas, de montanhas majestosas e natureza sem fim. De lagos, do azul transparente ao verde água. Do verão ao inverno, do sol à chuva feita de trovoada.

Oh Quirguistão: trazes os Açores em ti – sentimos!

Mesmo antes de atravessarmos a fronteira, o alívio já era nosso. A não necessidade de visto e os sorrisos à entrada do país preencheram-nos a alma de alívio, e seguimos. Seguimos por entre o calor e o caminho árido, por entre o pó que íamos respirando e sentido no corpo, até encontrarmos a pequena sombra de uma árvore para nos acolher.

Respirámos. E sorrimos.

Estávamos pois com os pés assentes no primeiro país da Ásia central que vive em democracia. E curiosidade fervilhava em nós!

A primeira boleia foi de um Gigoli, um carro velhote, ainda dos tempos da antiga União Soviética, que nos deixou na primeira cidade no nosso caminho. Na verdade, estávamos sem destino certo; mas depois de termos encontrado quem partilhasse connosco um pouco de internet, percebemos que rumaríamos a Osh, a cidade seguinte. E lá teríamos um couchsurfer e uma família de braços abertos para nos receber.

Não hesitámos.

Os dias anteriores tinham sido feitos de desgaste físico e psicológico. Tinham já sido várias as noites seguidas sem poiso certo, em que só na hora de montar a tenda éramos hospedados por locais.

A experiência é gratificante, mas a realidade é que nessas condições visitamos as cidades com muito menos disponibilidade; e carregados com as mochilas, acabamos por direcionar o tempo para a procura de onde lavar as mãos e os pés, onde conseguir internet ou um lugar para descarregar as coisas.

Portanto, não hesitámos.

E chegámos a Osh com uma única boleia, por mais de 3 horas, com o diretor de um canal televisivo nacional, não sem que pelo caminho nos deixássemos apaixonar pelo horizonte.

Em Osh ficámos 3 noites, com a certeza de que fomos hospedados com a maior da hospitalidade. Para nós, cozinharam diariamente pratos típicos. Connosco, visitaram a cidade e mostraram tudo quanto puderam, tendo até pedido ajuda a voluntárias no trabalho para fazerem de guias turísticas! Descansámos, recuperámos energias e demos uma entrevista para a Rádio, RDP, no Pequeno-Almoço Continental.

E foi ao quarto dia que partimos para Djalal, uma pequena cidade a poucos quilómetros de Osh, no sentido de Bishkek, onde chegámos com apenas uma boleia e onde fomos hospedados por uma couchsurfer: desta vez mulher, a viver no momento sozinha com a sua bebé de 4 meses. Entusiasmados pela abertura da conversa, partilhámos noite dentro factos e histórias sobre as nossas culturas, à vez e quase que em termo comparativo. E só quando satisfeitos e munidos de histórias infinitas, nos deixámos dormir, no conforto da nossa história e do nosso abraço.

Mas foi no dia seguinte, diante dos mais de 700 quilómetros que tínhamos para fazer, que refletimos sobre os ganhos da noite anterior. Aprendemos, sem rodeios, que as tradições existem e sobrevivem ainda por mão daqueles que têm medo de as enfrentar. São várias, e delas fazem parte os casamentos na mocidade, com 1000 convidados no mínimo. O dinheiro investido é estrondoso e não importa se faria falta. As prendas são obrigatórias e variam, podendo ir dos eletrodomésticos a uma vaca; da mesma forma que é obrigatório aos pais do noivo pagarem um certo valor pela noiva. Mas tudo isto, a nossa couchsurfer revogou , sem receios. E nós dois, só depois incrédulos. Porque à primeira vista, que mal tem agir diferente? Pois é, na Ásia central, tem todo o mal do mundo. Mas quando caímos em nós, já o dia ia longe.

Tínhamos por objetivo chegar a Issyk Kul, um famoso lago infinito, rodeado de praias, recantos paradisíacos e montanhas de perder de vista, com neve no topo. Mas foi uma missão falhada e abortada sem ressentimentos.

Apanhámos uma primeira boleia de um senhor já velhote, com um grande orgulho em ter duas esposas e vários filhos de ambas, até uma pequena vila. De lá, conseguimos uma outra boleia, mas de um taxista. A simpatia não era o seu forte, mas era de todo o seu modo de ser. Tinha por princípio criticar e não sorrir, o que não nos intimidou mas não nos deixou felizes!

Seguia para Bishkek, a capital, a 600 quilómetros de onde estávamos. O caminho era longo e demorado, montanha acima, montanha abaixo. E com o GPS íamos vendo que as horas de caminho eram infinitas. Pela estrada, apanhou mais duas jovens através do seu serviço de táxi, mas nem assim deu largas ao seu bom humor.

Pretendíamos sair da estrada que leva a Bishkek no cume de uma montanha, onde seguia depois uma estrada secundária para o tão desejado lago; e foi assim que fizemos. Mas foi também no topo da mesma montanha, que sentimos o que é poder passar do verão para o inverno em poucos minutos. Se no carro entrámos de chinelos e perna ao léu, com 40 graus suados, naquela estação de serviço que nos acolheu só tivemos tempo de tirar da mochila os casacos polares, o cachecol e os ténis (sobreviventes).

Se horas antes brilhava no céu um sol ardente, naquele momento chovia copiosamente.

Na bomba, ofereceram-nos chá e wi-fi. E abrigo. Sim, wi-fi, aberta, no meio do nada: o que já não víamos acontecer desde que deixámos para trás a Europa e que, naquele momento, nos soube tão bem e nos serviu de tanto.

Percebemos então através das pessoas locais que a maioria segue a estrada até Bishkek e só depois apanha a estrada que segue para Issyk Kul. E assim, em menos de nada, contactámos uma couchsurfer de Bishkek na tentativa de perceber se nos poderia hospedar ainda no mesmo dia e fizemo-nos ao caminho.

Batíamos os dentes à velocidade do vento e aquecíamos as mãos conforme conseguíamos. Já tínhamos saudades de sentir frio, mas também não era preciso tanto, nem tão de repente.

Ajudaram-nos então os senhores da própria estação de serviço a conseguir uma boleia: conheciam bem os carros e os seus condutores, e depressa nos ajudaram a saber a quem ir perguntar.

A boleia conseguida foi a melhor que poderíamos alguma vez ter desejado: um jovem e um jipe, ambos com vontade de nos mostrar com calma e entusiasmo cada paisagem – todas elas de cortar a respiração.

E foi quando já de noite nos deixou à porta de casa, que pediu à nossa couchsurfer que nos tratasse com respeito e demonstrasse a hospitalidade do povo Quirguis. E ela assim o fez!

Tínhamos o estômago colado às costas e o corpo moído depois de 10 horas de viagem. Sonhávamos com comer, banho e cama. E mais ou menos assim foi! Quando das carpetes do chão da sala fizemos o nosso ninho, nem queríamos acreditar!

É que melhor que nos termos, e nos termos juntos pelo mundo fora; é tudo isto junto e um refúgio na alma. ❤

Foi só quando o sol nasceu e cresceu no céu que nos fizemos prontos num ápice. Queríamos chegar a Issyk Kul e mergulhar, e nadar e refazer todas as nossas reservas de vitamina D. Mas foi quando estávamos já de saída que percebemos que quem nos ia hospedar lá na noite anterior não poderia fazê-lo nesta. E ficámos sem chão! Deveríamos ir ou ficar? Acampar onde calhasse ou esperar até ao dia seguinte?

Somos feitos de decisões diárias, mas quando nos trocam os planos, trocam-nos tudo.
Aproveitando a disponibilidade da nossa couchsurfer, decidimos então meio à pressão ficar.

Decidimos aproveitar o dia em Bishkek, (re)planear a nossa estadia no Algarve Quirguis e seguir na manhã seguinte.

A verdade é que a nossa couchsurfer foi um poço de histórias na nossa história, e estávamos confortáveis na sua presença e hospitalidade. Tinha 21 anos e era já divorciada: uma força da natureza, avessa a tudo o que respeitava as tradições que haveria de ter cumprido. Casou por imposição familiar, com um homem que pode escolher. Mas foi depois de se mudar para casa dos sogros, como manda a “lei”, que viu os seus dias transformados num verdadeiro pesadelo: lava roupa, cozinha todas as refeições, lava loiça, limpa a casa, serve todos (…), enfim. Não se identificando com a situação e vida que se via obrigada a levar, venceu tudo e todos e deixou o marido. A sogra, convidou-a a sair, dizendo-lhe que ao contrário dela, o filho iria encontrar alguém decerto bem melhor. Hoje, trabalha para uma organização internacional de casas de acolhimento de crianças vítimas de maus tratos ou órfãs, e orgulha-se do seu percurso, muito embora a sociedade a descrimine e a faça querer, dia após dia, fugir do país que a viu crescer.

E seguimos para o centro da capital, onde passámos o dia. Visitámos os locais históricos, típicos e culturais, estatuas, parques, monumentos e, com fascínio, o Osh Bazar – antigo, imenso e tradutor dos costumes das gentes daquela terra. Da roupa, aos detergentes, produtos alimentares e até bricolage, era só caminhar e estava à vista de qualquer um. Feito de cores e aromas, de tom russo e muita confusão, e também malandros: foi lá, que pela primeira vez nesta viagem nos tentaram roubar, abrindo-nos a pequena mochila com que sempre andamos. Verdinhos, em vez de pela frente, vinha pendurada às costas, mesmo que a pedi-las. Vá lá que a reação foi rápida e o alarido instantâneo, não tendo dado para mais nada senão para abrir o fecho.

Também de volta a casa a aventura não foi menor: não sabíamos o número do autocarro ou das mashrutkas que iam na nossa direção, e a única coisa que tínhamos era o nome da mesquita do bairro, de afamada que era! Levámos 2 horas até entrarmos numa pequena van rumo a casa, depois de mil vezes perguntarmos a todos aqueles que por nós passavam se faziam ideia de como poderíamos chegar.

Mas, não finito o dia, tínhamos sido enganados: embora o condutor tenha dito que sim quando lhe perguntámos a direção, pudemos ver pelo GPS do telefone que estávamos cada vez mais longe e mais longe. Acabámos então por nos chegar à frente e perguntar o que se estava a passar, ao que nos respondeu calma e prontamente: “eu não estou a ir para a mesquita, eu vim de lá”. E riu-se.

Se há momentos tristes na vida, são aqueles em que nos sentimos enganados ou atraiçoados, seja em que contexto for. Momentos em que nos perguntamos mas porquê?

Ninguém quer saber de onde um autocarro vem, e sim para onde vai. Como é óbvio. Ainda tentámos pedir o dinheiro de volta, mas a única coisa que conseguimos foi chatear-nos. Mais.

Seguimos a pé. Era difícil agora acreditar em quem quer que fosse. Confiar. Ou sorrir.

Mas estávamos longe e a noite já se fazia escura. Acabámos por apanhar uma outra mashrutka, desta vez certeira. E quando o dia chegou ao fim, sabíamos que nada de grave nos tinha acontecido; ainda assim, jazia em nós um misto de emoções.

Cansados, nem a luz do sol nos acordou na manhã seguintr e deixámo-nos dormir até mais tarde. Eram pouco mais de 250 quilómetros até Cholponata em Issyk Kul, e acreditámos poder fazê-los com calma.

Embora com uma viagem atribulada (nem só de dias cor-de-rosa nos fazemos, e é no abraço da conciliação que nos sabemos mais fortes e sempre unidos), chegámos ao nosso destino ao cair do sol, depois de 3 boleias e algum tempo de espera entre elas. Pelo caminho, feito de pessoas de coração de ouro, conhecemos também três ciclistas franceses, o que nos deixou e deixa sempre entusiasmados – afinal, há mais por aí quem cumpra sonhos!

Já em Cholponata, depois de muito esforço para contactarmos quem nos iria hospedar, amigo de uma amiga couchsurfer, lá chegámos. E chegámos a um hostel! A zona, de tão turística e verdadeiramente comparável a qualquer passeio marítimo algarvio, atraiu-nos pela proximidade com a praia e pela música vinda de cada bar ou restaurante, num clima leve com cheiro a verão. E, por ser dono do hostel, instalou-nos num dos quartos livres.

Embora adoremos conhecer pessoas e adoremos envolver-nos na forma como vivem, este momento a dois foi tudo quanto precisávamos.

Palavras para quê?

Quando o sol nasceu, demos asas aos fatos de banho e passámos o dia na praia: rabiosques de molho e pés na areia! Do chapéu de chuva fizemos um chapéu de sol, e deixámo-nos deslumbrar por aquele lago doce e quente, rodeado de montanhas cobertas de neve.

E até ali, fomos presenteados com hábitos: ao invés da bola de berlim, vendem-se peixinhos assados espetados numa cana. Aos invés de gaivotas para pedalar, vêm-se escorregas infantis que terminam na água e fazem as delícias dos mais pequenos e até graúdos. Ao invés do homogéneo, tão depressa se vê alguém muçulmano coberto dos pés à cabeça como se vê senhoras em topless. Ou, melhor, senhoras cobertas a colocar gentilmente protetor a senhoras sem sutien. Um verdadeiro misto. E bronzeiam-se de pé, com as pernas e braços ligeiramente afastados e mãos voltadas para cima. E assim se vive a praia.

Feitas as nossas delícias, foi ao final do dia que partimos para Karakol. O plano não era obrigatório, e embora dar a volta ao lago implicasse mais de 400 quilómetros, havia a curiosidade de ver todas as outras paisagens.

Vimos o sol pôr-se enquanto pedimos boleia, e valeu a pena. Nos nossos corpos suados, restava o cheiro do protetor e no cabelo ficavam as ondas de banhos repetidos. E sentíamos que tínhamos todo o tempo do mundo em nós.

Até que depois de uma boleia com um senhor verdadeiramente castiço, nos levou uma carrinha com uma família muito animada, indo diretamente para a nossa direção!

Assim chegámos e fomos recebidos de braços abertos, por um couchsurfer e a sua família. Ali, encontrámos uma casa típica, com a sua casa de banho no exterior e a mais de 50 metros no quintal, com apenas um buraco por entre as tábuas de madeira que faziam o chão, e um buraco infinito, sem luz, com um cheiro hediondo. Típico! Tão típico que já nem estranhamos. Da lanterna fazemos a nossa melhor amiga, e pela noite a dentro já sabemos que não há espaço para “vontades”!

Mas foi antes de irmos dormir que tivemos direito a uma experiência única, e muito quente! Chamam-lhe sauna de forma traduzida, “banha” no seu contexto original, russo. Consiste em colocar muita lenha numa espécie de salamandra, com uma espécie de contentor de água por cima, com uma torneira. O espaço, de madeira, aquece exorbitantemente como se realmente de uma sauna se tratasse. E é ali que tomam banho, depois de suados. Misturam a água fervida com água fria, e é com a ajuda de um alguidar que se banham, e que nos banhámos também.

E não fosse a nossa pele quente depois de um dia de sol e praia, e a nossa barriga cheia do jantar, e teríamos usufruído mais e melhor do momento: inesquecível porém!

Na manhã seguinte voltámos a consciencializar-nos de que existe um grande desfaz amento entre o que as pessoas dizem, fazem e aquilo que entendemos. Não adianta dar nada como certo, nem mesmo o que nos explicam: depressa mudam tudo e não há nada que possamos fazer para entender. Restou-nos e resta-nos sempre sorrir e acenar, relativizar e aceitar. Na verdade, esta tudo bem para nós. E assim, ao invés de irmos com o nosso couchsurfer passear, fomos nós, os dois, conhecer a cidade e os seus recantos, durante a manhã.

Já de tarde, voltámos a carregar as mochilas e a fazer-nos ao caminho. Tínhamos por meta chegar de novo a Bishkek, onde seríamos hospedados por uma nova família. E assim o conseguimos, quase em contra relógio, mas com tudo muito bem cronometrado.
Apanhámos primeiro boleia de um jovem, por poucos quilómetros. A partir de Karakol mão existiam cidades, apenas paisagens, aldeias e praias. Turistas, nenhuns. Apenas paraíso. Logo depois, apanhou-nos uma família por mais de 300 quilómetros, quase até Bishkek. Foram várias horas juntos e até um mergulho pelo caminho. E só já perto da cidade, quando nos deixaram, é que apanhámos a terceira boleia do dia, com um senhor da Nigéria. Fluente em inglês, encantador e um verdadeiro cavalheiro. Médico no hospital público da cidade, partilhou o desgosto que tem por sofrer diariamente de racismo no país e confessou que só parou para nos levar por saber que éramos turistas. E só nos deixou quando nos entregou em mãos à nova família, que infelizmente e discretamente também o olhou de lado.

Família tradicional e convencional, embora com todos médicos, muito ligados às tradições a que já nos temos vindo a habituar. A esposa do nosso couchsurfer, ali a viver desde o casamento há mais de 2 anos, agia como verdadeira criada. Ainda assim, embora por vezes mesmo à nossa frente mal tratada, pode partilhar connosco os jantares. E em Bishkek pela segunda vez, aproveitámos para visitar o que nos havia faltado: o lado mais moderno e amado pelos locais: o centro comercial. Não que tivéssemos saudades, mas já fazia tempo que não víamos uma coisa assim!

E assim no dia seguinte partimos rumo ao Cazaquistão, o último país desta Ásia Central. Mas não sem antes refletirmos sobre algumas coisas que por lá vimos, como é o facto de no Quirguistão comerem cavalo como em Portugal se come vaca. Da mesma forma que nos Açores se vê prados fora repletos de vaquinhas, por lá viam-se cavalos, lindos e soltos, de crinas esvoaçantes. Custa, não custa? Pois é, a nós também nos custa que se comam porquinhos, galinhas ou outros animais. Mas parece-nos que ainda vamos ter muito que chorar Ásia fora.

Outra marca que em nós ficou foi a bebida típica: mais forte que vodka, é feita de leite de cavalo fermentado. Quem tem coragem de o beber, diz que é forte, bom e único. Quanto a nós, poderão imaginar.

E posta de parte esta cultura alimentícia, que explicam os entendidos ser fruto da vida nómada que levavam no país em tempos antigos, resta-nos partilhar que também foi com alguma apreensão que descobrimos que em tempos se raptavam as mulheres. Assim, aos homens já não caberia pagar por elas. E perdida a virgindade mais ninguém as queria, aceitando assim as raparigas ficar entregues a quem as havia raptado.

E muitas mais histórias decerto ficaram por aprender, descobrir ou partilhar. Há um infinito mundo por detrás de cada cultura, em cada país que atravessamos. Ainda assim, sabemo-nos sortudos por chegarmos tão perto e saborearmos tanto.

Chegámos então à fronteira que ditou o adeus a mais este cantinho, com apenas uma boleia e chuviscos para a despedida. E há já 5 meses que o fazemos, dia após dia: despedirmo-nos. Continua a custar, mas sabemos que é por um novo amanhã, sempre neste mundo que trazemos na mão.

2016-08-03 12.53.052016-08-03 12.52.232016-08-03 12.53.582016-08-04 00.49.422016-08-04 00.51.312016-08-04 00.57.522016-08-03 01.37.402016-08-04 00.54.532016-08-04 00.55.442016-08-04 00.56.362016-08-04 00.56.572016-08-04 00.53.562016-07-30 14.11.202016-08-04 00.53.07

lado secreto: Turquemenistão

Por entre a vantagem que é saber que temos sempre um novo país à nossa espera, depois de 30 dias no Irão, foi difícil sair do país sem que este deixasse saudade: na verdade, habituámo-nos às pessoas e aos seus costumes, como sempre, mas era hora de seguir.

E deixamo-nos levar: sabemos sempre que há algo de bom do outro lado.

Conseguimos um visto de cinco dias para o Turquemenistão, com obrigatoriedade de cruzar a fronteira em Bajgiran. Um visto caríssimo e difícil de obter, mas tivemos a sorte do nosso lado. Tínhamos por isso de 21 a 25 de junho, datas definidas.

Atravessámos do Irão para o Turquemenistão e, depois de passarmos a fronteira, fomos obrigados a apanhar um autocarro até ao final da fronteira militar. Não fomos sujeitos a nenhum tipo de revista, mas levaram pelo menos 3 horas para nos deixarem passar. E os nossos passaportes passaram pela mão de pelo menos 5 policias .

Depois, saturados mas felizes, andámos 5 dolorosos quilómetros até à primeira paragem de autocarro urbano (que custou a módica quantia de 0,07€ por 15 quilómetros). Muito sol, um calor soberbo. E pelo caminho ainda tentámos apanhar boleia, mas só havia táxis neste percurso.

Então fizemo-nos fortes. E seguimos.

Com muito cansaço e pouca informação concreta sobre o país, quando chegámos a Ashgabat – a capital, a surpresa foi imediata. Tudo minuciosamente desenhado, edifícios enormes e imponentes, estradas maravilhosamente arranjadas. Tudo limpo, detalhadamente arranjado. Canteiros, flores, árvores. Candeeiros indescritíveis, paralelamente organizados. Uma cidade branca. E assim, recém chegados, parecia que tínhamos dado a volta ao mundo e aterrado bem longe, num poço de riqueza.

Estávamos incrédulos.

Os prédios, forrados a mármore. As estátuas, em ouro. Pelas ruas, polícias em cada esquina, paragens de autocarro com ar condicionado e televisão. E pessoas por todo o lado a limpar: vimos de tudo um pouco, desde a retocar os bancos de jardim a pincel, a limpar as fontes ou quaisquer resíduos de partilha elástica dos passeios. E uma vez mais, tudo branquinho, com pormenores em ouro.

Até os autocarros eram lindos.

Mas turistas, nem por sombras.

Encontrámos por entre as ruas desenhadas e os parques majestosos o nosso couchsurfer e deixámos as mochilas no seu carro. Fomos passear pela cidade, deslumbrados e acabámos a dormitar, à vez, num banco de jardim. E mesmo à sombra, sempre a suar.

Já de noite, fomos para casa. Lá, ficámos chocados: os filhos pareciam criados, a trabalhar exaustivamente. Limparam o jardim, lavaram as escadas, prepararam a mesa, trouxeram o jantar, levantaram a loiça e não pararam enquanto não tiveram autorização. E no fim, nem eles nem a mulher puderam jantar connosco, tendo jantado numa divisão à parte.

Com alguma estranheza, pudemos mais tarde vir a perceber que culturalmente nunca a mulher deve fazer as refeições junto do marido quando há convidados. E que nada de anormal aconteceu com as crianças, sendo socialmente expectável que ajudem os pais em tudo.

À noite, dormimos no jardim. Tínhamos combinado que montaríamos a tenda, mas tendo em conta a estrutura de madeira que todos têm nos seus jardins para beber chá, coberta com carpetes, decidimos apenas pendurar a rede mosquiteira.

Embora a família nos tivesse acolhido de uma forma muito querida, foi ao mesmo tempo muito estranho e constrangedor terem uma casa tão grande, com uma sala espaçosa e por ocupar, e terem-nos deixado a dormir na rua; mas o calor era tanto que não houve problema. E decerto aqui nada mais se trata senão de um desfasamento cultural.

Na manhã seguinte, pelas 7h00 tocou o despertador. O cansaço era tanto que nem a luz do dia nos despertou mais cedo. Tínhamos de nos despachar para ir para a cidade, de boleia com a família, pois estávamos distantes do centro.

Embora exaustos, visitámos os bazares da cidade. Pelas ruas, não se via comércio: há locais específicos para isso. E num deles, fomos até obrigados a apagar as fotografias que havíamos tirado.

Absorvidos pela ditadura, vivem o medo dos comentários e também das fotografias. Porque não nos podemos nunca esquecer de que o Turquemenistão é o segundo país do mundo com uma ditadura mais repressiva, depois da Coreia do Norte.

Neste lustre país, o antigo presidente deu-se até ao luxo de erguer a sua própria estátua em vida, e não só. Mudou também o nome das ruas e os meses do ano, para nomes dos seus familiares e de si próprio. Contudo, hoje em dia, depois de ter já falecido, os nomes dos meses estão restabelecidos.

Mais à tarde, ligámos a outro couchsurfer que se mostrou interessado em mostrar-nos a cidade, mesmo não tido oportunidade de nos hospedar! De carro, levou-nos a visitar todos os edifícios famosos e um miradouro; e partilhou ainda algumas das tradições mais comuns no país. Entre dentes, comentou a política, as vestes, atitudes e hábitos, o policiamento e algumas regras.

Já de noite, voltámos a casa para jantar e dormir (no jardim), e embora mais fresco de noite, ficámos bem!

Aliás, quem é que no abraço quente de quem ama, não fica bem?

E na manhã seguinte, partimos. Partimos de Ashgabat para Mary.

Era a primeira vez, oficialmente, que estávamos a boleia no país. E as borboletas no estômago eram mais que muitas. Não éramos fugitivos, nem estávamos a fazer nada de ilegal, mas a verdade é que tivemos de andar a fugir da polícia – apenas e só com receio de que nos fossem pedir dinheiro por andarmos à boleia. A corrupção é elevada e de conhecimento publico, e sabíamo-nos alvos fáceis. Mas o único polícia que nos abordou, quis apenas aconselhar-nos de algo. Só não percebemos o quê, dada a barreira linguística. Mas demos cordas aos pés, e pusemo-nos a andar.

Estivemos mais de 2 horas à boleia, por entre o sol e um calor insuportável, logo pela manhã. Um suplício. O suor marcava as nossas t-shirts, como se já do final do dia se tratasse.

Até que conseguimos boleia. Boleia de um ministro! Levou-nos mesmo até à entrada da cidade onde o nosso couchsurfer vivia, mas não sem antes ter sido mandado parar pela polícia por alegado excesso de velocidade e ter tentado pagar por fora. E assim vive e sobrevive a história do suborno-feliz.

Já perto das 16h00 chegámos e tínhamos um típico almoço à nossa espera. Que embora numa casa antiga, com uma casa de banho apetrechada com um buraco no chão; recheada de pessoas muito carinhosas.

Ao final do dia, já com temperaturas respiráveis, fomos passear. Este nosso novo amigo, com um jeito especial de pensar (que nos fez a nós questionar), levou-nos aos mais belos recantos da antiguidade de Merv, em Mary. E juntos, no topo de uma montanha no deserto, assistimos ao mais divino pôr-do-sol dos últimos tempos!

Com tanto de romântico.

De volta a casa, por segundos, cruzámo-nos com um ciclista carregado de malas: um viajante, portanto! E de tão raro, voltámos a trás. Vindo da Alemanha, procurava um local para a acampar de noite. E foi então que o nosso couchsurfer, de coração grande, o convidou para ficar connosco também. Acabámos então o serão com um jantar delicioso, com iguarias locais vegetarianas: de comer e chorar por mais!

Mas no dia seguinte, era hora de partir. Tomámos o pequeno-almoço juntos, e seguimos rumo a Turkmenabat, perto já da fronteira. A realidade é que 5 dias para conhecer e atravessar um país é uma verdadeira loucura. Ainda assim, temos de estar gratos aos anjos e aos astros. E a todos os que torcem por nós: porque são poucos aqueles que vêm concedida esta oportunidade, este visto.

Depois de mais uma pequena longa caminhada debaixo de sol intenso, conseguimos uma boleia até ao início da autoestrada, com dois senhores locais e muito castiços, com um carro mais que velhote – daqueles que depressa dizemos que não chega nem ao Painho ; e logo outra mesmo até ao destino. Esta última, com um senhor generoso e calmo, que nos quis até oferecer leite de camelo, mas que com respeito aceitou a nossa recusa, por entre o deserto, muito calor, sem ar condicionado no carro e muitos, muitos camelos pelo caminho.

O nosso couchsurfer foi-nos buscar à chegada. E depois de um banho, levou-nos a almoçar fora, a um delicioso buffet. Eram 17h00, e do restaurante seguimos para casa da sogra, que nos havia preparado um lanche. Eram então 18h00. E depois, mal chegámos a casa, pouco depois das 19h00, tínhamos o jantar na mesa. Tudo vegetariano, mas uma loucura de tanta comida! Se por um lado, o verdadeiro acolhimento à portuguesa, por outra, estávamos que já nem podíamos!

Mas para desmoer, ficaram os homens em casa e foram as meninas passear. Por entre-paredes, o serão fez-se por entre conversas, partilhas e vídeo jogos. Pela rua, palmilhou-se o bairro. Conheceram-se as amigas, as amigas das amigas, a modista, a senhora do mini-mercado e quem mais passasse. E já depois do anoitecer, fez-se um passeio pelo mais bonito parque da cidade: uma volta na roda gigante, uma viagem de gaivota pelo lago iluminado. Muitos sorrisos. E muita partilha cultural.

Pelo parque, mulheres nos seus trajes típicos: longos vestidos, de tecidos variados e lindíssimos. Floridos ou com diferentes padrões, praticamente até ao chão. Pudemos aprender que mulheres com lenço na cabeça, são casadas. Também segundo as tradições do país, por baixo do lenço da cabeça, põe uma estrutura de esponja para fazer altura e tornar o casamento vistoso. Gostam pois de dar nas vistas, e se possível, utilizar também grandes brincos e anéis de ouro. E dentes também de ouro: não só um, mas vários ou todos na boca (como por toda a Ásia Central, talvez).

Mas as tradições relativas à virilidade masculina foram as mais espantosas (mas nada inesperados): a homossexualidade é proibida. Quantos aos casais heterossexuais, depois do casamento, devem ir viver para casa dos pais do marido até que o irmão mais novo se case, e assim substitua os serviços da cunhada. Até lá, à mulher, cabe-lhe cuidar da casa, dos sogros, dos vários filhos que deve ter e ainda trabalhar onde o marido achar por bem. E vivem felizes assim, reconhecendo que o trabalho é muito e desgastante; mas que a vida é assim.

E no dia seguinte, na hora da despedida, tínhamos mais um quilos extra nas mochilas, por entre prendas e souvenirs. Nem sempre é fácil explicarmos que tudo o que nos dão, teremos de carregar às costas. Principalmente quando a comunicação é básica e o carinho enorme.

Até à fronteira, levou-nos o couchsurfer que nos hospedou. E já lá, voltámos a ser forçados a apanhar um autocarro, ainda em terra turquemena. Quando chegados ao edifício fronteiriço, onde só queremos receber o carimbo de saída do país no passaporte, fizeram-nos preencher um formulário e quiseram revistar-nos. Não foi uma revista exaustiva, mas aperta sempre o coração. As mochilas grandes bastou-lhes um olhar superficial, depois de perguntaram várias vezes se por baixo era só roupa. Já o nosso saco das ciganadas, o que habitualmente trazemos na mão com comida ou outras tralhas, esse foi despejado. E depois: fotografias. Começámos por mostrar a gopro e fazê-los ver que eram só vídeos e nenhum do país. Mas não satisfeitos, pediram por mais. Embaraçados, entregámos o telefone com a pasta das imagens aberta. Lá, tudo o que tínhamos eram parques e selfies. E com tanta coisa, esqueceram-se de revistar uma das mochilas pequenas, onde estava a verdadeira câmara fotográfica.

Ufff.

Gostaríamos de dizer que não tínhamos lá nada de ilegal, mas tirámos algumas fotos de locais públicos e poderiam fazer-nos apagá-las. Passar fronteiras é sempre um momento de tensão: mas passar fronteiras na Ásia Central é também um verdadeiro jogo de paciência. É de brandar aos céus.

E até à linha final da área delimitada militarmente, tivemos novamente de apanhar um autocarro. Não que sejam dispendiosos, mas o caráter de obrigatoriedade tira qualquer um do serio, até porque as distâncias eram curtas e caminhar estaria ao alcance de qualquer um.

E chegámos então à fronteira do Uzebequistão!

Da nossa estadia no Turquemenistão registámos muitos momentos, muitas aprendizagens. Mas a primeira coisa que nos ocorre dizer, é que é um país louco. E, sejamos sinceros, lindo.

Ainda assim, no que respeita à vida e ao dia-a-dia, guardamos que têm horários parecidos com os nossos e, tal como nós, cozinham com muito tomate e arroz. Descobrimos que uma bebida típica é o sumo obtido quando se cozem maçãs, e a fruta de eleição no verão é o melão. Bebem chá verde várias vezes ao dia, mesmo quando estão quase quarenta graus – o que já nem estranhamos! O pão é muito diferente e as compotas também. Mas o mais invulgar mesmo foi ver o leite de camelo.

Quanto a fumar, é proibido! E por isso vimos fazerem-no às escondidas. Às 22h00 ouvimos e vimos a polícia pelas ruas, exigindo o recolher. Talvez tenha sido esta uma das vivências mais impressionantes e claras da ditadura existente, não esquecendo nunca de que durante o dia e em cada esquina encontrámos sempre policias.

Mas é assim, de estranhezas, curiosidades, questionamentos e graças que se faz uma viagem pelo mundo. E quase de repente, e num piscar de olhos, deixamos todas as novidades às quais já nos habituámos, e recomeçamos do zero.

E levamos o que podemos levar: um ao outro, e o mundo na mão. Por entre sorrisos. E memórias cravadas no coração. Para sempre.

 

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