6 meses: FAQ

São 6:
6 meses de viagem
6 meses de aventura
6 meses de amor

E por estes, e por todos os que virão ainda, pelo mundo, estamos muito felizes!

Partilhamos assim as respostas a todas as questões que nos fizeram chegar, na esperança de que satisfaça a curiosidade de cada um, e faça sorrir, faça viver, faça sonhar!

É muito amor não é? E loucura também?

Tiago – Um pouco dos dois, mas mais gosto por conhecer e aprender.
Joana – Amor decerto! Quanto à loucura… pobres dos sãos!

Qual foi, até à data, a melhor e pior experiência?

Tiago – A melhor experiência foi termos sido hospedados por locais em aldeias remotas. A pior foi andar à boleia com quem não confiávamos, no final correu tudo bem, mas foi uma viagem muito tensa.
Joana – Partilhamos a pior, quanto à melhor, não consigo escolher. Esta viagem é feita de boas experiências! Talvez guarde com carinho a chegada ao Irão: não estava à espera de tamanha hospitalidade. Não há reflexo da realidade do país fora deste, o que é uma pena!

Nunca tiveram medo?

Tiago – Nunca tive medo, mas senti alguma tensão quando um condutor se desviou do caminho: afinal ia só visitar uns amigos.
Joana – Já senti sim, e uma das vezes foi exatamente nessa situação. Queria sair do carro, não queria esperar para ver. Sou mais medrosa! Mas há uma linha muito tênue que separa o medo da tranquilidade; quero com isto dizer que sempre que tive receio de alguma coisa, foi num segundo que me acalmei e vi que estava tudo bem.

Do que mais sentem falta?

Tiago – De azeite, da minha família e amigos. E da minha bicicleta! E embora só tenha descoberto há três dias, também tinha saudades de bolachas Maria.
Mas nesta viagem estamos sempre ocupados e por isso não temos muito tempo para sentir saudades. O nosso dia é conhecer pessoas, caminhar, apanhar boleia, conhecer pessoas outra vez e dormir.
Joana – Da minha família e amigos, embora estejamos sempre em contacto. Também sinto muita falta do meu espaço (coisa que nunca tinha pensado gostar tanto), da minha cozinha e dos meus lápis-de-cor. Tenho saudades de conduzir, e de passear na baixa em Lisboa.

Acham que vão conseguir voltar e ficar?

Tiago – Encaramos esta fase como uma experiência que queríamos ter e por isso sabemos que a vida terá outras fases pelas quais também queremos passar. É como perguntar a um estudante universitário se vai conseguir adaptar-se à vida de trabalhador… O que tem de ser tem muita força.
Joana – Não tenho a menor dúvida!

Dão-se bem a tempo inteiro?

Tiago – Temos algumas desavenças, claro. Não somos perfeitos e é assim que nos tornamos mais fortes. Mas especialmente quando nos faltam boleias ou passa do meio dia e ainda não temos poiso certo, há maior tensão. Mas sei que quando por qualquer momento não estamos juntos, nos sentimos vazios.
Joana – Importa que no fim fique tudo bem, que não nos deixemos adormecer de costas voltadas. Acredito que, mais que tudo, somos pessoas. Como tal, temos os nossos momentos: e melhores ou piores, e especialmente neste tipo de viagem nem sempre é fácil gerir sentimentos. Só nos temos a nós e sabemos bem disso. Sabemos que somos a nossa companhia a cem por cento, mesmo quando estamos insuportáveis.

Quanto dinheiro já gastaram? Têm conseguido manter a vossa proposta de orçamento?

Tiago – Gastámos à volta de 1300€ em 6 meses. Significa que estamos completamente dentro do nosso orçamento inicial de 10€ diários para os dois.
Joana – Só em vistos fizemos um investimento de 700€, quase tanto quanto o que gastámos até agora em bens (alimentares ou de cosmética). É uma pena não termos passaportes diplomáticos!!

Têm conseguido manter o vosso estilo de vida alimentar, o veganismo?

Joana – Esse começou por ser um grande desafio e aprendemos, com o tempo, a levar os dias sem culpa. Depois da Turquia, a comunicação começou a ser uma barreira cada vez mais acentuada. Pensávamos que conseguíamos explicar sempre que éramos vegetarianos, mas por muitas vezes as pessoas recebiam-nos em suas casas com grandes banquetes, recheados de carne, laticínios e ovos. Até mesmo do pão não lhe sabíamos a origem. Foi uma gestão pessoal muito complicada, porque saímos de Portugal veganos e sem consumir produtos processados. Açúcar estava fora da lista, por exemplo. Hoje sem comprometimentos sabemos que nos limitámos a adaptar a este momento da nossa vida, do qual não nos orgulhamos a nível alimentar. Não compramos produtos de origem animal e ovos sabemo-los caseiros. Não podemos dizer que vivemos felizes no que respeita a esta opção, mas sabemos ser a mais sensata face à viagem que estamos a fazer. Carne, peixe e leite continua absolutamente fora do nosso cardápio. E sabemos que aquando o nosso regresso continuaremos a ser o que já um dia fomos: amigos e respeitadores da vida. Pelo mundo, a nossa atitude não é diferente; mas impõe-se respeitar os que nos estão a receber e que, por muitas vezes, nos partilham aquilo que têm no prato. Em casa as coisas são diferentes, aqui estamos completamente fora da nossa zona de conforto.
Tiago – É possível dar a volta ao mundo como veganos, mas com o nosso molde de viagem é que é mais difícil. Quando estamos numa aldeia remota e as pessoas nos acolhem nas suas casas e nos dão aquilo que têm, não podemos recusar tudo. Quanto mais quando existem barreiras linguísticas e culturais que dificultam qualquer explicação. Em relação à carne e ao peixe não somos flexíveis, cada vez nos custa mais entender que continuemos (sociedade) a comer carne sem pensar no que estamos a fazer. Já quanto aos ovos temos sido bastantes flexíveis, leite não bebemos, mas de vez em quando não existem outras opções além de derivados do leite e esporadicamente consumimo-los. Por favor, revoltem-se com esta flexibilidade e espetem-nos as vossas farpas de todos os lados.

Têm algum cuidado especial?

Joana – Na viagem em geral, tentamos ter algum cuidado com aquilo que comemos e a forma como o fazemos. Normalmente, se é algo cru, não temos água potável para lavar e não dá para descascar, não comemos. Outro tipo de cuidado especial, só no que respeita a atitudes. Eu sei que sou mais impulsiva e explosiva que o Tiago, o que por vezes lhe dá trabalho! Tenho dificuldade em conter-me perante uma injustiça, por exemplo; mas tenho-me tornado cada vez mais cuidadosa, muito embora nem sempre saiba reagir da melhor forma, o que é importante perante um mundo desconhecido.
Tiago – Uma regra importante: faz como vires fazer, até ao teu limite. Por exemplo, eu não consigo atirar lixo para o chão, mas consigo sentar-me no chão e comer com as mãos, todos do mesmo prato. Outra regra de ouro é fugir dos problemas: se alguém nos quer arranjar problemas, primamos por sair dessa situação sem repostar ou sequer tentar dar uma chapinha de luva branca, como tanto gostamos noutros contextos. Acreditamos que esta atitude a longo prazo nos é retribuída em forma de energia positiva, o que não só nos influência a nós próprios, como a todos os que cruzam o nosso caminho. “Be ALWAYS polite”, se bem que para um de nós isso é um desafio muito grande.

Conseguem descrever um momento caricato ou embaraçoso?

Tiago – Numa boleia no Quirguistão, o senhor levou alguma tempo a dizer-me em russo que ia ao hospital visitar um familiar com cancro e eu sem perceber muito bem, seguia dizendo: “sim, muito bom”. Quando percebi, já era tarde; mas no final da viagem disse-lhe que esperava que tudo corresse pelo melhor.

O que trazem nas mochilas?

Tiago – Uma tenda, um marcador (para escrever num pedaço de cartão para onde vamos), meia dúzia de trapos para vestir e para durante a noite nos aquecer, uns electrónicos para manter o contacto e tirar fotografias e muitos sorrisos. Também temos uma mochila mais pequena com comida e água. E a bandeira de Portugal!
Joana – Além da roupa e calçado (que inicialmente era de verão e inverno, mas que agora se resumiu à primeira), uma rede mosquiteira de casal, repelentes, cosméticos (shampo e sabonete sólidos, cremes, desodorizante e coisas de menina!), bijuterias, e alguns medicamentos de rotina e outros de emergência. Tenho também música e um caderno.

Há recomendações específicas para andar à boleia?

Joana – Paciência, é o mais importante. Mas eu diria que não há nada específico, a não ser o bom senso. Primeiro, há que confiar na pessoa que parou, pelo menos à primeira vista. É preferível não chegar ao destino, e estar bem, que o contrário. Depois, há que partilhar a nossa história com quem nos está a ajudar, que é a única coisa que podemos dar em troca (a não ser que a barreira linguística não o permita, mas é por isso também que o Tiago se empenha tanto na aprendizagem da língua de cada país por onde passamos). E por fim, deixar bem claro sempre que estamos à boleia, que não pretendemos que a pessoa altere a sua rota e nos leve apenas para onde já está a ir, sem que paguemos por isso. Cabe-nos também no carro respeitar as pessoas e, por exemplo, não começar a mexer nas mochilas ou a falar Português entre nós – por vezes quem nos leva também tem algum receio. Ainda assim, no que toca a viajar por países por culturas distintas é que encontro uma recomendação/regra fundamental: não julgar. Às vezes é difícil, às vezes não percebemos nada, mas é mesmo assim.
Tiago – “Quem está à boleia, sujeita-se”. Ter sempre isto em mente, e depois tentar criar confiança com o condutor: partilhar o mais que consigamos e o mais que ele queira saber.

À data, qual o maior impacto da viagem na vossa vida? E em vocês próprios?

Joana – Acredito que só teremos resposta para estas perguntas aquando o nosso regresso, contudo acredito também que a cada dia que passa nos conhecemos melhor.
Tiago – Com esta viagem aprendemos a dar valor a uma simples cama ou garrafa de água. Cada barreira que ultrapassamos faz-nos enfrentar as próximas barreiras com mais confiança e isso é algo que levamos para a vida. Ao nível dos valores, creio que nos tornámos já mais tolerantes, pacientes e reflexivos.

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meio caminho em Mar Negro

Conhecemo-nos no limite. É por isso que às vezes é difícil viajar, viajar durante tanto tempo, viajar sempre com a mesma pessoa e, mais, viajar à boleia.

Descrevemos detalhadamente na apresentação desta nossa aventura (aqui no blogue) o porquê de termos escolhido deslocarmo-nos a dedo. Mas a verdade é que os momentos de espera tanto podem ser de reflexão e paz interior, calma e preserverança; ou brincadeira; como de tensão e desamor.

Não é fácil quando passamos um dia inteiro à boleia e ninguém nos leva. Ou quando chove e não resta nada mais seco em nós. Ou quando não conseguimos chegar ao nosso destino. Não é fácil. E quando o sol se põe e continuamos na estrada, sem rumo, não é fácil.

E é nos momentos em que não é fácil que nos conhecemos: que nos amamos. Que cuidamos.

Estar de mão dada na alegria – qualquer um.

Imaginem-nos insuportáveis. Com muito frio ou com muito calor. Com fome ou com sede. Rabugentos. Azedos. Irritadiços. Impertinentes.

Imaginem-nos embirrentos, cansados. No limite. E é aí mesmo que nos conhecemos.

Respeitar o espaço, saber ajudar, saber estar. Ouvir. Apregoar a paz, mesmo quando em nós próprios troveja.

Mas mesmo em casa, no conforto do lar, temos as nossas nuvens. Quem não as tem? Ninguém vive no sol. Há sempre por aí uma sombrinha. Faz parte e faz sentido. É assim que deve ser e o mais importante é saber fazer o vento soprar. E em viagem não é diferente.
Mas toda a esta conversa até aqui tem um foco muito interessante: as pessoas.

Até aqui, mesmo quando encoberto, não há dia que não se torne solarengo. Quente! Afável!

Parece contraditório, mas tão depressa em viagem pode não ser fácil; como é em viagem que tudo se torna simples. Porque é em viagem que nos pomos em contacto. Em contacto com as pessoas, com a mais bela gente do mundo. São aquelas que se cruzam em nós: as pessoas. As que nos abrem as portas de suas casas. As que nos levam. As que nos acenam. As que nos sorriem. As que nos abraçam.

E chegamos à Turquia. Sim, não é de hoje. Mas o hoje é sempre mais um dia aqui.

Quando chegámos a Samsun não fazíamos ideia do que estava para vir. Sabíamos que em Bolu, a cidade anterior – e posterior a Istambul – havíamos sido tratados com a maior das cortesias. No supermercado, que nem nos lembrássemos de querer pagar a conta; o nosso couchsurfer até levava a mal. Em casa, deu-nos o seu quarto e mudou-se para a sala. Lençóis lavados, toalhas limpas. O seu carro era o nosso carro. Os seus amigos, nossos amigos.

Mas em Samsun, sucedeu-se o mesmo. E aí, aí deixa de ser coincidência ou arte de bem receber.

Chama-se cultura.

De Bolu até Samsun, tal como partilhámos na crónica anterior, a viagem foi muito especial! Começámos por apanhar boleia de um carro para sair da cidade e, mais tarde, para muitas horas de viagem, levou-nos um camionista, no seu grande camião. Carregadíssimo, não permitia grandes velocidades. Mas estávamos em muito boa companhia. A comunicação era rudimentar, mas chegou na hora em que nos quis levar a almoçar fora. Almoçar fora significou oferecer-nos o almoço num belo e típico restaurante de borda de estrada. Pode parecer rude, mas foi do mais gentil que possam imaginar. E não, não foi tarefa difícil arranjar um prato vegetariano! Saboroso. Quis dar-nos o que no seu mundo de melhor tinha! E já depois da noite cair, entretivemo-nos a abrir e comer um grande saco de avelãs: ou tentar! E como muitas sobraram, ainda as ofereceu.

Um coração de ouro!

Já em Samsun, telefonou ao nosso novo couchsurfer e não nos deixou seguir (nem seguiu) sem que ele chegasse.

Sentirmo-nos amados e protegidos como aqui, só mesmo em casa.

Palmilhámos Samsun para a conhecer e encontrámos várias maravilhas. A melhor, a sua “rua Augusta”, em modo turco. Graciosa!

E ante-ontem, quando partimos para Bulancak, não havia preocupações que nos pertencessem.

Viajar na Turquia é uma verdadeira delícia.

Próprio de uma lua de mel. Aliás, é talvez aqui o primeiro lugar onde todos (sem exceção) nos perguntam se somos casados.

Enleações – só no final da viagem.

Mas sabe-nos muito bem dizer que sim: apaixonados!

De Samsun a Bulancak, levámos várias horas. Não que a distância fosse longa, mas voltámos a apanhar boleia de um camião. Aliás, começando pelo princípio: apanhámos para sair da cidade boleia de um carro. Quando começámos a contar a nossa história, acabou por nos explicar entre gestos e fotos que tinha um camião. Pouco depois levou-nos até um armazém e lá mesmo apontou para um pequeno camião. Vermelho. Mercedes. E disse: “Giresun!”. Percebemos que nos tinha então levado ali porque sabia que dali iria partir um camião na nossa direção. E assim foi.

O camionista, típico turco, tinha um tom de voz rouco e alto. Alto no timbre, fazia doer os ouvidos a cada expressão: mas muito entusiasmado. Sorridente, o único problema era mesmo a quantidade de cigarros que fumava a cada cinco minutos! Mas é assim, “quem anda à boleia, sujeita-se” – já dizia o pai José.

Mais uma vez, parou pelo caminho para nos oferecer chá num café de borda de estrada; e não nos deixou sem que o nosso couchsurfer nos fosse buscar (…a história repete-se!)!

A nossa estadia com este couchsurfer foi muito facilitada: professor de inglês, vivia com a mãe e, mais uma vez, fez-nos sentir em casa.

Aprendemos na sua casa que ajudar teria que ficar fora de questão: em Portugal, mesmo quando somos convidados, cabe-nos ajudar, nem que seja a levantar o nosso prato da mesa. Cabe-nos ser prestáveis. Mas aqui, cabe-nos o contrário: ficar sentados, à espera que nos sirvam. E sabe tão estranho! Pior, é que é uma ofensa querer ou tentar ajudar.

Experimentámos levar o nosso prato até à cozinha, e a primeira coisa que ouvimos foi um pedido: para não voltarmos a fazê-lo, pois significaria que a sua mãe não estava a saber receber-nos ou a dar conta do recado.

Aprendemos também que os convidados estão acima deles próprios. Aliás, têm mesmo um provérbio que o diz.

Entretanto, ainda em Istambul tínhamos conhecido uma amiga dos nossos amigos, cuja família vive perto de Giresun. Giresun é uma cidade a 20 quilómetros de Bulancak. Convidaram-nos a visitá-los, com um único senão: turco era a língua possível. Ninguém na aldeia, ou vila, no meio das montanhas e de muito verde, falava uma só palavra de inglês. Mas foi-nos impossível recusar. E ainda bem!

(Até porque entre nós há quem já tenha como sétima língua o turco)

Não sabemos como se explica o amor, como se explica a bondade. Não há explicação senão sentida, porque o que mais queremos é expressar-nos e faltam-nos as palavras.

Passeios pelas vinhas, pelas hortas. Montes e vales. Montanhas. Aldeias. Casas antigas!

Levaram-nos a conhecer cada canto das suas infâncias, por gestos e poucas palavras, cada recanto das suas vidas. Nos olhos carregavam a felicidade de nos receber. E em cada gesto também. Fluíam os abraços, os sorrisos. A gratidão. Prepararam receitas deliciosas. A casa, feita de madeira, encheu-se. Encheu-se de todos aqueles que nos quiseram receber e saudar.

E acendemos a salamandra, partimos avelãs. Torrámo-las. Apanhámos morangos. Lavámos cerejas. Pecados uns atrás dos outros – feitos de gula.

Com o cair da noite, nas nossas almas jazia que também numa casa de madeira nos conhecemos e apaixonámos, pela primeira vez.

Quando o sol ontem nasceu, era dia de voltarmos atrás, a Bulancak. Lá tínhamos deixado as nossas grandes mochilas e também um compromisso: o de irmos ao liceu, no horário da aula de inglês, conversar com os alunos e mostrar-lhes a importância da segunda língua. E por entre risinhos e muita vergonha, correu tudo muito bem!

De missão cumprida, e coração apertado apertadinho, seguimos caminho. Os nossos corações têm sido valentes; mas desgraçados, em cada despedida vêm-se aflitos.
Vales-lhe que se têm um ao outro.

E de Bulancak seguimos até Trabzon, que é de onde escrevemos hoje. Até aqui, apanhámos três boleias. Dois carros e um autocarro (dos pequeninos). Andar à boleia na Turquia é tão descomplicado e tão espontâneo, que é também um verdadeiro prazer: o primeiro carro nem nos deu tempo para pousar nada. Foi só esticar a placa. Curiosamente, era amigo do couchsurfer que nos hospedou em Samsun – pequenino este mundo! A segunda boleia foi então de um autocarro tipo shuttle bus: que até nos custou a crer que queria levar-nos sem pagarmos, mas que assim aconteceu! E a última boleia, não menos importante, foi já na cidade, mas fruto da preguiça de a atravessar por completo para chegar perto da casa do nosso novo couchsurfer.

Este, também médico, cirurgião plástico, acolheu-nos como por aqui tão bem o sabem fazer, e partilhámos o que de melhor em Portugal também nós sabemos fazer: longas e boas conversas, em torno de uma mesa recheada!

Hoje palmilhámos Trabzon e podem as nossas sapatilhas contar como foi: 15 quilómetros sempre a andar, por entre ruas estreitas e escadarias, prédios demolidos e crianças a brincar. Considerámos esta uma cidade suja e desarrumada, mas importa sempre conhecer.

Até porque a costa do Mar Negro tem sido uma verdadeira surpresa. Trazemos em nós admiração e encanto. Trazemo-nos pelo mundo fora com afeição – e sempre com respeito.

Entre nós e com o outro.

Porque o sentimento de bem-querer também se constrói. E só assim prevalece no mundo. Naquele que trazemos na mão e levamos na alma.

São já 5962 quilómetros, com 85 boleias.

São já muitas noites em muitos sofás, muitas camas. Muitas luzes. Muitos lençóis, cobertores e edredons. E dois saco-camas, que se unem num só.

São muitas partilhas. Muitas vivências. Muitas gentes. Muito crescer.

Amanhã caminharemos um pouco mais. Seremos um pouco mais também!

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e depois de Istambul

“Gosta de futebol? Fenerbahçe? Besiktas? Galatarasaray? Portugal, Benfica! Cristiano Ronaldo. Figo. Nani. Çok güzel!”

E assim se começam as mais longas (ou curtas) viagens, as mais longas (ou curtas) conversas. Assim se trocam os primeiros sorrisos. As primeiras gargalhadas!

A espera pelo visto do Uzbequistão em Istambul levou-nos a por lá ficar durante 15 dias; 15 dias que voaram numa cidade assim.

Abraçámos a Turquia e a cultura que por ali aprendemos e começámos a conhecer.

Faz como vires fazer – tornou-se o nosso maior lema. Nem sempre é fácil ou intuitivo, mas corre sempre bem.

Vive-se de leve o receio do terrorismo; esconde-se entre quatro paredes, frases meio faladas e olhares escondidos. Partilha-se que ali é mais perigoso, acolá mais calmo. Mas que nunca se sabe. Evita-se passar por aqui, passear por ali. Aos fins-de-semana deixa-se a cidade e durante a semana finge-se que não se sente. O receio.

Mas ele existe.

Mas a vida continua, lá em Istambul. Não há remédio, nem solução. Há vida para ser vivida.

Foi já na última sexta-feira que optámos por visitar os lugares mais turísticos; as mais belas mesquitas e os mais belos recantos (as fotografias encontram-se no post anterior).

Quando a deixámos para trás, seguimos rumo ao Mar Negro, sem paragem em Ankara. Não foi uma decisão fácil, ponderámos dia após dia. Os maiores conflitos acontecem no Sudeste da Turquia, mas a capital não é agora altura de a visitar: nunca se sabe.

Seguimos então para Bolu, meio caminho para a costa de forma a não fazermos tantos quilómetros num só dia.

O plano seria pernoitar e seguir viagem. Não que estejamos “atrasados”, mas há sede de andar! E chegar a Bolu foi fácil. Não, fácil não é de todo a palavra certa; foi…

Saímos de casa completamente fora de horas. Preparar lanche. Almoço. Trocar roupa; de inverno no fundo, verão por cima. Fechar mochilas. Água. Saco das tralhas. (…) O turno da manhã já lá ia, e quem nos conhece bem consegue imaginar como foi! Um corre corre para despachar e um soninho descansado para acalmar. Os opostos atraem-se, não é?

Caminhámos de casa até onde sabíamos que nos iríamos por à boleia. Lá, esticámos os dedos e a nossa placa. E do alto de uma via que passava mais à frente, pudemos avistar um taxista a acenar.

Os táxis levam os seus dias a buzinar-nos. A ideia é transmitir-nos que estão livres e que nos podem levar. Mas longe de nós apanhar um. Tentámos por gestos recusar. Mostrámos a placa. Gritámos “autostop”. Mas nada. Continuava ali, a acenar-nos.

Agarrámos nas mochilas e subimos. Não tínhamos alternativa, com tamanha insistência.

Era realmente um táxi e um taxista; mas não queria dinheiro. Queria ajudar-nos! Queria levar-nos! Dar-nos boleia. E deu! E a primeira boleia do dia foi então de um taxista, que recheado de bondade e simpatia nos levou até à autoestrada. Tendo em conta que de diâmetro Istambul tem (imaginemos) 200 quilómetros, estávamos ainda no centro, mas estávamos totalmente encaminhados.

Não que tivéssemos tido tempo para conversar, mas sabíamo-nos felizes. O silêncio entre nós é cúmplice e denuncia-se. Tal como nós dois.

A primeira coisa que avistámos, foi um carro da polícia. E a primeira coisa que o senhor agente fez quando nos viu, foi saudar-nos! Sim. Saber de onde éramos, para onde íamos. Sorrir-nos e oferecer-se para nos levar a passear. Acenar-nos e desejar-nos boa sorte e boa viagem! Sim, em pela autoestrada. Turkish style!

Ali a pedir boleia não estávamos nada seguros. Também ao Turkish style pertence o caus no trânsito. Qualquer berma serve de faixa. Todo o carro lento leva uma buzinadela. Ultrapassagem que é ultrapassagem tanto se faz pela esquerda como pela direita. E acelerar mesmo quando está tudo parado é o melhor truque para se arranjar um espacinho a mais lá à frente. Portanto, volta e meia, e tínhamos que nos encolher porque (na berma) lá vinha alguém disparado.

Ainda assim, foi graças a este belo estilo que um camião atravessou duas faixas para parar e nos levar. Se achávamos que era possível? Não! Se aconteceu? Sim!

E ainda bem, porque nos levou por várias horas e praticamente até à porta de casa. Pelo caminho, ainda parou para nos oferecer um chá, o que por aqui é mais comum que o café em Portugal.

Já em Bolu sabemos bem o que parecíamos: cheios de tralha e sacos e saquinhos e mochilas e mochilinhas! Mas estávamos muito muito perto da morada que tínhamos. Ainda assim, não foi fácil encontrar o nosso couchsurfer, mas na rua um senhor ajudou-nos de bom grado. E embora seja muito difícil (e raro) encontrar alguém que fale ou perceba inglês, aqui o mestre das línguas já se inteirou do turco também, e por isso conseguimos desenrascar-nos sem grande esforço. Mas, claro, a grande questão prende-se com a hospitalidade das pessoas!

E a noite que íamos passar em Bolu, transformou-se. Acabámos por ficar 3 noites e mais ainda se estenderia se assim o quiséssemos.

Médico, o nosso couchsurfer trabalhava durante o dia; mas garantiu que uma amiga (que falava inglês!) nos guiaria e levaria a conhecer a cidade e redondezas. Com algum constrangimento no início, sabemos que desta estadia resultou uma grande amizade. Há pessoas que têm o coração no lugar certo é sempre com espaço para mais agúem. Há pessoas que dão o que têm e não têm e ainda arranjam mais para dar. Assim foi.

Passeámos. Cozinhámos. Vimos futebol. Respirámos natureza. Cantámos. Aprendemos. Partilhámos. Que difícil é descrever! E que bom foi viver.

Aproveitámos ainda a ajuda imensa hospitalar e fizemos análises; que isto de ser vegetariano é muito mais que uma seita (como a mãezinha Alexandra gosta de chamar!). É cuidar e saber cuidar!

E no fim ainda fomos a casa de amigos, com amigos e família, para um serão verdadeiramente turco. Para nós, é mesmo isto que nos preenche. Fazer parte. Penetrar esta gente. Viver na cultura, pertencer-lhes e fazer como fazem. Descalçar os sapatos a porta. Ir à casa de banho numa latrina. Beber muito chá turco. Numa tulipa. Comer salgados, doces típicos. Batatas cozidas. Café turco, com um copo de água. Bolas de amendoins. Pevides. E no fim, receber um lenço para cobrir o cabelo; porque querem que nos relembremos deles no futuro e durante a nossa jornada. É ou não é isto o mais lindo lado da vida? Deixarmo-nos viver no outro. Nos sonhos do outro!

Mas de avião e em hotéis nada disto seria possível. Podíamos conhecer muito, mas não podíamos viver tanto! E em tom de brincadeira, os nossos amigos agradeceram por não sermos ricos e termos optado por conhecê-los. Mas a verdade é que nunca nenhuma quantia pagaria o que vivemos. E às vezes o mais estranho está no facto de as pessoas nos agradecerem por as termos vindo visitar. Como se não fosse o contrário: nós gratos por nos abrirem as portas de suas casas e as janelas das suas vidas!

E assim nos despedimos de Bolu hoje. Com um pequeno pormenor: aqui é ainda inverno. 16 graus voltam a ser a máxima. Chuva. Granizo. Muita chuva. Trovoada. E fresquinho! Valeu a pena despejar as mochilas e reorganizar para o calor. 🙂 Ai mundo mundo.

E hoje já com as estrelas no céu chegámos a Samsun: e se nos puséssemos agora a contar como foi, nem amanhã terminaríamos. Mais tarde o faremos. Mas uma coisa é certa, estamos hoje mais ricos que ontem. Muito mais.

E mais felizes (somos) também!

2016-05-05 23.47.272016-05-05 23.46.412016-05-05 23.45.462016-05-05 23.45.232016-05-05 23.43.472016-05-05 23.43.222016-05-05 23.42.522016-05-05 23.42.312016-05-05 23.42.072016-05-05 23.41.452016-05-05 23.38.012016-05-05 23.40.252016-05-05 23.39.212016-05-05 23.38.58

 

a magia de ISTAMBUL

Há tanto sobre Istambul para contar, que o mínimo é mesmo a forma como aqui chegámos. Mas como as histórias se começam pelo princípio, não podemos fazê-lo diferente.

(Mas apetece-nos muito)

Fez no sábado uma semana que chegámos: partimos de Alexandroupoli, na Grécia, já tarde. Tarde, não. De tarde. Não era suposto, mas descobrimos pela manhã que não poderíamos tirar o visto da Turquia na fronteira – hoje em dia é online e chama-se e-visa. Lá está, o mundo gira, não pára, e nós andamos com ele. Acabámos por nos defrontar com alguns problemas logísticos, como o pagamento do mesmo atraves da Internet, sem MBnet feito… pensamos que conseguirão imaginar.

Bom, quando nos fizemos à estrada, era já hora de estarmos a chegar a Istambul – no nosso pensamento!

Ainda no centro da cidade, e mesmo em jeito de brincadeira, iamos andando de costas e de dedo esticado. Entre nós, trocavamos sorrisos e malandrices, gritávamos aos ventos que sabíamos que se na Grécia nos viamos gregos para andar à boleia; na cidade nem valia a pena tentar. Mas brincar também faz parte! Testar também faz parte.

E supresa das supresas: encostou uma senhora que nos levou até à entrada da autoestrada.

Não adianta dizer que era simpática, que foi um anjo ou que tudo o que nos partilhou nos foi gratificante. Não adianta porque naquele momento estávamos vidrados: vidrados no que tinha acabado de acontecer. E quando nos deixou, rimo-nos. De nos próprios. Um do outro! Rimo-nos por entre sorrisos e gargalhadas soltas.

Afinal, moral da história. Podemos achar que nos vemos gregos na Grécia e na Itália; mas também pode ser um verdadeiro mar de rosas. Aqui, ali, ou em qualquer parte do mundo: depende apenas (e só) daqueles que se cruzam no nosso caminho.

À entrada da autoesta acabámos por esperar algum tempo. Mais de uma hora decerto.

Não havia muito trânsito; e os carros que por nós passavam, nem para nós olhavam. Mas a nossa aura era verdadeiramente positiva, estávamos confiantes. Limitámo-nos a esperar. Como sempre. E como sempre também, acabou por parar um carro.

Trazia o sonho de viajar pela Europa a pedalar. Ciclista de coração, pesavam-lhe agora os seus mais de 50 anos e a frustração associada à idade. Lembrámo-lo que a idade só traz experiência; não nos impede de nada.

E como muıtas vezes por aí lemos (e sentimos – como sendo prova disso): quem quer realizar um sonho, arranja uma maneira de o fazer. Quem não quer, arranja várias desculpas.

Deixou-nos em plena autoestrada, antes mesmo de sair desta com rumo ao seu destino.

Lá, ficámos de pé atrás. A Grécia pertence à União Europeia, é suposto que as regras não sejam assim tão divergentes daquelas a que estamos habituados. E por isso, estar à boleia em plena autoestrada não parecia grande ideia. Mas não demorou muito até que passassem por nós dois carros de polícia. E nada.

Estávamos portanto a nosso belo prazer.

Ali ficámos por várias horas e por ali assistimos a tudo. Na autoestrada, vimos carros parar, carros em marcha-atrás e até pessoas a encostar, sair e pedir informações (a nós dois, com certeza).

Uma panóplia infindável de contraordenações. Pérolas – ainda na Grécia.

Ali mesmo conseguimos a terceira boleia do dia. E última! Um jovem da Geórgia parou. Apressamo-nos a entrar e foram precisos apenas 2 minutos para nos sentirmos confortáveis. E descansados.

Falava com alguma dificuldade, mas não por falta de competências linguísticas: tinha uma cicatriz indicativa de fenda do palato, já sarada, mas que influenciava a dicção. Mas nem por isso nos entendemos menos bem.

Caminhámos juntos até ao centro de Istambul. Mas até lá, foram 250 quilómetros de muitas aventuras.

A maior, na fronteira. Ultrapassámos juntos cinco postos de controle, todos eles exigentes e minuciosos. E revistaram tudo, até mesmo as nossas mochilas. É por isso que atravessar uma fronteira não tem como não ser um momento tenso. Mais, quando a comunicação se faz rudimentar e onde o inglês deixa de ser um porto de abrigo. No fim, respiramos sempre de alívio – mesmo quando não há por que temer.

Foi com pena que nos deixou na via rápida que atravessa Istambul e segue com destino a Geórgia. Sim, naquele dia (ou naquela noite), tinha ainda mais de 1500 quilómetros para fazer. Parece surreal, mas é assim mesmo. E por isso, nós dois, éramos companhia e conversa e partilha para cada hora da longa viagem que estava ainda por vir.

Mas a nossa caminhada é assim; e a pior parte dela é mesmo termos de dizer adeus. Controverso: são as pessoas que fazem valer a pena e são as pessoas quem deixamos para trás.

Mas menos controverso é o facto de rechearmos assim os nossos corações: só se sente saudade e aperto quando se gosta. Gostamo-nos muito e trazemo-nos sempre por perto; mas temos também gostado muito de todos os que se têm cruzado em nós!

Esta jornada não é só a do mundo na mão. É também a do amor no mundo e entre as nossas mãos.

E aqui em Istambul não tem sido diferente.

Se tivermos de descrever até aqui a nossa estadia, há uma palavra que lhe assenta: luxo. Temos sido afortunados.

Estamos há mais de 10 dias a viver com uma família turca, nascida e criada em
Istambul; numa casa linda e recheados de amor. Nao há forma mais bonita e completa de conhecer uma cultura e de viver uma cidade. Um verdadeiro luxo.

E não é cliché quando dizemos que nos têm dado tudo. Porque têm mesmo! E ainda mais um bocadinho. Desde passeios, jantares, encontros de família, almoços, viagens, partilhas… “Auuff” – como por aqui se diz.

Quando pensamos que falta já pouco para termos o nosso visto para o Uzebequistao (sim, é à ele que devemos esta longa estadia), ficamos até divididos: queremos muito partir, mas estava a ser tão bom ficar.. 😊

A magia que aqui presenciamos não percebemos ainda a que se deve. Talvez aos nossos arkadaslar (amigos). Talvez à cidade em si. Talvez à mistura, à diferença. À magia! Há tantas característica que valem a pena ser partilhadas, que é difícil sintetizar. Melhor, vivendo.

Os sapatos não entram em casa. Ficam à porta. Há chinelos para todos, ninguém tem de se preocupar! E por isso, andar descalço é decerto como pisar nuvens no céu.

Despedem-se com um abraço e muitos sorrisos. E güle güle!

Andar pelas ruas mais movimentadas é uma aventura. Não param quando alguém está parado para atravessar a passadeira. A única solução é tentar a sorte e pisar a estrada. E hão-de parar – esperamos nós e esperam todos! E Istambul é uma cidade tão grande que equivale a 50 Lisboas. Sim. 50.

É tanta gente, tanto trânsito, que da periferia ao centro, um percurso de 15 minutos leva 2 horas. Sempre!

Istambul, cidade, permite-nos ir da Europa à Ásia. Literalmente. Divide-se por uma ponte. E as diferenças sentem-se!

Entretanto, vive-se e sente-se o medo dos atentados, mesmo que ninguém fale abertamente sobre o assunto (ainda assim os mais próximos confirmam-no por entre os conselhos mais sábios).

Embora a maioria da população seja muçulmana, percebe-se que a prática do Islamismo é bastante peculiar. A religião adaptou-se aos tempos modernos e as demais religiões são respeitadas.

Cinco vezes por dia é cantanda nas mesquitas e para toda a cidade uma reza em árabe; nesse momento cabe a todos respeitar o som. Quem está deitado, senta-se. Quem está refastelado, endireita-se. Quem está a ouvir música, desliga-a. Para os mais religiosos, é um momento de reza. Para todos os outros é um momento de respeito.

De qualquer forma é tão comum ver alguém de alças, como coberta da cabeça aos pés. Mas mais comum é o lenço na cabeça ou o hijab. Até à pouco, era proíbido entrar na escola, ou na faculdade, assim. Hoje em dia foi liberado.

Por aqui, o vegetarianismo é difícil de entender: explicaram-nos que o Corão diz que os animais são o alimento do homem. Têm uma vasta cozinha tradicional (e são várias as iguarias vegan, sem que pensem nisso!). Deixámo-nos apaixonar pelas receitas com bulgur, lentilhas ou leguminosas. Uma típica e deliciosa é o Çiğ köfte, é amassado à mão, come-se frio, embrulhado num wrapp ou numa folha de alface, com umas gotas de limão. Também sobre o assunto e a título de curiosidade: o tofu custa 24tl por 200g, o que equivale a perto de 7€.

No que toca a dinheiro, moeda é a lira turca (tl) e as moedas fazem lembrar euros. A economia embora também baseada em mercados de rua, sustenta-se claramente em superfícies comerciais. Nos supermercados, é possível e normal encontrar pessoas com os seus próprios negócios pessoais; e gritam como se numa feira estivessem, incentivando a compra dos seus produtos.

Mas entretanto, é difícil encontrar alguém que fale inglês, mesmo que se trate de gente jovem. Pedir indicações, ajuda numa loja ou fazer compras é uma aventura.

Por fim, existem ainda duas tradições que nos marc(ar)am:

Por cortesia, cabe aos homens cumprimentar as senhoras mais idosas com um beijo na mão; depois a mão deve ser levada à testa e pode então dar-se os dois beijinhos habituais.

Por bem-estar, bebem chá preto pelo menos 3 vezes ao dia. É fervido puro e só no copo diluído em água. É servido num copo em forma de túlipa. Sempre que alguém termina, é de imediato oferecido outro.

E por entre fantasias, assim se vive em Istambul.

Fascinante. Encantadora. Sedutora.

Misteriosa.

Mais uma, pelo mundo, que marca a nossa (linda) história. E que fica na história da gente.

:::::::: Fotografias em upload

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viram-se gregos, na Grécia

S de Skopie. Skopie de sorriso. Skopie de soalheira. Skopie de sensível. Skopie de super. Skopie de sentido. Skopie de saudar.

Em Skopie passámos 6 noites, um novo record. Trocámos os euros pelos denares e a nossa cultura pela deles. Passeámos, deixámo-nos absorver por cada história, cada novidade, cada diferença. E quantas diferenças!

Por lá ficámos todo este tempo em casa de dois EVS – programa de voluntariado europeu, onde fomos tão bem acolhidos quanto recebidos.

Mas por lá o nosso coração batia descontrolado: era tempo ou receio, era ansiedade. Era o nosso visto para o Irão.

Quando contactámos pela primeira vez a embaixada do Irão, ainda em Belgrado, disseram-nos que lá seria impossível obtê-lo. Também em Skopie foi assim.

Mas desta tivemos sorte. O Cônsul aceitou receber-nos e até lá conhecemos uma amiga do Irão. E esta sim, foi luz. Foi a sorte! E a fonte dos nossos sorrisos. Ajudou-nos de tal forma, que em dois dias tínhamos os vistos colados nos nossos passaportes!

Foi por isso que logo na manhã de quarta-feira, dia 13, depois de saídos da embaixada, nos fizemos ao caminho.

Com vista à Grécia, queríamos ainda naquela tarde chegar a Thessaloniki, a poucos quilómetros da fronteira. Apanhámos por isso um autocarro urbano para nos tentarmos afastar o mais possível do centro da cidade e lá conseguimos a primeira boleia para abandonar a Macedónia.

A boleia não foi longa, como aliás todas as que caraterizaram esta viagem. Por isso foram tantas. Mas continuemos!

Este jovem que nos levou, falava inglês tanto quanto basta e havia estudado num escola Turca. Pudemos perceber que pelos Balcãs muitos o fazem – estudar numa escola turca!

Quando nos deixou, já numa cidade longínqua, conseguimos sem grande demora apanhar outra boleia.

Esta, com um senhor tão simpático quanto consigam imaginar: o inglês não era o seu forte, mas esforçava-se em cada palavra! Deu-nos comida, bebida. Deu-nos partilhas, histórias de vida. Deu-nos sorrisos! E a boleia. E deixou-nos a 10 quilómetros da fronteira com a Grécia! Já não faltava tudo.

Quase quase com os olhos postos em território grego. Em pulgas para lhe sentirmos o cheiro. Cheiro a mar!

E, com o entusiasmo guardado nas nossas mãos, esticámos os dedos.

Parecia magia.

Apareceu então um carro. Um grande carro. O jovem acenou-nos para que entrássemos e levou-nos até a fronteira. Percebemos que não ia para lá, mas que nos quis levar: e pelo caminho partilhou os seus negócios pouco explícitos e os seus gostos internacionais!

Até aqui, parecíamos bichinhos dentro das conchas, a ser levados pelo mar.

Umas boleias atrás de outras. Passavam por nós ondas e areias. E víamos tudo passar por nós, rápido. Velozmente.

E limitavamo-nos a sorrir. Felizes.

A felicidade é assim; vive-se nela. De corpo e alma. E quando se partilha, com amor, são dois corpos e uma alma a viver nela. Na felicidade!

Já na fronteira, fizemo-nos ao caminho; mas a pé. Sabíamos que a podíamos atravessar assim, e assim o fizemos. Passámos três guardas fronteiriços, em diferentes postos. Todos nos deram um sorriso; todos nos deram o seu lado bom! Não que seja estranho, mas atravessar uma fronteira é sempre um momento tenso; de poucas palavras e poucos sorrisos. Limitam-se habitualmente a dizer “passaport”, “bag”, “where are you going”, “why”. E pouco mais.

Mas a pé foi diferente. Pareciam entusiasmados! Talvez os nossos olhos falassem por nós. Mesmo com as mãos suadas entre-nós, do nervoso miudinho de mais uma etapa.

Concluída!

Estávamos pois na Grécia!

O sol já ameaçava pôr-se.

E, o pior – dizem!, o Benfica jogava dali a duas horas, contando já com o fuso horário. É que uma equipa portuguesa (na liga dos campeões), é concerteza, é concerteza uma equipa portuguesa. 🙂

Acabámos por nos deliciar com um crumble de maçã, que tínhamos feito em Skopie, e pouco esperámos pela nova boleia: dois rapazes mais destravados, com uma condução não tanto prudente, mas simpáticos e amáveis. Inglês não era o forte de nenhum dos dois, mas chegou bem para nos entendermos!

Do local em que nos deixaram, ainda que perto da fronteira, estávamos bem encaminhados para chegar a Thessaloniki. Embora até casa faltassem ainda cerca de 80 quilómetros, e a lua já estivesse luminosa céu adentro, não nos restava mais que esperar de dedo esticado. É assim o fizemos.

Até parar um novo carro. Percebemos pelas primeiras palavras trocadas que seria francês, mas deixámos que se apresentasse. Era realmente de Paris, produtor num canal televisivo nacional e estava ali para fotografar o campo de refugiados de Idomeni, por onde depois passámos.

Tendas. Fogueiras. Tendas. Mais tendas. Luzes perdidas.

Gente. Mais gente. Crianças. Histórias de vida. Professores. Médicos. Mães. Pais.

Mulheres grávidas. Recém-nascidos.

Mais gente. E uma dor na alma. E um campo de refugiados.

Chegámos a Thessaloniki ainda meio atordoados, mas chegámos bem. Já tarde, cansados e fora de horas. O peso das mochilas vincava já os nossos ombros, quando percebemos que tínhamos pela frente ainda uma caminhada de 3 quilómetros muito especiais: sempre a subir! Restava-nos pouco mais que apelar à nossa força interior. Não foi fácil, mas no fim soube bem. Soube bem chegar a casa; à casa do couchsurfer que nos hospedou!

Cozinhámos muito, descansámos e passeámos nos doís dias que lá passámos. Caminhámos também muito, sempre a subir e a descer; sempre a descer e a subir.

Acreditámos por estarmos numa cidade europeia, que estaríamos em casa. Mas essa é a que trazemos às costas! Não mais iremos reconhecer por aí uma cultura assim. Mais que não seja porque de mota não usam capacete, mesmo lado a lado com a polícia. E andam com as motas pelos passeios, como se de estrada de tratasse. E é este apenas um exemplo!

Mas é bom, é interessante caminhar assim: na imensidão da novidade e da diferença. Só saindo da nossa zona de conforto podemos e conseguimos dar valor ao que temos; e só quando nos confrontamos com realidades diferentes, conseguimos sair do nosso mundinho, tão pequeno quanto o nosso umbigo. Insignificante e irrisório. E só assim podemos crescer. Na verdadeira essência do ser.

E a nós, permite-nos crescer juntos; amantes. Por entre medos e conquistas. Sorrisos destemidos e abraços silenciosos, que por si falam. Por vezes no meio do nada, sem nada; sabemos que temos tudo. Porque nos temos.

Na manhã de sexta-feira, 15, apanhámos dois autocarros para chegar à periferia da cidade: e o dia estava cinzento.

Começámos por caminhar muito mais que o previsto. E, no fim, estivemos mais de 6 horas à boleia, no mesmo lugar, com o sol quente e o céu azul. Percebemos assim o verdadeiro sentido da expressão 《viram-se gregos para lá chegar》.

Não houve um só carro interessado em ajudar. E foi só quando o cansaço venceu a esperança, que um carro parou! Repleta de boas energias, apressou-se a levar-nos e a ajudar-nos. Partilhámos muitas coisas, ficámos a conhecer a sua família e a sua vida, os seus projetos e as suas conquistas. E tudo sem saírmos do carro.

Optou depois por nos tirar da autoestrada e por nos deixar na estada nacional, por ter paisagens lindas e apaixonantes. E acreditou que seria mais facil para nós, ali, conseguir uma nova boleia.

A verdade, a verdade é que ficámos cheios até cima de uma paz interior inexplicável. Mas ao mesmo tempo, olhámos em volta: um lugar paradisíaco! Montanhas, o mar, flores. Natureza pura. Silêncio. E uma bomba de gasolina ao fundo.

E depois de nos termos visto gregos para chegar ali, achámos que nos veríamos também gregos para dali sair.

Passaram por nós vários camiões, mas não demorou mais que 10 minutos até parar um para nós! Um camião do Irão.

O motorista, Iraniano, entre gestos e poucas palavras; apresentou-se e apressou-se a dar-nos tudo o que tinha: uma banana, frutos secos, chá, sumo. E pouco depois, quando percebemos que falava um bocadinho de Italiano, sentimo-nos completos e capazes para comunicar. É-nos difícil descrever tamanha hospitalidade; mas vamos tentar. Por todas as horas que passámos juntos, ofereceu tudo o que tinha e mais ainda. O seu sorriso e o seu olhar diziam tudo: era um homem bondoso. Generoso! Humilde. Ofereceu a cama para que pudéssemos descansar e dormir (assim foi!!!), ofereceu  alimentos, café e ofereceu até a sua casa no Irão! Quando nos deixou, deixou-nos também um papel com a sua morada Iraniana e telefone; restou-nos prometer que à chegada lhe ligaríamos e que o visitaríamos. A ele, e à sua família.

Até a escrever e a recordar nos sentimos arrepiados.

Naquele momento poderíamos ter seguido até ao Irão – teria sido uma boleia longa e direta. Mas não quisemos – a Turquia, a Geórgia e a Arménia têm ainda muito que ver.

E ficámos então em plena autoestrada. Novamente à boleia e desejosos de chegar a casa do nosso novo couchsurfer! Mas ali, ali não precisávamos de conseguir uma boleia: estávamos a poucos quilómetros de casa e a caminhar também lá chegaríamos.

Palmilhámos a entrada da cidade: Alexandroupoli. O cheiro a mar. O som do mar. As estrelas no céu. A luz da lua. Mais nada interessava! E o calor, o calor desta primavera enriquecida em nós… Embora tão tarde, caminhámos sem grande afogo. E mesmo a caminhar, mantínhamos o dedo esticado.

Já perto do centro da cidade parou uma carrinha. Só lhe vimos uma boina: a do condutor. Era jovem. Como nós talvez. E simples. E simpático. E amável. Contou-nos que já nos havia visto mais atrás, mas que tinha ido primeiro deixar a esposa a casa; porque com só dois lugares na carrinha comercial, era impossível ajudar. Assim, um no colo do outro e lá fomos mesmo até à porta de casa!

Lá, sentimo-nos mesmo em casa: passava das 2 horas da manhã e estávamos a cozinhar e a conversar. Fomos recebidos de braços abertos, com muita ternura e cavalheirismo. E a noite voou! Na manhã seguinte, tirámos o visto electrónico para entrar na Turquia e voltámos à estrada.

Chegar a Istambul não foi uma aventura menor; e por isso fica para a próxima partilha.

Vimo-nos gregos para atravessar a Grécia, mas vimo-nos também felizes e enamorados até aqui. E assim o pretendemos (mais que estar) ser!

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os hábitos, a Macedónia

Não sabemos se é o mundo que está cheio de diferentes culturas, se são as diferentes culturas um verdadeiro mundo. Talvez as duas, repletas de novidades, estranhezas, conhecimentos, crenças, artes, leis e costumes. A moral. Os hábitos. Sociedades tão diferentes, tão ricas; cada uma na sua essência.

Não, não estamos ainda do outro lado do mundo. Nem tão pouco longe assim. Mas estamos agora numa Europa de leste, e foi por aqui que começámos a sentir desentranhar de nós mesmos tudo aquilo a que estamos comumente habituados.

Lá está, hábitos.

E certos agora de que esta metade da Europa possui grande diversidade étnica, cultural e religiosa.

É por isso que chegar à Macedónia foi uma aventura. E estar em Skopie tambéum.

Não maior que todas as outras até então, mas foi muito rica em novas experiências.
Saímos de Belgrado, na Sérvia, bem cedo. Afastámo-nos do centro da cidade e, depois de uma pequena caminhada, estávamos à entrada da via rápida, que nos levaria à autoestrada na direção da Macedónia.

Skopie era o nosso objetivo, e portanto ali ficámos até parar o primeiro carro. Conduzia-o um senhor iluminado. Tão simpático, sorridente e prestável. Feliz por nos conhecer, partilhou que fez muitas viagens a boleia com a nossa idade. Deixou-nos depois nas portagens, onde se daria inicio a autoestrada.

Ali, fizemos várias apostas entre nós: por brincadeira ou para passar o tempo, vamos balbuciando de tudo! E ali desafiámos que 1.“a segunda boleia seria de um camião” e que 2.“a probabilidade de apanhar boleia de um carro italiano nesta travessia seria de 0%”. Também equacionámos como seria avistar um carro português, mas depressa nos esquecemos disso, de tão remoto!

Apostas feitas, passaram poucos minutos até parar um camionista. Ficou assim encerrada a primeira aposta, tão certeira! E com rumo direto para Skopie! Um de nós já estava a vencer.

No camião a comunicação era rudimentar. Umas palavras em croata, outras em polaco e mais umas em inglês. Com gestos e sorrisos, conseguíamos entender-nos. E o mais engraçado no momento, tínhamos wifi “a bordo”.

Pelo caminho, comprou-nos comida e ofereceu-nos água. Mas foi também pelo caminho que percebemos que não nos poderia levar exatamente até à cidade. Aliás, não poderia levar-nos até à Macedónia sequer. E o pior, foram 5 horas para fazer 200 quilómetros. Mas, valeu a pena. Porque conhecer pessoas assim vale sempre a pena!

Quando nos deixou em plena autoestrada, estávamos receosos. Na Europa, tanto quanto conhecemos, pedir boleia numa autoestrada não é permitido e é perigoso.

Olhámos em volta e avistámos uma tasca!

Sim, uma tasca na berma. Na berma da autoestrada, a seguir às portagens. Percebemos então que ali, ali valia tudo.

Mas mantivemo-nos atentos, apreensivos. Um tanto de preocupados. E na ansia de não encontrar alguém que nos repreende-se por estarmos ali.

Mas foi quando nos voltámos que praticamente esbarrámos num polícia. Estremecemos. Passou por nós, contornou-nos e seguiu.

E quando ainda respirávamos fundo, percebemos que o senhor agente estava mesmo à nossa frente, também à boleia. Jamais pudemos imaginar tal desfecho! E claro, com a sua bela farda – de vantagem, desenvencilhou-se primeiro que nós. Agora sim, valia mesmo de tudo.

Este primeiro contacto com as diferenças foi muito interessante.

Interessante porque à medida que nos afastamos de cidades ocidentais o choque não é grande, mas existe. Mais ainda para quem se afasta lentamente, à boleia e por terra.

No entanto, dali, conseguimos uma boleia de um outro carro. Nesse, o caminho decorreu com pouca comunicação. Não havia margem além do servo-croata e portanto a barreira era grande. Em pouco tempo, estávamos os dois quase a dormir – ou mesmo a dormir. Mas foi uma boleia rápida: e fomos novamente deixados (literalmente) em plena autoestrada. Em qualquer outra parte percorrida por nós até então, diríamos que era uma péssima ideia. Não havia ali nada que fizesse os carros abrandar. A velocidade a que passavam era tanta quanto a que podem imaginar.

Mas não foi nada assim de extraordinário. Mostrámos a nossa placa com “SKOPJE” escrito e o segundo carro que passou por nós, parou.

Acontece, contudo, que sem que pudéssemos imaginar, o carro tinha matrícula italiana! Sim, exatamente isso, uma boleia de um carro italiano. E sim, foi essa a segunda aposta, só que em 0%. Inacreditável!

Pois é, o mundo é uma graça de tão imprevisível. E, sem exageros, mesmo com a aposta perdida, foi uma boleia muito querida. Deu até tempo para bebermos um café pelo caminho e trocarmos fotografias das nossas famílias.

Pela fronteira sentimos, como sempre, a tensão que a guarda cria e tenta transparecer.

Mas sentíamo-nos tranquilos no carro de alguém com quem comunicávamos fluentemente em italiano, que também falava inglês, e que sabia falar servo-croata, e ainda russo. E mais espanhol. Enfim, um doutor! E portanto a comunicação entre nós era privilegiada. E tudo se deu sem qualquer constrangimento.

Com mais um carimbo no passaporte, apanhámos por fim a última boleia do dia, que foi já para o centro de Skopie. Essa, foi um casal macedónio que nos deu. Falavam inglês (o que começa a ser pouco comum e nos faz ficar mo momentaneamente verdadeiramente felizes!) e sorriam-nos e olhavam para trás sempre que nos faziam mais perguntas, e mais perguntas, curiosos e fascinados. E nós, gratos! De coração a transbordar.

E assim chegámos à Macedónia. Assim, caminhámos para um país muito diferente.

À chegada, pudemos avistar muitas crianças sozinhas pelas ruas.

Soubemos que por aqui um salário usual são 200 euros, o que mal permite suportar a alimentação. Encontrámos uma cidade suja, e cheia de contrastes.

Acreditamos ter começado a assistir às tais diferenças culturais. Mais que diferenças sociais.

Pela cidade encontrámos pessoas a vender no chão ou em cima de caixotes. Encontrámos crianças abandonadas, a pedir e completamente desmazeladas. Muita gente a mendigar.

Muito mais pobreza. Muito mais confusão.

E também em Skopie encontrámos dois lados dentro da mesma cidade: um mais europeu, chamemos-lhe chique e cuidado, ainda que sujo e confuso: outro mais mesclo, chamemos-lhe pobre e desleixado, com um profundo cruzamento de etnias e religiões.

Também o facto de tudo se encontrar em cirílico nos tenha feito sentir já longe das nossas origens. Por palavras é difícil descrever, mas mesmo por fotografias é difícil falar. Porque não há nada como sentir o cheiro das ruas.

A hospitalidade da gente. Pela rua, querem oferecer-nos ajuda. Mais uma vez, repetimos, a troco de um sorriso. E repetimos que talvez seja esta a melhor moeda de troca do mundo. A mais poderosa. E a mais bonita. O sorriso.

Aqui também encontrámos mercados, típicos e antigos, como retratos destas vidas.

Não vimos, até a data, ninguém de mota a usar capacete.

O centro comercial de rua é escuro e, embora com lojas comerciais às quais estamos acostumados, não é convidativo. Nas paredes, sente-se a falta de limpeza. No chão, a ausência de cuidado. O clima.

Mas se quisermos caminhar um pouco também encontramos um verdadeiro centro comercial ocidental, com preços incomportáveis para quem por aqui sobrevive.

E ontem, ontem depois de termos finalmente conseguido trocar os nossos Dinares Servos por Denares Macedónios, ficámos estupefactos: na hora de fechar o mercado, as ruas encheram-se de resíduos alimentares. Fruta que já não está bonita, legumes que já não atraem os clientes. Tudo no chão e pelo chão fora.

Não que a cidade seja habitualmente limpa, como já referimos, mas naquele momento estava um verdadeiro enjoo.

Mas a repugna não era só visual. Estávamos destroçados com a quantidade de alimentos desperdiçados ali. Olhávamos em volta e ninguém parecia querer saber. Queríamos apanhar do chão tudo quanto víamos ainda em condições. Mas será que podíamos? Seria aceite? Muitas vezes pensamos que, fora de casa, o lema é “faz como vires fazer”; mas naquele momento os nossos corações batiam acelerados.

E foi quando vimos aproximar-se o jovem com a vassoura de arame e o carrinho do lixo, que perguntámos se podíamos apanhar o que estava ali, mesmo à nossa frente, desprezado e largado no chão.

Acenou com a cabeça e gesticulou com os braços, como quem diz que sim, que poderíamos levar tudo quanto quiséssemos.

Arregaçámos as mangas. Só foi pena não termos sacos Pingo Doce por aqui.

Lá está, os hábitos. Sociedades tão diferentes, tão ricas; cada uma na sua essência.

Por aqui também não sabem o que é reciclar. Vá lá, não atiram o lixo para o chão. Mas o contentor ser verde, amarelo ou azul, não tem qualquer significado. Aliás, já na Sérvia tínhamos perguntado por ecopontos e nos tinham dito que não havia. Mas a menina a quem perguntámos (numa loja Bio!), exclamou indagando – Uma vez fui a um país diferente e eles separavam o lixo. Aqui ninguém faz isso! Mas já agora, sabe porque é que fazem isso noutros países?

E é assim o mundo. Não admira portanto que ainda fumem em qualquer local.

Mas o mais importante, os sorrisos e as almas recheadas que se encontram em todas as esquinas.

Por aqui, agora, esperamos por novidades do nosso visto para o Irão. Não temos partilhado muito a respeito, mas esta é a nossa dor de cabeça: vistos! Mas os nosso corações nunca nos enganam: vai correr tudo bem.

Até lá, ainda temos muita arte por conhecer. Muitos cantos por descobrir, por amar. Aqui, ou em qualquer parte do mundo, há sempre um costume que nos falta. Um olhar por trocar.

Espera-nos para tão breve a Grécia e a Turquia, que mal podemos esperar!

O mundo vai na mão: temos sede de apalpar tudo. Conhecer tudo. Ser felizes assim.

2016-04-10 18.40.512016-04-10 18.36.362016-04-10 18.35.512016-04-10 18.35.062016-04-10 18.32.522016-04-10 18.38.34

2016-04-10 18.45.072016-04-10 18.44.172016-04-10 18.42.242016-04-10 18.41.202016-04-10 18.43.26

Hvala, Croácia. Hvala, Servia.

Eslovénia. Croácia. Sérvia. Macedónia.

O mundo não pára. E nós também não!

Que rodopio. Nem demos por ela, mas num abrir e fechar de olhos temos milhentas partilhas por fazer, milhentas histórias por contar. Fomos avançando, destemidos e encantados. Agora, agora resta-nos começar pelo principio. Por onde havíamos ficado:

A 4 de abril estávamos nós em Liubliana, prontos para dar asas à nossa caminhada.

Da Eslovénia até à Croácia é um pulinho, e por isso achámos que seria um instantinho. Enganados. Estávamos tão enganados.

Levámos quase um dia inteiro, mas achamos também que estávamos relaxados. Sabíamos que tínhamos muitas horas e portanto não nos deixámos preocupar. Portanto, tipicamente à portuguesa, só quando começámos a ficar mais aflitos é que começámos a trabalhar.

Para sair de Liubliana caminhámos uma hora e meia, com um intervalo para irmos ao supermercado abastecer-nos: na Croácia não pretendíamos trocar dinheiro e ali na Eslovénia as coisas também eram baratas. Portanto, tratámos da merenda e continuámos caminho fora.

Parámos algumas vezes na tentativa de apanhar boleia na via que permite sair da cidade, mas sem sucesso. Fomos por isso caminhando até uma bomba de gasolina local e aí perguntámos a algumas pessoas se poderiam levar-nos até à entrada da autoestrada. Com pouco acolhimento, voltámos a pôr as mochilas às costas. Quando nos preparávamos para caminhar mais 30 minutos, chegou um verdadeiro doutor. Um carro vistoso. Fato e gravata. Sapatinho branco brilhantina. Cabelo penteado.

Sorriso no rosto, coração aberto. Aceitou levar-nos sem qualquer prejuízo e ainda nos deixou o seu cartão para que nos encontrássemos mais tarde – quem sabe em Belgrado para ver o Liverpool jogar, a sua equipa de eleição. Deixou-nos então numa estação de serviço já na autoestrada. Bastante concorrida, com uma boa afluência de carros.

Mas nós parecíamos anestesiados. Percebemos que tínhamos wifi e aquilo que fizemos foi deixar-nos estar, a enviar alguns pedidos no couchsurfing e a mostrar a placa com o nosso destino: Zagreb.

Sabemos de antemão que numa bomba não é boa ideia estar de dedo esticado ou de placa esticada. Sabemos de antemão que numa bomba a estratégia perfeita é abordar as pessoas.

Estávamos tão anestesiados que deixámos que passassem por nós tempos e tempos.

Horas.

Até que percebemos que nos tínhamos de por mexer; tínhamos de nós fazer à vida.
Porque andar à boleia é como sonhar. É bom de pensar. Mas se não fizermos para acontecer, também não nos vai cair aos pés. Sem esforço e sacrifício nada se consegue.

E sem amor também não!

Acabámos pois por conseguir uma boleia de um jovem informático, que nos levou ainda por vários quilómetros e até uma nova estação de serviço. Nesta, nem tempo tivemos para pousar as mochilas e os sacos. Sem sequer pensarmos muito, o primeiro senhor que abordámos, meio em croata, meio em inglês, aceitou levar-nos. Nele e no seu colega, vimos generosidade. Pelo caminho, descobrimos que um deles falava italiano, e assim a barreira se quebrou.

É tão bom quando conseguimos comunicar. Quando conseguimos fazer-nos entender! Compreender e ser compreendidos!

À entrada da Croácia enfrentámos a primeira fronteira. Passaportes. Pediram para nos ver a cara. E interrogaram: o que vêm fazer? Quanto tempo? Porquê? Onde vão ficar? Qual a morada? E só depois nos deixaram seguir. Teve tanto de intimidador, quanto de desconforto. Mas passou, e acabou – como tudo – em bem.

Já mesmo à entrada de Zagreb, deixaram-nos onde não podiam: ainda na autoestrada. Corremos tanto quando conseguimos pela berma. Passos acelerados e atrapalhados. Já ofegantes, atentos. E de sorrisos no rosto. Chegar é sempre uma alegria tão grande, que mesmo ali no meio do nada e meio fugitivos, estávamos satisfeitos.

E foi um verdadeiro instantinho até conseguirmos seguirmos a última boleia do dia. Não nos levou ao centro de Zagreb, mas levou-nos para a periferia onde pudemos apanhar o tram. Uma jovem com um doce discurso, mostrou-nos interessada pela vida e pelo mundo. Falava além de croata, também inglês e italiano.

Nessa noite cozinhámos um petisco vegetariano, jantámos e pernoitámos na casa de um amigo italiano, amigo de uma amiga croata, de uma amiga nossa portuguesa, que está por agora a fazer um programa de voluntariado europeu (EVS). Vêm como é o mundo pequeno e gracioso?

Na manhã seguinte acordámos com o sol forte e radioso a chamar pelo nosso olhar.

Sem estore, cortina ou persiana, passava pouco das 6 horas da manhã quando abrimos os olhos pela primeira vez, atraídos pela claridade. Deixámo-nos dormitar por mais um pouco e acabámos por nos despachar ainda cedo, mesmo depois de um pequeno-almoço em família (como carinhosamente apelidamos, quando o fazemos com quem nos hospeda e com toda a calma do mundo).

No site do hitchwiki (onde consultamos partilhas de outros viajantes à boleia, como cotações de lugares para estar à boleia ou conselhos de viagem), pudemos perceber que de Zagreb a Belgrado a dificuldade era mínima. O lugar onde deveríamos ficar de dedo esticado estava bem definido ena maioria os relatos definiam-no como maravilhoso , com um máximo de 5 a 10 minutos de espera para se conseguir seguir uma boleia direta entre os dois países, as duas cidades.

Optámos por isso por nos afastar do centro da cidade novamente de tram, e à entrada da via rápida pedimos boleia para o tal ponto estratégico.

Apanhou-nos então um jovem, calmo e com um tom de voz tranquilizante. A forma como o conduzia e conversava era tão transparente e bondosa, que era impossível não gostar. Mas foi quando passámos pelo exato local estratégico onde deveríamos ficar, que ele sugeriu levar-nos um pouco mais à frente. Sem que pudéssemos imaginar, achou que seria bom deixar-nos nas portagens da autoestrada. Mas ali, ali era completamente impossível. Proibido. E o pior, estava a fazer uma mão cheia de quilómetros por nossa causa, para nos deixar num lugar que, achava ele, seria melhor. Mas não.

Não era.

De mal a menos, avistámos uma estação de serviço e dissemos-lhe que ali estaria perfeito.
Quando nos deixou, queríamos tanto agradecer-lhe pela sua generosidade, como pedir-lhe para voltar atrás aqueles 10 quilómetros. Sim, a bomba estava deserta.

Nem um carro.

Nem uma pessoa.

Nem ninguém.

Nem nada.

E o nosso lugar extraordinário lá atrás. Aquele, onde em 10 minutos conseguiríamos uma boleia direta para a Sérvia. Sim, esse mesmo, já lá ia.

Rabujámos.

Questionamos como tínhamos deixado aquilo acontecer.

Refletimos. Pensámos. Contámos carneiros. Lanchámos. E rabujámos mais um pouco.

Mas refilar não adiantava de nada. E por isso, mãos à obra.

Cada escasso carro que parava, era potencial luz no nosso caminho, e portanto dávamos tudo por tudo. Sorriso no rosto.

E de sorriso no rosto íamos ensaiando como perguntar entre croata e inglês. Não podíamos correr o risco de perder uma boleia que fosse porque não nos fazíamos entender. E fizemos. E conseguimos boleia.

Simpático era. Conversador também, no seu fluente Inglês. Mas no seu carro não tinha sofagem. Nem ar condicionado. Nem possibilidade de levar vidros abertos (a 160km/h). Então, no auge do dia, com sol e temperaturas a rondar os 30 graus, permanecemos fechados no seu carro tanto tempo, quanto o tempo da boleia. Não ia para Belgrado, mas ia na nossa direção até certa parte. Pelo caminho, o suor escorria-lhe e escorria-nos pelo corpo. As t-shirts que trazíamos vestidas já não tinham manchas de suor; já eram uma só tonalidade, molhadas por completo. E o jovem lamentava, limpava a testa com a mão e seguia caminho.

Não queríamos nem acreditar quando nos deixou, já a pouco menos de 200km de Belgrado, numa grande estação de serviço. Deserta também, mas com ar. Ar puro.

Nós estávamos completamente destilados. Sentíamo-nos como saídos de uma sauna de mais de 2 horas. O bater dos nossos corações dizia tudo. Tínhamos decerto a tensão baixa. E o pior, restava-nos pouca água no cantil.

Mas respirávamos. Tão fundo quanto podíamos. Do passeio fizemos assento. E já não nos lembrávamos da última vez que havíamos dado tanto valor a uma brisa fresca. De 28 graus, mas fresca ainda assim, naquele momento.

Num ápice as temperaturas estavam a mudar. E sem repararmos bem, o resfriado deu lugar ao a abafado.

Ali esperámos uma infinidade. Vimos chegar e partir autocarros turísticos. Vimos chegar e partir carros cheios, com famílias e famílias. Vimos chegar e partir camionistas.

Tivemos até tempo para ter acesso à password da internet do restaurante e a encher o nosso cantil. No fundo, já estávamos por ali como prata da casa. Até mesmo o garçon, o rapaz da bomba e os camionistas nos diziam para ir falar com este e com aquele, para nos levarem.

Pelo meio pedimos boleia a um rapaz que aceitou levar-nos na primeira instância, mas que depois de falar com o companheiro, se recusou. Era uma carrinha, espaçosa. Mas não reconsiderou. E mesmo indo para Belgrado, não nos levou.

Talvez tenhamos esperado pouco menos de 3 horas nesta estação de serviço.

Não que estivéssemos ansiosos ou fartos. Não que estivéssemos entusiasmados ou energéticos. Se tivéssemos que nos descrever, estávamos assim-assim. Tínhamos latente no pensamento que bastava-nos ter ficado no lugar mágico inicial para ter dado certo à primeira. Mas depois, depois pensamos sempre que nada acontece por acaso. Que se assim foi, foi porque tinha de ser.

E aí, aí entrelaçamos os dedos e olhar. E sentimo-nos unidos. Em sintonia. E com fé. No mundo. No amor. E nesta nossa caminhada.

Foi então que conseguimos uma boleia encantadora. Fato e gravata, estavam ambos a esticar as pernas da longa viagem. Iam exatamente para Belgrado e conseguiam comunicar em inglês. Não fluente, mas o suficiente para nos querermos conhecer, mais, e mais um bocadinho. E assim foi, de tal forma, que antes de nós deixar, quis levar-nos a passear.

Levou-nos a um jardim junto ao rio e na periferia da cidade, onde sozinhos dificilmente iríamos. Passeou-nos e conversou tanto quanto conseguiu. Para a despedida um “obrigado” parecia pouco! Mas era tudo o que tínhamos. Isso e desejos: desejos de que o melhor se encarregue de a si voltar.

E estávamos então na Sérvia, com o primeiro carimbo no passaporte e 60 boleias apanhadas desde que saímos de casa. E na fronteira, vimos infelizmente o rapaz da carrinha que por fim não nos quis levar, com esta aberta e desoejada, a ser exaustivamente revistada. É, nada acontece por acaso.

Já em Belgrado não encontrámos amigos de outrora, mas fizemos novos. Recorremos ao couchsurfing, e sem esperarmos por isso, acabámos a jantar e pernoitar com a filha do ex-Primeiro Ministro da Bósnia. Com uma mão cheias de aventuras para partilhar, fizemos dos serões livros de histórias.

E pela cidade, encontrámos as primeiras diferenças culturais. A Europa já não estava tão empregnada como outrora. O alfabeto cirílico. Os vendedores de rua de tudo e alguma coisa. As lixeiras e contentores comuns. A ausência do inglês. A sujidade. O cheiro.

A confusão urbanística e a hospitalidade do povo.

Por duas vezes, parados, veio até nós gente. Procuravam perceber se precisávamos de ajuda. E apressavam-se a aconselhar-nos ou a propor visitar o que de melhor sabiam. A troco de um sorriso.

Talvez seja esta a melhor moeda de troca do mundo. A mais poderosa. E a mais bonita.

O sorriso.

E com um sorriso na alma, prometemos depois partilhar com foi então partir da Sérvia e chegar até aqui, à Macedónia.

Por agora temos de dormir, descansar as pernas, as costas, o corpo e a mente. Temos de descansar este olhar atento pelo mundo. E temos de nos preparar para amanhã conhecer Skopie de sorriso no rosto.

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živijo Eslovénia

De Veneza até Trieste são 180 quilómetros: uma distância curta para uma tarde inteira, pensámos.

Pela manhã de sexta-feira não deixámos que nenhum raio de sol nos despertasse por entre as portadas de madeira. Fechámo-las bem na noite anterior. E só o som das gaivotas se fazia ouvir por entre cada canal de mar, que avistávamos pela janela do quarto.

Amoroso!

Deixámos Veneza e os amigos que por lá fizemos e encontrámos. Mais uma vez, é o momento da despedida o que mais custa. O adeus. O até já. A saudade que tão bem nos carateriza: a nós, gente da nossa terra, portuguesa.

Para sair da ilha não foi fácil. Do primeiro lugar que escolhemos, fomos expulsos. A senhora agente que por lá tentava controlar o trânsito (sem grande congruência, já que por Itália vimos de tudo acontecer), apressou-se a despachar-nos da sua área. E sem grande entendimento, lá nos mudámos para longe da sua vista.

Na verdade, para um lugar bem melhor. Mas nem por isso mais célere para apanhar boleia. Esperámos mais de 3 horas. Já nos doíam as pernas de estar de pé e parados.

E já nos doía o pensamento, de moído.

Ofereceu-nos boleia um senhor que ia para perto, mas que tinha um amigo que nos levaria ao destino por 10 euros. Uma história um tanto estranha. Não que duvidássemos da sua vontade de nos ajudar, mas achámos que ali à espera continuaríamos melhor.

Dos autocarros urbanos que iam passando por nós, já os condutores se riam. Viagens para a frente, viagens para trás, nós no mesmo sítio!

E a boleia que acabámos por conseguir foi pedida delicadamente. O senhor parou (não por nós), mas aproveitámos a deixa. Não ia para Trieste, mas ia na direção. Partilhou-nos histórias e mais histórias das suas viagens pelo mundo, também por vezes à boleia. Talvez com pensamento tresloucado, achámos graça à forma como nos apoiou e aconselhou a estar sempre atentos.

E quando nos deixou numa estação de serviço da autoestrada, estávamos-lhe agradecidos e finalmente encaminhados. Aí não demorou tanto até encontrarmos alguém que nos levasse por mais uns quilómetros. Para um, de partilhas. Para outro, de profundo sono! Era militar e havia estado no Afeganistão em missão de paz, supostamente – disse. De conversa fácil, e pé pesado, foi num abrir e fechar de olhos que nos deixou numa nova estação de serviço.

Desta, nem tivemos tempo de tirar as medidas! Os primeiros jovens que vimos, a quem perguntámos se nos levariam, foram certeiros. Franceses, cada um de sua cidade, iam ainda até à Croácia nessa mesma noite.

O sol estava já a deixar-se desaparecer no horizonte, quando arrancámos; e quando nos deixaram em Trieste, já brilhava no céu a lua. Sem estrelas. E foi esta uma boleia com direito a tudo: oferta de comida, oferta de casa, troca de contactos e entrega à porta de casa. Sim, uns verdadeiros gentlemans, sim. Simpáticos, cordeais, disponíveis. E muito amáveis!

Estávamos então à porta da nossa terceira couchsurfer desta aventura. De sorriso estampado no olhar, recebeu-nos de braços abertos! Com ela cozinhámos, aprendemos italiano, ensinámos português, saímos à noite, conhecemos mais amigos e ainda partilhámos o pequeno almoço e um passeio matinal. Não sabemos se doce é o adjetivo certo, mas assenta-lhe na perfeição!

Preparados para seguir viagem, voltámos a fechar as nossas mochilas.

Sábado é um bom dia. É dia de passeio para muitos.

E enquanto descortinávamos qual o melhor lugar para nos pormos à boleia para sair de Trieste, um amigo do namorado de uma amiga (que mundo!), ofereceu-se para nos levar de carro até à fronteira com a Eslovénia por estar a ir para lá. Que gentil! Adorámos conhecê-lo e foi uma ajuda enorme. Porque Trieste é uma cidade rodeada de montanhas e pelo mar. E é bem lá em cima que aparece a autoestrada – era por isso um verdadeiro tormento subir tanto e tanto com as mochilas.

Foi ouro sobre azul!

Já na fronteira, com o tempo nublado, mas nem tanto quente, nem tanto frio, estivemos várias horas. Não mais de 3, mas pareceram intermináveis. Passavam por nós carros de todos os lados. França, Áustria, Alemanha, Espanha, Itália, Eslovénia, Bulgária, Roménia. (…) Camiões. Carrinhas. Motas. Autocarros.

O nosso petisco vegetariano já lá ia.

A esperança de que apanhar boleia seria num instante, também!

Mas foi num momento inesperado que nos apercebemos que um autocarro parou para nós! Um autocarro daqueles enormes e lindíssimo. Tinha um ar tão chique que esfregámos os olhos. Com uma comunicação rudimentar e muito rapidamente, perguntámos apenas se ia na nossa direção efetivamente e se nos levaria de graça. E lá fomos nós! Pelos cumprimentos e apresentações, percebemos que se tratava de um senhor polaco. E aí era ver os nossos olhos a sorrir! É que polaco não é de todo uma barreira, porque um de nós domina a língua (quem será? 🙂 ) e ainda vai traduzindo para que possamos sempre perceber os dois do que se está a falar.

Descobrimos por isso que o autocarro era novo, a estrear, e que o senhor estava apenas a fazer o seu transporte de Itália para Bélgica. E de tão simpático que era, tivemos mesmo pena de o ver partir depois de nos deixar. É que contado talvez não dê para acreditar, mas mesmo de autocarro fez questão de nos vir trazer à porta de casa.

O lado bom do mundo está ao virar da esquina.

Por baixo do nosso sorriso.

O lado bom do mundo não tem limites.

Já em Liubliana, levámos algum tempo até descobrir uma amiga de um amigo, que é quem por aqui nos está a hospedar. Uma pessoa iluminada e cheia de energia! Acabámos por contactar para Portugal a pedir o seu número e no fim terminámos a cozinhar e a ver el clasico com entusiasmo.

Hoje palmilhámos a cidade. Linda. Encantadora de verdade! Da Eslovénia guardamos boas recordações e amanhã partimos já rumo à Croácia.

É que o mundo gira e não espera por nós!

 

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Verona e dopo Venezia

Torino, una bella citta!

E não encontrámos só uma bela cidade, como uma bela casa, onde fomos acolhidos com tudo o que de melhor poderíamos desejar. Amigos de amigos, que magia! Fazia sol pela manhã, quando a deixámos, bela ainda.

Entusiasmados com a partida para Verona, mas receosos. Viajar à boleia por Itália parece um verdadeiro enigma: não sabemos o que leva cada condutor a virar a cara ou a ignorar a nossa presença, a nossa mão, a nossa placa. Mas sabemos que o fazem, melhor que ninguém.

Aliás, depois do primeiro contacto – onde estivemos 6 horas, que nem inergumes, a ser ignorados – percebemos como iriam ser estes próximos dias. Mas, se a paciência nos faz sábios; a tolerância faz-nos fortes. E tudo o que precisamos nesta viagem é de força: força para seguir, força para não esmorecer, força para lutar, força para ser mais e melhor. Força. E juntos, somos uma força muito especial!

Ainda no centro de Torino, e com alguma fraqueza no que respeita a fazer 4 quilómetros a pé para abandonar a cidade, de mochilas às costas e tralhas infindáveis, decidimos por-nos à boleia. Ali mesmo.

Olhavamo-nos, olhos nos olhos. E sabíamos perfeitamente que não é no meio de uma cidade que uma boleia aparece. Sabiamo-lo de cor. Mas parecíamos enraizados: os carros passavam e passavam, e continuávamos à espera da nossa sorte. E ainda bem, porque ela chegou. Chegou num carro, com um casal! Ela Romena, ele Italiano. Viram na nossa placa “TANGZ”, e perceberam que queríamos ir apenas até à entrada da tangencial, uma espécie de autoestrada. E assim – inesperadamente! – conseguimos o nosso bilhete de saída de Torino; a cidade do ‘Tourozinho’.

Mas a passagem não estava completa.

À entrada da tangencial, esperámos mais de 1 hora. Talvez quase 2! Minutos e mais minutos, com pouca esperança e muita certeza: avistava-se um longo dia.

Mas havia força. Corações fortes.

E quando menos esperávamos, escondemos a placa que tinha o nosso destino (porque às vezes é preciso mudar algo para dar certo), e parou uma carrinha. Um senhor Egípcio, levou-nos até à primeira estação de serviço, dentro já da autoestrada. Às vezes é assim, para avançar não interessa bem para onde vão, desde que nos ajudem a avançar para um lugar mais estratégico: uma bomba de gasolina, claro. E no fim, enquanto nos despedíamos, ainda nos ofereceu 4 das suas maçãs, como farnel para a nossa viagem. Porque quando menos esperamos, é assim, brota a bondade humana.

Confiantes e mais animados, depois destas duas boleias não tão morosas, abordámos todas as pessoas que víamos pelo restaurante da área. Uma por uma. Dezenas. Muitas. Carros cheios, carros de empresas, outras direções, medos; ouvimos de tudo. Mas sempre com o mesmo desfecho: não podiam levar-nos. E como sempre, ainda apareceu que oferecesse lugar para um: mas recusámos e recusaremos sempre.

Porque é juntos que somos a força.

O amor.

E mantivemo-nos atentos até aparecer um senhor que aceitou levar-nos, mesmo com duas cadeiras de bebé atrás e muitas coisas no carro. Parecia mais tímido que assustado, mais envergonhado que incomodado. Mas de sorriso acanhado, arrumou tudo de forma a que coubéssemos e ficássemos o mais confortáveis possível. E arrumou também todas as ideias durante a viagem, enquanto lhe explicámos esta nossa aventura.

Foram poucos quilómetros (ainda que tenha dado para um sono profundo!), e acabou por deixar-nos numa nova estação de serviço. Aqui por Itália todas as que temos encontrado têm restaurante, o que nos ajudou por ser hora de almoço.

Mas aí, cada tiro, seu melro. Difícil.

Arriscaríamos dizer que 70% foi dizendo que não ia na nossa direção. E 20% tinha o carro cheio. Mas, andar à boleia é assim.

Com calma, só temos de esperar. Porque cedo ou tarde, alguém nos leva. E como nesta viagem, trocámos o relógio pelo bater do nosso coração, tempo é tudo o que temos.

Acabámos assim por abordar um jovem, que sem grande pensar, assumiu ir na nossa direção. No entanto, enquanto decidia se nos levaria – ou não, falando com a sua esposa, fomos perguntando na mesma a quem passava. Sabíamos que, caso aceitassem dar-nos boleia, nos iriam deixar a 150 quilómetros de casa. Mas não deixava de ser uma boa ajuda! Por isso, continuávamos a perguntar, mas só os trocaríamos caso alguém fosse para perto de Verona.

E, nos entretantos, passou por nós um casal jovem e sorridente. Emanavam uma simpatia incomum por aqui! Emanavam uma energia doce e boa de sentir! E foi quando lhes falámos, que disseram ir mesmo para pertinho do nosso destino.

Pelo caminho conversámos em Inglês: uma zona de conforto para os 4. E foi bom, foi bom porque partilhámos 200 quilómetros de vivências, de histórias, de vida. E eles vão casar em breve. E vão em lua de mel também em breve. E vão viajar muito também em breve. E é então fácil perceber como nos ligámos.

Deixaram-nos depois a 15 quilómetros de casa; da casa da nossa segunda Couchsurfer. Uma jovem que, embora tenha rejeitado o nosso pedido, disse alojar-nos caso não tivéssemos outra alternativa ou resposta positiva, pois havia gostado da nossa mensagem. Pois a ela, só podemos estar gratos!

A ela e a todos os que se cruzam no nosso caminho; até mesmo aqueles que viram a cara e fingem não nos ouvir (quando lhes perguntamos se vão na nossa direção). Porque mesmo aos maus bocados estamos gratos. Gratos pela aprendizagem.

Quando nos deixaram na estação de serviço, pouco antes de Verona, o sol já estava baixo. No lusco-fusco. Percebemos que ali estávamos um pouco perdidos. Dificilmente alguém com o nosso destino pararia a tão poucos quilómetros de casa. Mas não nos restava outra opção senão perguntar a todos os que víamos, se nos poderiam levar. Bom, poderíamos sempre caminhar, claro está. 3 a 4 horas e chegaríamos. Mas na autoestrada não é possível. De todo.

Portanto, boca, para que te queremos?

Não, não foi nada fácil. É que, ali, nem nos olhavam. Faziam desvios infinitos só para nos contornarem. Se olhavam, era de esguelha. Outrora, até podíamos cheirar mal ou ter mau aspeto, mas não demos por isso. 🙂

Acabámos depois por receber uma mensagem da nossa couchsurfer dizendo que nos poderia ir buscar, se lhe explicássemos onde estávamos concretamente. Mas, mas só para que conseguisse chegar ao nosso lado, implicaria além de quilómetros, portagens.

Foi então que ao passar de mais um senhor, lhe perguntámos se iria na nossa direção. Disse que não. E posteriormente acrescentou que já estavam 4 num carro. Mas insistimos pedindo ajuda para explicar à nossa amiga onde nos poderia ir buscar. Conversa e explicações à parte, e no fim já estava a família ali reunida; esposa, filhas e cachorro. E no fim dos fins, o carro tinha 6 lugares, e quis levar-nos!

Pelo caminho, ouvimos as suas histórias além-fronteiras e falámos sobre ‘O mundo na mão’. Foi tudo tão espontâneo, que quando nos deixou, ainda nos ofereceu uma garrafa de vinho, dois abraços, uma foto e a promessa de um novo encontro, em Portugal!

Estávamos assim na cidade do amor, do Romeu e da Julieta. E com pouco mais de 30 minutos caminhando, estávamos em casa! Doce e acolhedora. Com um jantar vegan acabadinho de fazer e que nos consolou de quentinho e saboroso.

E quando o despertador tocou na manhã seguinte, estávamos novos e fresquinhos. Claro, aceitaríamos ficar na cama por mais um par de horas, mas estávamos prontos para conhecer a linda cidade de Verona, todos os seus encantos e ainda a casa de Romeu e Giulieta.

E assim foi, encantador; mas não mais que o que estava para vir.

A primeira boleia para Veneza foi difícil de obter. Não que tenhamos estado muito tempo à espera, mas fizemos vários quilómetros e mudámos várias vezes de sítio. Pedimos boleia, pelo menos, em 3 lugares diferentes. Nenhum nos parecia bem, em nenhum sentíamos que ia dar certo. Então mudámo-nos várias vezes. E já não era só os ombros que nos doíam: eram também as pernas. Era também o cansaço no pensamento, mais que no corpo, porque o desgaste não se faz só fisicamente. Às vezes, acreditar é a única solução para ter força. E a melhor.

Já várias horas depois entre caminhadas e esperas, chegámos ao limite (não nosso): estávamos à entrada da autoestrada que seguia para Milão e Veneza. E dali, não podíamos passar.

Ouvimos ainda que em Itália é proibido andar à boleia, como já antes havíamos ouvido. Mas essa proibição é estritamente relativa às vias rápidas, e isso é aqui na Itália e em todo o lado. E depois da polícia passar várias vezes por nós, deixámos-nos estar, tranquilos. Ou ansiosos, por sair dali.

Mas aí, a espera não foi morosa. Encostou um carro, e conduzia-o um senhor muito simpático. Percebemos depressa que pela sua pronúncia a falar inglês não seria Italiano, e não era. Era Estado Unidense e muito conversador!

Levou-nos pois até uma estação de serviço, ainda na autoestrada. E agora o suposto seria dizermos que por lá ficámos tempo infinito porque estávamos em terras italianas, e que como tal, pedir boleia é um verdadeiro martírio. Mas não foi.

Não foi nada disso. Para nossa grande surpresa, foi tudo num piscar de olhos. Talvez tenha sido a terceira ou quarta pessoa que abordámos. ‘Mi scusi , stai andando in direzione a Venezia?, e de pronto ouvimos ‘Andiamo, vine!’. E fomos! Era um jovem, e nem hesitou em ajudar-nos. Passou grande parte da viagem a tratar de negócios seus pelo telefone, mas pelos intervalos, pudemos conhecer-nos.

E sorrimos, incrédulos ainda e felizes, quando nos deixou. Deixou-nos a uma ponte de distância de Veneza. Sim, tínhamos somente que atravessar a grande ponte que permite chegar à ilha de Veneza. Tínhamos hipótese de apanhar o comboio ou apanhar uma nova boleia. Mas foi fácil decidir, tão fácil. O sol não raiava, mas permanecia lá em cima, escondido por entre as nuvens. Iluminava-nos ainda. Tanto quanto o nosso bem estar.

Decidimos por isso continuar como até então: de dedo esticado. Resolvemos colocar-nos entre o fim da estação de serviço e a entrada da autoestrada. E não demorou até conseguirmos uma nova, e a última, boleia. Estávamos perplexos. Boquiabertos.

Incrédulos. Do 8 ao 80.

Tinha 60 anos, e havia viajado muito à boleia em Itália pela sua juventude fora. Estava tão feliz por nos levar, quando nós por estarmos a chegar em tão boa companhia. A boa vontade deste senhor, o seu bem-querer perante nós; é inexplicável. Os seus olhos jubilosos, partilhavam entre nós a saudade que guardavam das suas aventuras. E até mesmo para nos despedimos foi demorado. Havia tanto para partilhar, tanto por dizer, que dava pena seguir em frente.

Mas não foi só nesta despedida que o sentimos.

Sentimos pesar em todas as despedidas que fizemos até hoje. E começaram até antes da partida. Mas neste caminho, deixar para trás aqueles que deixaram algo em nós, custa. Em cada adeus, ou até já, o nosso coração lateja. Lateja mais do que bate. Porque fica apertado, apertadinho.

É duro, mas ouvimos por aí dizer que faz parte. E faz: faz-nos mais fortes.

Hoje, não só palmilhámos Veneza (sim, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não é preciso andar de gôndola ou de barco para conhecer esta cidade!), como ainda reencontrámos um amigo de viagem e fizemos um grande e lindo jantar para os amigos que nos estão a hospedar.

Pela noite adentro, deixámo-nos apaixonar pelo mar por entre cada rua estreita, e por cada reflexo de luz nele feito.

Amanhã seguimos com rumo à fronteira, e pernoitaremos em Trieste. Depois, a seu tempo, chegaremos a Liubliana, na Eslovénia. Depois virá a Croácia, a Sérvia, a Macedónia e por aí fora. Virão mais quilómetros. Virão mais pessoas. Virá mais amor.

De 49 boleias até então, virão também mais, muitas mais. E virá o Mundo.

2016-04-01 01.12.472016-04-01 01.02.132016-04-01 01.02.352016-04-01 01.04.072016-04-01 01.04.292016-04-01 01.11.402016-04-01 01.12.032016-04-01 01.12.252016-04-01 01.10.432016-04-01 01.10.222016-04-01 01.06.532016-04-01 01.04.582016-04-01 01.05.25

Mamma mia!

Mamma mia! 

Faz já alguns dias que escrever tem ficado para segundo plano. Não que nos tenhamos esquecido, não que não tenhamos vontade de escrever. Mas porque os dias têm tido poucas horas para tudo o que temos vivido.

Dia 25, ainda no turno da manhã (e pela primeira vez!), saímos de Cannes, com o objetivo de chegar ao Mónaco. Este país, embora pequenino, é um verdadeiro mundo deslumbrante. E por isso decidimos ir até lá durante o dia e regrassar à noite para Nice, onde pela primeira vez nesta viagem utilizámos o couchsurfing.

Pouco passava das 9:00h e já o sol estava muito quente. Sentíamos os ombros quentes e desejosos de largar as mochilas, mas a primeira boleia do dia não tardou assim tanto. Era um senhor sorridente que, depois de ter estado a viver no Brasil, nos cumprimentou com um “Olá!”. A boleia foi curta, mas a conversa animada! Deixou-nos depois numa nova entrada para a autoestrada que seguia com direção ao nosso destino.

Lá,  conseguimos a segunda boleia e direta para o Mónaco. Um Mercedes, dos grandes. Confortável e alto, de onde se avistava o mar e toda a paisagem a que tínhamos direito. As partilhas foram tantas, que tivemos até pena de deixar o carro. Os assuntos comuns, os gotos, as histórias; foi gracioso.

O Mónaco, palmilhamo-lo de cima a baixo. Com mais ou menos cansaço, entre a beira-mar, o casino, o porto ou os jardins; conseguimos por 1 hora ter onde deixar as mochilas, o que nos aliviou e deixou mais à vontade. A verdade é que com toda a instabilidade deste mundo, não é fácil que aceitem guardar as nossas tralhas. Mas, no fundo, tivemos sorte.

Já ao final do dia, de depois de algumas aventuras juntos, tratámos de regrassar para Nice, onde queríamos pernoitar e onde nos esperava uma couchsurfer. Mas foi quando nos tentámos pôr ali à boleia, que percebemos que no Mónaco era proibido fazê-lo. Já nos tinham tentado avisar, mas nenhum de nós havia percebido!! Afinal, tinham-nos dito que deveríamos ir para depois da fronteira, mas até lá apenas tínhamos compreendido que um bom sítio para pedir boleia seria uma rua “…..border“. Que dois.

Caminhámos então, montanha acima, até que vimos uns caixotes do lixo com indicação francesa, podendo nós decerto a partir daí pedir boleia.

Bandeira de Portugal às costas, e enquanto esperavamos, percebemos que a sinalizar o trânsito estava um português! Saudou-nos, desejou-nos boa sorte. E pois que a tivemos! Não queremos mentir, mas foi muito rápido! Duas senhoras, meia idade. E iam mesmo para Nice e para a mesma zona da cidade!

À chegada, e assim que deixámos o carro, deparámo-nos com leões enjaulados. Cães. Animais. Era um  circo. Que triste. Ficámos triste com este primeiro impacto, que claro, poderia ter sido em qualquer outro lado, ou infelizmente, até mesmo em Portugal. Que infelicidade. Que mágoa. Como podem ainda algumas pessoas acreditar que os animais ali são bem tratados? Que são felizes no circo?

E seguimos. Seguimos com aquela imagem latente no pensamento. E na alma.

Demos uma pequena volta por Nice, já com as estrelas no céu e com o peso das mochilas insuportável. E terminámos numa casa acolhedora, com um manjar dos deuses português – alho francês à Brás e cogumelos grelhados, e uma companhia muito agradável!

Na manhã seguinte, o sol raiava pela janela do quarto. Pouco passava das 6 horas da manhã e já a luminosidade era forte, tão forte que nos despertava dos sonhos e nos fazia confirmar constantemente o relógio.

Pouco passava das 10 horas, e estávamos novamente à boleia. Caminhámos pouco para sair de Nice. Pouco porque em França encontrámos com muita facilidade ruas onde é proibido caminhar. Proibido para segurança das pessoas, mas não deixa de ser proibido. O que nos leva a ter de ir dar uma grande volta, ou a ter de esperar pacientemente no início da estrada, ou rua.

Neste caso, o lugar não era o melhor, mas não tínhamos para onde ir. Era naquela direção que estava a estrada que queríamos apanhar para seguir caminho, e por isso limitámo-nos a esticar o dedo.

E no imediato, parou um carro! Nem estávamos bem atentos ou prontos, ou à espera que acontecesse. E no carro, estava apenas uma senhora, com um hijab – espécie de véu que as muçulmanas usam, que lhes cobre o cabelo, orelhas e pescoço. Envergonhada, mas amável. As palavras não lhe fluíam, mas o olhar era ternurento. Ter parado, demonstrava a sua generosidade. Porque no fundo, não nos levou para longe; mas deixou-nos mesmo à entrada da autoestrada que seguia para Itália. E era mesmo em Itália que tínhamos a próxima casa. A próxima família. O próximo destino.

Da entrada da autoestrada, conseguimos outra boleia. Desta, era um jovem numa carrinha, que havia reconhecido a nossa bandeira por já ter estado no festival BOOM – e bom, nunca pensámos que este festival fosse tão internacional. Deixou-nos depois, numa estação de serviço,  já a poucos quilómetros da fronteira.

E lá pernacemos ainda uma hora, ou um pouco mais. Muitos dos que por ali passavam iam apenas a um mercado perto da fronteira e fora da nossa rota. Muitos eram já Italianos e não tanto acolhedores. Muitos iam com o carro cheio.

E decidimos deslocar-nos para o fim da estação, para petiscar alguma coisa e ao mesmo tempo esticar o dedo. Ali, não tínhamos placa. Não adiantava, porque se escevessemos uma cidade, a maior parte não conhecia. Se escrevessemos Itália, era desperdiçar cartao: por ali, não tinham hipótese, todos iam passar a fronteira.

Estavamos por isso, é literalmente, com o mundo na mão. Dependia do nosso dedinho, esticado, seguir mundo fora.

E dependia também do nosso estado de espírito. Da nossa vontade. Dos nossos desejos.

Sorrisos esperançados, ainda o dia ia a meio.

Pararam depois vários camiões. E estranhámos. Sabiam que éramos dois, e mesmo assim paravam – o que ocidentalmente não é comum. Mas como eram romenos, achámos possivel. Os dois primeiros, embora a comunicação fosse rudimentar, acabaram por dizer que não iam na nossa direção dentro de Itália , mas o último foi o que se fez entender melhor. Infelizmente, gesticulou que esperava favores sexuais ao levar-nos. Ou mesmo que não fosse a troco da boleia, achou que os incluiría.

E aí, sentimo-nos pequeninos, pequeninos. Agonizados. E consciencializados do motivo pelo qual todos estavam a parar…

Acabámos por nos deslocar para a a zona de abastecimento e abordámos as pessoas. Pode levar mais tempo, ou menos, nunca sabemos. Mas a crença é simples: cabe a nós escolher a quem perguntamos e alguém nos há-de levar. E assim foi! Conseguimos boleia para Savona, que ficava depois a pouco mais de 100km de Bra – uma pequena cidade antes de Torino, onde uma amiga nos esperava. Levaram-nos dois jovens da casa dos 40, e um deles estava a concluir a sua volta ao mundo: imaginam pois a quantas partilhas deu aso. Maravilhoso!

Já em Savona, acabámos por por ficar numa outra estação de serviço,  mesmo antes da nova autoestrada onde pretendíamos seguir. Aí, como sabíamos perfeitamente qual a direção, optámospor escever na placa “A6 TO” – autoestrada 6 com direção a Torino e colocar-nos no fim da estação; pois na bomba havia também restaurante, e quando abordavamos uma pessoas, perdíamos outras.

No fim da estação estivemos talvez 2 horas, até aparecer um viajante Eslovaco – como nós, que além de humilde, queria ajudar-nos. Entre Italiano, Francês e Espanhol, com um verdadeiro mix de línguas, conseguiu explicar-nos que havia um sitio um pouco melhor para estarmos; e acabou por levar-nos até lá!

Lá, eram as portagens. As portagens que davam  acesso à autoestrada e onde era permitido estarmos. Lá, os carros tinham espaço para parar. Lá, estávamos abrigados. Lá, tinha luzes (caso escurecesse). Era realmente melhor! Mas foi lá que permanecemos mais 4 horas.

Mamma mia!

Valia-nos que agora, com tamanha modernice, em todo lado encontrámos wifi. E ali, não era exceção. Conseguíamos por isso estar conectados, e a receber força. O que não deixou de ser engraçado, porque há uns anos era impensável. Recebemos até uma video-chamada de Portugal, onde alguns amigos se reuniram para nos deixar um abraço. Que amores!

Mas mesmo com essa força extra, começavamos a deixar-nos esmorecer. Eram centenas e centenas os carros que já tinham passado por nós. Eram mais de 6 horas no mesmo sítio. Eram estrelas no céu.

Mas parou, parou uma senhora iluminada. Podemos chamar-lhe até mãe galinha, porque estava mesmo preocupada connosco. Avisou-nos vezes sem conta que iria seguir apenas 20 quilómetros na nossa direção. E embora tenhamos aceitado, não estávamos de acordo. Havia de um lado o desejo de deixar para trás aquele lugar; do outro receio de ir para um sítio pior, sem trânsito e sem abrigo. Mas fomos.

Fomos e pelo caminho pediu-nos que apanhássemos um comboio para o nosso destino. É difícil explicar a uma senhora, a uma mãe ou alguém que nunca saiu da sua zona de conforto que a nossa viagem não é feita de autocarros,nem de comboios, nem de táxis. É dificil, e por vezes duro. Para todos.

Porque se alguém acha que é fácil estar à boleia, várias horas, com mochilas de 15 quilos às costas, com neve à volta, e de noite; desengane-se. Não é fácil. Não é (tudo) bonito.

Talvez a culpa seja também nossa, porque quando contamos as histórias, já está tudo tão bem, que o que foi mau fica para trás. Mas não é por isso que deixou de acontecer. Porque aconteceu.

É que no fim, acaba sempre tudo bem! Mas e até lá?

Pois é, quando a senhora nos deixou, numas novas portagens, o frio era implacável. Parecia que nos penetrava! Os narizes pingavam. Em poucos minutos tínhamos as capas das mochilas molhadas. A neve à nossa volta fazia-nos questionar em que país estávamos. Como é que 20 minutos de estrada faz o clima tão diferente?

Esperámos.  E continuámos a espera.

Mamma mia!

Quase gelados, já com meias extra por cima de meias, não percebiamos como é que com carros a passar apenas de 5 e 5 minutos, nenhum queria saber de nós. Até que parou um carro. Abençoado!

Abençoados jovens! Da nossa idade, genuinamente simpáticos. Iam mesmo na nossa direção por mais 60 quilómetros, para esquiar. E foi uma sensação indescritível entrar naquele carro, quentinho e repleto de boas energias.

Quando nos deixaram, despedimo-nos com beijinhos e abraços. Sentimo-los felizes por nos terem ajudado. E nós, uma vez mais, tão, mas tão gratos.

Mas no mesmo instante em que tiravamos as mochilas, parou um carro atrás. Percebeu que éramos viajantes e tentou oferecer-nos boleia a troco de combustível. Uma vez mais, recusámos. Mas por entre a conversa, acabámos por perceber que falávamos todos português e que o senhor era de Angola. Com tamanho patriotismo, quis então ajudar-nos e acabou por nos levar até Mareme, a 8 quilómetros do nosso destino; passava já  das 23:30h.

Foi uma boleia animada. Ia buscar um amigo a Torino, mas queria também muito ajudar-nos. Tanto, que em 5 minutos já queria arranjar-nos uma carta de chamada para visitarmos Luanda! O único senão, dos grandes, foi que nos deixou em plena autoestrada, junto à saída da cidade para onde íamos. E nós, carregados de tralha, e carregados de alegria por estarmos a chegar, caminhámos. Limitámo-nos a caminhar vigorosamente, depois de termos avisado a nossa amiga que estávamos a chegar. Combinámos pois um ponto de encontro numa rotunda que daria acesso à autoestrada, e caminhámos até lá.

Caminhávamos de formá acelerada, que agora que verbalizamos,não sabemos ao certo tudo o que nós movia. Se o desejo de chegar. Se o medo de sermos apanhados pela policía a andar ali. Se o cansaço. Se a alegria. Certo é que fizemos 3 ou mais quilómetros sem questionar um único passo.

Mas já mesmo com a rotunda ao fundo, avistámos luzes azuis. Mamma mia!

E aí corremos. Corremos como se não houvesse amanhã. Não sabemos onde estavam essas forças guardadas, mas o instinto e a sobrevivência são realmente uma força da natureza.

E quando os encontrámos, já os senhores agentes estavam a tentar autuar a nossa amiga por estar estacionada na rotunda. Só que quando ela lhes explicou que esperava por nós, acreditamos que ficaram sem saber o que dizer. Porque ela havia dito a verdade: esperava ali dois amigos vindos de Portugal, à boleia, e que estariam a chegar a pé. De tão milaborante, quando nos viram chegar perto, mesmo com um ar pouco amistoso, limitaram-se a dizer que era proibido caminhar na autoestrada e estar estacionado ali. E seguiram.

E seguimos nós também, felizes! Inacreditavelmente felizes.

Incrédulos com a dificuldade que é andar a boleia em Itália: porque para pouco mais 180 quilómetros, levámos horas infinitas. Um dia, do nascer ao pôr do sol e ao erguer da lua. 180 quilómetros em Portugal fazem-se num punhado de horas. E Portugal não é de todo o paraíso das caronas.

Por Bra ficámos uma noite e um dia. Deliciámo-nos com uma típica família italiana e com uma típica pasta ao almoço. E ao fim do dia de ontem, viemos até Torino. Uma cidade magestosa! Mas que hoje não conseguimos ainda conhecer. É que hoje tínhamos horas de sono, e muitas partilhas, em atraso. Aqui, estamos com um amigo de uma amiga, também couchsurfer e com um mundo de partilhas.

Em breve, seguimos na direção de Milão, de Verona, de Veneza e de Trieste. Com rumo a Liubliana, na Eslovénia – com a certeza de que, dia após dia, somos mais unidos e mais fortes.

Nos entretantos, desejamos uma Páscoa Feliz e vegana a todos os que nos seguem. ❤

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