meio caminho em Mar Negro

Conhecemo-nos no limite. É por isso que às vezes é difícil viajar, viajar durante tanto tempo, viajar sempre com a mesma pessoa e, mais, viajar à boleia.

Descrevemos detalhadamente na apresentação desta nossa aventura (aqui no blogue) o porquê de termos escolhido deslocarmo-nos a dedo. Mas a verdade é que os momentos de espera tanto podem ser de reflexão e paz interior, calma e preserverança; ou brincadeira; como de tensão e desamor.

Não é fácil quando passamos um dia inteiro à boleia e ninguém nos leva. Ou quando chove e não resta nada mais seco em nós. Ou quando não conseguimos chegar ao nosso destino. Não é fácil. E quando o sol se põe e continuamos na estrada, sem rumo, não é fácil.

E é nos momentos em que não é fácil que nos conhecemos: que nos amamos. Que cuidamos.

Estar de mão dada na alegria – qualquer um.

Imaginem-nos insuportáveis. Com muito frio ou com muito calor. Com fome ou com sede. Rabugentos. Azedos. Irritadiços. Impertinentes.

Imaginem-nos embirrentos, cansados. No limite. E é aí mesmo que nos conhecemos.

Respeitar o espaço, saber ajudar, saber estar. Ouvir. Apregoar a paz, mesmo quando em nós próprios troveja.

Mas mesmo em casa, no conforto do lar, temos as nossas nuvens. Quem não as tem? Ninguém vive no sol. Há sempre por aí uma sombrinha. Faz parte e faz sentido. É assim que deve ser e o mais importante é saber fazer o vento soprar. E em viagem não é diferente.
Mas toda a esta conversa até aqui tem um foco muito interessante: as pessoas.

Até aqui, mesmo quando encoberto, não há dia que não se torne solarengo. Quente! Afável!

Parece contraditório, mas tão depressa em viagem pode não ser fácil; como é em viagem que tudo se torna simples. Porque é em viagem que nos pomos em contacto. Em contacto com as pessoas, com a mais bela gente do mundo. São aquelas que se cruzam em nós: as pessoas. As que nos abrem as portas de suas casas. As que nos levam. As que nos acenam. As que nos sorriem. As que nos abraçam.

E chegamos à Turquia. Sim, não é de hoje. Mas o hoje é sempre mais um dia aqui.

Quando chegámos a Samsun não fazíamos ideia do que estava para vir. Sabíamos que em Bolu, a cidade anterior – e posterior a Istambul – havíamos sido tratados com a maior das cortesias. No supermercado, que nem nos lembrássemos de querer pagar a conta; o nosso couchsurfer até levava a mal. Em casa, deu-nos o seu quarto e mudou-se para a sala. Lençóis lavados, toalhas limpas. O seu carro era o nosso carro. Os seus amigos, nossos amigos.

Mas em Samsun, sucedeu-se o mesmo. E aí, aí deixa de ser coincidência ou arte de bem receber.

Chama-se cultura.

De Bolu até Samsun, tal como partilhámos na crónica anterior, a viagem foi muito especial! Começámos por apanhar boleia de um carro para sair da cidade e, mais tarde, para muitas horas de viagem, levou-nos um camionista, no seu grande camião. Carregadíssimo, não permitia grandes velocidades. Mas estávamos em muito boa companhia. A comunicação era rudimentar, mas chegou na hora em que nos quis levar a almoçar fora. Almoçar fora significou oferecer-nos o almoço num belo e típico restaurante de borda de estrada. Pode parecer rude, mas foi do mais gentil que possam imaginar. E não, não foi tarefa difícil arranjar um prato vegetariano! Saboroso. Quis dar-nos o que no seu mundo de melhor tinha! E já depois da noite cair, entretivemo-nos a abrir e comer um grande saco de avelãs: ou tentar! E como muitas sobraram, ainda as ofereceu.

Um coração de ouro!

Já em Samsun, telefonou ao nosso novo couchsurfer e não nos deixou seguir (nem seguiu) sem que ele chegasse.

Sentirmo-nos amados e protegidos como aqui, só mesmo em casa.

Palmilhámos Samsun para a conhecer e encontrámos várias maravilhas. A melhor, a sua “rua Augusta”, em modo turco. Graciosa!

E ante-ontem, quando partimos para Bulancak, não havia preocupações que nos pertencessem.

Viajar na Turquia é uma verdadeira delícia.

Próprio de uma lua de mel. Aliás, é talvez aqui o primeiro lugar onde todos (sem exceção) nos perguntam se somos casados.

Enleações – só no final da viagem.

Mas sabe-nos muito bem dizer que sim: apaixonados!

De Samsun a Bulancak, levámos várias horas. Não que a distância fosse longa, mas voltámos a apanhar boleia de um camião. Aliás, começando pelo princípio: apanhámos para sair da cidade boleia de um carro. Quando começámos a contar a nossa história, acabou por nos explicar entre gestos e fotos que tinha um camião. Pouco depois levou-nos até um armazém e lá mesmo apontou para um pequeno camião. Vermelho. Mercedes. E disse: “Giresun!”. Percebemos que nos tinha então levado ali porque sabia que dali iria partir um camião na nossa direção. E assim foi.

O camionista, típico turco, tinha um tom de voz rouco e alto. Alto no timbre, fazia doer os ouvidos a cada expressão: mas muito entusiasmado. Sorridente, o único problema era mesmo a quantidade de cigarros que fumava a cada cinco minutos! Mas é assim, “quem anda à boleia, sujeita-se” – já dizia o pai José.

Mais uma vez, parou pelo caminho para nos oferecer chá num café de borda de estrada; e não nos deixou sem que o nosso couchsurfer nos fosse buscar (…a história repete-se!)!

A nossa estadia com este couchsurfer foi muito facilitada: professor de inglês, vivia com a mãe e, mais uma vez, fez-nos sentir em casa.

Aprendemos na sua casa que ajudar teria que ficar fora de questão: em Portugal, mesmo quando somos convidados, cabe-nos ajudar, nem que seja a levantar o nosso prato da mesa. Cabe-nos ser prestáveis. Mas aqui, cabe-nos o contrário: ficar sentados, à espera que nos sirvam. E sabe tão estranho! Pior, é que é uma ofensa querer ou tentar ajudar.

Experimentámos levar o nosso prato até à cozinha, e a primeira coisa que ouvimos foi um pedido: para não voltarmos a fazê-lo, pois significaria que a sua mãe não estava a saber receber-nos ou a dar conta do recado.

Aprendemos também que os convidados estão acima deles próprios. Aliás, têm mesmo um provérbio que o diz.

Entretanto, ainda em Istambul tínhamos conhecido uma amiga dos nossos amigos, cuja família vive perto de Giresun. Giresun é uma cidade a 20 quilómetros de Bulancak. Convidaram-nos a visitá-los, com um único senão: turco era a língua possível. Ninguém na aldeia, ou vila, no meio das montanhas e de muito verde, falava uma só palavra de inglês. Mas foi-nos impossível recusar. E ainda bem!

(Até porque entre nós há quem já tenha como sétima língua o turco)

Não sabemos como se explica o amor, como se explica a bondade. Não há explicação senão sentida, porque o que mais queremos é expressar-nos e faltam-nos as palavras.

Passeios pelas vinhas, pelas hortas. Montes e vales. Montanhas. Aldeias. Casas antigas!

Levaram-nos a conhecer cada canto das suas infâncias, por gestos e poucas palavras, cada recanto das suas vidas. Nos olhos carregavam a felicidade de nos receber. E em cada gesto também. Fluíam os abraços, os sorrisos. A gratidão. Prepararam receitas deliciosas. A casa, feita de madeira, encheu-se. Encheu-se de todos aqueles que nos quiseram receber e saudar.

E acendemos a salamandra, partimos avelãs. Torrámo-las. Apanhámos morangos. Lavámos cerejas. Pecados uns atrás dos outros – feitos de gula.

Com o cair da noite, nas nossas almas jazia que também numa casa de madeira nos conhecemos e apaixonámos, pela primeira vez.

Quando o sol ontem nasceu, era dia de voltarmos atrás, a Bulancak. Lá tínhamos deixado as nossas grandes mochilas e também um compromisso: o de irmos ao liceu, no horário da aula de inglês, conversar com os alunos e mostrar-lhes a importância da segunda língua. E por entre risinhos e muita vergonha, correu tudo muito bem!

De missão cumprida, e coração apertado apertadinho, seguimos caminho. Os nossos corações têm sido valentes; mas desgraçados, em cada despedida vêm-se aflitos.
Vales-lhe que se têm um ao outro.

E de Bulancak seguimos até Trabzon, que é de onde escrevemos hoje. Até aqui, apanhámos três boleias. Dois carros e um autocarro (dos pequeninos). Andar à boleia na Turquia é tão descomplicado e tão espontâneo, que é também um verdadeiro prazer: o primeiro carro nem nos deu tempo para pousar nada. Foi só esticar a placa. Curiosamente, era amigo do couchsurfer que nos hospedou em Samsun – pequenino este mundo! A segunda boleia foi então de um autocarro tipo shuttle bus: que até nos custou a crer que queria levar-nos sem pagarmos, mas que assim aconteceu! E a última boleia, não menos importante, foi já na cidade, mas fruto da preguiça de a atravessar por completo para chegar perto da casa do nosso novo couchsurfer.

Este, também médico, cirurgião plástico, acolheu-nos como por aqui tão bem o sabem fazer, e partilhámos o que de melhor em Portugal também nós sabemos fazer: longas e boas conversas, em torno de uma mesa recheada!

Hoje palmilhámos Trabzon e podem as nossas sapatilhas contar como foi: 15 quilómetros sempre a andar, por entre ruas estreitas e escadarias, prédios demolidos e crianças a brincar. Considerámos esta uma cidade suja e desarrumada, mas importa sempre conhecer.

Até porque a costa do Mar Negro tem sido uma verdadeira surpresa. Trazemos em nós admiração e encanto. Trazemo-nos pelo mundo fora com afeição – e sempre com respeito.

Entre nós e com o outro.

Porque o sentimento de bem-querer também se constrói. E só assim prevalece no mundo. Naquele que trazemos na mão e levamos na alma.

São já 5962 quilómetros, com 85 boleias.

São já muitas noites em muitos sofás, muitas camas. Muitas luzes. Muitos lençóis, cobertores e edredons. E dois saco-camas, que se unem num só.

São muitas partilhas. Muitas vivências. Muitas gentes. Muito crescer.

Amanhã caminharemos um pouco mais. Seremos um pouco mais também!

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e depois de Istambul

“Gosta de futebol? Fenerbahçe? Besiktas? Galatarasaray? Portugal, Benfica! Cristiano Ronaldo. Figo. Nani. Çok güzel!”

E assim se começam as mais longas (ou curtas) viagens, as mais longas (ou curtas) conversas. Assim se trocam os primeiros sorrisos. As primeiras gargalhadas!

A espera pelo visto do Uzbequistão em Istambul levou-nos a por lá ficar durante 15 dias; 15 dias que voaram numa cidade assim.

Abraçámos a Turquia e a cultura que por ali aprendemos e começámos a conhecer.

Faz como vires fazer – tornou-se o nosso maior lema. Nem sempre é fácil ou intuitivo, mas corre sempre bem.

Vive-se de leve o receio do terrorismo; esconde-se entre quatro paredes, frases meio faladas e olhares escondidos. Partilha-se que ali é mais perigoso, acolá mais calmo. Mas que nunca se sabe. Evita-se passar por aqui, passear por ali. Aos fins-de-semana deixa-se a cidade e durante a semana finge-se que não se sente. O receio.

Mas ele existe.

Mas a vida continua, lá em Istambul. Não há remédio, nem solução. Há vida para ser vivida.

Foi já na última sexta-feira que optámos por visitar os lugares mais turísticos; as mais belas mesquitas e os mais belos recantos (as fotografias encontram-se no post anterior).

Quando a deixámos para trás, seguimos rumo ao Mar Negro, sem paragem em Ankara. Não foi uma decisão fácil, ponderámos dia após dia. Os maiores conflitos acontecem no Sudeste da Turquia, mas a capital não é agora altura de a visitar: nunca se sabe.

Seguimos então para Bolu, meio caminho para a costa de forma a não fazermos tantos quilómetros num só dia.

O plano seria pernoitar e seguir viagem. Não que estejamos “atrasados”, mas há sede de andar! E chegar a Bolu foi fácil. Não, fácil não é de todo a palavra certa; foi…

Saímos de casa completamente fora de horas. Preparar lanche. Almoço. Trocar roupa; de inverno no fundo, verão por cima. Fechar mochilas. Água. Saco das tralhas. (…) O turno da manhã já lá ia, e quem nos conhece bem consegue imaginar como foi! Um corre corre para despachar e um soninho descansado para acalmar. Os opostos atraem-se, não é?

Caminhámos de casa até onde sabíamos que nos iríamos por à boleia. Lá, esticámos os dedos e a nossa placa. E do alto de uma via que passava mais à frente, pudemos avistar um taxista a acenar.

Os táxis levam os seus dias a buzinar-nos. A ideia é transmitir-nos que estão livres e que nos podem levar. Mas longe de nós apanhar um. Tentámos por gestos recusar. Mostrámos a placa. Gritámos “autostop”. Mas nada. Continuava ali, a acenar-nos.

Agarrámos nas mochilas e subimos. Não tínhamos alternativa, com tamanha insistência.

Era realmente um táxi e um taxista; mas não queria dinheiro. Queria ajudar-nos! Queria levar-nos! Dar-nos boleia. E deu! E a primeira boleia do dia foi então de um taxista, que recheado de bondade e simpatia nos levou até à autoestrada. Tendo em conta que de diâmetro Istambul tem (imaginemos) 200 quilómetros, estávamos ainda no centro, mas estávamos totalmente encaminhados.

Não que tivéssemos tido tempo para conversar, mas sabíamo-nos felizes. O silêncio entre nós é cúmplice e denuncia-se. Tal como nós dois.

A primeira coisa que avistámos, foi um carro da polícia. E a primeira coisa que o senhor agente fez quando nos viu, foi saudar-nos! Sim. Saber de onde éramos, para onde íamos. Sorrir-nos e oferecer-se para nos levar a passear. Acenar-nos e desejar-nos boa sorte e boa viagem! Sim, em pela autoestrada. Turkish style!

Ali a pedir boleia não estávamos nada seguros. Também ao Turkish style pertence o caus no trânsito. Qualquer berma serve de faixa. Todo o carro lento leva uma buzinadela. Ultrapassagem que é ultrapassagem tanto se faz pela esquerda como pela direita. E acelerar mesmo quando está tudo parado é o melhor truque para se arranjar um espacinho a mais lá à frente. Portanto, volta e meia, e tínhamos que nos encolher porque (na berma) lá vinha alguém disparado.

Ainda assim, foi graças a este belo estilo que um camião atravessou duas faixas para parar e nos levar. Se achávamos que era possível? Não! Se aconteceu? Sim!

E ainda bem, porque nos levou por várias horas e praticamente até à porta de casa. Pelo caminho, ainda parou para nos oferecer um chá, o que por aqui é mais comum que o café em Portugal.

Já em Bolu sabemos bem o que parecíamos: cheios de tralha e sacos e saquinhos e mochilas e mochilinhas! Mas estávamos muito muito perto da morada que tínhamos. Ainda assim, não foi fácil encontrar o nosso couchsurfer, mas na rua um senhor ajudou-nos de bom grado. E embora seja muito difícil (e raro) encontrar alguém que fale ou perceba inglês, aqui o mestre das línguas já se inteirou do turco também, e por isso conseguimos desenrascar-nos sem grande esforço. Mas, claro, a grande questão prende-se com a hospitalidade das pessoas!

E a noite que íamos passar em Bolu, transformou-se. Acabámos por ficar 3 noites e mais ainda se estenderia se assim o quiséssemos.

Médico, o nosso couchsurfer trabalhava durante o dia; mas garantiu que uma amiga (que falava inglês!) nos guiaria e levaria a conhecer a cidade e redondezas. Com algum constrangimento no início, sabemos que desta estadia resultou uma grande amizade. Há pessoas que têm o coração no lugar certo é sempre com espaço para mais agúem. Há pessoas que dão o que têm e não têm e ainda arranjam mais para dar. Assim foi.

Passeámos. Cozinhámos. Vimos futebol. Respirámos natureza. Cantámos. Aprendemos. Partilhámos. Que difícil é descrever! E que bom foi viver.

Aproveitámos ainda a ajuda imensa hospitalar e fizemos análises; que isto de ser vegetariano é muito mais que uma seita (como a mãezinha Alexandra gosta de chamar!). É cuidar e saber cuidar!

E no fim ainda fomos a casa de amigos, com amigos e família, para um serão verdadeiramente turco. Para nós, é mesmo isto que nos preenche. Fazer parte. Penetrar esta gente. Viver na cultura, pertencer-lhes e fazer como fazem. Descalçar os sapatos a porta. Ir à casa de banho numa latrina. Beber muito chá turco. Numa tulipa. Comer salgados, doces típicos. Batatas cozidas. Café turco, com um copo de água. Bolas de amendoins. Pevides. E no fim, receber um lenço para cobrir o cabelo; porque querem que nos relembremos deles no futuro e durante a nossa jornada. É ou não é isto o mais lindo lado da vida? Deixarmo-nos viver no outro. Nos sonhos do outro!

Mas de avião e em hotéis nada disto seria possível. Podíamos conhecer muito, mas não podíamos viver tanto! E em tom de brincadeira, os nossos amigos agradeceram por não sermos ricos e termos optado por conhecê-los. Mas a verdade é que nunca nenhuma quantia pagaria o que vivemos. E às vezes o mais estranho está no facto de as pessoas nos agradecerem por as termos vindo visitar. Como se não fosse o contrário: nós gratos por nos abrirem as portas de suas casas e as janelas das suas vidas!

E assim nos despedimos de Bolu hoje. Com um pequeno pormenor: aqui é ainda inverno. 16 graus voltam a ser a máxima. Chuva. Granizo. Muita chuva. Trovoada. E fresquinho! Valeu a pena despejar as mochilas e reorganizar para o calor. 🙂 Ai mundo mundo.

E hoje já com as estrelas no céu chegámos a Samsun: e se nos puséssemos agora a contar como foi, nem amanhã terminaríamos. Mais tarde o faremos. Mas uma coisa é certa, estamos hoje mais ricos que ontem. Muito mais.

E mais felizes (somos) também!

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a magia de ISTAMBUL

Há tanto sobre Istambul para contar, que o mínimo é mesmo a forma como aqui chegámos. Mas como as histórias se começam pelo princípio, não podemos fazê-lo diferente.

(Mas apetece-nos muito)

Fez no sábado uma semana que chegámos: partimos de Alexandroupoli, na Grécia, já tarde. Tarde, não. De tarde. Não era suposto, mas descobrimos pela manhã que não poderíamos tirar o visto da Turquia na fronteira – hoje em dia é online e chama-se e-visa. Lá está, o mundo gira, não pára, e nós andamos com ele. Acabámos por nos defrontar com alguns problemas logísticos, como o pagamento do mesmo atraves da Internet, sem MBnet feito… pensamos que conseguirão imaginar.

Bom, quando nos fizemos à estrada, era já hora de estarmos a chegar a Istambul – no nosso pensamento!

Ainda no centro da cidade, e mesmo em jeito de brincadeira, iamos andando de costas e de dedo esticado. Entre nós, trocavamos sorrisos e malandrices, gritávamos aos ventos que sabíamos que se na Grécia nos viamos gregos para andar à boleia; na cidade nem valia a pena tentar. Mas brincar também faz parte! Testar também faz parte.

E supresa das supresas: encostou uma senhora que nos levou até à entrada da autoestrada.

Não adianta dizer que era simpática, que foi um anjo ou que tudo o que nos partilhou nos foi gratificante. Não adianta porque naquele momento estávamos vidrados: vidrados no que tinha acabado de acontecer. E quando nos deixou, rimo-nos. De nos próprios. Um do outro! Rimo-nos por entre sorrisos e gargalhadas soltas.

Afinal, moral da história. Podemos achar que nos vemos gregos na Grécia e na Itália; mas também pode ser um verdadeiro mar de rosas. Aqui, ali, ou em qualquer parte do mundo: depende apenas (e só) daqueles que se cruzam no nosso caminho.

À entrada da autoesta acabámos por esperar algum tempo. Mais de uma hora decerto.

Não havia muito trânsito; e os carros que por nós passavam, nem para nós olhavam. Mas a nossa aura era verdadeiramente positiva, estávamos confiantes. Limitámo-nos a esperar. Como sempre. E como sempre também, acabou por parar um carro.

Trazia o sonho de viajar pela Europa a pedalar. Ciclista de coração, pesavam-lhe agora os seus mais de 50 anos e a frustração associada à idade. Lembrámo-lo que a idade só traz experiência; não nos impede de nada.

E como muıtas vezes por aí lemos (e sentimos – como sendo prova disso): quem quer realizar um sonho, arranja uma maneira de o fazer. Quem não quer, arranja várias desculpas.

Deixou-nos em plena autoestrada, antes mesmo de sair desta com rumo ao seu destino.

Lá, ficámos de pé atrás. A Grécia pertence à União Europeia, é suposto que as regras não sejam assim tão divergentes daquelas a que estamos habituados. E por isso, estar à boleia em plena autoestrada não parecia grande ideia. Mas não demorou muito até que passassem por nós dois carros de polícia. E nada.

Estávamos portanto a nosso belo prazer.

Ali ficámos por várias horas e por ali assistimos a tudo. Na autoestrada, vimos carros parar, carros em marcha-atrás e até pessoas a encostar, sair e pedir informações (a nós dois, com certeza).

Uma panóplia infindável de contraordenações. Pérolas – ainda na Grécia.

Ali mesmo conseguimos a terceira boleia do dia. E última! Um jovem da Geórgia parou. Apressamo-nos a entrar e foram precisos apenas 2 minutos para nos sentirmos confortáveis. E descansados.

Falava com alguma dificuldade, mas não por falta de competências linguísticas: tinha uma cicatriz indicativa de fenda do palato, já sarada, mas que influenciava a dicção. Mas nem por isso nos entendemos menos bem.

Caminhámos juntos até ao centro de Istambul. Mas até lá, foram 250 quilómetros de muitas aventuras.

A maior, na fronteira. Ultrapassámos juntos cinco postos de controle, todos eles exigentes e minuciosos. E revistaram tudo, até mesmo as nossas mochilas. É por isso que atravessar uma fronteira não tem como não ser um momento tenso. Mais, quando a comunicação se faz rudimentar e onde o inglês deixa de ser um porto de abrigo. No fim, respiramos sempre de alívio – mesmo quando não há por que temer.

Foi com pena que nos deixou na via rápida que atravessa Istambul e segue com destino a Geórgia. Sim, naquele dia (ou naquela noite), tinha ainda mais de 1500 quilómetros para fazer. Parece surreal, mas é assim mesmo. E por isso, nós dois, éramos companhia e conversa e partilha para cada hora da longa viagem que estava ainda por vir.

Mas a nossa caminhada é assim; e a pior parte dela é mesmo termos de dizer adeus. Controverso: são as pessoas que fazem valer a pena e são as pessoas quem deixamos para trás.

Mas menos controverso é o facto de rechearmos assim os nossos corações: só se sente saudade e aperto quando se gosta. Gostamo-nos muito e trazemo-nos sempre por perto; mas temos também gostado muito de todos os que se têm cruzado em nós!

Esta jornada não é só a do mundo na mão. É também a do amor no mundo e entre as nossas mãos.

E aqui em Istambul não tem sido diferente.

Se tivermos de descrever até aqui a nossa estadia, há uma palavra que lhe assenta: luxo. Temos sido afortunados.

Estamos há mais de 10 dias a viver com uma família turca, nascida e criada em
Istambul; numa casa linda e recheados de amor. Nao há forma mais bonita e completa de conhecer uma cultura e de viver uma cidade. Um verdadeiro luxo.

E não é cliché quando dizemos que nos têm dado tudo. Porque têm mesmo! E ainda mais um bocadinho. Desde passeios, jantares, encontros de família, almoços, viagens, partilhas… “Auuff” – como por aqui se diz.

Quando pensamos que falta já pouco para termos o nosso visto para o Uzebequistao (sim, é à ele que devemos esta longa estadia), ficamos até divididos: queremos muito partir, mas estava a ser tão bom ficar.. 😊

A magia que aqui presenciamos não percebemos ainda a que se deve. Talvez aos nossos arkadaslar (amigos). Talvez à cidade em si. Talvez à mistura, à diferença. À magia! Há tantas característica que valem a pena ser partilhadas, que é difícil sintetizar. Melhor, vivendo.

Os sapatos não entram em casa. Ficam à porta. Há chinelos para todos, ninguém tem de se preocupar! E por isso, andar descalço é decerto como pisar nuvens no céu.

Despedem-se com um abraço e muitos sorrisos. E güle güle!

Andar pelas ruas mais movimentadas é uma aventura. Não param quando alguém está parado para atravessar a passadeira. A única solução é tentar a sorte e pisar a estrada. E hão-de parar – esperamos nós e esperam todos! E Istambul é uma cidade tão grande que equivale a 50 Lisboas. Sim. 50.

É tanta gente, tanto trânsito, que da periferia ao centro, um percurso de 15 minutos leva 2 horas. Sempre!

Istambul, cidade, permite-nos ir da Europa à Ásia. Literalmente. Divide-se por uma ponte. E as diferenças sentem-se!

Entretanto, vive-se e sente-se o medo dos atentados, mesmo que ninguém fale abertamente sobre o assunto (ainda assim os mais próximos confirmam-no por entre os conselhos mais sábios).

Embora a maioria da população seja muçulmana, percebe-se que a prática do Islamismo é bastante peculiar. A religião adaptou-se aos tempos modernos e as demais religiões são respeitadas.

Cinco vezes por dia é cantanda nas mesquitas e para toda a cidade uma reza em árabe; nesse momento cabe a todos respeitar o som. Quem está deitado, senta-se. Quem está refastelado, endireita-se. Quem está a ouvir música, desliga-a. Para os mais religiosos, é um momento de reza. Para todos os outros é um momento de respeito.

De qualquer forma é tão comum ver alguém de alças, como coberta da cabeça aos pés. Mas mais comum é o lenço na cabeça ou o hijab. Até à pouco, era proíbido entrar na escola, ou na faculdade, assim. Hoje em dia foi liberado.

Por aqui, o vegetarianismo é difícil de entender: explicaram-nos que o Corão diz que os animais são o alimento do homem. Têm uma vasta cozinha tradicional (e são várias as iguarias vegan, sem que pensem nisso!). Deixámo-nos apaixonar pelas receitas com bulgur, lentilhas ou leguminosas. Uma típica e deliciosa é o Çiğ köfte, é amassado à mão, come-se frio, embrulhado num wrapp ou numa folha de alface, com umas gotas de limão. Também sobre o assunto e a título de curiosidade: o tofu custa 24tl por 200g, o que equivale a perto de 7€.

No que toca a dinheiro, moeda é a lira turca (tl) e as moedas fazem lembrar euros. A economia embora também baseada em mercados de rua, sustenta-se claramente em superfícies comerciais. Nos supermercados, é possível e normal encontrar pessoas com os seus próprios negócios pessoais; e gritam como se numa feira estivessem, incentivando a compra dos seus produtos.

Mas entretanto, é difícil encontrar alguém que fale inglês, mesmo que se trate de gente jovem. Pedir indicações, ajuda numa loja ou fazer compras é uma aventura.

Por fim, existem ainda duas tradições que nos marc(ar)am:

Por cortesia, cabe aos homens cumprimentar as senhoras mais idosas com um beijo na mão; depois a mão deve ser levada à testa e pode então dar-se os dois beijinhos habituais.

Por bem-estar, bebem chá preto pelo menos 3 vezes ao dia. É fervido puro e só no copo diluído em água. É servido num copo em forma de túlipa. Sempre que alguém termina, é de imediato oferecido outro.

E por entre fantasias, assim se vive em Istambul.

Fascinante. Encantadora. Sedutora.

Misteriosa.

Mais uma, pelo mundo, que marca a nossa (linda) história. E que fica na história da gente.

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