Verona e dopo Venezia

Torino, una bella citta!

E não encontrámos só uma bela cidade, como uma bela casa, onde fomos acolhidos com tudo o que de melhor poderíamos desejar. Amigos de amigos, que magia! Fazia sol pela manhã, quando a deixámos, bela ainda.

Entusiasmados com a partida para Verona, mas receosos. Viajar à boleia por Itália parece um verdadeiro enigma: não sabemos o que leva cada condutor a virar a cara ou a ignorar a nossa presença, a nossa mão, a nossa placa. Mas sabemos que o fazem, melhor que ninguém.

Aliás, depois do primeiro contacto – onde estivemos 6 horas, que nem inergumes, a ser ignorados – percebemos como iriam ser estes próximos dias. Mas, se a paciência nos faz sábios; a tolerância faz-nos fortes. E tudo o que precisamos nesta viagem é de força: força para seguir, força para não esmorecer, força para lutar, força para ser mais e melhor. Força. E juntos, somos uma força muito especial!

Ainda no centro de Torino, e com alguma fraqueza no que respeita a fazer 4 quilómetros a pé para abandonar a cidade, de mochilas às costas e tralhas infindáveis, decidimos por-nos à boleia. Ali mesmo.

Olhavamo-nos, olhos nos olhos. E sabíamos perfeitamente que não é no meio de uma cidade que uma boleia aparece. Sabiamo-lo de cor. Mas parecíamos enraizados: os carros passavam e passavam, e continuávamos à espera da nossa sorte. E ainda bem, porque ela chegou. Chegou num carro, com um casal! Ela Romena, ele Italiano. Viram na nossa placa “TANGZ”, e perceberam que queríamos ir apenas até à entrada da tangencial, uma espécie de autoestrada. E assim – inesperadamente! – conseguimos o nosso bilhete de saída de Torino; a cidade do ‘Tourozinho’.

Mas a passagem não estava completa.

À entrada da tangencial, esperámos mais de 1 hora. Talvez quase 2! Minutos e mais minutos, com pouca esperança e muita certeza: avistava-se um longo dia.

Mas havia força. Corações fortes.

E quando menos esperávamos, escondemos a placa que tinha o nosso destino (porque às vezes é preciso mudar algo para dar certo), e parou uma carrinha. Um senhor Egípcio, levou-nos até à primeira estação de serviço, dentro já da autoestrada. Às vezes é assim, para avançar não interessa bem para onde vão, desde que nos ajudem a avançar para um lugar mais estratégico: uma bomba de gasolina, claro. E no fim, enquanto nos despedíamos, ainda nos ofereceu 4 das suas maçãs, como farnel para a nossa viagem. Porque quando menos esperamos, é assim, brota a bondade humana.

Confiantes e mais animados, depois destas duas boleias não tão morosas, abordámos todas as pessoas que víamos pelo restaurante da área. Uma por uma. Dezenas. Muitas. Carros cheios, carros de empresas, outras direções, medos; ouvimos de tudo. Mas sempre com o mesmo desfecho: não podiam levar-nos. E como sempre, ainda apareceu que oferecesse lugar para um: mas recusámos e recusaremos sempre.

Porque é juntos que somos a força.

O amor.

E mantivemo-nos atentos até aparecer um senhor que aceitou levar-nos, mesmo com duas cadeiras de bebé atrás e muitas coisas no carro. Parecia mais tímido que assustado, mais envergonhado que incomodado. Mas de sorriso acanhado, arrumou tudo de forma a que coubéssemos e ficássemos o mais confortáveis possível. E arrumou também todas as ideias durante a viagem, enquanto lhe explicámos esta nossa aventura.

Foram poucos quilómetros (ainda que tenha dado para um sono profundo!), e acabou por deixar-nos numa nova estação de serviço. Aqui por Itália todas as que temos encontrado têm restaurante, o que nos ajudou por ser hora de almoço.

Mas aí, cada tiro, seu melro. Difícil.

Arriscaríamos dizer que 70% foi dizendo que não ia na nossa direção. E 20% tinha o carro cheio. Mas, andar à boleia é assim.

Com calma, só temos de esperar. Porque cedo ou tarde, alguém nos leva. E como nesta viagem, trocámos o relógio pelo bater do nosso coração, tempo é tudo o que temos.

Acabámos assim por abordar um jovem, que sem grande pensar, assumiu ir na nossa direção. No entanto, enquanto decidia se nos levaria – ou não, falando com a sua esposa, fomos perguntando na mesma a quem passava. Sabíamos que, caso aceitassem dar-nos boleia, nos iriam deixar a 150 quilómetros de casa. Mas não deixava de ser uma boa ajuda! Por isso, continuávamos a perguntar, mas só os trocaríamos caso alguém fosse para perto de Verona.

E, nos entretantos, passou por nós um casal jovem e sorridente. Emanavam uma simpatia incomum por aqui! Emanavam uma energia doce e boa de sentir! E foi quando lhes falámos, que disseram ir mesmo para pertinho do nosso destino.

Pelo caminho conversámos em Inglês: uma zona de conforto para os 4. E foi bom, foi bom porque partilhámos 200 quilómetros de vivências, de histórias, de vida. E eles vão casar em breve. E vão em lua de mel também em breve. E vão viajar muito também em breve. E é então fácil perceber como nos ligámos.

Deixaram-nos depois a 15 quilómetros de casa; da casa da nossa segunda Couchsurfer. Uma jovem que, embora tenha rejeitado o nosso pedido, disse alojar-nos caso não tivéssemos outra alternativa ou resposta positiva, pois havia gostado da nossa mensagem. Pois a ela, só podemos estar gratos!

A ela e a todos os que se cruzam no nosso caminho; até mesmo aqueles que viram a cara e fingem não nos ouvir (quando lhes perguntamos se vão na nossa direção). Porque mesmo aos maus bocados estamos gratos. Gratos pela aprendizagem.

Quando nos deixaram na estação de serviço, pouco antes de Verona, o sol já estava baixo. No lusco-fusco. Percebemos que ali estávamos um pouco perdidos. Dificilmente alguém com o nosso destino pararia a tão poucos quilómetros de casa. Mas não nos restava outra opção senão perguntar a todos os que víamos, se nos poderiam levar. Bom, poderíamos sempre caminhar, claro está. 3 a 4 horas e chegaríamos. Mas na autoestrada não é possível. De todo.

Portanto, boca, para que te queremos?

Não, não foi nada fácil. É que, ali, nem nos olhavam. Faziam desvios infinitos só para nos contornarem. Se olhavam, era de esguelha. Outrora, até podíamos cheirar mal ou ter mau aspeto, mas não demos por isso. 🙂

Acabámos depois por receber uma mensagem da nossa couchsurfer dizendo que nos poderia ir buscar, se lhe explicássemos onde estávamos concretamente. Mas, mas só para que conseguisse chegar ao nosso lado, implicaria além de quilómetros, portagens.

Foi então que ao passar de mais um senhor, lhe perguntámos se iria na nossa direção. Disse que não. E posteriormente acrescentou que já estavam 4 num carro. Mas insistimos pedindo ajuda para explicar à nossa amiga onde nos poderia ir buscar. Conversa e explicações à parte, e no fim já estava a família ali reunida; esposa, filhas e cachorro. E no fim dos fins, o carro tinha 6 lugares, e quis levar-nos!

Pelo caminho, ouvimos as suas histórias além-fronteiras e falámos sobre ‘O mundo na mão’. Foi tudo tão espontâneo, que quando nos deixou, ainda nos ofereceu uma garrafa de vinho, dois abraços, uma foto e a promessa de um novo encontro, em Portugal!

Estávamos assim na cidade do amor, do Romeu e da Julieta. E com pouco mais de 30 minutos caminhando, estávamos em casa! Doce e acolhedora. Com um jantar vegan acabadinho de fazer e que nos consolou de quentinho e saboroso.

E quando o despertador tocou na manhã seguinte, estávamos novos e fresquinhos. Claro, aceitaríamos ficar na cama por mais um par de horas, mas estávamos prontos para conhecer a linda cidade de Verona, todos os seus encantos e ainda a casa de Romeu e Giulieta.

E assim foi, encantador; mas não mais que o que estava para vir.

A primeira boleia para Veneza foi difícil de obter. Não que tenhamos estado muito tempo à espera, mas fizemos vários quilómetros e mudámos várias vezes de sítio. Pedimos boleia, pelo menos, em 3 lugares diferentes. Nenhum nos parecia bem, em nenhum sentíamos que ia dar certo. Então mudámo-nos várias vezes. E já não era só os ombros que nos doíam: eram também as pernas. Era também o cansaço no pensamento, mais que no corpo, porque o desgaste não se faz só fisicamente. Às vezes, acreditar é a única solução para ter força. E a melhor.

Já várias horas depois entre caminhadas e esperas, chegámos ao limite (não nosso): estávamos à entrada da autoestrada que seguia para Milão e Veneza. E dali, não podíamos passar.

Ouvimos ainda que em Itália é proibido andar à boleia, como já antes havíamos ouvido. Mas essa proibição é estritamente relativa às vias rápidas, e isso é aqui na Itália e em todo o lado. E depois da polícia passar várias vezes por nós, deixámos-nos estar, tranquilos. Ou ansiosos, por sair dali.

Mas aí, a espera não foi morosa. Encostou um carro, e conduzia-o um senhor muito simpático. Percebemos depressa que pela sua pronúncia a falar inglês não seria Italiano, e não era. Era Estado Unidense e muito conversador!

Levou-nos pois até uma estação de serviço, ainda na autoestrada. E agora o suposto seria dizermos que por lá ficámos tempo infinito porque estávamos em terras italianas, e que como tal, pedir boleia é um verdadeiro martírio. Mas não foi.

Não foi nada disso. Para nossa grande surpresa, foi tudo num piscar de olhos. Talvez tenha sido a terceira ou quarta pessoa que abordámos. ‘Mi scusi , stai andando in direzione a Venezia?, e de pronto ouvimos ‘Andiamo, vine!’. E fomos! Era um jovem, e nem hesitou em ajudar-nos. Passou grande parte da viagem a tratar de negócios seus pelo telefone, mas pelos intervalos, pudemos conhecer-nos.

E sorrimos, incrédulos ainda e felizes, quando nos deixou. Deixou-nos a uma ponte de distância de Veneza. Sim, tínhamos somente que atravessar a grande ponte que permite chegar à ilha de Veneza. Tínhamos hipótese de apanhar o comboio ou apanhar uma nova boleia. Mas foi fácil decidir, tão fácil. O sol não raiava, mas permanecia lá em cima, escondido por entre as nuvens. Iluminava-nos ainda. Tanto quanto o nosso bem estar.

Decidimos por isso continuar como até então: de dedo esticado. Resolvemos colocar-nos entre o fim da estação de serviço e a entrada da autoestrada. E não demorou até conseguirmos uma nova, e a última, boleia. Estávamos perplexos. Boquiabertos.

Incrédulos. Do 8 ao 80.

Tinha 60 anos, e havia viajado muito à boleia em Itália pela sua juventude fora. Estava tão feliz por nos levar, quando nós por estarmos a chegar em tão boa companhia. A boa vontade deste senhor, o seu bem-querer perante nós; é inexplicável. Os seus olhos jubilosos, partilhavam entre nós a saudade que guardavam das suas aventuras. E até mesmo para nos despedimos foi demorado. Havia tanto para partilhar, tanto por dizer, que dava pena seguir em frente.

Mas não foi só nesta despedida que o sentimos.

Sentimos pesar em todas as despedidas que fizemos até hoje. E começaram até antes da partida. Mas neste caminho, deixar para trás aqueles que deixaram algo em nós, custa. Em cada adeus, ou até já, o nosso coração lateja. Lateja mais do que bate. Porque fica apertado, apertadinho.

É duro, mas ouvimos por aí dizer que faz parte. E faz: faz-nos mais fortes.

Hoje, não só palmilhámos Veneza (sim, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não é preciso andar de gôndola ou de barco para conhecer esta cidade!), como ainda reencontrámos um amigo de viagem e fizemos um grande e lindo jantar para os amigos que nos estão a hospedar.

Pela noite adentro, deixámo-nos apaixonar pelo mar por entre cada rua estreita, e por cada reflexo de luz nele feito.

Amanhã seguimos com rumo à fronteira, e pernoitaremos em Trieste. Depois, a seu tempo, chegaremos a Liubliana, na Eslovénia. Depois virá a Croácia, a Sérvia, a Macedónia e por aí fora. Virão mais quilómetros. Virão mais pessoas. Virá mais amor.

De 49 boleias até então, virão também mais, muitas mais. E virá o Mundo.

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Mamma mia!

Mamma mia! 

Faz já alguns dias que escrever tem ficado para segundo plano. Não que nos tenhamos esquecido, não que não tenhamos vontade de escrever. Mas porque os dias têm tido poucas horas para tudo o que temos vivido.

Dia 25, ainda no turno da manhã (e pela primeira vez!), saímos de Cannes, com o objetivo de chegar ao Mónaco. Este país, embora pequenino, é um verdadeiro mundo deslumbrante. E por isso decidimos ir até lá durante o dia e regrassar à noite para Nice, onde pela primeira vez nesta viagem utilizámos o couchsurfing.

Pouco passava das 9:00h e já o sol estava muito quente. Sentíamos os ombros quentes e desejosos de largar as mochilas, mas a primeira boleia do dia não tardou assim tanto. Era um senhor sorridente que, depois de ter estado a viver no Brasil, nos cumprimentou com um “Olá!”. A boleia foi curta, mas a conversa animada! Deixou-nos depois numa nova entrada para a autoestrada que seguia com direção ao nosso destino.

Lá,  conseguimos a segunda boleia e direta para o Mónaco. Um Mercedes, dos grandes. Confortável e alto, de onde se avistava o mar e toda a paisagem a que tínhamos direito. As partilhas foram tantas, que tivemos até pena de deixar o carro. Os assuntos comuns, os gotos, as histórias; foi gracioso.

O Mónaco, palmilhamo-lo de cima a baixo. Com mais ou menos cansaço, entre a beira-mar, o casino, o porto ou os jardins; conseguimos por 1 hora ter onde deixar as mochilas, o que nos aliviou e deixou mais à vontade. A verdade é que com toda a instabilidade deste mundo, não é fácil que aceitem guardar as nossas tralhas. Mas, no fundo, tivemos sorte.

Já ao final do dia, de depois de algumas aventuras juntos, tratámos de regrassar para Nice, onde queríamos pernoitar e onde nos esperava uma couchsurfer. Mas foi quando nos tentámos pôr ali à boleia, que percebemos que no Mónaco era proibido fazê-lo. Já nos tinham tentado avisar, mas nenhum de nós havia percebido!! Afinal, tinham-nos dito que deveríamos ir para depois da fronteira, mas até lá apenas tínhamos compreendido que um bom sítio para pedir boleia seria uma rua “…..border“. Que dois.

Caminhámos então, montanha acima, até que vimos uns caixotes do lixo com indicação francesa, podendo nós decerto a partir daí pedir boleia.

Bandeira de Portugal às costas, e enquanto esperavamos, percebemos que a sinalizar o trânsito estava um português! Saudou-nos, desejou-nos boa sorte. E pois que a tivemos! Não queremos mentir, mas foi muito rápido! Duas senhoras, meia idade. E iam mesmo para Nice e para a mesma zona da cidade!

À chegada, e assim que deixámos o carro, deparámo-nos com leões enjaulados. Cães. Animais. Era um  circo. Que triste. Ficámos triste com este primeiro impacto, que claro, poderia ter sido em qualquer outro lado, ou infelizmente, até mesmo em Portugal. Que infelicidade. Que mágoa. Como podem ainda algumas pessoas acreditar que os animais ali são bem tratados? Que são felizes no circo?

E seguimos. Seguimos com aquela imagem latente no pensamento. E na alma.

Demos uma pequena volta por Nice, já com as estrelas no céu e com o peso das mochilas insuportável. E terminámos numa casa acolhedora, com um manjar dos deuses português – alho francês à Brás e cogumelos grelhados, e uma companhia muito agradável!

Na manhã seguinte, o sol raiava pela janela do quarto. Pouco passava das 6 horas da manhã e já a luminosidade era forte, tão forte que nos despertava dos sonhos e nos fazia confirmar constantemente o relógio.

Pouco passava das 10 horas, e estávamos novamente à boleia. Caminhámos pouco para sair de Nice. Pouco porque em França encontrámos com muita facilidade ruas onde é proibido caminhar. Proibido para segurança das pessoas, mas não deixa de ser proibido. O que nos leva a ter de ir dar uma grande volta, ou a ter de esperar pacientemente no início da estrada, ou rua.

Neste caso, o lugar não era o melhor, mas não tínhamos para onde ir. Era naquela direção que estava a estrada que queríamos apanhar para seguir caminho, e por isso limitámo-nos a esticar o dedo.

E no imediato, parou um carro! Nem estávamos bem atentos ou prontos, ou à espera que acontecesse. E no carro, estava apenas uma senhora, com um hijab – espécie de véu que as muçulmanas usam, que lhes cobre o cabelo, orelhas e pescoço. Envergonhada, mas amável. As palavras não lhe fluíam, mas o olhar era ternurento. Ter parado, demonstrava a sua generosidade. Porque no fundo, não nos levou para longe; mas deixou-nos mesmo à entrada da autoestrada que seguia para Itália. E era mesmo em Itália que tínhamos a próxima casa. A próxima família. O próximo destino.

Da entrada da autoestrada, conseguimos outra boleia. Desta, era um jovem numa carrinha, que havia reconhecido a nossa bandeira por já ter estado no festival BOOM – e bom, nunca pensámos que este festival fosse tão internacional. Deixou-nos depois, numa estação de serviço,  já a poucos quilómetros da fronteira.

E lá pernacemos ainda uma hora, ou um pouco mais. Muitos dos que por ali passavam iam apenas a um mercado perto da fronteira e fora da nossa rota. Muitos eram já Italianos e não tanto acolhedores. Muitos iam com o carro cheio.

E decidimos deslocar-nos para o fim da estação, para petiscar alguma coisa e ao mesmo tempo esticar o dedo. Ali, não tínhamos placa. Não adiantava, porque se escevessemos uma cidade, a maior parte não conhecia. Se escrevessemos Itália, era desperdiçar cartao: por ali, não tinham hipótese, todos iam passar a fronteira.

Estavamos por isso, é literalmente, com o mundo na mão. Dependia do nosso dedinho, esticado, seguir mundo fora.

E dependia também do nosso estado de espírito. Da nossa vontade. Dos nossos desejos.

Sorrisos esperançados, ainda o dia ia a meio.

Pararam depois vários camiões. E estranhámos. Sabiam que éramos dois, e mesmo assim paravam – o que ocidentalmente não é comum. Mas como eram romenos, achámos possivel. Os dois primeiros, embora a comunicação fosse rudimentar, acabaram por dizer que não iam na nossa direção dentro de Itália , mas o último foi o que se fez entender melhor. Infelizmente, gesticulou que esperava favores sexuais ao levar-nos. Ou mesmo que não fosse a troco da boleia, achou que os incluiría.

E aí, sentimo-nos pequeninos, pequeninos. Agonizados. E consciencializados do motivo pelo qual todos estavam a parar…

Acabámos por nos deslocar para a a zona de abastecimento e abordámos as pessoas. Pode levar mais tempo, ou menos, nunca sabemos. Mas a crença é simples: cabe a nós escolher a quem perguntamos e alguém nos há-de levar. E assim foi! Conseguimos boleia para Savona, que ficava depois a pouco mais de 100km de Bra – uma pequena cidade antes de Torino, onde uma amiga nos esperava. Levaram-nos dois jovens da casa dos 40, e um deles estava a concluir a sua volta ao mundo: imaginam pois a quantas partilhas deu aso. Maravilhoso!

Já em Savona, acabámos por por ficar numa outra estação de serviço,  mesmo antes da nova autoestrada onde pretendíamos seguir. Aí, como sabíamos perfeitamente qual a direção, optámospor escever na placa “A6 TO” – autoestrada 6 com direção a Torino e colocar-nos no fim da estação; pois na bomba havia também restaurante, e quando abordavamos uma pessoas, perdíamos outras.

No fim da estação estivemos talvez 2 horas, até aparecer um viajante Eslovaco – como nós, que além de humilde, queria ajudar-nos. Entre Italiano, Francês e Espanhol, com um verdadeiro mix de línguas, conseguiu explicar-nos que havia um sitio um pouco melhor para estarmos; e acabou por levar-nos até lá!

Lá, eram as portagens. As portagens que davam  acesso à autoestrada e onde era permitido estarmos. Lá, os carros tinham espaço para parar. Lá, estávamos abrigados. Lá, tinha luzes (caso escurecesse). Era realmente melhor! Mas foi lá que permanecemos mais 4 horas.

Mamma mia!

Valia-nos que agora, com tamanha modernice, em todo lado encontrámos wifi. E ali, não era exceção. Conseguíamos por isso estar conectados, e a receber força. O que não deixou de ser engraçado, porque há uns anos era impensável. Recebemos até uma video-chamada de Portugal, onde alguns amigos se reuniram para nos deixar um abraço. Que amores!

Mas mesmo com essa força extra, começavamos a deixar-nos esmorecer. Eram centenas e centenas os carros que já tinham passado por nós. Eram mais de 6 horas no mesmo sítio. Eram estrelas no céu.

Mas parou, parou uma senhora iluminada. Podemos chamar-lhe até mãe galinha, porque estava mesmo preocupada connosco. Avisou-nos vezes sem conta que iria seguir apenas 20 quilómetros na nossa direção. E embora tenhamos aceitado, não estávamos de acordo. Havia de um lado o desejo de deixar para trás aquele lugar; do outro receio de ir para um sítio pior, sem trânsito e sem abrigo. Mas fomos.

Fomos e pelo caminho pediu-nos que apanhássemos um comboio para o nosso destino. É difícil explicar a uma senhora, a uma mãe ou alguém que nunca saiu da sua zona de conforto que a nossa viagem não é feita de autocarros,nem de comboios, nem de táxis. É dificil, e por vezes duro. Para todos.

Porque se alguém acha que é fácil estar à boleia, várias horas, com mochilas de 15 quilos às costas, com neve à volta, e de noite; desengane-se. Não é fácil. Não é (tudo) bonito.

Talvez a culpa seja também nossa, porque quando contamos as histórias, já está tudo tão bem, que o que foi mau fica para trás. Mas não é por isso que deixou de acontecer. Porque aconteceu.

É que no fim, acaba sempre tudo bem! Mas e até lá?

Pois é, quando a senhora nos deixou, numas novas portagens, o frio era implacável. Parecia que nos penetrava! Os narizes pingavam. Em poucos minutos tínhamos as capas das mochilas molhadas. A neve à nossa volta fazia-nos questionar em que país estávamos. Como é que 20 minutos de estrada faz o clima tão diferente?

Esperámos.  E continuámos a espera.

Mamma mia!

Quase gelados, já com meias extra por cima de meias, não percebiamos como é que com carros a passar apenas de 5 e 5 minutos, nenhum queria saber de nós. Até que parou um carro. Abençoado!

Abençoados jovens! Da nossa idade, genuinamente simpáticos. Iam mesmo na nossa direção por mais 60 quilómetros, para esquiar. E foi uma sensação indescritível entrar naquele carro, quentinho e repleto de boas energias.

Quando nos deixaram, despedimo-nos com beijinhos e abraços. Sentimo-los felizes por nos terem ajudado. E nós, uma vez mais, tão, mas tão gratos.

Mas no mesmo instante em que tiravamos as mochilas, parou um carro atrás. Percebeu que éramos viajantes e tentou oferecer-nos boleia a troco de combustível. Uma vez mais, recusámos. Mas por entre a conversa, acabámos por perceber que falávamos todos português e que o senhor era de Angola. Com tamanho patriotismo, quis então ajudar-nos e acabou por nos levar até Mareme, a 8 quilómetros do nosso destino; passava já  das 23:30h.

Foi uma boleia animada. Ia buscar um amigo a Torino, mas queria também muito ajudar-nos. Tanto, que em 5 minutos já queria arranjar-nos uma carta de chamada para visitarmos Luanda! O único senão, dos grandes, foi que nos deixou em plena autoestrada, junto à saída da cidade para onde íamos. E nós, carregados de tralha, e carregados de alegria por estarmos a chegar, caminhámos. Limitámo-nos a caminhar vigorosamente, depois de termos avisado a nossa amiga que estávamos a chegar. Combinámos pois um ponto de encontro numa rotunda que daria acesso à autoestrada, e caminhámos até lá.

Caminhávamos de formá acelerada, que agora que verbalizamos,não sabemos ao certo tudo o que nós movia. Se o desejo de chegar. Se o medo de sermos apanhados pela policía a andar ali. Se o cansaço. Se a alegria. Certo é que fizemos 3 ou mais quilómetros sem questionar um único passo.

Mas já mesmo com a rotunda ao fundo, avistámos luzes azuis. Mamma mia!

E aí corremos. Corremos como se não houvesse amanhã. Não sabemos onde estavam essas forças guardadas, mas o instinto e a sobrevivência são realmente uma força da natureza.

E quando os encontrámos, já os senhores agentes estavam a tentar autuar a nossa amiga por estar estacionada na rotunda. Só que quando ela lhes explicou que esperava por nós, acreditamos que ficaram sem saber o que dizer. Porque ela havia dito a verdade: esperava ali dois amigos vindos de Portugal, à boleia, e que estariam a chegar a pé. De tão milaborante, quando nos viram chegar perto, mesmo com um ar pouco amistoso, limitaram-se a dizer que era proibido caminhar na autoestrada e estar estacionado ali. E seguiram.

E seguimos nós também, felizes! Inacreditavelmente felizes.

Incrédulos com a dificuldade que é andar a boleia em Itália: porque para pouco mais 180 quilómetros, levámos horas infinitas. Um dia, do nascer ao pôr do sol e ao erguer da lua. 180 quilómetros em Portugal fazem-se num punhado de horas. E Portugal não é de todo o paraíso das caronas.

Por Bra ficámos uma noite e um dia. Deliciámo-nos com uma típica família italiana e com uma típica pasta ao almoço. E ao fim do dia de ontem, viemos até Torino. Uma cidade magestosa! Mas que hoje não conseguimos ainda conhecer. É que hoje tínhamos horas de sono, e muitas partilhas, em atraso. Aqui, estamos com um amigo de uma amiga, também couchsurfer e com um mundo de partilhas.

Em breve, seguimos na direção de Milão, de Verona, de Veneza e de Trieste. Com rumo a Liubliana, na Eslovénia – com a certeza de que, dia após dia, somos mais unidos e mais fortes.

Nos entretantos, desejamos uma Páscoa Feliz e vegana a todos os que nos seguem. ❤

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