Marseill et Cannes

Ruas sujas. Muito sujas.

Na passada manhã de dia 21, despedimo-nos de Aix en Provence. Mochilas fechadas, corações palpitantes, e fizemo-nos à estrada. Caminhámos por pouco mais de 2 quilómetros e encontrámos a entrada da autoestrada que seguia para Marseille – o nosso próximo destino.

Na noite anterior fizeram-se apostas: quanto tempo levaríamos a apanhar boleia?

Nenhum dos recordes se bateu. Esperámos mais que o previsto, mas apanhou-nos um Senhor. Trazia em si com certeza mais de 60 primaveras e algures na sua história de vida uma viagem à boleia, até à Turquia. Sabia de cor o que nós dois estávamos ali a viver e quis por isso ajudar-nos! A boleia foi curta, mas amorosa.

Deixou-nos numa nova entrada, mais à frente e onde esperámos por entre os raios de sol que escapavam pela sombra das árvores. Recordamo-nos que cantámos: e quando nos dá para cantar, é à portuguesa e com animação. E por entre tons agudos e desafinados, parou um carro.

Pensámos que seria português, porque tínhamos a bandeira pendurada numa das mochilas e o jovem parecia entusiasmado. Mas não. Não era português. Não estava entusiasmado. Ou estava, mas queria afinal dar-nos boleia a troco de gasóleo.

Recusámos.

Não é esta a nossa aventura, não é a troco de nada que queremos que nos dêem boleia. Ou é, mas bens não mensuráveis: histórias, partilhas, cultura. Sorrisos. Da mesma forma que não é nosso objetivo que haja desvios para que nos deixem no nosso destino. O objetivo é sim que possamos aproveitar quem vai na nossa direção, para que possamos ir juntos e trocar pelo caminho o que de melhor há: entrega.

Esperámos então. Mas não esperámos assim tanto até que tenha parado um novo carro.

Foi tudo muito rápido, mas sentimos confiança. O tom de pele, o aspeto e a forma de falar, não nos intimidou. Não nos deixou desconfortável. E seguimos juntos, até Marseille.

Pouco mais de cinco minutos e já dentro do carro aprendíamos, ou relembrávamos: marhabaan! Al-hamdu lillãh. Era Argelino! Espelhava simpatia no rosto, na forma como dirigia cada frase. A emoção com que falava do seu árabe, demonstrava o orgulho que tinha nas suas origens!

Despedimo-nos com um carinhoso masalah ham, shukraan e ficámos já perto do centro de Marseille.

Um mundo por descobrir, Marseille. Com ruas sujas. Muito sujas! Gente de todo a parte. Mais, não nos cruzámos com 5 pessoas iguais: tons de pele, vestes, modos de estar, cortes de cabelo, línguas, olhares, pinturas. Culturas. Que multicultureidade. Por lá, só nos conseguíamos lembrar nos nossos passeios por entre o Rossio e o Intendente. Martim Moniz. O verdadeiro mix. Uma loucura. Pessoas por todo o lado. E um desprendimento único.

Haviam-nos já avisado de que se tratava de uma verdadeira cidade cosmopolita. E perigosa. Mas encontrámo-la maravilhosa. Subimos a Notre-Dame de la Garde. Cansados, com o peso das mochilas vincado nos ombros, vimos o sol descer o horizonte. O anoitecer, lá do alto.

E fomos felizes, ali.

Conhecemos por lá também um viajante, que a nós se juntou na descida. Marcou-nos e por isso o partilhamos: humilde e genuíno, estado unidense e com apenas 19 anos. Queria aprender português, aprender a viajar à boleia, aprender a poupar, aprender a estar, aprender a ser, aprender… Queria aprender! Queria absorver! E partilhar. E percebemos que nos identificávamos e que adorariamos ajudá-lo em tudo aquilo que estivesse ao nosso alcance. Esperamos por isso que, on the road, os nossos caminhos mais tarde se cruzem. Até lá, trazemo-lo no pensamento.

Ainda em Marseille,  fomos hospedados por um casal, amigos de uns amigos. Que doce é a Europa neste capítulo! E do seu apartamento, não só tínhamos uma vista deslumbrante, como estávamos perto do novo ponto de partida.

Já passava por isso do meio dia quando nos fizemos à estrada. O peso da casa que traziamos às costas já se fazia sentir como carga. Dura. Mas a distância era curta.

Já à entrada da autoestrada, percebemos que o lugar para estar à boleia não era o melhor. O trânsito fluía com velocidade, os carros não tinham espaço conveniente para parar, não tínhamos onde colocar as mochilas e estávamos sem hipótese de encontrar um abrigo.

Posto isto, estavam reunidos vários fatores de sacrifício: mas viajar a dedo é mesmo assim.

Estivemos concentrados e empenhados talvez mais de uma hora. Mas nenhum carro parou. Avistámos vários portugueses,  mas nenhum nos levou.

Foi então que no espaço de uma hora, trocámos umas 3 vezes de lugar. Fomos para uma nova entrada de autoestrada, caminhámos de novo para o primeiro lugar, mudámo-nos de seguida para outro, subimos mais um pouco, e voltámos ao segundo. Aturdido!

A exaustão começava a ocupar o nosso pensamento.

E no meio do desespero, com o passar do primeiro carro, esticámos a placa com enfase, esticámos o dedo com enfase: e o carro parou! Parou! Era uma Senhora e ia praticamente para o nosso destino. Inacreditável! Seguimos entre conversas, partilhas e soninho.

Pouco mais de 1 hora depois, estávamos a 50 quilómetros de Cannes. A 50 quilómetros de uma casinha. A 50 quilómetros de uma família! Sim, uma família de uma amiga que nos hospedou com amor, que nos recebeu com um sorriso do tamanho do mundo e com uma lasanha vegana deliciosa! Estávamos por isso a 50 quilómetros de um lar.

Bandeira portuguesa pendurada, placa de Cannes esticada. E o céu jazia azul.

Vários carros portugueses apitaram. Uma carrinha com portugueses parou, e embora não tivesse espaço para nos levar, afortunou-nos a alma! Sabíamos que os deuses das boleias estavam connosco.

E não tardou tanto assim. Trouxeram-nos até mesmo ao centro de Cannes, duas jovens. Conheciam Portugal pelo festival BOOM. Pouco faladoras, mas generosas – a bondade habitava-lhes o coração!

Aliás, com 1950 quilómetros, 33 boleias e 3 semanas de caminho, sentimos que temos sido afagados de corações magestosos. E a gratidão é o que em nós transborda.

Já Cannes não tem ruas sujas. Parece o Algarve no seu plano turístico. Caro. Chique. E um passeio à beira-mar. Romântico.

Amanhã cedo partimos para visitar o Mónaco e pretendemos pernoitar em Nice. Depois, depois espera-nos Itália, e espera-nos o mundo inteiro!

Au revoir, France!

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5 boleias para 150 quilómetros.

Uma verdadeira loucura, que deu até espaço para nos perdermos: que nem verdadeiros viajantes.

Começámos por sair do centro da cidade com um pequeno passeio. Para nos afastarmos tínhamos mesmo de palmilhar ruas desconhecidas e tivemos assim oportunidade de descobrir ainda dois ou três recantos, afinal imperdíveis – mas nunca nos sentimos desanimados por não conhecer tudo; achamos que se trata até de uma boa oportunidade para voltar um dia mais tarde!

Mas ainda meio no centro histórico, meio afastados, percebemos que uma rua nos poderia levar à autoestrada. Nela havia também espaço para qualquer carro parar. Tirámos então as mochilas, escrevemos num cartão pequeno a abreviatura de Aix en ProvenceAIX-EN P., e esperámos. Esperámos mais do que contávamos e, por isso, comentámos entre nós que assim que terminassem de passar os próximos carros, iríamos mudar-nos.

Achámos sempre (embora não tenhamos sequer falado sobre isso!) que por estarmos a apenas 150 quilómetros do nosso próximo destino , não levaríamos assim tanto a lá chegar.

Estávamos descontraídos, calmos. Tanto de entusiasmados, como de serenos.

E foi quando já estávamos prestes a colocar as mochilas, e nas últimas apostas, que parou um carro! Uma família. Três sorrisos. Uma criança. Gentileza em pessoas. Não iam para longe, mas queriam ajudar-nos. Levaram-nos por isso até à estação de serviço mais próxima.

Na estação, optámos por abordar as pessoas. Acreditamos que pode sempre ajudar a quebrar barreiras, tal como partilhámos já anteriormente. Mas aqui, tínhamos duas condicionantes: se a primeira nos confundia, já que permitia aos condutores pagar com cartão no local onde abasteciam; a segunda esclarecia-nos, sendo que todos os carros aqui em França têm um número na matrícula, que indica a cidade de onde são. Mentalizados, limitamo-nos a estar atentos.

Mas estarmos atentos não chega. Há a linguagem. Há a vergonha. Há a atenção. Há o instinto. Há o aspeto. Há a motivação.

A atenção é só uma, no meio de tantas.

Mas juntos fica mais fácil. Se um fala de tudo, o outro sorri. A parceria do amor.

E foi quando vimos mais um carro com o tão desejado número 13 na placa. Ia realmente na nossa direção, ainda que apenas por 50 quilómetros, mas aceitou levar-nos sem qualquer constrangimento. Por nós, que decidimos aborda-lo, também não havia nenhum constrangimento – propriamente dito. Mas o tom de pele e a forma como falava, podia até dar aso (e deu) a algum preconceito. Mas um preconceito infundado.

Percebemos que se tratava de um senhor Argelino, muito simpático e podemos dizer que a viagem decorreu com muita conversa e partilha (tanto quanto a língua o permitiu e o embalar do carro também!). E já nos últimos quilómetros acrescentou outros tantos ao seu destino, só para nós deixar já no fim da sua cidade, Nime, de forma a que mais facilmente apanhássemos de novo boleia.

Deixou-nos por isso numa rotunda, à entrada da autoestrada. Lá, por sabermos que nas redondezas havia muitos portugueses, decidimos tirar a nossa bandeira para fora e pendura-la numa das mochilas. Foram ainda alguns os carros que apitaram e acenaram, ouvimos ainda um “Viva Portugal!!”, mas nenhum parou para nos levar. Não conseguimos já ter a certeza de quanto tempo esperámos, mas esperámos o suficiente para aceitar a boleia do carro seguinte, mesmo sem ter a certeza de que seria o melhor para nós em termos de localização, tendo em conta o seu destino. Mas às vezes, é preciso mudar de lugar. É preciso mudar de posição. É preciso procurar novas energias, novos ares.

E fomos!

Era um BMW, espaçoso e vistoso. Confortável. Trazia pendurado no espelho retrovisor o mesmo terço que havíamos visto no carro anterior. Um masbaha. E em poucos minutos percebemos que era também da Argélia.

A boleia que nos deu foi realmente curta. Dirigiu-nos um pouco mais para norte, mas mais do que imaginámos – pudemos nós perceber quando olhámos para o mapa. E quando esticámos o dedo e erguemos a nossa pequena placa, parou em poucos segundos uma jovem dizendo que por ali dificilmente alguém iria no nosso destino. No fundo, deixou-nos numa cidade pequena, com três entradas. E daquela, só apanhando uma autoestrada secundária é que conseguiríamos chegar à que nos levaria ao nosso destino, no sentido de Marseille. Estávamos completamente perdidos.

Ou encontrados, mas desorientados. E a noite ameaçava.

Continuávamos a 100 quilómetros de casa. Ansiosos. Apreensivos.

Restava-nos caminhar. E caminhámos . Vigorosamente.

Mas enquanto caminhávamos, mostrávamos a placa. E ainda bem! Porque na confusão do caminhar, na confusão do inesperado, na confusão do barulho das nossas mentes; parou um carro. Iluminado!

Duas cadeirinhas de bebé. Uma senhora. Cabelo liso e muito penteado. Magra e alta. Sorridente. Bonita.

Foi tudo muito rápido e talvez tenha sido o palpitar dos nossos corações que apressou o momento. Quando percebemos que ia mesmo, mesmo, mesmo e mesmo na nossa direção: que desafogo!

E deixámo-nos levar no conforto daquela sensação.

Mesmo quando os deuses das boleias nos abanam, não nos largam. E só nos resta ter espírito de sacrifício até ao último minuto, para que tudo corra bem. Porque correr bem não é uma questão de sorte. Correr mal é que é uma questão de azar.

É preciso fazer acontecer, depois de sonhar.

E a viagem foi sobre nuvens. Faladora e animada, dividimos tudo quanto pudemos. Tinha dois filhos, pequeninos. Era a segunda ou a terceira vez que dava boleia. O marido era chef num bom restaurante. Ela era mãe a tempo inteiro. E em pouco menos de uma hora partilhámos uma vida.

E é este o melhor exemplo do que é estar ligado. Poder fazer de cada palavra um aproximar. De cada olhar e cada entreajuda, uma relação. Porque mesmo quando não conseguimos falar, conseguimos comunicar. Gestos, abraços, olhares e sentimentos. Somos feitos disto tudo.

E despedimo-nos com três beijinhos.

Estávamos então a pouco mais de 20 minutos de casa. Da casa de um amigo que pudemos conhecer no Brasil e com quem partilhámos mais que um teto. E aí, mesmo com o brilhar das estrelas no céu, estávamos felizes.

Com fervura. Energia. Paixão. Entusiasmo.

Nem largámos as mochilas! E ainda bem. Foram dois minutos, ou pouco mais. E estávamos nós a entrar no quinto carro do dia. Desta, uma carrinha, um jovem de olhar simpático e recheado de boa vontade. Deixou-nos praticamente à porta de casa e, mais ainda, deixou-nos telefonar a avisar que havíamos chegado.

Chegado e bem! A tempo e horas.

Preparados para cozinhar um petisco vegetariano maravilhoso, numa casa grande e maravilhosa, recheada de pessoas maravilhosas, em Aix en Provence. Uma indiana, uma romena, três franceses, uma americana, dois portugueses. Um ambiente multicultural muito acolhedor! E cozinhámos juntos. E jantámos juntos! E hoje repetimos.

Porque à portuguesa, é ao redor de uma mesa que se fazem amizades.

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BCN

(Continue – Madrid & Zaragoza)

O sol de Saragoça espreitava pela persiana da sala. O vento fazia-a  bater, mas o sol vencia. Que bom! Porque mesmo com frio, o sol aquece-nos sempre.

Decididos a chegar a Barcelona ainda no mesmo dia, caminhámos, com o nosso amigo e o seu companheiro de casa, até sair da cidade e chegar à entrada da autoestrada. Estas entradas são sempre perfeitas, porque com mais ou menos movimento, sabemos que qualquer carro que pare poderá ser uma boleia para avançar, pois irá no nosso sentido.

E não tardou, parou um carro.

Um carro velhote.

Com uma mulher com pele mescla. E um homem com  um ar pouco amistoso.

Apressou-se a apresentar-se, a abrir a bagageira e a dizer-nos para entrar. Na verdade, nenhum de nós estava tranquilo, mas nenhum de nós voltou atrás. E entrámos.

Estamos habituados a contar a nossa história,  a com mais ou menos pormenor partilhar a nossa aventura, e a ser bem recebidos. Estamos habituados a abrir os nossos corações e a expor as nossas intenções, e a ser bem acolhidos.

Mas foi tudo ao contrário.  Minutos depois do carro estar em andamento, a conversa já decorria tensa. Espanha não prestava, os espanhóis não serviam para nada, nós não tínhamos ideias de jeito, a nossa aventura era um desperdício de tempo, as nossas vidas estavam arruinadas, a nossa viagem era vazia; o que fazíamos  bem era voltarmos para casa e pararmos de nos aproveitar do outro. E pelo meio, com tom de poucos amigos, informou-nos que era cigano, tinha 2 filhos e 4 netos. E no meio disto tudo, a mulher ao seu lado, com um olhar vago (e quem sabe amedontrado), não dizia uma palavra.

A tensão aumentava.

Não havia nada que disséssemos ou partilhassemos que fosse bem acolhido. Tudo o que expunhamos era mau. Por vezes, limitava-se a abanar a cabeça com um ar sério e rígido, severo. Implacável. Ou negava com o dedo indicador.

Pior, só quando dissemos que nos poderia deixar no caminho, na estrada para onde ia sair ou antes mesmo numa bomba de gasolina da autoestrada. Num tom austero e inflexível, limitou-se a responder que para si nenhuma das duas era boa opção.

Conseguimos agora perceber que nos deixámos levar por um preconceito. Aquele Homem havia sido verdadeiro. Partilhou que, para si, não fazia sentido andar a viajar, ao invés de andar a trabalhar. Que para si, andar a dormir em casa de amigos era um abuso e um estorvo. Era a sua opinião. Áspera,  talvez.

Impiedosa, decerto.

Embora, claro, tenha sido um brotar de más energias dentro daquele carro, o que nos assustou não foi só isso, sejamos sinceros: o tom de pele, o cheiro, a dicção, as palavras, a voz, o comportamento, a atitude – o ser cigano.

Sem espaço para respirar ou saber como reagir, agradecemos quando nos deixou. Não percebemos ainda se com desafogo ou conforto, caminhámos. Caminhámos sem conseguirmos verbalizar entre nós o que verdadeiramente havíamos vivido no decorrer daqueles minutos. Que pareceram infinitos.

Estávamos no meio do nada, mas ao fundo, víamos uma placa com a indicação de Barcelona. Perdidos não era o caso. Mas sabíamos que onde estávamos, decerto seria proibido estarmos. A velocidade que os carros que por ali passavam traziam, era grande demais. Mas depois de passarem por nós dois carros da polícia, sem qualquer manifestação, apostámos na calma.

Serenos, ainda não.

Mas deixámo-nos ficar, livres, de dedo esticado. Até parar outro carro.

Recheados de prejuizos, pobre Homem, tinha barba. Ainda não tínhamos sequer trocado dois dedos de conversa e já o havíamos julgado.  Como é que é possivel? Nós, dois, que embora limpinhos e bonitinhos, nos sentimos atrocidados quando julgados por andar à boleia; ousamos julgar outro só porque… porque?

Partilhámos com Ele a nossa história, quem éramos e o que andamos a fazer. E a estaca voltou ao zero. O entusiasmo voltou, a tranquilidade também. As energias não estavam repostas, mas tínhamos de novo a luz, ao fundo.

No entanto, não deixámos de nos questionar sobre a importância da validação da nossa aventura perante quem nos ajuda. Porque quem nos ajuda com o deslocamento, raramente ou nunca sabe qual a nossa ideia, mas estamos tão (mal) (ou bem) habituados a paninhos quentes, que ficamos desnorteados quando não nos dão palmadinhas pelas costas.

Com esta última boleia, n°20 desta viagem, voltámos a mais uma estação de serviço.

Não sabemos bem se assim será, mas por preguiça ou zona de conforto, pusemo-nos no fim da bomba, de placa em punho. BCN, dizia. O vento gelava, gelava o nariz e a ponta dos dedos. Gelava até à nossa vontade de estar quietos ao sol. Aproveitámos para petiscar  (desta, beringela com batata assada, mnhumi), cantar e até tocar armónica. Mais! Deu para avistar vários camionistas portugueses, um dos quais parou na bomba do lado de lá da autoestrada, e com quem nos animámos ao erguermos a bandeira de Portugal!

Acabámos por desistir deste plano inicial, e fizemo-nos ao caminho. Mochilões às costas e lá fomos nós para junto da estação com o intuito de abordar pessoa a pessoa.

E não tardou. A primeira pessoa que vimos abastecer, foi o nosso primeiro tiro. Pouca sorte, o marido entusiasta disse que nos levaria e que iam mesmo para Barcelona. Já a esposa recusou. Primeiro o cão que trazia (no carro de 7 lugares) invalidava que tivéssemos espaço. Poucos segundos depois, já eramos nós que tinhamos demasiadas coisas. Lo siento – disse. E seguiram para efetuar o pagamento.

Foi duro. Tínhamos ali, mesmo à nossa frente, um carro, que ia fazer por completo exactamente os 300km que nos faltavam ainda para podermos dormir numa caminha.

Porém, quando as portas da estação de serviço se abriram, vimos um acenar. Um acenar repetido, convidando a que os seguissemos. Haviam chegado a acordo e iriam levar-nos! Oh, que conforto! Que desafogo.

Foram cerca de 3 horas até chegarmos. Cerca de 3 horas de conversa, de partilha. Um casal encantador. Ele, emanava paz no seu discurso. Uma serenidade e uma quietude pouco vulgares. E foram também 3 horas de descanso e de sono, para um de nos. 😊

E por agora aqui estamos, com cerca de 1 300km percorridos e 21 boleias. E em casa de amigos, amigos especiais e de coração, de tempos e de várias aventuras antigos. Amigos com os quais nos sentimos em casa.

Amanhã, rumaremos para Montpellier, já em França. E esperamos que o sol e os deuses das boleias se mantenham do nosso lado, sempre connosco.

Nós, dois, para o que vier, estamos sempre lado a lado.

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talavera de la Reina ES

7 homens. Uma carrinha. Entravam?

Começámos (mais uma vez) fora de horas.  Não sabemos muito bem como tudo se processa assim, mas certo é que por mais que ponhamos o despertador para as 9:00h, às 11:00h ainda não estamos prontos, logo às 12:00h ainda não estamos perto de estar a postos na estrada. Quem nos conhece sabe que somos díspares; um sempre a horas, outro sempre atrasado. Chamamos-lhe carinhosamente de equilíbrio!

Mas ontem, ontem partimos com batota. A família que nos acolheu, não só nos deu tudo o que de melhor tinha, como ainda nos levou a Badajoz. Esta boleia foi iluminada. As boas energias, a satisfação que traziam no coração, abençoaram as boleias seguintes. É que tudo influência a forma como o mundo gira: se no pensamento guardamos o melhor deste, então é mesmo isso que a nós vem.

Não demorou nem 5 minutos. Estávamos já a ser levados para perto de Mérida por uma jovem entusiasmada e de sorriso fácil, feliz por nos ter encontrado. E nós, uma vez mais, gratos por tão boa energia!

Chegados, descemos do seu carro, mochilas às costas e mil sacos nas mãos (é, é que a família hospitaleira de Elvas não nos deixou seguir sem várias refeições de avanço no bolso!). Não tínhamos ainda deslumbrado o que nos rodeava, já estava um carro parado, com os vidros abertos, de onde escutámos um gracioso “Hola!!!“.

Seguiam com direção ao nosso destino, e podiam deixar-nos em Mérida. Perfeito. Apaixonados por Lisboa, sugeriram que trocássemos contactos. Quem sabe um dia, por lá, nos voltemos a ver!

Já em Mérida, a estação de serviço era grande. A nossa fome já apertava (e mais um belo petisco vegetariano nos aguardava!), mas com o desenrolar daquele final de manhã, não ousávamos ver os carros por nós a passar e não esticar o dedo. A excitação era tanta, que nem a mochila descarregávamos.

Não sabemos bem se chegamos a esperar 10 minutos. Mas pararam. 7 homens. Uma carrinha. Casacos verdes. Sorrisos no rosto. Jogadores de futebol 11, jovens e entusiasmados com a nossa presença. Facilmente ali imaginámos ou revimos alguns dos nossos amigos, de caminho para uma jogatana (ou jornada!). “Para donde vas?”, perguntaram uns por cima dos outros! Não hesitámos!! Subimos e seguimos juntos por mais 120km.

Num piscar de olhos, estávamos a 60km do nosso destino: Talavera de la Reina.

Mas depois, depois é que foi. Em pouco mais de 5km, apanhámos mais duas boleias. O tempo já nos começava a fugir das mãos. No entanto o sol brilhava e mantivemo-nos inspirados.

A sétima boleia do dia, não sabemos ainda se bem aceite, tirou-nos de um lugar estratégico, em detrimento de um punhado de quilómetros de avanço. Deixámo-nos iludir pelo sentimento de estar mais perto de um novo lar e pela simpatia do condutor. Ainda assim, de lá, nunca saberíamos o que seria melhor.

Passaram-se depois várias horas. O sol já se queria esconder. A neve deixava-se avistar ao fundo, no cimo das montanhas. Os nossos narizes já revelavam o frio que sentíamos, vermelhos e a pingar. Os carros que avistávamos eram poucos, e de tempo a tempo.

Pensámos nós, horas antes, que chegaríamos rápido ao nosso novo destino. Mas andar à boleia é mesmo assim.

Calma. Paciência. Resistência. Tolerância.

Precaução.

Todos os carros que avistavamos na estrada em que estavamos, eram carros bons, carros caros. Não sabemos bem o que era o que nos corria pela alma, talvez descriminação seja uma palavra forte demais, mas deixavamos que a riqueza aparente dos que por nós passavam, nos deixassem discrentes. Passaram várias horas e ninguém parava. Ninguém.

Conversámos. Sorrimos. Fartámo-nos. Brincámos.  Respirámos. Tocámos armónica.

Tudo. E o tempo passava. Quando, de repente, vimos um Porche parar. Sim, um Porche Cayene. Lindo, por fora e por dentro!

Eis que sai um Senhor, cavalheiro, calmo e repleto de cortesia. Ofereceu-se para nos ajudar, e acreditem, pareciamos já sabe-se lá o quê: gelados, com gorros, capuzes postos, luvas, casacos, sacos, mochilões, mochilas pequenas, enfim. Uma catrefada de tralhas. Com a nossa, nova e humilde, casa às costas.

E assim chegámos. Despidos de prejulgamentos. Cheios de amor!

Talavera de la Reina, em Espanha, consagrou-se assim a primeira paragem além-fronteiras. Aqui, encontrámos uma nova família. Tão querida quanto posseis imaginar!

A aproximadamente 600km de casa, com 15 boleias, mantemo-nos unidos. Felizes!

E sabem, nem tudo o que parece, é.

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