Timor em português!

De sorriso sincero no rosto, naquele tom de pele castanho, perdido no olhar de amêndoa doce, escuro e característico, que de uma forma tão genuína veste quem por lá nasceu. É Timor-Lorosae. São timorenses.

Assim chegámos a Timor-Leste, depois de com esforço atravessarmos a fronteira com Timor Ocidental, ainda na Indonésia. São a mesma ilha, têm uma história triste comum*, mas de ambos os lados deliram com a pele branca e o nariz proeminente de qualquer estrangeiro que por ali ande.

*Porque a história de Timor-Leste tem pano para mangas, mas consegue resumir-se à independência de Portugal em 1975 (sendo até então conhecido como o Timor português), tendo logo sido invadidos; o fim ocupação Indonésia deu-se em 1999 e sua independência total em 2002  – o que faz deste um país muito novo.

Na fronteira tirámos mais fotografias com locais que em qualquer outro sítio nesta viagem; não que noutros países, como por exemplo nos da Ásia Central, não tivessem também esse desejo, mas tinham também muito mais vergonha. Ali, os mais comedidos tiravam de longe, os mais destemidos vinham até nós. Abraçavam-nos, agarravam-nos, sorriam, pousavam para a foto e faziam filas. Foram sem duvida dezenas de fotografias, depois de termos passado a noite num ferry que abanava mais que uma rolha em alto mar e uma madrugada e manhã à boleia, sem descanço.

E mais, era Ano Novo! Sim, era dia 1 de janeiro de 2017, no auge da euforia de uma nova primavera.

Estavam, por isso, todos em nosso redor felizes e reluzentes, animados com a chegada de mais um ano. E nós estávamo-lo também, mas trazíamos em nós uma incerteza tamanha: a de não sabermos se iríamos conseguir chegar até Dili, a capital, naquele mesmo dia. E tínhamos em nós a consciência vincada, dos avisos que nos foram feitos, do perigo que seria chegar à capital já de noite e sem alguém para nos receber. Faltavam-nos, ali mesmo, umas três horas de caminho, por 100 quilómetros por fazer, por estradas esburacadas e paisagens à beira mar criadas.

E ali mesmo, no edifício fronteiriço, sorrimos. Havia já, quem de cor falasse português – e que mais podem dois portugueses querer?

Sorrimos! E sorrimos de novo, entre olhares cúmplices e confiantes, apaixonados e tão, tão cansados.

Éramos nós.

Atravessámos o famoso arco de boas vindas a Timor-Leste (em português escrito!!), sem medo, e a pé, e depois de carimbados os passaportes, seguimos. E estávamos finalmente no nosso tão desejado destino!

Ali, sabíamos já que encontraríamos uma segunda casa e que poderíamos descansar quanto tempo quiséssemos. Era família do coração – aquela que temos a sorte de poder escolher.

E embora estivéssemos muito, muito felizes, estávamos também exaustos por tudo aquilo que tínhamos vivido até então, depois de duas noites mal dormidas e muitas horas a bordo de um ferry mal-amanhado, depois de celebrado o ano novo com a chegada à ilha de Timor e o barulho de todas as motas em nosso redor.

Depois de termos atravessado a fronteira a paisagem não era diferente: árida, quente e pobre, numa estrada infinita de alcatrão velho e barracas de chapas de zinco vazias, com pilares de pau. Ao lixo pelo chão já vínhamos também habituados e por isso a diferença no olhar foi pequena.

Já não tínhamos muito que comer, senão umas mangas de sobra e uma bolachas de limão; mas nada disso interessava. Só queríamos chegar a Casa! Das bolachas fizemos almoço e demos corda aos sapatos.

As sombras eram raras, mas sabemos bem que as fomos aproveitando conforme podíamos. E a cada escasso carro que víamos passar, pedíamos boleia! Lá iam parando, e o entusiasmo era tanto que já só falávamos a nossa tão querida língua, sem tão pouco nos questionarmos sobre isso. Era instintivo e automático! E tão, tão bonito.

Demorou pouco até conseguirmos a nossa primeira boleia, no momento exacto em que nos conseguimos abrigar do sol para beber um pouco de água. E é tão engraçado ver como nos lembramos de tão pequenos pormenores.

Eram dois senhores, policias, militares ou guardas, não conseguimos precisar, mas decerto trabalhadores na fronteira. Iam por apenas dois quilómetros, até ao café mais próximo. Mas foi uma grande ajuda! – por vezes, há quem não pare por não ir longe, mas tudo aquilo que muitas vezes precisamos é de nos sentar dois minutos e renovar a esperança. E assim foi!

Já perto de uma pequena ponte que cruza um rio, sujo, ficámos bem! Atravessamo-la a pé e, do lado de lá, voltámos a conseguir uma boleia. E desta, a certeira! Era uma família, um carro cheio. O pai, vice-presidente da CPLP, a filha estudante de medicina e fluente em inglês. A avó, professora, falava bem português. Recusaram a principio dar-nos boleia, porque sem dúvida, não havia nem um pequenino acento num banco disponível. Mas havia a bagageira! E a sede de avistar Dili era tanta, que nem hesitámos!

Estavam juntos com um grupo enorme de pessoas, que ali passavam num passeio em forma de comemoração pelo aniversário de um dos membros da família. E com todos eles, fomos parando para visitar praias, miradouros e até à verdadeira festa de aniversário numa colina nos levaram. Havia cerveja, sumos de banana com gás e até gente a falar português!
(E já para o fim, havia também um infinito de lixo espalhado e abandonado)

À chegada a Dili tínhamos instruções (dos amigos que nos iriam receber, e que à data estavam em Portugal), para que telefonássemos ao Senhor Filomeno ou à Mana Ela. Tinham ambos ficado com a chave e ambos saberiam como nos orientar.

Assim, ainda no carro, pedimos que telefonassem a um deles, mas nem tudo correu como previsto! Timor-Leste é perito nestes acontecimentos, mas não estávamos ainda bem cientes disso. Tudo leva o seu tempo e tudo exige a sua calma.

Primeiro, não havia cobertura. Passado umas horas, ninguém atendia.

Já mais tarde, diríamos até no lusco-fusco, o telefone através do qual tínhamos ligado já não estava no carro, e a neta, intermediária, também não. Acabámos ainda assim por nos conseguir explicar e voltar a ligar: sempre na incerteza e sem saber se o Senhor Filomeno teria ou não ligado de volta para o telefone anterior.

Conseguimos quase à chegada – e que mesmo assim leva sempre uma hora no transito caótico da entrada de Dili – falar com a Mana Ela. Ou assim pensávamos que tinha sido. E estava tudo combinado. Às 19h na catedral, a famosa catedral. E assim foi. Fazia-se acompanhar de um senhor com quem falámos em português, e por defeito, assumimos de imediato ser o senhorio, Senhor Filomeno.

Caminhámos então juntos, a transbordar de felicidade e em paz por termos conseguido chegar, por entre o bairro dos Professores, num clima de pobreza, estradas tortas e lixo perdido.

Os sorrisos vinham-nos dos olhos. Puros, singelos. Perdidos por tudo o que víamos e na simpatia daqueles que se aproximavam. É que caminhando pelas ruas fomos sendo sempre cumprimentados com um ‘Boa tardi, vai aonde?’ ou, em língua tétum, ‘Botarde, Ba ne’e bee?’. (Mas vinhamos já treinados da Indónesia, habituados ao ‘mauke mana?’). E é o cumprimento dos timorenses aquele que reconhecemos como sendo um um gesto comovente. Um aperto de mão rápido e solene e, depois, a mesma mão usada no cumprimento é levada ao coração – o que simboliza respeito pelo cumprimentado. Porém, percebemos, nem todos os timorenses o fazem.

– A língua mais falada durante a ocupação da Indonésia, era claro o indonésio (o que ainda hoje se percebe ter acontecido). Durante esse mesmo período a língua portuguesa foi proibida. Hoje o tétum é o mais falado na capital e o português é também língua oficial.  –

Rua para frente, rua para trás, e lá chegámos. A casa, fria e vazia, dizia-nos pouco, naquele momento. O cheiro incerto, a falta de personalidade e, sem bandeira portuguesa, fez-nos questionar se estaríamos na casa certa.

Armários vazios. Não, não podia ser.

Sem falar português, aquela que acreditámos ser a Mana Ela e que depressa percebemos que não seria, pouco entendia do que se estava a passar. E aquele que a acompanhava, e que achávamos ser o Senhor Filomeno, também não o era.

Wi-Fi nem vê-la. Telefone também não, que a pulsa (o saldo) dos telefones tinha terminado.

Estávamos portanto entregues ao vazio.

Se um de nós emana calma, o outro contrabalança. E ainda bem que assim o é, em forma de equilibro e muito amor. Naquele momento, não havia cansaço que vencesse: precisávamos de descobrir onde ficar.

Um mês antes havíamos encontrado entes amigos na Malásia, na escala que faziam rumo a Portugal para passar o Natal. Por sorte, tínhamos ainda uma fotografia tirada juntos guardada e foi essa a nossa salvação! Apressámo-nos a mostrá-la e guardamos até hoje as suas caras de espanto. Conheciam bem, afinal, o casal da casa que procurávamos, mas não faziam ideia de onde ficava. E foi nesse preciso momento que percebemos que não poderíamos estar com nenhum dos dois que havíamos contactado.

Isto, isto é Timor-Leste!

Espera atrás de espera, e esperámos mais um bocadinho. Com  calma, muita calma.

Acabou então por aparecer o Senhor Filomeno, o verdadeiro, proprietário da casa e português falante. Este, depressa nos levou a casa. À verdadeira casa, àquela que percebemos de imediato ser familiar. Aquela a que agora também guardamos como nossa.

E, finalmente em casa, sentiamos pouco mais que o nosso coração a bater.

Havia uma gatinha – e toda a bagunça que ela se tinha encarregue de fazer na ausência dos donos.

E havia um lar.

Estávamos folgados!

Afortunados. Felizes.

Pena só tinhamos por haver ainda mosquitos doenças tropicais com as quais tínhamos uma vez mais de nos preocupar; e por não haver internet… mas sobre isso, não sabíamos ainda nem de perto a realidade!

Sem chances de avisar quem quer que fosse sobre a nossa chegada, demos jeito à bagunça, alimentámo-nos nós e alimentámos a pequena SUAI, abrimos o sofá cama da sala e dormimos. Dormimos muito. Muito. E sonhámos. E descansámos.

A manhã nasceu na mesma euforia com que a noite se pôs, sendo ainda assim já dia 2. Pouco importava. A festa fazia-se ainda, pelo Ano Novo. As mesmas motas, o mesmo barulho. A mesma felicidade.

E preparávamo-nos nós para tratar de almoçar, quando se abre o portão, naquele também seu som tão característico..

Eram eles! A Débora. O David. E a Madalena. Estávamos tão emocionados: esperámos tanto e tão ansiosamente por aquele momento!

A Madalena é uma jovem timorense que se encontra a viver com eles por ser do distrito e necessitar de estudar na capital.

E começámos assim o primeiro de vinte e dois (especiais) dias juntos.

Podemos agora escrever sobre tudo o que fizemos. Tudo o que vivemos. Tudo o que partilhámos, conversámos, discutimos, refletimos e aprendemos. Tudo o que sorrimos. Tudo o que fomos. Mas nada se aproximará daquilo que guardámos no coração.

Começámos por conhecer recantos de Timor e a vida por lá sentida. Aprendemos os cantos à casa e o ritmo a que nela se vive. Fomos aos supermercados do costume, o Páteo ou o Leader, e consciencializámo-nos do custo de tudo. Em dólares americanos, a preços exurbitantes tendo em conta o país, pobre. Os produtos  não são escassos, mas dependem da hora, dia, momento ou época. É também difícil de encontrar alguma coisa à primeira e dar azo a desejos é praticamente impossível. Faz-se a festa com pequenas coisas e o capitalismo torna-se limitado. Já o consumismo é grande e cada vez maior, mas não há muitas empresas e, uma vez mais, a escolha é pouca. As prioridades também as encontrámos invetidas: primeiro vêm as motas e os telemóveis e, só depois, a saúde e a educação. E o (pouco) dinheiro, voa.

Assim, descobrimos que ser-se local é duro, mas ser-se estrangeiro também não é fácil. Uma casa com condições mínimas leva mais de meio ordenado – não local. E um timorense, tendo em conta o que recebe, não é fácil de se perceber que decerto viverá com o mínimo dos mínimos. Comer mais que arroz e os típicos fritos, só em dia de festa. Tudo isto, graças à presença da ONU, que avançou com missões de paz no terreno em 1999 e que teve sempre poder de compra acima da média.

O país também não é grande produtor. Arriscariamos dizer que por lá se vive em preguiça. Dá trabalho fazer diferente ou cultivar. Não têm habitos de agricultura e não aproveitam, conforme poderiam, o potencial das suas terras. A produção de café é significativa, mas tendo em conta o clima e os solos, haveria muito mais para fazer e criar. Morangos só em dia de festa. Bananas, abacates e papaias têm com fartura, mas em escala insignificante face ao que poderia efetivamente ser. Também os preços, uma vez mais, são insuportáveis para o produtos em questão – frutas e legumes locais.

Encontra-se, contudo, uma vasta variedade de produtos portugueses, e muitos até da marca branca do Continente ou Área Viva. Há azeite Galo, bolachas maria, farinha Branca de Neve ou água Luso.

Desta forma, durante a nossa amada estadia, aproveitámos para por em dia todos os nossos dotes culinários. Demos asas à imaginação e muita cor à nossa alimentação vegetariana. Cozinhámos tudo quanto desejámos, criámos pratos lindos e saborosos e, o melhor, fizemos pão e bebidas vegetais caseiras todos os dias.

Mas embora Timor-Leste seja um país lindo, com uma cultura linda e pessoas lindas, que nos enchem o coração com o seu olhar e a forma como dizem “Portugal é nosso!!”, não só a alimentação, a agricultura e os preços são uma lacuna. Há mais, e mais grave.

Há currupção. Ao mais alto nível. E há o sistema educativo. E há currpução no sistema educativo – que está em desenvolvimento, mas com carências e lacunas visíveis. E se é a educação das pessoas que pode mudar o mundo, então Timor-Leste começa a perder-se de pequenino. As escolas não são propriamente eficientes e a qualidade do ensino deixa muito a desejar. As pessoas habituaram-se ao facilitismo e também não encaram as regras com bons olhos. Horários, metas, avaliações… são tudo termos aborrecidos e, até, desconhecidos. Também o ensino privado deixa muito a desejar e a melhorar. As bases acabam por ser as mesmas e o sentido de responsabilidade por parte dos professores e alunos é algo desvanecido. A perspetiva do deixa-andar e os sorrisos sossegados no rosto acabam por resolver até os maiores problemas; e os jovens de hoje em dia não encontram objetivos que os façam lutar por uma educação rigorosa. Gostam de brincar, não importa a idade que tenham. A cultura de rua está muito presente e aplica-se à maioria das famílias, que retratam um povo relaxado e com pouca iniciativa, mesmo que feliz.

Não menos grave é o estado do país, das cidades, das aldeias, das ruas, das estradas. E das casas. O lixo é um problema atual e a sua falta de tratamento também. Fazem queimadas sempre que assim se lembram e em cada canto ou recanto, o mais provavel é que se tropece num monte de plástico, papel e resíduos alimentares. Timor-Leste é claramente um país em vias de desenvolvimento, mas o dinheiro mal gerido leva a que muitos destes problemas se arrastem e alastrem.

Em consequência do problema do lixo, há também cada vez mais doenças e doenças transmitidas por mosquitos. O sistema de saúde deixa também muito a desejar. As tradições timorenses, crenças e espiritualidade, fazem com que muitos se afastem dos cuidados médicos. Os que a estes recorrem, nem sempre são efetivamente tratados ou conseguem vir de lá esclarecidos.

No fundo, foi para nós engraçado ver como é que um pais pequeno funciona como um pais grande, mesmo que com fracas condições: têm ministérios, televisão, embaixadas, doutores (ou aspirantes), rádio, universidades… e pobreza, lixo, fumo, estradas sem asfalto.. tudo isto junto. E com uma beleza inegualável. E tão inegualável!

Aprendemos muito. E muitas coisas.

E uma das mais engraçadas foi a como ir ao banho sem que fossemos atacados por um crocodilo:

Estávamos na Embaixada de Portugal, depois de termos feito um pedido de informação sobre a renovação do passaporte por e-mail. Conseguimos com isso que nos fosse remetido um e-mail automático (sem que soubessemos que o era), com  a marcação de uma reunião para as oito horas da manhã. E lá estávamos nós então, com outras cem pessoas, todos à espera da mesma reunião. O calor era tremendo, como sempre, e o suor escorria-nos pelo corpo – como todos os dias. Enquanto esperávamos, aproximou-se um senhor, que sem hesitar, avançou em português. Começou por perguntar de que zona de Portugal vinhamos. Trava-nos por Mana e Maun (mano). E ria, perdido, por entre as mil histórias de que se foi lembrando sobre a sua antiga patroa, também ela portuguesa. Margarida, dizia.

A conversa foi, e tanto foi que ia já naquilo que não podiamos perder. Falou-nos de Baucau e de tantos outros lugares mágicos – muitos dos quais não chegámos a conhecer. Mas falou-nos também do quanto tinhamos ainda por nadar nos seus mares azuis. Confessámos-lhe então jamais ali fazê-lo, com medo de um ataque de crocodilo. E ele, tão querido, riu-se. De novo!

Ensinou-nos então, de coração aberto e com crença no olhar, que bastaria enrolar em cada tornozelo e pulso uma folha de palmeira. Desta forma, os crocodilos saberiam que somos família. Sim, família. E é aqui que está a graça, a dádiva e a inspiração. A convicção e a fé são inegualáveis. Acreditam que o espírito dos seus avós vive em pequenos crocodilos, e por isso os alimentam e protegem. E bastaria assim as folhas nas extremidades para que nos reconhecessem.

Perguntámos-lhe então, ‘E se não nos reconhecer e acabar por nos comer?’, ao que sem pensar, encolhendo os ombros e muito sério disse… ‘Paxiênxia’!

Da Embaixada não troxemos nada mais senão esta aventura e uma dor de cabeça em burocracias. Documentos, documentação, papelada e trabalho: um vazio e uma lentidão, por Timor.

E por entre tantas outras pequenas aventuras, fomos também a uma festa na escola. À cerimónia do içar da bandeira timorense no Ministério da Educação. À Lusa, à RTTL e à rádio, para diferentes entrevistas. À escola portuguesa e ao cemintério de Santa Cruz.

Jantámos com um casal de portugueses aventureiros, exploradores, criativos e generosos, com uma história de amor com o mundo e por Timor: a Katy e o Ricardo (podem conhecer a história deles aqui); e partilhámos um pôr-do-sol e um sumo natural com um amigo de uma amiga, que agora é nosso amigo também, mentor da nossa ida posterior ao programa de rádio português!

E no cimo dos nossos corações ficou também registado o nosso encontro com uma família muito especial:

Há vários anos, num programa de intercâmbio de três meses para docentes entre Portugal e Timor-Leste, conhecemos a Ricardina. A Ricardina descobriu muito connosco – o que era trânsito organizado, um supermercado limpo, uma cama com lençóis, um autocolismo ou um elevador. Descobriu o que era um país desenvolvido e soube integrar-se nele. Pintou as unhas. Foi ao cabeleireiro. Melhorou o seu português e engordou vários (muitos) quilos. Mas foi muito mais aquilo que ela nos ensinou a nós. A sua preserverança, a sua luta, a sua garra. A sua vergonha, a sua paz, a sua calma. O seu coração gigante, naquele corpo pequenino. Aquela voz de melodia suave e tom neutro. O seu sorriso, o seu olhar. As suas mãos ásperas e tão suaves. Sempre frias! “Ai senhora”, “Mana Joana…”; e tantas outras expressões em nós marcadas.

Passaram-se os anos, os meses, os dias; passou-se o tempo. E as saudades nunca passaram.

Despedimo-nos um dia, perto do aeroporto, no hotel onde a deixámos. A ela, ao António (que também ficou nas Caldas) e a todos os restantes colegas timorenses. Chorámos, na promessa de que um dia a voltariamos a encontrar, em Timor-Leste!

E a promessa cumpriu-se, até mesmo quando já nem ela acreditava. E a sua voz estremeceu, no dia em que lhe telefonámos, pela primeira vez, e lhe dissemos que estávamos ali mesmo, em Dili. Sorriu pelo telefone. Sorriu tanto, e chorou de novo. Era tudo, e era principalmente a saudade em voz.

Encontrámo-nos várias vezes durante a nossa estadia. Em Dili, em Ermera, em Gleno e também no aeroporto – desta, foi ela a deixar-nos partir.

Partilhámos momentos especiais. Visitámos-lhe a casa, a vila, a escola, a aldeia. A provincia, a casa dos pais, a estrada. O tempo. Demos-nos tempo e tempo para estar. Conhecemos-lhe finalmente os filhos. A familía. O lar. E ela, sempre envergonhada, abraçava-nos a cada emoção forte. Queria dar-nos a conhecer tudo aquilo que tinha e sabia, e tapava os olhos de medo. Sabia bem, guardava bem, as condições em que sabia vivermos em Portugal, e que em nada se assemelham àquelas em que vive em Timor.

Aprendemos assim a entender tudo aquilo que não entendiamos em casa. Percebemos tudo aquilo que não conseguiamos perceber outrora. Cada comportamento, cada atitude, cada gesto… é tudo uma questão de cultura. De vida. De história. E a história da Ricardina é agora também nossa.

Na despedida ficou a promessa. Voltamos a encontrar-nos em 2021. Esperamos por ti.

E também na despedida, de Timor, daquela que foi a nossa casa, naquele que é o lar da Débora e do David, vivemos momentos de deleite e bem-estar, paz e amizade. Aproveitámos o sol para subir ao Cristo Rei, avistar a Praia dos Portugueses e saborear a famosa água de côco e os petiscos da Mana Fina, na Praia da Areia Branca.

De toda a estadia, acabámos por não ver crocodilos… mas também não fazíamos questão!

E não experimentámos andar de microlete – o transporte público mais afamado, porque nunca foi preciso. Mas que são únicas só de ver, são! Por fim, já na hora da partida, fomos presenteados com um “tais” (pano em tétum): os lenços ou as faixas de tecido timorenses, muito célebres e tão representativos.

Guardamos tudo em nós. O vivido. O por viver. O visitado. E o que ficará para a próxima.

No nosso coração.

Juntos. Sempre, sempre juntos.

Timor-Leste é especial. 

_DSC2370_DSC2380dsc2379-1.jpg_DSC2400_DSC2613_DSC2413_DSC2418_DSC2429_DSC2439_DSC2443_DSC2440_DSC2482_DSC2484_DSC2495_DSC2503_DSC2513_DSC2516_DSC2517_DSC2524_DSC2527_DSC2543_DSC2554_DSC2569_DSC2581_DSC2587_DSC2608_DSC2631_DSC2647_DSC2670_DSC2672_DSC2674

Hk & Macau (& restinhos de China)

Se sonhávamos que seria assim? Não.

Cheirava bem! As ruas eram limpas. O sol jazia no céu azul sem nuvens brancas. Os bancos de jardim cuidados. Os canteiros arranjados.

Muitos carros. Muitas pessoas. Estradas estreitas. Becos recônditos.

Mercados antigos escondidos.

Prédios altos. Muitas luzes. Grandes lojas. Grandes marcas. Gentes de dinheiro!

Casas pequenas. Apartamentos minúsculos. Vida cara.

Mas cheirava bem! A lavado, limpo. A cuidado.

Assim encontrámos Hong Kong! Longe dos nossos pensamentos, por certo afastado dos nossos sonhos: nós que nem fazíamos questão de visitar!

Dos cinco dias que lá passámos, a grande responsabilidade era a de tratar dos vistos: o que nos permitiria voltar à China, e visitar o próximo país, o Vietname. Mas o reboliço foi tamanho!

À chegada, saídos do metro, caminhámos ainda carregados até à embaixada da China. Na impossibilidade de subirmos com comida ou líquidos, dividimo-nos e conseguimos na mesma obter a informação de que tanto precisávamos: quais os documentos exigidos para a obtenção de novo visto. Um infinito de papelada, verdadeiramente de bradar aos céus! Copia de passaporte, formulário, reserva de hotéis, reserva de transporte.

Saímos de lá então ao encontro do nosso couchsurfer, um rapaz do Bangladesh, que sem qualquer problema e muito amavelmente se propôs a encontrar-se perto do centro para nos dar a chave de sua casa. Assim fizemos, e de no nosso encontro saímos com um pedaço de papel com um mapa desenhado e indicações para lá chegarmos. E chegámos!

Completamente estafados, suados e sedentos. E antes mesmo de começarmos a tratar da papelada, sentimo-nos bem melhor depois de um duche refrescante!

Os papéis, com a ajuda do booking e da TAP – face às suas facilidades de cancelamento, e de um amigo à distância, ficaram prontos num instante. As cópias estavam também feitas. Seguimos de volta para a Embaixada da China. E quando acabámos de preencher os formulários e obtivemos a nossa senha (indicando que tínhamos mais de 200 pessoas à nossa frente), voltámos a dividir-nos para apressar trabalho. 🙂

Ficou então um a aguardar e outro seguiu para a Embaixada do Vietname, novamente para saber da papelada, tempo de espera e preços. E correu bem! Deu tempo para ir, voltar e continuarmos juntos à espera da nossa vez. Aí, por entre a notável melodia da língua portuguesa, reconhecemos a presença de um casal português; sem que conseguíssemos ficar indiferentes, e como já tão bem sabemos fazer, metemos conversa.

Fluiu, e fluiu. Fluiu entre sorrisos e aquilo que veio a ser uma amizade!

No dia seguinte, numa manhã chuvosa, seguiu-se o visto do Vietname. Ficou pedido, mas a muito custo: queriam o passaporte (que havia ficado na Embaixada da China). Por entre propostas mirabolantes, como a de pagarmos quase duas vezes mais ou a de nos ser dado uma folha em forma de visto que poderia não nos permitir entrar por terra; lá chegámos ao consenso de deixar o visto pedido, com o compromisso de lhes entregarmos o passaporte passados 3 dias, quando o fossemos buscar à Embaixada da China, e de lá voltarmos para o levantar no dia seguinte. E confusões à parte, lá seguimos satisfeitos, com paz na alma e sossego na mente. Estava feito. Agora era cruzar os dedos e esperar!

Demos então uma pequena volta pelo centro de Hong Kong e, já de mochilas novamente às costas, seguimos de barco para a Ilha de Lamma. Lá, chegámos já de noite, mas ainda cedo. Por entre o balanço do ondular do mar, a disposição não era a melhor; mas o desejo de conhecer a casa tropical perto da praia, tratava qualquer mal!

– É como o amor.

Na ilha ficámos com um couchsurfer alemão, e por voltar tarde, sabíamos por cortesia sua onde estava a chave escondida; bastava procurar pela casa número 6.

Pena foi que não correu como previsto. Palmilhámos parte da ilha sem que o desejássemos. Carregados. À chuva. Por entre vegetação e com os mais diversos animais (também eles tropicais – demais!).

A cada pessoa que se cruzava no nosso caminho, perguntávamos pelas direções. Mas sem pudor, diziam aldrabadamente que nos dirigíssemos para a esquerda, direita, cima ou baixo; e seguiam. Só já exaustos percebemos que também elas não faziam ideia de onde ficava a casa que procurávamos!

Inclusive, já desgastados, encontrámos um casal que nos disse que ali, ali mesmo onde estávamos, era a casa deles, número 5. Mas que lá não era o bairro que procurávamos. Que lá não havia nenhuma casa número 6, nem mesmo a casa ao lado. E ainda nos cruzámos mais uma outra vez, mas foram sempre tão assertivos que nunca duvidámos.

Já cansados e ainda pouco intimidados com os avisos sobre as cobras (já que só depois de vermos a primeira nos convencemos), descarregámos as mochilas num ponto certo da vila e, pouco depois, apareceu o nosso couchsurfer, que de imediato nos reconheceu!

Suados que nem pintinhos molhados, seguimos juntos até casa: aquela que ficava exatamente ao lado da número 5. E até hoje não percebemos o porquê daquele casal nos ter enganado: ou não fossem eles saber o bairro em que vivem.

Mas como acaba sempre tudo em bem, terminámos a noite numa casa gira, com um jantar muito diferente e muito bom (com direito a creme de beterraba – imaginam as saudades que trazemos destes petiscos?), um banho e um quarto com uma caminha grande e lavada, refrescada com o ar condicionado. E, claro, com direito a bons sonhos só de pensar na praia do dia seguinte!

Assim foi, marcámos a nossa estadia na ilha pelos passeios, trilhas e mergulhos no mar! Coleccionámos conchinhas partidas e búzios incompletos, vimos aranhas maiores que as nossas mãos e turistas que nunca mais acabavam. E também uma cobra ainda a porta de casa!

Mas foi de lá que saímos de coração a transbordar.

De volta a Hong Kong, a primeira preocupação foi a de levantar o visto da China para entregar o passaporte na Embaixada do Vietname. Conforme combinado, lá ficaria até ao à manhã seguinte de forma a estamparem o visto – e por ser mais uma noite, decidimos ficar com os nossos mais recentes amigos portugueses, aproveitando assim para visitar e confraternizar o que nos faltava!

Mas na Embaixada da China quase nos trocaram as voltas. A tentativa foi a de não nos dar o visto; e por isso se seguiu uma entrevista/inquérito. Porque viajamos à tanto tempo, porque visitámos tantos países, porque temos tantos vistos? E, principalmente, porque temos um carimbo vermelho da Turquia?

A questão do terrorismo vive-se mesmo quando ausente. Mas a explicação era simples: era somente o carimbo de saída do país – tanto que em turco diz “çıkış”.

Foi então preciso algum esforço. Muita conversa. Muito paleio. Cair na graça. E lá veio o visto no passaporte!

De corrida, na Embaixada do Vietname os funcionários eram já outros. E com a comunicação fraca, ao invés de complicar, facilitaram: e o visto ficou pronto na hora!

Tínhamos então a hipótese de seguir na hora para Macau, mas acabámos por optar pelo programa já definido: passear, jantar e dormir com o Tiago e a Liliana. E assim fizemos: e ainda bem! Agora guardamos com carinho esses momentos, todas as partilhas e sorrisos!

Mas foi quando o sol raiou que os nossos corações bateram forte. Era hora de apanhar o barco e chegar a Macau! Sim, Macau!

No porto, conseguimos um bilhete a bom preço para a Taipa, a ilha adjacente e, depois de partilharmos algum tempo com uma amiga de Hong Kong que fizemos na Ásia Central, embarcámos. O nervoso miudinho era maior que nós dois. Era ansiedade! Então lá seguimos, de mãos dadas, por entre o balançar do ferry ainda parado.

Lá dentro, sentámo-nos nos lugares marcados, com uma televisão à frente: e foi nela que passou o vídeo de emergência, logo para começar, com legendas em português! Já estávamos em casa!

Os sorrisos começaram a rasgar-se de orelha a orelha. E mesmo depois de atracarmos, era português por todo o lado. Indicações, ruas, anúncios, placares, panfletos. Que delírio!

Em Macau temos família: um primo macaense (por definição, filho de um(a) chinês(a) e um(a) português(a)), e foi ele que nos acolheu à chegada e durante a nossa estadia.

Em Macau palmilhámos rua acima, rua abaixo. Deslumbrámo-nos com cada azuleijo, cada pedra de calçada; igreja ou farol: estávamos em casa. E essa era a melhor sensação de todas.

Mas Macau é caro – tão ou mais que Hong Kong. E longe das zonas tradicionais, vivem agora os casinos, luxuosos, imensos (e lindos!), com salas de jogo 24 horas por dia e centros comerciais de grandes marcas incorporados, com ShutleBus gratuitos entre Macau e a Taipa. Por lá também nos deixámos perder, pela imensidão e novidade.

Mas Macau é mais que isso. É uma fusão de culturas que se sente em cada beco. Em cada rua ou ruela. Macau é uma franca mistura entre Portugal e a China: porque a arquitetura é portuguesa, os largos e os passeios também o são! Mas o hábitos, esses não nos pertencem mais. Não há loja sem tradução do chinês para o português no seu letreiro, por norma dizendo “estabelecimento de comidas”; mas dentro é a China que vive, por entre os cheiros ou a desorganização.

Mas é mesmo deste contraste que vive Macau. Desta história dupla e cruzada.

Também nós sempre ouvimos dizer que Macau havia sido um presente. Já os chineses contestam a história.

Há muitos anos, Macau estava a ser invadido por piratas. Os portugueses, que haviam lá chegado, ajudaram o povo chinês a lutar e a proteger-se, e por isso
Macau lhes foi entregue por 500 anos como agradecimento.

Ouvida do lado de cá: os piratas eram portugueses. 🙂

A falar português já são poucos os locais, mas com a grande comunidade portuguesa, não foi difícil encontrar quem o falasse. Mas o mais surpreendente foi termos tido a sorte de assistir a um espetáculo do Grupo Folclórico! E foi ao som do “malhão malhão” que nos deixámos levar!

Abraçados. Em paz!

Também abraçados fomos pela televisão de Macau, com quem estivemos para uma entrevista muito simpática, realizada no Templo de A’ma.

Infelizmente, foi também em Macau que vivemos a primeira alergia dermatológica por picadas de insectos: eram tantas e tão incomodativas, as pintinhas, bolhas e borbulhas, que acabámos no médico: mas um médio especial, o Doutor Rui Furtado, colega e também amigo da querida avó “Oliveirinha” – como carinhosamente lhe chamava no bloco. Conseguiu dar-nos a sua opinião e marcar para posteriormente uma consulta de dermatologia, quem em tudo nos valeu, não só pelo atendimento como pelo tratamento. Com o Doutor Rui e a sua esposa, recordámos bons momentos e novos criámos, para um dia partilhar.

Hoje já passou.

Mas a todos os níveis Macau nos fez sentir em casa.

Até ao último minuto, quando vivemos um encontro muito desejado e especial. Por todas as suas competências pessoais, pela sua personalidade terra a terra, pela generosidade e simplicidade, simpatia e bondade. Por nos ter feito ser diferentes, por nos ter feito pensar. Por nos ter feito sorrir, ponderar crenças e valores e estudar. Por isto e mais ainda. Uma Professora, Celeste, que nos marcou em tempos universitários e que por circunstâncias da vida nos cruzou uma vez mais o caminho. E foi tão confortante receber um abraço sincero, apoio sentido e ter o prazer de partilhar um momento numa fase destas. Mais, com duas colegas maravilhosas, já “locais”, com quem dividimos o nosso tempo. Somos muito gratos!

Chegou então a hora de partir. Regressar à China e retomar o caminho, a rota rumo ao Vietname!

Atravessámos a fronteira a pé, aquela que muitos macaenses atravessam diariamente para comprar comida mais barata, nomeadamente vegetais e frutas – percebemos nós logo à chegada aquando a nossa busca incessante por coisas a preços acessíveis.

E foi perto da fronteira, numa estrada principal que nos pusemos à boleia. Mas depois de 10 dias parados, já nem o corpo estava habituado!

Tivemos uma tarde penosa, muitos carros e poucas boleias. Mas tivemos também a sorte de encontrar quem nos tenha querido ajudar, mesmo sem nos poder levar: foi o caso de um jovem, que de mota andava a distribuir pizzas. A nós, ofereceu-nos uma grande água (um bem tão precioso!) e uma pizza de fruta. Um amor!

Foi já ao final do dia que dali um senhor nos levou. Eram pouco mais de 100 quilómetros, mas chegámos depois do anoitecer. E não descansou enquanto na nos deixou com o nosso novo couchsurfer, tendo para isso que andar, verdadeiramente, às voltas na cidade.

À nossa espera estava também um casal de australianos, a viajar há já 3 anos. Rumavam agora a casa, sendo Guangzhou uma das suas últimas paragens.

Em casa, o ambiente era simpático mas não podemos dizer que nos tenhamos sentido conectados. Às vezes é mesmo assim, e sabemo-nos agradecidos pelo teto que temos. Pelo banho que podemos tomar. E, claro, por estarmos juntos.

Nenhum dos três criava grande empatia, mas principalmente o nosso couchsurfer. Reservado, foi pouca a comunicação que tivemos. Talvez sejamos nós com sede de conhecer as pessoas. Talvez sejamos nós e as nossas expectativas. Talvez. Certo é que nos recebeu e acolheu! E ajudou! Com ele, ficámos duas noites, sendo que na segunda encontrámos um amigo ligado ao futebol e a projetos profissionais passados, que nos havia trazido algumas coisas de Portugal e com quem tivemos o prazer de jantar!

E ao terceiro dia, véspera de feriado na China a 1 de outubro, saímos cedo para nos pormos à boleia para Guilin.

Chovia aquela chuva molha-parvos, que não impede mas incomoda. Mas estávamos decididos. O destino era muito turístico, mas igualmente muito bonito. E todo o esforço, tarde ou cedo, é recompensado.

Apanhámos um autocarro para sair da cidade, que não sabemos ainda hoje porquê, não nos levou ao destino esperado. Ficámos então a meio caminho daquilo que seria o sítio ideal.

Caminhámos então. E a chuva intensificou-se. Molhava a sério. Eram pingos grossos é daqueles que se fazem sentir no corpo. Mas estávamos tão absorvidos pela ânsia de partir, que nem isso nos fez mudar de ideias.

Abrigámo-nos então de início numa ponte e lá pedimos boleia. Sem sucesso, ao final de algumas horas e já com chuva miudinha novamente, caminhámos. Já não sabemos quanto, mas foram alguns quilómetros.

As mochilas pesavam, mas dávamo-nos gratos por não chover.

E uma vez mais, por estarmos juntos. E apaixonados!

Chegámos então às portagens da autoestrada, e o trânsito apresentava-se caótico. Na China, nesta semana festiva, com a duração de 7 dias posteriores ao tal feriado, não só tudo pára, como as portagens são gratuitas! A juntar a isso a quantidade de chineses por metro quadrado, dá para imaginar o caos.

Parecia o paraíso das boleias! Mil carros, que tão lentamente passavam por nós: era só esperar.

Fizemo-nos em paciência.

Com calma, foram mais de 9 horas de pé, a pedir boleia. Mais de 11 horas de estrada. E apenas dois carros nos abordaram: um casal sírio, que não ia na nossa direção, e um senhor que queria dinheiro pela boleia, mesmo indo na nossa direção. Em 9 horas não houve nem mais um carro preocupado connosco. Nem mais um ser a olhar por nós! Estávamos tão destroçado que não conseguíamos acreditar no que estava a acontecer.

E já de noite fizemos por apanhar o último metro para voltar para a cidade. Caminhámos sem que nos lembrássemos já das dores no corpo ou nos pés, no pesado das nossas pernas ou no dormente das nossas costas.

Estávamos anestesiados!

Não queríamos mais ir para Guilin. Só para casa. E nesse preciso momento – tendo nós a sorte de termos conhecido um novo couchsurfer mexicano – decidimos que era em Guangzhou que iríamos passar o fim-de-semana. Só queríamos descansar, dormir, recuperar.

E assim fizemos, com a certeza de que no dia seguinte o sol nasceu com uma nova força. E nós também, já em paz, resignado se convictos de que nada acontece por acaso. Mais tarde, veríamos o porquê de termos ficado ali retidos.

Desfrutámos então da cidade de Guangzhou até mais não. Visitámos os pontos turísticos, a torre de Cantão, os parques mais bonitos e também o rio. E subimos ainda ao centésimo andar de um maravilhoso hotel, de onde discretamente nos deixámos deslumbrar pela vista ao anoitecer.

Abraçados, sorrimos e vivemos unidos este momento. Numa tranquilidade indescritível. No silêncio das estrelas, lá no alto. Estávamos felizes!

E assim decidimos partir, na manhã seguinte, para a cidade seguinte: Nanning. Guilin haveria ficado a meio caminho com um pequeno desvio, mas agora seguiríamos diretos.

Confiantes de que o tempo de espera passado daria lugar a muitas e boas boleias, seguimos para uma avenida principal. Lá, de cartão esticado e corpos ao sol, pedimos boleia por pouco tempo até parar o primeiro carro. Era um casal, amoroso. Tinham à pouco tempo estado a viajar na Austrália e lá viveram a aventura de se perder; contudo, alguém os ajudou prontamente e por isso assim o decidiram fazer connosco, levando-nos até uma das entradas da autoestrada.

Lá, vimos gente chegar, gente partir. Vimos o sol dar lugar às nuvens, e as nuvens dar lugar à chuva. Vimos anoitecer e o nascer da lua. Mas boleia, nem uma.

E, sem querer, tínhamos passado mais 9 horas ali.

Parecíamos transparentes!

Mas já não nos deixámos abalar, destroçar ou sentir. No nosso limite, agarrámos nas coisas e voltámos para casa. Tínhamos também a hipótese de continuar noite fora ali mesmo. Todavia, seria uma noite em branco, e provavelmente uma noite perdida.

Riram-se os nossos amigos por nos ver chegar. Incrédulos.

Então das tripas fizemos coração, e na madrugada seguinte, fizemo-nos novamente ao caminho. O corpo dorido pedia por mais cama, mas não podia ser. Tínhamos de ver onde iria esta nossa desventura com as boleias chegar. Ainda assim, levámos connosco o horário e números dos autocarros para voltar para casa, não fosse o Diabo tecê-las novamente.

Escolhemos então um terceiro sítio diferente (que era o primeiro que havíamos escolhido quando queríamos ir para Guilin e o autocarro desviou a meio). Estava um sol tão ardente que tínhamos dificuldade em permanecer quietos com a placa. E fomos então fazendo turnos.

Até que parou um jipe! Eram dois senhores, já meia idade! Sorriram, disseram que iam na nossa direção e que seria grátis! Nem queríamos acreditar…

Mesmo indo para apenas 120 quilómetros, iam na nossa direção e estávamos excitadíssimos!

Fizemos do tradutor offline do telefone o nosso meio de comunicação e assim partilhámos a nossa história. Amorosos, estavam tão felizes quanto nós, e felizes com a ideia de alguém estar a viajar tanto tempo, por tantos lugares.

Quiseram depois antes de nos deixar, oferecer o almoço. E então juntos lá nós dividimos por entre os práticos típicos vegetarianos e aquilo que eles preferiram comer, sempre com a maior gentileza e generosidade de sempre! E na hora da despedida, quiseram ofereceu-nos dinheiro, o que prontamente recusámos. Sabíamos que não tínhamos feito qualquer conversa que os levasse a querer ajudar-nos, e percebemos que era claramente um apoio à nossa viagem, por a terem encontrado encantadora! Mas não podíamos aceitar: já tinham feito por nós tudo quanto poderíamos desejar! E agradecemos, sorrimos, levámos a nossa mão ao peito e desejámos tudo de bom.

Contudo, minutos depois logo descobrimos que haviam escondido o dinheiro nas nossas mochilas. E, sem que pudéssemos imaginar, eram 500¥ – o equivalente a 68€. Sim, muito dinheiro! Não sabíamos sequer o que fazer, como fazer. Estávamos tão envergonhados e ao mesmo tempo tão gratos! Já para não falar da boleia, do almoço e das várias águas e sumos que nos haviam comprado para o restante caminho.

Na estação de serviço onde ficámos, apressámo-nos depois para nos pôr novamente à boleia. Faltavam-nos ainda mais de 400 quilómetros e a manhã já lá ia. Caminhámos assim até ao fim da imensa área (que como dita a China, grande, com restaurantes, supermercado, casas de banho e bomba de gasolina – ao que já nos habituámos), e lá instalámos o nosso “estaminé”. Mas demorou pouco até que a polícia a nós se juntasse. Nunca sabemos bem se por graça ou precaução, gostam sempre de fazer a sua conversa e por fim avisar que não podemos ir para a autoestrada. Agradecemos sempre e deixamo-nos estar! Mas desta vez, quiseram também fotografias. E nos entretantos, apareceu um camionista dizendo que não ia para Nanning, mas passaria por lá.

Recusámos. Porque levaria muito tempo. Porque normalmente na China andam sempre 2 por camião e seríamos 4. Porque não queríamos chegar de noite.

Amoroso, insistiu. Sorriu e disse que não levaria assim tantas horas. E que nos deixaria apenas a 20 quilómetros do centro da cidade.

A polícia sorriu, e sugeriu-nos que fossemos. E acabámos por ir. Ao mesmo tempo, em nós, havia qualquer coisa que nos dizia que devíamos ir. E tudo à nossa volta nos convidava a ir.

Pelo caminho percebemos o quão certos estávamos! Porque mesmo sabendo que iríamos chegar de noite, o camionista estava sozinho. E era um doce de pessoa. Sabemos agora a companhia que lhe fizemos e o bem que nos fez! Sorriu o caminho todo! Foi generoso o caminho todo! Deu-nos a sua fruta, parou para nos comprar uma maçaroca de milho e dois sumos e não hesitou em fazer de tudo para que nos sentíssemos bem. E tivemos ainda direito a ver dois DVD’s durante o caminho, que embora em Chinês, nos entretiveram e bem!

Indescritível.

Quando nos deixou custou a todos a despedida. Sentimo-nos vazios ao deixá-lo seguir a sua jornada tão sozinho: faltavam-lhe ainda mais de 800 quilómetros. Mas foi bom, foi bom o que até ali partilhámos!

Era já noite, conforme temíamos. Ficámos numa portagem, e ali não nos restou mais senão mostrar a nossa placa e esperar! Mas não esperámos mais que 15 minutos até que parasse um jipe, com um jovem que prontamente se ofereceu para nos deixar à porta de casa.

Fomos assim abençoados com um dia recheado de encontros maravilhosos, que culminou com o conhecer da nossa couchsurfer: uma jovem simples, mas muito querida. Da sua sala, fez o nosso quarto; do seu gato felpudo, o nosso mimo. E quando nos deixámos cair na cama, nem queríamos acreditar!

Estávamos de volta. De volta à estrada. De volta à nossa desejada aventura. 🙂

Em Nanning ficámos apenas duas noites, um dia – que deu para descansar, passear e ainda pic-nicar! Caminhámos em torno do famoso lago, pela cidade e no mercado nocturno (de perder de vista com as mais estranhas iguarias).

Passámos também parte do tempo na tentativa de trocar os Yuans que tínhamos para dólares, mas foi a missão impossível: de banco em banco, as desculpas foram variando. “Tem de ser no Banco da China”, “Só trocamos para Euros”, “Só temos 100 dólares”, “Precisam do certificado de troca à chegada”, “O vosso certificado não é válido”, … Até que nos cansámos e todos os bancos fecharam.

Terminámos depois a noite a jantar num terraço no décimo nono andar e brindámos às luzes que iluminavam a cidade.

E seguimos!

O prazo do nosso visto do Vietname já estava a contar e por isso tinha de ser assim. Contudo, completámos os exactos dois meses de China: dois meses intensos, bem vividos e muito especiais.

Para a vida, levamos a certeza de que nunca mais veremos um chinês da mesma maneira. Que os caracteres chineses são giros e giros de desenhar, mas que o chinês e os seus quatro tons são o verdadeiro enigma. Levamos histórias e olhares infinitos, uma cultura nova dentro da nossa, hábitos maravilhosos e outros que nem tento, mas uma viagem e aprendizagens que ficarão para sempre.

Com a certeza também de que não é preciso conseguir comunicar para se conseguir ajudar.

Deixar Nanning para trás foi também um processo moroso, mas não tão difícil. Acordámos cedo, muito cedo para nós: quando os sonhos ainda vivem, o abraço ainda sabe a pouco e a almofada chama por nós. Mas teve de ser.

Apanhámos várias boleias, todas elas reflexo de uma generosidade imensa; entre a cidade e o aeroporto, com um táxi da UBER; do aeroporto para as portagens perto novamente da cidade, com um senhor. Mas a seguinte, até à fronteira, foi a mais engraçada. Arranjada pelo polícia que veio ao nosso encontro, foi num autocarro pequenito. Demorámos algum tempo até nos entendermos, mas chegámos por fim à conclusão de que íamos exatamente para o mesmo sítio. Inglês falava e depois de saber dizer boleia perfeito saímos da china

Chegámos então juntos ao fim da China: à entrada do Vietname. E estávamos a pequenos passos do alcançar.

O Sudeste Asiático parecia longe. Tão longe, há 7 meses atrás. E é tão bonito perceber que aqui chegámos juntos, comandados pelo bater do nosso coração e com uma mão cheia de coisas boas para sempre.

2016-10-15-02-13-112016-10-15-02-12-262016-10-15-02-11-552016-10-15-02-10-342016-10-15-02-05-552016-10-15-02-04-542016-10-15-02-04-082016-10-15-02-02-472016-10-15-02-01-442016-10-15-02-00-29img-20161015-wa0044img-20161015-wa0043img-20161015-wa0041img-20161015-wa0040img-20161015-wa0039img-20161015-wa0037img-20161015-wa0035img-20161015-wa0032img-20161015-wa0031img-20161015-wa0030img-20161015-wa0029img-20161015-wa0026img-20161015-wa0025img-20161015-wa0024img-20161015-wa0022img-20161015-wa0021img-20161015-wa0019img-20161015-wa0017