Foi o Cambodja.

De sorriso fácil.

De essência simples. Genuíno. Doce. E simpático. De olhos de amêndoa. Pele escura. Sorriso no rosto. De boas gentes. De um verde infinito. De sabores. De cheiros. De calma e euforia, num misto. De história. De crenças. De budistas. De frutas tropicais. De flores. De aromas. De tuk tuks. De Khmers.

É o Cambodja.

(E adiantamos já que nos rendemos ao seu encanto.)

Chegámos a Phnom Penh, vindos de Ho Chi Minh, no Vietname. Na fronteira, mesmo com a chuva intensa que se fazia sentir, foi de boa vontade que nos receberam e a ajudaram a tratar do visto. Mas burocracias à parte, sentimo-nos em casa!

Descansados, seguimos. Seguimos a pé e sempre à boleia, até apanharmos a nossa primeira boleia, de um autocarro turístico. A zona, fronteiriça, embora pobre e pouco cuidada, ostentava em seu redor uma vasta panóplia de casinos – já velhos e pouco cuidados, mas aparentemente a funcionar!

No autocarro que nos levou seguiam pouco mais de 10 passageiros, vindos das Filipinas e com um inglês fluente. E muito embora não tenhamos partilhado o nosso tempo, tivemos a infelicidade de assistir a um atropelamento, que deu azo a conversação, de um senhor numa mota, e fuga. Ficou estendido e inconsciente. E nós alarmados. Mas segundo consta, não foi fuga, nem abandono, nem nada: foi o normal. Ups, bateu. Seguiu.

Continuámos viagem e chegámos a Phnom Penh já o sol se tinha posto. No autocarro, quem lá seguia deixou para trás várias embalagens ainda fechadas de comida, sandes ou folhados, ou coisas do género, que embora tivessem carne, recolhemos e entregámos a quem vimos a necessitado. Uma tristeza, este capitalismo exacerbado e o desperdício de comida a que assistimos diariamente.

Na cidade esperámos pelo couchsurfer com quem ficámos por duas noites: duas noites calmas, no encanto e no sossego desta nova cidade, duas noites de descobertas e muitas partilhas.

É tão bom ficar com um local, deixar que as tradições e o que são se nos entranhe na pele e no coração.

Loucos com a quantidade de tuk tuks por cada rua, visitámos a cidade, por entre sorrisos e o Khmer que íamos apreendendo com cada condutor que entusiasmado perguntava “do you want tuk tuk with me?”.

E com tudo em dólares, seja no mercado ou lojas, com esquecimento sobre os rials (moeda oficial), mandam preços para o ar de forma convidativa, sem noção do que queremos, esperando que queiramos o que todos os turistas querem!

Muitos templos, muitas pagodas, muito sol, muitos mercados, muitos monges, muitos turistas. Muita fruta, muitos legumes frescos. E muita coisa gira para ver. E fazer!

Muita história gravada na pele de todos aqueles que fomos conhecendo, nomeadamente nos templos que fomos visitando. Sentimos muita pobreza e encontrámos várias crianças/famílias sem abrigo, muitas delas a viver onde se reza e a ser educadas e instruídas por monges. Habituadas a pedir a todos aqueles que lhes pareçam estrangeiros, o contacto torna-se superficial e até mesmo estranho. Às crianças, fogem-lhes por entre os dedos as brincadeiras de rua, estendendo as mãos para pedir uma esmola sempre que a imaginam.

Já na última noite, fomos nós ajudados. Sem que pudéssemos prever (mas podendo imaginar), molhou-nos a chuva batida a vento e o cheiro a terra molhada, por ruas estreitinhas e ratinhos a passear. Mas foi aqui mesmo, nesta aventura, que uma mãe e o seu filhote de olhos em bico nos ofereceu um chapéu de chuva amarelinho – o nosso melhor amigo neste Sudeste Asiático, percebemo-lo então.

Na manhã seguinte, seguimos para o aeroporto. E não, não foi para voar! Lá, esperámos uma amiga de Portugal, a Iolinda, como lhe costumamos chamar. A aterrar vinda de Lisboa, ou das trinta mil escalas que fez!, e a caminho de Kampot: o nosso destino seguinte, lá em baixo, no sul do Cambodja.

Assim fomos, com uma boleia boa, pré-combinada, cheia de conversas, partilhas, risadas e mimos. Cheia de ananás aos cubos e em modo lento, como o trânsito exige! E à chegada, à chegada tínhamos uma equipa fantástica à nossa espera, pataniscas vegetarianas e o Tertúlia (o melhor restaurante português das bandas!) e muita saudade – que só nós, portugueses, sabemos o que é.

E gratos por tudo, por lá passámos três noites, e em nada mentimos se dissermos que nem demos por elas. Foi dias de descanso. De uma calma que só em Kampot. De sentir em casa. De estar em casa. De cozinhar. De conversar. De escrever. De sentir.

E só quase por entre as estrelas, visitámos a cidade pelo pedalar de duas bicicletas e o silêncio raro de uma cidade!

Voltámos então depois para Phnom Penh, entre gargalhadas e muito vento na cara, com uma boleia de uma pick-up! Lá atrás, vimos as nuvens passear no céu, as casas e palhotas à beira da estrada, as crianças em carrinhos de brincar e o sol, sempre, a brilhar.

Estávamos felizes.

Somos felizes!

Foi uma boleia que teve tanto de demorado, como de rápido, mas que abriu um precedente muito valioso: o de que estamos preparados para fazer curtas e longas distâncias lá atrás, naquela parte do carro que de confortável tem pouco, mas de belo e vivido tem tudo. Gostámos!

Desta segunda vez em Phnom Penh ficámos num hotel – You Khin House, uma vez mais a troco de uma parceria nossa. Este, por um motivo especial. Surgiu depois de criada uma escola com um sistema de ensino baseado no modelo montessoriano – que a nós nos diz muito, como fonte de sustento para a mesma.

Contudo, hoje em dia o lucro não cobre os gastos e por isso que está a decorrer um crowdfunding* por forma a permitir que a educação destas crianças seja garantida.

Assim, aproveitámos o dia para visitar a escola, o centro de lazer e atividades a ela associado e, de tarde, o museu S-21. Este, criado após o genocídio associado ao Khmer Rouge, permitiu-nos aprofundar a história do Cambodja, a dor por todos sentida, a tristeza e desgraça vivida. O Khmer Rouge saiu do poder em 1979, com o apoio dos vietnamitas, os mesmos que os ajudaram a subir até lá em 1975. Após este período, foi declarado genocídio associado a este mesmo mandato, durante o qual foram perseguidas, interrogadas, torturadas e mortas cerca de 2 milhões de pessoas, com especial enfoque naqueles que eram literados. Visitámos por isso o museu, mas decidimos não visitar os “killing fields”. Foi intenso e ainda bem que o fizemos juntos.

Mais à noite, e para terminar o dia no auge das experiências, jantámos no DID. E vale tanto a pena partilharmos isto, que temos até medo de não conseguir deixar transparecer o que vivemos!

O DID – Dine in the Dark, é um restaurante onde os nossos sentidos são deixados no limite. Embora não seja uma ideia inovadora, e embora exista já na Europa e redores, não deixará nunca de se original e desafiante. O conceito é inesquecível, a equipa também, e a comida não lhes fica atrás.

Criado num espaço “abandonado”, uma pequena galeria de arte, começa por ter tudo em tons baixos e fraca luminosidade. Lá, fomos convidados a escolher o menu surpresa: Menu Vegetariano. De seguida, fomos convidados a retirar o relógio (por ter ponteiros luminosos) e a arrumar o telefone e equipamentos electrónicos numa caixa ou na nossa mochila. E por fim, foi-nos atribuído um guia: um guia cego, o Fredo. O Fredo ficou responsável por nós, e encaminhou-nos, de mãos no ombro dos outros, até à sala escura. Não, não era uma sala com pouca luz. Não, não tinha velas. Era verdadeiramente escuro. Negro.

Nunca tínhamos visto nada assim.

Ouvíamos os risos, como nunca, daqueles que preenchiam também a sala.

Sentimos o fresco do ar condicionado. O arrepio do desconhecido.

Sensação de claustrofobia. E sentámo-nos, sob as indicações das mãos delicadas do Fredo.

Pouco depois, serviu-nos as entradas. Depois o prato principal. Depois a sobremesa.

Não vimos nenhum deles. Mas sentimo-los chiques e cuidados. Pratos arranjados. Sabores intensos. Apurados!

A descoberta tomou conta de nós. Primeiro com talheres, depois já com as mãos: queríamos tanto saber mais, sentir mais. Saborear mais. E estava tudo divinal!

Antes de deixarmos para trás este espaço, fomos por fim convidados a ver os pratos que havíamos recebido. E o mais engraçado, foi a surpresa que não tivemos. “Bom trabalho!”, pensámos, orgulhosos pela nossa perspicácia e desembaraço.

Fica assim agora o nosso convite para que visitem um espaço assim ou que façam do vosso espaço um espaço para está experiência sensitiva. Vale a pena!

E quanto ao DID, vale ainda mais a pena quando aliado à integração de todos. (❤ de psicomotricista!)

Partimos então para Siem Reap de coração cheio, de alma preenchida. Não era tarde quando nos pusemos à boleia, e sabíamos que tínhamos um autocarro urbano, muito embora só haja três linhas de há dois anos para cá, com pouquíssimos autocarros em cada.

Contudo, enquanto o esperávamos calmamente, fomos deixando ver aos carros que passavam a nossa placa, onde tínhamos escrito o nosso destino. E, por entre a azáfama de tuk tuks e motas – onde também as crianças as conduzem! –encostou um carro com dois coreanos, que sem que conseguíssemos comunicar na perfeição, nos levaram. Mas não, não levaram para onde pretendíamos ir com o autocarro, e no fim ainda nos pediram dinheiro. É verdade, foi tão triste e tão constrangedor em nós. Temos sempre o cuidado de antes de entrar num carro explicar que não pretendemos pagar pela boleia, e assim se acusam táxis ou aqueles que realmente nos querem ajudar. Mas com dois coreanos sentimos que não havia necessidade de qualquer explicação… e estávamos tão enganados.

Mas enfim, lá nos explicámos conforme conseguimos e lá aceitaram que não pagássemos: e verdade seja dita, nem sequer nos tinham levado para onde precisávamos, e sim para onde iam; portanto estávamos de consciência tranquila.

Seguimos então a pé, sem alternativa agora de autocarro. Não faltava assim tanto para a ponte, mas por poucos que fossem os quilómetros, com as mochilas, tudo parece imenso.

Durante a pequena jornada fomos parando para descansar e aproveitando para pedir boleia; e foi por entre um desses instantes que parou um outro senhor com a sua esposa. Decididos a ajudar-nos, levaram-nos até à tal ponte que tínhamos de atravessar de forma a encontrar o melhor lugar para nos pormos. Estoirados quando lá chegámos, abrigámo-nos no chapéu de chuva como sendo de sol, e pedimos boleia.

Muita boleia nós pedimos, e nada.

Vimos o sol rodar, girar lá em cima e derreter-nos o corpo. Mudámos as mochilas várias vezes de posição em função de uma pequena sombra. E destilámos: estava difícil de apanhar boleia.

E nos entretantos rimo-nos e muito com os locais que por ali andavam:
– O que fazem uma data de homens a correr atrás de um autocarro? São condutores de tuktuk.
– E o que são homens a correr à frente dos tuktuk? São condutores de autocarros (vans).
Todos, na busca de mais clientes!

Até que parou um jipe, por entre macacadas para chamar à atenção de todos os carros. Era um pai com o seu filho e iam diretos também para Siem Reap! Fizemos então uma viagem de sonho, prudente mas rápida, e chegámos já ao pôr-do-sol.

No lusco-fusco, visitámos o mercado local para comprar alguma comida. Por todo o lado há padarias, com influência francesa, sendo a baguette a mais famosa. Nos mercados reina ainda a confusão, embora com menos ratos. O arroz mantém-se como primordial na alimentação. Muitas mangas, papaias, maracujás, anonas, maçãs, bananas, ananáses, e outros tantos que nem lhes sabemos o nome!

Só depois seguimos para o primeiro hotel da cidade com quem havíamos feito parceria – New Riverside Hotel. Longe do centro, mas com uma paz inexplicável, ficámos duas noites num quarto de sonho, com uma piscina de sonho e pequeno-almoço também de sonho. Como nem nós algum dia pudéssemos pensar vir a viver!

No dia seguinte, descansámos, espreguiçámos, ronhámos (sim, de ronha!). E passeámos. No centro, no mercado local onde apetece comprar tudo pelas cores e beleza, pelos cheiros e simpatia. Vimos roupas, acessórios, bugigangas e hammocks lindos. E já ao anoitecer, fomos jantar ao Little Kroma, um restaurante pequenino e caseiro, com pratos típicos e vários vegetarianos, e muito familiar! Perdemo-nos ali com novos sabores.

Nas últimas duas noites no Cambodja, ficámos num outro hotel –Lemon&Gingergrass Hotel, com quem também trabalhámos e com quem vivemos a experiência de visitar os Templos de Angkor e aprender a cozinhar aquilo que dizem ser o mais tradicional que por lá vimos: os famosos spring rolls, a salada de manga e o amok de tofu. Inexplicável! E inesquecível. Trazemos agora guardadinho em nós a imensidão dos templos que pisámos por entre o silêncio da surpresa e as receitas de cada prato que fizemos.

Foram dias intensos, bem vividos e apaixonantes. Dias que dificilmente algum dia conseguiremos pôr por palavras, mas onde algumas das fotografias falam por si! Da loucura que é visitar os templos de Angkor Wat e Angkor Thom; à magia da noite do “night market” no centro da cidade: um misto de passado e presente que fica no coração.

Gostámos! Muito.

E gostámos também muito do lugar onde fomos convidados a provar vários pratos típicos Khmer, deliciosos e lindos, exóticos e saborosos, com um serviço de excelência – Khmer Touch Cuisine, mesmo no centrinho do centro.

E com tantas maravilhas, tantas experiências, tantas partilhas e tantos momentos, só podemos estar gratos pela passagem no Cambodja; onde nem tudo foi perfeito, nem tudo foi magnífico ou ideal, mas onde fomos abençoamos com uma viagem rodeada de boas pessoas, bons lugares e boas vivências!

Já no último dia, caminhámos tanto quanto pudemos para nos afastar da cidade, sempre de placa em punho, até conseguirmos boleia para uma cidade próxima. Lá sim, caminhámos vários quilómetros, subimos subimos e chegámos. De suor escorrido no corpo e respiração ofegante. Cansados. Mas chegámos. Chegámos à fronteira.

– Não sem antes pelo caminho termos sido inundados pelos habituais “tuk tuk?”. Faz parte!

E por fim, estávamos tão tão exaustos, mas quase quase do lado de lá. Carimbámos o passaporte à saída, sem percalços, e seguimos. Tínhamos à nossa espera o nordeste da Tailândia, uma rota não-turística até ao Laos e muitos locais à nossa espera.

Despedimo-nos assim de sorriso no rosto, ansiosos do mundo, de mão dada, com amor: até um dia Cambodja!

* Crowdfunding – https://www.generosity.com/education-fundraising/free-education-for-children-in-poverty-in-cambodia/x/1595936

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de olhos em bico!

Chegámos à China! Sim, à grande China, do lado de lá do mapa! Gigante e imensa. E chegámos à boleia!

Foram 5 meses de caminho, de aventuras e histórias, de partilhas, vivências, loucuras e muito amor. Foram quilómetros e países, amizades infinitas e aprendizagens constantes. E foram também saudades e lágrimas, abraços e sorrisos.

Mas quando nos soubemos a pisar a China, ai: que emoção! Estávamos em êxtase, que nem duas crianças na feira popular! Queríamos absorver tudo, ver tudo, sentir tudo. Que loucos!

Chegámos à fronteira a uma boa hora, mas com a mudança do fuso horário em mais duas horas, vimos o nosso dia encurtado. Ainda assim, nada importava senão as luzes, os sons, os olhares. A fronteira da China é única, e depois de tantas outras que atravessámos a pé, nem queríamos acreditar. Se por um lado todas as outras fronteiras ficam no meio do nada, por entre montanhas e um vazio; a fronteira entre o Cazaquistão e a China fica exatamente no meio de uma cidade. Sim, é isso mesmo! E, não obstante, enquanto nos restantes edifícios fronteiriços encontrámos espaços vazios, ocupados por autoridades armadas, uma câmara de RX, uma mesa de revista e um computador, na China encontrámos um espaço cheio de gente (ou não se tratasse da China!), equipamentos eletrónicos, luzes, luzinhas e sons, câmaras, passadeiras rolantes e computadores. Um mundo muito diferente!

Levámos pouco mais de 10 minutos a ganhar o carimbo no visto do nosso passaporte, por entre a amabilidade de todos e a descomplicação dos papéis a preencher.

E, foi quando pusemos os nossos pezinhos na cidade de Khorgos, que nem queríamos acreditar!

Carros, pessoas, prédios, luzes.

Tudo piscava! Tudo mexia!

Tudo era uma imensidão: e nós, parados, estupefactos, de olhos abertos e alma encantada!

Fazia tempo que não víamos nada assim – se é que alguma vez vimos.

Caminhámos depois, para nos pormos à boleia. Eram 14:00h (GMT+8) e tínhamos 660 quilómetros para fazer. Mas parecíamos anestesiados: nada importava.

Olhámos deslumbrados a cada passo que demos. E escolhemos uma sombra, numa via rápida dentro ainda da cidade, para pousar as coisas e esticar a nossa placa; pouco depois de termos conhecido a primeira local que nos ajudou a retoca-la, por entre a nossa inexperiência com caracteres chineses. Ia por acaso na nossa direção, Urumqi, mas tinha o carro cheio.

Com a nossa primeira placa escrita em chinês, foi na estrada que passámos a tarde toda: e ninguém parou. Os carros, sem compaixão, passavam por nós, um por um; e seguiam, indiferentes à nossa presença.

E nas suas pequenas motas elétricas, iam parando pessoas na tentativa de perceber o que estávamos ali a fazer. A placa escrita, o dedo esticado, as mochilas no chão, não lhes dizia nada. Sem que conseguíssemos comunicar (literalmente), íamos dizendo “dabianche” da forma que sabíamos e lá iam entendendo que ali nos encontrávamos à espera de quem fosse na nossa direção.

Acabámos por fazer um amigo, professor em Pequim, e foi com ele que caminhámos e mudámos de lugar. O novo posto não era de uma melhoria significativa, mas quando estamos muito tempo à boleia, à espera e sempre no mesmo sítio, temos necessidade de mudar, de improvisar: de fazer acontecer!

Como se procurássemos livrar-nos das más energias que inevitavelmente se vão acumulando com o cansaço.

E fresquinhos na nova estrada, aproximou-se de nós um senhor, pelo seu próprio pé. Não lhe percebemos as frases, mas ficou a intenção. Descobrimos que ia na nossa direção por entre gestos e que para nos levar precisava de ver o nosso passaporte, para sua segurança.

Tirámos então as fotocópias que temos, e seguimos!

Seguimos juntos por toda a noite e sabíamos que haveríamos de chegar pela madrugada. A couchsurfer que nos iria hospedar, depressa avisou que a partir das 22:00h não poderia abrir a porta, e por isso sabíamos estávamos entregues a nós próprios à chegada.

Mas deixámo-nos ir! A viagem era longa o suficiente para não nos preocuparmos por antecipação, e deu ainda para, por entre um pequeno acesso à internet, percebermos que não sabíamos virar-nos sem o Google, sendo que estivemos longos minutos a pensar num motor de pesquisa alternativo.

O condutor, embora com a barreira da linguagem, mostrou-se sempre amável e muito educado, disponível e calmo. Sabíamo-nos em segurança e fomo-nos deixando dormir. Mas foi pelo caminho, ainda que de forma ilegal, que pediu que conduzíssemos por ele: uma verdadeira loucura face às regras de trânsito chinesas, mas não tão grave em autoestrada às 3:00h da manhã! E ainda que sempre com muitas instruções, lá aproveitou para descansar.

À chegada a Urumqi, por volta das 5:00h, deixou que ficássemos a dormir no seu carro, e foi só as 7:00h que nos foi chamar para nos levar a tomar o pequeno-almoço. Tipicamente chinês (percebemos agora) levou-nos a uma espécie de restaurante para pequenos almoços, que a princípio até pensámos que seria seu, uma vez que em plena sala de refeições começou a fazer a barba. Mas não. Meio às escuras, lá escolhemos o que queríamos comer; já eles, têm por hábito pedir uma espécie de sopa doce ou insossa, feita com feijão, milho, arroz ou millet (da qual não gostamos assim tanto) ou fritos. E comem tudo com pauzinhos, mesmo havendo colheres!

Foi então que depois nos levou a casa da nossa couchsurfer, onde passámos 3 noites. Uma família tipicamente Chinesa, com horários rígidos e muita disciplina. O filho, mesmo de férias, crescia de forma regrada, tendo horários para tudo: as 7:00h devia acordar, as 8:00h ler em voz alta um livro em inglês (repetindo as frases até as pronunciar de forma perfeita), às 9:00h acompanhar a mãe ao trabalho e lá ficar a estudar; as 17:00h regressar e ir jogar basquetebol, enquanto a mãe corrige os trabalhos realizados durante o dia; as 18:00h rever os trabalhos, as 19:00h tocar um instrumento, e por aí fora, todos os dias da semana. E em dia de festa, havia direito a ver um filme. Em casa, sem televisão ou internet, também eram vegetarianos.

Foi, para nós, um primeiro impacto muito agressivo. Sabíamos, de ouvir, da rigidez educativa, do sistema padronizado exigido, mas não esperávamos senti-lo tão de imediato. Não sabemos se será assim com todas as famílias, mas vivenciamos um bom exemplo com esta.

Mas marcou-nos a nossa estadia em Urumqi as pessoas com quem nos cruzámos nas ruas, que nos ajudaram de forma espontânea! No primeiro dia, depois de muito palmilharmos na procura de um banco para trocar dinheiro, fomos sabendo pelas ruas que havia apenas um banco na cidade habilitado para o fazer. Contudo, embora numa pequena cidade (com 3 milhões de habitantes), era difícil que a pé chegássemos a todo o lado; mas sem dinheiro trocado, era impossível que apanhássemos transportes. Assim, continuámos de banco em banco a tentar a nossa sorte, até que uma funcionária, num deles, falando umas poucas palavras de inglês, se juntou com os colegas para recolher as moedas que entre todos tinham, e nos ofereceu para que apanhássemos o autocarro necessário para chegar ao dito Banco da China, noutro lado da cidade. E ofereceu a mais, para o caso de necessitarmos.

Não sabíamos nem o que fazer com as mãos, estávamos incrédulos. E gratos!

Pouco a pouco, estávamos a (re)descobrir um povo: em Portugal conhecemo-lo na sua face discreta, pouco comunicativa. E era este o preconceito que trazíamos em nós.

Levámos depois várias horas até encontrar o dito cujo, o famoso banco. Encontrámos outros com o mesmo nome, que ou só trocavam dólares, ou não tinham posto de troca. Andámos às voltas, perdidos, rua para a frente, rua para trás, e de cada vez que pedíamos ajuda ou indicações, mandavam-nos para um ponto diferente e distante na cidade. Lá nos desenrascámos: com uma taxa de câmbio miserável, mas felizes ainda assim!

Recordamos então com muito carinho os primeiros dias em Urumqi, nomeadamente por termos ali descoberto uma nova China, uma China muito diferente e muito mais à frente do que poderíamos imaginar.

E embora cuspam para o chão, em todo o lado e sem rodeios; andem constantemente montados em motas elétricas, de buzina em punho e sem modos, ou façam do mandarim um bruxedo, não nos tentando sequer entender; vivemos encantados!

Também no segundo dia, quando perdidos pela cidade e sem saber que transportes apanhar até casa, fomos abençoados. A chuva batia forte, o calor deu lugar ao fresco que sentíamos nas pernas e por todo o corpo. O trânsito caótico, as buzinas e a confusão; tudo fazia para que o nosso discernimento estivesse condicionado. Pedimos então ajuda a uma jovem, que mesmo sem falar inglês se dedicou a tentar entender-nos. Com o auxílio do mapa, mostrámos-lhe para onde queríamos ir e depressa ligou para uma linha de informações de forma a saber que transportes e quais os seus números, e onde os apanhar, para nos levar de onde estávamos até ao nosso destino – casa. Depois, depois gesticulou para que a seguíssemos, alterou a sua vida, pagou-nos o elétrico e o autocarro e levou-nos até à porta do condomínio.

(Sim, por toda a China, não há prédio sem condomínio. Não cremos que seja por questão de segurança, porque por todo o lado o sabemos seguro. Mas confere alguma organização às cidades e, por norma, dependendo do valor, podem ter não só o estacionamento privado para o carro, como piscina, ginásio ou supermercado.)

Ficámos então sem palavras: não sabíamos como lhe agradecer, como demonstrar a nossa gratidão perante a sua disponibilidade e amabilidade.

Sorrimos. Agarrámos o peito e inclinámo-nos para a frente. E com o telefone mostrámos-lhe o Wechat: sorriu de volta e enquanto acenava com a cabeça e dizia “ah ah ah” (característico por aqui, em sinal de concordância!), deu-nos então o seu contacto. Agradecemos mais tarde por escrito, porque uma das maravilhas deste Wechat (uma aplicação equiparada ao Whatsapp ou Viber), é que permite de forma automática a tradução entre inglês e caracteres chineses, simplificando a vida de todos!

Tivemos também na cidade o prazer de jantar com um couchsurfer que, embora não nos tenha podido hospedar, nos proporcionou a experiência de novos sabores vegetarianos pela cozinha chinesa – uma verdadeira delícia!

Pelas noites que ali passámos, tentámos recuperar juntos de uma pequena gripe, estado febril que só um pouco atrapalhou. Mas foi ali também que dormimos separados, por imposição de quem nos hospedou. Não que tenhamos compreendido o porquê, mas coube-nos respeitar: e palpita-nos que tenha a ver com a rigidez imposta ao filho e a algum exemplo que queira dar, mas isto nunca saberemos.

Já ao quinto dia, seguimos para Hami, uma cidade a 500 quilómetros, ainda na mesma província.

Deram-nos boleia dois carros, na tentativa de nos colocar num melhor lugar para apanhar uma boleia direta, o que não aconteceu. Houve muito quem parasse, quem nos abordasse e não escondesse a curiosidade. Tentaram também falar-nos e explicar várias coisas, mas o discurso exclusivo em chinês impediu qualquer comunicação. Mas até dinheiro nos quiseram dar.

Quando apanhámos a terceira boleia do dia, de uma mulher, ficámos na autoestrada, num lugar à partida melhor, ainda que proibido por lei para caminhar. Contudo, o sol levou muito pouco até se pôr, o que na província em questão se dava depois das 22:00h. Era tarde. Estávamos cansados e já pouco crentes. Mas continuávamos atentos a quem por nós passava, enquanto erguíamos já a bandeira de Portugal para chamar à atenção dos mais distraídos.

Até avistarmos a polícia.

Estremecemos. Assustados! Sem sabermos bem qual a consequência de estarmos ali à boleia.

Pararam o carro ao nosso lado. Luzes acesas a piscar (o que faz parte da China). E saíram para nos abordar.

Sorriram, sem que o esperássemos! E por entre abraços, diziam “Putauia! Cilo!“.

Tinham reconhecido a bandeira de Portugal, e diziam em Chinês exatamente isso, “Portugal! Ronaldo!” – Sim, por aqui traduzem tudo! Seja nomes próprios ou palavras que diríamos universais.

Ofereceram-se então para nos dar boleia por 100 quilómetros e foi quando chegámos ao posto de polícia seguinte (dentro da autoestrada, o que é por aqui comum após cada portagem), que nos disseram que era tarde para continuarmos à boleia, oferecendo o jardim para montar a tenda.

Assim o fizemos, de forma luxuosa, com Wi-Fi e wc neste nosso “parque de campismo”! E, na manhã seguinte, não só acordámos com um esquilo à janela, como com um pequeno-almoço e muitos sorrisos! A polícia, doce, descansou-nos e prometeu-nos que nos arranjaria uma boleia direta. Estávamos pouco crentes, mas assim o fizeram, mandado parar os carros um por um. Indescritível!

Muita bondade!

Quem nos levou, ofereceu-nos pelo caminho um almoço típico e deixou-nos já à noite onde nos pudemos encontrar com um amigo da irmã de quem nos ia hospedar. A história é confusa, mas muito bonita: uma couchsurfer, a Tina (nome por ela escolhido) a estudar noutra cidade, tratou de falar com um amigo de infância e com o irmão, para que um nos fosse buscar e o outro, mesmo estando a trabalhar, nos hospedasse. E assim aconteceu!

Na manhã seguinte, e depois de nos termos dado tão bem, foi buscar-nos novamente o melhor amigo que se ofereceu para nos hospedar por uma noite mais, para que passássemos esse dia juntos. E assim fizemos, com muita amizade e aprendizagem à mistura.

Pela cidade, não só vivemos templos antigos, como até à bola deu para jogar. E pelas ruas, assistimos também à vida na sua verdadeira essência asiática, começando pelos homens com as camisolas arregaçadas para cima e de umbigo à mostram, e terminando com a cultura das bebidas, que sejam estas quais forem, devem ser quentes, por questão de crença na saúde. Quanto à água, talvez ajude também o facto desta não ser potável, o que leva a que muitas famílias a fervam. Desta forma, com um Chinês anda sempre uma garrafa de vidro.

A noite em Hami terminou então com amigos, numa ida a um grande hipermercado (coisa que não pisávamos há já muito tempo!) e num grande jantar por nós cozinhado! Que delícia!

No dia seguinte, foi então dia de partir para Jiuquan, agora sim numa nova província! O caminho correu sobre ouro: apanhámos ainda em Sami uma boleia de 3 polícias à paisana e, chegados ao seu posto, trataram de nos arranjar uma outra boleia direta. Ofereceram-nos dois banquinhos para que esperássemos sentadinhos, e foram parando todos os carros até encontrarem o tal.

Chegámos já perto das 21:00h e foi-nos receber à estrada o nosso couchsurfer. Apressou-se depois a convidar-nos para jantar, numa mesa farta e recheada de iguarias típicas e vegetarianas, de entre as quais, sopa de noodles e cogumelos, tofu transparente picante, feijões crocantes assados em palitos, e umas tantas outras. Para acompanhar, chá e leite de amêndoa. Não saímos de lá a rebolar, mas pouco faltou. E, também no restaurante, vimos foi outros sair em braços, de tão bêbados que estavam.

À caminha chegámos já fora de horas, cansados, mas de barriga cheia. No conforto dos lençóis e do quarto mais fresco, deixámo-nos dormir. E sonhar.

E foi por isso que, na manhã seguinte, nem os raios de sol nos despertaram. O sono era profundo, e nós (que nem gostamos nada de dormir), fomos levados pela sensação de bem-estar que temos ao descansar.

Mas tínhamos de partir, e sabíamo-lo muito bem.

Era então novamente mais tarde que cedo quando chegámos à estrada que desejávamos, depois de em pleno centro da cidade nos termos posto à boleia. E tivemos sorte; parou uma senhora e a sua filha, com as quais nos comunicámos através do tradutor do telefone.

Já à entrada da autoestrada tivemos de ser mais pacientes, levou tempo. Mas antes de passar a portagem, por entre os carros parados, um jipe abriu a janela e apontou para um outro jipe mais à frente, que depressa nos acenou.

Era um JEEP, robusto e azul vivo. Eram dois rapazes. Fumavam ambos, mas nunca dentro do carro: e ainda bem, porque se havíamos curado um estado febril, agora havia tosse e dor de garganta que nunca mais acabava (o costume: quem nos conhece até se deve perguntar como é que foi só agora a primeira vez; mas isso só agradecendo ao “nosso” Homeopata que, da ultima vez, pôs isto nos trinques!).

Seguimos então juntos, com eles e com todos os amigos que seguiam em carros separados. E, quando pelo caminho pararam para partilhar uma melancia, com a ajuda de uma jovem lá nos fizeram chegar a mensagem de que, embora não tivessem primeiramente planeado passar pela cidade para onde nós íamos, tinham alterado o roteiro do dia para lá nos deixar. Estava um dia chuvoso: ficámos tão agradecidos.

Já na cidade de Lanzhou, esperaram que o nosso couchsurfer, o John, fosse ao nosso encontro. A chuva caía intensa e a noite era escura, mas ele lá apareceu, magrito, todo molhado e recheado de energias! Boas energias!

Trazia um sorriso no rosto, de orelha a orelha! Ajudou-nos a despedir de quem nos havia dado boleia e seguimos a pé até sua casa!

Quando lhe escrevemos através do couchsurfing pela primeira vez, contámos a nossa história numa versão muito breve. Quando o John nos respondeu, a mensagem vinha do coração: queria muito hospedar-nos, conhecer-nos e conhecer aprofundadamente o nosso caminho; mas a casa onde se encontrava, era uma casa antiga, num prédio antigo. Um apartamento sem cozinha, sem casa de banho, sem chuveiro. O fogão ficava no corredor, mesmo à porta. Era um bico elétrico, por cima de um armário pequenino. A casa de banho, era comum ao andar, feita de 3 latrinas sem divisória e um lavatório comprido. Chuveiro, não havia em lado nenhum.

Aceitámos, mesmo perante a descrição. E quando chegámos, sabíamos já ao que íamos. Deu-nos o que tinha, inclusive a sua cama. Mas não foi fácil. A tosse era muita, o cansaço também, e no momento da chegada, foi um misto de emoções; a gratidão era óbvia, mas jazia em nós ao mesmo tempo a petrificação perante a condições (in)existentes.

Lidamos de forma diferente com isso, e temos uma maturidade diferente perante a dificuldade. Ou mesmo que não seja uma dificuldade, uma expectativa incumprida. Ou uma adversidade. Como a ter de se sair de casa durante a noite para se ir à casa de banho. Mesmo já sabendo que assim o seria.

Mas é no abraço um do outro que nos consolamos. Que crescemos. Que nos acalmamos.

É juntos, e depois do estado de exaltação, na paz, que nos curamos, nos ajudamos. Nos tornamos melhores.

E custa, custa sarar na diferença.

Também hospedados em casa daquele que se tornou um amigo, o John, ficou um casal russo, com quem partilhámos os dias que se seguiram e as noites mal dormidas graças a uma tosse desmedida.

Tomámos banho ora de alguidar, ora em casa de uma prima; e foi o pai do John que todas as noites nos preparou um jantar maravilhoso e típico, no seu modesto fogão de corredor. A loiça, lavámo-la no lavatório grande e comum da casa de banho do piso; e num instante nos habituámos a viver assim. Felizes com tão pouco, e com tanto ao mesmo tempo!

E já no último dia, almoçámos uns noodles de vegetais, com picante de cortar a respiração, com pauzinhos e até não caber mais. Confessou-nos o John, por entre o seu olhar malandro, que dizem sempre os locais que comem alho cru com as refeições por fazer bem: mas não é essa a principal razão. Comem o alho sim, para desinfetar o organismo – “Vocês sabem, os restaurantes aqui na China não são assim tão limpos”, dizia no seu inglês perfeito, após 4 anos a viver em diferentes países em África.

E, pouco a pouco, entregámo-nos à vida por aqui. Uma vida apaixonante.

Também antes de irmos embora nos ofereceu um xarope natural para a tosse: não sabíamos de que era feito, se nos faria bem ou mal, se era bom ou mau. Mas, sob a regra do “faz como vires fazer”, aceitámos, sabendo ser feito apenas com plantas, sem químicos.

(Podemos adiantar que a melhoria não foi imediata, não ocorreu no próprio dia. Mas aconteceu. E, sem recorrermos a nenhum dos medicamentos que trazemos por prevenção na mala, ficámos felizes por termos dado tempo ao tempo e tempo a um produto natural para nos tratar.)

E partimos então, depois de 12 dias na China, para Xi’an. Estávamos desejosos por lá chegar: íamos encontrar e ficar com os primeiros portugueses desde França. Íamos poder deixar a roupa de inverno.

Íamos poder conversar até mais não!

Saímos então cedo, e fizemo-nos à estrada com os nossos companheiros russos. E, só à entrada da autoestrada nos separámos. Ali, ficámos menos tempo do que o esperado, e apanhou-nos um jipe com uma família amorosa. Viajavam novamente mais, mas em carros separados. E aceitaram levar-nos.

Fizemos muitos quilómetros juntos, ainda; mas foi quando nos deixaram na cidade em que pararam para almoçar, que o pânico se instalou. Com um grande enxame de abelhas por toda a zona das portagens e entrada da cidade, víamos as pessoas correr apressadas e assustadas, cobertas com casacos e de rosto escondido.

Mas, nós, carregados com 3 mochilas, um saco de tralhas enorme e pesado, mais um garrafão de água acabado de nos ser oferecido, parecíamos lesmas. As abelhas chocavam (literalmente) contra nós à medida que andávamos. Eram tantas e voavam de forma tão perdida no espaço, que não havia ordem possível.

Era correr, fugir, tentar escapar.

Mas se um de nós estava calmo e sereno, a apreciar a loucura; o outro estava em estado de alarme e de lágrimas nos olhos. Nem a palavra pânico o conseguiria descrever na perfeição.

E enquanto fugíamos perante a nossa lentidão, fomos picados.

— É engraçado, só um de nós foi picado, só um de nós teve febre, só um de nós teve tosse. Mas “fomos”, “temos”, “somos”. É isso, somos um só. —

A dor da picada era de congelar o cérebro, mas não havia tempo a perder, nem para tirar o ferrão, nem para lavar com água ou pôr uma moeda. Com isto, caminhámos até onde nos sentimos seguros, mas em contrapartida até onde seria muito difícil conseguir uma nova boleia.

Passámos ali grande parte da tarde, sempre atentos a todos e quaisquer bichos voadores. E só quando a polícia passou uma mangueira pelo ar na zona das portagens, diminuindo significativamente a quantidade de abelhas no ar, nos atrevemos a chegar mais perto. E foi aí que as meninas da brisa (ou equivalente) nos ajudaram a parar os carros até encontrarmos alguém que nos deixasse mais à frente, numa estação de serviço. E assim foi, tão rápido!

Já na estação, estava a anoitecer a olhos vistos. O sol descia sem licença, no horizonte. E a luz era cada vez menos. Mas mesmo a tempo, parou um jovem casal, que ia praticamente na nossa direção. E já quase às 23:30h, acabaram por nos levar à porta de casa, em Xi’an.

Saídos do carro, o bafo foi imediato. Um calor insuportável, com uma humidade elevadíssima. Impossível parar de suar ou respirar com tranquilidade. Nunca tínhamos sentido nada assim, nunca! E assim foi em todos os dias da nossa estadia: adormecer e acordar suados. Lençóis molhados, roupa molhada: e não adiantava secar depois do banho, o suor voltava no mesmo instante.

Da nossa estadia, guardamos com carinho os novos amigos portugueses que fizemos e que esperamos reencontrar um dia por ruelas de calçada. Guardamos também tudo quanto visitámos, o templo Bell Tower, a Muslim Street, ou a escolinha de futebol do Figo. E, para sempre, o aniversário do mês: 20/8: não é todos os anos que se está na China a comemorar 26 primaveras!

Refeitas as malas, com menos 10 quilos por certo, seguimos viagem. Não que tenha custado, mas quando paramos mais dias num só lugar, também nos sabe tão bem, que depois sentimos algum atrito para voltar à estrada. Podemos dizer que nos deixamos habituar ao conforto do lar e damos asas à preguiça. Mas não pode ser: há um mundo há nossa espera!

Fomos então para Zhenzhou e lá chegámos já de noite e após 5 boleias, não tão difíceis de apanhar pelo chinês que começámos a dominar. Pelo meio, numa delas, acabámos por sair do carro por não conseguirmos comunicar com o casal que nos levava: nada de mal aconteceu ou se previa, mas é muito difícil quando assim acontece. Nem as pessoas se conseguem explicar, nem nós.

Encontrámos então a Tina, a couchsurfer que em tempos nos havia ajudado. Hospedou-nos na universidade onde estuda e onde vários estudantes, mesmo de férias, passam o seu tempo. Das salas de aula fazem salas de estudo e dormitório, mesmo que sem cozinha ou chuveiro. Uma vez mais adotámos a técnica do banho de alguidar e fomos felizes e lavadinhos assim!

Partilhámos de noite, os dois, um sofá no escritório de uma professora, e na manhã seguinte levou-nos a Tina e os seus amigos a tomar o pequeno-almoço à cantina. Passava pouco das 7:00h e o movimento era já mais que muito.

Palmilhámos o seu campos universitário e também o de Medicina Tradicional Chinesa, onde nos deixámos encantar com os lagos e os seus nenúfares perfeitos.

Perto das 11:00h e antes de nos deixar seguir para a próxima cidade, levou-nos a almoçar a um restaurante e a provar comida local: sopa de milho doce, tofu mole com ovos pretos ou batata frita quase crua. Embora tudo muito estranho para o nosso paladar, tudo delicioso. Mas o mais gratificante, os rituais à mesa: pedem pratos sem fim, não um por pessoa. Depois, nas mesas circulares, fica o manjar no meio e rodam entre todos. A loiça vem “embalada” após lavada, com um rótulo de desinfeção; ainda assim, quando chega a água fervida à mesa (a que bebem também), lavam a loiça peça por peça; e a água que sobra desta bagunceira, atiram para o chão, para um canto da sala. Ah, sim, porque embora haja uma sala ampla onde se pode almoçar com outras pessoas (no registo de restaurantes que conhecemos), há também salas privadas com uma só mesa. O que levam à boca mas não conseguem comer, vão cuspindo para o lado do prato, para a mesa. E em poucos minutos, está instalado o caos numa mesa de restaurante, entre guardanapos amachucados, comida cuspida, restos ou plásticos das embalagens da loiça. Pelo meio, embora nunca tenhamos visto fazerem-no para o chão, puxam o catarro e, ou vão lá fora cuspir, ou fazem-no ali para um guardanapo.

Também fumam em todo o lado, e em todo lado cheira a Martim Moniz, seja restaurante ou loja de conveniência. É a China.

Mas é nas ruas e nos mercados recônditos que encontrámos as iguarias mais estranhas e penosas: aranhas, baratas ou escaravelhos fritos, petiscos de escorpião ou patinhos bebés assados. Vale tudo. E dizem entre risos, comem tudo o que tenha pernas, menos mobílias.

Seguimos então para Shijiazhuang, depois da Tina nos ter ido ainda comprar um enorme farnel ao supermercado do campos universitário. Um verdadeiro anjo!

Fizemo-nos então à estrada sem que o cobrador da portagem nos tenha propriamente ajudado, depois de nos impedir que passássemos dali em diante.

Mas correu tudo pelo melhor e, embora tenhamos chegado já de noite, chegámos bem e felizes, depois de 3 boleia diferentes, até casa da nossa nova couchsurfer.

Na verdade, hospedou-nos por dois dias num escritório de família, agora vazio, num imponente edifício na cidade. Com uma vista estrondosa do andar em que ficámos, dormimos em duas marquesas que juntámos lado a lado, sob as luzes da noite. Sem chuveiro, adotámos de novo a nossa técnica do alguidar; e sem cozinha desenrascamo-nos sem grande atrapalhação. Contudo, convidou-nos pelo meio a tomar banho na sua casa (onde realmente não teríamos condições para pernoitar).

Ainda em Shijiazhuang, tivemos a sorte de conhecer e travar amizade com dois portugueses e a família de um deles. Ambos a trabalhar já há algum tempo na China, permitiram-nos a abordagem a esta cultura de um novo ponto de vista. Do dia que passámos juntos, recordamos todas as partilhas, passeios, sorrisos e gargalhadas, e também um delicioso jantar. É assim, sem querer, que se tropeça nas gentes da nossa terra: gentes boas de conhecer, que nos confortam tão longe de casa.

Mas sem que nos possamos esquecer, foi também juntos que vivenciámos mais um momento hilariante. Foi à saída de um centro comercial, grande e afamado no centro da cidade, que à porta sentimos pingos nos pés. Incrédulos com a possibilidade de ser chuva, olhámos em volta: e para o canto de uma das grandes portas do centro comercial, estava uma criança dos seus 12 anos a urinar.

Incrível, não é? Mas é mesmo assim. Não interessa que dentro do centro comercial haja casas de banho com fartura. Não importa que rua sim, rua não, haja um sinal a indicar uma casa de banho pública (dizendo até “public toilet” – sendo estas por norma um espaço com várias latrinas, mas sem divisórias, o que torna o momento íntimo num momento de confraternização, com a maior das naturalidades). Prevalece a vontade, o desejo e a falta de higiene. Também já assistimos a crianças com as suas calças cortadas/rasgadas por entre as pernas (como aqui se usa), agachadas em qualquer passeio a fazê-lo sem rodeios, ou mães a segurar os bebés para o fazerem para um caixote do lixo ou lavatório. Não limpa, sacode, e continua caminho.

E também nós acabámos por continuar o nosso caminho, depois então até Pequim, onde chegámos cedo. Pouco passava da hora de almoço, mesmo com um trânsito infinito para entrar na cidade. Enorme, recheada de grandes prédios, grandes edifícios, grandes estradas, que se cruzavam entre si e pessoas. Muitas pessoas.

Na China nunca estamos sozinhos. Muito menos em Pequim.

Aproveitámos então para procurar um grande supermercado, de forma a comprar água e alguns legumes. Muito embora a nossa escolha recaia sempre sobre comprar a locais, em mercados, na China os hipermercados têm uma característica que não podemos negligenciar ou ignorar: têm caixotes com legumes e frutas que já ninguém compra, por estarem feios ou maduras, a menos de metade do preço. E se por um lado queremos sempre ajudar os locais, por outro não podemos compactuar com o desperdício alimentar. Por isso, em Pequim, agimos assim. Mais tarde, em cidades mais pequenas, encontrámos também pequenas lojinhas com esta opção, e aí foi aos nossos queridos velhotes a quem comprámos.

Mas em Pequim a loucura foi imensa, porque também a comida feita de fresco tinha este tipo de promoção ao final do dia, o que nos deixou de barriguinha cheia, com bolsos ainda cheios 🙂

Seguimos depois para casa da nossa couchsurfer! Sabíamos que dominaria inglês, por ter já feito Erasmus, o que nos deixou ansiosos no entender de algumas tradições! Fizemos então do final do dia, madrugada, e conversámos a gosto:

Mais que não seja no que respeita a coisas simples, como o casamento ou um funeral, sabemos que as diferenças são sempre mais que muitas, e por isso aproveitámos também para satisfazer curiosidades antigas.

Quando morre um familiar, a tradição mais antiga exige que se leve o corpo para uma montanha: lá, no cimo, ao ser devorado por um animal, o seu espírito será elevado.

Não tão apreciado por parte do povo é a postura do governo. Assumidamente comunistas só de nome, contudo, são proprietários legais das casas outrora por alguém compradas, após 30, 45 ou 70 anos, em função do que se pague. E, importa salientar, valem muito dinheiro.

Mas o mais engraçado foi perceber que, para um chinês, a Europa é a referencia no que respeita à segurança. Contudo, na China não há assaltos à mão armada e a segurança é elevadíssima.

E assim, dormimos juntinhos e satisfeitos, como se não houvesse amanhã. Cansados no corpo, mas muito despertos na alma.

O segundo dia em Pequim foi mais burocrático, mas sem sucesso face ao que pretendíamos. Voltando à saga dos vistos, gostaríamos de pedir uma nova entrada no nosso, de forma a podermos visitar Macau e a voltar à China, para entrar por terra no Vietname.

Fomos por isso para a polícia tentar a nossa sorte, que se revelou um azar. Embora acreditemos que nada acontece por acaso, foi um desolo ver que se limitavam a abanar a mão perante os nossos pedidos.

Ouvimos por aí dizer que a lei é sempre passível de “alterar”, que na China depende sempre da vontade de cada um, e da carteira de todos os outros, e que, prova disso, seria que nunca deveríamos tentar tratar de papelada à hora de almoço, fecho do dia ou sexta-feira à tarde. Demasiadas restrições para sermos os sortudos. E enfim, difícil se revelou. Quando pedimos uma solução, sugeriram que “googlássemos” – estando o Google bloqueado na China!

Visitámos então a cidade nas redondezas e deixámos o assunto amornar. Tentámos ainda planear a nossa ida à Muralha da China, mas acabámos por deixá-la para um dia depois, de forma a encontrarmos um programa alternativo ao habitual turista.

E assim, fomos pela primeira vez a um “Fake Market”, no caso o Pearl Market mesmo em frente ao Temple of Heaven , o que foi uma verdadeira loucura: se por um lado nos estavam constantemente a puxar e a impingir coisas, por outro nunca pensámos poder ver tanta coisa junta, falsa ou fruto de contrabando, passível de ficar a tão baixo custo! É o capitalismo chinês – que é até muito interessante: na China, criam tudo mais barato, por certo com menos qualidade, mas assim acessível a todos!

Visitámos ainda a praça Tianamen e terminámos a noite com o primeiro amigo que fizemos na China, em Khorgos, na fronteira com o Cazaquistão, onde estava de viagem. Acabou então por nos levar a um restaurante 100% vegetariano, onde nos deixámos deslumbrar com o menu. Novamente, e tipicamente à chinesa, depois de escolhermos os nossos pratos, mandou vir mais dois ou três, que partilhámos de bom agrado! Era comida europeia, mas em tom de partilha: tínhamos já algumas saudades (porque um falafel cai sempre bem 🙂 ).

Acabámos então por no dia seguinte madrugar e seguir para um trecho da muralha mais afastado, em Mutanyau. Saímos cedo. Não estava frio, mas sentíamos nos braços aquela humidade da manhã.

Ao contrário do habitual em Pequim, o céu estava azul, limpo e o sol brilhava. Parecia um dia escolhido a dedo para visitar a Grande Muralha.

Fizemo-lo por nós próprios, e embora não tenhamos escolhido a zona perfeita (por ser turística) ou o timing perfeito (por ser um domingo de verão), conseguimos fazê-lo por 70RMB, menos de 10€, os dois. E não foi difícil, exigiu apenas planeamento e corda nos sapatos!

Fomos de autocarro até à cidade mais próxima e, após duas horas, quase à chegada, tentaram enganar-nos. Trazíamos já a lição estudada, tínhamos já lido sobre isso e estávamos de sobre aviso. Ainda assim, foi chato e constrangedor; muito embora tenhamos de tirar o chapéu à genialidade da manha. Ora então, já perto do destino, mas ainda a uns quantos quilómetros da chegada, numa das paragens do autocarro, entra um sujeito pela porta traseira e grita “Great Wall, it’s here!”, e quando no seu olhar nos avista, fá-lo ainda com mais esforço “Go down, you! It’s here to go to the Great Wall”. E perante a nossa calma e passividade, gritou ainda mais e mais alto, até que nos sentimos obrigados a dizer que sabíamos muito bem onde deveríamos sair. E agradecemos. Com isto, o plano é que os turistas depois de tanto tempo de autocarro, agradeçam a ajuda e desçam ali mesmo. Contudo, ali, não havendo mais nada, e estando ainda longe da entrada da muralha, têm de apanhar um táxi (com o sujeito que as incentivou a descer). E assim vão enchendo os bolsos!

Por fim, chegados nós ao local correto, conseguimos comprar os dois bilhetes como sendo estudantes (exigem apenas que o cartão tenha fotografia e por isso limitámo-nos a ser criativos!) e logo depois subimos montanha a pé em vez de pagarmos pelo famoso ShutleBus. À chegada ao topo, e início da zona turística, apresentámos os bilhetes e subimos até à famosa e grande muralha a pé, em vez de pagarmos pelo teleférico.

E, adiantamos que, embora se faça em menos de duas horas e seja doloroso para as pernas, vale a pena! Vale a pena o cansaço e o prazer de chegar. Vale a pena o caminho e o desfrutar da ansiedade. E, à chegada, o gosto é outro!

É linda. Infinita. Imensa! É majestosa. É imponente.

Gostámos tanto de a ver pela primeira vez!

Caminhámos pela muralha tanto quanto conseguimos, quanto os nossos sonhos desejaram.

Fotografámo-la. Admirámo-la. Sentimo-la.

E ainda lá em cima, fizemos um dos nossos habituais pic-nic, saborosos e distintos, sob o olhar atento de todos os que por nós passavam.

Voltámos depois para a baixo, novamente a pé, já mais mortos que vivos, e sempre de dedo esticado. Apanhou-nos então um taxista só até à estrada principal. E lá, minutos depois, apanhou-nos um casal. A troco da ainda longa boleia, sugeriram que jantássemos juntos: e podemos partilhar que foi um dos jantares mais épicos de sempre! HotPotHot, o nome do restaurante, inserido num hotel. Uma loucura. Gigante, imenso; buffet livre de bebidas e comida. Cada um com o seu “pote” de água temperada sempre a ferver, pudemos escolher por entre as mil iguarias o que queríamos comer e cozinhar: trinta tipos de cogumelos, tofu, vegetais, legumes, enfim. Uma panóplia infindável. E também com pratos já cozinhados. Um sem fim de coisas vegetarianas e de-li-ci-o-sas! Com
frutos tropicais e até pastéis de nata! Escusado será dizer que até nos custou depois a adormecer.

Quando acordámos estavamos já há 4 dias em Pequim e o combinado era trocarmos de casa. Fomos assim para casa da Rafaela, uma portuguesa que ouviu falar de nós através de um grupo no Wechat, casada com um Japonês e com dois filhotes nascidos na China: uma doçura!

Um lar! Num ambiente calmo, descontraído e em paz. Numa casa acolhedora, com uma decoração linda e chão de madeira!

Tanto foi, que acabámos por ficar mais uma noite, com a oportunidade de dar uma entrevista muito especial para o “Diário do Povo”, um jornal que publica em português e em chinês.

Fomos também ainda a um mercado de rua, “Wangfujing”: com animais muito estranhos, as iguarias eram as mais variadas. Da centopeia ao gato, do escaravelho à vaca, havia de tudo. Uma dor na alma.

Nenhum animal merece ser criado, explorado e/ou morto para satisfação de cada um de nós. Sabemos hoje que temos alternativas completas a nível nutricional e de cosmética, não sendo justo que olhemos para um cão ou um gato, de forma diferente daquela que olhamos para uma vaca ou um coelho. Nem que desvalorizemos um escorpião ou uma estrela do mar. Merecem todos o nosso respeito. E não culpemos a cultura, não responsabilizemos a nossa história pelo nosso egoísmo. Estamos sempre a tempo de mudar, de ser melhor. #govegan

Terminámos então o nosso dia a apanhar de um caixote do lixo um (literal) caixote de fruta. Boa! Que vimos ser largado por uma senhora da frutaria da rua por onde passávamos. Pêssegos. Meloas. Maçãs. E uvas. Tudo bom! Mais maduro, menos maduro, depois de lavado, nem queríamos acreditar!

E no nosso dia extra, fomos também a um mercado de cultura tradicional chinesa, “Panjiayuan”, com antiguidades do tempo do Mao Tse Tung. Um mundo sem fim, tradutor de muito daquilo que se encontra pela rua. Marcante, as pinturas de caracteres chineses e a ambição das pessoas por nozes simétricas e pedras “preciosas”, que vimos atingir valores inimagináveis.

Saímos de Pequim no nosso vigésimo quatro dia de China e, ainda assim, com a sensação de que poderíamos passar outros tantos só ali e não conheceríamos tudo! Pequim é realmente encantadora!

E na manhã seguinte, conseguimos então boleia para Zibo: uma boleia direta mas que nos deixou à entrada da cidade. Cansados, enquanto caminhávamos sem alternativa, parou um senhor que nos quis levar até casa. Amoroso, não descansou enquanto não nos viu acomodados. Aqui, ficámos com duas estudantes russas e um gatinho escanzelado, recém resgatado. E por entre pulgas, repusemos as nossas energias para partir no dia seguinte.

Metemo-nos à boleia para Yangzhou e lá chegámos já de noite, depois de 5 boleias. A última, foi com três jovens que iam para Xangai, mas entraram na cidade, com um pequeno desvio, só para nos deixar perto de casa! Mas foi ainda no caminho que assistimos ao mais hilariante: testes de alcolemia realizado sem equipamentos! O polícia mandou parar, o condutor abriu o vidro e em pleno trânsito teve apenas que soprar, soprar com muita força, para o nariz do senhor agente. Este cheirou, e em função da sua percepção, mandou (ou não) avançar! E como esta, há muitas outras situações das quais nunca nos lembraríamos e perante as quais ficamos estupefactos.

Enfim, ao ponto de encontro, chegou o nosso couchsurfer, orgulhoso por nos estar a ir buscar, com um sorriso de orelha a orelha, levou-nos até casa. Lá, esperavam-nos a filhota e a esposa, que se mantinham acordadas para nos esperarem!

Por ser professor de inglês num escola pública, convidou-nós a conhecer os seus alunos na manhã seguinte. Tomámos então o pequeno-almoço na cantina do liceu: leite de soja (que aqui é mesmo natural, sem sequer adoçantes! Resta saber a origem desta soja…..) e “mandô”, uma espécie de pão de arroz muito fofo, com coisas dentro, como pasta de feijão ou legumes.

Na sala de aula, dá-se início aos trabalhos às 8:00h. Lêem, os alunos, em conjunto o mesmo texto, em voz alta, seja sobre ciências ou química, em chinês ou inglês. Fazem do ruído da escola um verdadeiro eco, com a crença profunda de que este é um método educativo relevante. Depois então, as 8:30h, começam a sério. Soubemos também que as aulas não têm hora de terminar, terminam apenas e só quando o trabalho está findo. E ainda, que os alunos são extremamente disciplinados é bem educados.

Pelo restante dia, passeamos pela cidade, completamente derretidos pelo sol que se fazia sentir. Um calor insuportável. E à noite, fizemos um jantar em casa de outra amiga, também professora de inglês: mas que curiosamente não sabia falar inglês, necessitando de tradução de praticamente tudo quando falávamos.

Frescos, na manhã seguinte, seguimos para Suzhou, uma cidade pretinha e a que todos teciam grandes elogios. Apanhámos uma boleia direta, com um jovem ligado à moda e que acabou por nos oferecer um pulseira com pedras ligada ao budismo. À chegada, ainda um pedacito longe, caminhámos até casa do nosso couchsurfer, que acabou por nos encontrar pelo caminho. A casa, uma grande vivenda, ficava num lindo bairro e lá vivia com a sua esposa e o seu filho. Ele, muito mimado, tal como os próprios pais assumiram, por ser filho único e muito desejado. Abria a boca e os pais já estavam a correr na sua direção. Gritava constantemente e cada atitude deixava muito a desejar, tendo em conta os seus já 10 anos.

Pela cidade passeámos, mas esta ficou aquém das nossas expectativas. Muito aquém.

E ao nosso trigésimo dia na China, partimos para Xangai, desejosos de conhecer a cidade maravilhosa! Chegámos cedo, ainda perto da hora de almoço, com 2 boleias. Deixou-nos a última perto do pequeno aeroporto da cidade e apanhámos depois o metro até chegarmos a casa de um amigo de velhos tempos, a trabalhar na cidade. Os transportes, uma verdadeira loucura, com dezenas de linhas, identificadas por números e não cores, com saídas identificadas também com números e não letras, como em cidades mais pequenas; deixaram-nos boquiabertos. Ainda no metro, enquanto este se encontra em andamento, é pelas janelas que se vê publicidades tipo filme. Uma loucura! E aproveitando ser ainda cedo, conhecemos a zona junto ao rio, com vista sobre as grandes e majestosas Torres de Xangai.

Por todas as noites, fomos hospedados por um português carismático, através da sua namorada que em Portugal e desde o inicio acompanhou a nossa aventura! Ele, com uma história de vida multicultural, fez da sua casa, a nossa própria casa.

Durante a nossa estadia, fomos no primeiro dia à polícia (novamente na esperança de obter uma nova entrada para a China, de forma a visitarmos Macau) e a um dos grandes fake Market, onde à porta encontrámos uma lista de marcas não passíveis de contrabando. Todas as outras existentes são então comercializadas, como é o caso da Nike, Converse, Apple ou Dior. Encontra-se de tudo: de malas, a ténis, tabletes, telefones ou relógios, roupas, mochilas.. Enfim. Os preços são feitos pelo cliente, e a negociação é a chave do negócio. All Star, Converse, vimos começar em 600RMB (80€) e terminar em 50RMB (7,5€), reflexo do monopólio existente. Mas contam os locais que há americanos que vêm e compram praticamente pelo preço inicial proposto, permitindo que o lucro seja exorbitante!

Já no segundo dia, conhecemos uma zona tradicional, com templos e casas antigas. E depois de num grupo do Wechat, termos chegado a uma Portuguesa, a Maria, tratámos de encontrá-la com muita ansiedade. Ia voar de Lisboa, e aceitou com a maior das generosidades trazer-nos uma mala com algumas roupas e mimos da mamã. E após grande emoção entre a sua chegada e a chegada das malas, chegou então o momento de ir a sua casa buscar o nosso azeite e afins: era meia mala das grandes, cheia de coisas boas (e também coisas a mais – ou não tivesse sido uma Mãe a enviar o pedido)!

A Maria foi aquela pessoa que fomos conhecer sem expectativas e que guardaremos para sempre no coração. Fala com a alma, e viaja apaixonada, como nós, sempre que pode. Ficou em nós a sua simplicidade e simpatia, e o desejo de a voltar a encontrar em breve. E em qualquer parte do mundo, saberemos que estará a ser contagiada e a contagiar, com o seu sorriso no rosto e doçura no olhar.

Ainda durante a nossa estadia, fomos conhecer a “nova Xangai”, completamente modernizada, limpa. E chique. Com prédios altíssimos, zona de altas marcas e grandes lojas, como Prada ou Gucci. Hotéis de luxo e restaurantes caríssimos, mas subimos sorrateiramente a um dos prédios mais altos, e conseguimos ainda assim, e de fugida, ver a vista lá de cima.
De tarde, perdemo-nos por bairros antigos e jardins de bambus. Acabámos o dia na zona M50, alternativa e recheada de arte, num reencontro com a Maria e uma nova amiga, a Carol.

Não diferente de todas as outras cidades da China, vimos pelas ruas e assim que o sol de pôs grupos de pessoas a dançar, ao som de baladas típicas, sem que se consiga identificar quem é o mentor da aula. Com mais ou menos dificuldade, todos tentam praticar o seu desporto e são bem rígidos perante os seus objetivos.

E assim vivemos o nosso primeiro mês na Ásia, na China! Mas não nos deixámos abrandar: de Xangai, seguimos para Hangzhou, Fuzhou, Xiamen e Shenzhen.

Porque muito embora não seja o relógio a comandar os nossos dias, e nos deixemos levar a cada dia pelo bater dos nossos corações, sabemo-nos sempre com (quase) mundo inteiro por descobrir.

A Hangzhou chegámos com apenas uma boleia, e lá ficámos com um novo couchsurfer e o seu persa – lindo de morrer! Passámos um tempo doce e de descanso, com a certeza de que esta passou com certeza a ser a nossa cidade de eleição. Com um lago maravilhoso e uma montanha com vistas sobre a cidade indescritíveis, fizemos da nossa estadia um momento inesquecível. Talvez por ter tido também há pouco tempo o encontro G20 a possamos ter encontrado mais arranjada ou limpa que o costume; mas guardamo-la assim mesmo no coração!

Ainda assim, pela cidade, pudemos confirmar por entre a multidão que “noção de espaço” é coisa estranha. Os chineses não só não fazem ideia do que seja, como não se preocupam com isso, de uma forma extremamente natural. Encontrões são o prato do dia, mas o mais bizarro e ao mesmo tempo hilário, é o momento em que estamos a mexer no telefone e se vêm encostar a nós a olhar para o ecrã (acreditamos nós que na tentativa de perceber o que estamos a fazer). Não há palavras!

Também por lá partilhámos uma tarde com um senhor do Brasil, apaixonado pela essência da China. Levou-nos não só numa caminhada pela cidade, como a conhecer a estátua de Marco Polo. E, por fim, a jantar num restaurante Italiano, por entre conversas mais profundas e momentos de reflexão.

À chegada a casa, tínhamos como surpresa um jantar preparado, onde procurámos com carinho encontrar um espacinho no estômago para o apreciar. E estava realmente delicioso, tipicamente chinês e cheio de tofu – como tanto gostamos!

Partimos depois para Fuzhou, mas a coisa não correu assim tão bem. O despertador, a tocar desde cedo, mas em silêncio, não nos acordou. E depois, depois o autocarro urbano também não apareceu. E para ajudar à festa, chovia. E chovia. E chovia.

Embora com ajuda de muito boa gente, que de tudo fez para que o desfecho fosse o melhor, apanhámos duas boleias, por entre o trânsito caótico da China – com carros em contra mão até na entrada da autoestrada – mas chegámos apenas à estação de serviço de uma pequena cidade, onde acabámos por pernoitar. Lá, acolheram-nos com muito amor: no restaurante desviaram uma mesa, e ali fizemos a cama. Colchões no chão, sacos-cama no seu melhor. Wi-Fi da cafeteria, e dormimos descansados, na esperança de que o sol no dia seguinte desse ares da sua graça.

Mas não. Chovia, parava, chovia, choviscava. E sol nada. Eram pouco mais de 7:00h e já estávamos de volta à estrada, onde passámos novamente o dia. Mas desta, chegámos ao destino depois de 5 boleias, todas muito diferentes e muito especiais.

De um jovem alternativo e muito simpático, a duas jovens muito tias e muito queridas, a um gordinho num Mini cor-de-rosa; vivemos só emoções fortes. Mas a mais fortes de todas, só quando pusemos os pezinhos em casa!

De felicidade, descanso e paz para o corpo.

Mas mais.

Em Fuzhou ficámos com um jovem chinês. Não lhe conseguimos ao primeiro momento tirar a pinta, mas hoje estamos felizes pela oportunidade que nos demos. O cansaço que trazíamos no corpo, a cozinha muito suja e o cheiro a tabaco fizeram-nos vacilar, por certo. Mas assim, ninguém vê o essencial. Porque o essencial não se vê com os olhos. Demo-nos então uma oportunidade, e foi num passeio já de noite, pelo centro da cidade e por entre amigos, que nos sentimos tão bem. E que bom assim, porque não só as energias físicas se recarregam.

E, por fim, depois de uma boa noite e de um pequeno-almoço muito acolhedor, fizemo-nos caracóis a caminho, de casa às costas, com Xiamen em mira. E assim a avistámos, perfeita no meio do mar, depois de 3 boleias muito bem sucedidas.

Não cansados ainda de aventuras, e depois de chegados a Xiamen, fomos avisados da proximidade do Tufão Meranti. Tínhamos acabado de chegar: acabado de nos apaixonar pela casa, apaixonar pela vista, pelo mar. Tínhamos acabado de nos apaixonar pela ilha. E também por quem nos estava a hospedar. Éramos então feitos de encanto, de amor.

Na verdade, não valorizámos qualquer aviso; nem nós, nem os locais. Se o recolher tinha sido aconselhado a partir das 17:00h naquele dia, eram 23:30h e continuávamos sentados na varanda a jantar, conversar, confraternizar. A Aida, iraniana, esposa do João, português, casados e um doce. Hospedaram-nos com tanto tanto carinho, que também não era preciso o tufão para que tudo se tornasse inesquecível.

Continuávamos então na varanda, os três (com o João de férias em Portugal), até ao pequeno sinal de uma barata a entrar casa a dentro, esvoaçante.

O tufão tudo levou: palmeiras e outras árvores, carros e o que mais apanhou pelas ruas. Em casa, o barulho fazia-se ensurdecedor e cíclico. As janelas, abanavam, batiam. Estilhaçavam-se outras, e o medo instalou-se. Não queríamos propriamente acreditar que afinal era mesmo verdade… mas era! E em pleno nono andar, a casa inundou. Inundou mesmo: por entre toalhões que de forma descontrolada começámos por pôr no chão e a carpete de seda feita à mão e trazida do Irão. O clima era de destruição. Os sons eram horrorosos e ecoavam. Não parecia ter fim. Foram mais de duas horas de pânico, de espera. Lá fora, tudo voava, tudo se despedaçava. E nós, escondidos num quarto interior, espreitávamos a medo, por entre a curiosidade e o receio.

No rosto da Aida, caiam lágrimas. Sentidas.

Era a presença da destruição que assustava; não o tufão.

Seguiram-se momentos, horas e dias, duros. Vimos o recomeçar, o seguir em frente, de perto. E ajudámos por casa tanto quanto pudemos, até que do nosso campo visual se eliminassem lembranças. Mas, da rua, não mais. Não havia estrada sem árvore caída, sem vidros ou destroços.

E assim ficou uma ilha por conhecer, mas (re)conhecida na sua essência. Não a vimos como nova, e talvez nunca venhamos a ver. Mas certo é que em nós ficou marcada.

Alargada assim a nossa estadia, chegámos só depois a Shenzhen, com 3 morosas boleias. Lá, encontrámos um amigo português, já tarde, também ele treinador de futebol. Com uma humildade desmedida, fez da sua cama a nossa cama e da sua presença uma verdadeira companhia. No decorrer do dia, palmilhámos a cidade por entre os seus maravilhosos parques e, já depois de almoço, conseguimos dar sangue para a Cruz Vermelha – uma experiência internacional muito interessante, até mesmo na forma como tudo se processa. E o mais engraçado, o facto de oferecerem um brinde pela doação: no caso, um selfie stick.

Já à noite, tivemos a oportunidade única de jantar num restaurante Budista, e por isso vegetariano. Buffet, e ainda sem álcool. O verdadeiro paraíso, porque mesmo que não soubéssemos do que se tratava, sabíamos que podíamos comer! Quem lá nos levou foi a amiga que fizemos em Pequim, e que já lá nos havia proporcionado uma das melhores experiências de sempre à mesa, quando nos levou ao HotPotHot; o que nos deixou perplexos e em êxtase.

Cheios, aptos quase que para rebolar, conseguimos adormecer só depois de uma caminhada e um chá quente. E para acordar na manhã seguinte, não foi fácil. Eram pouco mais de 6:00h quando o despertador tocou. Era hora de seguir para Hong Kong, e havia tanto até lá para fazer!

Mas mais tarde, partilharemos também estas aventuras, e outras tantas. E em breve, chegaremos também a Macau! E logo depois voltaremos à China, para chegar ao Vietname. O tempo não pára e depressa esperamos conseguir partilhar toda e cada vivência.

Têm sido as diferenças culturais que nos têm apaixonado neste longo caminho, mas mais ainda a descoberta ou confirmação de que a hospitalidade e generosidade são características transversais à humanidade.

Vamos decerto manter-nos sonhadores, neste caminho que traçamos com muito amor, e palmilhar o mundo que nos falta.

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6 meses: FAQ

São 6:
6 meses de viagem
6 meses de aventura
6 meses de amor

E por estes, e por todos os que virão ainda, pelo mundo, estamos muito felizes!

Partilhamos assim as respostas a todas as questões que nos fizeram chegar, na esperança de que satisfaça a curiosidade de cada um, e faça sorrir, faça viver, faça sonhar!

É muito amor não é? E loucura também?

Tiago – Um pouco dos dois, mas mais gosto por conhecer e aprender.
Joana – Amor decerto! Quanto à loucura… pobres dos sãos!

Qual foi, até à data, a melhor e pior experiência?

Tiago – A melhor experiência foi termos sido hospedados por locais em aldeias remotas. A pior foi andar à boleia com quem não confiávamos, no final correu tudo bem, mas foi uma viagem muito tensa.
Joana – Partilhamos a pior, quanto à melhor, não consigo escolher. Esta viagem é feita de boas experiências! Talvez guarde com carinho a chegada ao Irão: não estava à espera de tamanha hospitalidade. Não há reflexo da realidade do país fora deste, o que é uma pena!

Nunca tiveram medo?

Tiago – Nunca tive medo, mas senti alguma tensão quando um condutor se desviou do caminho: afinal ia só visitar uns amigos.
Joana – Já senti sim, e uma das vezes foi exatamente nessa situação. Queria sair do carro, não queria esperar para ver. Sou mais medrosa! Mas há uma linha muito tênue que separa o medo da tranquilidade; quero com isto dizer que sempre que tive receio de alguma coisa, foi num segundo que me acalmei e vi que estava tudo bem.

Do que mais sentem falta?

Tiago – De azeite, da minha família e amigos. E da minha bicicleta! E embora só tenha descoberto há três dias, também tinha saudades de bolachas Maria.
Mas nesta viagem estamos sempre ocupados e por isso não temos muito tempo para sentir saudades. O nosso dia é conhecer pessoas, caminhar, apanhar boleia, conhecer pessoas outra vez e dormir.
Joana – Da minha família e amigos, embora estejamos sempre em contacto. Também sinto muita falta do meu espaço (coisa que nunca tinha pensado gostar tanto), da minha cozinha e dos meus lápis-de-cor. Tenho saudades de conduzir, e de passear na baixa em Lisboa.

Acham que vão conseguir voltar e ficar?

Tiago – Encaramos esta fase como uma experiência que queríamos ter e por isso sabemos que a vida terá outras fases pelas quais também queremos passar. É como perguntar a um estudante universitário se vai conseguir adaptar-se à vida de trabalhador… O que tem de ser tem muita força.
Joana – Não tenho a menor dúvida!

Dão-se bem a tempo inteiro?

Tiago – Temos algumas desavenças, claro. Não somos perfeitos e é assim que nos tornamos mais fortes. Mas especialmente quando nos faltam boleias ou passa do meio dia e ainda não temos poiso certo, há maior tensão. Mas sei que quando por qualquer momento não estamos juntos, nos sentimos vazios.
Joana – Importa que no fim fique tudo bem, que não nos deixemos adormecer de costas voltadas. Acredito que, mais que tudo, somos pessoas. Como tal, temos os nossos momentos: e melhores ou piores, e especialmente neste tipo de viagem nem sempre é fácil gerir sentimentos. Só nos temos a nós e sabemos bem disso. Sabemos que somos a nossa companhia a cem por cento, mesmo quando estamos insuportáveis.

Quanto dinheiro já gastaram? Têm conseguido manter a vossa proposta de orçamento?

Tiago – Gastámos à volta de 1300€ em 6 meses. Significa que estamos completamente dentro do nosso orçamento inicial de 10€ diários para os dois.
Joana – Só em vistos fizemos um investimento de 700€, quase tanto quanto o que gastámos até agora em bens (alimentares ou de cosmética). É uma pena não termos passaportes diplomáticos!!

Têm conseguido manter o vosso estilo de vida alimentar, o veganismo?

Joana – Esse começou por ser um grande desafio e aprendemos, com o tempo, a levar os dias sem culpa. Depois da Turquia, a comunicação começou a ser uma barreira cada vez mais acentuada. Pensávamos que conseguíamos explicar sempre que éramos vegetarianos, mas por muitas vezes as pessoas recebiam-nos em suas casas com grandes banquetes, recheados de carne, laticínios e ovos. Até mesmo do pão não lhe sabíamos a origem. Foi uma gestão pessoal muito complicada, porque saímos de Portugal veganos e sem consumir produtos processados. Açúcar estava fora da lista, por exemplo. Hoje sem comprometimentos sabemos que nos limitámos a adaptar a este momento da nossa vida, do qual não nos orgulhamos a nível alimentar. Não compramos produtos de origem animal e ovos sabemo-los caseiros. Não podemos dizer que vivemos felizes no que respeita a esta opção, mas sabemos ser a mais sensata face à viagem que estamos a fazer. Carne, peixe e leite continua absolutamente fora do nosso cardápio. E sabemos que aquando o nosso regresso continuaremos a ser o que já um dia fomos: amigos e respeitadores da vida. Pelo mundo, a nossa atitude não é diferente; mas impõe-se respeitar os que nos estão a receber e que, por muitas vezes, nos partilham aquilo que têm no prato. Em casa as coisas são diferentes, aqui estamos completamente fora da nossa zona de conforto.
Tiago – É possível dar a volta ao mundo como veganos, mas com o nosso molde de viagem é que é mais difícil. Quando estamos numa aldeia remota e as pessoas nos acolhem nas suas casas e nos dão aquilo que têm, não podemos recusar tudo. Quanto mais quando existem barreiras linguísticas e culturais que dificultam qualquer explicação. Em relação à carne e ao peixe não somos flexíveis, cada vez nos custa mais entender que continuemos (sociedade) a comer carne sem pensar no que estamos a fazer. Já quanto aos ovos temos sido bastantes flexíveis, leite não bebemos, mas de vez em quando não existem outras opções além de derivados do leite e esporadicamente consumimo-los. Por favor, revoltem-se com esta flexibilidade e espetem-nos as vossas farpas de todos os lados.

Têm algum cuidado especial?

Joana – Na viagem em geral, tentamos ter algum cuidado com aquilo que comemos e a forma como o fazemos. Normalmente, se é algo cru, não temos água potável para lavar e não dá para descascar, não comemos. Outro tipo de cuidado especial, só no que respeita a atitudes. Eu sei que sou mais impulsiva e explosiva que o Tiago, o que por vezes lhe dá trabalho! Tenho dificuldade em conter-me perante uma injustiça, por exemplo; mas tenho-me tornado cada vez mais cuidadosa, muito embora nem sempre saiba reagir da melhor forma, o que é importante perante um mundo desconhecido.
Tiago – Uma regra importante: faz como vires fazer, até ao teu limite. Por exemplo, eu não consigo atirar lixo para o chão, mas consigo sentar-me no chão e comer com as mãos, todos do mesmo prato. Outra regra de ouro é fugir dos problemas: se alguém nos quer arranjar problemas, primamos por sair dessa situação sem repostar ou sequer tentar dar uma chapinha de luva branca, como tanto gostamos noutros contextos. Acreditamos que esta atitude a longo prazo nos é retribuída em forma de energia positiva, o que não só nos influência a nós próprios, como a todos os que cruzam o nosso caminho. “Be ALWAYS polite”, se bem que para um de nós isso é um desafio muito grande.

Conseguem descrever um momento caricato ou embaraçoso?

Tiago – Numa boleia no Quirguistão, o senhor levou alguma tempo a dizer-me em russo que ia ao hospital visitar um familiar com cancro e eu sem perceber muito bem, seguia dizendo: “sim, muito bom”. Quando percebi, já era tarde; mas no final da viagem disse-lhe que esperava que tudo corresse pelo melhor.

O que trazem nas mochilas?

Tiago – Uma tenda, um marcador (para escrever num pedaço de cartão para onde vamos), meia dúzia de trapos para vestir e para durante a noite nos aquecer, uns electrónicos para manter o contacto e tirar fotografias e muitos sorrisos. Também temos uma mochila mais pequena com comida e água. E a bandeira de Portugal!
Joana – Além da roupa e calçado (que inicialmente era de verão e inverno, mas que agora se resumiu à primeira), uma rede mosquiteira de casal, repelentes, cosméticos (shampo e sabonete sólidos, cremes, desodorizante e coisas de menina!), bijuterias, e alguns medicamentos de rotina e outros de emergência. Tenho também música e um caderno.

Há recomendações específicas para andar à boleia?

Joana – Paciência, é o mais importante. Mas eu diria que não há nada específico, a não ser o bom senso. Primeiro, há que confiar na pessoa que parou, pelo menos à primeira vista. É preferível não chegar ao destino, e estar bem, que o contrário. Depois, há que partilhar a nossa história com quem nos está a ajudar, que é a única coisa que podemos dar em troca (a não ser que a barreira linguística não o permita, mas é por isso também que o Tiago se empenha tanto na aprendizagem da língua de cada país por onde passamos). E por fim, deixar bem claro sempre que estamos à boleia, que não pretendemos que a pessoa altere a sua rota e nos leve apenas para onde já está a ir, sem que paguemos por isso. Cabe-nos também no carro respeitar as pessoas e, por exemplo, não começar a mexer nas mochilas ou a falar Português entre nós – por vezes quem nos leva também tem algum receio. Ainda assim, no que toca a viajar por países por culturas distintas é que encontro uma recomendação/regra fundamental: não julgar. Às vezes é difícil, às vezes não percebemos nada, mas é mesmo assim.
Tiago – “Quem está à boleia, sujeita-se”. Ter sempre isto em mente, e depois tentar criar confiança com o condutor: partilhar o mais que consigamos e o mais que ele queira saber.

À data, qual o maior impacto da viagem na vossa vida? E em vocês próprios?

Joana – Acredito que só teremos resposta para estas perguntas aquando o nosso regresso, contudo acredito também que a cada dia que passa nos conhecemos melhor.
Tiago – Com esta viagem aprendemos a dar valor a uma simples cama ou garrafa de água. Cada barreira que ultrapassamos faz-nos enfrentar as próximas barreiras com mais confiança e isso é algo que levamos para a vida. Ao nível dos valores, creio que nos tornámos já mais tolerantes, pacientes e reflexivos.

meio caminho em Mar Negro

Conhecemo-nos no limite. É por isso que às vezes é difícil viajar, viajar durante tanto tempo, viajar sempre com a mesma pessoa e, mais, viajar à boleia.

Descrevemos detalhadamente na apresentação desta nossa aventura (aqui no blogue) o porquê de termos escolhido deslocarmo-nos a dedo. Mas a verdade é que os momentos de espera tanto podem ser de reflexão e paz interior, calma e preserverança; ou brincadeira; como de tensão e desamor.

Não é fácil quando passamos um dia inteiro à boleia e ninguém nos leva. Ou quando chove e não resta nada mais seco em nós. Ou quando não conseguimos chegar ao nosso destino. Não é fácil. E quando o sol se põe e continuamos na estrada, sem rumo, não é fácil.

E é nos momentos em que não é fácil que nos conhecemos: que nos amamos. Que cuidamos.

Estar de mão dada na alegria – qualquer um.

Imaginem-nos insuportáveis. Com muito frio ou com muito calor. Com fome ou com sede. Rabugentos. Azedos. Irritadiços. Impertinentes.

Imaginem-nos embirrentos, cansados. No limite. E é aí mesmo que nos conhecemos.

Respeitar o espaço, saber ajudar, saber estar. Ouvir. Apregoar a paz, mesmo quando em nós próprios troveja.

Mas mesmo em casa, no conforto do lar, temos as nossas nuvens. Quem não as tem? Ninguém vive no sol. Há sempre por aí uma sombrinha. Faz parte e faz sentido. É assim que deve ser e o mais importante é saber fazer o vento soprar. E em viagem não é diferente.
Mas toda a esta conversa até aqui tem um foco muito interessante: as pessoas.

Até aqui, mesmo quando encoberto, não há dia que não se torne solarengo. Quente! Afável!

Parece contraditório, mas tão depressa em viagem pode não ser fácil; como é em viagem que tudo se torna simples. Porque é em viagem que nos pomos em contacto. Em contacto com as pessoas, com a mais bela gente do mundo. São aquelas que se cruzam em nós: as pessoas. As que nos abrem as portas de suas casas. As que nos levam. As que nos acenam. As que nos sorriem. As que nos abraçam.

E chegamos à Turquia. Sim, não é de hoje. Mas o hoje é sempre mais um dia aqui.

Quando chegámos a Samsun não fazíamos ideia do que estava para vir. Sabíamos que em Bolu, a cidade anterior – e posterior a Istambul – havíamos sido tratados com a maior das cortesias. No supermercado, que nem nos lembrássemos de querer pagar a conta; o nosso couchsurfer até levava a mal. Em casa, deu-nos o seu quarto e mudou-se para a sala. Lençóis lavados, toalhas limpas. O seu carro era o nosso carro. Os seus amigos, nossos amigos.

Mas em Samsun, sucedeu-se o mesmo. E aí, aí deixa de ser coincidência ou arte de bem receber.

Chama-se cultura.

De Bolu até Samsun, tal como partilhámos na crónica anterior, a viagem foi muito especial! Começámos por apanhar boleia de um carro para sair da cidade e, mais tarde, para muitas horas de viagem, levou-nos um camionista, no seu grande camião. Carregadíssimo, não permitia grandes velocidades. Mas estávamos em muito boa companhia. A comunicação era rudimentar, mas chegou na hora em que nos quis levar a almoçar fora. Almoçar fora significou oferecer-nos o almoço num belo e típico restaurante de borda de estrada. Pode parecer rude, mas foi do mais gentil que possam imaginar. E não, não foi tarefa difícil arranjar um prato vegetariano! Saboroso. Quis dar-nos o que no seu mundo de melhor tinha! E já depois da noite cair, entretivemo-nos a abrir e comer um grande saco de avelãs: ou tentar! E como muitas sobraram, ainda as ofereceu.

Um coração de ouro!

Já em Samsun, telefonou ao nosso novo couchsurfer e não nos deixou seguir (nem seguiu) sem que ele chegasse.

Sentirmo-nos amados e protegidos como aqui, só mesmo em casa.

Palmilhámos Samsun para a conhecer e encontrámos várias maravilhas. A melhor, a sua “rua Augusta”, em modo turco. Graciosa!

E ante-ontem, quando partimos para Bulancak, não havia preocupações que nos pertencessem.

Viajar na Turquia é uma verdadeira delícia.

Próprio de uma lua de mel. Aliás, é talvez aqui o primeiro lugar onde todos (sem exceção) nos perguntam se somos casados.

Enleações – só no final da viagem.

Mas sabe-nos muito bem dizer que sim: apaixonados!

De Samsun a Bulancak, levámos várias horas. Não que a distância fosse longa, mas voltámos a apanhar boleia de um camião. Aliás, começando pelo princípio: apanhámos para sair da cidade boleia de um carro. Quando começámos a contar a nossa história, acabou por nos explicar entre gestos e fotos que tinha um camião. Pouco depois levou-nos até um armazém e lá mesmo apontou para um pequeno camião. Vermelho. Mercedes. E disse: “Giresun!”. Percebemos que nos tinha então levado ali porque sabia que dali iria partir um camião na nossa direção. E assim foi.

O camionista, típico turco, tinha um tom de voz rouco e alto. Alto no timbre, fazia doer os ouvidos a cada expressão: mas muito entusiasmado. Sorridente, o único problema era mesmo a quantidade de cigarros que fumava a cada cinco minutos! Mas é assim, “quem anda à boleia, sujeita-se” – já dizia o pai José.

Mais uma vez, parou pelo caminho para nos oferecer chá num café de borda de estrada; e não nos deixou sem que o nosso couchsurfer nos fosse buscar (…a história repete-se!)!

A nossa estadia com este couchsurfer foi muito facilitada: professor de inglês, vivia com a mãe e, mais uma vez, fez-nos sentir em casa.

Aprendemos na sua casa que ajudar teria que ficar fora de questão: em Portugal, mesmo quando somos convidados, cabe-nos ajudar, nem que seja a levantar o nosso prato da mesa. Cabe-nos ser prestáveis. Mas aqui, cabe-nos o contrário: ficar sentados, à espera que nos sirvam. E sabe tão estranho! Pior, é que é uma ofensa querer ou tentar ajudar.

Experimentámos levar o nosso prato até à cozinha, e a primeira coisa que ouvimos foi um pedido: para não voltarmos a fazê-lo, pois significaria que a sua mãe não estava a saber receber-nos ou a dar conta do recado.

Aprendemos também que os convidados estão acima deles próprios. Aliás, têm mesmo um provérbio que o diz.

Entretanto, ainda em Istambul tínhamos conhecido uma amiga dos nossos amigos, cuja família vive perto de Giresun. Giresun é uma cidade a 20 quilómetros de Bulancak. Convidaram-nos a visitá-los, com um único senão: turco era a língua possível. Ninguém na aldeia, ou vila, no meio das montanhas e de muito verde, falava uma só palavra de inglês. Mas foi-nos impossível recusar. E ainda bem!

(Até porque entre nós há quem já tenha como sétima língua o turco)

Não sabemos como se explica o amor, como se explica a bondade. Não há explicação senão sentida, porque o que mais queremos é expressar-nos e faltam-nos as palavras.

Passeios pelas vinhas, pelas hortas. Montes e vales. Montanhas. Aldeias. Casas antigas!

Levaram-nos a conhecer cada canto das suas infâncias, por gestos e poucas palavras, cada recanto das suas vidas. Nos olhos carregavam a felicidade de nos receber. E em cada gesto também. Fluíam os abraços, os sorrisos. A gratidão. Prepararam receitas deliciosas. A casa, feita de madeira, encheu-se. Encheu-se de todos aqueles que nos quiseram receber e saudar.

E acendemos a salamandra, partimos avelãs. Torrámo-las. Apanhámos morangos. Lavámos cerejas. Pecados uns atrás dos outros – feitos de gula.

Com o cair da noite, nas nossas almas jazia que também numa casa de madeira nos conhecemos e apaixonámos, pela primeira vez.

Quando o sol ontem nasceu, era dia de voltarmos atrás, a Bulancak. Lá tínhamos deixado as nossas grandes mochilas e também um compromisso: o de irmos ao liceu, no horário da aula de inglês, conversar com os alunos e mostrar-lhes a importância da segunda língua. E por entre risinhos e muita vergonha, correu tudo muito bem!

De missão cumprida, e coração apertado apertadinho, seguimos caminho. Os nossos corações têm sido valentes; mas desgraçados, em cada despedida vêm-se aflitos.
Vales-lhe que se têm um ao outro.

E de Bulancak seguimos até Trabzon, que é de onde escrevemos hoje. Até aqui, apanhámos três boleias. Dois carros e um autocarro (dos pequeninos). Andar à boleia na Turquia é tão descomplicado e tão espontâneo, que é também um verdadeiro prazer: o primeiro carro nem nos deu tempo para pousar nada. Foi só esticar a placa. Curiosamente, era amigo do couchsurfer que nos hospedou em Samsun – pequenino este mundo! A segunda boleia foi então de um autocarro tipo shuttle bus: que até nos custou a crer que queria levar-nos sem pagarmos, mas que assim aconteceu! E a última boleia, não menos importante, foi já na cidade, mas fruto da preguiça de a atravessar por completo para chegar perto da casa do nosso novo couchsurfer.

Este, também médico, cirurgião plástico, acolheu-nos como por aqui tão bem o sabem fazer, e partilhámos o que de melhor em Portugal também nós sabemos fazer: longas e boas conversas, em torno de uma mesa recheada!

Hoje palmilhámos Trabzon e podem as nossas sapatilhas contar como foi: 15 quilómetros sempre a andar, por entre ruas estreitas e escadarias, prédios demolidos e crianças a brincar. Considerámos esta uma cidade suja e desarrumada, mas importa sempre conhecer.

Até porque a costa do Mar Negro tem sido uma verdadeira surpresa. Trazemos em nós admiração e encanto. Trazemo-nos pelo mundo fora com afeição – e sempre com respeito.

Entre nós e com o outro.

Porque o sentimento de bem-querer também se constrói. E só assim prevalece no mundo. Naquele que trazemos na mão e levamos na alma.

São já 5962 quilómetros, com 85 boleias.

São já muitas noites em muitos sofás, muitas camas. Muitas luzes. Muitos lençóis, cobertores e edredons. E dois saco-camas, que se unem num só.

São muitas partilhas. Muitas vivências. Muitas gentes. Muito crescer.

Amanhã caminharemos um pouco mais. Seremos um pouco mais também!

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Mamma mia!

Mamma mia! 

Faz já alguns dias que escrever tem ficado para segundo plano. Não que nos tenhamos esquecido, não que não tenhamos vontade de escrever. Mas porque os dias têm tido poucas horas para tudo o que temos vivido.

Dia 25, ainda no turno da manhã (e pela primeira vez!), saímos de Cannes, com o objetivo de chegar ao Mónaco. Este país, embora pequenino, é um verdadeiro mundo deslumbrante. E por isso decidimos ir até lá durante o dia e regrassar à noite para Nice, onde pela primeira vez nesta viagem utilizámos o couchsurfing.

Pouco passava das 9:00h e já o sol estava muito quente. Sentíamos os ombros quentes e desejosos de largar as mochilas, mas a primeira boleia do dia não tardou assim tanto. Era um senhor sorridente que, depois de ter estado a viver no Brasil, nos cumprimentou com um “Olá!”. A boleia foi curta, mas a conversa animada! Deixou-nos depois numa nova entrada para a autoestrada que seguia com direção ao nosso destino.

Lá,  conseguimos a segunda boleia e direta para o Mónaco. Um Mercedes, dos grandes. Confortável e alto, de onde se avistava o mar e toda a paisagem a que tínhamos direito. As partilhas foram tantas, que tivemos até pena de deixar o carro. Os assuntos comuns, os gotos, as histórias; foi gracioso.

O Mónaco, palmilhamo-lo de cima a baixo. Com mais ou menos cansaço, entre a beira-mar, o casino, o porto ou os jardins; conseguimos por 1 hora ter onde deixar as mochilas, o que nos aliviou e deixou mais à vontade. A verdade é que com toda a instabilidade deste mundo, não é fácil que aceitem guardar as nossas tralhas. Mas, no fundo, tivemos sorte.

Já ao final do dia, de depois de algumas aventuras juntos, tratámos de regrassar para Nice, onde queríamos pernoitar e onde nos esperava uma couchsurfer. Mas foi quando nos tentámos pôr ali à boleia, que percebemos que no Mónaco era proibido fazê-lo. Já nos tinham tentado avisar, mas nenhum de nós havia percebido!! Afinal, tinham-nos dito que deveríamos ir para depois da fronteira, mas até lá apenas tínhamos compreendido que um bom sítio para pedir boleia seria uma rua “…..border“. Que dois.

Caminhámos então, montanha acima, até que vimos uns caixotes do lixo com indicação francesa, podendo nós decerto a partir daí pedir boleia.

Bandeira de Portugal às costas, e enquanto esperavamos, percebemos que a sinalizar o trânsito estava um português! Saudou-nos, desejou-nos boa sorte. E pois que a tivemos! Não queremos mentir, mas foi muito rápido! Duas senhoras, meia idade. E iam mesmo para Nice e para a mesma zona da cidade!

À chegada, e assim que deixámos o carro, deparámo-nos com leões enjaulados. Cães. Animais. Era um  circo. Que triste. Ficámos triste com este primeiro impacto, que claro, poderia ter sido em qualquer outro lado, ou infelizmente, até mesmo em Portugal. Que infelicidade. Que mágoa. Como podem ainda algumas pessoas acreditar que os animais ali são bem tratados? Que são felizes no circo?

E seguimos. Seguimos com aquela imagem latente no pensamento. E na alma.

Demos uma pequena volta por Nice, já com as estrelas no céu e com o peso das mochilas insuportável. E terminámos numa casa acolhedora, com um manjar dos deuses português – alho francês à Brás e cogumelos grelhados, e uma companhia muito agradável!

Na manhã seguinte, o sol raiava pela janela do quarto. Pouco passava das 6 horas da manhã e já a luminosidade era forte, tão forte que nos despertava dos sonhos e nos fazia confirmar constantemente o relógio.

Pouco passava das 10 horas, e estávamos novamente à boleia. Caminhámos pouco para sair de Nice. Pouco porque em França encontrámos com muita facilidade ruas onde é proibido caminhar. Proibido para segurança das pessoas, mas não deixa de ser proibido. O que nos leva a ter de ir dar uma grande volta, ou a ter de esperar pacientemente no início da estrada, ou rua.

Neste caso, o lugar não era o melhor, mas não tínhamos para onde ir. Era naquela direção que estava a estrada que queríamos apanhar para seguir caminho, e por isso limitámo-nos a esticar o dedo.

E no imediato, parou um carro! Nem estávamos bem atentos ou prontos, ou à espera que acontecesse. E no carro, estava apenas uma senhora, com um hijab – espécie de véu que as muçulmanas usam, que lhes cobre o cabelo, orelhas e pescoço. Envergonhada, mas amável. As palavras não lhe fluíam, mas o olhar era ternurento. Ter parado, demonstrava a sua generosidade. Porque no fundo, não nos levou para longe; mas deixou-nos mesmo à entrada da autoestrada que seguia para Itália. E era mesmo em Itália que tínhamos a próxima casa. A próxima família. O próximo destino.

Da entrada da autoestrada, conseguimos outra boleia. Desta, era um jovem numa carrinha, que havia reconhecido a nossa bandeira por já ter estado no festival BOOM – e bom, nunca pensámos que este festival fosse tão internacional. Deixou-nos depois, numa estação de serviço,  já a poucos quilómetros da fronteira.

E lá pernacemos ainda uma hora, ou um pouco mais. Muitos dos que por ali passavam iam apenas a um mercado perto da fronteira e fora da nossa rota. Muitos eram já Italianos e não tanto acolhedores. Muitos iam com o carro cheio.

E decidimos deslocar-nos para o fim da estação, para petiscar alguma coisa e ao mesmo tempo esticar o dedo. Ali, não tínhamos placa. Não adiantava, porque se escevessemos uma cidade, a maior parte não conhecia. Se escrevessemos Itália, era desperdiçar cartao: por ali, não tinham hipótese, todos iam passar a fronteira.

Estavamos por isso, é literalmente, com o mundo na mão. Dependia do nosso dedinho, esticado, seguir mundo fora.

E dependia também do nosso estado de espírito. Da nossa vontade. Dos nossos desejos.

Sorrisos esperançados, ainda o dia ia a meio.

Pararam depois vários camiões. E estranhámos. Sabiam que éramos dois, e mesmo assim paravam – o que ocidentalmente não é comum. Mas como eram romenos, achámos possivel. Os dois primeiros, embora a comunicação fosse rudimentar, acabaram por dizer que não iam na nossa direção dentro de Itália , mas o último foi o que se fez entender melhor. Infelizmente, gesticulou que esperava favores sexuais ao levar-nos. Ou mesmo que não fosse a troco da boleia, achou que os incluiría.

E aí, sentimo-nos pequeninos, pequeninos. Agonizados. E consciencializados do motivo pelo qual todos estavam a parar…

Acabámos por nos deslocar para a a zona de abastecimento e abordámos as pessoas. Pode levar mais tempo, ou menos, nunca sabemos. Mas a crença é simples: cabe a nós escolher a quem perguntamos e alguém nos há-de levar. E assim foi! Conseguimos boleia para Savona, que ficava depois a pouco mais de 100km de Bra – uma pequena cidade antes de Torino, onde uma amiga nos esperava. Levaram-nos dois jovens da casa dos 40, e um deles estava a concluir a sua volta ao mundo: imaginam pois a quantas partilhas deu aso. Maravilhoso!

Já em Savona, acabámos por por ficar numa outra estação de serviço,  mesmo antes da nova autoestrada onde pretendíamos seguir. Aí, como sabíamos perfeitamente qual a direção, optámospor escever na placa “A6 TO” – autoestrada 6 com direção a Torino e colocar-nos no fim da estação; pois na bomba havia também restaurante, e quando abordavamos uma pessoas, perdíamos outras.

No fim da estação estivemos talvez 2 horas, até aparecer um viajante Eslovaco – como nós, que além de humilde, queria ajudar-nos. Entre Italiano, Francês e Espanhol, com um verdadeiro mix de línguas, conseguiu explicar-nos que havia um sitio um pouco melhor para estarmos; e acabou por levar-nos até lá!

Lá, eram as portagens. As portagens que davam  acesso à autoestrada e onde era permitido estarmos. Lá, os carros tinham espaço para parar. Lá, estávamos abrigados. Lá, tinha luzes (caso escurecesse). Era realmente melhor! Mas foi lá que permanecemos mais 4 horas.

Mamma mia!

Valia-nos que agora, com tamanha modernice, em todo lado encontrámos wifi. E ali, não era exceção. Conseguíamos por isso estar conectados, e a receber força. O que não deixou de ser engraçado, porque há uns anos era impensável. Recebemos até uma video-chamada de Portugal, onde alguns amigos se reuniram para nos deixar um abraço. Que amores!

Mas mesmo com essa força extra, começavamos a deixar-nos esmorecer. Eram centenas e centenas os carros que já tinham passado por nós. Eram mais de 6 horas no mesmo sítio. Eram estrelas no céu.

Mas parou, parou uma senhora iluminada. Podemos chamar-lhe até mãe galinha, porque estava mesmo preocupada connosco. Avisou-nos vezes sem conta que iria seguir apenas 20 quilómetros na nossa direção. E embora tenhamos aceitado, não estávamos de acordo. Havia de um lado o desejo de deixar para trás aquele lugar; do outro receio de ir para um sítio pior, sem trânsito e sem abrigo. Mas fomos.

Fomos e pelo caminho pediu-nos que apanhássemos um comboio para o nosso destino. É difícil explicar a uma senhora, a uma mãe ou alguém que nunca saiu da sua zona de conforto que a nossa viagem não é feita de autocarros,nem de comboios, nem de táxis. É dificil, e por vezes duro. Para todos.

Porque se alguém acha que é fácil estar à boleia, várias horas, com mochilas de 15 quilos às costas, com neve à volta, e de noite; desengane-se. Não é fácil. Não é (tudo) bonito.

Talvez a culpa seja também nossa, porque quando contamos as histórias, já está tudo tão bem, que o que foi mau fica para trás. Mas não é por isso que deixou de acontecer. Porque aconteceu.

É que no fim, acaba sempre tudo bem! Mas e até lá?

Pois é, quando a senhora nos deixou, numas novas portagens, o frio era implacável. Parecia que nos penetrava! Os narizes pingavam. Em poucos minutos tínhamos as capas das mochilas molhadas. A neve à nossa volta fazia-nos questionar em que país estávamos. Como é que 20 minutos de estrada faz o clima tão diferente?

Esperámos.  E continuámos a espera.

Mamma mia!

Quase gelados, já com meias extra por cima de meias, não percebiamos como é que com carros a passar apenas de 5 e 5 minutos, nenhum queria saber de nós. Até que parou um carro. Abençoado!

Abençoados jovens! Da nossa idade, genuinamente simpáticos. Iam mesmo na nossa direção por mais 60 quilómetros, para esquiar. E foi uma sensação indescritível entrar naquele carro, quentinho e repleto de boas energias.

Quando nos deixaram, despedimo-nos com beijinhos e abraços. Sentimo-los felizes por nos terem ajudado. E nós, uma vez mais, tão, mas tão gratos.

Mas no mesmo instante em que tiravamos as mochilas, parou um carro atrás. Percebeu que éramos viajantes e tentou oferecer-nos boleia a troco de combustível. Uma vez mais, recusámos. Mas por entre a conversa, acabámos por perceber que falávamos todos português e que o senhor era de Angola. Com tamanho patriotismo, quis então ajudar-nos e acabou por nos levar até Mareme, a 8 quilómetros do nosso destino; passava já  das 23:30h.

Foi uma boleia animada. Ia buscar um amigo a Torino, mas queria também muito ajudar-nos. Tanto, que em 5 minutos já queria arranjar-nos uma carta de chamada para visitarmos Luanda! O único senão, dos grandes, foi que nos deixou em plena autoestrada, junto à saída da cidade para onde íamos. E nós, carregados de tralha, e carregados de alegria por estarmos a chegar, caminhámos. Limitámo-nos a caminhar vigorosamente, depois de termos avisado a nossa amiga que estávamos a chegar. Combinámos pois um ponto de encontro numa rotunda que daria acesso à autoestrada, e caminhámos até lá.

Caminhávamos de formá acelerada, que agora que verbalizamos,não sabemos ao certo tudo o que nós movia. Se o desejo de chegar. Se o medo de sermos apanhados pela policía a andar ali. Se o cansaço. Se a alegria. Certo é que fizemos 3 ou mais quilómetros sem questionar um único passo.

Mas já mesmo com a rotunda ao fundo, avistámos luzes azuis. Mamma mia!

E aí corremos. Corremos como se não houvesse amanhã. Não sabemos onde estavam essas forças guardadas, mas o instinto e a sobrevivência são realmente uma força da natureza.

E quando os encontrámos, já os senhores agentes estavam a tentar autuar a nossa amiga por estar estacionada na rotunda. Só que quando ela lhes explicou que esperava por nós, acreditamos que ficaram sem saber o que dizer. Porque ela havia dito a verdade: esperava ali dois amigos vindos de Portugal, à boleia, e que estariam a chegar a pé. De tão milaborante, quando nos viram chegar perto, mesmo com um ar pouco amistoso, limitaram-se a dizer que era proibido caminhar na autoestrada e estar estacionado ali. E seguiram.

E seguimos nós também, felizes! Inacreditavelmente felizes.

Incrédulos com a dificuldade que é andar a boleia em Itália: porque para pouco mais 180 quilómetros, levámos horas infinitas. Um dia, do nascer ao pôr do sol e ao erguer da lua. 180 quilómetros em Portugal fazem-se num punhado de horas. E Portugal não é de todo o paraíso das caronas.

Por Bra ficámos uma noite e um dia. Deliciámo-nos com uma típica família italiana e com uma típica pasta ao almoço. E ao fim do dia de ontem, viemos até Torino. Uma cidade magestosa! Mas que hoje não conseguimos ainda conhecer. É que hoje tínhamos horas de sono, e muitas partilhas, em atraso. Aqui, estamos com um amigo de uma amiga, também couchsurfer e com um mundo de partilhas.

Em breve, seguimos na direção de Milão, de Verona, de Veneza e de Trieste. Com rumo a Liubliana, na Eslovénia – com a certeza de que, dia após dia, somos mais unidos e mais fortes.

Nos entretantos, desejamos uma Páscoa Feliz e vegana a todos os que nos seguem. ❤

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Marseill et Cannes

Ruas sujas. Muito sujas.

Na passada manhã de dia 21, despedimo-nos de Aix en Provence. Mochilas fechadas, corações palpitantes, e fizemo-nos à estrada. Caminhámos por pouco mais de 2 quilómetros e encontrámos a entrada da autoestrada que seguia para Marseille – o nosso próximo destino.

Na noite anterior fizeram-se apostas: quanto tempo levaríamos a apanhar boleia?

Nenhum dos recordes se bateu. Esperámos mais que o previsto, mas apanhou-nos um Senhor. Trazia em si com certeza mais de 60 primaveras e algures na sua história de vida uma viagem à boleia, até à Turquia. Sabia de cor o que nós dois estávamos ali a viver e quis por isso ajudar-nos! A boleia foi curta, mas amorosa.

Deixou-nos numa nova entrada, mais à frente e onde esperámos por entre os raios de sol que escapavam pela sombra das árvores. Recordamo-nos que cantámos: e quando nos dá para cantar, é à portuguesa e com animação. E por entre tons agudos e desafinados, parou um carro.

Pensámos que seria português, porque tínhamos a bandeira pendurada numa das mochilas e o jovem parecia entusiasmado. Mas não. Não era português. Não estava entusiasmado. Ou estava, mas queria afinal dar-nos boleia a troco de gasóleo.

Recusámos.

Não é esta a nossa aventura, não é a troco de nada que queremos que nos dêem boleia. Ou é, mas bens não mensuráveis: histórias, partilhas, cultura. Sorrisos. Da mesma forma que não é nosso objetivo que haja desvios para que nos deixem no nosso destino. O objetivo é sim que possamos aproveitar quem vai na nossa direção, para que possamos ir juntos e trocar pelo caminho o que de melhor há: entrega.

Esperámos então. Mas não esperámos assim tanto até que tenha parado um novo carro.

Foi tudo muito rápido, mas sentimos confiança. O tom de pele, o aspeto e a forma de falar, não nos intimidou. Não nos deixou desconfortável. E seguimos juntos, até Marseille.

Pouco mais de cinco minutos e já dentro do carro aprendíamos, ou relembrávamos: marhabaan! Al-hamdu lillãh. Era Argelino! Espelhava simpatia no rosto, na forma como dirigia cada frase. A emoção com que falava do seu árabe, demonstrava o orgulho que tinha nas suas origens!

Despedimo-nos com um carinhoso masalah ham, shukraan e ficámos já perto do centro de Marseille.

Um mundo por descobrir, Marseille. Com ruas sujas. Muito sujas! Gente de todo a parte. Mais, não nos cruzámos com 5 pessoas iguais: tons de pele, vestes, modos de estar, cortes de cabelo, línguas, olhares, pinturas. Culturas. Que multicultureidade. Por lá, só nos conseguíamos lembrar nos nossos passeios por entre o Rossio e o Intendente. Martim Moniz. O verdadeiro mix. Uma loucura. Pessoas por todo o lado. E um desprendimento único.

Haviam-nos já avisado de que se tratava de uma verdadeira cidade cosmopolita. E perigosa. Mas encontrámo-la maravilhosa. Subimos a Notre-Dame de la Garde. Cansados, com o peso das mochilas vincado nos ombros, vimos o sol descer o horizonte. O anoitecer, lá do alto.

E fomos felizes, ali.

Conhecemos por lá também um viajante, que a nós se juntou na descida. Marcou-nos e por isso o partilhamos: humilde e genuíno, estado unidense e com apenas 19 anos. Queria aprender português, aprender a viajar à boleia, aprender a poupar, aprender a estar, aprender a ser, aprender… Queria aprender! Queria absorver! E partilhar. E percebemos que nos identificávamos e que adorariamos ajudá-lo em tudo aquilo que estivesse ao nosso alcance. Esperamos por isso que, on the road, os nossos caminhos mais tarde se cruzem. Até lá, trazemo-lo no pensamento.

Ainda em Marseille,  fomos hospedados por um casal, amigos de uns amigos. Que doce é a Europa neste capítulo! E do seu apartamento, não só tínhamos uma vista deslumbrante, como estávamos perto do novo ponto de partida.

Já passava por isso do meio dia quando nos fizemos à estrada. O peso da casa que traziamos às costas já se fazia sentir como carga. Dura. Mas a distância era curta.

Já à entrada da autoestrada, percebemos que o lugar para estar à boleia não era o melhor. O trânsito fluía com velocidade, os carros não tinham espaço conveniente para parar, não tínhamos onde colocar as mochilas e estávamos sem hipótese de encontrar um abrigo.

Posto isto, estavam reunidos vários fatores de sacrifício: mas viajar a dedo é mesmo assim.

Estivemos concentrados e empenhados talvez mais de uma hora. Mas nenhum carro parou. Avistámos vários portugueses,  mas nenhum nos levou.

Foi então que no espaço de uma hora, trocámos umas 3 vezes de lugar. Fomos para uma nova entrada de autoestrada, caminhámos de novo para o primeiro lugar, mudámo-nos de seguida para outro, subimos mais um pouco, e voltámos ao segundo. Aturdido!

A exaustão começava a ocupar o nosso pensamento.

E no meio do desespero, com o passar do primeiro carro, esticámos a placa com enfase, esticámos o dedo com enfase: e o carro parou! Parou! Era uma Senhora e ia praticamente para o nosso destino. Inacreditável! Seguimos entre conversas, partilhas e soninho.

Pouco mais de 1 hora depois, estávamos a 50 quilómetros de Cannes. A 50 quilómetros de uma casinha. A 50 quilómetros de uma família! Sim, uma família de uma amiga que nos hospedou com amor, que nos recebeu com um sorriso do tamanho do mundo e com uma lasanha vegana deliciosa! Estávamos por isso a 50 quilómetros de um lar.

Bandeira portuguesa pendurada, placa de Cannes esticada. E o céu jazia azul.

Vários carros portugueses apitaram. Uma carrinha com portugueses parou, e embora não tivesse espaço para nos levar, afortunou-nos a alma! Sabíamos que os deuses das boleias estavam connosco.

E não tardou tanto assim. Trouxeram-nos até mesmo ao centro de Cannes, duas jovens. Conheciam Portugal pelo festival BOOM. Pouco faladoras, mas generosas – a bondade habitava-lhes o coração!

Aliás, com 1950 quilómetros, 33 boleias e 3 semanas de caminho, sentimos que temos sido afagados de corações magestosos. E a gratidão é o que em nós transborda.

Já Cannes não tem ruas sujas. Parece o Algarve no seu plano turístico. Caro. Chique. E um passeio à beira-mar. Romântico.

Amanhã cedo partimos para visitar o Mónaco e pretendemos pernoitar em Nice. Depois, depois espera-nos Itália, e espera-nos o mundo inteiro!

Au revoir, France!

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BCN

(Continue – Madrid & Zaragoza)

O sol de Saragoça espreitava pela persiana da sala. O vento fazia-a  bater, mas o sol vencia. Que bom! Porque mesmo com frio, o sol aquece-nos sempre.

Decididos a chegar a Barcelona ainda no mesmo dia, caminhámos, com o nosso amigo e o seu companheiro de casa, até sair da cidade e chegar à entrada da autoestrada. Estas entradas são sempre perfeitas, porque com mais ou menos movimento, sabemos que qualquer carro que pare poderá ser uma boleia para avançar, pois irá no nosso sentido.

E não tardou, parou um carro.

Um carro velhote.

Com uma mulher com pele mescla. E um homem com  um ar pouco amistoso.

Apressou-se a apresentar-se, a abrir a bagageira e a dizer-nos para entrar. Na verdade, nenhum de nós estava tranquilo, mas nenhum de nós voltou atrás. E entrámos.

Estamos habituados a contar a nossa história,  a com mais ou menos pormenor partilhar a nossa aventura, e a ser bem recebidos. Estamos habituados a abrir os nossos corações e a expor as nossas intenções, e a ser bem acolhidos.

Mas foi tudo ao contrário.  Minutos depois do carro estar em andamento, a conversa já decorria tensa. Espanha não prestava, os espanhóis não serviam para nada, nós não tínhamos ideias de jeito, a nossa aventura era um desperdício de tempo, as nossas vidas estavam arruinadas, a nossa viagem era vazia; o que fazíamos  bem era voltarmos para casa e pararmos de nos aproveitar do outro. E pelo meio, com tom de poucos amigos, informou-nos que era cigano, tinha 2 filhos e 4 netos. E no meio disto tudo, a mulher ao seu lado, com um olhar vago (e quem sabe amedontrado), não dizia uma palavra.

A tensão aumentava.

Não havia nada que disséssemos ou partilhassemos que fosse bem acolhido. Tudo o que expunhamos era mau. Por vezes, limitava-se a abanar a cabeça com um ar sério e rígido, severo. Implacável. Ou negava com o dedo indicador.

Pior, só quando dissemos que nos poderia deixar no caminho, na estrada para onde ia sair ou antes mesmo numa bomba de gasolina da autoestrada. Num tom austero e inflexível, limitou-se a responder que para si nenhuma das duas era boa opção.

Conseguimos agora perceber que nos deixámos levar por um preconceito. Aquele Homem havia sido verdadeiro. Partilhou que, para si, não fazia sentido andar a viajar, ao invés de andar a trabalhar. Que para si, andar a dormir em casa de amigos era um abuso e um estorvo. Era a sua opinião. Áspera,  talvez.

Impiedosa, decerto.

Embora, claro, tenha sido um brotar de más energias dentro daquele carro, o que nos assustou não foi só isso, sejamos sinceros: o tom de pele, o cheiro, a dicção, as palavras, a voz, o comportamento, a atitude – o ser cigano.

Sem espaço para respirar ou saber como reagir, agradecemos quando nos deixou. Não percebemos ainda se com desafogo ou conforto, caminhámos. Caminhámos sem conseguirmos verbalizar entre nós o que verdadeiramente havíamos vivido no decorrer daqueles minutos. Que pareceram infinitos.

Estávamos no meio do nada, mas ao fundo, víamos uma placa com a indicação de Barcelona. Perdidos não era o caso. Mas sabíamos que onde estávamos, decerto seria proibido estarmos. A velocidade que os carros que por ali passavam traziam, era grande demais. Mas depois de passarem por nós dois carros da polícia, sem qualquer manifestação, apostámos na calma.

Serenos, ainda não.

Mas deixámo-nos ficar, livres, de dedo esticado. Até parar outro carro.

Recheados de prejuizos, pobre Homem, tinha barba. Ainda não tínhamos sequer trocado dois dedos de conversa e já o havíamos julgado.  Como é que é possivel? Nós, dois, que embora limpinhos e bonitinhos, nos sentimos atrocidados quando julgados por andar à boleia; ousamos julgar outro só porque… porque?

Partilhámos com Ele a nossa história, quem éramos e o que andamos a fazer. E a estaca voltou ao zero. O entusiasmo voltou, a tranquilidade também. As energias não estavam repostas, mas tínhamos de novo a luz, ao fundo.

No entanto, não deixámos de nos questionar sobre a importância da validação da nossa aventura perante quem nos ajuda. Porque quem nos ajuda com o deslocamento, raramente ou nunca sabe qual a nossa ideia, mas estamos tão (mal) (ou bem) habituados a paninhos quentes, que ficamos desnorteados quando não nos dão palmadinhas pelas costas.

Com esta última boleia, n°20 desta viagem, voltámos a mais uma estação de serviço.

Não sabemos bem se assim será, mas por preguiça ou zona de conforto, pusemo-nos no fim da bomba, de placa em punho. BCN, dizia. O vento gelava, gelava o nariz e a ponta dos dedos. Gelava até à nossa vontade de estar quietos ao sol. Aproveitámos para petiscar  (desta, beringela com batata assada, mnhumi), cantar e até tocar armónica. Mais! Deu para avistar vários camionistas portugueses, um dos quais parou na bomba do lado de lá da autoestrada, e com quem nos animámos ao erguermos a bandeira de Portugal!

Acabámos por desistir deste plano inicial, e fizemo-nos ao caminho. Mochilões às costas e lá fomos nós para junto da estação com o intuito de abordar pessoa a pessoa.

E não tardou. A primeira pessoa que vimos abastecer, foi o nosso primeiro tiro. Pouca sorte, o marido entusiasta disse que nos levaria e que iam mesmo para Barcelona. Já a esposa recusou. Primeiro o cão que trazia (no carro de 7 lugares) invalidava que tivéssemos espaço. Poucos segundos depois, já eramos nós que tinhamos demasiadas coisas. Lo siento – disse. E seguiram para efetuar o pagamento.

Foi duro. Tínhamos ali, mesmo à nossa frente, um carro, que ia fazer por completo exactamente os 300km que nos faltavam ainda para podermos dormir numa caminha.

Porém, quando as portas da estação de serviço se abriram, vimos um acenar. Um acenar repetido, convidando a que os seguissemos. Haviam chegado a acordo e iriam levar-nos! Oh, que conforto! Que desafogo.

Foram cerca de 3 horas até chegarmos. Cerca de 3 horas de conversa, de partilha. Um casal encantador. Ele, emanava paz no seu discurso. Uma serenidade e uma quietude pouco vulgares. E foram também 3 horas de descanso e de sono, para um de nos. 😊

E por agora aqui estamos, com cerca de 1 300km percorridos e 21 boleias. E em casa de amigos, amigos especiais e de coração, de tempos e de várias aventuras antigos. Amigos com os quais nos sentimos em casa.

Amanhã, rumaremos para Montpellier, já em França. E esperamos que o sol e os deuses das boleias se mantenham do nosso lado, sempre connosco.

Nós, dois, para o que vier, estamos sempre lado a lado.

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até Elvas

O caminho, esse, faz-se caminhando.

Se por um lado, crescia o desejo miudinho de partir, por outro reside(ia) o medo miudinho do desconhecido, e resta(va) ainda a angustia miudinha de deixar tudo para trás. São sentimentos ambíguos, difíceis explicar, difíceis de gerir.

Mas saímos. Saímos já fora de horas (e com o tempo vão perceber que é habitual – por mais que digamos que partimos ‘no turno da manhã’, dificilmente passa de um desejo!).

Algés foi a nossa casa durante vários anos, durante os quais namorámos, crescemos, estudámos… e durante os quais fomos também felizes! Nesta manhã, chegámos até lá trazidos pelos amigos que nos hospedaram na noite anterior, e a entrada do Ic17 esperava por nós.

A ansiedade palpitava-nos no peito, o nervoso de sair da nossa zona de conforto, do que tão bem conhecemos; tudo jazia em nós. E tudo nos perturbava o pensamento.

A partida concretizou-se. Conseguimos a primeira boleia, rumo ao fim da segunda circular – uma pequena boleia, mas muito importante para sair de Lisboa. O primeiro passo estava concretizado, ainda assim esperámos algum tempo. Chuva, chuviscos, vento, nuvens e algum sol. O peso das mochilas começava a massacrar-nos os ombros.

De lá, já nós estávamos pouco crentes com o lugar escolhido para estarmos de dedo esticado, quando ouvimos pelas nossas costas “para onde vão?”.  Era militar e a curiosidade imperava-lhe o discurso. Queria saber mais sobre este estilo de vida, esta forma de viajar. Queria descobrir um mundo desconhecido, inundou-nos de perguntas repletas de simpatia e dedicação, com (muita) preocupação à mistura. Deixou-nos, com um pequeno desvio à sua rota, em Vila Franca de Xira.

Aproveitámos o sol à chegada para um almoço dos nossos: um taparware preparado de véspera, com tofu salteado e grão à mistura, e umas belas sandes de seitan. Um verdadeiro petisco vegetariano.

Caminhámos depois até à entrada da ponte que atravessa o Tejo e, sem sequer nos termos posicionado ou conversado sobre o que nos encantava o pensamento, demos por um carro a encostar. “Where are you from?”, perguntaram sorridentes. Eram dois jovens, da nossa idade, satisfeitos por nos terem encontrado no seu caminho; acreditavam que não podíamos ser portugueses e partilharam que já haviam tido dificuldade em atravessar aquela mesma ponte à boleia – e que portanto não hesitaram em parar para nos levar! E em dois minutos de conversa, já tínhamos descoberto pelo menos uma amiga comum. O mundo é pequeno.

Depois então, chegados ao Porto Alto, sentimos o peso da nossa bagagem, da nossa alma e das nossas motivações. Avistámos uma longa avenida, com vários quilómetros. Percorremo-la com estaleca, o sol ainda brilhava (e quando por momentos o deixou de fazer, conseguimos abrigar-nos) e embora já cansados, só parámos quando considerámos que o lugar era o melhor. Permanecemos de dedo esticado algumas horas. Deixámos o sol baixar; o frio começou a fazer-se sentir, e um camionista acabou por nos aconselhar, sugerindo que caminhássemos mais um pouco, pois na rotunda seguinte, haveríamos de ter mais sorte. Assim o fizemos.

E assim foi. Apanhámos então uma boleia de uma carrinha, com dois viajantes. Ele português, ela holandesa. Foi curta, mas mais uma boleia imprescindível (sim, é certo, como todas as outras!). Havíamos chegado perto de Pegões: já não faltava tudo!

A noite já tinha caído. E quando assim é, temos sempre receio que os deuses das boleias deixem de nos iluminar…

Caminhámos, caminhámos vigorosamente (tanto quanto a carga da bagagem nos permitia), e colocámo-nos por baixo de um foco de luz da estrada nacional em que nos encontrávamos. Os nossos corpos estavam quentes, mas as mãos já estavam frias. As luvas acabaram por fazer o seu serviço na perfeição e optámos por escrever num pedaço de cartão “ELVAS”. Podia ser que quem para lá fosse, não hesitasse em parar. E assim foi. Parou um camião.

O camionista desceu, o seu olhar trazia ternura. Afeto! Cumprimentou-nos de forma calorosa e apressou-se a convidar-nos a subir e a sair do frio. Levou-nos até Borba. Foi uma viagem mais morosa, mas foi música para os nossos corações ouvir cada história e partilhar cada quilómetro. É que para nós, é gratificante apanhar boleia de alguém bom, com boas energias. Mas ali, dentro daquele camião, percebemos que também aquele Homem estava grato por nos ter encontrado.

Chegados a Borba, já as estrelas se tinham aconchegado. O frio via-se, o ar branco que expirávamos denunciava a temperatura baixa que se fazia sentir. As luvas já não nos protegiam tanto quanto desejaríamos. As camadas de roupa que outrora nos aqueciam, já deixavam que a humidade penetrasse. O socalco do passeio servia já de step por entre os minutos largos durante os quais não passavam carros. A crença nos deuses das boleias já não era a mesma entre nós dois.

Mas a esperança era imensa. A vontade de chegar, alimentava-nos o espírito.

Em Elvas, sabíamos que havia à nossa espera uma família muito querida e ansiosa por nos ver. Em Elvas, sabíamos que havia à nossa espera um lar.

E a luz não se apagou. A última boleia foi já de amigos da casa!

Somados mais 220km e 6 boleias, conseguimos chegar a mais um destino. Elvas.

Hoje, descansámos. Recuperámos energia. E demos ainda um pulinho à rádio local, Rádio Elvas para uma entrevista; e partilhámos esta aventura com o site de notícias TudoBem.

A gentileza, a cortesia, o entusiasmo e a amabilidade que por aqui vivemos, dar-nos-á alento para o que há-de vir.

Amanhã, rumamos a Espanha. Porque o caminho, esse, faz-se caminhando.

Não esquecendo nunca – e que fique registado – que levamos a nossa família, SEMPRE e em todo o momento, no mais fundo que há dos nossos corações.

lusco-fusco

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Ontem foi um dia repleto de lusco-fusco.

Foi um dia de aperto. Um aperto lento e moroso, pequenino, que mói.

Um aperto no coração.

Sabíamos que só uma coisa nos faria vacilar em qualquer decisão: a nossa família. E embora não nos tenha feito mudar de planos ou pedido para ser diferente, vimos no fundo dos seus olhares uma alma inquieta. Em cada lágrima e tremer de lábios, percebemos a dor que não lhes cabia. Que aperto!

É que o mais insuportável na vida é sentir que fazemos sofrer profundamente aqueles de quem mais gostamos. É indescritível.

Nunca nos pediram para desistirmos deste sonho, nunca verbalizaram um “não vão”, mas escondiam-no por entre pensamentos e sentimentos, em cada abraço ou noite mal dormida.

Amor de mãe. 

Mas a confiança muda tudo. Temos esperança que confiem em nós; acreditem que iremos cuidar mais de nós, por elas, que por nós próprios. Iremos esperar, escutar, olhar duas vezes e só depois então atravessar. Vamos fazer de cada dificuldade um desafio, e encarar cada alegria como uma graça.

O caminho, faz-se caminhando. Mentiríamos se dissessemos que é “só” largar tudo e partir. Não é. Porque o “só”, é uma imensidão.

Hoje, está menos lusco-fusco.

Mais logo, partilhamos a aventura em direto, vamos tratar de estar cheios de luz. Na RTP1, até lá!

 


 Before the departure

It is always difficult to prepare things before you start a large journey. You never know what to put inside your backpack, and you find yourself stuck between too much stuff and not enough stuff for all those special days which you think you are going to have very often.

It is nice to go but you always think you are leaving something behind. It might be things, duties, or people, but there is always this feeling that you should take all you favorite things with you, that you still have some duties to do before you depart but you don’t have time, and the worst feeling, that you are leaving your warriors behind, the ones that support you all the time, your family and friends.

Then you remember that they will be always with you and you are taking them in your heart and you get ready to move on.

But still, this is the saddest part of every trip, saying good bye.