como: planear uma longa viagem

Não é díficil, mas exige algum trabalho e dedicação. Assim, esperamos que estas dicas te possam ajudar!

Começa por ler muito e definir um objetivo, ou vários.

Por exemplo: quero visitar a minha tia nos Estados Unidos, quero conhecer os lugares de interesse religioso na península ibérica, quero subir ao Machu Picchu ou quero tirar um foto com a torre Eiffel.

Com a nossa viagem, começou assim:

Definimos que países gostaríamos de visitar e só depois começámos a tentar montar um roteiro. Aí, de acordo com vistos, tempo de permanência e outros lugares que nos pudessem interessar por perto.

É muito importante olhar para o mapa com atenção e, também, ler blogues: não somos os primeiros a viajar, nem seremos os últimos, e todas as experiências anteriores são fontes ricas de informações reais e de ideias a reter. Por isso, procurar outras pessoas que tenham feito viagens semelhantes é indispensável. Há sempre segredos, truques, novidades e, à pesquisa formal, tentámos sempre adicionar a informal (falar com amigos ou procurar outros viajantes).

Face a um roteiro definido, munimo-nos de flexibilidade para alterar a qualquer momento o que estava previsto. Não é viável dar por garantido nada, porque há sempre fronteiras a fechar, horários, condições, regras a mudar.

Como andamos à boleia (e por terra), tivemos de ter em conta também os vistos que conseguíamos, ou não, obter em viagem e demos uma espreitadela em artigos que nos dessem uma noção de como seria apanhar boleia ou dormir sem pagar, em determinados países (e.g..: Em alguns estados dos EUA é proibido pedir boleia; no Myanmar os locais não podem ter ninguém em casa depois das 9h da noite, no Turquemenistão e Uzbequistão existem regras parecidas mas conseguimos “passar entre os pingos da chuva”).

Em suma:

1. Planeia a viagem de forma a que possas chegar a cada país na melhor altura possível (evita monções ou calor extremo);

2. Tenta levar dólares americanos e trocar no país para onde vais viajar;

3. Avisa as pessoas para onde vais e quais os teus planos, mas não marques horas certas para falar com ninguém. Darás notícias quando puderes;

4. Para uma volta ao mundo o ideal será andar com uma mochila de 50 litros. Mais de 60 litros de bagagem, segundo a nossa experiência, significa que estás a levar muito material que vais usar uma vez de seis em seis meses. Deixa esse material em casa e.g.: aquelas calças lindas que vou usar para ir a um evento especial durante a viagem; aquele cobertor térmico que pesa 1kg mas me salva te temperaturas negativas. Uma viagem grande não tem espaço para estas especificidades; no máximo, compras em segunda mão quando precisares e deixas quando estiveres de partida;

5. Viajar pode ser perigoso mas ficar em casa também tem o seu perigo. Cabe-te a ti tomar as decisões certas e de forma consciente.

“Um barco está seguro no porto, mas não foi para isso que os barcos foram construídos.” Paulo Coelho

Pega na mochila e no farnel e vai,

atira-te neste mundo (que trazemos na mão!),

hoje é o dia. Sem medos.

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E antes de saires para uma longa viagem, não te esqueças:

– Check up médico e dentário
– Situação na segurança social e finanças
– Seguro de saúde (caso se aplique)
– Consulta do viajante
– Vacinas (caso necessário)
– Procuração de plenos poderes a familiar ou amigo
– Vistos (na maior parte dos casos, também se pode tratar em viagem)

Partilha aqui as tuas dúvidas, as tuas sugestões ou a tua opinião. xx

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Foi o Cambodja.

De sorriso fácil.

De essência simples. Genuíno. Doce. E simpático. De olhos de amêndoa. Pele escura. Sorriso no rosto. De boas gentes. De um verde infinito. De sabores. De cheiros. De calma e euforia, num misto. De história. De crenças. De budistas. De frutas tropicais. De flores. De aromas. De tuk tuks. De Khmers.

É o Cambodja.

(E adiantamos já que nos rendemos ao seu encanto.)

Chegámos a Phnom Penh, vindos de Ho Chi Minh, no Vietname. Na fronteira, mesmo com a chuva intensa que se fazia sentir, foi de boa vontade que nos receberam e a ajudaram a tratar do visto. Mas burocracias à parte, sentimo-nos em casa!

Descansados, seguimos. Seguimos a pé e sempre à boleia, até apanharmos a nossa primeira boleia, de um autocarro turístico. A zona, fronteiriça, embora pobre e pouco cuidada, ostentava em seu redor uma vasta panóplia de casinos – já velhos e pouco cuidados, mas aparentemente a funcionar!

No autocarro que nos levou seguiam pouco mais de 10 passageiros, vindos das Filipinas e com um inglês fluente. E muito embora não tenhamos partilhado o nosso tempo, tivemos a infelicidade de assistir a um atropelamento, que deu azo a conversação, de um senhor numa mota, e fuga. Ficou estendido e inconsciente. E nós alarmados. Mas segundo consta, não foi fuga, nem abandono, nem nada: foi o normal. Ups, bateu. Seguiu.

Continuámos viagem e chegámos a Phnom Penh já o sol se tinha posto. No autocarro, quem lá seguia deixou para trás várias embalagens ainda fechadas de comida, sandes ou folhados, ou coisas do género, que embora tivessem carne, recolhemos e entregámos a quem vimos a necessitado. Uma tristeza, este capitalismo exacerbado e o desperdício de comida a que assistimos diariamente.

Na cidade esperámos pelo couchsurfer com quem ficámos por duas noites: duas noites calmas, no encanto e no sossego desta nova cidade, duas noites de descobertas e muitas partilhas.

É tão bom ficar com um local, deixar que as tradições e o que são se nos entranhe na pele e no coração.

Loucos com a quantidade de tuk tuks por cada rua, visitámos a cidade, por entre sorrisos e o Khmer que íamos apreendendo com cada condutor que entusiasmado perguntava “do you want tuk tuk with me?”.

E com tudo em dólares, seja no mercado ou lojas, com esquecimento sobre os rials (moeda oficial), mandam preços para o ar de forma convidativa, sem noção do que queremos, esperando que queiramos o que todos os turistas querem!

Muitos templos, muitas pagodas, muito sol, muitos mercados, muitos monges, muitos turistas. Muita fruta, muitos legumes frescos. E muita coisa gira para ver. E fazer!

Muita história gravada na pele de todos aqueles que fomos conhecendo, nomeadamente nos templos que fomos visitando. Sentimos muita pobreza e encontrámos várias crianças/famílias sem abrigo, muitas delas a viver onde se reza e a ser educadas e instruídas por monges. Habituadas a pedir a todos aqueles que lhes pareçam estrangeiros, o contacto torna-se superficial e até mesmo estranho. Às crianças, fogem-lhes por entre os dedos as brincadeiras de rua, estendendo as mãos para pedir uma esmola sempre que a imaginam.

Já na última noite, fomos nós ajudados. Sem que pudéssemos prever (mas podendo imaginar), molhou-nos a chuva batida a vento e o cheiro a terra molhada, por ruas estreitinhas e ratinhos a passear. Mas foi aqui mesmo, nesta aventura, que uma mãe e o seu filhote de olhos em bico nos ofereceu um chapéu de chuva amarelinho – o nosso melhor amigo neste Sudeste Asiático, percebemo-lo então.

Na manhã seguinte, seguimos para o aeroporto. E não, não foi para voar! Lá, esperámos uma amiga de Portugal, a Iolinda, como lhe costumamos chamar. A aterrar vinda de Lisboa, ou das trinta mil escalas que fez!, e a caminho de Kampot: o nosso destino seguinte, lá em baixo, no sul do Cambodja.

Assim fomos, com uma boleia boa, pré-combinada, cheia de conversas, partilhas, risadas e mimos. Cheia de ananás aos cubos e em modo lento, como o trânsito exige! E à chegada, à chegada tínhamos uma equipa fantástica à nossa espera, pataniscas vegetarianas e o Tertúlia (o melhor restaurante português das bandas!) e muita saudade – que só nós, portugueses, sabemos o que é.

E gratos por tudo, por lá passámos três noites, e em nada mentimos se dissermos que nem demos por elas. Foi dias de descanso. De uma calma que só em Kampot. De sentir em casa. De estar em casa. De cozinhar. De conversar. De escrever. De sentir.

E só quase por entre as estrelas, visitámos a cidade pelo pedalar de duas bicicletas e o silêncio raro de uma cidade!

Voltámos então depois para Phnom Penh, entre gargalhadas e muito vento na cara, com uma boleia de uma pick-up! Lá atrás, vimos as nuvens passear no céu, as casas e palhotas à beira da estrada, as crianças em carrinhos de brincar e o sol, sempre, a brilhar.

Estávamos felizes.

Somos felizes!

Foi uma boleia que teve tanto de demorado, como de rápido, mas que abriu um precedente muito valioso: o de que estamos preparados para fazer curtas e longas distâncias lá atrás, naquela parte do carro que de confortável tem pouco, mas de belo e vivido tem tudo. Gostámos!

Desta segunda vez em Phnom Penh ficámos num hotel – You Khin House, uma vez mais a troco de uma parceria nossa. Este, por um motivo especial. Surgiu depois de criada uma escola com um sistema de ensino baseado no modelo montessoriano – que a nós nos diz muito, como fonte de sustento para a mesma.

Contudo, hoje em dia o lucro não cobre os gastos e por isso que está a decorrer um crowdfunding* por forma a permitir que a educação destas crianças seja garantida.

Assim, aproveitámos o dia para visitar a escola, o centro de lazer e atividades a ela associado e, de tarde, o museu S-21. Este, criado após o genocídio associado ao Khmer Rouge, permitiu-nos aprofundar a história do Cambodja, a dor por todos sentida, a tristeza e desgraça vivida. O Khmer Rouge saiu do poder em 1979, com o apoio dos vietnamitas, os mesmos que os ajudaram a subir até lá em 1975. Após este período, foi declarado genocídio associado a este mesmo mandato, durante o qual foram perseguidas, interrogadas, torturadas e mortas cerca de 2 milhões de pessoas, com especial enfoque naqueles que eram literados. Visitámos por isso o museu, mas decidimos não visitar os “killing fields”. Foi intenso e ainda bem que o fizemos juntos.

Mais à noite, e para terminar o dia no auge das experiências, jantámos no DID. E vale tanto a pena partilharmos isto, que temos até medo de não conseguir deixar transparecer o que vivemos!

O DID – Dine in the Dark, é um restaurante onde os nossos sentidos são deixados no limite. Embora não seja uma ideia inovadora, e embora exista já na Europa e redores, não deixará nunca de se original e desafiante. O conceito é inesquecível, a equipa também, e a comida não lhes fica atrás.

Criado num espaço “abandonado”, uma pequena galeria de arte, começa por ter tudo em tons baixos e fraca luminosidade. Lá, fomos convidados a escolher o menu surpresa: Menu Vegetariano. De seguida, fomos convidados a retirar o relógio (por ter ponteiros luminosos) e a arrumar o telefone e equipamentos electrónicos numa caixa ou na nossa mochila. E por fim, foi-nos atribuído um guia: um guia cego, o Fredo. O Fredo ficou responsável por nós, e encaminhou-nos, de mãos no ombro dos outros, até à sala escura. Não, não era uma sala com pouca luz. Não, não tinha velas. Era verdadeiramente escuro. Negro.

Nunca tínhamos visto nada assim.

Ouvíamos os risos, como nunca, daqueles que preenchiam também a sala.

Sentimos o fresco do ar condicionado. O arrepio do desconhecido.

Sensação de claustrofobia. E sentámo-nos, sob as indicações das mãos delicadas do Fredo.

Pouco depois, serviu-nos as entradas. Depois o prato principal. Depois a sobremesa.

Não vimos nenhum deles. Mas sentimo-los chiques e cuidados. Pratos arranjados. Sabores intensos. Apurados!

A descoberta tomou conta de nós. Primeiro com talheres, depois já com as mãos: queríamos tanto saber mais, sentir mais. Saborear mais. E estava tudo divinal!

Antes de deixarmos para trás este espaço, fomos por fim convidados a ver os pratos que havíamos recebido. E o mais engraçado, foi a surpresa que não tivemos. “Bom trabalho!”, pensámos, orgulhosos pela nossa perspicácia e desembaraço.

Fica assim agora o nosso convite para que visitem um espaço assim ou que façam do vosso espaço um espaço para está experiência sensitiva. Vale a pena!

E quanto ao DID, vale ainda mais a pena quando aliado à integração de todos. (❤ de psicomotricista!)

Partimos então para Siem Reap de coração cheio, de alma preenchida. Não era tarde quando nos pusemos à boleia, e sabíamos que tínhamos um autocarro urbano, muito embora só haja três linhas de há dois anos para cá, com pouquíssimos autocarros em cada.

Contudo, enquanto o esperávamos calmamente, fomos deixando ver aos carros que passavam a nossa placa, onde tínhamos escrito o nosso destino. E, por entre a azáfama de tuk tuks e motas – onde também as crianças as conduzem! –encostou um carro com dois coreanos, que sem que conseguíssemos comunicar na perfeição, nos levaram. Mas não, não levaram para onde pretendíamos ir com o autocarro, e no fim ainda nos pediram dinheiro. É verdade, foi tão triste e tão constrangedor em nós. Temos sempre o cuidado de antes de entrar num carro explicar que não pretendemos pagar pela boleia, e assim se acusam táxis ou aqueles que realmente nos querem ajudar. Mas com dois coreanos sentimos que não havia necessidade de qualquer explicação… e estávamos tão enganados.

Mas enfim, lá nos explicámos conforme conseguimos e lá aceitaram que não pagássemos: e verdade seja dita, nem sequer nos tinham levado para onde precisávamos, e sim para onde iam; portanto estávamos de consciência tranquila.

Seguimos então a pé, sem alternativa agora de autocarro. Não faltava assim tanto para a ponte, mas por poucos que fossem os quilómetros, com as mochilas, tudo parece imenso.

Durante a pequena jornada fomos parando para descansar e aproveitando para pedir boleia; e foi por entre um desses instantes que parou um outro senhor com a sua esposa. Decididos a ajudar-nos, levaram-nos até à tal ponte que tínhamos de atravessar de forma a encontrar o melhor lugar para nos pormos. Estoirados quando lá chegámos, abrigámo-nos no chapéu de chuva como sendo de sol, e pedimos boleia.

Muita boleia nós pedimos, e nada.

Vimos o sol rodar, girar lá em cima e derreter-nos o corpo. Mudámos as mochilas várias vezes de posição em função de uma pequena sombra. E destilámos: estava difícil de apanhar boleia.

E nos entretantos rimo-nos e muito com os locais que por ali andavam:
– O que fazem uma data de homens a correr atrás de um autocarro? São condutores de tuktuk.
– E o que são homens a correr à frente dos tuktuk? São condutores de autocarros (vans).
Todos, na busca de mais clientes!

Até que parou um jipe, por entre macacadas para chamar à atenção de todos os carros. Era um pai com o seu filho e iam diretos também para Siem Reap! Fizemos então uma viagem de sonho, prudente mas rápida, e chegámos já ao pôr-do-sol.

No lusco-fusco, visitámos o mercado local para comprar alguma comida. Por todo o lado há padarias, com influência francesa, sendo a baguette a mais famosa. Nos mercados reina ainda a confusão, embora com menos ratos. O arroz mantém-se como primordial na alimentação. Muitas mangas, papaias, maracujás, anonas, maçãs, bananas, ananáses, e outros tantos que nem lhes sabemos o nome!

Só depois seguimos para o primeiro hotel da cidade com quem havíamos feito parceria – New Riverside Hotel. Longe do centro, mas com uma paz inexplicável, ficámos duas noites num quarto de sonho, com uma piscina de sonho e pequeno-almoço também de sonho. Como nem nós algum dia pudéssemos pensar vir a viver!

No dia seguinte, descansámos, espreguiçámos, ronhámos (sim, de ronha!). E passeámos. No centro, no mercado local onde apetece comprar tudo pelas cores e beleza, pelos cheiros e simpatia. Vimos roupas, acessórios, bugigangas e hammocks lindos. E já ao anoitecer, fomos jantar ao Little Kroma, um restaurante pequenino e caseiro, com pratos típicos e vários vegetarianos, e muito familiar! Perdemo-nos ali com novos sabores.

Nas últimas duas noites no Cambodja, ficámos num outro hotel –Lemon&Gingergrass Hotel, com quem também trabalhámos e com quem vivemos a experiência de visitar os Templos de Angkor e aprender a cozinhar aquilo que dizem ser o mais tradicional que por lá vimos: os famosos spring rolls, a salada de manga e o amok de tofu. Inexplicável! E inesquecível. Trazemos agora guardadinho em nós a imensidão dos templos que pisámos por entre o silêncio da surpresa e as receitas de cada prato que fizemos.

Foram dias intensos, bem vividos e apaixonantes. Dias que dificilmente algum dia conseguiremos pôr por palavras, mas onde algumas das fotografias falam por si! Da loucura que é visitar os templos de Angkor Wat e Angkor Thom; à magia da noite do “night market” no centro da cidade: um misto de passado e presente que fica no coração.

Gostámos! Muito.

E gostámos também muito do lugar onde fomos convidados a provar vários pratos típicos Khmer, deliciosos e lindos, exóticos e saborosos, com um serviço de excelência – Khmer Touch Cuisine, mesmo no centrinho do centro.

E com tantas maravilhas, tantas experiências, tantas partilhas e tantos momentos, só podemos estar gratos pela passagem no Cambodja; onde nem tudo foi perfeito, nem tudo foi magnífico ou ideal, mas onde fomos abençoamos com uma viagem rodeada de boas pessoas, bons lugares e boas vivências!

Já no último dia, caminhámos tanto quanto pudemos para nos afastar da cidade, sempre de placa em punho, até conseguirmos boleia para uma cidade próxima. Lá sim, caminhámos vários quilómetros, subimos subimos e chegámos. De suor escorrido no corpo e respiração ofegante. Cansados. Mas chegámos. Chegámos à fronteira.

– Não sem antes pelo caminho termos sido inundados pelos habituais “tuk tuk?”. Faz parte!

E por fim, estávamos tão tão exaustos, mas quase quase do lado de lá. Carimbámos o passaporte à saída, sem percalços, e seguimos. Tínhamos à nossa espera o nordeste da Tailândia, uma rota não-turística até ao Laos e muitos locais à nossa espera.

Despedimo-nos assim de sorriso no rosto, ansiosos do mundo, de mão dada, com amor: até um dia Cambodja!

* Crowdfunding – https://www.generosity.com/education-fundraising/free-education-for-children-in-poverty-in-cambodia/x/1595936

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živijo Eslovénia

De Veneza até Trieste são 180 quilómetros: uma distância curta para uma tarde inteira, pensámos.

Pela manhã de sexta-feira não deixámos que nenhum raio de sol nos despertasse por entre as portadas de madeira. Fechámo-las bem na noite anterior. E só o som das gaivotas se fazia ouvir por entre cada canal de mar, que avistávamos pela janela do quarto.

Amoroso!

Deixámos Veneza e os amigos que por lá fizemos e encontrámos. Mais uma vez, é o momento da despedida o que mais custa. O adeus. O até já. A saudade que tão bem nos carateriza: a nós, gente da nossa terra, portuguesa.

Para sair da ilha não foi fácil. Do primeiro lugar que escolhemos, fomos expulsos. A senhora agente que por lá tentava controlar o trânsito (sem grande congruência, já que por Itália vimos de tudo acontecer), apressou-se a despachar-nos da sua área. E sem grande entendimento, lá nos mudámos para longe da sua vista.

Na verdade, para um lugar bem melhor. Mas nem por isso mais célere para apanhar boleia. Esperámos mais de 3 horas. Já nos doíam as pernas de estar de pé e parados.

E já nos doía o pensamento, de moído.

Ofereceu-nos boleia um senhor que ia para perto, mas que tinha um amigo que nos levaria ao destino por 10 euros. Uma história um tanto estranha. Não que duvidássemos da sua vontade de nos ajudar, mas achámos que ali à espera continuaríamos melhor.

Dos autocarros urbanos que iam passando por nós, já os condutores se riam. Viagens para a frente, viagens para trás, nós no mesmo sítio!

E a boleia que acabámos por conseguir foi pedida delicadamente. O senhor parou (não por nós), mas aproveitámos a deixa. Não ia para Trieste, mas ia na direção. Partilhou-nos histórias e mais histórias das suas viagens pelo mundo, também por vezes à boleia. Talvez com pensamento tresloucado, achámos graça à forma como nos apoiou e aconselhou a estar sempre atentos.

E quando nos deixou numa estação de serviço da autoestrada, estávamos-lhe agradecidos e finalmente encaminhados. Aí não demorou tanto até encontrarmos alguém que nos levasse por mais uns quilómetros. Para um, de partilhas. Para outro, de profundo sono! Era militar e havia estado no Afeganistão em missão de paz, supostamente – disse. De conversa fácil, e pé pesado, foi num abrir e fechar de olhos que nos deixou numa nova estação de serviço.

Desta, nem tivemos tempo de tirar as medidas! Os primeiros jovens que vimos, a quem perguntámos se nos levariam, foram certeiros. Franceses, cada um de sua cidade, iam ainda até à Croácia nessa mesma noite.

O sol estava já a deixar-se desaparecer no horizonte, quando arrancámos; e quando nos deixaram em Trieste, já brilhava no céu a lua. Sem estrelas. E foi esta uma boleia com direito a tudo: oferta de comida, oferta de casa, troca de contactos e entrega à porta de casa. Sim, uns verdadeiros gentlemans, sim. Simpáticos, cordeais, disponíveis. E muito amáveis!

Estávamos então à porta da nossa terceira couchsurfer desta aventura. De sorriso estampado no olhar, recebeu-nos de braços abertos! Com ela cozinhámos, aprendemos italiano, ensinámos português, saímos à noite, conhecemos mais amigos e ainda partilhámos o pequeno almoço e um passeio matinal. Não sabemos se doce é o adjetivo certo, mas assenta-lhe na perfeição!

Preparados para seguir viagem, voltámos a fechar as nossas mochilas.

Sábado é um bom dia. É dia de passeio para muitos.

E enquanto descortinávamos qual o melhor lugar para nos pormos à boleia para sair de Trieste, um amigo do namorado de uma amiga (que mundo!), ofereceu-se para nos levar de carro até à fronteira com a Eslovénia por estar a ir para lá. Que gentil! Adorámos conhecê-lo e foi uma ajuda enorme. Porque Trieste é uma cidade rodeada de montanhas e pelo mar. E é bem lá em cima que aparece a autoestrada – era por isso um verdadeiro tormento subir tanto e tanto com as mochilas.

Foi ouro sobre azul!

Já na fronteira, com o tempo nublado, mas nem tanto quente, nem tanto frio, estivemos várias horas. Não mais de 3, mas pareceram intermináveis. Passavam por nós carros de todos os lados. França, Áustria, Alemanha, Espanha, Itália, Eslovénia, Bulgária, Roménia. (…) Camiões. Carrinhas. Motas. Autocarros.

O nosso petisco vegetariano já lá ia.

A esperança de que apanhar boleia seria num instante, também!

Mas foi num momento inesperado que nos apercebemos que um autocarro parou para nós! Um autocarro daqueles enormes e lindíssimo. Tinha um ar tão chique que esfregámos os olhos. Com uma comunicação rudimentar e muito rapidamente, perguntámos apenas se ia na nossa direção efetivamente e se nos levaria de graça. E lá fomos nós! Pelos cumprimentos e apresentações, percebemos que se tratava de um senhor polaco. E aí era ver os nossos olhos a sorrir! É que polaco não é de todo uma barreira, porque um de nós domina a língua (quem será? 🙂 ) e ainda vai traduzindo para que possamos sempre perceber os dois do que se está a falar.

Descobrimos por isso que o autocarro era novo, a estrear, e que o senhor estava apenas a fazer o seu transporte de Itália para Bélgica. E de tão simpático que era, tivemos mesmo pena de o ver partir depois de nos deixar. É que contado talvez não dê para acreditar, mas mesmo de autocarro fez questão de nos vir trazer à porta de casa.

O lado bom do mundo está ao virar da esquina.

Por baixo do nosso sorriso.

O lado bom do mundo não tem limites.

Já em Liubliana, levámos algum tempo até descobrir uma amiga de um amigo, que é quem por aqui nos está a hospedar. Uma pessoa iluminada e cheia de energia! Acabámos por contactar para Portugal a pedir o seu número e no fim terminámos a cozinhar e a ver el clasico com entusiasmo.

Hoje palmilhámos a cidade. Linda. Encantadora de verdade! Da Eslovénia guardamos boas recordações e amanhã partimos já rumo à Croácia.

É que o mundo gira e não espera por nós!

 

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