os hábitos, a Macedónia

Não sabemos se é o mundo que está cheio de diferentes culturas, se são as diferentes culturas um verdadeiro mundo. Talvez as duas, repletas de novidades, estranhezas, conhecimentos, crenças, artes, leis e costumes. A moral. Os hábitos. Sociedades tão diferentes, tão ricas; cada uma na sua essência.

Não, não estamos ainda do outro lado do mundo. Nem tão pouco longe assim. Mas estamos agora numa Europa de leste, e foi por aqui que começámos a sentir desentranhar de nós mesmos tudo aquilo a que estamos comumente habituados.

Lá está, hábitos.

E certos agora de que esta metade da Europa possui grande diversidade étnica, cultural e religiosa.

É por isso que chegar à Macedónia foi uma aventura. E estar em Skopie tambéum.

Não maior que todas as outras até então, mas foi muito rica em novas experiências.
Saímos de Belgrado, na Sérvia, bem cedo. Afastámo-nos do centro da cidade e, depois de uma pequena caminhada, estávamos à entrada da via rápida, que nos levaria à autoestrada na direção da Macedónia.

Skopie era o nosso objetivo, e portanto ali ficámos até parar o primeiro carro. Conduzia-o um senhor iluminado. Tão simpático, sorridente e prestável. Feliz por nos conhecer, partilhou que fez muitas viagens a boleia com a nossa idade. Deixou-nos depois nas portagens, onde se daria inicio a autoestrada.

Ali, fizemos várias apostas entre nós: por brincadeira ou para passar o tempo, vamos balbuciando de tudo! E ali desafiámos que 1.“a segunda boleia seria de um camião” e que 2.“a probabilidade de apanhar boleia de um carro italiano nesta travessia seria de 0%”. Também equacionámos como seria avistar um carro português, mas depressa nos esquecemos disso, de tão remoto!

Apostas feitas, passaram poucos minutos até parar um camionista. Ficou assim encerrada a primeira aposta, tão certeira! E com rumo direto para Skopie! Um de nós já estava a vencer.

No camião a comunicação era rudimentar. Umas palavras em croata, outras em polaco e mais umas em inglês. Com gestos e sorrisos, conseguíamos entender-nos. E o mais engraçado no momento, tínhamos wifi “a bordo”.

Pelo caminho, comprou-nos comida e ofereceu-nos água. Mas foi também pelo caminho que percebemos que não nos poderia levar exatamente até à cidade. Aliás, não poderia levar-nos até à Macedónia sequer. E o pior, foram 5 horas para fazer 200 quilómetros. Mas, valeu a pena. Porque conhecer pessoas assim vale sempre a pena!

Quando nos deixou em plena autoestrada, estávamos receosos. Na Europa, tanto quanto conhecemos, pedir boleia numa autoestrada não é permitido e é perigoso.

Olhámos em volta e avistámos uma tasca!

Sim, uma tasca na berma. Na berma da autoestrada, a seguir às portagens. Percebemos então que ali, ali valia tudo.

Mas mantivemo-nos atentos, apreensivos. Um tanto de preocupados. E na ansia de não encontrar alguém que nos repreende-se por estarmos ali.

Mas foi quando nos voltámos que praticamente esbarrámos num polícia. Estremecemos. Passou por nós, contornou-nos e seguiu.

E quando ainda respirávamos fundo, percebemos que o senhor agente estava mesmo à nossa frente, também à boleia. Jamais pudemos imaginar tal desfecho! E claro, com a sua bela farda – de vantagem, desenvencilhou-se primeiro que nós. Agora sim, valia mesmo de tudo.

Este primeiro contacto com as diferenças foi muito interessante.

Interessante porque à medida que nos afastamos de cidades ocidentais o choque não é grande, mas existe. Mais ainda para quem se afasta lentamente, à boleia e por terra.

No entanto, dali, conseguimos uma boleia de um outro carro. Nesse, o caminho decorreu com pouca comunicação. Não havia margem além do servo-croata e portanto a barreira era grande. Em pouco tempo, estávamos os dois quase a dormir – ou mesmo a dormir. Mas foi uma boleia rápida: e fomos novamente deixados (literalmente) em plena autoestrada. Em qualquer outra parte percorrida por nós até então, diríamos que era uma péssima ideia. Não havia ali nada que fizesse os carros abrandar. A velocidade a que passavam era tanta quanto a que podem imaginar.

Mas não foi nada assim de extraordinário. Mostrámos a nossa placa com “SKOPJE” escrito e o segundo carro que passou por nós, parou.

Acontece, contudo, que sem que pudéssemos imaginar, o carro tinha matrícula italiana! Sim, exatamente isso, uma boleia de um carro italiano. E sim, foi essa a segunda aposta, só que em 0%. Inacreditável!

Pois é, o mundo é uma graça de tão imprevisível. E, sem exageros, mesmo com a aposta perdida, foi uma boleia muito querida. Deu até tempo para bebermos um café pelo caminho e trocarmos fotografias das nossas famílias.

Pela fronteira sentimos, como sempre, a tensão que a guarda cria e tenta transparecer.

Mas sentíamo-nos tranquilos no carro de alguém com quem comunicávamos fluentemente em italiano, que também falava inglês, e que sabia falar servo-croata, e ainda russo. E mais espanhol. Enfim, um doutor! E portanto a comunicação entre nós era privilegiada. E tudo se deu sem qualquer constrangimento.

Com mais um carimbo no passaporte, apanhámos por fim a última boleia do dia, que foi já para o centro de Skopie. Essa, foi um casal macedónio que nos deu. Falavam inglês (o que começa a ser pouco comum e nos faz ficar mo momentaneamente verdadeiramente felizes!) e sorriam-nos e olhavam para trás sempre que nos faziam mais perguntas, e mais perguntas, curiosos e fascinados. E nós, gratos! De coração a transbordar.

E assim chegámos à Macedónia. Assim, caminhámos para um país muito diferente.

À chegada, pudemos avistar muitas crianças sozinhas pelas ruas.

Soubemos que por aqui um salário usual são 200 euros, o que mal permite suportar a alimentação. Encontrámos uma cidade suja, e cheia de contrastes.

Acreditamos ter começado a assistir às tais diferenças culturais. Mais que diferenças sociais.

Pela cidade encontrámos pessoas a vender no chão ou em cima de caixotes. Encontrámos crianças abandonadas, a pedir e completamente desmazeladas. Muita gente a mendigar.

Muito mais pobreza. Muito mais confusão.

E também em Skopie encontrámos dois lados dentro da mesma cidade: um mais europeu, chamemos-lhe chique e cuidado, ainda que sujo e confuso: outro mais mesclo, chamemos-lhe pobre e desleixado, com um profundo cruzamento de etnias e religiões.

Também o facto de tudo se encontrar em cirílico nos tenha feito sentir já longe das nossas origens. Por palavras é difícil descrever, mas mesmo por fotografias é difícil falar. Porque não há nada como sentir o cheiro das ruas.

A hospitalidade da gente. Pela rua, querem oferecer-nos ajuda. Mais uma vez, repetimos, a troco de um sorriso. E repetimos que talvez seja esta a melhor moeda de troca do mundo. A mais poderosa. E a mais bonita. O sorriso.

Aqui também encontrámos mercados, típicos e antigos, como retratos destas vidas.

Não vimos, até a data, ninguém de mota a usar capacete.

O centro comercial de rua é escuro e, embora com lojas comerciais às quais estamos acostumados, não é convidativo. Nas paredes, sente-se a falta de limpeza. No chão, a ausência de cuidado. O clima.

Mas se quisermos caminhar um pouco também encontramos um verdadeiro centro comercial ocidental, com preços incomportáveis para quem por aqui sobrevive.

E ontem, ontem depois de termos finalmente conseguido trocar os nossos Dinares Servos por Denares Macedónios, ficámos estupefactos: na hora de fechar o mercado, as ruas encheram-se de resíduos alimentares. Fruta que já não está bonita, legumes que já não atraem os clientes. Tudo no chão e pelo chão fora.

Não que a cidade seja habitualmente limpa, como já referimos, mas naquele momento estava um verdadeiro enjoo.

Mas a repugna não era só visual. Estávamos destroçados com a quantidade de alimentos desperdiçados ali. Olhávamos em volta e ninguém parecia querer saber. Queríamos apanhar do chão tudo quanto víamos ainda em condições. Mas será que podíamos? Seria aceite? Muitas vezes pensamos que, fora de casa, o lema é “faz como vires fazer”; mas naquele momento os nossos corações batiam acelerados.

E foi quando vimos aproximar-se o jovem com a vassoura de arame e o carrinho do lixo, que perguntámos se podíamos apanhar o que estava ali, mesmo à nossa frente, desprezado e largado no chão.

Acenou com a cabeça e gesticulou com os braços, como quem diz que sim, que poderíamos levar tudo quanto quiséssemos.

Arregaçámos as mangas. Só foi pena não termos sacos Pingo Doce por aqui.

Lá está, os hábitos. Sociedades tão diferentes, tão ricas; cada uma na sua essência.

Por aqui também não sabem o que é reciclar. Vá lá, não atiram o lixo para o chão. Mas o contentor ser verde, amarelo ou azul, não tem qualquer significado. Aliás, já na Sérvia tínhamos perguntado por ecopontos e nos tinham dito que não havia. Mas a menina a quem perguntámos (numa loja Bio!), exclamou indagando – Uma vez fui a um país diferente e eles separavam o lixo. Aqui ninguém faz isso! Mas já agora, sabe porque é que fazem isso noutros países?

E é assim o mundo. Não admira portanto que ainda fumem em qualquer local.

Mas o mais importante, os sorrisos e as almas recheadas que se encontram em todas as esquinas.

Por aqui, agora, esperamos por novidades do nosso visto para o Irão. Não temos partilhado muito a respeito, mas esta é a nossa dor de cabeça: vistos! Mas os nosso corações nunca nos enganam: vai correr tudo bem.

Até lá, ainda temos muita arte por conhecer. Muitos cantos por descobrir, por amar. Aqui, ou em qualquer parte do mundo, há sempre um costume que nos falta. Um olhar por trocar.

Espera-nos para tão breve a Grécia e a Turquia, que mal podemos esperar!

O mundo vai na mão: temos sede de apalpar tudo. Conhecer tudo. Ser felizes assim.

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Hvala, Croácia. Hvala, Servia.

Eslovénia. Croácia. Sérvia. Macedónia.

O mundo não pára. E nós também não!

Que rodopio. Nem demos por ela, mas num abrir e fechar de olhos temos milhentas partilhas por fazer, milhentas histórias por contar. Fomos avançando, destemidos e encantados. Agora, agora resta-nos começar pelo principio. Por onde havíamos ficado:

A 4 de abril estávamos nós em Liubliana, prontos para dar asas à nossa caminhada.

Da Eslovénia até à Croácia é um pulinho, e por isso achámos que seria um instantinho. Enganados. Estávamos tão enganados.

Levámos quase um dia inteiro, mas achamos também que estávamos relaxados. Sabíamos que tínhamos muitas horas e portanto não nos deixámos preocupar. Portanto, tipicamente à portuguesa, só quando começámos a ficar mais aflitos é que começámos a trabalhar.

Para sair de Liubliana caminhámos uma hora e meia, com um intervalo para irmos ao supermercado abastecer-nos: na Croácia não pretendíamos trocar dinheiro e ali na Eslovénia as coisas também eram baratas. Portanto, tratámos da merenda e continuámos caminho fora.

Parámos algumas vezes na tentativa de apanhar boleia na via que permite sair da cidade, mas sem sucesso. Fomos por isso caminhando até uma bomba de gasolina local e aí perguntámos a algumas pessoas se poderiam levar-nos até à entrada da autoestrada. Com pouco acolhimento, voltámos a pôr as mochilas às costas. Quando nos preparávamos para caminhar mais 30 minutos, chegou um verdadeiro doutor. Um carro vistoso. Fato e gravata. Sapatinho branco brilhantina. Cabelo penteado.

Sorriso no rosto, coração aberto. Aceitou levar-nos sem qualquer prejuízo e ainda nos deixou o seu cartão para que nos encontrássemos mais tarde – quem sabe em Belgrado para ver o Liverpool jogar, a sua equipa de eleição. Deixou-nos então numa estação de serviço já na autoestrada. Bastante concorrida, com uma boa afluência de carros.

Mas nós parecíamos anestesiados. Percebemos que tínhamos wifi e aquilo que fizemos foi deixar-nos estar, a enviar alguns pedidos no couchsurfing e a mostrar a placa com o nosso destino: Zagreb.

Sabemos de antemão que numa bomba não é boa ideia estar de dedo esticado ou de placa esticada. Sabemos de antemão que numa bomba a estratégia perfeita é abordar as pessoas.

Estávamos tão anestesiados que deixámos que passassem por nós tempos e tempos.

Horas.

Até que percebemos que nos tínhamos de por mexer; tínhamos de nós fazer à vida.
Porque andar à boleia é como sonhar. É bom de pensar. Mas se não fizermos para acontecer, também não nos vai cair aos pés. Sem esforço e sacrifício nada se consegue.

E sem amor também não!

Acabámos pois por conseguir uma boleia de um jovem informático, que nos levou ainda por vários quilómetros e até uma nova estação de serviço. Nesta, nem tempo tivemos para pousar as mochilas e os sacos. Sem sequer pensarmos muito, o primeiro senhor que abordámos, meio em croata, meio em inglês, aceitou levar-nos. Nele e no seu colega, vimos generosidade. Pelo caminho, descobrimos que um deles falava italiano, e assim a barreira se quebrou.

É tão bom quando conseguimos comunicar. Quando conseguimos fazer-nos entender! Compreender e ser compreendidos!

À entrada da Croácia enfrentámos a primeira fronteira. Passaportes. Pediram para nos ver a cara. E interrogaram: o que vêm fazer? Quanto tempo? Porquê? Onde vão ficar? Qual a morada? E só depois nos deixaram seguir. Teve tanto de intimidador, quanto de desconforto. Mas passou, e acabou – como tudo – em bem.

Já mesmo à entrada de Zagreb, deixaram-nos onde não podiam: ainda na autoestrada. Corremos tanto quando conseguimos pela berma. Passos acelerados e atrapalhados. Já ofegantes, atentos. E de sorrisos no rosto. Chegar é sempre uma alegria tão grande, que mesmo ali no meio do nada e meio fugitivos, estávamos satisfeitos.

E foi um verdadeiro instantinho até conseguirmos seguirmos a última boleia do dia. Não nos levou ao centro de Zagreb, mas levou-nos para a periferia onde pudemos apanhar o tram. Uma jovem com um doce discurso, mostrou-nos interessada pela vida e pelo mundo. Falava além de croata, também inglês e italiano.

Nessa noite cozinhámos um petisco vegetariano, jantámos e pernoitámos na casa de um amigo italiano, amigo de uma amiga croata, de uma amiga nossa portuguesa, que está por agora a fazer um programa de voluntariado europeu (EVS). Vêm como é o mundo pequeno e gracioso?

Na manhã seguinte acordámos com o sol forte e radioso a chamar pelo nosso olhar.

Sem estore, cortina ou persiana, passava pouco das 6 horas da manhã quando abrimos os olhos pela primeira vez, atraídos pela claridade. Deixámo-nos dormitar por mais um pouco e acabámos por nos despachar ainda cedo, mesmo depois de um pequeno-almoço em família (como carinhosamente apelidamos, quando o fazemos com quem nos hospeda e com toda a calma do mundo).

No site do hitchwiki (onde consultamos partilhas de outros viajantes à boleia, como cotações de lugares para estar à boleia ou conselhos de viagem), pudemos perceber que de Zagreb a Belgrado a dificuldade era mínima. O lugar onde deveríamos ficar de dedo esticado estava bem definido ena maioria os relatos definiam-no como maravilhoso , com um máximo de 5 a 10 minutos de espera para se conseguir seguir uma boleia direta entre os dois países, as duas cidades.

Optámos por isso por nos afastar do centro da cidade novamente de tram, e à entrada da via rápida pedimos boleia para o tal ponto estratégico.

Apanhou-nos então um jovem, calmo e com um tom de voz tranquilizante. A forma como o conduzia e conversava era tão transparente e bondosa, que era impossível não gostar. Mas foi quando passámos pelo exato local estratégico onde deveríamos ficar, que ele sugeriu levar-nos um pouco mais à frente. Sem que pudéssemos imaginar, achou que seria bom deixar-nos nas portagens da autoestrada. Mas ali, ali era completamente impossível. Proibido. E o pior, estava a fazer uma mão cheia de quilómetros por nossa causa, para nos deixar num lugar que, achava ele, seria melhor. Mas não.

Não era.

De mal a menos, avistámos uma estação de serviço e dissemos-lhe que ali estaria perfeito.
Quando nos deixou, queríamos tanto agradecer-lhe pela sua generosidade, como pedir-lhe para voltar atrás aqueles 10 quilómetros. Sim, a bomba estava deserta.

Nem um carro.

Nem uma pessoa.

Nem ninguém.

Nem nada.

E o nosso lugar extraordinário lá atrás. Aquele, onde em 10 minutos conseguiríamos uma boleia direta para a Sérvia. Sim, esse mesmo, já lá ia.

Rabujámos.

Questionamos como tínhamos deixado aquilo acontecer.

Refletimos. Pensámos. Contámos carneiros. Lanchámos. E rabujámos mais um pouco.

Mas refilar não adiantava de nada. E por isso, mãos à obra.

Cada escasso carro que parava, era potencial luz no nosso caminho, e portanto dávamos tudo por tudo. Sorriso no rosto.

E de sorriso no rosto íamos ensaiando como perguntar entre croata e inglês. Não podíamos correr o risco de perder uma boleia que fosse porque não nos fazíamos entender. E fizemos. E conseguimos boleia.

Simpático era. Conversador também, no seu fluente Inglês. Mas no seu carro não tinha sofagem. Nem ar condicionado. Nem possibilidade de levar vidros abertos (a 160km/h). Então, no auge do dia, com sol e temperaturas a rondar os 30 graus, permanecemos fechados no seu carro tanto tempo, quanto o tempo da boleia. Não ia para Belgrado, mas ia na nossa direção até certa parte. Pelo caminho, o suor escorria-lhe e escorria-nos pelo corpo. As t-shirts que trazíamos vestidas já não tinham manchas de suor; já eram uma só tonalidade, molhadas por completo. E o jovem lamentava, limpava a testa com a mão e seguia caminho.

Não queríamos nem acreditar quando nos deixou, já a pouco menos de 200km de Belgrado, numa grande estação de serviço. Deserta também, mas com ar. Ar puro.

Nós estávamos completamente destilados. Sentíamo-nos como saídos de uma sauna de mais de 2 horas. O bater dos nossos corações dizia tudo. Tínhamos decerto a tensão baixa. E o pior, restava-nos pouca água no cantil.

Mas respirávamos. Tão fundo quanto podíamos. Do passeio fizemos assento. E já não nos lembrávamos da última vez que havíamos dado tanto valor a uma brisa fresca. De 28 graus, mas fresca ainda assim, naquele momento.

Num ápice as temperaturas estavam a mudar. E sem repararmos bem, o resfriado deu lugar ao a abafado.

Ali esperámos uma infinidade. Vimos chegar e partir autocarros turísticos. Vimos chegar e partir carros cheios, com famílias e famílias. Vimos chegar e partir camionistas.

Tivemos até tempo para ter acesso à password da internet do restaurante e a encher o nosso cantil. No fundo, já estávamos por ali como prata da casa. Até mesmo o garçon, o rapaz da bomba e os camionistas nos diziam para ir falar com este e com aquele, para nos levarem.

Pelo meio pedimos boleia a um rapaz que aceitou levar-nos na primeira instância, mas que depois de falar com o companheiro, se recusou. Era uma carrinha, espaçosa. Mas não reconsiderou. E mesmo indo para Belgrado, não nos levou.

Talvez tenhamos esperado pouco menos de 3 horas nesta estação de serviço.

Não que estivéssemos ansiosos ou fartos. Não que estivéssemos entusiasmados ou energéticos. Se tivéssemos que nos descrever, estávamos assim-assim. Tínhamos latente no pensamento que bastava-nos ter ficado no lugar mágico inicial para ter dado certo à primeira. Mas depois, depois pensamos sempre que nada acontece por acaso. Que se assim foi, foi porque tinha de ser.

E aí, aí entrelaçamos os dedos e olhar. E sentimo-nos unidos. Em sintonia. E com fé. No mundo. No amor. E nesta nossa caminhada.

Foi então que conseguimos uma boleia encantadora. Fato e gravata, estavam ambos a esticar as pernas da longa viagem. Iam exatamente para Belgrado e conseguiam comunicar em inglês. Não fluente, mas o suficiente para nos querermos conhecer, mais, e mais um bocadinho. E assim foi, de tal forma, que antes de nós deixar, quis levar-nos a passear.

Levou-nos a um jardim junto ao rio e na periferia da cidade, onde sozinhos dificilmente iríamos. Passeou-nos e conversou tanto quanto conseguiu. Para a despedida um “obrigado” parecia pouco! Mas era tudo o que tínhamos. Isso e desejos: desejos de que o melhor se encarregue de a si voltar.

E estávamos então na Sérvia, com o primeiro carimbo no passaporte e 60 boleias apanhadas desde que saímos de casa. E na fronteira, vimos infelizmente o rapaz da carrinha que por fim não nos quis levar, com esta aberta e desoejada, a ser exaustivamente revistada. É, nada acontece por acaso.

Já em Belgrado não encontrámos amigos de outrora, mas fizemos novos. Recorremos ao couchsurfing, e sem esperarmos por isso, acabámos a jantar e pernoitar com a filha do ex-Primeiro Ministro da Bósnia. Com uma mão cheias de aventuras para partilhar, fizemos dos serões livros de histórias.

E pela cidade, encontrámos as primeiras diferenças culturais. A Europa já não estava tão empregnada como outrora. O alfabeto cirílico. Os vendedores de rua de tudo e alguma coisa. As lixeiras e contentores comuns. A ausência do inglês. A sujidade. O cheiro.

A confusão urbanística e a hospitalidade do povo.

Por duas vezes, parados, veio até nós gente. Procuravam perceber se precisávamos de ajuda. E apressavam-se a aconselhar-nos ou a propor visitar o que de melhor sabiam. A troco de um sorriso.

Talvez seja esta a melhor moeda de troca do mundo. A mais poderosa. E a mais bonita.

O sorriso.

E com um sorriso na alma, prometemos depois partilhar com foi então partir da Sérvia e chegar até aqui, à Macedónia.

Por agora temos de dormir, descansar as pernas, as costas, o corpo e a mente. Temos de descansar este olhar atento pelo mundo. E temos de nos preparar para amanhã conhecer Skopie de sorriso no rosto.

2016-04-08 02.45.482016-04-08 02.43.302016-04-08 02.43.102016-04-08 02.41.542016-04-08 02.40.58IMG_70482016-04-07 00.34.15IMG_70472016-04-07 00.31.572016-04-07 00.47.042016-04-08 02.44.232016-04-07 00.45.252016-04-07 00.31.27