diário pela antiga Pérsia

REPÚBLICA ISLÂMICA DO IRÃO

Visto 30 dias
Entrada 23 maio
Saída 21 junho

39 boleias
4128 quilómetros

Dia 1 – 23 maio

Partimos de Yerevan, na Arménia, com rumo ao Irão.
Saímos já mais tarde que cedo, e sabíamos ainda assim que tínhamos um longo dia pela frente. O objetivo era chegar a Tabriz – estávamos por isso a 500 de distância, longos, tendo em conta que por cada 100 quilómetros levávamos quase de 2 horas na estrada, montanha acima, montanha abaixo.
Apanhámos no total deste dia 5 boleias: A primeira, com uma família que ia para a sua quinta. De sorrisos fáceis, convidaram-nos para ir também. Logo depois, quase gerando um acidente e uma luta, parou um casal que nos levou muitos quilómetros. Pelo caminho, ofereceram-nos frutas, doces, bebidas e tudo do melhor. E já quase pelo final, ainda pararam para visitar um camarada do tempo do serviço militar. Falava francês e recebeu-nos de mesa cheia! A terceira boleia foi com um senhor com carro importado, como tantos, com o volante lado direito. Quando nos apanhou estávamos já estoirados, depois de atravessarmos uma pequena cidade a pé. Quando nos deixou, apanhou-nos uma Van, privada com serviço de autocarro. Ajudaram-nos a chegar a próxima cidade! Lá, um homem parou oferecendo-se como um táxi. Recusámos e explicámos porquê, mas logo depois ofereceu-se para nos levar a mesma. Foi estranho, mas aceitámos. Mas mais estranho foi pelo caminho. Sempre de olhos postos em nós, pouco falador e pouco comunicativo. Pelo caminho, apanhou outro homem, que sem dar tempo para trocas, se sentou no banco de trás. O caminho durou mais de 2 horas e as estrelas já brilhavam no céu. Sentíamos os nossos corações palpitar e queríamos só chegar ao local acordado. E chegámos. E foi lá que apanhámos a última boleia do dia, mesmo sem sabermos que assim seria. Um senhor dócil e simpático, que acabou por nos deixar na fronteira.
Estávamos muito tensos pela quarta boleia, tinha sido tudo muito estranho e sentíamo-nos desconectados do mundo. Mas na fronteira, embora já de noite, decidimos atravessar.
A travessia correu bem. Do lado da Arménia levaram 20 minutos a inspecionar os nossos passaportes. Vieram 3 guardas diferentes para os controlar, e no fim ainda tivemos direito a um micro-interrogatório (acreditamos que por brincadeira e só para chatear). As perguntas desnecessárias, feitas em separado e sem intuito, fizeram-nos perceber que de nada se tratava.
Do lado do Irão, atravessámos cada posto com um sorriso de volta – e tanto que precisávamos deles! Acabámos depois por ficar a dormir na fronteira, a convite do controlador que falava turco. Mas antes, conhecemos um casal de Chalus, do norte do Irão; doces e recém-casados, ofereceram-nos jantar, sobremesa, sumos, tâmaras e pistachos. Ajudaram-nos e trocámos contactos. No fundo, foram a lufada de ar fresco de que precisávamos! As horas anteriores não tinham sido fáceis. Não chegar ao destino, não é fácil. Chegar a um país com uma cultura tão diferente e com tantas restrições para as mulheres também não. No fundo, estávamos confusos. Trazíamos um turbilhão de emoções em nós.
Dormimos então na sala de reza feminina, juntos mas separados. Um sono de pouco mais de 4 horas. Reticente. Mas seguro. E mesmo sem nos tocarmos, os nossos olhares diziam tudo; felizes na certeza de nos termos um ao outro.

Dia 2 – 24 maio

Pela manhã acordámos em pés de lã. Não sabíamos ainda bem como trabalhava este mundo desconhecido, mas sentíamos algum desconforto por termos dormido os dois na sala de reza que pertence às mulheres e que é vedada ao olhar de qualquer homem. Ao mesmo tempo, sabíamo-nos mais tranquilos.
O controlador, dócil e amável, ofereceu-nos o pequeno-almoço e a primeira boleia do dia, até Julfa – a primeira cidade que pisámos. Mas ali, estivemos quase 30 minutos em negociações: depois de na fronteira termos explicado por várias vezes a forma como viajávamos, foi difícil que nos deixasse seguir. Quis por tudo enfiar-nos num táxi! Achou por fim que o problema seria dinheiro, e assim ofereceu-se também para o pagar. Foi árduo e penoso, não queríamos ser mal educados ou desprezar a sua boa vontade, mas acabámos por nos sentir cansados, e alegámos por fim não gostar de táxis. Começou depois o discurso em como os táxis são seguros no Irão e um role mais de argumentos, tudo para nos demover da ideia de andar à boleia. Mas não conseguiu. E nós conseguimos seguir viagem!
Contudo, foi um dia de perfeito de desespero. De angústia. No decorrer do dia, apanhámos 3 boleias: A primeira com um rapaz novo, que embora pouco conversador, se mostrou interessado em ajudar dois turistas, tendo-nos deixado à entrada da estrada que seguia no nosso sentido, mas não sem antes um role infindável de taxistas ter parado à nossa frente. Aqui, foi a loucura. Havia muito trânsito, e os carros buzinavam. E um por um, iam parando, oferecendo serviço de táxi. À medida que iam parando, formavam-se filas de carros, e instalava-se o caus. É difícil de descrever, mas a pressão era muito. Falavam rápido e em farsi, diziam repetidamente táxi e autobus, e não desarredavam pé até sentirem que nos tinham ajudado. Chegámos a ter 20 pessoas à nossa volta, a falar umas por cima das outras e nós sem conseguirmos explicar o nosso objetivo: apanhar uma boleia! Entretanto, também das lojas e minimercados, começaram a vir pessoas. Inacreditável. Até que sem percebermos como, conseguimos uma boleia de um senhor, amigo de um outro que estava no meio da rua. E seguimos, exaustos. A última boleia, já numa cidade perto de Tabriz, foi mais natural. Claro que voltámos a sentir-nos tensos com as pessoas à nossa volta a tentar – nos ajudar e nós sem nos conseguirmos explicar, mas decorreu com mais tranquilidade. Parou um senhor que, depois de lhe termos mostrado o nosso papel mágico (escrito em farsi e que diz, resumidamente, “Senhor condutor, se for na nossa direção e puder levar-nos sem cobrar dinheiro, ficaremos gratos”) andou connosco às voltas, e mais voltas, até encontrar a casa do nosso primeiro couchsurfer, que estava até ao final do dia a trabalhar.
Assim, já em casa, conhecemos os seus amigos durante a tarde, deram-nos chá e acesso à internet. A casa era um verdadeiro caus: cobertores, colchões, roupa suja, loiça, comida, tudo a monte. Não havia quartos, apenas um espaço. E a casa de banho ficava na rua. Não que nos tenhamos deixar impressionar, mas a sensação era a de chegada a um terceiro mundo. Quando o nosso couchsurfer finalmente chegou, foi muito estranho. Ficou desassossegado e aborrecido por termos tido acesso à internet e, mais inquietador ainda, quis levar-nos à polícia para que assinássemos um papel em como éramos seus hospedes. Ficámos desconfiados e muito desconfortáveis: tão desconfortáveis que não precisávamos de falar, os nossos olhares bastavam-nos para nos sabermos em sintonia. E por isso, questionámos o porquê. Mentiu-nos, sem hesitar, dizendo que a polícia tinha contactado todos os couchsurfers registados. Percebemos que não tinha qualquer fundamento, mas voltou a meter os pés pelas mãos dizendo que tinha o seu número no seu perfil. Decidimos ir embora. Não fazia sentido continuar assim, a partilhar o tempo assim.
Metemos as mochilas às costas e saímos. Não tínhamos um rumo definido, mas a primeira coisa que fizemos foi ir trocar dinheiro – no Irão não há possibilidade de acesso a contas estrangeiras, os cartões tão pura e simplesmente não funcionam. E portanto, prevenimo-nos trazendo euros e dólares. E decidimos seguir para a morada que um outro couchsurfer nos tinha dado, com o intuito de nos hospedar mais tarde. Estávamos cansados, desiludidos e nervosos: queríamos só um porto de abrigo.
No autocarro, que para nosso espanto nos custou 0,12€, conhecemos dois senhores, que nos ajudaram tanto quanto puderam. Um deles, foi buscar o seu carro para nos levar à porta de casa à chegada à paragem depois de 30 quilómetros. O outro, queria que fossemos para sua casa beber chá.
À chegada a casa do novo couchsurfer, o alívio instalou-se em nós. Os sorrisos sinceros, a humildade, a simpatia. A simplicidade. Dois irmãos, uma casa normal (rodeada de carpetes) e limpa. E sossegada. Prepararam-nos o jantar e pudemos respirar, enfim, em paz.

Dia 3 – 25 maio

Deixámo-nos dormir tanto quanto precisávamos, descansámos o corpo e a alma. Recarregámos energias e voltámos a apaixonar-nos pelos sonhos que trazemos. E saímos para passear. À boleia com um dos irmãos que nos hospedava, fomos até Kandovan: uma cidade construída nas montanhas, nas rochas. Casas, lojas, vida. Uma vida muito diferente, muito especial. E já ao final do dia, como a quarta das boleias, levou-nos uma família que viajava de férias. Uma delícia de gente: bem como nos ensinam, pararam pelo caminho, esticaram as mantas pelo chão, tiraram a botija e em cinco minutos tínhamos um banquete!
E assim fizemos do nosso dia, o primeiro verdadeiro dia de turistas: porque viajantes somos sempre!

Dia 4 – 26 maio

Após duas noites de conforto, partimos para Zanjan. Tomámos ainda o pequeno-almoço em casa, como pelo Irão se quer: lavash (um pão que mais parece um crepe gigante) e muito chá, e logo depois apanhámos um novo autocarro para sair da cidade.
Ainda pouco certos de como iria correr, levámos connosco uma placa já escrita em farsi e muitas borboletas no estômago. É tão duro quanto se possa imaginar, não conseguir comunicar. E mais ainda quando nos querem ajudar, mas não queremos aceitar o tipo de ajuda.
Por entre muita calma e perseverança, apanhámos até ao nosso destino 4 boleias: A primeira, acabou por ser de um taxista, que por entre gestos e teatros nos entendeu e nos quis ajudar a chegar mais adiante. Mas no lugar em que nos deixou, pararam vários carros e voltou a instalar-se o caus. Falavam uns por cima dos outros e foi trabalhoso desenvencilharmo-nos. Até encontrarmos um jovem, acompanhado pela sua mãe, falando ambos inglês. Vestidos de preto dos pés à cabeça, explicaram-nos já dentro do carro que estavam de luto pelo pai e marido, pelo irmão e respetivo filho. Ainda assim, com um coração de ouro, ajudaram-nos a seguir caminho, levando-nos até à autoestrada. Lá, quis-nos levar um senhor que não nos levou a lado nenhum, acabando por nos deixar praticamente no mesmo sitio, mas muito feliz por nos conhecer. Por fim, entusiasmados e radiantes, pararam dois senhores de Teerão, e que portanto iam na nossa direção. Pelo caminho, pararam para nos mostrar as montanhas coloridas e também para beber chá. Levaram-nos depois até casa da nossa nova couchsurfer – e para isso, andaram mais de 20 minutos às voltas com o carro, sabendo nós que a pé não demoraríamos mais de 5 minutos. Mas no Irão é assim, a hospitalidade é tanta que só quando nos sabem bem, e em casa, é que descansam!
E já no nosso novo lar, tivemos uma casa só para nós: embora fora em trabalho, a nossa couchsurfer deixou as chaves, e a família encarregou-se de nos abrir a porta e de nos receber. Gratidão transbordava em nós, felizes depois de chegados.

Dia 5 – 27 maio

Com a casa para nós, aproveitámos para gerir o dia como gostamos, entre cozinhados improvisados e música durante o duche! E pelo meio, encontrámos o sobrinho da nossa couchsurfer, com quem palmilhámos a pequena cidade. Era sexta-feira, o que equivale a um domingo pelo Irão: dia de ir rezar, dia de descanso. E, por isso, praticamente tudo fechado. Professor de inglês, permitiu-nos aprender muito sobre o país e a sua cultura.

Dia 6 – 28 maio

Com já tudo aberto pelas ruas foras, decidimos sair pouco depois da hora de almoço para visitar o mercado tradicional da cidade. Mas não sem antes darmos as boas vindas a um viajante de Itália, que ainda mesmo de nós sabermos, se iria instalar connosco! Mundo curioso este!
Já ao final do dia, fomos assistir e participar na aula de inglês do sobrinho da nossa couchsurfer a seu convite. E mais à noite, por entre o jantar e o arrumar das mochilas, conhecemos a dona da casa, que havia acabado de chegar. De tom de voz dócil, pequenina e já mais velhinha, deixou-nos admirar como é sempre tempo para conhecer e para partilhar.

Dia 7 – 29 maio

Antes de nos fazermos à estrada de novo, com rumo a Teerão, fizemos um verdadeiro banquete para o pequeno-almoço. E na hora da despedida, recebemos uma prenda: uma caneta especial, para futuro registo de emoções em viagem, pela nossa generosidade. E aí, caiu-nos tudo: como é possível que nos tenham hospedado, recebido e ainda agradecido?
Mochilas às costas e fizemo-nos ao caminho. O calor sentia-se por entre o suor que se acumulava nos nossos pescoços. E no cansaço que tão facilmente se fazia sentir no nosso corpo.
Por entre recusas de táxis, parou um ciclista, vibrante e caloroso! Conversámos por 5 minutos, registámos o momento numa fotografia e seguimos!
Até Teerão acabámos por apanhar 4 boleias: A primeira foi de um senhor que nos deixou na entrada da autoestrada, exatamente onde precisávamos, muito feliz por nos conhecer – o que percebemos claramente quando disse por repetidas vezes ‘Cristiano Ronaldo, Carlos Queiroz’! E assim nos despedimos. Ali, não levamos mais de 5 minutos até para um camião, com um jovem que chamava por ‘Mr.Tiago’ sempre que a nós se queria dirigir. Não entendeu bem o conceito da nossa viagem, por mais que lho tentássemos explicar. Mostrámos-lhe o papel mágico e até encontrámos num dicionário que por lá tinha, com a tradução de “hitchhiking” para farsi, e já quando estávamos crentes de que havia percebido, perguntou-nos se era para nos deixar na estação de autocarros da cidade para onde seguia. Sorrimos e descemos ainda na autoestrada. Lá apanhámos uma boleia de mais um senhor de meia idade, pouco conversador, mas atencioso, tendo-nos deixado uns quilómetros mais à frente. E aí sim, entrámos no último carro do dia: já mais que meio desejosos de chegar a casa, de largar mochilas e sacos, tirar roupa e hijab. Com ar de fanfarrão, contou-nos que tinha loja em Bangkok e que teria gosto em encontrar-nos lá um dia. E chegámos a Teerão – no ar, além do calor, sentia-se a poluição e o ar pesado, digno de uma capital.
Já em casa da nossa nova couchsurfer, jantámos, rimos, conversámos e partilhámos hábitos entre as nossas culturas. Foi ela, a primeira a deixar-nos entrar na sua cultura, sem constrangimentos. Tivemos direito a perguntar tudo sobre tudo: por entre a curiosidade e a ânsia que trazíamos em nós (partilhado no post anterior). E quando nos fomos deitar, era já tarde. Tarde demais para quem no dia seguinte tinha tanto para palmilhar.

Dia 8 – 30 maio

Às 6h50 soou o despertador. Os raios de sol rompiam já altos pela janela da sala. E as nossas costas estalavam: dormir no chão com um colchão feito à mão e envolto de tecido tornou-se um hábito, mas acordar cedo jamais poderá tornar-se.
A primeira embaixada a que fomos foi a do Turquemenistão: a do país que se segue na nossa rota. Lá, conhecemos vários viajantes! E entre nós , ajudamo-nos tanto quanto pudemos, ou a causa não fosse a mesma. Primeiro, um casal da Austrália e, depois, um rapariga francesa. E até pela janela da embaixada aceitarem todos os nossos papéis e formulários, os nossos corações vivem momentos de aperto. Mas no fim, aprendemos, corre sempre tudo bem, acabada sempre tudo em bem. (E se ainda não está bem, é porque ainda não terminou).
Pela tarde fora, passeámos com a nova amiga de França e cruzámos o centro da cidade, ruas movimentadas e o mercado moderno. E visitámos ainda, com alegria e amor à camisola, a nossa embaixada – a embaixada de Portugal. Confessamos ter sido uma delícia falar português, ter sido uma delícia ser tão bem recebidos. E de lá, trouxemos duas cartas de recomendação e suporte, um para a embaixada da China e outra para o Tajiquistão. E ainda o número de telefone da nossa embaixadora, que amorosa e delicadamente, nos deixou à vontade para a contactarmos a qualquer hora do dia, ou da noite, em caso de necessidade.
De regresso a casa, sentimo-nos impotentes – o corpo exigia-nos uma sesta. Só mais tarde, recuperados, preparámos o jantar. E para nossa surpresa, tínhamos mais uma prima à mesa: surpresa pela pessoa que pudemos conhecer. De sorriso na alma, de bem com a vida, partilhou a sua história sem receios, a sua vida outrora estritamente religiosa e o seu dia-a-dia hoje, longe e discente. Uma vez mais, perguntas atrás de perguntas, não a deixámos descansar enquanto não nos vimos esclarecidos. Foi um mundo posto em cima da mesa, uma vida sem medos, uma partilha intensa.
E o relógio marcava 2h00, quando sabíamos que tínhamos os formulários das próximas embaixadas para preencher. Mas desistimos: o sono venceu-nos, e por ente quatro paredes e o nosso lençol verde alface, abraçámo-nos e não resistimos aos sonhos.

Dia 9 – 31 maio

Quando nos tivemos de levantar as 8h00 parecia ser mentira. Mas tinha de ser. Primeiro, porque tivemos oportunidade ir a casa da prima da nossa couchsurfer lavar roupa; e não menos importante, em segundo lugar, tínhamos por preencher os papéis para embaixada da China. Pela internet, encontrámos relatos de quão difícil é o pedido deste visto: exigem bilhetes de avião, marcações de hotel, carta de emprego, carta de recomendação, …. Enfim, um mundo de papelada. Tratámos de tudo durante a manhã, e já meio a correr, chegámos a tempo. Mas nada do que havíamos lido se aplicou: fomos recebidos com sorrisos, e depois de dizermos o nosso país de origem, limitaram-se a pedir-nos os formulários, os passaportes e a carta de recomendação da embaixada portuguesa. De espanto, quem sabe, ainda nos questionaram se ao invés de um visto de 30 dias, não gostaríamos de 60. E assim foi: fácil e sem problemas, como nunca pudemos imaginar. Combinámos pois levantar o visto em 10 dias, mas dali trazíamos já a confirmação de que tínhamos sido aceites – e leveza foi tudo o que pudemos sentir.
De mão dada, ficámos frescos que nem alfaces, prontos para o que havia ainda de vir!
Acabámos ainda por ir até à embaixada do Tajiquistão saber como trabalhavam, e com todas as informações recolhidas, rumámos a casa. Mais que exaustos. E para não falharmos em nada (quem nem trabalhadores), conhecemos o caus do metro de Teerão na hora de ponta.
Acabámos mais tarde a nossa noite, com um amigo da nossa couchsurfer, todos juntos, no Roof of Tehran: um miradouro, a norte da cidade, de onde se pode ter noção da sua imensidão (é de sublinhar que apenas e só na cidade de Teerão vivem 10 milhões de pessoas, o equivalente a Portugal continental! Dá para imaginar?).

Dia 10 – 1 junho

Teve tanto de doloroso acordar cedo, como ir à embaixada do Tajiquistão pela manhã, com tanto calor e sem autocarros, com mais de 3 quilómetros sempre sempre a subir. Lá, acabou por correr tudo bem, sendo que ficámos de levantar os vistos em 10 dias. Posto isto, e sempre a pé por entre embaixadas, seguimos para a da China, de forma a pagar os vistos, uma vez que não o tínhamos conseguido fazer aquando o pedido dada a hora já tardia.
Acabámos por fazer de tomate e pepino o nosso almoço e continuámos a nossa linda saga, desta rumo à embaixada do Cazaquistão. Também lá correu tudo muito bem, com a diferença de que fomos muito bem recebidos!
Exaustos. Já fartos de Teerão e da sua confusão. Cansados. Com o corpo e a mente a pedir descanso. Mas o dia ainda não tinha chegado ao fim: havia aqui pelo meio da história deste dia, um dente molar partido, e foi por isso ainda tempo de ir procurar a clínica dentária que nos aconselharam. E agora, é só dar asas à imaginação para prever como correu: primeiro, o dentista não falavam inglês; depois, era o dentista o único médico da clinica; por fim conseguimos uma assistente para fazer de tradutora – e diga-se de verdade que era amorosa e delicada. Não foi fácil explicar a situação, mas por entre uma sala cheia de marquesas e várias senhoras de boca aberta à espera da intervenção, conseguimos agendar para o dia seguinte o tratamento, e ouve ainda espaço para negoceio do valor, que acabou por ficar nos 25 euros. E aí sim, mortos.
Mas o dia ainda não tinha acabado. Por ser fim-de-semana, a nossa couchsurfer ia visitar a família. E nós, tendo de ficar mais um dia na cidade, decidimos mudar-nos: já tarde, voltámos a fechar as mochilas. É era já perto da 00h00 quando começámos a jantar com a nossa “nova família”: uma família tão, mas tão querida. Daquelas famílias que são como as famílias – que ficam no coração.

Dia 11 – 2 junho

Embora muito mais tarde que em todos os outros dias, voltou a ser penoso sair da cama. Mais, quando sabíamos que íamos para o dentista. Tal como acontece sempre no fim, correu tudo bem. Mas até lá, doloroso. Por entre o nervoso que trazíamos e todas as borboletas no estômago que nos assolavam, primeiro queriam fazer uma intervenção, mas acabaram a fazer outra. E doeu, doeu muito. Materiais sabe-se lá se desinfetados ou não, nunca havemos de descobrir. Mesmo a chorar, o dentista continuava. Mas agora visto de fora, há que entender: com tanto trabalho a fazer, não se pode parar só porque está a doer. E com a certeza de que o serviço não ficou uma beleza, mas na esperança que se aguente até ao regresso a Portugal, voltámos para casa. Decidimos dar um descanso a nós próprios, almoçámos com calma, escrevemos para o jornal que nos acompanha e atualizámos este nosso diário. Fugimos assim ao calor e à azáfama que se vive por cada ruela da cidade, por cada avenida repleta de trânsito e cada esquina caótica.
Já só quando o sol se preparava para pôr, fomos passear até à ponte de Teerão e voltámos ao miradouro. E assim, neste dia, completámos três meses de viagem!

Dia 12 – 3 junho

Tentámos começar o dia cedo, mas o cansaço venceu-nos. E por entre um sono abraçado, amoroso e delicado, deixámo-nos dormir mais do que devíamos. Então, mais a correr que ponderados, arrumamos as mochilas: de duas grandes fizemos duas mais pequenas, para viajar pelo sul durante os quinze dias seguintes. E num piscar de olhos, tomámos o pequeno-almoço e afastámo-nos da cidade tanto quanto pudemos com o metro.
A autoestrada onde nos pusemos à boleia ficava ainda distante, mas caminhámos até lá, por entre um festival religioso a que se assistia. E lá, por entre a confusão, apanhámos uma boleia até Kashan, exatamente onde pretendíamos chegar! O senhor, com um carro bem bom – pouco ao estilo iraniano – pelo caminho parou para nos comprar sumos e águas, e acabou por nos deixar já dentro da cidade, a pouco do centro. Por lá, caminhámos à procura de internet… mas foi mais difícil que água no deserto. O calor consumia-nos, era tanto e tão seco. Mas estávamos felizes, mesmo que sem destino: porque pela primeira vez no Irão, não tínhamos ainda encontrado um couchsurfer para nos hospedar. E a tenda, essa, tinha ficado em Teerão.
Pelo passeio, conhecemos um rapaz numa mesquita e, mesmo sem que seja permitido às mulheres assistir a jogos de futebol, acabámos a tarde a ver o seu treino (depois de concedida a devida autorização). Mas continuávamos sem poiso certo.
Só mais tarde, encontrámos a amiga de um rapaz que conhecemos no metro em Teerão. Confessou-nos que a mãe nos podia hospedar, mas que ela não achava por bem hospedar casais. E por isso, levou-nos até ao hostel de um amigo, para que pudéssemos ter internet, e verificar o nosso perfil do couchsurfing. Por entre um chá e dois dedos de conversa, com vários sorrisos e muita amabilidade, quis hospedar-nos: e assim passámos a nossa primeira noite num Hostel. Muito acolhedor, muito limpo e muito tradicional. E nós muito agradecidos, por mais um soninho descansado!

Dia 13 – 4 de junho

O horário do pequeno-almoço era fixo, e portanto o de acordar também! Banhinho tomado, barriguinha cheia, e seguimos. Queríamos conhecer a cidade de Kashan mesmo antes de seguirmos para sul, para Esfahan. E assim fizemos, e por entre duas ruas do bazar, conhecemos um senhor – já mais para o velhote, e de bicicleta, que nos levou a conhecer os locais mais turísticos da cidade. Sempre, falando em inglês! E com um sentido de hospitalidade indescritível, com um tom de voz e modo de falar tão carinhoso quanto possam imaginar.
Comprámos alguns frutos para o almoço, e seguimos depois de autocarro até ao Fin Garder, um jardim que todos nos aconselharam a conhecer, mas onde não entrámos pelo preço exuberante exigido a turistas. Assim, continuámos, a pé até à autoestrada onde pedimos boleia. Mas o sol, esse, fazia-nos derreter. Não de amor, de calor!
Apanhámos então boleia de um casal, direta para Esfahan. Depois de falarem com a família que nos ia hospedar – e que conhecemos por sorte em Istambul, deixaram-nos na autoestrada, no posto de polícia. Faltavam-nos ainda 60 quilómetros até à vila para onde íamos, chamada Mobahrek.
Conseguimos então boleia de um senhor, que nos levou a ver um rio muito bonito e ainda a sua casa – para nos oferecer duas latas de wishkey (um dos frutos proibidos no Irão). E depois, depois andou às voltas até entender onde nos devia deixar para chegarmos à família que nos ia hospedar. Por meio de muitos desentendimentos e alguma tensão, deixou-nos numa rotunda onde um táxi amigo da família nos havia de apanhar. Não estávamos bem em sintonia, mas chegámos bem a casa da família: com quatro filhos. E irmãos, sobrinhos, pais. E uma grande casa, e um grande jantar no chão. E muita paz no coração!

Dia 14 – 5 junho

Esperávamos que o ramadão tivesse já começado, mas não: aprendemos que depende da lua. Ainda assim acordámos mais cedo para ir para a cidade, tomámos um típico e delicioso pequeno-almoço e, já mais que despachados, acabámos por decidir com a família ir só no dia seguinte para a cidade. Na verdade, este tipo de situações foram recorrentes: um desfasamento cultural acentuado, tão acentuado que muitas vezes não percebíamos o que se passava em nosso redor. Mas lá fora, muito calor, sol intenso.
Ficámos assim a manhã em casa, a escrever, e os miúdos também. Gritaria, choros e risos constantes. E o melhor, dormimos a sesta. Já ao final do dia, fomos a uma fazenda, recheada de árvores de ginja e de cerejas, de amoras e pêssegos. Apanhámos de tudo um pouco, comemos de tudo um pouco, por entre o pó acumulado nas árvores e os jarros de água que o permitiam lavar. Bebemos chá já ao anoitecer, sentados numa carpete por entre a terra batida da fazenda e terminámos a noite em casa dos pais do pai de família que nos está a hospedar. Jantámos já depois das 23h00, como foi sempre comum. Em carpetes e no chão, com mesas que dependem só do comprimento do plástico que se corta para fazer de toalha. Panquecas de espinafres, caldeirada de beringela frita. Muito arroz. Muita salada. Muito iogurte. Muita carne na mesa. Muita água fresquinha e pão daquele que só por estes lados conhecemos (e ao qual já nos habituámos). Muita conversa, muita hospitalidade. Muitas cerejas! Muito chá! Muitos cubos de açúcar. E como não podia faltar, muita brincadeira por entre as dezenas de crianças que se juntam, quando a família se junta!

Dia 15 – 6 junho

Voltámos então a acordar bem cedo, com o intuito de ir conhecer a cidade com a família. Mas por entre 4 filhos, não é fácil. Tomámos o pequeno-almoço e seguimos. Por entre os familiares fomos deixando as crianças , uma a uma. Mas com a mais pequena, na casa dos tios, acabámos por entrar e ficar para beber um chá. Depois o tempo passou, e almoçámos também. E entretanto, eram já 16h00. Mais uma vez, não entendemos como tudo se processou, por entre a pressa de sair e a hora tardia a que finalmente chegámos à cidade, ao centro de Esfahan. Visitámos alguns museus, palmilhámos algumas ruas típicas, conhecemos o grande e maravilhoso bazar e a sua mesquita. E deixámo-nos apaixonar. E terminámos o dia com um gelado, mais um passeio, um jantar numa pizaria local, e mais um chá, já tarde, novamente em casa de familiares aquando o recolher das crianças. Um dia cheio, mas cheio também de novidades e convivência.

Dia 16 – 7 junho

Não resistimos, e deixámo-nos dormir até tarde. Passámos o dia meio relaxados – e que bem nos soube. Só ao final do dia, fomos para a cidade para visitar o que nos faltavam. E pelo meio, vivemos o verdadeiro pânico com a condução e o trânsito iraniano. Passámos um dia calmo, e terminámos a jantar em casa da família da família que nos estava a hospedar (novamente, longe da nossa própria cultura, comemos primeiro os doces, depois o prato principal, e tudo isto já depois das 23h00).

Dia 17 – 8 junho

Chegou o dia de deixar Mobarakeh, em Esfahan e seguir para Shiraz. Assim, a família ofereceu-se para nos levar ao local certo para apanhar boleia, mas depois de tantos dias juntos, não haviam percebido completamente o conceito, e por isso, não se foram embora enquanto não nos arranjaram um carro. Euforicamente, pararam praticamente todos os carros que por nós passavam – o que para nós foi duro, uma vez que só nos faz sentido apanhar boleia com aqueles que param por nos quererem ajudar.
Até ao destino não demorou, e conseguimos chegar com 3 boleias. A primeira, com um senhor muito simpático, com o jipe muito confortável, por entre conversa fluída e muitos frutos secos. Logo depois, um outro senhor. Mas desta, um pouco estranho. Ou talvez não e só pouco falador. Por fim, levou-nos um casal delicioso: tinham vivido no Canadá e traziam escondido no carro o seu cãozinho (por ser no Irão proibido ter animais domésticos). Partilhámos assim um longo caminho, mas sempre repleto de histórias e partilhas, para nós muito enriquecedoras.
Em Shiraz, ficámos com um couchsurfer, numa casa por ele construída. Também ele com um cachorro (de guarda! Para que não haja confusões com a polícia) e até piscina. No entanto, não conseguimos sentir-nos ali confortáveis, muito embora não saibamos explicar o porquê. Talvez pela forma como falava, pelo seu tom monocórdico entre nós e agressivo com o animal e com o seu servo. Também este, já velhinho, fazia tudo quanto lhe era ordenado, até mesmo levar-nos a passear já à noite pela cidade. Mas os nosso corações batiam descontrolados: não nos sentíamos em casa. E talvez o pior de tudo, tenha sido percebermos que não havia lido sequer o nosso pedido no couchsurfing, pois não sabia que éramos vegetarianos. Claro que no fundo se traduziu em dois hambúrgueres a mais; mas não encontrámos a paz desejada.

Dia 18 – 9 junho

Uma vez mais, a noite foi curta. E embora nos tenha sido pedido para acordarmos cedo, levámos muito até sairmos de casa. Chegados a cidade, o primeiro passeio deu-se por um dos mais maravilhosos edifícios que alguma vez pudemos visitar: uma mesquita grandiosa, lustrosa. De cortar a respiração! E ainda com guia internacional feminino e masculino, gratuitos.
Mais tarde, encontrámos o primo de uma amiga da família com quem ficámos em Esfahan. Acabámos então a passear e a jantar com ele e com a sua namorada (ilegal!) e, quase que por magia, que nem desejos tornados realidade, fomos convidados para pernoitar na casa da sua família.

Dia 19 – 10 junho

Mesmo com um bebé ainda muito pequenino, esta família soube acolher-nos com o maior dos cuidados, tendo preparado um pequeno-almoço delicioso, uma marmita para o almoço, e ainda convidado para um jantar todos juntos.
Durante o dia, com o primo, fomos até Persépolis e já na volta fomos também a um parque deslumbrante na cidade, onde se praticavam todos os tipos de desportos. Houve então oportunidade para um jogo de futebol e uma partida de ping-pong! E tal como combinado, acabámos a jantar em família.

Dia 20 – 11 junho

A manhã foi longa, sendo que estivemos até as 14h00 para convencer a família de que queríamos deslocar-nos para Yazd à boleia. Queriam oferecer-nos o autocarro, e juravam não haver carros a viajar com tanto calor. Aconteceu-nos já isto um pouco por todo o lado, mas principalmente com famílias sabemos que a história se repete: acham muita graça quando nos conhecem, mas quando se trata de nos deixar seguir, têm sempre muita dificuldade. E embora saibamos que é este um indicador de carinho, cuidado e amor, temos também nós dificuldade em lidar com a situação: não queremos parecer mal-educados ou arrogantes, mas não podemos ao mesmo tempo ceder.
Partimos então já muitíssimo fora de horas e apanhámos a primeira boleia por 50 quilómetros. Quando o senhor nos deixou levámos apenas mais 5 minutos até parar um novo carro. Dois iranianos de gema, castiços e muito, muito, simpáticos. De sorriso na alma! Fizemos juntos mais de 400 quilómetros, com muita música, muita conversa (tanto quanto o farsi nos permitia), muitas partilhas, muitas fotos. E muito respeito!
Deixaram-nos por fim com o nosso novo couchsurfer. Embora nos tenha recusado hospedar, ofereceu-se para nos deixar pernoitar no seu estúdio de fotografia, onde tinha ar condicionado, casa de banho e uma mini cozinha. Estávamos por isso super encaminhados. Mas depois de petiscarmos o que trazíamos nas mochilas, juntou-se a nós mais um amigo, que por entre algumas partidas de Fifa na PS, nos convidou a ficar em casa da sua família. E assim foi!

Dia 21 – 12 junho

Embora não tenhamos partilhado tempo com a família, este nosso amigo levou-nos a passear pela cidade de carro: as temperaturas elevadas não permitiam um passeio a pé, sem cortar a respiração. Mais tarde, resolvemos comprar uma meloa e uma melancia, e fomos até às montanhas, na esperança de que uma sombra nos permitisse apanhar um pouco de ar puro. E assim foi, embora para nosso espanto as montanhas fossem também um lugar seco e árido, com uma paisagem totalmente bege. Mas pudemos desfrutar de uma tarde tipicamente iraniana, estendidos numa carpete à sombra de uma árvore. E assim nos deixámos ficar.
À noite, quis levar-nos a um restaurante para jantar: e nem sempre é fácil explicar que restaurantes e planos dispendiosos não fazem parte do nosso modo de viagem. Embora não totalmente bem sucedidos, conseguimos (quase) fazer uma adaptação entre o desejado e o pretendido, mas uma vez mais pudemos concluir que a distância cultural existe e é significativa.

Dia 22 – 13 junho

A noite foi difícil: embora na rua se façam sentir 38 graus à noite, em casa chegam a passar frio por deixarem o ar condicionado ligado dia e noite a 17 graus. E se não passam eles frio, passámos nós. Acordámos por isso com a garganta sentida, mas pouco havia a fazer. Tínhamos mais de 600 quilómetros pela frente e decerto várias boleias para apanhar até Teerão – onde tínhamos de regressar para recolher os vistos pedidos.
No decorrer do dia apanhámos 3 boleias, mas a primeira foi sem duvida inesquecível! Um casal, ela de burca (sempre sonhamos com a oportunidade de falar com alguém coberto da cena aos pés só com os olhinhos de fora!), e o marido com pelo menos mais 20 anos. Foi um quebrar de preconceitos; ela tinha uma voz doce e afável, simpática e comunicativa, por entre o seu correto inglês. Não nos permitiu que nos alongássemos tanto quanto desejaríamos, mas serviu ao encanto. Também a segunda boleia foi maravilhosa, com um senhor doutor, que nos levou por mais de 400 quilómetros, sempre interessado. Sabia falar inglês, tinha dois filhos e já tinha vivido na Alemanha. Ofereceu-nos um doce lanche e muitos sorrisos. E por fim, um outro casal, engraçado só por si, com música bem alta no carro. Despediram-se com um I love you e deixaram-nos mesmo à porta do metro. Não sabemos se sentimos ou não falta de Teerão, mas da temperatura menos quentes sentimos de certeza.

Dia 23 – 14 junho

Retornámos às embaixadas para levantar os vistos: voltar a acordar antes das 7h00 era algo de que não sentíamos de todo saudade. Mas tínhamos um plano perfeito, de forma a ficarmos despachados num só dia, muito embora para isso tivéssemos de fazer vários quilómetros a pé de um lado para o outro: iríamos primeiro levantar o visto da China às 9h00, seguíamos para a embaixada do Tajiquistão às 10h00, por ficar perto, e logo corríamos até à embaixada do Turquemenistão de forma a chegarmos antes das 11h00. Depois com mais calma, tínhamos só de apanhar o metro e às 14h00 levantaríamos o visto do Cazaquistão. Posto isto, mais tardar às 15:00h estaríamos de volta a casa, prontos para refazer as mochilas e para no dia seguinte seguir rumo ao norte, Chalus e encontrar os amigos que havíamos feito na fronteira à chegada ao Irão.
Mas não há nada como trocarem-nos as voltas todas! Na embaixada do Tajiquistão informaram-nos de que o visto só estaria pronto no dia seguinte, pelas 11h00, portanto nada mais nos restava senão ficar mais um dia em Teerão. Aproveitámos a tarde então para passear e encontrar uma amiga. Mas estávamos tão cansados que até passear custava. Conseguimos ainda palmilhar e conhecer o mercado tradicional – o bazar de Tajrish: um verdadeiro mundo; onde pudemos perceber que em Teerão os preços são brutalmente incrementados.

Dia 24 – 15 junho

Às 11h00 lá estávamos nós, com um olho aberto e outro fechado, à janela da embaixada do Tajiquistão. Voltou a ser-nos pedido que aguardássemos, cerca 30 minutos. De exaustos, caminhámos até ao parque mais próximo para dormitar num banco de jardim. Mas quando regressámos, foi-nos então pedido que esperássemos mais 1 hora. E ai, vimos os nossos planos arruinados: estava novamente cada vez mais longínqua a hipótese de seguir para o norte. E faltava-nos ainda levantar o visto do Cazaquistão. Se por um lado estávamos felizes por nos tem sido concedidos todos os vistos – porque infelizmente partilhámos a angústia de muitos viajantes ao serem recusados, por outro lado sentíamo-nos gozados e impotentes. Mas esperámos pacificamente. E quase 3 horas depois, tínhamos os nossos passaportes de volta. O mais engraçado de tudo, com o visto do Tajiquistão em manuscrito.
Conseguimos então ao final do dia dar por finda esta nossa busca incessante por vistos! E regressámos a casa aliviados, decididos a seguir para Chalus no dia seguinte.

Dia 25 – 16 junho

Deixámo-nos dormir mais do que devíamos e acabamos por ter de ir até ao escritório do nosso couchsurfer, e da sua família, para nos despedirmos. Foi uma despedida que nos apertou o coração: com eles sentimo-nos conectados e felizes, e quando assim o é, é duro de pensar que os nossos caminhos podem nunca mais cruzar-se.
Seguimos depois rumo a norte, e até lá apanhámos 3 boleias, mas de registar foi o facto de pela primeira vez termos abandonado um carro. Sabemos que pelo Irão a condução deixa muito a desejar: o estilo caótico e grotesco, a velocidade desmedida e a data de regras metem medo; mas quando a acrescentar a tudo isto se junta a loucura de alguém, então temos medo de morrer. E depois de vermos quase acontecer vários acidentes, pedimos delicadamente que parasse e afirmamos que ali ficaríamos melhor – sem dúvida!
E com a última boleia chegámos ao encontro da família com quem ficámos, perto de um delicioso rio no meio da selva, como lhe chamavam. E à chegada, para grande surpresa, recebeu-nos chuva e muita trovoada. E por entre tanto calor, cada pingo molhado sabia a pouco.

Dia 26 – 17 junho

Embora com horários fixos para as refeições em família, e embora tenhamos por isso acordado cedo para o pequeno-almoço, aproveitámos o dia de descanso em casa e pelo campo. E só ao final do dia, fizemos uma caminhada por entre a natureza que nos envolvia.

Dia 27 – 18 junho

O despertador voltou a cantar cedo, cedo demais para os sonhos que tínhamos ainda por sonhar: mas tínhamos uma família e um pequeno-almoço à nossa espera.
Pelo dia fora, decidimos prescindir da cidade para conhecer a costa e a praia mais próxima. Estávamos entusiasmados: fazia tempo que não víamos o mar, água sobre a terra ou areia. Queríamos sentir-lhe o cheiro e a sua temperatura. Mas, no Irão, nada é simples de viver. Sim, passeámos na praia. Mas homens e mulheres, têm zonas fechadas e privadas, completamente separadas, para fazer praia e tomar banho. A areia e água sujas também não fizeram as nossas delícias. Mas a verdade é que o calor tórrido convidava a um mergulho – que não aconteceu.

Dia 28 – 19 junho

A validade do nosso visto do Irão começava a esgotar-se. Muita gente nos perguntou ao longo destes dias se estava tudo bem e o porquê de ainda não termos trocado de país. Tivemos alguma dificuldade em compreender a questão, é embora saibamos que foi em virtude de preocupação, o nosso desejo seria até o de pedir a extensão do visto. Na verdade, o Irão é um país de mil encantos; e embora não trocássemos a nossa liberdade por nada, temos sempre muito a aprender com novas e diferentes realidades. E o Irão é um país recheado de gente boa, de lugares lindos e cheios de história. E para ajudar, extremamente barato.
Mas tivemos de seguir e seguimos para Gorgan, na direção da fronteira que iriamos cruzar. Apanhámos apenas uma boleia direta de uma carrinha velhota, sem ar condicionado, mas com um senhor muito simpático. Apetrechado com uma bela telefonia, conseguimos conectar o ipod e por mais de 4 horas partilhámos música portuguesa.
À chegada, tínhamos 3 diferentes casas à nossa espera: se na Europa mandamos 50 pedidos de couchsurfing para 1 resposta positiva, aqui mandámos 3 pedidos e nos 3 fomos aceites. Assim, resolvemos pernoitar com primeiro que nos aceitou; mas antes, passámos a tarde com um couchsurfer, e o final do dia com outro. Um verdadeiro 3 em 1, em apenas um dia, o que nos deixou de coração a transbordar.

Dia 29 – 20 junho

Com apenas mais um dia de visto, rumámos cedo até à estrada com o objetivo de chegar perto da fronteira. Com os horários estritos das zonas fronteiriças, o melhor seria montar a tenda (pela primeira vez!) já perto e assim estaríamos descansados.
Apanhámos 5 boleias no decorrer do dia, mas uma vez mais os nossos planos fugiram-nos por entre os pensamentos. A primeira, e grande, boleia do dia foi de um camionista amoroso: pagou-nos de tudo, procurou até um restaurante com hipótese vegetariana, comprou-nos fruta, pistachos, bolachas e chás para o caminho, e só quando nos deixou percebemos que havíamos perdido um par de ténis: a 25 quilómetros do local onde nos deixou, parámos o camião para ir à casa de banho de uma mesquita. Na volta, deixámos os ténis na escadas do camião, como sempre fazemos. Estas, por norma, ficam fechadas com a porta, e assim evitam-se maus cheiros na cabine. Mas este camião era diferente, e só o terceiro degrau estava fechado, ficando os outros dois descobertos. Assim sendo, voaram os ténis.
Pouca gente por aqui entende a importância de uns sapatos: basta ir até ao mercado e por menos de 5 euros há muita escolha. Mas o ar de pânico instalado nas nossas caras e transparente no nosso olhar, fez o camionista nem hesitar, e voltou atrás para os procurar. Mas nada. Também nós apanhámos duas boleias e ainda até um táxi (pois já o sol se punha no horizonte) e nada. Doeu-nos no coração, por várias razões. Emocionais e económicas. Levámos mais de 3 meses para escolher aquele par de ténis: foi pensado a dedo, entre o valor é a necessidade, prontos para caminhar quilómetros sem fim, com durabilidade garantida e… lindos! Mas um piscar de olhos bastou para os perdermos. E assim virámos uns pés descalços.
Eram então 22h00 e tínhamos ainda com 80 quilómetros por fazer, já pelo escuro da noite. Estávamos pouco crentes, era pouco o trânsito e rara a luz. Exterior e interior. Estávamos mesmo tristes. Mas acabámos por conseguimos boleia de um senhor com uma menina pequenina, de olhar envergonhado e sorriso maroto. Deixou-nos mais à frente uma mão cheia de quilómetros e logo depois conseguimos boleia com um camionista turco. Ia também para a fronteira, mas entre o Irão e o Turquemenistão as fronteiras para ligeiros e pesados são diferentes, pelo que parou o camião perto da bifurcação e nos convidou a dormir no camião. Ele na cama de cima, nós na de baixo. Não nos sentimos propriamente à vontade, mas serviu de descanso. E bem que precisávamos de conversar com a almofada.

Dia 30 – 21 junho

Eram então 5h50 da manhã quando voltámos a carregar as mochilas e a fazer-nos à estrada. Estávamos a apenas 50 quilómetros da fronteira e sabíamos que as portas do controlo fronteiriço abriria perto das 9h00.
Conseguimos boleia até à fronteira com 3 homens que iam no caminho, e um deles trabalhava na fronteira Iraniana. Ajudou-nos a chegar até lá e também a trocar dinheiro. E às 9h00, despedimo-nos do Irão e conseguimos passar para a fronteira do Turquemenistão. Lá, estivemos mais de duas horas, com a polícia de volta dos nossos passaportes e nós de um lado para outro. Até médico têm para confirmar que não estamos doentes (mas o termómetro, decerto avariado, indicou em ambos 35°C). No fim, para nosso espanto, e sem quererem remexer as nossas mochilas, ou revistar-nos, deixaram-nos seguir. Estávamos então num novo canto do mundo: bem-vindos!

E assim deixámos para trás um país que nos impressionou, que nos fez questionar de muitas coisas e sonhar com outras tantas. Que nos ensinou a ser mais gratos ainda pela vida que levamos (juntos) e pela liberdade que trazemos. Um país, que por entre tantas regras, tanta opressão e tanta religião, nos fez ver que ser boa pessoa, praticar o bem e ajudar o outro, vai muito além do que vimos até hoje. Aprendemos no ocidente, e nomeadamente pela europa, que somos boa gente, vivemos em paz, mas que ninguém da nada a ninguém, sem algo em troca; no Irão, questionam-se estes valores, com a certeza de que não há nada em troca daquilo que damos. E não há que temer pela partilha.

2016-06-12 17.24.40

Salam!

Olá, Irão!

De sorriso no rosto. De sorriso na alma. De sorriso no pensamento. E com o sorriso entre as nossas mãos.

Trazemos quase um mês por aqui; tantas histórias para partilhar, tantas descobertas, tantos encantos. Mas com o acesso à internet muito muito limitado, torna-se difícil fazer atualizações, ou tantas quantas gostaríamos.

Vamos por isso partilhar aqui no blogue o que partilhámos já com o Jornal das Caldas, para onde escrevemos periodicamente; com a promessa de que nos últimos dias deste percurso partilharemos aqui também um diário de bordo. Isto, principalmente, porque para muitos o Irão é um mundo desconhecido e envolto numa névoa de perigo e risco, de pobreza ou fraqueza.

Para muitos, é este um país a evitar, um país excluído, demasiado fechado ou religioso. Só o nome, República Islâmica do Irão, traz ao pensamento dos mais sensíveis imagens menos agradáveis. Mas às vezes, é preciso pesquisar um bocadinho mais, é preciso sair da caixa e procurar ver para lá da sombra.

Na verdade, o Irão tem uma cultura vincada, uma política de mãos dadas com a religião e hábitos distintos. Temos aprendido muitas coisas, descoberto outras tantas. Claro que não trocaríamos a nossa liberdade por nada, mas faz-nos bem saber a diferença. Faz-nos bem, ensina-nos a valorizar o que trazemos de origem. E mais ainda, a ser generosos.

Os homens têm uma vida santa!

Sem grandes restrições, a única obrigação prende-se com a obrigatoriedade do serviço militar (religioso) por dois anos. As mulheres, por lei, devem cobrir as curvas dos seus corpos. Têm de ter sempre o tapado e usar um véu que cubra o cabelo. Os braços também não podem estar expostos.

Fazem o ramadão pela primeira vez aos 9 anos, idade a partir da qual começam também a vestir-se assim e a rezar. Já os homens, têm de o fazer pela primeira vez aos 18 anos. Agora, vive-se o ramadão: mas não conhecemos ainda ninguém que o faça. Conhecemos sim, já, quem coma às escondidas e nos ensine a fazê-lo da melhor maneira!

Vive-se nas ruas a religião com caráter de obrigatoriedade, mas é dentro de casa que se vive a realidade. Até agora, também não experienciámos viver com uma família religiosa. Dentro de quatro paredes estamos à vontade, desde que os vizinhos ou a polícia não o vejam: de calções ou cabelo ao vento, sabe bem.

Nas ruas, sentem-se os elevados graus, o calor e o bafo quente. Ontem quando chegámos a Yazd, passava já das 20h00 e os termómetros anunciavam 37°. De cortar a respiração, neste deserto.

Ainda nas ruas, os transportes são separados, mulheres numa área, homens noutra. Também nas escolas, nas mesquitas, na praia, assim o é. Aos estádios de futebol, só os homens podem ir. Por lei, as mulheres não tocam nos homens; nós como somos casados, podemos andar de mão dada. Mas até para tirar fotografias tem de ser uma mulher a fazê-lo a outra mulher.

Em casa, sentam-se no chão, dormem no chão. Andam sempre descalços, têm grandes e longos tapetes, lindos, e carpetes. À porta da casa de banho e da cozinha, têm chinelos para lá usar. Não têm sanita (bem-vindos à Ásia), não têm banheira: há a latrina e o chuveiro.

Comem ao pequeno-almoço um pão diferente com queijo branco duro. Bebem chá no fim de todas as refeições, mas ao invés de colocarem o cubo de açúcar no chá, colocam-no na boca. E o açúcar que usam para o chá é de beterraba e não de cana. Doce na mesma!

As casas têm um aspeto particular e, por norma, parecem sujas. Têm janelas e portas, eletricidade e água; as estradas e ruas também têm todas asfalto. As autoestradas são boas e as vistas também (por onde andámos até agora, sempre com aspeto árido e montanhoso). Verdadeiramente diferente e grandioso!

As casas por fora têm todas cor castanho ou beje; não há supermercados, só minimercados e “bazares”. É o paraíso das tâmaras e dos pistachos; e é tudo muito barato. Por exemplo, um autocarro para 30 quilómetros custa em média 0,12€ e alugar um T2 são 25€ por mês. A moeda é o real, mas os preços estão sempre em tuman.

A água por aqui é boa, potável e bebem-na da torneira e de torneiras públicas que se encontram pela rua. Já a internet (conforme temos dito) é terrível, lenta e condicionada. Poucos têm wifi. O facebook é proíbido (mas todos têm instaladas as melhores aplicações para encontrar um vpn aberto). E também o nosso blogue aqui é proíbido!

Nos telemóveis, usam o telegram ao invés do whatsapp. E só nestes dias, temos mais contactos de iranianos no telefone, que de portugueses! As pessoas são tão altruístas e bondosas que a princípio até desconfiamos. Todos querem ajudar-nos, todos querem falar-nos!

Mas não sabem o que é andar a boleia, desconhecem o conceito. E mesmo depois de 30 minutos de tentativas (falhadas) do que estamos a fazer, dizem sempre que sim, que entenderam, mas logo no segundo seguinte tentam levar-nos à estação de autocarros ou parar um táxi. Aliás, por aqui, até já dinheiro nos quiseram oferecer para viajarmos, quando dizemos que o fazemos sem pagar. E pelo meio da confusão, enquanto estamos a pedir boleia, param três táxis, vários carros particulares e vêm pessoas das suas casas ver como nos podem ajudar. Instala-se facilmente o caus só para nós “servir”. E no fim, quando as buzinas do trânsito parado são mais que muitas, desistem e querem levar-nos a beber um chá. E por fim, muitas vezes, vemo-nos obrigados a concluir que estamos a viajar a pé. Uma graça.

Entre nós, vivemos o stress e a calma. O nervosismo da comunicação e o encanto das línguas. A paixão e o desafogo!

Pelas cidades, os carros parecem muito antigos, mas afinal por aqui fabricam ainda os antigos modelos. São carros novos com look vintage! Se são modernos, foram importados, e encontram-se na sua maioria em Teerão, na capital.

Também na capital as coisas, por norma, são menos lineares, menos estritas. Mais novidades, mais pessoas, menos religiosidade, menos pressão. Casar, por aqui, é também uma aventura, recheada de estranheza dentro dos hábitos que carregamos. São arranjados pelas famílias: exclui-se a fase do namoro. E mais estranho ainda, são os casamentos entre primos, familiares diretos.

Um infinito de vivências! Um infinito de crenças. A viagem pelo Irão vai já a mais de meio. Mas pela Ásia, vai ainda no início. Mas a cada dia que passa, somos cada vez mais encantados com os contrastes, apaixonados pelas pessoas. E cada vez mais gratos pela vida que temos, pela família que nos criou e pela união que trazemos.

Quanto às fotografias, são muitas e enchem-no coração de recordações; mas não conseguimos fazer upload das mesmas aqui. Vamos por isso tentando partilhar através da nossa página no facebook, http://www.facebook.com/blog.omundonamao.

Khodâfez – خدافظ!

até já Arménia, olá Irão?

Pelas ruas, sente-se a união soviética. Continua a morar aqui, por entre edifícios, ruas e jardins abandonados, outrora cuidados e com vida.

Por entre as montanhas onde dormimos, em kojori, a primeira opção para apanhar boleia foi caminhar até à estrada nacional, por um atalho e por 7 quilómetros. As mochilas pesavam, o sono e os sacos nas mãos (cheios de tralha), também.

Pelo caminho, em tão mau estado quanto possam imaginar, com alcatrão desfeito, buracos infindáveis, com lixo e até ossadas de animais, verde sem fim e silêncio absoluto. E uma paisagem incrível no meio do nada.

A primeira boleia foi de um padre: levou-nos por cerca de 1 quilómetro. Depois, continuámos a caminhar: pausadamente. Era cedo e tínhamos tempo. Mas por entre uma das nossas pausas, avistámos um camião. Já nos sentíamos a chegar ao fim e, embora fosse o segundo carro a passar em várias horas, decidimos não lhe pedir boleia. Ao contrário do que esperaríamos, parou, e convidou-nos a subir. Uma vez mais, por entre uma comunicação muito rudimentar, conseguimos entender-nos e ficámos precisamente na estrada que pretendíamos.

Já com rumo certo, esperamos muito pouco até conseguirmos a segunda boleia, direta até à fronteira com a Macedónia. Falava inglês e tinha um filho a estudar na Europa. Sabia bem onde ficava Portugal e a conversa fluiu até ao destino!

Na fronteira, as borboletas comiam-nós a barriga. É sempre aquele miudinho até pormos os pés do lado de lá. É sempre o desejo de sermos bem recebidos, de não termos de abrir as mochilas ou responder a grandes questões. É sempre o desejo simples de ser tudo simples.

E foi! À saída da Geórgia carimbaram-nos o passaporte e sorriram. À entrada da Arménia, revistaram o passaporte de ponta a ponta, folha por folha – procuravam qualquer carimbo do Azerbaijão, onde não estivemos. E posto isso, olharam-nos nos olhos, compararam as fotografias dos passaportes, carimbaram-nos e devolveram-nos.

Demos mais um passo em frente: e olá Arménia!

Chovia. Choviam pingos grossos por entre o calor que se fazia sentir. Ofereceram-nos na Turquia um chapéu de chuva, e abrigámo-nos nele até nós conseguirmos abrigar num telhado improvisado.

Aí, ainda juntinhos à fronteira, fomos abordados por vários taxistas. É difícil explicar em russo – quanto mais em arménio! – que temos dinheiro, mas não queremos apanhar um táxi. Primeiro porque se temos dinheiro, porque não haveríamos de querer? E segundo, para os turistas é tudo barato. Esta é a lógica e portanto, limitamo-nos a dizer “Niet denhek”, ou seja, não temos dinheiro.

Na verdade, por 20 quilómetros são em média 3€. E um bilhete de autocarro urbano, aqui, são 0,20€. É realmente barato, mas não é a nossa opção. Não significa que não optemos em caso de necessidade, mas não era o caso.

Fomos explicando que pretendíamos ir para Vanadzor de “autostop”. Fomo-nos sentindo comentados. Mas fomos também mantendo o sorriso e o olhar atento sobre a chuva. Só precisávamos que ela abrandasse para nos distanciarmos um pouco da zona fronteiriça. Mas não foi necessário.

Aproximou-se de nós um senhor. Olhar humilde. Sorriso humilde. Pose humilde. De simpatia no rosto, perguntou se queríamos ir para Vanadzor e se estávamos à boleia. E convidou-nos a ir também. Com uma carrinha de distribuição de frutas, variadas, instalou-nos e ofereceu-nos duas tangerinas e duas maçãs.

No caminho, ele e o seu colega, em detrimento da estrada mais curta e em pior estado, optaram pela mais longa e mais perigosa. Mais perigosa porque passa a poucos quilómetros do Azerbaijão, e por entre montanhas avistam-se os dois lados. Perante as tensões com a Arménia, estão ambos os lados avisados: quem chegar perto, não importa quem, é alvejado. E portanto, embora sem chegar perto, não é de todo confortável passar por perto. Mas percebemos que há muitos que preferem fazê-lo, tendo em conta as condições dos pavimentos. E mesmo assim, na “melhor” estrada, levámos um pouco mais de 3 horas para fazer 120 quilómetros.

Prometemos não nos voltar a queixar das estradas em Portugal. 🙂

Pelo caminho, avista-se verde. E mais verde. Montanhas e montanhas verdes e lindas. Flores, campos, árvores e verde. E estradas infinitas, num sobe e desce.

Mas por entre tudo isto, muitas ruínas. Pouco antigas: sinais apenas de abandono.

Até que chegámos ao nosso destino. Ajudou-nos a contactar quem nos ia hospedar (uma espécie de couchsurfer, mas vinda de uma nova plataforma – trustrouts, feita para viajantes à boleia) e encontrarmo-nos foi muito fácil.

Em casa, encontrámos também outra hóspede nas mesmas andanças e foi delicioso partilhar experiências e vivências, viagens e aprendizagens.

Juntos, palmilhámos parte da cidade.

Não sabemos se feitos de admiração ou tristeza. Se de desconsolo ou frustração.

A Arménia, depois de ver conquistada a sua independência, deixou para trás a União Soviética. Mas não só.

Encontrámos um país desolado e escuro. Feito de antiguidades.

Encontrámos, abraçados, um passado muito presente.

Encontram-se pela rua, à medida que vamos andando e conhecendo, vestígios do que outrora foi vida. Não há rua sem ruína. Não há rua sem abandono.

É um país fantasma. Ou, como lhe chamam, um país com história. E podia até sê-lo, e é, mas podia também haver o preservar dessa história. O conservar.

Os nossos corações ficaram alerta. Ficaram emocionados e tocados: pelas ruas vêem-se edifícios desprezados, abandonados. Fábricas vazias. Vidros partidos. Pedras soltas. Escombros. Vêem-se estátuas de outrora. Vêem-se ruínas de hotéis, saunas e luxurias do passado. Tudo a cinzento e branco. Destruído e apagado do presente.

Nos parques, bancos tortos, desfeitos dos anos e sem manutenção.

Sentem-se nas pernas as ervas altas, a relva por cortar, os canteiros e jardins por arranjar.

Nos parques, os baloiços que já não baloiçam. As brincadeiras enferrujadas e deixadas ao acaso.

Fechamos os olhos e imaginamos tudo 40 anos atrás. Cheio de cor e gente. Balanço e harmonia.

Mas abrimos os olhos e sabemo-nos no presente.

Também nos parques comboios infantis deixados para trás. Lindos, mesmo que já sem cor ou movimento.

Traços de uma história passada.

Percebemo-nos num país pobre, com uma taxa de desemprego elevadíssima é um ordenado mínimo baixíssimo. Percebemo-nos por entre miséria – é claro, também alguns opostos.

Percebemo-nos por entre uma maioria de carros (muito) antigos e uma juventude satisfeita, que pouco ou nada se questiona.

Um pão caseiro custa 0,28€. Um gelado 0,18€. Um bilhete de autocarro 0,20€.

E assim se (sobre)vive.

E no meio de tanta pobreza, carregam orgulhosamente dentes de ouro.

Quando deixámos Vanadzor para trás, era muito cedo (para nós) e achávamos que tínhamos o dia pela frente para conhecer Yerevan – a capital.

Pusemo-nos à boleia com uma placa; mas depressa percebemos que eram raros aqueles que percebiam o alfabeto latino. Mas, claro, era para nós impossível escrever em arménio hayeren. Mesrop Mashtots.

A primeira espera foi morosa. Pararam vários carros que não iam propriamente na nossa direção. Outros tantos a oferecer serviço de táxi. E muitos outros que passavam, acenavam. Estivemos mais de 1 hora para apanhar a primeira boleia.

Era um jipe, três homens, pouca conversa, mas ajudaram-nos a mudar para um sítio melhor para apanhar boleia. Não muito longe, mas foi uma mudança importante.

A segunda boleia foi de um camião pequenito. Ou uma carrinha muito grande! Um senhor muito doce, daqueles que sabemos que é mesmo boa pessoa – mas que nunca lho vamos poder dizer. Levou-nos por mais uns 10 quilómetros.

E a terceira boleia, por mais outros tantos quilómetros, foi de dois senhores. Aliás, Senhores. Com postura e muito educados. Um deles, até inglês falava. Descobrimos pelo caminho que se tratavam de militares e estavam tão encantados com a nossa viagem, que quando nos deixaram pediram para tirar uma selfie todos juntos!

Lá, voltámos a esperar um pouco. Mas não muito! Um dos carros que por nós passou, voltou atrás, e de sorriso no rosto, ofereceu-se para nos levar! À frente, levava a sua esposa, vinda do Turquemenistão. Amorosos. Grande parte da viagem deu para um o-o e dois dedos de conversa. Sorriam-lhes os olhos e o coração também.

E quase 5 horas depois, com 5 boleias e 120 quilómetros feitos, chegámos à cidade. Sim, ainda apanhamos mais uma boleia, só até ao centro. Trabalhava na embaixada de França e por isso foi em francês que nos fizemos entender. Desta, fácil! Muito fácil. Mais, trazia no carro o seu filho, cujo inglês fluía.

Pelo caminho, tudo na paisagem se repetiu. Mas a verdade é que a capital se encontra mais cuidada. Esconde bem o que os subúrbios contam.

Mas em cada esquina, alguém a pedir.

Ainda assim, a capital surpreendeu-nos. Pela beleza dos edifícios que conserva, pela beleza da natureza. Pelos museus que tivemos oportunidade de visitar. Pelos locais históricos.

Um país diferente, que nos fez questionar muita coisa. Mas onde encontrámos novamente muita gente boa. Gente que defende a causa, que defende a pátria. Gente que tem entranhada a arte de bem receber, de cuidar. Gente que nos hospedou com amor. Com gentileza. Com tudo o que tinham. Gente boa. Nós continuamos a acreditar que vale a pena acreditar. Em gente boa. Estão por toda a parte, e temos tido a sorte de nos cruzar a cada dia.

Há famílias iluminadas.

E nós dois, também família, sabemo-nos e sentimo-nos abençoados.

Amanhã bem cedo, as borboletas voltam ao estômago, à barriga e à cabeça: olá Irão.

 

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viram-se gregos, na Grécia

S de Skopie. Skopie de sorriso. Skopie de soalheira. Skopie de sensível. Skopie de super. Skopie de sentido. Skopie de saudar.

Em Skopie passámos 6 noites, um novo record. Trocámos os euros pelos denares e a nossa cultura pela deles. Passeámos, deixámo-nos absorver por cada história, cada novidade, cada diferença. E quantas diferenças!

Por lá ficámos todo este tempo em casa de dois EVS – programa de voluntariado europeu, onde fomos tão bem acolhidos quanto recebidos.

Mas por lá o nosso coração batia descontrolado: era tempo ou receio, era ansiedade. Era o nosso visto para o Irão.

Quando contactámos pela primeira vez a embaixada do Irão, ainda em Belgrado, disseram-nos que lá seria impossível obtê-lo. Também em Skopie foi assim.

Mas desta tivemos sorte. O Cônsul aceitou receber-nos e até lá conhecemos uma amiga do Irão. E esta sim, foi luz. Foi a sorte! E a fonte dos nossos sorrisos. Ajudou-nos de tal forma, que em dois dias tínhamos os vistos colados nos nossos passaportes!

Foi por isso que logo na manhã de quarta-feira, dia 13, depois de saídos da embaixada, nos fizemos ao caminho.

Com vista à Grécia, queríamos ainda naquela tarde chegar a Thessaloniki, a poucos quilómetros da fronteira. Apanhámos por isso um autocarro urbano para nos tentarmos afastar o mais possível do centro da cidade e lá conseguimos a primeira boleia para abandonar a Macedónia.

A boleia não foi longa, como aliás todas as que caraterizaram esta viagem. Por isso foram tantas. Mas continuemos!

Este jovem que nos levou, falava inglês tanto quanto basta e havia estudado num escola Turca. Pudemos perceber que pelos Balcãs muitos o fazem – estudar numa escola turca!

Quando nos deixou, já numa cidade longínqua, conseguimos sem grande demora apanhar outra boleia.

Esta, com um senhor tão simpático quanto consigam imaginar: o inglês não era o seu forte, mas esforçava-se em cada palavra! Deu-nos comida, bebida. Deu-nos partilhas, histórias de vida. Deu-nos sorrisos! E a boleia. E deixou-nos a 10 quilómetros da fronteira com a Grécia! Já não faltava tudo.

Quase quase com os olhos postos em território grego. Em pulgas para lhe sentirmos o cheiro. Cheiro a mar!

E, com o entusiasmo guardado nas nossas mãos, esticámos os dedos.

Parecia magia.

Apareceu então um carro. Um grande carro. O jovem acenou-nos para que entrássemos e levou-nos até a fronteira. Percebemos que não ia para lá, mas que nos quis levar: e pelo caminho partilhou os seus negócios pouco explícitos e os seus gostos internacionais!

Até aqui, parecíamos bichinhos dentro das conchas, a ser levados pelo mar.

Umas boleias atrás de outras. Passavam por nós ondas e areias. E víamos tudo passar por nós, rápido. Velozmente.

E limitavamo-nos a sorrir. Felizes.

A felicidade é assim; vive-se nela. De corpo e alma. E quando se partilha, com amor, são dois corpos e uma alma a viver nela. Na felicidade!

Já na fronteira, fizemo-nos ao caminho; mas a pé. Sabíamos que a podíamos atravessar assim, e assim o fizemos. Passámos três guardas fronteiriços, em diferentes postos. Todos nos deram um sorriso; todos nos deram o seu lado bom! Não que seja estranho, mas atravessar uma fronteira é sempre um momento tenso; de poucas palavras e poucos sorrisos. Limitam-se habitualmente a dizer “passaport”, “bag”, “where are you going”, “why”. E pouco mais.

Mas a pé foi diferente. Pareciam entusiasmados! Talvez os nossos olhos falassem por nós. Mesmo com as mãos suadas entre-nós, do nervoso miudinho de mais uma etapa.

Concluída!

Estávamos pois na Grécia!

O sol já ameaçava pôr-se.

E, o pior – dizem!, o Benfica jogava dali a duas horas, contando já com o fuso horário. É que uma equipa portuguesa (na liga dos campeões), é concerteza, é concerteza uma equipa portuguesa. 🙂

Acabámos por nos deliciar com um crumble de maçã, que tínhamos feito em Skopie, e pouco esperámos pela nova boleia: dois rapazes mais destravados, com uma condução não tanto prudente, mas simpáticos e amáveis. Inglês não era o forte de nenhum dos dois, mas chegou bem para nos entendermos!

Do local em que nos deixaram, ainda que perto da fronteira, estávamos bem encaminhados para chegar a Thessaloniki. Embora até casa faltassem ainda cerca de 80 quilómetros, e a lua já estivesse luminosa céu adentro, não nos restava mais que esperar de dedo esticado. É assim o fizemos.

Até parar um novo carro. Percebemos pelas primeiras palavras trocadas que seria francês, mas deixámos que se apresentasse. Era realmente de Paris, produtor num canal televisivo nacional e estava ali para fotografar o campo de refugiados de Idomeni, por onde depois passámos.

Tendas. Fogueiras. Tendas. Mais tendas. Luzes perdidas.

Gente. Mais gente. Crianças. Histórias de vida. Professores. Médicos. Mães. Pais.

Mulheres grávidas. Recém-nascidos.

Mais gente. E uma dor na alma. E um campo de refugiados.

Chegámos a Thessaloniki ainda meio atordoados, mas chegámos bem. Já tarde, cansados e fora de horas. O peso das mochilas vincava já os nossos ombros, quando percebemos que tínhamos pela frente ainda uma caminhada de 3 quilómetros muito especiais: sempre a subir! Restava-nos pouco mais que apelar à nossa força interior. Não foi fácil, mas no fim soube bem. Soube bem chegar a casa; à casa do couchsurfer que nos hospedou!

Cozinhámos muito, descansámos e passeámos nos doís dias que lá passámos. Caminhámos também muito, sempre a subir e a descer; sempre a descer e a subir.

Acreditámos por estarmos numa cidade europeia, que estaríamos em casa. Mas essa é a que trazemos às costas! Não mais iremos reconhecer por aí uma cultura assim. Mais que não seja porque de mota não usam capacete, mesmo lado a lado com a polícia. E andam com as motas pelos passeios, como se de estrada de tratasse. E é este apenas um exemplo!

Mas é bom, é interessante caminhar assim: na imensidão da novidade e da diferença. Só saindo da nossa zona de conforto podemos e conseguimos dar valor ao que temos; e só quando nos confrontamos com realidades diferentes, conseguimos sair do nosso mundinho, tão pequeno quanto o nosso umbigo. Insignificante e irrisório. E só assim podemos crescer. Na verdadeira essência do ser.

E a nós, permite-nos crescer juntos; amantes. Por entre medos e conquistas. Sorrisos destemidos e abraços silenciosos, que por si falam. Por vezes no meio do nada, sem nada; sabemos que temos tudo. Porque nos temos.

Na manhã de sexta-feira, 15, apanhámos dois autocarros para chegar à periferia da cidade: e o dia estava cinzento.

Começámos por caminhar muito mais que o previsto. E, no fim, estivemos mais de 6 horas à boleia, no mesmo lugar, com o sol quente e o céu azul. Percebemos assim o verdadeiro sentido da expressão 《viram-se gregos para lá chegar》.

Não houve um só carro interessado em ajudar. E foi só quando o cansaço venceu a esperança, que um carro parou! Repleta de boas energias, apressou-se a levar-nos e a ajudar-nos. Partilhámos muitas coisas, ficámos a conhecer a sua família e a sua vida, os seus projetos e as suas conquistas. E tudo sem saírmos do carro.

Optou depois por nos tirar da autoestrada e por nos deixar na estada nacional, por ter paisagens lindas e apaixonantes. E acreditou que seria mais facil para nós, ali, conseguir uma nova boleia.

A verdade, a verdade é que ficámos cheios até cima de uma paz interior inexplicável. Mas ao mesmo tempo, olhámos em volta: um lugar paradisíaco! Montanhas, o mar, flores. Natureza pura. Silêncio. E uma bomba de gasolina ao fundo.

E depois de nos termos visto gregos para chegar ali, achámos que nos veríamos também gregos para dali sair.

Passaram por nós vários camiões, mas não demorou mais que 10 minutos até parar um para nós! Um camião do Irão.

O motorista, Iraniano, entre gestos e poucas palavras; apresentou-se e apressou-se a dar-nos tudo o que tinha: uma banana, frutos secos, chá, sumo. E pouco depois, quando percebemos que falava um bocadinho de Italiano, sentimo-nos completos e capazes para comunicar. É-nos difícil descrever tamanha hospitalidade; mas vamos tentar. Por todas as horas que passámos juntos, ofereceu tudo o que tinha e mais ainda. O seu sorriso e o seu olhar diziam tudo: era um homem bondoso. Generoso! Humilde. Ofereceu a cama para que pudéssemos descansar e dormir (assim foi!!!), ofereceu  alimentos, café e ofereceu até a sua casa no Irão! Quando nos deixou, deixou-nos também um papel com a sua morada Iraniana e telefone; restou-nos prometer que à chegada lhe ligaríamos e que o visitaríamos. A ele, e à sua família.

Até a escrever e a recordar nos sentimos arrepiados.

Naquele momento poderíamos ter seguido até ao Irão – teria sido uma boleia longa e direta. Mas não quisemos – a Turquia, a Geórgia e a Arménia têm ainda muito que ver.

E ficámos então em plena autoestrada. Novamente à boleia e desejosos de chegar a casa do nosso novo couchsurfer! Mas ali, ali não precisávamos de conseguir uma boleia: estávamos a poucos quilómetros de casa e a caminhar também lá chegaríamos.

Palmilhámos a entrada da cidade: Alexandroupoli. O cheiro a mar. O som do mar. As estrelas no céu. A luz da lua. Mais nada interessava! E o calor, o calor desta primavera enriquecida em nós… Embora tão tarde, caminhámos sem grande afogo. E mesmo a caminhar, mantínhamos o dedo esticado.

Já perto do centro da cidade parou uma carrinha. Só lhe vimos uma boina: a do condutor. Era jovem. Como nós talvez. E simples. E simpático. E amável. Contou-nos que já nos havia visto mais atrás, mas que tinha ido primeiro deixar a esposa a casa; porque com só dois lugares na carrinha comercial, era impossível ajudar. Assim, um no colo do outro e lá fomos mesmo até à porta de casa!

Lá, sentimo-nos mesmo em casa: passava das 2 horas da manhã e estávamos a cozinhar e a conversar. Fomos recebidos de braços abertos, com muita ternura e cavalheirismo. E a noite voou! Na manhã seguinte, tirámos o visto electrónico para entrar na Turquia e voltámos à estrada.

Chegar a Istambul não foi uma aventura menor; e por isso fica para a próxima partilha.

Vimo-nos gregos para atravessar a Grécia, mas vimo-nos também felizes e enamorados até aqui. E assim o pretendemos (mais que estar) ser!

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