Timor em português!

De sorriso sincero no rosto, naquele tom de pele castanho, perdido no olhar de amêndoa doce, escuro e característico, que de uma forma tão genuína veste quem por lá nasceu. É Timor-Lorosae. São timorenses.

Assim chegámos a Timor-Leste, depois de com esforço atravessarmos a fronteira com Timor Ocidental, ainda na Indonésia. São a mesma ilha, têm uma história triste comum*, mas de ambos os lados deliram com a pele branca e o nariz proeminente de qualquer estrangeiro que por ali ande.

*Porque a história de Timor-Leste tem pano para mangas, mas consegue resumir-se à independência de Portugal em 1975 (sendo até então conhecido como o Timor português), tendo logo sido invadidos; o fim ocupação Indonésia deu-se em 1999 e sua independência total em 2002  – o que faz deste um país muito novo.

Na fronteira tirámos mais fotografias com locais que em qualquer outro sítio nesta viagem; não que noutros países, como por exemplo nos da Ásia Central, não tivessem também esse desejo, mas tinham também muito mais vergonha. Ali, os mais comedidos tiravam de longe, os mais destemidos vinham até nós. Abraçavam-nos, agarravam-nos, sorriam, pousavam para a foto e faziam filas. Foram sem duvida dezenas de fotografias, depois de termos passado a noite num ferry que abanava mais que uma rolha em alto mar e uma madrugada e manhã à boleia, sem descanço.

E mais, era Ano Novo! Sim, era dia 1 de janeiro de 2017, no auge da euforia de uma nova primavera.

Estavam, por isso, todos em nosso redor felizes e reluzentes, animados com a chegada de mais um ano. E nós estávamo-lo também, mas trazíamos em nós uma incerteza tamanha: a de não sabermos se iríamos conseguir chegar até Dili, a capital, naquele mesmo dia. E tínhamos em nós a consciência vincada, dos avisos que nos foram feitos, do perigo que seria chegar à capital já de noite e sem alguém para nos receber. Faltavam-nos, ali mesmo, umas três horas de caminho, por 100 quilómetros por fazer, por estradas esburacadas e paisagens à beira mar criadas.

E ali mesmo, no edifício fronteiriço, sorrimos. Havia já, quem de cor falasse português – e que mais podem dois portugueses querer?

Sorrimos! E sorrimos de novo, entre olhares cúmplices e confiantes, apaixonados e tão, tão cansados.

Éramos nós.

Atravessámos o famoso arco de boas vindas a Timor-Leste (em português escrito!!), sem medo, e a pé, e depois de carimbados os passaportes, seguimos. E estávamos finalmente no nosso tão desejado destino!

Ali, sabíamos já que encontraríamos uma segunda casa e que poderíamos descansar quanto tempo quiséssemos. Era família do coração – aquela que temos a sorte de poder escolher.

E embora estivéssemos muito, muito felizes, estávamos também exaustos por tudo aquilo que tínhamos vivido até então, depois de duas noites mal dormidas e muitas horas a bordo de um ferry mal-amanhado, depois de celebrado o ano novo com a chegada à ilha de Timor e o barulho de todas as motas em nosso redor.

Depois de termos atravessado a fronteira a paisagem não era diferente: árida, quente e pobre, numa estrada infinita de alcatrão velho e barracas de chapas de zinco vazias, com pilares de pau. Ao lixo pelo chão já vínhamos também habituados e por isso a diferença no olhar foi pequena.

Já não tínhamos muito que comer, senão umas mangas de sobra e uma bolachas de limão; mas nada disso interessava. Só queríamos chegar a Casa! Das bolachas fizemos almoço e demos corda aos sapatos.

As sombras eram raras, mas sabemos bem que as fomos aproveitando conforme podíamos. E a cada escasso carro que víamos passar, pedíamos boleia! Lá iam parando, e o entusiasmo era tanto que já só falávamos a nossa tão querida língua, sem tão pouco nos questionarmos sobre isso. Era instintivo e automático! E tão, tão bonito.

Demorou pouco até conseguirmos a nossa primeira boleia, no momento exacto em que nos conseguimos abrigar do sol para beber um pouco de água. E é tão engraçado ver como nos lembramos de tão pequenos pormenores.

Eram dois senhores, policias, militares ou guardas, não conseguimos precisar, mas decerto trabalhadores na fronteira. Iam por apenas dois quilómetros, até ao café mais próximo. Mas foi uma grande ajuda! – por vezes, há quem não pare por não ir longe, mas tudo aquilo que muitas vezes precisamos é de nos sentar dois minutos e renovar a esperança. E assim foi!

Já perto de uma pequena ponte que cruza um rio, sujo, ficámos bem! Atravessamo-la a pé e, do lado de lá, voltámos a conseguir uma boleia. E desta, a certeira! Era uma família, um carro cheio. O pai, vice-presidente da CPLP, a filha estudante de medicina e fluente em inglês. A avó, professora, falava bem português. Recusaram a principio dar-nos boleia, porque sem dúvida, não havia nem um pequenino acento num banco disponível. Mas havia a bagageira! E a sede de avistar Dili era tanta, que nem hesitámos!

Estavam juntos com um grupo enorme de pessoas, que ali passavam num passeio em forma de comemoração pelo aniversário de um dos membros da família. E com todos eles, fomos parando para visitar praias, miradouros e até à verdadeira festa de aniversário numa colina nos levaram. Havia cerveja, sumos de banana com gás e até gente a falar português!
(E já para o fim, havia também um infinito de lixo espalhado e abandonado)

À chegada a Dili tínhamos instruções (dos amigos que nos iriam receber, e que à data estavam em Portugal), para que telefonássemos ao Senhor Filomeno ou à Mana Ela. Tinham ambos ficado com a chave e ambos saberiam como nos orientar.

Assim, ainda no carro, pedimos que telefonassem a um deles, mas nem tudo correu como previsto! Timor-Leste é perito nestes acontecimentos, mas não estávamos ainda bem cientes disso. Tudo leva o seu tempo e tudo exige a sua calma.

Primeiro, não havia cobertura. Passado umas horas, ninguém atendia.

Já mais tarde, diríamos até no lusco-fusco, o telefone através do qual tínhamos ligado já não estava no carro, e a neta, intermediária, também não. Acabámos ainda assim por nos conseguir explicar e voltar a ligar: sempre na incerteza e sem saber se o Senhor Filomeno teria ou não ligado de volta para o telefone anterior.

Conseguimos quase à chegada – e que mesmo assim leva sempre uma hora no transito caótico da entrada de Dili – falar com a Mana Ela. Ou assim pensávamos que tinha sido. E estava tudo combinado. Às 19h na catedral, a famosa catedral. E assim foi. Fazia-se acompanhar de um senhor com quem falámos em português, e por defeito, assumimos de imediato ser o senhorio, Senhor Filomeno.

Caminhámos então juntos, a transbordar de felicidade e em paz por termos conseguido chegar, por entre o bairro dos Professores, num clima de pobreza, estradas tortas e lixo perdido.

Os sorrisos vinham-nos dos olhos. Puros, singelos. Perdidos por tudo o que víamos e na simpatia daqueles que se aproximavam. É que caminhando pelas ruas fomos sendo sempre cumprimentados com um ‘Boa tardi, vai aonde?’ ou, em língua tétum, ‘Botarde, Ba ne’e bee?’. (Mas vinhamos já treinados da Indónesia, habituados ao ‘mauke mana?’). E é o cumprimento dos timorenses aquele que reconhecemos como sendo um um gesto comovente. Um aperto de mão rápido e solene e, depois, a mesma mão usada no cumprimento é levada ao coração – o que simboliza respeito pelo cumprimentado. Porém, percebemos, nem todos os timorenses o fazem.

– A língua mais falada durante a ocupação da Indonésia, era claro o indonésio (o que ainda hoje se percebe ter acontecido). Durante esse mesmo período a língua portuguesa foi proibida. Hoje o tétum é o mais falado na capital e o português é também língua oficial.  –

Rua para frente, rua para trás, e lá chegámos. A casa, fria e vazia, dizia-nos pouco, naquele momento. O cheiro incerto, a falta de personalidade e, sem bandeira portuguesa, fez-nos questionar se estaríamos na casa certa.

Armários vazios. Não, não podia ser.

Sem falar português, aquela que acreditámos ser a Mana Ela e que depressa percebemos que não seria, pouco entendia do que se estava a passar. E aquele que a acompanhava, e que achávamos ser o Senhor Filomeno, também não o era.

Wi-Fi nem vê-la. Telefone também não, que a pulsa (o saldo) dos telefones tinha terminado.

Estávamos portanto entregues ao vazio.

Se um de nós emana calma, o outro contrabalança. E ainda bem que assim o é, em forma de equilibro e muito amor. Naquele momento, não havia cansaço que vencesse: precisávamos de descobrir onde ficar.

Um mês antes havíamos encontrado entes amigos na Malásia, na escala que faziam rumo a Portugal para passar o Natal. Por sorte, tínhamos ainda uma fotografia tirada juntos guardada e foi essa a nossa salvação! Apressámo-nos a mostrá-la e guardamos até hoje as suas caras de espanto. Conheciam bem, afinal, o casal da casa que procurávamos, mas não faziam ideia de onde ficava. E foi nesse preciso momento que percebemos que não poderíamos estar com nenhum dos dois que havíamos contactado.

Isto, isto é Timor-Leste!

Espera atrás de espera, e esperámos mais um bocadinho. Com  calma, muita calma.

Acabou então por aparecer o Senhor Filomeno, o verdadeiro, proprietário da casa e português falante. Este, depressa nos levou a casa. À verdadeira casa, àquela que percebemos de imediato ser familiar. Aquela a que agora também guardamos como nossa.

E, finalmente em casa, sentiamos pouco mais que o nosso coração a bater.

Havia uma gatinha – e toda a bagunça que ela se tinha encarregue de fazer na ausência dos donos.

E havia um lar.

Estávamos folgados!

Afortunados. Felizes.

Pena só tinhamos por haver ainda mosquitos doenças tropicais com as quais tínhamos uma vez mais de nos preocupar; e por não haver internet… mas sobre isso, não sabíamos ainda nem de perto a realidade!

Sem chances de avisar quem quer que fosse sobre a nossa chegada, demos jeito à bagunça, alimentámo-nos nós e alimentámos a pequena SUAI, abrimos o sofá cama da sala e dormimos. Dormimos muito. Muito. E sonhámos. E descansámos.

A manhã nasceu na mesma euforia com que a noite se pôs, sendo ainda assim já dia 2. Pouco importava. A festa fazia-se ainda, pelo Ano Novo. As mesmas motas, o mesmo barulho. A mesma felicidade.

E preparávamo-nos nós para tratar de almoçar, quando se abre o portão, naquele também seu som tão característico..

Eram eles! A Débora. O David. E a Madalena. Estávamos tão emocionados: esperámos tanto e tão ansiosamente por aquele momento!

A Madalena é uma jovem timorense que se encontra a viver com eles por ser do distrito e necessitar de estudar na capital.

E começámos assim o primeiro de vinte e dois (especiais) dias juntos.

Podemos agora escrever sobre tudo o que fizemos. Tudo o que vivemos. Tudo o que partilhámos, conversámos, discutimos, refletimos e aprendemos. Tudo o que sorrimos. Tudo o que fomos. Mas nada se aproximará daquilo que guardámos no coração.

Começámos por conhecer recantos de Timor e a vida por lá sentida. Aprendemos os cantos à casa e o ritmo a que nela se vive. Fomos aos supermercados do costume, o Páteo ou o Leader, e consciencializámo-nos do custo de tudo. Em dólares americanos, a preços exurbitantes tendo em conta o país, pobre. Os produtos  não são escassos, mas dependem da hora, dia, momento ou época. É também difícil de encontrar alguma coisa à primeira e dar azo a desejos é praticamente impossível. Faz-se a festa com pequenas coisas e o capitalismo torna-se limitado. Já o consumismo é grande e cada vez maior, mas não há muitas empresas e, uma vez mais, a escolha é pouca. As prioridades também as encontrámos invetidas: primeiro vêm as motas e os telemóveis e, só depois, a saúde e a educação. E o (pouco) dinheiro, voa.

Assim, descobrimos que ser-se local é duro, mas ser-se estrangeiro também não é fácil. Uma casa com condições mínimas leva mais de meio ordenado – não local. E um timorense, tendo em conta o que recebe, não é fácil de se perceber que decerto viverá com o mínimo dos mínimos. Comer mais que arroz e os típicos fritos, só em dia de festa. Tudo isto, graças à presença da ONU, que avançou com missões de paz no terreno em 1999 e que teve sempre poder de compra acima da média.

O país também não é grande produtor. Arriscariamos dizer que por lá se vive em preguiça. Dá trabalho fazer diferente ou cultivar. Não têm habitos de agricultura e não aproveitam, conforme poderiam, o potencial das suas terras. A produção de café é significativa, mas tendo em conta o clima e os solos, haveria muito mais para fazer e criar. Morangos só em dia de festa. Bananas, abacates e papaias têm com fartura, mas em escala insignificante face ao que poderia efetivamente ser. Também os preços, uma vez mais, são insuportáveis para o produtos em questão – frutas e legumes locais.

Encontra-se, contudo, uma vasta variedade de produtos portugueses, e muitos até da marca branca do Continente ou Área Viva. Há azeite Galo, bolachas maria, farinha Branca de Neve ou água Luso.

Desta forma, durante a nossa amada estadia, aproveitámos para por em dia todos os nossos dotes culinários. Demos asas à imaginação e muita cor à nossa alimentação vegetariana. Cozinhámos tudo quanto desejámos, criámos pratos lindos e saborosos e, o melhor, fizemos pão e bebidas vegetais caseiras todos os dias.

Mas embora Timor-Leste seja um país lindo, com uma cultura linda e pessoas lindas, que nos enchem o coração com o seu olhar e a forma como dizem “Portugal é nosso!!”, não só a alimentação, a agricultura e os preços são uma lacuna. Há mais, e mais grave.

Há currupção. Ao mais alto nível. E há o sistema educativo. E há currpução no sistema educativo – que está em desenvolvimento, mas com carências e lacunas visíveis. E se é a educação das pessoas que pode mudar o mundo, então Timor-Leste começa a perder-se de pequenino. As escolas não são propriamente eficientes e a qualidade do ensino deixa muito a desejar. As pessoas habituaram-se ao facilitismo e também não encaram as regras com bons olhos. Horários, metas, avaliações… são tudo termos aborrecidos e, até, desconhecidos. Também o ensino privado deixa muito a desejar e a melhorar. As bases acabam por ser as mesmas e o sentido de responsabilidade por parte dos professores e alunos é algo desvanecido. A perspetiva do deixa-andar e os sorrisos sossegados no rosto acabam por resolver até os maiores problemas; e os jovens de hoje em dia não encontram objetivos que os façam lutar por uma educação rigorosa. Gostam de brincar, não importa a idade que tenham. A cultura de rua está muito presente e aplica-se à maioria das famílias, que retratam um povo relaxado e com pouca iniciativa, mesmo que feliz.

Não menos grave é o estado do país, das cidades, das aldeias, das ruas, das estradas. E das casas. O lixo é um problema atual e a sua falta de tratamento também. Fazem queimadas sempre que assim se lembram e em cada canto ou recanto, o mais provavel é que se tropece num monte de plástico, papel e resíduos alimentares. Timor-Leste é claramente um país em vias de desenvolvimento, mas o dinheiro mal gerido leva a que muitos destes problemas se arrastem e alastrem.

Em consequência do problema do lixo, há também cada vez mais doenças e doenças transmitidas por mosquitos. O sistema de saúde deixa também muito a desejar. As tradições timorenses, crenças e espiritualidade, fazem com que muitos se afastem dos cuidados médicos. Os que a estes recorrem, nem sempre são efetivamente tratados ou conseguem vir de lá esclarecidos.

No fundo, foi para nós engraçado ver como é que um pais pequeno funciona como um pais grande, mesmo que com fracas condições: têm ministérios, televisão, embaixadas, doutores (ou aspirantes), rádio, universidades… e pobreza, lixo, fumo, estradas sem asfalto.. tudo isto junto. E com uma beleza inegualável. E tão inegualável!

Aprendemos muito. E muitas coisas.

E uma das mais engraçadas foi a como ir ao banho sem que fossemos atacados por um crocodilo:

Estávamos na Embaixada de Portugal, depois de termos feito um pedido de informação sobre a renovação do passaporte por e-mail. Conseguimos com isso que nos fosse remetido um e-mail automático (sem que soubessemos que o era), com  a marcação de uma reunião para as oito horas da manhã. E lá estávamos nós então, com outras cem pessoas, todos à espera da mesma reunião. O calor era tremendo, como sempre, e o suor escorria-nos pelo corpo – como todos os dias. Enquanto esperávamos, aproximou-se um senhor, que sem hesitar, avançou em português. Começou por perguntar de que zona de Portugal vinhamos. Trava-nos por Mana e Maun (mano). E ria, perdido, por entre as mil histórias de que se foi lembrando sobre a sua antiga patroa, também ela portuguesa. Margarida, dizia.

A conversa foi, e tanto foi que ia já naquilo que não podiamos perder. Falou-nos de Baucau e de tantos outros lugares mágicos – muitos dos quais não chegámos a conhecer. Mas falou-nos também do quanto tinhamos ainda por nadar nos seus mares azuis. Confessámos-lhe então jamais ali fazê-lo, com medo de um ataque de crocodilo. E ele, tão querido, riu-se. De novo!

Ensinou-nos então, de coração aberto e com crença no olhar, que bastaria enrolar em cada tornozelo e pulso uma folha de palmeira. Desta forma, os crocodilos saberiam que somos família. Sim, família. E é aqui que está a graça, a dádiva e a inspiração. A convicção e a fé são inegualáveis. Acreditam que o espírito dos seus avós vive em pequenos crocodilos, e por isso os alimentam e protegem. E bastaria assim as folhas nas extremidades para que nos reconhecessem.

Perguntámos-lhe então, ‘E se não nos reconhecer e acabar por nos comer?’, ao que sem pensar, encolhendo os ombros e muito sério disse… ‘Paxiênxia’!

Da Embaixada não troxemos nada mais senão esta aventura e uma dor de cabeça em burocracias. Documentos, documentação, papelada e trabalho: um vazio e uma lentidão, por Timor.

E por entre tantas outras pequenas aventuras, fomos também a uma festa na escola. À cerimónia do içar da bandeira timorense no Ministério da Educação. À Lusa, à RTTL e à rádio, para diferentes entrevistas. À escola portuguesa e ao cemintério de Santa Cruz.

Jantámos com um casal de portugueses aventureiros, exploradores, criativos e generosos, com uma história de amor com o mundo e por Timor: a Katy e o Ricardo (podem conhecer a história deles aqui); e partilhámos um pôr-do-sol e um sumo natural com um amigo de uma amiga, que agora é nosso amigo também, mentor da nossa ida posterior ao programa de rádio português!

E no cimo dos nossos corações ficou também registado o nosso encontro com uma família muito especial:

Há vários anos, num programa de intercâmbio de três meses para docentes entre Portugal e Timor-Leste, conhecemos a Ricardina. A Ricardina descobriu muito connosco – o que era trânsito organizado, um supermercado limpo, uma cama com lençóis, um autocolismo ou um elevador. Descobriu o que era um país desenvolvido e soube integrar-se nele. Pintou as unhas. Foi ao cabeleireiro. Melhorou o seu português e engordou vários (muitos) quilos. Mas foi muito mais aquilo que ela nos ensinou a nós. A sua preserverança, a sua luta, a sua garra. A sua vergonha, a sua paz, a sua calma. O seu coração gigante, naquele corpo pequenino. Aquela voz de melodia suave e tom neutro. O seu sorriso, o seu olhar. As suas mãos ásperas e tão suaves. Sempre frias! “Ai senhora”, “Mana Joana…”; e tantas outras expressões em nós marcadas.

Passaram-se os anos, os meses, os dias; passou-se o tempo. E as saudades nunca passaram.

Despedimo-nos um dia, perto do aeroporto, no hotel onde a deixámos. A ela, ao António (que também ficou nas Caldas) e a todos os restantes colegas timorenses. Chorámos, na promessa de que um dia a voltariamos a encontrar, em Timor-Leste!

E a promessa cumpriu-se, até mesmo quando já nem ela acreditava. E a sua voz estremeceu, no dia em que lhe telefonámos, pela primeira vez, e lhe dissemos que estávamos ali mesmo, em Dili. Sorriu pelo telefone. Sorriu tanto, e chorou de novo. Era tudo, e era principalmente a saudade em voz.

Encontrámo-nos várias vezes durante a nossa estadia. Em Dili, em Ermera, em Gleno e também no aeroporto – desta, foi ela a deixar-nos partir.

Partilhámos momentos especiais. Visitámos-lhe a casa, a vila, a escola, a aldeia. A provincia, a casa dos pais, a estrada. O tempo. Demos-nos tempo e tempo para estar. Conhecemos-lhe finalmente os filhos. A familía. O lar. E ela, sempre envergonhada, abraçava-nos a cada emoção forte. Queria dar-nos a conhecer tudo aquilo que tinha e sabia, e tapava os olhos de medo. Sabia bem, guardava bem, as condições em que sabia vivermos em Portugal, e que em nada se assemelham àquelas em que vive em Timor.

Aprendemos assim a entender tudo aquilo que não entendiamos em casa. Percebemos tudo aquilo que não conseguiamos perceber outrora. Cada comportamento, cada atitude, cada gesto… é tudo uma questão de cultura. De vida. De história. E a história da Ricardina é agora também nossa.

Na despedida ficou a promessa. Voltamos a encontrar-nos em 2021. Esperamos por ti.

E também na despedida, de Timor, daquela que foi a nossa casa, naquele que é o lar da Débora e do David, vivemos momentos de deleite e bem-estar, paz e amizade. Aproveitámos o sol para subir ao Cristo Rei, avistar a Praia dos Portugueses e saborear a famosa água de côco e os petiscos da Mana Fina, na Praia da Areia Branca.

De toda a estadia, acabámos por não ver crocodilos… mas também não fazíamos questão!

E não experimentámos andar de microlete – o transporte público mais afamado, porque nunca foi preciso. Mas que são únicas só de ver, são! Por fim, já na hora da partida, fomos presenteados com um “tais” (pano em tétum): os lenços ou as faixas de tecido timorenses, muito célebres e tão representativos.

Guardamos tudo em nós. O vivido. O por viver. O visitado. E o que ficará para a próxima.

No nosso coração.

Juntos. Sempre, sempre juntos.

Timor-Leste é especial. 

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até já Arménia, olá Irão?

Pelas ruas, sente-se a união soviética. Continua a morar aqui, por entre edifícios, ruas e jardins abandonados, outrora cuidados e com vida.

Por entre as montanhas onde dormimos, em kojori, a primeira opção para apanhar boleia foi caminhar até à estrada nacional, por um atalho e por 7 quilómetros. As mochilas pesavam, o sono e os sacos nas mãos (cheios de tralha), também.

Pelo caminho, em tão mau estado quanto possam imaginar, com alcatrão desfeito, buracos infindáveis, com lixo e até ossadas de animais, verde sem fim e silêncio absoluto. E uma paisagem incrível no meio do nada.

A primeira boleia foi de um padre: levou-nos por cerca de 1 quilómetro. Depois, continuámos a caminhar: pausadamente. Era cedo e tínhamos tempo. Mas por entre uma das nossas pausas, avistámos um camião. Já nos sentíamos a chegar ao fim e, embora fosse o segundo carro a passar em várias horas, decidimos não lhe pedir boleia. Ao contrário do que esperaríamos, parou, e convidou-nos a subir. Uma vez mais, por entre uma comunicação muito rudimentar, conseguimos entender-nos e ficámos precisamente na estrada que pretendíamos.

Já com rumo certo, esperamos muito pouco até conseguirmos a segunda boleia, direta até à fronteira com a Macedónia. Falava inglês e tinha um filho a estudar na Europa. Sabia bem onde ficava Portugal e a conversa fluiu até ao destino!

Na fronteira, as borboletas comiam-nós a barriga. É sempre aquele miudinho até pormos os pés do lado de lá. É sempre o desejo de sermos bem recebidos, de não termos de abrir as mochilas ou responder a grandes questões. É sempre o desejo simples de ser tudo simples.

E foi! À saída da Geórgia carimbaram-nos o passaporte e sorriram. À entrada da Arménia, revistaram o passaporte de ponta a ponta, folha por folha – procuravam qualquer carimbo do Azerbaijão, onde não estivemos. E posto isso, olharam-nos nos olhos, compararam as fotografias dos passaportes, carimbaram-nos e devolveram-nos.

Demos mais um passo em frente: e olá Arménia!

Chovia. Choviam pingos grossos por entre o calor que se fazia sentir. Ofereceram-nos na Turquia um chapéu de chuva, e abrigámo-nos nele até nós conseguirmos abrigar num telhado improvisado.

Aí, ainda juntinhos à fronteira, fomos abordados por vários taxistas. É difícil explicar em russo – quanto mais em arménio! – que temos dinheiro, mas não queremos apanhar um táxi. Primeiro porque se temos dinheiro, porque não haveríamos de querer? E segundo, para os turistas é tudo barato. Esta é a lógica e portanto, limitamo-nos a dizer “Niet denhek”, ou seja, não temos dinheiro.

Na verdade, por 20 quilómetros são em média 3€. E um bilhete de autocarro urbano, aqui, são 0,20€. É realmente barato, mas não é a nossa opção. Não significa que não optemos em caso de necessidade, mas não era o caso.

Fomos explicando que pretendíamos ir para Vanadzor de “autostop”. Fomo-nos sentindo comentados. Mas fomos também mantendo o sorriso e o olhar atento sobre a chuva. Só precisávamos que ela abrandasse para nos distanciarmos um pouco da zona fronteiriça. Mas não foi necessário.

Aproximou-se de nós um senhor. Olhar humilde. Sorriso humilde. Pose humilde. De simpatia no rosto, perguntou se queríamos ir para Vanadzor e se estávamos à boleia. E convidou-nos a ir também. Com uma carrinha de distribuição de frutas, variadas, instalou-nos e ofereceu-nos duas tangerinas e duas maçãs.

No caminho, ele e o seu colega, em detrimento da estrada mais curta e em pior estado, optaram pela mais longa e mais perigosa. Mais perigosa porque passa a poucos quilómetros do Azerbaijão, e por entre montanhas avistam-se os dois lados. Perante as tensões com a Arménia, estão ambos os lados avisados: quem chegar perto, não importa quem, é alvejado. E portanto, embora sem chegar perto, não é de todo confortável passar por perto. Mas percebemos que há muitos que preferem fazê-lo, tendo em conta as condições dos pavimentos. E mesmo assim, na “melhor” estrada, levámos um pouco mais de 3 horas para fazer 120 quilómetros.

Prometemos não nos voltar a queixar das estradas em Portugal. 🙂

Pelo caminho, avista-se verde. E mais verde. Montanhas e montanhas verdes e lindas. Flores, campos, árvores e verde. E estradas infinitas, num sobe e desce.

Mas por entre tudo isto, muitas ruínas. Pouco antigas: sinais apenas de abandono.

Até que chegámos ao nosso destino. Ajudou-nos a contactar quem nos ia hospedar (uma espécie de couchsurfer, mas vinda de uma nova plataforma – trustrouts, feita para viajantes à boleia) e encontrarmo-nos foi muito fácil.

Em casa, encontrámos também outra hóspede nas mesmas andanças e foi delicioso partilhar experiências e vivências, viagens e aprendizagens.

Juntos, palmilhámos parte da cidade.

Não sabemos se feitos de admiração ou tristeza. Se de desconsolo ou frustração.

A Arménia, depois de ver conquistada a sua independência, deixou para trás a União Soviética. Mas não só.

Encontrámos um país desolado e escuro. Feito de antiguidades.

Encontrámos, abraçados, um passado muito presente.

Encontram-se pela rua, à medida que vamos andando e conhecendo, vestígios do que outrora foi vida. Não há rua sem ruína. Não há rua sem abandono.

É um país fantasma. Ou, como lhe chamam, um país com história. E podia até sê-lo, e é, mas podia também haver o preservar dessa história. O conservar.

Os nossos corações ficaram alerta. Ficaram emocionados e tocados: pelas ruas vêem-se edifícios desprezados, abandonados. Fábricas vazias. Vidros partidos. Pedras soltas. Escombros. Vêem-se estátuas de outrora. Vêem-se ruínas de hotéis, saunas e luxurias do passado. Tudo a cinzento e branco. Destruído e apagado do presente.

Nos parques, bancos tortos, desfeitos dos anos e sem manutenção.

Sentem-se nas pernas as ervas altas, a relva por cortar, os canteiros e jardins por arranjar.

Nos parques, os baloiços que já não baloiçam. As brincadeiras enferrujadas e deixadas ao acaso.

Fechamos os olhos e imaginamos tudo 40 anos atrás. Cheio de cor e gente. Balanço e harmonia.

Mas abrimos os olhos e sabemo-nos no presente.

Também nos parques comboios infantis deixados para trás. Lindos, mesmo que já sem cor ou movimento.

Traços de uma história passada.

Percebemo-nos num país pobre, com uma taxa de desemprego elevadíssima é um ordenado mínimo baixíssimo. Percebemo-nos por entre miséria – é claro, também alguns opostos.

Percebemo-nos por entre uma maioria de carros (muito) antigos e uma juventude satisfeita, que pouco ou nada se questiona.

Um pão caseiro custa 0,28€. Um gelado 0,18€. Um bilhete de autocarro 0,20€.

E assim se (sobre)vive.

E no meio de tanta pobreza, carregam orgulhosamente dentes de ouro.

Quando deixámos Vanadzor para trás, era muito cedo (para nós) e achávamos que tínhamos o dia pela frente para conhecer Yerevan – a capital.

Pusemo-nos à boleia com uma placa; mas depressa percebemos que eram raros aqueles que percebiam o alfabeto latino. Mas, claro, era para nós impossível escrever em arménio hayeren. Mesrop Mashtots.

A primeira espera foi morosa. Pararam vários carros que não iam propriamente na nossa direção. Outros tantos a oferecer serviço de táxi. E muitos outros que passavam, acenavam. Estivemos mais de 1 hora para apanhar a primeira boleia.

Era um jipe, três homens, pouca conversa, mas ajudaram-nos a mudar para um sítio melhor para apanhar boleia. Não muito longe, mas foi uma mudança importante.

A segunda boleia foi de um camião pequenito. Ou uma carrinha muito grande! Um senhor muito doce, daqueles que sabemos que é mesmo boa pessoa – mas que nunca lho vamos poder dizer. Levou-nos por mais uns 10 quilómetros.

E a terceira boleia, por mais outros tantos quilómetros, foi de dois senhores. Aliás, Senhores. Com postura e muito educados. Um deles, até inglês falava. Descobrimos pelo caminho que se tratavam de militares e estavam tão encantados com a nossa viagem, que quando nos deixaram pediram para tirar uma selfie todos juntos!

Lá, voltámos a esperar um pouco. Mas não muito! Um dos carros que por nós passou, voltou atrás, e de sorriso no rosto, ofereceu-se para nos levar! À frente, levava a sua esposa, vinda do Turquemenistão. Amorosos. Grande parte da viagem deu para um o-o e dois dedos de conversa. Sorriam-lhes os olhos e o coração também.

E quase 5 horas depois, com 5 boleias e 120 quilómetros feitos, chegámos à cidade. Sim, ainda apanhamos mais uma boleia, só até ao centro. Trabalhava na embaixada de França e por isso foi em francês que nos fizemos entender. Desta, fácil! Muito fácil. Mais, trazia no carro o seu filho, cujo inglês fluía.

Pelo caminho, tudo na paisagem se repetiu. Mas a verdade é que a capital se encontra mais cuidada. Esconde bem o que os subúrbios contam.

Mas em cada esquina, alguém a pedir.

Ainda assim, a capital surpreendeu-nos. Pela beleza dos edifícios que conserva, pela beleza da natureza. Pelos museus que tivemos oportunidade de visitar. Pelos locais históricos.

Um país diferente, que nos fez questionar muita coisa. Mas onde encontrámos novamente muita gente boa. Gente que defende a causa, que defende a pátria. Gente que tem entranhada a arte de bem receber, de cuidar. Gente que nos hospedou com amor. Com gentileza. Com tudo o que tinham. Gente boa. Nós continuamos a acreditar que vale a pena acreditar. Em gente boa. Estão por toda a parte, e temos tido a sorte de nos cruzar a cada dia.

Há famílias iluminadas.

E nós dois, também família, sabemo-nos e sentimo-nos abençoados.

Amanhã bem cedo, as borboletas voltam ao estômago, à barriga e à cabeça: olá Irão.

 

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