Mamma mia!

Mamma mia! 

Faz já alguns dias que escrever tem ficado para segundo plano. Não que nos tenhamos esquecido, não que não tenhamos vontade de escrever. Mas porque os dias têm tido poucas horas para tudo o que temos vivido.

Dia 25, ainda no turno da manhã (e pela primeira vez!), saímos de Cannes, com o objetivo de chegar ao Mónaco. Este país, embora pequenino, é um verdadeiro mundo deslumbrante. E por isso decidimos ir até lá durante o dia e regrassar à noite para Nice, onde pela primeira vez nesta viagem utilizámos o couchsurfing.

Pouco passava das 9:00h e já o sol estava muito quente. Sentíamos os ombros quentes e desejosos de largar as mochilas, mas a primeira boleia do dia não tardou assim tanto. Era um senhor sorridente que, depois de ter estado a viver no Brasil, nos cumprimentou com um “Olá!”. A boleia foi curta, mas a conversa animada! Deixou-nos depois numa nova entrada para a autoestrada que seguia com direção ao nosso destino.

Lá,  conseguimos a segunda boleia e direta para o Mónaco. Um Mercedes, dos grandes. Confortável e alto, de onde se avistava o mar e toda a paisagem a que tínhamos direito. As partilhas foram tantas, que tivemos até pena de deixar o carro. Os assuntos comuns, os gotos, as histórias; foi gracioso.

O Mónaco, palmilhamo-lo de cima a baixo. Com mais ou menos cansaço, entre a beira-mar, o casino, o porto ou os jardins; conseguimos por 1 hora ter onde deixar as mochilas, o que nos aliviou e deixou mais à vontade. A verdade é que com toda a instabilidade deste mundo, não é fácil que aceitem guardar as nossas tralhas. Mas, no fundo, tivemos sorte.

Já ao final do dia, de depois de algumas aventuras juntos, tratámos de regrassar para Nice, onde queríamos pernoitar e onde nos esperava uma couchsurfer. Mas foi quando nos tentámos pôr ali à boleia, que percebemos que no Mónaco era proibido fazê-lo. Já nos tinham tentado avisar, mas nenhum de nós havia percebido!! Afinal, tinham-nos dito que deveríamos ir para depois da fronteira, mas até lá apenas tínhamos compreendido que um bom sítio para pedir boleia seria uma rua “…..border“. Que dois.

Caminhámos então, montanha acima, até que vimos uns caixotes do lixo com indicação francesa, podendo nós decerto a partir daí pedir boleia.

Bandeira de Portugal às costas, e enquanto esperavamos, percebemos que a sinalizar o trânsito estava um português! Saudou-nos, desejou-nos boa sorte. E pois que a tivemos! Não queremos mentir, mas foi muito rápido! Duas senhoras, meia idade. E iam mesmo para Nice e para a mesma zona da cidade!

À chegada, e assim que deixámos o carro, deparámo-nos com leões enjaulados. Cães. Animais. Era um  circo. Que triste. Ficámos triste com este primeiro impacto, que claro, poderia ter sido em qualquer outro lado, ou infelizmente, até mesmo em Portugal. Que infelicidade. Que mágoa. Como podem ainda algumas pessoas acreditar que os animais ali são bem tratados? Que são felizes no circo?

E seguimos. Seguimos com aquela imagem latente no pensamento. E na alma.

Demos uma pequena volta por Nice, já com as estrelas no céu e com o peso das mochilas insuportável. E terminámos numa casa acolhedora, com um manjar dos deuses português – alho francês à Brás e cogumelos grelhados, e uma companhia muito agradável!

Na manhã seguinte, o sol raiava pela janela do quarto. Pouco passava das 6 horas da manhã e já a luminosidade era forte, tão forte que nos despertava dos sonhos e nos fazia confirmar constantemente o relógio.

Pouco passava das 10 horas, e estávamos novamente à boleia. Caminhámos pouco para sair de Nice. Pouco porque em França encontrámos com muita facilidade ruas onde é proibido caminhar. Proibido para segurança das pessoas, mas não deixa de ser proibido. O que nos leva a ter de ir dar uma grande volta, ou a ter de esperar pacientemente no início da estrada, ou rua.

Neste caso, o lugar não era o melhor, mas não tínhamos para onde ir. Era naquela direção que estava a estrada que queríamos apanhar para seguir caminho, e por isso limitámo-nos a esticar o dedo.

E no imediato, parou um carro! Nem estávamos bem atentos ou prontos, ou à espera que acontecesse. E no carro, estava apenas uma senhora, com um hijab – espécie de véu que as muçulmanas usam, que lhes cobre o cabelo, orelhas e pescoço. Envergonhada, mas amável. As palavras não lhe fluíam, mas o olhar era ternurento. Ter parado, demonstrava a sua generosidade. Porque no fundo, não nos levou para longe; mas deixou-nos mesmo à entrada da autoestrada que seguia para Itália. E era mesmo em Itália que tínhamos a próxima casa. A próxima família. O próximo destino.

Da entrada da autoestrada, conseguimos outra boleia. Desta, era um jovem numa carrinha, que havia reconhecido a nossa bandeira por já ter estado no festival BOOM – e bom, nunca pensámos que este festival fosse tão internacional. Deixou-nos depois, numa estação de serviço,  já a poucos quilómetros da fronteira.

E lá pernacemos ainda uma hora, ou um pouco mais. Muitos dos que por ali passavam iam apenas a um mercado perto da fronteira e fora da nossa rota. Muitos eram já Italianos e não tanto acolhedores. Muitos iam com o carro cheio.

E decidimos deslocar-nos para o fim da estação, para petiscar alguma coisa e ao mesmo tempo esticar o dedo. Ali, não tínhamos placa. Não adiantava, porque se escevessemos uma cidade, a maior parte não conhecia. Se escrevessemos Itália, era desperdiçar cartao: por ali, não tinham hipótese, todos iam passar a fronteira.

Estavamos por isso, é literalmente, com o mundo na mão. Dependia do nosso dedinho, esticado, seguir mundo fora.

E dependia também do nosso estado de espírito. Da nossa vontade. Dos nossos desejos.

Sorrisos esperançados, ainda o dia ia a meio.

Pararam depois vários camiões. E estranhámos. Sabiam que éramos dois, e mesmo assim paravam – o que ocidentalmente não é comum. Mas como eram romenos, achámos possivel. Os dois primeiros, embora a comunicação fosse rudimentar, acabaram por dizer que não iam na nossa direção dentro de Itália , mas o último foi o que se fez entender melhor. Infelizmente, gesticulou que esperava favores sexuais ao levar-nos. Ou mesmo que não fosse a troco da boleia, achou que os incluiría.

E aí, sentimo-nos pequeninos, pequeninos. Agonizados. E consciencializados do motivo pelo qual todos estavam a parar…

Acabámos por nos deslocar para a a zona de abastecimento e abordámos as pessoas. Pode levar mais tempo, ou menos, nunca sabemos. Mas a crença é simples: cabe a nós escolher a quem perguntamos e alguém nos há-de levar. E assim foi! Conseguimos boleia para Savona, que ficava depois a pouco mais de 100km de Bra – uma pequena cidade antes de Torino, onde uma amiga nos esperava. Levaram-nos dois jovens da casa dos 40, e um deles estava a concluir a sua volta ao mundo: imaginam pois a quantas partilhas deu aso. Maravilhoso!

Já em Savona, acabámos por por ficar numa outra estação de serviço,  mesmo antes da nova autoestrada onde pretendíamos seguir. Aí, como sabíamos perfeitamente qual a direção, optámospor escever na placa “A6 TO” – autoestrada 6 com direção a Torino e colocar-nos no fim da estação; pois na bomba havia também restaurante, e quando abordavamos uma pessoas, perdíamos outras.

No fim da estação estivemos talvez 2 horas, até aparecer um viajante Eslovaco – como nós, que além de humilde, queria ajudar-nos. Entre Italiano, Francês e Espanhol, com um verdadeiro mix de línguas, conseguiu explicar-nos que havia um sitio um pouco melhor para estarmos; e acabou por levar-nos até lá!

Lá, eram as portagens. As portagens que davam  acesso à autoestrada e onde era permitido estarmos. Lá, os carros tinham espaço para parar. Lá, estávamos abrigados. Lá, tinha luzes (caso escurecesse). Era realmente melhor! Mas foi lá que permanecemos mais 4 horas.

Mamma mia!

Valia-nos que agora, com tamanha modernice, em todo lado encontrámos wifi. E ali, não era exceção. Conseguíamos por isso estar conectados, e a receber força. O que não deixou de ser engraçado, porque há uns anos era impensável. Recebemos até uma video-chamada de Portugal, onde alguns amigos se reuniram para nos deixar um abraço. Que amores!

Mas mesmo com essa força extra, começavamos a deixar-nos esmorecer. Eram centenas e centenas os carros que já tinham passado por nós. Eram mais de 6 horas no mesmo sítio. Eram estrelas no céu.

Mas parou, parou uma senhora iluminada. Podemos chamar-lhe até mãe galinha, porque estava mesmo preocupada connosco. Avisou-nos vezes sem conta que iria seguir apenas 20 quilómetros na nossa direção. E embora tenhamos aceitado, não estávamos de acordo. Havia de um lado o desejo de deixar para trás aquele lugar; do outro receio de ir para um sítio pior, sem trânsito e sem abrigo. Mas fomos.

Fomos e pelo caminho pediu-nos que apanhássemos um comboio para o nosso destino. É difícil explicar a uma senhora, a uma mãe ou alguém que nunca saiu da sua zona de conforto que a nossa viagem não é feita de autocarros,nem de comboios, nem de táxis. É dificil, e por vezes duro. Para todos.

Porque se alguém acha que é fácil estar à boleia, várias horas, com mochilas de 15 quilos às costas, com neve à volta, e de noite; desengane-se. Não é fácil. Não é (tudo) bonito.

Talvez a culpa seja também nossa, porque quando contamos as histórias, já está tudo tão bem, que o que foi mau fica para trás. Mas não é por isso que deixou de acontecer. Porque aconteceu.

É que no fim, acaba sempre tudo bem! Mas e até lá?

Pois é, quando a senhora nos deixou, numas novas portagens, o frio era implacável. Parecia que nos penetrava! Os narizes pingavam. Em poucos minutos tínhamos as capas das mochilas molhadas. A neve à nossa volta fazia-nos questionar em que país estávamos. Como é que 20 minutos de estrada faz o clima tão diferente?

Esperámos.  E continuámos a espera.

Mamma mia!

Quase gelados, já com meias extra por cima de meias, não percebiamos como é que com carros a passar apenas de 5 e 5 minutos, nenhum queria saber de nós. Até que parou um carro. Abençoado!

Abençoados jovens! Da nossa idade, genuinamente simpáticos. Iam mesmo na nossa direção por mais 60 quilómetros, para esquiar. E foi uma sensação indescritível entrar naquele carro, quentinho e repleto de boas energias.

Quando nos deixaram, despedimo-nos com beijinhos e abraços. Sentimo-los felizes por nos terem ajudado. E nós, uma vez mais, tão, mas tão gratos.

Mas no mesmo instante em que tiravamos as mochilas, parou um carro atrás. Percebeu que éramos viajantes e tentou oferecer-nos boleia a troco de combustível. Uma vez mais, recusámos. Mas por entre a conversa, acabámos por perceber que falávamos todos português e que o senhor era de Angola. Com tamanho patriotismo, quis então ajudar-nos e acabou por nos levar até Mareme, a 8 quilómetros do nosso destino; passava já  das 23:30h.

Foi uma boleia animada. Ia buscar um amigo a Torino, mas queria também muito ajudar-nos. Tanto, que em 5 minutos já queria arranjar-nos uma carta de chamada para visitarmos Luanda! O único senão, dos grandes, foi que nos deixou em plena autoestrada, junto à saída da cidade para onde íamos. E nós, carregados de tralha, e carregados de alegria por estarmos a chegar, caminhámos. Limitámo-nos a caminhar vigorosamente, depois de termos avisado a nossa amiga que estávamos a chegar. Combinámos pois um ponto de encontro numa rotunda que daria acesso à autoestrada, e caminhámos até lá.

Caminhávamos de formá acelerada, que agora que verbalizamos,não sabemos ao certo tudo o que nós movia. Se o desejo de chegar. Se o medo de sermos apanhados pela policía a andar ali. Se o cansaço. Se a alegria. Certo é que fizemos 3 ou mais quilómetros sem questionar um único passo.

Mas já mesmo com a rotunda ao fundo, avistámos luzes azuis. Mamma mia!

E aí corremos. Corremos como se não houvesse amanhã. Não sabemos onde estavam essas forças guardadas, mas o instinto e a sobrevivência são realmente uma força da natureza.

E quando os encontrámos, já os senhores agentes estavam a tentar autuar a nossa amiga por estar estacionada na rotunda. Só que quando ela lhes explicou que esperava por nós, acreditamos que ficaram sem saber o que dizer. Porque ela havia dito a verdade: esperava ali dois amigos vindos de Portugal, à boleia, e que estariam a chegar a pé. De tão milaborante, quando nos viram chegar perto, mesmo com um ar pouco amistoso, limitaram-se a dizer que era proibido caminhar na autoestrada e estar estacionado ali. E seguiram.

E seguimos nós também, felizes! Inacreditavelmente felizes.

Incrédulos com a dificuldade que é andar a boleia em Itália: porque para pouco mais 180 quilómetros, levámos horas infinitas. Um dia, do nascer ao pôr do sol e ao erguer da lua. 180 quilómetros em Portugal fazem-se num punhado de horas. E Portugal não é de todo o paraíso das caronas.

Por Bra ficámos uma noite e um dia. Deliciámo-nos com uma típica família italiana e com uma típica pasta ao almoço. E ao fim do dia de ontem, viemos até Torino. Uma cidade magestosa! Mas que hoje não conseguimos ainda conhecer. É que hoje tínhamos horas de sono, e muitas partilhas, em atraso. Aqui, estamos com um amigo de uma amiga, também couchsurfer e com um mundo de partilhas.

Em breve, seguimos na direção de Milão, de Verona, de Veneza e de Trieste. Com rumo a Liubliana, na Eslovénia – com a certeza de que, dia após dia, somos mais unidos e mais fortes.

Nos entretantos, desejamos uma Páscoa Feliz e vegana a todos os que nos seguem. ❤

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Marseill et Cannes

Ruas sujas. Muito sujas.

Na passada manhã de dia 21, despedimo-nos de Aix en Provence. Mochilas fechadas, corações palpitantes, e fizemo-nos à estrada. Caminhámos por pouco mais de 2 quilómetros e encontrámos a entrada da autoestrada que seguia para Marseille – o nosso próximo destino.

Na noite anterior fizeram-se apostas: quanto tempo levaríamos a apanhar boleia?

Nenhum dos recordes se bateu. Esperámos mais que o previsto, mas apanhou-nos um Senhor. Trazia em si com certeza mais de 60 primaveras e algures na sua história de vida uma viagem à boleia, até à Turquia. Sabia de cor o que nós dois estávamos ali a viver e quis por isso ajudar-nos! A boleia foi curta, mas amorosa.

Deixou-nos numa nova entrada, mais à frente e onde esperámos por entre os raios de sol que escapavam pela sombra das árvores. Recordamo-nos que cantámos: e quando nos dá para cantar, é à portuguesa e com animação. E por entre tons agudos e desafinados, parou um carro.

Pensámos que seria português, porque tínhamos a bandeira pendurada numa das mochilas e o jovem parecia entusiasmado. Mas não. Não era português. Não estava entusiasmado. Ou estava, mas queria afinal dar-nos boleia a troco de gasóleo.

Recusámos.

Não é esta a nossa aventura, não é a troco de nada que queremos que nos dêem boleia. Ou é, mas bens não mensuráveis: histórias, partilhas, cultura. Sorrisos. Da mesma forma que não é nosso objetivo que haja desvios para que nos deixem no nosso destino. O objetivo é sim que possamos aproveitar quem vai na nossa direção, para que possamos ir juntos e trocar pelo caminho o que de melhor há: entrega.

Esperámos então. Mas não esperámos assim tanto até que tenha parado um novo carro.

Foi tudo muito rápido, mas sentimos confiança. O tom de pele, o aspeto e a forma de falar, não nos intimidou. Não nos deixou desconfortável. E seguimos juntos, até Marseille.

Pouco mais de cinco minutos e já dentro do carro aprendíamos, ou relembrávamos: marhabaan! Al-hamdu lillãh. Era Argelino! Espelhava simpatia no rosto, na forma como dirigia cada frase. A emoção com que falava do seu árabe, demonstrava o orgulho que tinha nas suas origens!

Despedimo-nos com um carinhoso masalah ham, shukraan e ficámos já perto do centro de Marseille.

Um mundo por descobrir, Marseille. Com ruas sujas. Muito sujas! Gente de todo a parte. Mais, não nos cruzámos com 5 pessoas iguais: tons de pele, vestes, modos de estar, cortes de cabelo, línguas, olhares, pinturas. Culturas. Que multicultureidade. Por lá, só nos conseguíamos lembrar nos nossos passeios por entre o Rossio e o Intendente. Martim Moniz. O verdadeiro mix. Uma loucura. Pessoas por todo o lado. E um desprendimento único.

Haviam-nos já avisado de que se tratava de uma verdadeira cidade cosmopolita. E perigosa. Mas encontrámo-la maravilhosa. Subimos a Notre-Dame de la Garde. Cansados, com o peso das mochilas vincado nos ombros, vimos o sol descer o horizonte. O anoitecer, lá do alto.

E fomos felizes, ali.

Conhecemos por lá também um viajante, que a nós se juntou na descida. Marcou-nos e por isso o partilhamos: humilde e genuíno, estado unidense e com apenas 19 anos. Queria aprender português, aprender a viajar à boleia, aprender a poupar, aprender a estar, aprender a ser, aprender… Queria aprender! Queria absorver! E partilhar. E percebemos que nos identificávamos e que adorariamos ajudá-lo em tudo aquilo que estivesse ao nosso alcance. Esperamos por isso que, on the road, os nossos caminhos mais tarde se cruzem. Até lá, trazemo-lo no pensamento.

Ainda em Marseille,  fomos hospedados por um casal, amigos de uns amigos. Que doce é a Europa neste capítulo! E do seu apartamento, não só tínhamos uma vista deslumbrante, como estávamos perto do novo ponto de partida.

Já passava por isso do meio dia quando nos fizemos à estrada. O peso da casa que traziamos às costas já se fazia sentir como carga. Dura. Mas a distância era curta.

Já à entrada da autoestrada, percebemos que o lugar para estar à boleia não era o melhor. O trânsito fluía com velocidade, os carros não tinham espaço conveniente para parar, não tínhamos onde colocar as mochilas e estávamos sem hipótese de encontrar um abrigo.

Posto isto, estavam reunidos vários fatores de sacrifício: mas viajar a dedo é mesmo assim.

Estivemos concentrados e empenhados talvez mais de uma hora. Mas nenhum carro parou. Avistámos vários portugueses,  mas nenhum nos levou.

Foi então que no espaço de uma hora, trocámos umas 3 vezes de lugar. Fomos para uma nova entrada de autoestrada, caminhámos de novo para o primeiro lugar, mudámo-nos de seguida para outro, subimos mais um pouco, e voltámos ao segundo. Aturdido!

A exaustão começava a ocupar o nosso pensamento.

E no meio do desespero, com o passar do primeiro carro, esticámos a placa com enfase, esticámos o dedo com enfase: e o carro parou! Parou! Era uma Senhora e ia praticamente para o nosso destino. Inacreditável! Seguimos entre conversas, partilhas e soninho.

Pouco mais de 1 hora depois, estávamos a 50 quilómetros de Cannes. A 50 quilómetros de uma casinha. A 50 quilómetros de uma família! Sim, uma família de uma amiga que nos hospedou com amor, que nos recebeu com um sorriso do tamanho do mundo e com uma lasanha vegana deliciosa! Estávamos por isso a 50 quilómetros de um lar.

Bandeira portuguesa pendurada, placa de Cannes esticada. E o céu jazia azul.

Vários carros portugueses apitaram. Uma carrinha com portugueses parou, e embora não tivesse espaço para nos levar, afortunou-nos a alma! Sabíamos que os deuses das boleias estavam connosco.

E não tardou tanto assim. Trouxeram-nos até mesmo ao centro de Cannes, duas jovens. Conheciam Portugal pelo festival BOOM. Pouco faladoras, mas generosas – a bondade habitava-lhes o coração!

Aliás, com 1950 quilómetros, 33 boleias e 3 semanas de caminho, sentimos que temos sido afagados de corações magestosos. E a gratidão é o que em nós transborda.

Já Cannes não tem ruas sujas. Parece o Algarve no seu plano turístico. Caro. Chique. E um passeio à beira-mar. Romântico.

Amanhã cedo partimos para visitar o Mónaco e pretendemos pernoitar em Nice. Depois, depois espera-nos Itália, e espera-nos o mundo inteiro!

Au revoir, France!

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5 boleias para 150 quilómetros.

Uma verdadeira loucura, que deu até espaço para nos perdermos: que nem verdadeiros viajantes.

Começámos por sair do centro da cidade com um pequeno passeio. Para nos afastarmos tínhamos mesmo de palmilhar ruas desconhecidas e tivemos assim oportunidade de descobrir ainda dois ou três recantos, afinal imperdíveis – mas nunca nos sentimos desanimados por não conhecer tudo; achamos que se trata até de uma boa oportunidade para voltar um dia mais tarde!

Mas ainda meio no centro histórico, meio afastados, percebemos que uma rua nos poderia levar à autoestrada. Nela havia também espaço para qualquer carro parar. Tirámos então as mochilas, escrevemos num cartão pequeno a abreviatura de Aix en ProvenceAIX-EN P., e esperámos. Esperámos mais do que contávamos e, por isso, comentámos entre nós que assim que terminassem de passar os próximos carros, iríamos mudar-nos.

Achámos sempre (embora não tenhamos sequer falado sobre isso!) que por estarmos a apenas 150 quilómetros do nosso próximo destino , não levaríamos assim tanto a lá chegar.

Estávamos descontraídos, calmos. Tanto de entusiasmados, como de serenos.

E foi quando já estávamos prestes a colocar as mochilas, e nas últimas apostas, que parou um carro! Uma família. Três sorrisos. Uma criança. Gentileza em pessoas. Não iam para longe, mas queriam ajudar-nos. Levaram-nos por isso até à estação de serviço mais próxima.

Na estação, optámos por abordar as pessoas. Acreditamos que pode sempre ajudar a quebrar barreiras, tal como partilhámos já anteriormente. Mas aqui, tínhamos duas condicionantes: se a primeira nos confundia, já que permitia aos condutores pagar com cartão no local onde abasteciam; a segunda esclarecia-nos, sendo que todos os carros aqui em França têm um número na matrícula, que indica a cidade de onde são. Mentalizados, limitamo-nos a estar atentos.

Mas estarmos atentos não chega. Há a linguagem. Há a vergonha. Há a atenção. Há o instinto. Há o aspeto. Há a motivação.

A atenção é só uma, no meio de tantas.

Mas juntos fica mais fácil. Se um fala de tudo, o outro sorri. A parceria do amor.

E foi quando vimos mais um carro com o tão desejado número 13 na placa. Ia realmente na nossa direção, ainda que apenas por 50 quilómetros, mas aceitou levar-nos sem qualquer constrangimento. Por nós, que decidimos aborda-lo, também não havia nenhum constrangimento – propriamente dito. Mas o tom de pele e a forma como falava, podia até dar aso (e deu) a algum preconceito. Mas um preconceito infundado.

Percebemos que se tratava de um senhor Argelino, muito simpático e podemos dizer que a viagem decorreu com muita conversa e partilha (tanto quanto a língua o permitiu e o embalar do carro também!). E já nos últimos quilómetros acrescentou outros tantos ao seu destino, só para nós deixar já no fim da sua cidade, Nime, de forma a que mais facilmente apanhássemos de novo boleia.

Deixou-nos por isso numa rotunda, à entrada da autoestrada. Lá, por sabermos que nas redondezas havia muitos portugueses, decidimos tirar a nossa bandeira para fora e pendura-la numa das mochilas. Foram ainda alguns os carros que apitaram e acenaram, ouvimos ainda um “Viva Portugal!!”, mas nenhum parou para nos levar. Não conseguimos já ter a certeza de quanto tempo esperámos, mas esperámos o suficiente para aceitar a boleia do carro seguinte, mesmo sem ter a certeza de que seria o melhor para nós em termos de localização, tendo em conta o seu destino. Mas às vezes, é preciso mudar de lugar. É preciso mudar de posição. É preciso procurar novas energias, novos ares.

E fomos!

Era um BMW, espaçoso e vistoso. Confortável. Trazia pendurado no espelho retrovisor o mesmo terço que havíamos visto no carro anterior. Um masbaha. E em poucos minutos percebemos que era também da Argélia.

A boleia que nos deu foi realmente curta. Dirigiu-nos um pouco mais para norte, mas mais do que imaginámos – pudemos nós perceber quando olhámos para o mapa. E quando esticámos o dedo e erguemos a nossa pequena placa, parou em poucos segundos uma jovem dizendo que por ali dificilmente alguém iria no nosso destino. No fundo, deixou-nos numa cidade pequena, com três entradas. E daquela, só apanhando uma autoestrada secundária é que conseguiríamos chegar à que nos levaria ao nosso destino, no sentido de Marseille. Estávamos completamente perdidos.

Ou encontrados, mas desorientados. E a noite ameaçava.

Continuávamos a 100 quilómetros de casa. Ansiosos. Apreensivos.

Restava-nos caminhar. E caminhámos . Vigorosamente.

Mas enquanto caminhávamos, mostrávamos a placa. E ainda bem! Porque na confusão do caminhar, na confusão do inesperado, na confusão do barulho das nossas mentes; parou um carro. Iluminado!

Duas cadeirinhas de bebé. Uma senhora. Cabelo liso e muito penteado. Magra e alta. Sorridente. Bonita.

Foi tudo muito rápido e talvez tenha sido o palpitar dos nossos corações que apressou o momento. Quando percebemos que ia mesmo, mesmo, mesmo e mesmo na nossa direção: que desafogo!

E deixámo-nos levar no conforto daquela sensação.

Mesmo quando os deuses das boleias nos abanam, não nos largam. E só nos resta ter espírito de sacrifício até ao último minuto, para que tudo corra bem. Porque correr bem não é uma questão de sorte. Correr mal é que é uma questão de azar.

É preciso fazer acontecer, depois de sonhar.

E a viagem foi sobre nuvens. Faladora e animada, dividimos tudo quanto pudemos. Tinha dois filhos, pequeninos. Era a segunda ou a terceira vez que dava boleia. O marido era chef num bom restaurante. Ela era mãe a tempo inteiro. E em pouco menos de uma hora partilhámos uma vida.

E é este o melhor exemplo do que é estar ligado. Poder fazer de cada palavra um aproximar. De cada olhar e cada entreajuda, uma relação. Porque mesmo quando não conseguimos falar, conseguimos comunicar. Gestos, abraços, olhares e sentimentos. Somos feitos disto tudo.

E despedimo-nos com três beijinhos.

Estávamos então a pouco mais de 20 minutos de casa. Da casa de um amigo que pudemos conhecer no Brasil e com quem partilhámos mais que um teto. E aí, mesmo com o brilhar das estrelas no céu, estávamos felizes.

Com fervura. Energia. Paixão. Entusiasmo.

Nem largámos as mochilas! E ainda bem. Foram dois minutos, ou pouco mais. E estávamos nós a entrar no quinto carro do dia. Desta, uma carrinha, um jovem de olhar simpático e recheado de boa vontade. Deixou-nos praticamente à porta de casa e, mais ainda, deixou-nos telefonar a avisar que havíamos chegado.

Chegado e bem! A tempo e horas.

Preparados para cozinhar um petisco vegetariano maravilhoso, numa casa grande e maravilhosa, recheada de pessoas maravilhosas, em Aix en Provence. Uma indiana, uma romena, três franceses, uma americana, dois portugueses. Um ambiente multicultural muito acolhedor! E cozinhámos juntos. E jantámos juntos! E hoje repetimos.

Porque à portuguesa, é ao redor de uma mesa que se fazem amizades.

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Salut Montpellier FR

Salut France!

Um olá grandioso.

Estávamos com tanta vontade de a tocar, que tardava. Não que em Barcelona estivéssemos mal, mas sentimo-nos tão melhor em andamento, a palmilhar o mundo, que os nossos pés descalços já chamavam pelas sapatilhas.

A contracurva que nos trocou as voltas deu tréguas – não totais, mas as necessárias para que a mochila coubesse nas costas. E partimos. Partimos e saímos ontem de Espanha.

Acordámos pelas 9h. Atentos a cada dor a mais, despertos e esperançosos. Abrimos os estore, mas chovia. Chovia. E a água que corria pela rua levou-nos de novo para a cama. É que a chuva não nos impede de nada, mas interpela. Poucas coisas são mais desconfortáveis que estar a pedir boleia com a chuva a bater na cara: com as mochilas molhadas, a roupa ensopada, o frio entranhado. E deixámo-nos dormir. Num sono leve. Mas deixámo-nos dormir.

Já o turno da manhã tinha ficado sem efeito, percebemos que as ruas haviam começado a secar. Apressámo-nos. E saímos.

Foi daqueles dias que qualquer mãe diria que ia dar errado (perdoem-nos!).

Pouco faltava para anoitecer quando apanhámos a primeira boleia do dia, por pouco mais de um quilómetro. Estávamos ainda perto do centro de Barcelona, mas igualmente perto da sua saída. Descarregámos as mochilas, escrevemos no cartão que tínhamos conseguido há minutos “Girona” e deixámo-nos estar. Os carros iam passando, a chuva ameaçando e foi quando parou um carro, com uma senhora e duas crianças: que raro! Partilhou connosco que parou para nos ajudar, mas não tinha visto o nosso cartão e, que embora não fosse de todo na nossa direção, nós deixaria um pouco mais a frente, numa boa estação de serviço. E assim foi. Uma pequena boleia. Uma grande ajuda.

Mas os nosso corações tinham tanto de entusiasmo, como de receio.

Costas sensíveis. Frio. Chuva. Anoitecer.

Mas aqui entra o equilíbrio: quando um está descrente, o outro encara a crença em pessoa.

Já na estação, começámos por colocar as mochilas à porta e logo fomos advertidos para que não o fizéssemos. Fomos então deixar as mochilhas abrigadas e mais longe, e começámos a abordar as pessoas quando se deslocavam para realizar o pagamento do abastecimento. Aí, fomos novamente advertidos: poderíamos estar no fim da estação de dedo esticado, mas pedir, não.

Compreendemos. Não queríamos de todo causar constrangimentos. A verdade é que falando mais facilmente se consegue uma boleia. Contudo, a verdade também é que poucas são as pessoas que se sentem confortáveis ao ser abordadas. E afastámo-nos.

Aproveitámos e escrevemos do outro lado do cartão “Montpellier”, o nosso destino final – não fosse por ali aparecer um carro francês.

Não havia sol, mas havia luz. Essa, começava a descer no céu. Como se o fossem pintando à mão, sem que dessemos por ela. O tom de cinzento era cada vez mais carregado. O nosso coração também. Carregado de esperança.

E voltámos a avistar o senhor da estação de serviço – com uma farda muito familiar, em tudo idêntica à da GALP 🙂 – e caminhava na nossa direção. Estremecemos. O que seria agora?

Pois bem, tudo o que damos, a nós volta. Respeito. Compreensão. Veio dizer-nos que ali estávamos à vontade, poderíamos ficar uma hora, um dia, uma semana, ou até na semana santa; mas que mais à frente, havia uma zona melhor para pedir boleia. Mais à frente, as faixas da estrada tomavam direções diferentes. A nossa, seria a faixa da esquerda. Lá, mais a frente, havia um semáforo, com uma possível zona de paragem. Lá, poderíamos mostrar a placa. Por lá, só passariam carros com o nosso destino. Agradecemos. Mas hesitámos.

Hesitámos porque ameaçava chover. Mas hesitámos pouco mais que 30 minutos.

Mochilas às costas. Caminho no olhar. Mãos dadas.

O melhor, estávamos juntos!

E juntos conseguimos a nova boleia. Girávamos o cartão entre “Girona” e “Montpellier”, conforme as matrículas. O destino era um só, mas se nos levassem um pouco mais a frente, a ajuda já era grande. Mas claro, brilhava qualquer carro francês!

O sinal ficou vermelho. Os carros abrandaram. E o primeiro, mesmo à nossa frente, brilhava nos nossos olhos. E brilhou mais ainda quando nos gesticulou que nos levava! Era um jovem, 22 anos, e ia fazer mais de 600 quilómetros. 200 deles, comuns connosco. E assim se consagrou a segunda boleia deste dia. Quase noite!

A chuva reinstalou-se. Choveu o caminho todo. E um de nós dormiu também o caminho todo (as meninas têm destas coisas!) – e uma nova barreira linguística havia começado.

Já a pouco mais de 100 quilómetros de Montpellier, ficámos novamente numa nova estação de serviço. Esta, parecia caída do céu. Vamos ver se conseguimos explicar-nos: mesmo antes da verdadeira bomba, havia uma espécie de hall de entrada, antes mesmo da zona de restauração, das casas de banho ou da própria zona de supermercado e pagamento. Uma espécie de hall de entrada, com ar condicionado e internet. Não podíamos desejar nada mais. Tínhamos abrigo e comunicações. De lá, com calma e fé, mais cedo ou tarde, alguém nos levaria.

Mas, para começar, abordámos um senhor, entre outros, que nos disse que sim, que ia na nossa direção. Contudo, quando lhe perguntámos se nos levaria, olhou-nos de alto a baixo e disse que ia decidir. Na volta e sem rodeios, disse: Vocês deixam-me fazer uma chamada do vosso telefone para Itália, e eu levo-vos para Montpellier. Ficámos tão desconfortáveis. Sentimo-nos tão abusados. Recusámos, automaticamente e em sintonia. E ainda assim o senhor insistiu, descartando a chamada e querendo levar-nos. Mas não fomos.

Ao instinto, chamamos-lhe estrela-guia. E se brilha para nós, não vamos ignorá-la.

E esperámos por, pelo menos, mais 2 horas.
2 horas pequeninas, estávamos confiantes. E quentinhos, do corpo e da alma. Guardávamos em nós sorrisos. Sorrisos que também nos aqueciam. E trocámo-los entre nós. Como amantes. Felizes!

Eis quando a terceira boleia apareceu. Já passava das 22 horas. Um casal. Ele Francês. Ela Serva. E pelos quilómetros seguintes desafiámos o nosso francês. E num abrir e fechar de olhos estávamos com a amiga, de uma amiga a quem estamos muito gratos, que nos hospedou. Numa residência de estudantes, da SupAgro de Montpellier.

Hoje, continuamos por aqui, em casa do amigo de um amigo, já a pensar no amanhã. Deixámo-nos ficar, apaixonados por esta cidade, por este centro histórico.

Amanhã partimos para nos apaixonar por mais um cantinho deste mundo. O mundo que levamos na mão, avec le stop.

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                                                                                       Já com 24 boleias, a 1600 quilómetros de casa.