Timor em português!

De sorriso sincero no rosto, naquele tom de pele castanho, perdido no olhar de amêndoa doce, escuro e característico, que de uma forma tão genuína veste quem por lá nasceu. É Timor-Lorosae. São timorenses.

Assim chegámos a Timor-Leste, depois de com esforço atravessarmos a fronteira com Timor Ocidental, ainda na Indonésia. São a mesma ilha, têm uma história triste comum*, mas de ambos os lados deliram com a pele branca e o nariz proeminente de qualquer estrangeiro que por ali ande.

*Porque a história de Timor-Leste tem pano para mangas, mas consegue resumir-se à independência de Portugal em 1975 (sendo até então conhecido como o Timor português), tendo logo sido invadidos; o fim ocupação Indonésia deu-se em 1999 e sua independência total em 2002  – o que faz deste um país muito novo.

Na fronteira tirámos mais fotografias com locais que em qualquer outro sítio nesta viagem; não que noutros países, como por exemplo nos da Ásia Central, não tivessem também esse desejo, mas tinham também muito mais vergonha. Ali, os mais comedidos tiravam de longe, os mais destemidos vinham até nós. Abraçavam-nos, agarravam-nos, sorriam, pousavam para a foto e faziam filas. Foram sem duvida dezenas de fotografias, depois de termos passado a noite num ferry que abanava mais que uma rolha em alto mar e uma madrugada e manhã à boleia, sem descanço.

E mais, era Ano Novo! Sim, era dia 1 de janeiro de 2017, no auge da euforia de uma nova primavera.

Estavam, por isso, todos em nosso redor felizes e reluzentes, animados com a chegada de mais um ano. E nós estávamo-lo também, mas trazíamos em nós uma incerteza tamanha: a de não sabermos se iríamos conseguir chegar até Dili, a capital, naquele mesmo dia. E tínhamos em nós a consciência vincada, dos avisos que nos foram feitos, do perigo que seria chegar à capital já de noite e sem alguém para nos receber. Faltavam-nos, ali mesmo, umas três horas de caminho, por 100 quilómetros por fazer, por estradas esburacadas e paisagens à beira mar criadas.

E ali mesmo, no edifício fronteiriço, sorrimos. Havia já, quem de cor falasse português – e que mais podem dois portugueses querer?

Sorrimos! E sorrimos de novo, entre olhares cúmplices e confiantes, apaixonados e tão, tão cansados.

Éramos nós.

Atravessámos o famoso arco de boas vindas a Timor-Leste (em português escrito!!), sem medo, e a pé, e depois de carimbados os passaportes, seguimos. E estávamos finalmente no nosso tão desejado destino!

Ali, sabíamos já que encontraríamos uma segunda casa e que poderíamos descansar quanto tempo quiséssemos. Era família do coração – aquela que temos a sorte de poder escolher.

E embora estivéssemos muito, muito felizes, estávamos também exaustos por tudo aquilo que tínhamos vivido até então, depois de duas noites mal dormidas e muitas horas a bordo de um ferry mal-amanhado, depois de celebrado o ano novo com a chegada à ilha de Timor e o barulho de todas as motas em nosso redor.

Depois de termos atravessado a fronteira a paisagem não era diferente: árida, quente e pobre, numa estrada infinita de alcatrão velho e barracas de chapas de zinco vazias, com pilares de pau. Ao lixo pelo chão já vínhamos também habituados e por isso a diferença no olhar foi pequena.

Já não tínhamos muito que comer, senão umas mangas de sobra e uma bolachas de limão; mas nada disso interessava. Só queríamos chegar a Casa! Das bolachas fizemos almoço e demos corda aos sapatos.

As sombras eram raras, mas sabemos bem que as fomos aproveitando conforme podíamos. E a cada escasso carro que víamos passar, pedíamos boleia! Lá iam parando, e o entusiasmo era tanto que já só falávamos a nossa tão querida língua, sem tão pouco nos questionarmos sobre isso. Era instintivo e automático! E tão, tão bonito.

Demorou pouco até conseguirmos a nossa primeira boleia, no momento exacto em que nos conseguimos abrigar do sol para beber um pouco de água. E é tão engraçado ver como nos lembramos de tão pequenos pormenores.

Eram dois senhores, policias, militares ou guardas, não conseguimos precisar, mas decerto trabalhadores na fronteira. Iam por apenas dois quilómetros, até ao café mais próximo. Mas foi uma grande ajuda! – por vezes, há quem não pare por não ir longe, mas tudo aquilo que muitas vezes precisamos é de nos sentar dois minutos e renovar a esperança. E assim foi!

Já perto de uma pequena ponte que cruza um rio, sujo, ficámos bem! Atravessamo-la a pé e, do lado de lá, voltámos a conseguir uma boleia. E desta, a certeira! Era uma família, um carro cheio. O pai, vice-presidente da CPLP, a filha estudante de medicina e fluente em inglês. A avó, professora, falava bem português. Recusaram a principio dar-nos boleia, porque sem dúvida, não havia nem um pequenino acento num banco disponível. Mas havia a bagageira! E a sede de avistar Dili era tanta, que nem hesitámos!

Estavam juntos com um grupo enorme de pessoas, que ali passavam num passeio em forma de comemoração pelo aniversário de um dos membros da família. E com todos eles, fomos parando para visitar praias, miradouros e até à verdadeira festa de aniversário numa colina nos levaram. Havia cerveja, sumos de banana com gás e até gente a falar português!
(E já para o fim, havia também um infinito de lixo espalhado e abandonado)

À chegada a Dili tínhamos instruções (dos amigos que nos iriam receber, e que à data estavam em Portugal), para que telefonássemos ao Senhor Filomeno ou à Mana Ela. Tinham ambos ficado com a chave e ambos saberiam como nos orientar.

Assim, ainda no carro, pedimos que telefonassem a um deles, mas nem tudo correu como previsto! Timor-Leste é perito nestes acontecimentos, mas não estávamos ainda bem cientes disso. Tudo leva o seu tempo e tudo exige a sua calma.

Primeiro, não havia cobertura. Passado umas horas, ninguém atendia.

Já mais tarde, diríamos até no lusco-fusco, o telefone através do qual tínhamos ligado já não estava no carro, e a neta, intermediária, também não. Acabámos ainda assim por nos conseguir explicar e voltar a ligar: sempre na incerteza e sem saber se o Senhor Filomeno teria ou não ligado de volta para o telefone anterior.

Conseguimos quase à chegada – e que mesmo assim leva sempre uma hora no transito caótico da entrada de Dili – falar com a Mana Ela. Ou assim pensávamos que tinha sido. E estava tudo combinado. Às 19h na catedral, a famosa catedral. E assim foi. Fazia-se acompanhar de um senhor com quem falámos em português, e por defeito, assumimos de imediato ser o senhorio, Senhor Filomeno.

Caminhámos então juntos, a transbordar de felicidade e em paz por termos conseguido chegar, por entre o bairro dos Professores, num clima de pobreza, estradas tortas e lixo perdido.

Os sorrisos vinham-nos dos olhos. Puros, singelos. Perdidos por tudo o que víamos e na simpatia daqueles que se aproximavam. É que caminhando pelas ruas fomos sendo sempre cumprimentados com um ‘Boa tardi, vai aonde?’ ou, em língua tétum, ‘Botarde, Ba ne’e bee?’. (Mas vinhamos já treinados da Indónesia, habituados ao ‘mauke mana?’). E é o cumprimento dos timorenses aquele que reconhecemos como sendo um um gesto comovente. Um aperto de mão rápido e solene e, depois, a mesma mão usada no cumprimento é levada ao coração – o que simboliza respeito pelo cumprimentado. Porém, percebemos, nem todos os timorenses o fazem.

– A língua mais falada durante a ocupação da Indonésia, era claro o indonésio (o que ainda hoje se percebe ter acontecido). Durante esse mesmo período a língua portuguesa foi proibida. Hoje o tétum é o mais falado na capital e o português é também língua oficial.  –

Rua para frente, rua para trás, e lá chegámos. A casa, fria e vazia, dizia-nos pouco, naquele momento. O cheiro incerto, a falta de personalidade e, sem bandeira portuguesa, fez-nos questionar se estaríamos na casa certa.

Armários vazios. Não, não podia ser.

Sem falar português, aquela que acreditámos ser a Mana Ela e que depressa percebemos que não seria, pouco entendia do que se estava a passar. E aquele que a acompanhava, e que achávamos ser o Senhor Filomeno, também não o era.

Wi-Fi nem vê-la. Telefone também não, que a pulsa (o saldo) dos telefones tinha terminado.

Estávamos portanto entregues ao vazio.

Se um de nós emana calma, o outro contrabalança. E ainda bem que assim o é, em forma de equilibro e muito amor. Naquele momento, não havia cansaço que vencesse: precisávamos de descobrir onde ficar.

Um mês antes havíamos encontrado entes amigos na Malásia, na escala que faziam rumo a Portugal para passar o Natal. Por sorte, tínhamos ainda uma fotografia tirada juntos guardada e foi essa a nossa salvação! Apressámo-nos a mostrá-la e guardamos até hoje as suas caras de espanto. Conheciam bem, afinal, o casal da casa que procurávamos, mas não faziam ideia de onde ficava. E foi nesse preciso momento que percebemos que não poderíamos estar com nenhum dos dois que havíamos contactado.

Isto, isto é Timor-Leste!

Espera atrás de espera, e esperámos mais um bocadinho. Com  calma, muita calma.

Acabou então por aparecer o Senhor Filomeno, o verdadeiro, proprietário da casa e português falante. Este, depressa nos levou a casa. À verdadeira casa, àquela que percebemos de imediato ser familiar. Aquela a que agora também guardamos como nossa.

E, finalmente em casa, sentiamos pouco mais que o nosso coração a bater.

Havia uma gatinha – e toda a bagunça que ela se tinha encarregue de fazer na ausência dos donos.

E havia um lar.

Estávamos folgados!

Afortunados. Felizes.

Pena só tinhamos por haver ainda mosquitos doenças tropicais com as quais tínhamos uma vez mais de nos preocupar; e por não haver internet… mas sobre isso, não sabíamos ainda nem de perto a realidade!

Sem chances de avisar quem quer que fosse sobre a nossa chegada, demos jeito à bagunça, alimentámo-nos nós e alimentámos a pequena SUAI, abrimos o sofá cama da sala e dormimos. Dormimos muito. Muito. E sonhámos. E descansámos.

A manhã nasceu na mesma euforia com que a noite se pôs, sendo ainda assim já dia 2. Pouco importava. A festa fazia-se ainda, pelo Ano Novo. As mesmas motas, o mesmo barulho. A mesma felicidade.

E preparávamo-nos nós para tratar de almoçar, quando se abre o portão, naquele também seu som tão característico..

Eram eles! A Débora. O David. E a Madalena. Estávamos tão emocionados: esperámos tanto e tão ansiosamente por aquele momento!

A Madalena é uma jovem timorense que se encontra a viver com eles por ser do distrito e necessitar de estudar na capital.

E começámos assim o primeiro de vinte e dois (especiais) dias juntos.

Podemos agora escrever sobre tudo o que fizemos. Tudo o que vivemos. Tudo o que partilhámos, conversámos, discutimos, refletimos e aprendemos. Tudo o que sorrimos. Tudo o que fomos. Mas nada se aproximará daquilo que guardámos no coração.

Começámos por conhecer recantos de Timor e a vida por lá sentida. Aprendemos os cantos à casa e o ritmo a que nela se vive. Fomos aos supermercados do costume, o Páteo ou o Leader, e consciencializámo-nos do custo de tudo. Em dólares americanos, a preços exurbitantes tendo em conta o país, pobre. Os produtos  não são escassos, mas dependem da hora, dia, momento ou época. É também difícil de encontrar alguma coisa à primeira e dar azo a desejos é praticamente impossível. Faz-se a festa com pequenas coisas e o capitalismo torna-se limitado. Já o consumismo é grande e cada vez maior, mas não há muitas empresas e, uma vez mais, a escolha é pouca. As prioridades também as encontrámos invetidas: primeiro vêm as motas e os telemóveis e, só depois, a saúde e a educação. E o (pouco) dinheiro, voa.

Assim, descobrimos que ser-se local é duro, mas ser-se estrangeiro também não é fácil. Uma casa com condições mínimas leva mais de meio ordenado – não local. E um timorense, tendo em conta o que recebe, não é fácil de se perceber que decerto viverá com o mínimo dos mínimos. Comer mais que arroz e os típicos fritos, só em dia de festa. Tudo isto, graças à presença da ONU, que avançou com missões de paz no terreno em 1999 e que teve sempre poder de compra acima da média.

O país também não é grande produtor. Arriscariamos dizer que por lá se vive em preguiça. Dá trabalho fazer diferente ou cultivar. Não têm habitos de agricultura e não aproveitam, conforme poderiam, o potencial das suas terras. A produção de café é significativa, mas tendo em conta o clima e os solos, haveria muito mais para fazer e criar. Morangos só em dia de festa. Bananas, abacates e papaias têm com fartura, mas em escala insignificante face ao que poderia efetivamente ser. Também os preços, uma vez mais, são insuportáveis para o produtos em questão – frutas e legumes locais.

Encontra-se, contudo, uma vasta variedade de produtos portugueses, e muitos até da marca branca do Continente ou Área Viva. Há azeite Galo, bolachas maria, farinha Branca de Neve ou água Luso.

Desta forma, durante a nossa amada estadia, aproveitámos para por em dia todos os nossos dotes culinários. Demos asas à imaginação e muita cor à nossa alimentação vegetariana. Cozinhámos tudo quanto desejámos, criámos pratos lindos e saborosos e, o melhor, fizemos pão e bebidas vegetais caseiras todos os dias.

Mas embora Timor-Leste seja um país lindo, com uma cultura linda e pessoas lindas, que nos enchem o coração com o seu olhar e a forma como dizem “Portugal é nosso!!”, não só a alimentação, a agricultura e os preços são uma lacuna. Há mais, e mais grave.

Há currupção. Ao mais alto nível. E há o sistema educativo. E há currpução no sistema educativo – que está em desenvolvimento, mas com carências e lacunas visíveis. E se é a educação das pessoas que pode mudar o mundo, então Timor-Leste começa a perder-se de pequenino. As escolas não são propriamente eficientes e a qualidade do ensino deixa muito a desejar. As pessoas habituaram-se ao facilitismo e também não encaram as regras com bons olhos. Horários, metas, avaliações… são tudo termos aborrecidos e, até, desconhecidos. Também o ensino privado deixa muito a desejar e a melhorar. As bases acabam por ser as mesmas e o sentido de responsabilidade por parte dos professores e alunos é algo desvanecido. A perspetiva do deixa-andar e os sorrisos sossegados no rosto acabam por resolver até os maiores problemas; e os jovens de hoje em dia não encontram objetivos que os façam lutar por uma educação rigorosa. Gostam de brincar, não importa a idade que tenham. A cultura de rua está muito presente e aplica-se à maioria das famílias, que retratam um povo relaxado e com pouca iniciativa, mesmo que feliz.

Não menos grave é o estado do país, das cidades, das aldeias, das ruas, das estradas. E das casas. O lixo é um problema atual e a sua falta de tratamento também. Fazem queimadas sempre que assim se lembram e em cada canto ou recanto, o mais provavel é que se tropece num monte de plástico, papel e resíduos alimentares. Timor-Leste é claramente um país em vias de desenvolvimento, mas o dinheiro mal gerido leva a que muitos destes problemas se arrastem e alastrem.

Em consequência do problema do lixo, há também cada vez mais doenças e doenças transmitidas por mosquitos. O sistema de saúde deixa também muito a desejar. As tradições timorenses, crenças e espiritualidade, fazem com que muitos se afastem dos cuidados médicos. Os que a estes recorrem, nem sempre são efetivamente tratados ou conseguem vir de lá esclarecidos.

No fundo, foi para nós engraçado ver como é que um pais pequeno funciona como um pais grande, mesmo que com fracas condições: têm ministérios, televisão, embaixadas, doutores (ou aspirantes), rádio, universidades… e pobreza, lixo, fumo, estradas sem asfalto.. tudo isto junto. E com uma beleza inegualável. E tão inegualável!

Aprendemos muito. E muitas coisas.

E uma das mais engraçadas foi a como ir ao banho sem que fossemos atacados por um crocodilo:

Estávamos na Embaixada de Portugal, depois de termos feito um pedido de informação sobre a renovação do passaporte por e-mail. Conseguimos com isso que nos fosse remetido um e-mail automático (sem que soubessemos que o era), com  a marcação de uma reunião para as oito horas da manhã. E lá estávamos nós então, com outras cem pessoas, todos à espera da mesma reunião. O calor era tremendo, como sempre, e o suor escorria-nos pelo corpo – como todos os dias. Enquanto esperávamos, aproximou-se um senhor, que sem hesitar, avançou em português. Começou por perguntar de que zona de Portugal vinhamos. Trava-nos por Mana e Maun (mano). E ria, perdido, por entre as mil histórias de que se foi lembrando sobre a sua antiga patroa, também ela portuguesa. Margarida, dizia.

A conversa foi, e tanto foi que ia já naquilo que não podiamos perder. Falou-nos de Baucau e de tantos outros lugares mágicos – muitos dos quais não chegámos a conhecer. Mas falou-nos também do quanto tinhamos ainda por nadar nos seus mares azuis. Confessámos-lhe então jamais ali fazê-lo, com medo de um ataque de crocodilo. E ele, tão querido, riu-se. De novo!

Ensinou-nos então, de coração aberto e com crença no olhar, que bastaria enrolar em cada tornozelo e pulso uma folha de palmeira. Desta forma, os crocodilos saberiam que somos família. Sim, família. E é aqui que está a graça, a dádiva e a inspiração. A convicção e a fé são inegualáveis. Acreditam que o espírito dos seus avós vive em pequenos crocodilos, e por isso os alimentam e protegem. E bastaria assim as folhas nas extremidades para que nos reconhecessem.

Perguntámos-lhe então, ‘E se não nos reconhecer e acabar por nos comer?’, ao que sem pensar, encolhendo os ombros e muito sério disse… ‘Paxiênxia’!

Da Embaixada não troxemos nada mais senão esta aventura e uma dor de cabeça em burocracias. Documentos, documentação, papelada e trabalho: um vazio e uma lentidão, por Timor.

E por entre tantas outras pequenas aventuras, fomos também a uma festa na escola. À cerimónia do içar da bandeira timorense no Ministério da Educação. À Lusa, à RTTL e à rádio, para diferentes entrevistas. À escola portuguesa e ao cemintério de Santa Cruz.

Jantámos com um casal de portugueses aventureiros, exploradores, criativos e generosos, com uma história de amor com o mundo e por Timor: a Katy e o Ricardo (podem conhecer a história deles aqui); e partilhámos um pôr-do-sol e um sumo natural com um amigo de uma amiga, que agora é nosso amigo também, mentor da nossa ida posterior ao programa de rádio português!

E no cimo dos nossos corações ficou também registado o nosso encontro com uma família muito especial:

Há vários anos, num programa de intercâmbio de três meses para docentes entre Portugal e Timor-Leste, conhecemos a Ricardina. A Ricardina descobriu muito connosco – o que era trânsito organizado, um supermercado limpo, uma cama com lençóis, um autocolismo ou um elevador. Descobriu o que era um país desenvolvido e soube integrar-se nele. Pintou as unhas. Foi ao cabeleireiro. Melhorou o seu português e engordou vários (muitos) quilos. Mas foi muito mais aquilo que ela nos ensinou a nós. A sua preserverança, a sua luta, a sua garra. A sua vergonha, a sua paz, a sua calma. O seu coração gigante, naquele corpo pequenino. Aquela voz de melodia suave e tom neutro. O seu sorriso, o seu olhar. As suas mãos ásperas e tão suaves. Sempre frias! “Ai senhora”, “Mana Joana…”; e tantas outras expressões em nós marcadas.

Passaram-se os anos, os meses, os dias; passou-se o tempo. E as saudades nunca passaram.

Despedimo-nos um dia, perto do aeroporto, no hotel onde a deixámos. A ela, ao António (que também ficou nas Caldas) e a todos os restantes colegas timorenses. Chorámos, na promessa de que um dia a voltariamos a encontrar, em Timor-Leste!

E a promessa cumpriu-se, até mesmo quando já nem ela acreditava. E a sua voz estremeceu, no dia em que lhe telefonámos, pela primeira vez, e lhe dissemos que estávamos ali mesmo, em Dili. Sorriu pelo telefone. Sorriu tanto, e chorou de novo. Era tudo, e era principalmente a saudade em voz.

Encontrámo-nos várias vezes durante a nossa estadia. Em Dili, em Ermera, em Gleno e também no aeroporto – desta, foi ela a deixar-nos partir.

Partilhámos momentos especiais. Visitámos-lhe a casa, a vila, a escola, a aldeia. A provincia, a casa dos pais, a estrada. O tempo. Demos-nos tempo e tempo para estar. Conhecemos-lhe finalmente os filhos. A familía. O lar. E ela, sempre envergonhada, abraçava-nos a cada emoção forte. Queria dar-nos a conhecer tudo aquilo que tinha e sabia, e tapava os olhos de medo. Sabia bem, guardava bem, as condições em que sabia vivermos em Portugal, e que em nada se assemelham àquelas em que vive em Timor.

Aprendemos assim a entender tudo aquilo que não entendiamos em casa. Percebemos tudo aquilo que não conseguiamos perceber outrora. Cada comportamento, cada atitude, cada gesto… é tudo uma questão de cultura. De vida. De história. E a história da Ricardina é agora também nossa.

Na despedida ficou a promessa. Voltamos a encontrar-nos em 2021. Esperamos por ti.

E também na despedida, de Timor, daquela que foi a nossa casa, naquele que é o lar da Débora e do David, vivemos momentos de deleite e bem-estar, paz e amizade. Aproveitámos o sol para subir ao Cristo Rei, avistar a Praia dos Portugueses e saborear a famosa água de côco e os petiscos da Mana Fina, na Praia da Areia Branca.

De toda a estadia, acabámos por não ver crocodilos… mas também não fazíamos questão!

E não experimentámos andar de microlete – o transporte público mais afamado, porque nunca foi preciso. Mas que são únicas só de ver, são! Por fim, já na hora da partida, fomos presenteados com um “tais” (pano em tétum): os lenços ou as faixas de tecido timorenses, muito célebres e tão representativos.

Guardamos tudo em nós. O vivido. O por viver. O visitado. E o que ficará para a próxima.

No nosso coração.

Juntos. Sempre, sempre juntos.

Timor-Leste é especial. 

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aventuras Tajiques

O Tajiquistão sorriu-nos pelo imediato da nossa travessia, embora de início ainda a medo, não houve motivo para desalento.

O sol já se punha, lá no horizonte, por entre as montanhas áridas que faziam a nossa paisagem. Sabíamos que ali, e um pouco por todo o território Tajique, não devemos sair da rota principal: há minas antipessoais perdidas por tempos antigos.

Mas na fronteira, sem cuidados demais, quiseram apenas saber com que comida entrávamos no país e, uma vez mais, parabenizaram-nos pela chegada à final do campeonato da Europa, nunca sem antes pronunciar o nome do melhor do mundo!

Claro que 1 minuto depois de abandonarmos o edifício fronteiriço, tínhamos 30 taxistas em nosso redor. Falavam um por cima dos outros, na tentativa de nos levar, ou apenas de nos trocar dinheiro. Dólar, dólar – repetiram milhentas vezes. Mas o dinheiro, esse já tínhamos trocado do lado do Uzebequistão, e táxis não utilizamos. Portanto, agradecemos e seguimos.

Assim contado até parece um processo simples, mas a verdade é que é duro deixar estas pessoas para trás: nós vamos andando, e elas vêm andando atrás de nós! Mas mantemos a calma, vamos dizendo adeus e elas lá desistem…

Mais à frente, na nossa caminhada, parou um carro. Era um táxi e por isso recusámos de imediato, explicando que estávamos à boleia. O senhor mostrou-se generoso e disse-nos que ia para a próxima cidade, podendo levar-nos até lá.

Dushambe era exatamente para onde queríamos ir e onde tínhamos um couchsurfer à espera. E por isso aceitámos. Pelo caminho a conversa foi fluindo em russo (a mais recente aquisição) e, tendo-se o taxista mostrado disponível, demos-lhe o número do nosso amigo para que lhe ligasse, avisando-o de que estaríamos a chegar.

Correu tudo muito bem até ao destino, mas infelizmente fomos enganados: cobrou dinheiro ao nosso couchsurfer por nos ter levado e este até já sabia disso de antemão. Não houve nada que pudéssemos fazer, pois entre nós a combinação era outra. Mas foi infeliz em nós este começo. Até porque mais pessoas partilharam o táxi e portanto o desvio não foi nenhum.

Ficámos por Dushambe 4 noites: depois da corrida por entre os 5 dias de visto do Turquemenistão e os registos do Uzebequistão, sentimo-nos livres para parar e descansar.

Aproveitámos para dormir, cozinhar e passear, com a alegria de ver Portugal consagrar-se campeão europeu! Não estávamos por terras lusas para celebrar calorosamente, mas tínhamos um bar Tajique, ao ar livre e com uma imensa tela, cheio de gente. E uma bandeira portuguesa. E sofremos juntos, vibrámos juntos, celebrámos juntos!

Ao quinto dia, decidimos partir rumo a norte. Estivemos sempre indecisos sobre visitar ou não a famosa Pamir Highway, mas deixámo-nos levar pelo nosso instinto e optámos por cruzar o lado oposto do país. Sabemos que ficou assim por visitar um dos pontos mais afamados do país, visitado propositadamente por muitos turistas pelas suas paisagens desertas; mas sabíamos que à boleia poderíamos até ter de esperar muitas horas, ou dias, por um carro. E sabíamos igualmente que rumo a norte tínhamos também um mundo por descobrir!

Afastámo-nos da cidade com um transporte urbano e tínhamos por objetivo chegar a um dos mais famosos lagos do país, situado no cume de montanhas, por entre 40 graus na base e serras ainda nevadas no topo. Pretendíamos chegar e acampar. E por entre o calor que sentíamos, conseguíamos apenas sonhar com a ideia de montar a nossa tenda (pela primeira vez!!!) e de mergulhar no lago. De nadar, refrescar, ler um livro numa sombra e adormecer com o céu estrelado, por entre uma vista esplendorosa, de montanhas e água translúcida.

À saída da cidade e pouco antes de nós pormos à boleia, avistámos uma viajante. Pela sede de conhecer pessoas ou somente por curiosidade, depressão aproximámos. Chamava-se Lena e era Japonesa! Viajava à mais de 1 ano, mas já tinha voltado ao Japão por duas vezes: uma delas não programada, depois de ter partido uma perna no México! Viajava sempre sozinha, sem receios e de sorriso no rosto, depois de ter passado pela América do sul e central, Europa e África. De gargalhadas fáceis e sem rodeios, aceitou juntar-se a nós para ir visitar o lago, alterando assim o seu rumo.

Viajámos então a 3, à boleia! E não, não foi o fim do mundo; mas foi um trinta e um chegar ao nosso destino!

Demorámos várias horas até conseguirmos chegar perto das montanhas: fizemos pouco mais de 100 quilómetros em mais de 8 horas, por entre estradas aceitáveis, com um carro, dois camiões e um jipe. As boleias foram aparecendo e fomos desfrutando do caminho! Juntos.

Estamos muito habituados a viajar a dois, tanto que já nos sentimos por completo um só. Não há rodeios, não há omissões. Vivemos muito mais que juntos! Vivemos na plenitude de um casamento, mas um casamento nómada! Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, sem escapes.

Na verdadeira essência do amor.

Quem o conhece, sabe que nem só de dias felizes vive. Mas é mesmo nesses que se aprende a ser mais e melhor. E a ficar por perto.

Contudo, ter um terceiro elemento 24h por dia connosco foi um desafio muito interessante!

O último jipe a dar-nos boleia, trazia dentro 3 jovens, afortunados e generosos. Levaram-nos a lanchar/jantar fora e quando nos deixaram à entrada das montanhas, despediram-se calorosamente e convidaram-nos ainda a seguir com eles até Khujan – a cidade onde haveríamos de chegar dias depois. Chegámos até à hesitar pela boa energia que sentíamos todos juntos; mas o repouso no lago chamava por nós!

Estávamos então a 35 quilómetros do lago. Um pulinho mais, pensávamos nós!

Já não era cedo, mas mantínhamos a esperança de chegar ainda de dia.

Os minutos foram passando. As horas também. As nuvens no céu foram-se aproximando, chegando e tapando o sol. E caíram os primeiros pingos de chuva.

Não queríamos acreditar. E, principalmente, não queríamos acreditar quando vimos a luz do sol esmorecer.

Continuávamos exatamente no mesmo sítio, à entrada das montanhas. E por entre os poucos carros que iam passando, as pessoas iam-nos dizendo que não iam para lá. Que já era tarde. E começámos então a perceber que seria difícil adormecer ao som da natureza, com vista para o lago.

Começámos a olhar em redor a ver onde poderíamos vir a montar a tenda: mas não estávamos tristes! Pensámos apenas que chegaríamos no dia seguinte, no auge do sol e do calor (que a avaliar pelos dias anteriores, continuaria a ser de cortar a respiração), prontos para um merecido mergulho. E estávamos contentes, sabíamo-nos bem e felizes. E tínhamos connosco mantimentos suficientes para duas noites, o que nos deixava em tudo tranquilos no tempo.

Mas pouco tempo depois, parou um carro. Não ia para Iskandarkul, o lago, mas ia até meio caminho! Pior não ficávamos e mais perto ficávamos de certeza. E seguimos!

Percebemos à chegada, que embora a 15 quilómetros do destino, não iríamos chegar. A estrada, até lá, metia medo! Sem asfalto, pelas montanhas, curva atrás de contracurva, buracos atrás de buracos. Quase 1 hora de caminho para 20 quilómetros: uma loucura.

Escolhemos então o lugar para montar a tenda e vimos vários locais a observar-nos. Numa aldeia tão remota, por onde os turistas passam mas nunca param, parecíamos decerto extraterrestres. E evitando que sentissem que estávamos a abusar dos seus campos, optámos por uma vez mais perguntar se poderíamos montar a tenda ali. E uma vez mais também, e sem duvidas, convidaram-nos para suas casas!

A família era grande, muito grande, e em pouco mais de 30 minutos estávamos instalados e com um manjar a nossos pés: sentados por entre carpetes e de mesa posta no chão (como já nos habituámos), e sem mulheres em redor, mantendo-se as tradições pela Ásia Central fora: só os homens recebem e jantam com os convidados.

Dormimos os três juntinhos, por entre colchões asiáticos e lençóis, pelo chão a que as nossas costas já se habituaram; e foi com o nascer do sol e do céu azul que nos fizemos acordar e despachar. Tínhamos um longo e novo dia pela frente, quase quase a chegar ao lago. E deu ainda tempo para uma jogatana de futebol, por entre o campo de terra batida e os pés descalços.

Depois, não sabemos como, agora que tentamos recordar, mas a verdade é que passámos boa parte do dia à boleia. Lanchámos, almoçámos, rimos, conversámos; brincámos à apanhada com as crianças que aos poucos se iam juntado em nosso redor e esticámos os dedos sempre que um carro se aproximava. Deu também tempo para uma jogatana de futebol e uns golos de raspão!

De esperança fizemos o nosso dia, às tantas já pouco crentes! Até que um jovem aceitou levar-nos!

Voltámos a levar quase 45 minutos para fazer 10 quilómetros. A estrada mantinha-se sempre nas mesmas condições, mas cada vez mais a subir, sempre por entre curvas e montanhas acima.

E, inexplicavelmente, quase como se estivéssemos nos Açores!, o tempo não parecia mais o mesmo. Até mesmo quando começámos a avistar o lago e a descer, a humidade e o frio que se faziam sentir por entre montanhas, era inexplicável! Não nos lembrávamos sequer da última vez que tínhamos sentido frio ou necessidade de tirar uma camisola do fundo da mochila.

Chovia. Chovia bem, com pingos grossos! E os nossos narizes reclamavam por um quentinho.

Depressa percebemos que os sonhos que trazíamos de algibeira não eram os mais apropriados: o sol, o calor, a tenda à beira lago, o livro, os mergulhos… não eram para ali.

Palmilhámos uma pequena distância em torno do lago. Lindo, de verdade. Com uma paisagem soberba.

Não nos conseguimos fazer os 3 de vontades comuns, mas chegámos a acordo. Procurámos por um lugar para montar a tenda, abrigado e sossegado: e acabámos no jardim do vigia do lago, mas pouco satisfeitos.

Por um lado, queríamos muito ficar e pernoitar. Tínhamos levado dois dias a chegar ali, e não fazia sentido nenhum tocar e fugir. Por outro, sabíamos que o tempo estava pouco convidativo, que íamos ficar para na madrugada seguinte seguir. Decidimos então ficar atentos à estrada que nos tinha trazido: e se algum carro fosse na direção da estrada nacional, e nos quisesse dar boleia, aceitaríamos e dormiríamos lá, uma vez que pelo menos fora das montanhas a temperatura era quente e convidativa a um sono na rua.

Conhecemos pelo meio vários turistas a pernoitar no lago, e foi com eles que passámos grande parte do serão: temos tantas histórias e tantas aventuras no bolso, que tema de conversa não falta.

E já de noite, já depois de termos despejado as mochilas, puxado os sacos cama e as leggings de inverno para dormir, vimos luzes vindas do lago. E não é que iam não só na direção da estrada nacional, como até Khujand? Era um jipe, vinha cheio e trazia 3 pessoas.

Mas com jeitinho, coube também a nossa tralha e nós 3 lá dentro. E seguimos! E sabíamos que à nossa espera teríamos os amigos que tínhamos feito no dia anterior.

Pelo meio, com um valente enjoo e valentes vómitos: as curvas eram muitas e com jipe, a velocidade embora controlada, permitia muitos abanos.

Mas chegámos, já perto da 00h30, quase a Khujand. Deixaram-nos a 15 quilómetros, onde as estradas se dividiam e onde havia um posto da polícia. Ali, deveríamos apanhar um táxi para chegar até aos nossos amigos, a pedido destes tendo em conta a hora. Mas ali, ali não passavam táxis.

E ali, assistimos a uma das cenas mais deploráveis de sempre: os polícias, embriagados, mandavam parar todos os carros e camiões e carrinhas e carrinhos que passavam. E não pediam os documentos sequer – esticavam a mão para um aperto, e logo de seguida punham a mão ao bolso. Inicialmente nem percebíamos o que se estava a passar, mas pouco depois fez-se luz. Afinal, a corrupção não era um conto. Não era só mais uma história. E a verdade. E estava ali, à frente dos nosso olhos, a fazer-se acontecer.

Já em Dushambe, na capital, um polícia nos tinha abordado: primeiro com simpatia, depois informando-nos de que era o seu aniversario. E minutos depois, pedindo-nos dinheiro. Começou nos dólares, passou para os euros e terminou na moeda local. Recusámos tudo, dissemos não ter. Mas vivemos assim a nossa primeira experiência patética e lastimável.

Acabámos então em Khujan, depois dos nossos amigos nos terem ido buscar. E dormimos no restaurante de família de um deles: um restaurante afamado e com vários yurts como salas de jantar, onde nos instalámos e dormimos descansados.

Na manhã seguinte madrugámos: o sol era forte desde cedo, e se não fosse pela luz, era pelo calor. E seguimos para a cidade. Mais que tudo, precisávamos de um banho. Estávamos suados, cansados e sujos. E de mochilas às costas, lá fomos os 3. Tínhamos uma resposta positiva de um couchsurfing e só estávamos à espera de o conseguir encontrar.

A cidade pareceu-nos desde logo simpática, embora cheia de lixo nas ruas. E num dos parques perto do rio, encontrámos uma sombra para descansar.

Ali, tentámos por várias vezes contactar o nosso couchsurfer, mas sem sucesso. E deixámo-nos ficar. Tínhamos sempre a hipótese de voltar para o restaurante, mas sem dúvida que precisávamos de um banho.

E por entre a pausa e o descanso, reencontrámos o casal de viajantes russos, com quem estivemos juntos no Uzebequistão. Alegria! Num piscar de olhos, éramos já 5.

E embora a Lena tenha decido seguir para um hostel, decidimos os restantes seguir para o grande lago a 15 quilómetros da cidade, onde sabíamos que encontraríamos uma praia de água doce. Vimos o sol pôr-se e tomámos um longo banho, desfrutamos do tempo a passar, do calor e da companhia. E já mais à noite, quando nos preparávamos para montar a nossa tenda nas areias negras que se entranhavam nos nossos pés, veio o vigia da praia aconselhar-nos a pernoitar no terraço de sua casa.

Não queríamos ir, sonhávamos com a ideia de finalmente adormecer com o lago de fundo e as estrelas no céu. E de podermos acordar, mergulhar, com paz na alma e amor no coração.

Mas nada acontece por acaso, e se o vigia nos tinha oferecido o seu espaço como sendo mais seguro, só nos coube aceitar. Os viajantes russos decidiram pôr os seus colchões no chão e trancaram-se a dormir ao ar livre. Já nós, levámos mais uma horas: decidimos montar a tenda, por entre os mosquitos e as aranhas, as baratas e os bichos que não se sabe.

E na manhã seguinte, foi um instante até nos enfiarmos de novo dentro de água. Levámos connosco uma melancia e assim tomámos o nosso pequeno-almoço, frescos e saborosos.

À tarde, seguimos para Khujand. Deixámos as malas de novo no restaurante e passeámos pela cidade! Com um calor de brandar aos céus, de derreter mesmo à sombra. Só à noite, nos sentimos melhor, já de volta ao nosso yurt, onde voltámos a descansar e dormir.

Sem rumo certo ou destino obrigatório, partimos na manhã seguinte para Isfara – uma cidade fronteiriça com o Quirguistão, o país seguinte. Até lá, apanhámos uma boleia direta, que nos deixou no centro da cidade. Lá, não tínhamos novamente couchsurfing nem ninguém à nossa espera. Estávamos perdidos por entre o nosso tempo, e cansados também.

Muitas noites seguidas com rumo incerto. Muitas noites seguidas sem chuveiro, sem chuveiro ou almofada. Sem teto ou eletricidade. Sempre com a mão doce de alguém que nos quis ajudar, mas sem certezas de nada.

Ou certezas de tudo: a de que nos tínhamos um ao outro. Só.

E, por uma noite mais, acabámos hospedados. Era velhote, conhecemo-nos por entre as ruas da cidade e ajudou-nos a guardar as mochilas durante a tarde. Ao final do dia, enquanto procurávamos um local para montar a tenda, ofereceu-se para nos hospedar. A casa, também velhota, estava em remodelações: e no quarto já novo, lavámos o chão, montámos uma cama de ferro, a rede mosquiteira e esperámos pela noite cair. Aquecemos juntos água para o banho, com uma fogueira e, sozinho, cozinhou uma maravilha vegetariana, uma salada e abriu um melão.

Tinha sido um dia difícil. Um final de tarde duro. O cansaço talvez já fosse mais psicológico que físico. Mas com gentes improváveis se travam amizades. Gentes que mais que tudo, são de bem. Dão o que podem, o que têm. E que nos mostram que, no fim, acaba sempre tudo bem.

Pela manhã, com escadote de madeira, apanhámos as ameixas maduras lá do alto. E numa caixa feita de garrafa de óleo, acondicionámos as que seguiriam connosco: estávamos pois de partida para o Quirguistão.

Conseguimos uma boleia até à fronteira, depois de uma caminhada pelo centro, onde nos conseguimos desfazer das últimas notas da moeda local e onde nos abastecemos de água potável – e sentimos tantas saudades de abrir uma torneira e de nos podermos lambuzar à vontade em água!

A zona fronteiriça percorremo-la a pé e sem problemas: o caminho não era assim tão longo e o edifício feito de contentores metálicos azuis, onde a única coisa que fizeram foi carimbar os nossos passaportes e, sem poder deixar de ser, sorrir pelo Ronaldo.

Foi assim num piscar de olhos que vivemos a vida no Tajiquistão: onde os olhos não são em bico mas as tradições são já asiáticas; onde o calor é muito e a água não é potável; onde há desperdício de água em cada rua e lixo espalhado em cada esquina; onde as vestes se caraterizaram por vestidos coloridos até ao joelho, com calças do mesmo tecido por baixo, e ainda meias com sandálias ou chinelos! Um país barato, com uma capital encantadora e com natureza infinita. E, como em cada parte do mundo, com gente de coração de ouro (bem mais reluzente que os dentes a que já nos habituámos!).

2016-07-20 18.18.142016-07-20 18.19.012016-07-20 18.28.182016-07-20 18.19.542016-07-20 18.16.472016-07-20 18.22.192016-07-20 18.23.212016-07-20 18.24.332016-07-20 18.24.572016-07-20 18.26.282016-07-20 18.21.232016-07-20 18.30.142016-07-20 18.31.152016-07-20 18.31.592016-07-20 18.32.332016-07-20 18.35.202016-07-20 18.35.592016-07-20 18.29.412016-07-20 18.27.11

por terras do Uzbequistão

Nos últimos tempos, os capítulos da nossa história terminam e recomeçam em fronteiras, com borboletas no estômago e muitas burocracias. Mas viramos página a página, com muita calma, com muitos sonhos na algibeira e cada vez mais ricos.

Na travessia finda do Turquemenistão, os militares mostraram-se simpáticos, tendo até fechado os olhos para uma troca de dinheiro oficiosa. Sabíamos já que neste novo país, o Uzbequistão, a troca de dinheiro se deve fazer no mercado negro, uma vez que nos bancos a taxa de câmbio chega a ser 2 vezes inferior.

Assim, conseguimos trocar o que nos restava na moeda do turquemena (manat) por notas uzebeques (sum), ainda em terras turquemenas: e o mais engraçado, a nota mais pequena vale 0,02€ (tendo em conta a taxa a que trocámos sempre o dinheiro, de 6500sum). E assim nos fizemos sempre acompanhar por um valente e vistoso molho de notas – como qualquer local.

Aliás, eles, os locais, chegam a trazer as notas no bolso, presas com um elástico, como se se tratasse de contrabando ou algo assim, enfiadas em sacos de plástico – o que vimos mesmo que na mala das senhoras.

Esperávamos que ali, na fronteira, nos revistassem de ponta a pavio. Tínhamos já lido vários relatos, vários blogues, conhecido vários viajantes; e a história repetia-se. Sabíamos ser obrigatório declarar valores e ser proibido, por entre muitas coisas, fotografias ou livros de caráter pornográfico ou religioso. Desta, estávamos preparados: tínhamos o nosso dinheiro contado, fotografias e livros controlados, tudo a postos.

Até as nossas mais lindas fotografias com beijinhos estavam apagadas.

Mas depois de preenchermos as declarações na fronteira, passámos as mochilas no RX, e tínhamos o coração a mil. Os relatos de revistas duradouras e minuciosas eram tantos, que não nos víamos sair dali nem em 3 horas, face à quantidade de tralha que sempre nos acompanha.

A primeira pergunta foi simples – medicines?

Dissemos que sim e indicou-nos que tirássemos tudo para fora. Não sabemos bem o que nos passou pela cabeça, mas tiramos só a embalagem metálica onde estão todos os medicamentos da tiroide e pilulas, que nos acompanham. A bolsa com tudo o que é comprimidos de emergência, continuou dentro da mochila. E, propositadamente, não tirámos a caixinha das vitaminas sem rótulo.

Depois de confirmar no computador o conteúdo do que lhe havíamos apresentado, balanceávamos o nosso espírito por entre o receio e a calma. Quando nos perguntou se tínhamos mais algum medicamento na mala, e decidimos dizer que não, não foi planeado, foi instintivo.

Podia ter corrido muito mal, mas correu muito bem. Mandou-nos guardar as declarações para apresentar à saída do país e autorizou-nos a seguir. Naquele momento, não estávamos crentes de que fosse aquela a verdadeira barreira. E até sairmos da zona fronteiriça, confessamos que estávamos sempre à espera do tal momento em que nos iriam separar e revistar e interrogar.

Mas não. Não aconteceu. Não sabemos porquê, mas sabemo-nos gratos por não nos terem feito desarrumar tudo e viver um momento tão tenso.

Sabemo-nos decerto abençoados, pelo nosso caminho até aqui e por cada dia que passa.

Seguimos então depois a pé. Os taxistas morrem de amores por nós, quando nos vêm a chegar por perto, carregados e suados, desejosos de uma sombra ou uma boleia; mas depressa se desencantam quando dizemos que não queremos táxi ou não temos dinheiro. É difícil de lhes explicar a eles, e a muitas pessoas até, que nós temos dinheiro sim, mas não para transportes. Ou seja, o dinheiro que temos é para nos alimentarmos, para situações de necessidade ou para burocracias.

Para transporte temos os pés e todos os carros que estejam a ir na nossa direção e nos queiram levar. Está completamente contra o nosso modo de vida ou principio de viagem apanhar um táxi: fazer um carro, singular, que não vai levar mais ninguém nesse sentido, deslocar-se, consumir e poluir – muito embora aqui na Ásia vejamos na maioria táxis partilhados, que só arrancam quando cheios. Uns prodígios. 

No nosso sentido, o da cidade mais próxima, seguiam camiões, mas também os taxistas se encarregavam de lhes dizer que lhes era proibido levarem-nos. Portanto, caminhámos até nos afastarmos da zona fronteiriça, da confusão. Caminhámos a custo, porque as temperaturas a rondar os 40 graus e o sol intenso, faziam-nos destilar e querer parar a cada 5 minutos.

Numa dessas mesmas paragens, acabámos por conhecer um ciclista alemão, também a recarregar forças numa sombra. Temos tido a oportunidade de conhecer muitos viajantes, mas nunca dois iguais, com o mesmo modo de viajar, destino ou rota, o que é sempre enriquecedor. Ainda assim, temos sempre em comum uma coisa: deixámos tudo para trás e decidimos fazer o que muitos querem e não têm coragem – viver!

E pouco depois, conseguimos boleia de um camionista até Buhkara, onde tínhamos uma couchsurfer à nossa espera. Delicada e doce, foi até ao nosso encontro para nos conduzir até sua casa. Lá, além da irmã, do filho e dos 3 sobrinhos, hospedava também um outro ciclista, alemão. Viajante de paixão e neurologista de profissão, partilhámos então o serão.

E no dia seguinte, juntos conhecemos a cidade, os seus recantos e encantos, sabores e cheiros. E à noite, cozinhámos em casa e partilhámos segredos por entre as paredes da cozinha. Velha, suja, mas muito acolhedora.

Por entre o terror que é dormir e descansar por entre os milhentos mosquitos existentes, picadas e zumbidos, mesmo depois de montada a rede mosquiteira; conseguimos levantar-nos cedo para seguir rumo a Samarqant. Mas depois de nos conectarmos para confirmar o couchsurfing, pudemos perceber que embora confirmada a estadia, não tínhamos qualquer informação sobre quem nos iria hospedar. Mesmo depois de lhe termos enviadas várias mensagens (lidas), não tínhamos resposta a nenhuma. Nem telefone, nem morada. Nada.

Perdemos assim a manhã a tentar contactar esta futura couchsurfer, mas sem sucesso. E já ao início da tarde, decidimos que não adiantava esperar mais, e fizemo-nos à estrada. Em última instância, a nossa tenda esperava a sua estreia. E com tão bom tempo, não nos poderíamos queixar.

Uma vez mais, atordoados com o calor, caminhámos até termos a certeza de que estaríamos longe de olhares militares ou policiais.

Aqui, no Uzebequistão, a cada 3 dias é obrigatório o registo de dormida, em hotel ou hostel, ou a mudança de região devidamente comprovada, como por exemplo com bilhete de autocarro ou comboio noturnos. E à saída do país devemos apresentar esses mesmos registos, sob pena de multa ou deportação.

Contudo, dado o país em questão, sabemos que a polícia faz como quer e exige o que quer e, nós, como só pretendemos apanhar um comboio noturno a cada 3 dias para não termos problemas, preferimos manter-nos longe. Até porque se for para serem corruptos, com um estrangeiro, calha ainda melhor. Mas no total de 13 dias, temos dois bilhetes e fotografias que comprovam que nos fomos movendo de região em região: esperemos que os deuses das boleias nos protejam!

Depois de muitos táxis recusados, pararam dois senhores. De sorriso genuíno, gesticularam para que entrássemos e seguíssemos juntos. Afinal, iam para Tashkent, a capital, a mais de 600 quilómetros e portanto passariam por Samarqant.

Já no carro, e com mais de 100 quilómetros feitos, começámos a ponderar seguir também para a capital. Não tínhamos ninguém à nossa espera em Samarqant, nem casa, nem amigos. E teríamos sempre de lá voltar perto para atravessar a fronteira. E em Tashkent, tínhamos uma amiga.

Pedimos então para lhe telefonar (vale-nos a destreza em russo também) e passado pouco tempo tínhamos no telefone o contacto de quem nos poderia hospedar.

Pelo caminho jantámos, com muita simpatia e muita dificuldade em fugir de carne. Chegámos então nessa noite, já perto da 00h00. E como em casa de quem nos ia hospedar estava um outro casal de ciclistas alemão já a dormir, montámos o arraial no chão da sala de jantar. E que bem dormimos!

Na manhã seguinte, tínhamos como objetivo conseguir comprar um bilhete de comboio para a próxima noite e assim fizemos. Conseguimos por 7,5€ uma viagem de 16 horas para o lado oposto do país. Na verdade, atravessámo-lo à boleia e agora regressaríamos para trás para o visitar.

Durante o resto do dia fizemos por passear e conseguimos ainda encontrar-nos com a nossa amiga. Francesa, viajada e a viver a cada ano num país diferente; outrora professora no Irão ou até Iraque, quis palmilhar connosco a cidade de lés a lés, até mesmo quando já estávamos estoirados. E já à noite, aproveitámos para lavar roupa e para nos deitar cedo. O dia seguinte iria decerto ser longo.

De malas praticamente aviadas, com já pouca coisa por secar, fomos até ao mais antigo mercado da cidade, Churus. O maior mercado que alguma vez vimos, numa dimensão gigantesca. Com roupa, cosméticos, calçado, comida, fruta, legumes, (…). Perdemo-nos por lá e por lá andámos por mais de 3 horas com a certeza de que não vimos nem metade.

Abastecemo-nos de fruta, pão e frutos secos, para a viagem. Comprámos um pastel típico de batata para o almoço e o tempo já estava contado para chegar ao comboio.

Mas fomos com calma, com a inocência típica quem ainda não viu acontecer. Para entrar na gare estivemos um bocado. Tal como à entrada do metro nos revistam (a nós e a todas as pessoas, uma por uma), ali não seria diferente. Revistaram-nos por duas vezes diferentes, mostrámos o passaporte outras tantas e os bilhetes umas três ou quatro.

E quando chegámos à nossa carruagem, o caus estava instalado. Como seria de esperar de uma cabine económica, zero de ar condicionado, zero de espaço. Portanto, 40 e vários graus infernais, lugares marcados no galheto e espaço para ficarmos juntos ainda menos.

Se por um lado dava vontade de rir, por outro dava vontade de chorar.

Pedimos ainda ajuda ao “comandante”, que aquilo que fez foi gritar pelo lado de fora do comboio que havia americanos a precisar de ajuda; e logo alguém veio, para fazer de uma mesa um assento.

Percebemos então como trabalhava. A primeira hora foi de tensão, calor e talvez desespero. Restava-nos observar as pessoas, mesmo em bancos separados. Aos poucos, foram-se conhecendo, movendo, e já tínhamos uma cama (por entre as muitas suspensas por entre os bancos e os porta-malas), um assento e uma mini-mesa para comer. Aos poucos, já nos queriam conhecer, oferecer comida e até um lenço típico! Aos poucos, já só o calor incomodava. E assim se passaram as horas, quase sem que dessemos por elas. E conseguimos os dois, dormir, deitadinhos. Um numa cama, outro no porta malas. Mas com direito a colchão e almofada e tudo!

O sol entrava já pelas janelas do comboio pouco passava das 5h00 da manhã. E o calor, que pela noite fora se tinha feito acalmar, voltava então em força.

Por entre o embalo do baloiçar dos carris, tomámos o pequeno-almoço, mas não ao mesmo tempo: ó-ó é bom em qualquer caminha do mundo, e enquanto um madruga ou outro sonha!

Dividimos assim a mesa com uma senhora já velhinha, que por entre os dentes que lhe restavam, só se via ouro no sorriso. E por entre os frutos que volta e meia lhe oferecíamos, dizia baixinho – Spasibo, obrigada.

Chegámos a Urgench com mais de 1 hora de atraso, e mal descemos pudemos avistar nas grades da estação o nosso couchsurfer. Esperava-nos desde a hora prevista (o que neste país não vale nada), com um sorriso largo no rosto e também na alma! E consigo, trazia dois couchsurfers da Rússia, também em sua casa hospedados. Com uma história parecida com a nossa, recém casados, a viajar à boleia pela Ásia, ela vegetariana e ambos sem beber álcool; tornaram-se a nossa companhia.

Em casa, depois de um banho fresco e de roupa lavada num grande alguidar, almoçámos juntos e passámos a tarde por entre histórias e longas partilhas. E já quase com o sol na linha do horizonte, depois de jantados, seguimos para um passeio pelo centro da cidade. A verdade é que se para muitos por aqui não alegra a hora do sol se pôr, a nós sabe-nos muito bem serem 21h30 e ainda haver luz.

E mais à noite, tristes por não conseguirmos ver a seleção a jogar, remediámo-nos nos braços um do outro, no sono que em nós jazia.

Madrugámos para ir até Khiva, a 30 quilómetros de Urgench: uma cidade histórica, incluída na antiga rota da seda. Indescritível, maravilhosa e imponente, com construções de fazer vibrar o olhar e sonhar. Por entre tons terra e azul turquesa, azulejos e artesanato. Um verdadeiro encanto, daqueles que se visita uma vez na vida e se guarda para sempre. No coração.

Regressámos mais tarde a casa, e depois de uma melancia para o almoço, fizemo-nos à cidade à procura de wifi. No Uzebequistão, a internet não é má: só praticamente não existe. São poucos os que a têm em casa, muito poucos. Porque é realmente cara. Da mesma forma que são muito poucos os cafés ou locais com wifi. Existem sim centros, com computadores e ligação, pagando-se à hora; mas lá não conseguimos conectar o telefone, onde temos o nosso parceiro WhatsApp, através do qual damos notícias à nossa querida família.

Neste sentido, temos feito algumas descobertas e, o mais fantástico, temo-nos desenvincilhado.

A primeira invenção, foi instalar aplicações, nos nossos equipamentos, que tentam descodificar passwords. Nem sempre funciona, mas às vezes faz a nossa sorte! Mais tarde, aprendemos a pedir às pessoas – aquelas que desconfiamos que saibam, para fazer hotspot com o seu telefone, partilhando assim wifi. É claro, é uma verdadeira modernice. Mas a verdade é que já nos tem desenrascado muitas vezes. Para um acesso curto e rápido, mesmo que não tenham muitos dados, ficam felizes por nos ajudar e nós muito gratos. E a terceira invenção, mas não pior, é procurar um hotel com o maior número de estrelas possíveis.

Porquê com muitas estrelas? Porque, vendo uma menina turista entrar, explicando que está de viagem no país e que precisaria de verificar o e-mail, gostam de mostrar que têm um excelente acesso à internet e cedem a chave sem qualquer constrangimento. Não sabemos bem, mas talvez pensem que num futuro próximo possamos escolhê-los para nos instalarmos. Ou talvez seja apenas cortesia, não interferindo com o bom funcionamento do hotel uma pessoa a mais a navegar. Em contrapartida, tentámos já hostels ou pequenos hotéis, mas sem sucesso. Exigem sempre o pagamento de alguma quantia, que sejamos seus hóspedes ou que consumamos algo no bar.

Já tarde, de barriga cheia de wifi, e muito satisfeitos com muitos miminhos da família, regressámos a casa. E lá, tínhamos trigo serraceno cozido à nossa espera! Muitos não conhecem as maravilhas deste cereal que adoramos, mas confessamos aqui que sabemos cozinhá-lo muito melhor – ou não fossemos nós uns verdadeiros chefs vegetarianos, eheh.

Levantámo-nos todos juntos depois na manhã seguinte para um grande pequeno-almoço. Embora com direções diferentes, íamos todos pôr-nos à boleia! O casal russo para para Bukahra, nós par Samarqant. E tivemos a sorte de podermos juntos apanhar a primeira boleia do dia ainda em casa, do pai do nosso querido couchsurfer. Há couchsurfers e couchsurfers, e embora gostemos de cada um à sua maneira, há sempre aqueles que nos marcam: e este foi um deles. Talvez pela sua humildade. Ou pela sua disponibilidade. Mas decerto por ser mesmo uma boa pessoa neste mundo.

Assim, quase sem darmos por isso, estávamos a 30 quilómetros da cidade e já na estrada principal para esperarmos pela nossa sorte.

Num instante conseguimos boleia, e em pouco mais de 1 horas, estávamos de novo de mochila às costas, já no nosso destino. Não tínhamos ninguém para nos hospedar na cidade, mas tínhamos um couchsurfer à nossa espera para nos conhecer. Não podia alojar-nos pois a família não concorda, mas quis ainda assim encontrar-nos e receber-nos na sua cidade.

Deslumbrado pelo mundo “lá fora”, apaixonado por cada viajante que conhece e pelo globo que sabe de cor; ajudou-nos tanto quanto pode, levando-nos até à bilheteira mais próxima, pois estávamos já em contagem decrescente para um novo comboio, um novo registo. E descobrimos então que o próximo duraria 20 horas, com um custo um bocadinho mais elevado, perto dos 12 euros.

Seguimos depois já sozinhos pela cidade. Tínhamos algumas luzes de onde poderíamos acampar e fizemos por segui-las. Perto do rio, ainda que dentro da cidade, junto a algumas vivendas novas e depois de algumas casas antigas. Por lá, encontrámos dezenas de crianças, curiosas pois com estes dois extraterrestres de grandes mochilas às costas e olhos sem ser em bico.

Seguiram-nos, e por entre risos falavam do Ronaldo, e do Figo também. Portugalia, diziam de ouvido em ouvido. E por entre os quintais víamos gente e gente a espreitar. Se a missão era secreta, deixou de o ser. Se o objetivo era passarmos despercebidos, também estava falhado. E restava o receio: receio de que alguém se sentisse intimidado e chamasse a polícia.

Decidimos então mudar de jogo: se perguntássemos a quem por ali nos olhava se o sítio era bom para acampar por uma noite, passaríamos a bola para o outro lado. Poderiam dizer-nos que sim, e chamar a polícia na mesma, claro. Mas era menos óbvio que o fizessem.

Contudo, as primeiras pessoas que abordámos, logo nos convidaram para sua casa. A princípio para por a tenda num quintal. Depois para dormir numa estrutura com cama de rede. E a única pergunta mais séria foi a se tínhamos os passaportes e visto, legais.

A família era grande, e por ser sábado, era dia de festa. E festa que é festa, pede vodka. Muita vodka. Mais vodka. E em resumo, estava o dono da casa bêbedo. Mas não foi por isso que nos recebeu pior ou com menos cuidado. Apresentou a gente da casa, a casa de banho, o chuveiro, os animais e mandou vir comida para a mesa com fartura. Só o tom de voz, esse, é que era pior. Intimidava, mesmo que por entre risos. Pensámos ainda que fosse do álcool ou até mesmo sem querer, pois berrava com entusiasmo cada frase que dizia. Mas pudemos mais tarde perceber que na presença de outras pessoas se continha. E, não bastasse já tamanha generosidade, ainda tinha wifi em casa – da boa!

Pudemos depois descansar e dormir, até no dia seguinte sermos acordados com um valente e sonoro “Tiaga!! Dawai” – pois em russo o “o” tem som de “a”, dizendo também eles “Cristiana Ronalda”! Tínhamos já o pequeno-almoço à nossa espera, típico e delicioso, sem margem para refutas – tal como no dia anterior, tendo-nos nós precavido com a alergia à carne.

Pelo dia fora passeámos com o seu filho e um sobrinho, tendo estes sido uma grande ajuda para voltar a trocar dinheiro no mercado negro e a comprar os bilhetes de comboio. E lá, mais uma vez impera a calma: quase 2 horas de espera com apenas 5 pessoas à nossa frente.

Acabámos depois a dormir a sesta e mais tarde, em casa, a conhecer uma amiga da família, professora de inglês.

Embora não tenhamos percebido o porquê, não fomos convidados a jantar com os amigos da família, tendo-nos eles preparado o jantar numa sala à parte. Mas moído o assunto, acreditamos ter sido por receio de denuncia à polícia – já que é pública a (infeliz) proibição de hospedar turistas…

Mas, desta, tivemos um jantar a dois, calmo e tranquilo.

Amoroso por entre o divagar do nosso namoro.

E na manhã seguinte, no nosso 10° dia no Uzebequistão, dissemos adeus a Nukus e aos seus encantos. Percorremos o bazar da cidade de mochilas às costas e tralhas nas mãos, regateamos, tirámos fotos com as senhoras que nos venderam alperces e fizemos o farnel das próximas 24 horas. E por fim, apanhámos um mashrutka por 5 quilómetros, até à estação.

Mashrutka não é um taxi, nem é uma van: fica-se pelo meio de ambos. Com um tamanho muito catita!

Esperámos pelo comboio, por mais de 3 horas, por entre a antecedência com que devemos chegar e o atraso que depois anunciaram. Só nos restou recordar que em outro qualquer lugar europeu, seria de esperar que todos se indignassem, que reclamassem pelo atraso, exigissem dinheiro ou uma sombra. Até a nós nos deu vontade! Mas aqui, até mesmo quando já nós nos comíamos por dentro, de indignação, as pessoas à nossa volta transpiravam calma. Acreditamos ser uma arte, esta a do saber esperar sem reclamar. E assim fizemos, por entre uma árvore que escolhemos para nos acolher.

Quando o comboio chegou, trazia espaço com fartura. Pudemos instalar as mochilas no sitio certo e tivemos direito a colchão e lençóis lavados para as camas de primeiro andar. E, como bónus, dois lugares com mesa livres para almoçarmos e passarmos parte da tarde. Só já mais à noite, numa nova paragem, a carruagem se encheu de gente. Mas aí, já descansados na cama, embora apanhados de sobressalto, pouco nos incomodou.

A tarde, noite e manhã passaram rápido e sem grande custo, o calor não era tanto assim (ou já nós nos fizemos habituar) e a maior parte do tempo aproveitámos para escrever e dormir! Mas, de nos tirar o sono foi o choque que tivemos relativamente ao lixo: seja nova ou velha, qualquer pessoa agarra no que tem e vai atirando pela janela do comboio em andamento. Seja garrafas ou sacos, embalagens ou restos de comida, vai tudo. E ensinam os avós aos netos como fazê-lo! E dão-se ainda ao luxo de nos olhar como porcos por guardarmos religiosamente o nosso lixo todo num saco de plástico até à chegada.

À chegada, a Samarqant, estávamos sem rumo. Novamente, não tínhamos ninguém para nos hospedar, ou pelo menos até termos saído de casa ninguém nos havia confirmado estadia no couchsurfing. Estávamos então preparados para erguer a nossa tenda pela primeira vez nesta viagem.

Passámos o dia com algum sacrifício por entre o calor, o peso das mochilas e a busca de wifi. A cidade, linda, exigia-nos que nos movêssemos, que a palmilhássemos. Que a quiséssemos visitar. Apanhou-nos de surpresa pela beldade das construções históricas, pela limpeza das ruas, pelo ornamento dos parques. Mas com a carga que trazíamos, a cada 10 minutos de caminhada só conseguíamos desejar por uma sombra e um recanto para parar.

Encontrámos depois, por entre uma zona verdadeiramente turística, um bazar. Uma vez mais, lindo em termos arquitectónicos, mas não tão recheado como outros que pudemos já encontrar. Decidimos visitá-lo à vez depois de encontrarmos um banco para descansar e largar as mochilas: e por entre o tempo de espera um do outro, surgiu conversa com uma vendedora ambulante de lenços e echarpes.

De repente, e sem nos apercebermos, tivemos das partilhas mais bonitas e intensas que pudemos alguma vez viver. Com um nível inglês muito além do que pudemos esperar, e por entre frases carregadas de emoção, descreveu-nos a sua história de vida, reflexa da te todas as mulheres no país. Com pesar e tristeza, não se coibiu de falar de tudo o que a amargura. E até talvez com leveza a mais, face ao que poderíamos imaginar, não teve rodeios. Casou-se jovem, aos 18 anos, tal como a família espera e impõe. As raparigas não estudam, nem devem: porque se forem boas raparigas, depressa se devem casar e de nada lhes serve os estudos para tratar da família. Seguiu então para casa dos sogros, onde passou a trabalhar do nascer ao pôr-do-sol: lava roupa, estende roupa, faz pequeno-almoço, deixa almoço preparado, faz jantar, limpa a casa, trata do quintal, lava a loiça e, rápido, tem muitos filhos e cuida deles. E durante o dia, vai ainda trabalhar – mas neste momento está muito mau, não há turistas e é deles que precisa.

Os sogros, sem trabalho e sempre em casa, exigem desde sempre que tudo seja feito com rapidez e rigor. E, por entre risos, contou até que por uma manhã de cansaço se deixou dormir por uma pouco mais, até por volta das 6 horas, tendo acordado com o cunhado aos gritos mandando-a ir tratar das suas lides. Com um sorriso ainda no rosto, explicou-nos que nesse momento esperou que o marido a defendesse, compreendendo-a cansada: mas não.

Com duas filhas para cuidar, partilhou também – e com rapidez, que são estas as sobreviventes de quatro. A primeira bebé morreu aos 6 meses de gestação e a última morreu também. Não falou de imediato porquê, mas mais à frente tivemos coragem de lhe perguntar. Da primeira gravidez a bebé não sobreviveu por excesso de trabalho, muita carga e falta de descanso. A ultima, foi obrigada a abortar – era mais uma menina e o marido agora quer rapazes. Pudemos mais tarde perceber que, de futuro, as meninas se vão, tal como a mãe, um dia para casa da família dos seus maridos. Já os rapazes, para sempre em casa ficam e sempre alguém trazem para cuidar deles. É a lei da vida por aqui.

E toda esta conversa sempre por entre sorrisos. E muita vontade de falar.

Os nossos corações estavam mais apertados que o dela – isso pudemos senti-lo.

Sonhava um dia poder ir viajar por outros países com o marido, passar tempo com ele longe da vida que traz. Confessou também que agora, por entre o seu dia-a-dia, não tem tempo: e que por isso sabe que o marido vai com outras mulheres. Não concorda, mas assume que nada pode fazer, porque não tem tempo nem para se arranjar pela manhã.

E em pouco mais de 30 minutos tínhamos um relato, para nós doloroso, de uma vida perfeitamente normal por aqui.

Despedimo-nos, gratos pela conversa, pela generosidade. Pela força.

De mochilas novamente as costas, comprámos algumas frutas e pão caseiro para o almoço e seguimos caminho. Os preços por ali muito elevados, mais do dobro face a outras cidades, por ser um local turístico e por não terem na cidade agricultores, importando tudo. Ainda assim, fizemo-nos ao negócio e conseguimos alguns preços mais baixos.

Pela cidade conhecemos dois viajantes, em separado. Um italiano e um francês. O último, praticamente com a mesma rota que nós, mas de bicicleta, ambos inspiradores à sua maneira.

E já mesmo ao final do dia, por entre a nossa busca, encontrámos uma rede wifi aberta! E lá tínhamos à nossa espera a confirmação de um couchsurfer em Samarqant para nos hospedar. Professor universitário,1 de economia, tinha-se registado no site à uma semana. Fomos por isso os seus primeiros hospedes, a sua primeira experiência. Levou-nos a jantar fora e a dormir no seu apartamento na cidade, e por entre o medo da polícia, pediu-nos que fossemos muito discretos em casa. Lá, deixou-nos sozinhos, tendo ir dormir à sua casa de família, onde teria a mulher e filhos à espera. E assim, percebemos que nos hospedou em segredo.

Na manhã seguinte, em pezinhos de lã, saímos do bairro e, com a maior das generosidades, quis dar-nos a provar tudo o que de típico encontrávamos pela cidade.

Começámos por uma pastelaria, onde provámos deliciosos salgados vegetarianos. E seguimos para o mercado. Mas sobre este temos tanto para dizer que é complicado escolher por onde começar! Numa palavra: badalhoquice. Cá vamos.

Pudemos encontrar em todos os mercados rulotes de bebidas. São carrinhos, cada um com a sua especialidade. Sempre que passeamos sozinhos, observamos de longe, mas por norma não chegamos perto. Temos sempre algum receio, nomeadamente no processo de produção da bebida em si, pois a água por aqui não é potável e trazemos alguns recados do nosso médico da consulta do viajante, que pretendemos cumprir. Mas, acompanhados por locais, nem sempre é fácil!

Assim, à chegada, foi-nos comprar uma bebida feita exclusivamente com gelo, onde acrescentam por cima caramelo. E é isto. Adoram por ser refrescante e doce ao mesmo tempo.

Embora em casa fujamos do açúcar, de viagem sabemo-nos muito flexíveis e claro, o que é doce nunca amargou! Mas, e aquele gelo? “Nunca consumam gelo nas ruas”, ouvimos nós no gabinete. O melhor que conseguimos foi um a dividir pelos dois!
Mais à frente, depois de compradas algumas frutas, sempre com a maior das generosidades, quis oferecer-nos uma bebida obtida exclusivamente de amoras. Um líquido preto e, à partida, saudável e saboroso. Mas o pior estava para vir! No fundo dos alguidares das amoras, acumulava-se esse líquido. Com um prato de plástico, tiravam as amoras para sacos de plástico colocados na balança. E em cima do carrinho, tinham 5 copos de vidro de diferentes volumes, desde o cálice ao copo alto: e era com esses copos, de diferentes preços, que apanhavam o líquido do fundo do alguidar, o tal que se bebia. Só que os copos, tal como dissemos, de vidro, nunca eram lavados. O senhor do bigode, chegava, escolhia, bebia, e siga: volta a encher o copo e a bebida está a venda de novo. A senhora dos dentes de ouro e lenço na cabeça, chegava, escolhia, bebia, e siga: a história repetia-se. Era tamanha a badalhoquice e, como que por instinto, conseguimos em segundos dizer que preferíamos provar as amoras inteiras.

Não é fácil. Não é nada fácil explicar que embora viajantes, pretendemos manter alguns cuidados de higiene – até mesmo muitas vezes perante outros viajantes.

Aliás, muitas vezes percebemos que há um desfasamento entre nós e os que nos rodeiam nestas aventuras. Porque sim, gostamos de ter a roupa lavada, de tomar banho todos os dias ou de lavar os dentes tantas vezes quantas consigamos. Gostamos de dormir com pijama lavado, de trocar de roupa interior diariamente ou ter um lençol nosso e lavado para por nos colchões ou nas camas que nos dão. E sabemo-nos olhados como mesquinhas, mas não faz mal!

Sabemo-nos bem assim. E ainda bem que nos temos um ao outro, em sintonia. ❤

Já depois de visitado o mercado, seguimos para as montanhas mais próximas, as 50 quilómetros da cidade, onde visitámos um campo férias onde este couchsurfer já havia trabalhado. Embora com cerca de 600 crianças, depois de conhecermos os monitores, não pudemos deixar de nos lembrar dos nossos tempos de trabalho na CAF da APEECV em Queijas, onde também fomos muito felizes!

E já de tarde regressámos a casa: tivemos depois tempo para reorganizar as nossas mochilas, descansar um pouco e só ao pôr-do-sol fomos sozinhos visitar mais um lindo parque na cidade.

Em casa, tentámos de tudo para ver Portugal jogar. Mas não foi fácil. Sem televisão e com uma internet emprestada por um vizinho, desistimos e ouvimos o relato do jogo pela rádio… mas adormecemos. Acordámos mais tarde com o golo do Nani e percebemos que estávamos então na final! Aconchegámo-nos, virámo-nos para o lado e seguimos sonhos fora.

Na manhã seguinte era dia de seguir para Termez, uma cidade a sul, com fronteira com o Afeganistão. E embora tenhamos tido esperança de que fosse fácil lá chegar, deparámo-nos com um dia à antiga, durante o qual apanhámos 7 boleias: e por cada uma esperámos mais de 1 hora.

Em todas as boleias encontrámos pessoas recheadas de simpatia, mas pelo dia fora houve duas situações que nos marcaram. A primeira que recordamos, marcou-nos porque acabámos a recusar uma boleia: 3 senhores, muito bem parecidos e com um belo carro, falavam connosco de modo exuberado e riam-se de tudo quanto lhes dizíamos. Calculamos pois que estivessem bêbedos. Depois de pararem e de gozarem o prato, seguiram. E mais tarde, ainda nós continuávamos à boleia no mesmo sítio, voltaram dizendo que nos levavam e que iam exatamente para Termez – e foi quando recusámos. As vezes não é fácil, quando estamos à muitas horas para fazer poucos quilómetros, quando vemos as sombras a mudar de posição e nós sempre no mesmo sitio. Mas trata-se de instinto e esse temos de o seguir. É preferível não chegar ao nosso destino, mas estar em segurança.

Já mais tarde, num outro local alguns quilómetros depois, algumas boleias depois, sentimo-nos em Itália. Vimos sol pôr-se. Estivemos várias horas no mesmo sítio, vimos a vida pela aldeia acontecer, e nós sem nos mexermos. Ponderávamos já inclusive onde poderíamos montar a tenda. Até que parou um carro, e de lá saiu um polícia, dizendo – problemas?

Estremecemos dos pés à cabeça. E num segundo, os nossos olhos puderam ver de tudo: passaportes, registos, dinheiro, chatices, corrupção, autocarros, táxis e hotéis.

Respondemos prontamente em russo – niet problema! Mas não convencido, depressa perguntou às pessoas que se começaram a juntar à nossa volta quem éramos e o que estávamos ali a fazer. Foram dizendo que éramos turistas de Portugal, e que estávamos a viajar a pé e ali à espera de um carro no nosso caminho, mas que não tínhamos dinheiro para pagar.

Sabemos bem que tudo na vida se rege pela sinceridade e verdade, mas ali não sabíamos se tinha sido boa opção.

Contudo, no mesmo instante, o trabalho do polícia foi começar a mandar parar carros. Um por um, gritava, gesticulava. Eles encostavam, falava e mandava-os seguir. Até que com uma carrinha das que só por aqui há – as Damas, nos gritou a nós para que entrássemos.

As Damas, são também as carrinhas utilizadas como mashrutkas, e por isso foi imediato pensarmos que talvez estivessem a contar que pagássemos, mas não tínhamos opção. Enfiados ali dentro pela polícia, agradecemos muito e seguimos.

A conversa não foi imediata, os primeiros quilómetros foram maioritariamente em silêncio, mas pouco a pouco, fomo-nos ligando. Eram dois senhores, e já não eram novos. Mas foi talvez o caminho que nos conectou: a estrada, só vendo se crê. Adoraríamos conseguir transpor em palavras a miséria, sem asfalto, sem luz e com dois sentidos, com buracos e montes de areia e pedras, com descidas e subidas, com gravilha e pó. Anti-amortecedores. Anti-carros. Anti-costas. Parecia até que tínhamos entrado no país vizinho! E a melhor forma de classificar: impossível de adormecer.

Foram mais de 2 horas assim, com a coadjuvante de que a cada 30 minutos tínhamos um posto de controlo da polícia (como por todo o Uzbequistão), onde verificam se a pessoa veio em excesso de velocidade (o que no caso era impossível) e se está tudo legalizado. Estes postos dividem regiões, como se em Portugal houvesse na A8 um controlo em Caldas da Rainha, em Torres Vedras, e por aí fora, com o objetivo de manter a segurança e ordem do país. No entanto, dada a proximidade com o Afeganistão, a conversa era mais séria e acrescia o controlo face a drogas.

Sempre pacientes, os nossos condutores, ajudaram-nos sempre que foi preciso declarar os nossos passaportes nesses mesmos postos, esperando com calma e de sorriso no rosto. E já no último posto de controlo, estavam os polícias a ver o jogo do dia anterior, de Portugal contra Wales. E uma vez mais graças ao futebol português se quebrou o gelo.

Já perto da 00h00 chegámos à cidade destino da nossa boleia, mas estávamos ainda a 30 quilómetros de Termez. Sabíamos que tínhamos um couchsurfer maravilhoso e acordado à nossa espera, e por isso fazíamos questão de chegar. Na cidade onde nos encontrávamos, foi a vez dos nossos condutores procurarem por uma boleia para nós, mas sem trânsito e apenas com táxis parados na praça central, depressa percebemos que a missão seria praticamente impossível.

Foi então que num gesto verdadeiramente abençoado decidiram fazer eles próprios de táxi, levar outra pessoa que desejava seguir e oferecer-nos a nós o caminho que restava. E quase sem que pudéssemos acreditar, estávamos a chegar a casa. Seguros, sãos e salvos.

Descansámos que nem anjos, sem que nada nos fizesse despertar. Ainda que o calor fosse muito. Dormimos tanto quanto precisámos, com a certeza de que não poderíamos ter escolhido uma melhor família para nos acolher! E já só à noite, quando as temperaturas eram mais suportáveis, fomos conhecer a cidade e os seus encantos. A verdade é que em Termez, não queríamos acreditar, mas pela localização geográfica, as temperaturas durante o dia variam entre os 50 e os 60 graus. Uma loucura que impede qualquer um de sair durante o dia, e faz com que todos saiam à noite. E à noite que vemos mercados, vendedores, lojas e supermercados, tudo a trabalhar.

Já tarde, cozinhámos à portuguesa, tão bem e com tanto amor quanto sabemos. E sabemos que assim fica de comer e chorar por mais!

Mas foi no dia seguinte que foi difícil de acordar. Era cedo, cedo demais. O calor não cansa, mas mói. E a luz do sol por entre as cortinas da sala não era nada benvinda. Mas teve de ser, e ao segundo despertador começámos o dia. E que dia!

Era pois dia de deixar o Uzbequistão. Era finalmente o dia de chegar à fronteira, de ver como ia desenrolar-se a história dos registos. Será que nos iam pedir os papéis? Será que iam tentar extorquir-nos dinheiro? Será que iam deportar-nos com um carimbo no passaporte?

Embora nenhuma das hipóteses fosse conveniente, só queríamos sentir-nos livres e despacharmo-nos o mais rapidamente possível. Tínhamos um papelinho verde escrito à mão com o nosso roteiro no país e dentro da lei: nunca mais de 72 horas numa região sem registo de hotel. E para evitar maiores confusões, pelo meio dois comboios noturnos. Era esperar para ver.

Passámos o dia à boleia, e se para chegar a Termez não foi fácil, para de lá sair também não.

No primeiro lugar onde nos pusemos à boleia, estivemos mais de 2 horas. Enganados pela sombra de uma árvore, vimos as águas que trazíamos congeladas derreterem. E aquecerem.

Foram vários os carros que pararam esperando de nós dinheiro, e podíamos ver muitos deles a passarem por nós e a voltar para trás na expectativa de que fossemos uma mina de ouro. Depressa se desencantavam e rápido nos deixavam para trás, voltando nós à estaca zero.

Percebíamos ser cada vez mais difícil atravessar as fronteiras no mesmo dia. Mais, não havia qualquer informação online sobre os seus horários, e por isso estávamos sem ideia de como o tudo iria acontecer.

Acabou por parar um carro que nos levou por muitos e bons quilómetros, com apenas um pequeno problema: quis levar-nos a almoçar fora com um amigo, e fez para durar a conversa à mesa. Claro está que temos sempre de contar com estes desvios, mas estávamos em pleno contra-relógio, coisa a que já não estamos habituados.

O nosso coração por norma bate calmo e sereno, e tem sido ele a comandar os nossos dias.

Quando nos deixou, estávamos a 40 quilómetros da fronteira, mas no meio de uma cidade. Caminhámos enquanto a força do corpo nos permitiu, suados e destilados pelo calor e pelas mochilas, até que um taxista – amoroso! nos quis ajudar e nos levou por 2 quilómetros, até à estrada principal.

Aí, caído do céu, parou um camionista Bielorrusso. Falava inglês e ia também para a fronteira. As manhas, sabia-as todas e por isso à chegada tínhamos a lição bem estudada. Era hora de enfrentar as feras.

O primeiro controlo do passaporte fizemos numa verdadeira rulote, com um militar e por entre dezenas de locais que pretendiam também atravessar a fronteira – eram já 18h00 mas estava tudo a funcionar como se cedo fosse.

Caminhámos depois até ao gradeamento e lá encontrámos um militar eximiamente fardado e equipado. Sem rodeios, pediu-nos os passaportes e, sem nos deixar respirar, pediu também os registos.

Baaaammmm.

Tínhamos muita coisa combinada, mas caiu tudo por terra. E a única coisa que conseguimos fazer, foi mantermo-nos firmes. Em cada frase, mostramo-nos tão confiantes quanto soubemos.

Mandaram-nos esperar por duas vezes, e por cada uma vinham 3 e 4 militares, polícias, chefes e chefinhas pedir explicações. Mantivemos sempre o nosso discurso e esperámos sempre descontraídos. Tínhamos mais uma carta no bolso: em última instância, pedir que ligassem para uma embaixada europeia. Mas não foi preciso. A espera foi longa, mas calculamos que unicamente para nos aborrecer.

Carregamos o material e seguimos, aliviados e felizes, com a sensação de missão cumprida!

Os seguintes controlos foram fáceis, nada mais que declarações, mochilas no rx e uma voltinha pelas fotografias do tablet. E o truque é deixar estar por aqui as do casamento: sorriem muito e mandam-nos seguir. Oxalá assim continue, agora que dissemos Olá ao Tajiquistão!

E relembrando-nos nós agora, não podemos deixar de partilhar a mais bela parte que guardamos dos sorrisos até aqui: os dentes de ouro! Lamentamos que arranquem os saudáveis para os pôr reluzentes, mas lá que é uma moda vistosa, é! E rica também.

Como todas as recordações que guardamos: ricas.
Como cada vez mais nos sentimos, dia após dia, com o mundo na mão.

E COM PORTUGAL CAMPEÃO! 🌏❤

2016-07-10 14.59.002016-07-10 15.42.262016-07-10 15.35.482016-07-10 15.18.122016-07-10 15.34.242016-07-10 15.34.562016-07-10 15.20.342016-07-10 15.22.102016-07-10 15.34.022016-07-10 15.44.012016-07-10 15.41.152016-07-10 15.43.152016-07-10 15.45.022016-07-10 15.00.492016-07-10 15.36.562016-07-10 15.23.432016-07-10 15.23.002016-07-10 15.37.502016-07-10 15.45.522016-07-10 15.26.522016-07-10 15.30.522016-07-10 15.27.382016-07-10 15.33.412016-07-10 15.42.072016-07-10 15.39.112016-07-10 15.02.07

lado secreto: Turquemenistão

Por entre a vantagem que é saber que temos sempre um novo país à nossa espera, depois de 30 dias no Irão, foi difícil sair do país sem que este deixasse saudade: na verdade, habituámo-nos às pessoas e aos seus costumes, como sempre, mas era hora de seguir.

E deixamo-nos levar: sabemos sempre que há algo de bom do outro lado.

Conseguimos um visto de cinco dias para o Turquemenistão, com obrigatoriedade de cruzar a fronteira em Bajgiran. Um visto caríssimo e difícil de obter, mas tivemos a sorte do nosso lado. Tínhamos por isso de 21 a 25 de junho, datas definidas.

Atravessámos do Irão para o Turquemenistão e, depois de passarmos a fronteira, fomos obrigados a apanhar um autocarro até ao final da fronteira militar. Não fomos sujeitos a nenhum tipo de revista, mas levaram pelo menos 3 horas para nos deixarem passar. E os nossos passaportes passaram pela mão de pelo menos 5 policias .

Depois, saturados mas felizes, andámos 5 dolorosos quilómetros até à primeira paragem de autocarro urbano (que custou a módica quantia de 0,07€ por 15 quilómetros). Muito sol, um calor soberbo. E pelo caminho ainda tentámos apanhar boleia, mas só havia táxis neste percurso.

Então fizemo-nos fortes. E seguimos.

Com muito cansaço e pouca informação concreta sobre o país, quando chegámos a Ashgabat – a capital, a surpresa foi imediata. Tudo minuciosamente desenhado, edifícios enormes e imponentes, estradas maravilhosamente arranjadas. Tudo limpo, detalhadamente arranjado. Canteiros, flores, árvores. Candeeiros indescritíveis, paralelamente organizados. Uma cidade branca. E assim, recém chegados, parecia que tínhamos dado a volta ao mundo e aterrado bem longe, num poço de riqueza.

Estávamos incrédulos.

Os prédios, forrados a mármore. As estátuas, em ouro. Pelas ruas, polícias em cada esquina, paragens de autocarro com ar condicionado e televisão. E pessoas por todo o lado a limpar: vimos de tudo um pouco, desde a retocar os bancos de jardim a pincel, a limpar as fontes ou quaisquer resíduos de partilha elástica dos passeios. E uma vez mais, tudo branquinho, com pormenores em ouro.

Até os autocarros eram lindos.

Mas turistas, nem por sombras.

Encontrámos por entre as ruas desenhadas e os parques majestosos o nosso couchsurfer e deixámos as mochilas no seu carro. Fomos passear pela cidade, deslumbrados e acabámos a dormitar, à vez, num banco de jardim. E mesmo à sombra, sempre a suar.

Já de noite, fomos para casa. Lá, ficámos chocados: os filhos pareciam criados, a trabalhar exaustivamente. Limparam o jardim, lavaram as escadas, prepararam a mesa, trouxeram o jantar, levantaram a loiça e não pararam enquanto não tiveram autorização. E no fim, nem eles nem a mulher puderam jantar connosco, tendo jantado numa divisão à parte.

Com alguma estranheza, pudemos mais tarde vir a perceber que culturalmente nunca a mulher deve fazer as refeições junto do marido quando há convidados. E que nada de anormal aconteceu com as crianças, sendo socialmente expectável que ajudem os pais em tudo.

À noite, dormimos no jardim. Tínhamos combinado que montaríamos a tenda, mas tendo em conta a estrutura de madeira que todos têm nos seus jardins para beber chá, coberta com carpetes, decidimos apenas pendurar a rede mosquiteira.

Embora a família nos tivesse acolhido de uma forma muito querida, foi ao mesmo tempo muito estranho e constrangedor terem uma casa tão grande, com uma sala espaçosa e por ocupar, e terem-nos deixado a dormir na rua; mas o calor era tanto que não houve problema. E decerto aqui nada mais se trata senão de um desfasamento cultural.

Na manhã seguinte, pelas 7h00 tocou o despertador. O cansaço era tanto que nem a luz do dia nos despertou mais cedo. Tínhamos de nos despachar para ir para a cidade, de boleia com a família, pois estávamos distantes do centro.

Embora exaustos, visitámos os bazares da cidade. Pelas ruas, não se via comércio: há locais específicos para isso. E num deles, fomos até obrigados a apagar as fotografias que havíamos tirado.

Absorvidos pela ditadura, vivem o medo dos comentários e também das fotografias. Porque não nos podemos nunca esquecer de que o Turquemenistão é o segundo país do mundo com uma ditadura mais repressiva, depois da Coreia do Norte.

Neste lustre país, o antigo presidente deu-se até ao luxo de erguer a sua própria estátua em vida, e não só. Mudou também o nome das ruas e os meses do ano, para nomes dos seus familiares e de si próprio. Contudo, hoje em dia, depois de ter já falecido, os nomes dos meses estão restabelecidos.

Mais à tarde, ligámos a outro couchsurfer que se mostrou interessado em mostrar-nos a cidade, mesmo não tido oportunidade de nos hospedar! De carro, levou-nos a visitar todos os edifícios famosos e um miradouro; e partilhou ainda algumas das tradições mais comuns no país. Entre dentes, comentou a política, as vestes, atitudes e hábitos, o policiamento e algumas regras.

Já de noite, voltámos a casa para jantar e dormir (no jardim), e embora mais fresco de noite, ficámos bem!

Aliás, quem é que no abraço quente de quem ama, não fica bem?

E na manhã seguinte, partimos. Partimos de Ashgabat para Mary.

Era a primeira vez, oficialmente, que estávamos a boleia no país. E as borboletas no estômago eram mais que muitas. Não éramos fugitivos, nem estávamos a fazer nada de ilegal, mas a verdade é que tivemos de andar a fugir da polícia – apenas e só com receio de que nos fossem pedir dinheiro por andarmos à boleia. A corrupção é elevada e de conhecimento publico, e sabíamo-nos alvos fáceis. Mas o único polícia que nos abordou, quis apenas aconselhar-nos de algo. Só não percebemos o quê, dada a barreira linguística. Mas demos cordas aos pés, e pusemo-nos a andar.

Estivemos mais de 2 horas à boleia, por entre o sol e um calor insuportável, logo pela manhã. Um suplício. O suor marcava as nossas t-shirts, como se já do final do dia se tratasse.

Até que conseguimos boleia. Boleia de um ministro! Levou-nos mesmo até à entrada da cidade onde o nosso couchsurfer vivia, mas não sem antes ter sido mandado parar pela polícia por alegado excesso de velocidade e ter tentado pagar por fora. E assim vive e sobrevive a história do suborno-feliz.

Já perto das 16h00 chegámos e tínhamos um típico almoço à nossa espera. Que embora numa casa antiga, com uma casa de banho apetrechada com um buraco no chão; recheada de pessoas muito carinhosas.

Ao final do dia, já com temperaturas respiráveis, fomos passear. Este nosso novo amigo, com um jeito especial de pensar (que nos fez a nós questionar), levou-nos aos mais belos recantos da antiguidade de Merv, em Mary. E juntos, no topo de uma montanha no deserto, assistimos ao mais divino pôr-do-sol dos últimos tempos!

Com tanto de romântico.

De volta a casa, por segundos, cruzámo-nos com um ciclista carregado de malas: um viajante, portanto! E de tão raro, voltámos a trás. Vindo da Alemanha, procurava um local para a acampar de noite. E foi então que o nosso couchsurfer, de coração grande, o convidou para ficar connosco também. Acabámos então o serão com um jantar delicioso, com iguarias locais vegetarianas: de comer e chorar por mais!

Mas no dia seguinte, era hora de partir. Tomámos o pequeno-almoço juntos, e seguimos rumo a Turkmenabat, perto já da fronteira. A realidade é que 5 dias para conhecer e atravessar um país é uma verdadeira loucura. Ainda assim, temos de estar gratos aos anjos e aos astros. E a todos os que torcem por nós: porque são poucos aqueles que vêm concedida esta oportunidade, este visto.

Depois de mais uma pequena longa caminhada debaixo de sol intenso, conseguimos uma boleia até ao início da autoestrada, com dois senhores locais e muito castiços, com um carro mais que velhote – daqueles que depressa dizemos que não chega nem ao Painho ; e logo outra mesmo até ao destino. Esta última, com um senhor generoso e calmo, que nos quis até oferecer leite de camelo, mas que com respeito aceitou a nossa recusa, por entre o deserto, muito calor, sem ar condicionado no carro e muitos, muitos camelos pelo caminho.

O nosso couchsurfer foi-nos buscar à chegada. E depois de um banho, levou-nos a almoçar fora, a um delicioso buffet. Eram 17h00, e do restaurante seguimos para casa da sogra, que nos havia preparado um lanche. Eram então 18h00. E depois, mal chegámos a casa, pouco depois das 19h00, tínhamos o jantar na mesa. Tudo vegetariano, mas uma loucura de tanta comida! Se por um lado, o verdadeiro acolhimento à portuguesa, por outra, estávamos que já nem podíamos!

Mas para desmoer, ficaram os homens em casa e foram as meninas passear. Por entre-paredes, o serão fez-se por entre conversas, partilhas e vídeo jogos. Pela rua, palmilhou-se o bairro. Conheceram-se as amigas, as amigas das amigas, a modista, a senhora do mini-mercado e quem mais passasse. E já depois do anoitecer, fez-se um passeio pelo mais bonito parque da cidade: uma volta na roda gigante, uma viagem de gaivota pelo lago iluminado. Muitos sorrisos. E muita partilha cultural.

Pelo parque, mulheres nos seus trajes típicos: longos vestidos, de tecidos variados e lindíssimos. Floridos ou com diferentes padrões, praticamente até ao chão. Pudemos aprender que mulheres com lenço na cabeça, são casadas. Também segundo as tradições do país, por baixo do lenço da cabeça, põe uma estrutura de esponja para fazer altura e tornar o casamento vistoso. Gostam pois de dar nas vistas, e se possível, utilizar também grandes brincos e anéis de ouro. E dentes também de ouro: não só um, mas vários ou todos na boca (como por toda a Ásia Central, talvez).

Mas as tradições relativas à virilidade masculina foram as mais espantosas (mas nada inesperados): a homossexualidade é proibida. Quantos aos casais heterossexuais, depois do casamento, devem ir viver para casa dos pais do marido até que o irmão mais novo se case, e assim substitua os serviços da cunhada. Até lá, à mulher, cabe-lhe cuidar da casa, dos sogros, dos vários filhos que deve ter e ainda trabalhar onde o marido achar por bem. E vivem felizes assim, reconhecendo que o trabalho é muito e desgastante; mas que a vida é assim.

E no dia seguinte, na hora da despedida, tínhamos mais um quilos extra nas mochilas, por entre prendas e souvenirs. Nem sempre é fácil explicarmos que tudo o que nos dão, teremos de carregar às costas. Principalmente quando a comunicação é básica e o carinho enorme.

Até à fronteira, levou-nos o couchsurfer que nos hospedou. E já lá, voltámos a ser forçados a apanhar um autocarro, ainda em terra turquemena. Quando chegados ao edifício fronteiriço, onde só queremos receber o carimbo de saída do país no passaporte, fizeram-nos preencher um formulário e quiseram revistar-nos. Não foi uma revista exaustiva, mas aperta sempre o coração. As mochilas grandes bastou-lhes um olhar superficial, depois de perguntaram várias vezes se por baixo era só roupa. Já o nosso saco das ciganadas, o que habitualmente trazemos na mão com comida ou outras tralhas, esse foi despejado. E depois: fotografias. Começámos por mostrar a gopro e fazê-los ver que eram só vídeos e nenhum do país. Mas não satisfeitos, pediram por mais. Embaraçados, entregámos o telefone com a pasta das imagens aberta. Lá, tudo o que tínhamos eram parques e selfies. E com tanta coisa, esqueceram-se de revistar uma das mochilas pequenas, onde estava a verdadeira câmara fotográfica.

Ufff.

Gostaríamos de dizer que não tínhamos lá nada de ilegal, mas tirámos algumas fotos de locais públicos e poderiam fazer-nos apagá-las. Passar fronteiras é sempre um momento de tensão: mas passar fronteiras na Ásia Central é também um verdadeiro jogo de paciência. É de brandar aos céus.

E até à linha final da área delimitada militarmente, tivemos novamente de apanhar um autocarro. Não que sejam dispendiosos, mas o caráter de obrigatoriedade tira qualquer um do serio, até porque as distâncias eram curtas e caminhar estaria ao alcance de qualquer um.

E chegámos então à fronteira do Uzebequistão!

Da nossa estadia no Turquemenistão registámos muitos momentos, muitas aprendizagens. Mas a primeira coisa que nos ocorre dizer, é que é um país louco. E, sejamos sinceros, lindo.

Ainda assim, no que respeita à vida e ao dia-a-dia, guardamos que têm horários parecidos com os nossos e, tal como nós, cozinham com muito tomate e arroz. Descobrimos que uma bebida típica é o sumo obtido quando se cozem maçãs, e a fruta de eleição no verão é o melão. Bebem chá verde várias vezes ao dia, mesmo quando estão quase quarenta graus – o que já nem estranhamos! O pão é muito diferente e as compotas também. Mas o mais invulgar mesmo foi ver o leite de camelo.

Quanto a fumar, é proibido! E por isso vimos fazerem-no às escondidas. Às 22h00 ouvimos e vimos a polícia pelas ruas, exigindo o recolher. Talvez tenha sido esta uma das vivências mais impressionantes e claras da ditadura existente, não esquecendo nunca de que durante o dia e em cada esquina encontrámos sempre policias.

Mas é assim, de estranhezas, curiosidades, questionamentos e graças que se faz uma viagem pelo mundo. E quase de repente, e num piscar de olhos, deixamos todas as novidades às quais já nos habituámos, e recomeçamos do zero.

E levamos o que podemos levar: um ao outro, e o mundo na mão. Por entre sorrisos. E memórias cravadas no coração. Para sempre.

 

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diário pela antiga Pérsia

REPÚBLICA ISLÂMICA DO IRÃO

Visto 30 dias
Entrada 23 maio
Saída 21 junho

39 boleias
4128 quilómetros

Dia 1 – 23 maio

Partimos de Yerevan, na Arménia, com rumo ao Irão.
Saímos já mais tarde que cedo, e sabíamos ainda assim que tínhamos um longo dia pela frente. O objetivo era chegar a Tabriz – estávamos por isso a 500 de distância, longos, tendo em conta que por cada 100 quilómetros levávamos quase de 2 horas na estrada, montanha acima, montanha abaixo.
Apanhámos no total deste dia 5 boleias: A primeira, com uma família que ia para a sua quinta. De sorrisos fáceis, convidaram-nos para ir também. Logo depois, quase gerando um acidente e uma luta, parou um casal que nos levou muitos quilómetros. Pelo caminho, ofereceram-nos frutas, doces, bebidas e tudo do melhor. E já quase pelo final, ainda pararam para visitar um camarada do tempo do serviço militar. Falava francês e recebeu-nos de mesa cheia! A terceira boleia foi com um senhor com carro importado, como tantos, com o volante lado direito. Quando nos apanhou estávamos já estoirados, depois de atravessarmos uma pequena cidade a pé. Quando nos deixou, apanhou-nos uma Van, privada com serviço de autocarro. Ajudaram-nos a chegar a próxima cidade! Lá, um homem parou oferecendo-se como um táxi. Recusámos e explicámos porquê, mas logo depois ofereceu-se para nos levar a mesma. Foi estranho, mas aceitámos. Mas mais estranho foi pelo caminho. Sempre de olhos postos em nós, pouco falador e pouco comunicativo. Pelo caminho, apanhou outro homem, que sem dar tempo para trocas, se sentou no banco de trás. O caminho durou mais de 2 horas e as estrelas já brilhavam no céu. Sentíamos os nossos corações palpitar e queríamos só chegar ao local acordado. E chegámos. E foi lá que apanhámos a última boleia do dia, mesmo sem sabermos que assim seria. Um senhor dócil e simpático, que acabou por nos deixar na fronteira.
Estávamos muito tensos pela quarta boleia, tinha sido tudo muito estranho e sentíamo-nos desconectados do mundo. Mas na fronteira, embora já de noite, decidimos atravessar.
A travessia correu bem. Do lado da Arménia levaram 20 minutos a inspecionar os nossos passaportes. Vieram 3 guardas diferentes para os controlar, e no fim ainda tivemos direito a um micro-interrogatório (acreditamos que por brincadeira e só para chatear). As perguntas desnecessárias, feitas em separado e sem intuito, fizeram-nos perceber que de nada se tratava.
Do lado do Irão, atravessámos cada posto com um sorriso de volta – e tanto que precisávamos deles! Acabámos depois por ficar a dormir na fronteira, a convite do controlador que falava turco. Mas antes, conhecemos um casal de Chalus, do norte do Irão; doces e recém-casados, ofereceram-nos jantar, sobremesa, sumos, tâmaras e pistachos. Ajudaram-nos e trocámos contactos. No fundo, foram a lufada de ar fresco de que precisávamos! As horas anteriores não tinham sido fáceis. Não chegar ao destino, não é fácil. Chegar a um país com uma cultura tão diferente e com tantas restrições para as mulheres também não. No fundo, estávamos confusos. Trazíamos um turbilhão de emoções em nós.
Dormimos então na sala de reza feminina, juntos mas separados. Um sono de pouco mais de 4 horas. Reticente. Mas seguro. E mesmo sem nos tocarmos, os nossos olhares diziam tudo; felizes na certeza de nos termos um ao outro.

Dia 2 – 24 maio

Pela manhã acordámos em pés de lã. Não sabíamos ainda bem como trabalhava este mundo desconhecido, mas sentíamos algum desconforto por termos dormido os dois na sala de reza que pertence às mulheres e que é vedada ao olhar de qualquer homem. Ao mesmo tempo, sabíamo-nos mais tranquilos.
O controlador, dócil e amável, ofereceu-nos o pequeno-almoço e a primeira boleia do dia, até Julfa – a primeira cidade que pisámos. Mas ali, estivemos quase 30 minutos em negociações: depois de na fronteira termos explicado por várias vezes a forma como viajávamos, foi difícil que nos deixasse seguir. Quis por tudo enfiar-nos num táxi! Achou por fim que o problema seria dinheiro, e assim ofereceu-se também para o pagar. Foi árduo e penoso, não queríamos ser mal educados ou desprezar a sua boa vontade, mas acabámos por nos sentir cansados, e alegámos por fim não gostar de táxis. Começou depois o discurso em como os táxis são seguros no Irão e um role mais de argumentos, tudo para nos demover da ideia de andar à boleia. Mas não conseguiu. E nós conseguimos seguir viagem!
Contudo, foi um dia de perfeito de desespero. De angústia. No decorrer do dia, apanhámos 3 boleias: A primeira com um rapaz novo, que embora pouco conversador, se mostrou interessado em ajudar dois turistas, tendo-nos deixado à entrada da estrada que seguia no nosso sentido, mas não sem antes um role infindável de taxistas ter parado à nossa frente. Aqui, foi a loucura. Havia muito trânsito, e os carros buzinavam. E um por um, iam parando, oferecendo serviço de táxi. À medida que iam parando, formavam-se filas de carros, e instalava-se o caus. É difícil de descrever, mas a pressão era muito. Falavam rápido e em farsi, diziam repetidamente táxi e autobus, e não desarredavam pé até sentirem que nos tinham ajudado. Chegámos a ter 20 pessoas à nossa volta, a falar umas por cima das outras e nós sem conseguirmos explicar o nosso objetivo: apanhar uma boleia! Entretanto, também das lojas e minimercados, começaram a vir pessoas. Inacreditável. Até que sem percebermos como, conseguimos uma boleia de um senhor, amigo de um outro que estava no meio da rua. E seguimos, exaustos. A última boleia, já numa cidade perto de Tabriz, foi mais natural. Claro que voltámos a sentir-nos tensos com as pessoas à nossa volta a tentar – nos ajudar e nós sem nos conseguirmos explicar, mas decorreu com mais tranquilidade. Parou um senhor que, depois de lhe termos mostrado o nosso papel mágico (escrito em farsi e que diz, resumidamente, “Senhor condutor, se for na nossa direção e puder levar-nos sem cobrar dinheiro, ficaremos gratos”) andou connosco às voltas, e mais voltas, até encontrar a casa do nosso primeiro couchsurfer, que estava até ao final do dia a trabalhar.
Assim, já em casa, conhecemos os seus amigos durante a tarde, deram-nos chá e acesso à internet. A casa era um verdadeiro caus: cobertores, colchões, roupa suja, loiça, comida, tudo a monte. Não havia quartos, apenas um espaço. E a casa de banho ficava na rua. Não que nos tenhamos deixar impressionar, mas a sensação era a de chegada a um terceiro mundo. Quando o nosso couchsurfer finalmente chegou, foi muito estranho. Ficou desassossegado e aborrecido por termos tido acesso à internet e, mais inquietador ainda, quis levar-nos à polícia para que assinássemos um papel em como éramos seus hospedes. Ficámos desconfiados e muito desconfortáveis: tão desconfortáveis que não precisávamos de falar, os nossos olhares bastavam-nos para nos sabermos em sintonia. E por isso, questionámos o porquê. Mentiu-nos, sem hesitar, dizendo que a polícia tinha contactado todos os couchsurfers registados. Percebemos que não tinha qualquer fundamento, mas voltou a meter os pés pelas mãos dizendo que tinha o seu número no seu perfil. Decidimos ir embora. Não fazia sentido continuar assim, a partilhar o tempo assim.
Metemos as mochilas às costas e saímos. Não tínhamos um rumo definido, mas a primeira coisa que fizemos foi ir trocar dinheiro – no Irão não há possibilidade de acesso a contas estrangeiras, os cartões tão pura e simplesmente não funcionam. E portanto, prevenimo-nos trazendo euros e dólares. E decidimos seguir para a morada que um outro couchsurfer nos tinha dado, com o intuito de nos hospedar mais tarde. Estávamos cansados, desiludidos e nervosos: queríamos só um porto de abrigo.
No autocarro, que para nosso espanto nos custou 0,12€, conhecemos dois senhores, que nos ajudaram tanto quanto puderam. Um deles, foi buscar o seu carro para nos levar à porta de casa à chegada à paragem depois de 30 quilómetros. O outro, queria que fossemos para sua casa beber chá.
À chegada a casa do novo couchsurfer, o alívio instalou-se em nós. Os sorrisos sinceros, a humildade, a simpatia. A simplicidade. Dois irmãos, uma casa normal (rodeada de carpetes) e limpa. E sossegada. Prepararam-nos o jantar e pudemos respirar, enfim, em paz.

Dia 3 – 25 maio

Deixámo-nos dormir tanto quanto precisávamos, descansámos o corpo e a alma. Recarregámos energias e voltámos a apaixonar-nos pelos sonhos que trazemos. E saímos para passear. À boleia com um dos irmãos que nos hospedava, fomos até Kandovan: uma cidade construída nas montanhas, nas rochas. Casas, lojas, vida. Uma vida muito diferente, muito especial. E já ao final do dia, como a quarta das boleias, levou-nos uma família que viajava de férias. Uma delícia de gente: bem como nos ensinam, pararam pelo caminho, esticaram as mantas pelo chão, tiraram a botija e em cinco minutos tínhamos um banquete!
E assim fizemos do nosso dia, o primeiro verdadeiro dia de turistas: porque viajantes somos sempre!

Dia 4 – 26 maio

Após duas noites de conforto, partimos para Zanjan. Tomámos ainda o pequeno-almoço em casa, como pelo Irão se quer: lavash (um pão que mais parece um crepe gigante) e muito chá, e logo depois apanhámos um novo autocarro para sair da cidade.
Ainda pouco certos de como iria correr, levámos connosco uma placa já escrita em farsi e muitas borboletas no estômago. É tão duro quanto se possa imaginar, não conseguir comunicar. E mais ainda quando nos querem ajudar, mas não queremos aceitar o tipo de ajuda.
Por entre muita calma e perseverança, apanhámos até ao nosso destino 4 boleias: A primeira, acabou por ser de um taxista, que por entre gestos e teatros nos entendeu e nos quis ajudar a chegar mais adiante. Mas no lugar em que nos deixou, pararam vários carros e voltou a instalar-se o caus. Falavam uns por cima dos outros e foi trabalhoso desenvencilharmo-nos. Até encontrarmos um jovem, acompanhado pela sua mãe, falando ambos inglês. Vestidos de preto dos pés à cabeça, explicaram-nos já dentro do carro que estavam de luto pelo pai e marido, pelo irmão e respetivo filho. Ainda assim, com um coração de ouro, ajudaram-nos a seguir caminho, levando-nos até à autoestrada. Lá, quis-nos levar um senhor que não nos levou a lado nenhum, acabando por nos deixar praticamente no mesmo sitio, mas muito feliz por nos conhecer. Por fim, entusiasmados e radiantes, pararam dois senhores de Teerão, e que portanto iam na nossa direção. Pelo caminho, pararam para nos mostrar as montanhas coloridas e também para beber chá. Levaram-nos depois até casa da nossa nova couchsurfer – e para isso, andaram mais de 20 minutos às voltas com o carro, sabendo nós que a pé não demoraríamos mais de 5 minutos. Mas no Irão é assim, a hospitalidade é tanta que só quando nos sabem bem, e em casa, é que descansam!
E já no nosso novo lar, tivemos uma casa só para nós: embora fora em trabalho, a nossa couchsurfer deixou as chaves, e a família encarregou-se de nos abrir a porta e de nos receber. Gratidão transbordava em nós, felizes depois de chegados.

Dia 5 – 27 maio

Com a casa para nós, aproveitámos para gerir o dia como gostamos, entre cozinhados improvisados e música durante o duche! E pelo meio, encontrámos o sobrinho da nossa couchsurfer, com quem palmilhámos a pequena cidade. Era sexta-feira, o que equivale a um domingo pelo Irão: dia de ir rezar, dia de descanso. E, por isso, praticamente tudo fechado. Professor de inglês, permitiu-nos aprender muito sobre o país e a sua cultura.

Dia 6 – 28 maio

Com já tudo aberto pelas ruas foras, decidimos sair pouco depois da hora de almoço para visitar o mercado tradicional da cidade. Mas não sem antes darmos as boas vindas a um viajante de Itália, que ainda mesmo de nós sabermos, se iria instalar connosco! Mundo curioso este!
Já ao final do dia, fomos assistir e participar na aula de inglês do sobrinho da nossa couchsurfer a seu convite. E mais à noite, por entre o jantar e o arrumar das mochilas, conhecemos a dona da casa, que havia acabado de chegar. De tom de voz dócil, pequenina e já mais velhinha, deixou-nos admirar como é sempre tempo para conhecer e para partilhar.

Dia 7 – 29 maio

Antes de nos fazermos à estrada de novo, com rumo a Teerão, fizemos um verdadeiro banquete para o pequeno-almoço. E na hora da despedida, recebemos uma prenda: uma caneta especial, para futuro registo de emoções em viagem, pela nossa generosidade. E aí, caiu-nos tudo: como é possível que nos tenham hospedado, recebido e ainda agradecido?
Mochilas às costas e fizemo-nos ao caminho. O calor sentia-se por entre o suor que se acumulava nos nossos pescoços. E no cansaço que tão facilmente se fazia sentir no nosso corpo.
Por entre recusas de táxis, parou um ciclista, vibrante e caloroso! Conversámos por 5 minutos, registámos o momento numa fotografia e seguimos!
Até Teerão acabámos por apanhar 4 boleias: A primeira foi de um senhor que nos deixou na entrada da autoestrada, exatamente onde precisávamos, muito feliz por nos conhecer – o que percebemos claramente quando disse por repetidas vezes ‘Cristiano Ronaldo, Carlos Queiroz’! E assim nos despedimos. Ali, não levamos mais de 5 minutos até para um camião, com um jovem que chamava por ‘Mr.Tiago’ sempre que a nós se queria dirigir. Não entendeu bem o conceito da nossa viagem, por mais que lho tentássemos explicar. Mostrámos-lhe o papel mágico e até encontrámos num dicionário que por lá tinha, com a tradução de “hitchhiking” para farsi, e já quando estávamos crentes de que havia percebido, perguntou-nos se era para nos deixar na estação de autocarros da cidade para onde seguia. Sorrimos e descemos ainda na autoestrada. Lá apanhámos uma boleia de mais um senhor de meia idade, pouco conversador, mas atencioso, tendo-nos deixado uns quilómetros mais à frente. E aí sim, entrámos no último carro do dia: já mais que meio desejosos de chegar a casa, de largar mochilas e sacos, tirar roupa e hijab. Com ar de fanfarrão, contou-nos que tinha loja em Bangkok e que teria gosto em encontrar-nos lá um dia. E chegámos a Teerão – no ar, além do calor, sentia-se a poluição e o ar pesado, digno de uma capital.
Já em casa da nossa nova couchsurfer, jantámos, rimos, conversámos e partilhámos hábitos entre as nossas culturas. Foi ela, a primeira a deixar-nos entrar na sua cultura, sem constrangimentos. Tivemos direito a perguntar tudo sobre tudo: por entre a curiosidade e a ânsia que trazíamos em nós (partilhado no post anterior). E quando nos fomos deitar, era já tarde. Tarde demais para quem no dia seguinte tinha tanto para palmilhar.

Dia 8 – 30 maio

Às 6h50 soou o despertador. Os raios de sol rompiam já altos pela janela da sala. E as nossas costas estalavam: dormir no chão com um colchão feito à mão e envolto de tecido tornou-se um hábito, mas acordar cedo jamais poderá tornar-se.
A primeira embaixada a que fomos foi a do Turquemenistão: a do país que se segue na nossa rota. Lá, conhecemos vários viajantes! E entre nós , ajudamo-nos tanto quanto pudemos, ou a causa não fosse a mesma. Primeiro, um casal da Austrália e, depois, um rapariga francesa. E até pela janela da embaixada aceitarem todos os nossos papéis e formulários, os nossos corações vivem momentos de aperto. Mas no fim, aprendemos, corre sempre tudo bem, acabada sempre tudo em bem. (E se ainda não está bem, é porque ainda não terminou).
Pela tarde fora, passeámos com a nova amiga de França e cruzámos o centro da cidade, ruas movimentadas e o mercado moderno. E visitámos ainda, com alegria e amor à camisola, a nossa embaixada – a embaixada de Portugal. Confessamos ter sido uma delícia falar português, ter sido uma delícia ser tão bem recebidos. E de lá, trouxemos duas cartas de recomendação e suporte, um para a embaixada da China e outra para o Tajiquistão. E ainda o número de telefone da nossa embaixadora, que amorosa e delicadamente, nos deixou à vontade para a contactarmos a qualquer hora do dia, ou da noite, em caso de necessidade.
De regresso a casa, sentimo-nos impotentes – o corpo exigia-nos uma sesta. Só mais tarde, recuperados, preparámos o jantar. E para nossa surpresa, tínhamos mais uma prima à mesa: surpresa pela pessoa que pudemos conhecer. De sorriso na alma, de bem com a vida, partilhou a sua história sem receios, a sua vida outrora estritamente religiosa e o seu dia-a-dia hoje, longe e discente. Uma vez mais, perguntas atrás de perguntas, não a deixámos descansar enquanto não nos vimos esclarecidos. Foi um mundo posto em cima da mesa, uma vida sem medos, uma partilha intensa.
E o relógio marcava 2h00, quando sabíamos que tínhamos os formulários das próximas embaixadas para preencher. Mas desistimos: o sono venceu-nos, e por ente quatro paredes e o nosso lençol verde alface, abraçámo-nos e não resistimos aos sonhos.

Dia 9 – 31 maio

Quando nos tivemos de levantar as 8h00 parecia ser mentira. Mas tinha de ser. Primeiro, porque tivemos oportunidade ir a casa da prima da nossa couchsurfer lavar roupa; e não menos importante, em segundo lugar, tínhamos por preencher os papéis para embaixada da China. Pela internet, encontrámos relatos de quão difícil é o pedido deste visto: exigem bilhetes de avião, marcações de hotel, carta de emprego, carta de recomendação, …. Enfim, um mundo de papelada. Tratámos de tudo durante a manhã, e já meio a correr, chegámos a tempo. Mas nada do que havíamos lido se aplicou: fomos recebidos com sorrisos, e depois de dizermos o nosso país de origem, limitaram-se a pedir-nos os formulários, os passaportes e a carta de recomendação da embaixada portuguesa. De espanto, quem sabe, ainda nos questionaram se ao invés de um visto de 30 dias, não gostaríamos de 60. E assim foi: fácil e sem problemas, como nunca pudemos imaginar. Combinámos pois levantar o visto em 10 dias, mas dali trazíamos já a confirmação de que tínhamos sido aceites – e leveza foi tudo o que pudemos sentir.
De mão dada, ficámos frescos que nem alfaces, prontos para o que havia ainda de vir!
Acabámos ainda por ir até à embaixada do Tajiquistão saber como trabalhavam, e com todas as informações recolhidas, rumámos a casa. Mais que exaustos. E para não falharmos em nada (quem nem trabalhadores), conhecemos o caus do metro de Teerão na hora de ponta.
Acabámos mais tarde a nossa noite, com um amigo da nossa couchsurfer, todos juntos, no Roof of Tehran: um miradouro, a norte da cidade, de onde se pode ter noção da sua imensidão (é de sublinhar que apenas e só na cidade de Teerão vivem 10 milhões de pessoas, o equivalente a Portugal continental! Dá para imaginar?).

Dia 10 – 1 junho

Teve tanto de doloroso acordar cedo, como ir à embaixada do Tajiquistão pela manhã, com tanto calor e sem autocarros, com mais de 3 quilómetros sempre sempre a subir. Lá, acabou por correr tudo bem, sendo que ficámos de levantar os vistos em 10 dias. Posto isto, e sempre a pé por entre embaixadas, seguimos para a da China, de forma a pagar os vistos, uma vez que não o tínhamos conseguido fazer aquando o pedido dada a hora já tardia.
Acabámos por fazer de tomate e pepino o nosso almoço e continuámos a nossa linda saga, desta rumo à embaixada do Cazaquistão. Também lá correu tudo muito bem, com a diferença de que fomos muito bem recebidos!
Exaustos. Já fartos de Teerão e da sua confusão. Cansados. Com o corpo e a mente a pedir descanso. Mas o dia ainda não tinha chegado ao fim: havia aqui pelo meio da história deste dia, um dente molar partido, e foi por isso ainda tempo de ir procurar a clínica dentária que nos aconselharam. E agora, é só dar asas à imaginação para prever como correu: primeiro, o dentista não falavam inglês; depois, era o dentista o único médico da clinica; por fim conseguimos uma assistente para fazer de tradutora – e diga-se de verdade que era amorosa e delicada. Não foi fácil explicar a situação, mas por entre uma sala cheia de marquesas e várias senhoras de boca aberta à espera da intervenção, conseguimos agendar para o dia seguinte o tratamento, e ouve ainda espaço para negoceio do valor, que acabou por ficar nos 25 euros. E aí sim, mortos.
Mas o dia ainda não tinha acabado. Por ser fim-de-semana, a nossa couchsurfer ia visitar a família. E nós, tendo de ficar mais um dia na cidade, decidimos mudar-nos: já tarde, voltámos a fechar as mochilas. É era já perto da 00h00 quando começámos a jantar com a nossa “nova família”: uma família tão, mas tão querida. Daquelas famílias que são como as famílias – que ficam no coração.

Dia 11 – 2 junho

Embora muito mais tarde que em todos os outros dias, voltou a ser penoso sair da cama. Mais, quando sabíamos que íamos para o dentista. Tal como acontece sempre no fim, correu tudo bem. Mas até lá, doloroso. Por entre o nervoso que trazíamos e todas as borboletas no estômago que nos assolavam, primeiro queriam fazer uma intervenção, mas acabaram a fazer outra. E doeu, doeu muito. Materiais sabe-se lá se desinfetados ou não, nunca havemos de descobrir. Mesmo a chorar, o dentista continuava. Mas agora visto de fora, há que entender: com tanto trabalho a fazer, não se pode parar só porque está a doer. E com a certeza de que o serviço não ficou uma beleza, mas na esperança que se aguente até ao regresso a Portugal, voltámos para casa. Decidimos dar um descanso a nós próprios, almoçámos com calma, escrevemos para o jornal que nos acompanha e atualizámos este nosso diário. Fugimos assim ao calor e à azáfama que se vive por cada ruela da cidade, por cada avenida repleta de trânsito e cada esquina caótica.
Já só quando o sol se preparava para pôr, fomos passear até à ponte de Teerão e voltámos ao miradouro. E assim, neste dia, completámos três meses de viagem!

Dia 12 – 3 junho

Tentámos começar o dia cedo, mas o cansaço venceu-nos. E por entre um sono abraçado, amoroso e delicado, deixámo-nos dormir mais do que devíamos. Então, mais a correr que ponderados, arrumamos as mochilas: de duas grandes fizemos duas mais pequenas, para viajar pelo sul durante os quinze dias seguintes. E num piscar de olhos, tomámos o pequeno-almoço e afastámo-nos da cidade tanto quanto pudemos com o metro.
A autoestrada onde nos pusemos à boleia ficava ainda distante, mas caminhámos até lá, por entre um festival religioso a que se assistia. E lá, por entre a confusão, apanhámos uma boleia até Kashan, exatamente onde pretendíamos chegar! O senhor, com um carro bem bom – pouco ao estilo iraniano – pelo caminho parou para nos comprar sumos e águas, e acabou por nos deixar já dentro da cidade, a pouco do centro. Por lá, caminhámos à procura de internet… mas foi mais difícil que água no deserto. O calor consumia-nos, era tanto e tão seco. Mas estávamos felizes, mesmo que sem destino: porque pela primeira vez no Irão, não tínhamos ainda encontrado um couchsurfer para nos hospedar. E a tenda, essa, tinha ficado em Teerão.
Pelo passeio, conhecemos um rapaz numa mesquita e, mesmo sem que seja permitido às mulheres assistir a jogos de futebol, acabámos a tarde a ver o seu treino (depois de concedida a devida autorização). Mas continuávamos sem poiso certo.
Só mais tarde, encontrámos a amiga de um rapaz que conhecemos no metro em Teerão. Confessou-nos que a mãe nos podia hospedar, mas que ela não achava por bem hospedar casais. E por isso, levou-nos até ao hostel de um amigo, para que pudéssemos ter internet, e verificar o nosso perfil do couchsurfing. Por entre um chá e dois dedos de conversa, com vários sorrisos e muita amabilidade, quis hospedar-nos: e assim passámos a nossa primeira noite num Hostel. Muito acolhedor, muito limpo e muito tradicional. E nós muito agradecidos, por mais um soninho descansado!

Dia 13 – 4 de junho

O horário do pequeno-almoço era fixo, e portanto o de acordar também! Banhinho tomado, barriguinha cheia, e seguimos. Queríamos conhecer a cidade de Kashan mesmo antes de seguirmos para sul, para Esfahan. E assim fizemos, e por entre duas ruas do bazar, conhecemos um senhor – já mais para o velhote, e de bicicleta, que nos levou a conhecer os locais mais turísticos da cidade. Sempre, falando em inglês! E com um sentido de hospitalidade indescritível, com um tom de voz e modo de falar tão carinhoso quanto possam imaginar.
Comprámos alguns frutos para o almoço, e seguimos depois de autocarro até ao Fin Garder, um jardim que todos nos aconselharam a conhecer, mas onde não entrámos pelo preço exuberante exigido a turistas. Assim, continuámos, a pé até à autoestrada onde pedimos boleia. Mas o sol, esse, fazia-nos derreter. Não de amor, de calor!
Apanhámos então boleia de um casal, direta para Esfahan. Depois de falarem com a família que nos ia hospedar – e que conhecemos por sorte em Istambul, deixaram-nos na autoestrada, no posto de polícia. Faltavam-nos ainda 60 quilómetros até à vila para onde íamos, chamada Mobahrek.
Conseguimos então boleia de um senhor, que nos levou a ver um rio muito bonito e ainda a sua casa – para nos oferecer duas latas de wishkey (um dos frutos proibidos no Irão). E depois, depois andou às voltas até entender onde nos devia deixar para chegarmos à família que nos ia hospedar. Por meio de muitos desentendimentos e alguma tensão, deixou-nos numa rotunda onde um táxi amigo da família nos havia de apanhar. Não estávamos bem em sintonia, mas chegámos bem a casa da família: com quatro filhos. E irmãos, sobrinhos, pais. E uma grande casa, e um grande jantar no chão. E muita paz no coração!

Dia 14 – 5 junho

Esperávamos que o ramadão tivesse já começado, mas não: aprendemos que depende da lua. Ainda assim acordámos mais cedo para ir para a cidade, tomámos um típico e delicioso pequeno-almoço e, já mais que despachados, acabámos por decidir com a família ir só no dia seguinte para a cidade. Na verdade, este tipo de situações foram recorrentes: um desfasamento cultural acentuado, tão acentuado que muitas vezes não percebíamos o que se passava em nosso redor. Mas lá fora, muito calor, sol intenso.
Ficámos assim a manhã em casa, a escrever, e os miúdos também. Gritaria, choros e risos constantes. E o melhor, dormimos a sesta. Já ao final do dia, fomos a uma fazenda, recheada de árvores de ginja e de cerejas, de amoras e pêssegos. Apanhámos de tudo um pouco, comemos de tudo um pouco, por entre o pó acumulado nas árvores e os jarros de água que o permitiam lavar. Bebemos chá já ao anoitecer, sentados numa carpete por entre a terra batida da fazenda e terminámos a noite em casa dos pais do pai de família que nos está a hospedar. Jantámos já depois das 23h00, como foi sempre comum. Em carpetes e no chão, com mesas que dependem só do comprimento do plástico que se corta para fazer de toalha. Panquecas de espinafres, caldeirada de beringela frita. Muito arroz. Muita salada. Muito iogurte. Muita carne na mesa. Muita água fresquinha e pão daquele que só por estes lados conhecemos (e ao qual já nos habituámos). Muita conversa, muita hospitalidade. Muitas cerejas! Muito chá! Muitos cubos de açúcar. E como não podia faltar, muita brincadeira por entre as dezenas de crianças que se juntam, quando a família se junta!

Dia 15 – 6 junho

Voltámos então a acordar bem cedo, com o intuito de ir conhecer a cidade com a família. Mas por entre 4 filhos, não é fácil. Tomámos o pequeno-almoço e seguimos. Por entre os familiares fomos deixando as crianças , uma a uma. Mas com a mais pequena, na casa dos tios, acabámos por entrar e ficar para beber um chá. Depois o tempo passou, e almoçámos também. E entretanto, eram já 16h00. Mais uma vez, não entendemos como tudo se processou, por entre a pressa de sair e a hora tardia a que finalmente chegámos à cidade, ao centro de Esfahan. Visitámos alguns museus, palmilhámos algumas ruas típicas, conhecemos o grande e maravilhoso bazar e a sua mesquita. E deixámo-nos apaixonar. E terminámos o dia com um gelado, mais um passeio, um jantar numa pizaria local, e mais um chá, já tarde, novamente em casa de familiares aquando o recolher das crianças. Um dia cheio, mas cheio também de novidades e convivência.

Dia 16 – 7 junho

Não resistimos, e deixámo-nos dormir até tarde. Passámos o dia meio relaxados – e que bem nos soube. Só ao final do dia, fomos para a cidade para visitar o que nos faltavam. E pelo meio, vivemos o verdadeiro pânico com a condução e o trânsito iraniano. Passámos um dia calmo, e terminámos a jantar em casa da família da família que nos estava a hospedar (novamente, longe da nossa própria cultura, comemos primeiro os doces, depois o prato principal, e tudo isto já depois das 23h00).

Dia 17 – 8 junho

Chegou o dia de deixar Mobarakeh, em Esfahan e seguir para Shiraz. Assim, a família ofereceu-se para nos levar ao local certo para apanhar boleia, mas depois de tantos dias juntos, não haviam percebido completamente o conceito, e por isso, não se foram embora enquanto não nos arranjaram um carro. Euforicamente, pararam praticamente todos os carros que por nós passavam – o que para nós foi duro, uma vez que só nos faz sentido apanhar boleia com aqueles que param por nos quererem ajudar.
Até ao destino não demorou, e conseguimos chegar com 3 boleias. A primeira, com um senhor muito simpático, com o jipe muito confortável, por entre conversa fluída e muitos frutos secos. Logo depois, um outro senhor. Mas desta, um pouco estranho. Ou talvez não e só pouco falador. Por fim, levou-nos um casal delicioso: tinham vivido no Canadá e traziam escondido no carro o seu cãozinho (por ser no Irão proibido ter animais domésticos). Partilhámos assim um longo caminho, mas sempre repleto de histórias e partilhas, para nós muito enriquecedoras.
Em Shiraz, ficámos com um couchsurfer, numa casa por ele construída. Também ele com um cachorro (de guarda! Para que não haja confusões com a polícia) e até piscina. No entanto, não conseguimos sentir-nos ali confortáveis, muito embora não saibamos explicar o porquê. Talvez pela forma como falava, pelo seu tom monocórdico entre nós e agressivo com o animal e com o seu servo. Também este, já velhinho, fazia tudo quanto lhe era ordenado, até mesmo levar-nos a passear já à noite pela cidade. Mas os nosso corações batiam descontrolados: não nos sentíamos em casa. E talvez o pior de tudo, tenha sido percebermos que não havia lido sequer o nosso pedido no couchsurfing, pois não sabia que éramos vegetarianos. Claro que no fundo se traduziu em dois hambúrgueres a mais; mas não encontrámos a paz desejada.

Dia 18 – 9 junho

Uma vez mais, a noite foi curta. E embora nos tenha sido pedido para acordarmos cedo, levámos muito até sairmos de casa. Chegados a cidade, o primeiro passeio deu-se por um dos mais maravilhosos edifícios que alguma vez pudemos visitar: uma mesquita grandiosa, lustrosa. De cortar a respiração! E ainda com guia internacional feminino e masculino, gratuitos.
Mais tarde, encontrámos o primo de uma amiga da família com quem ficámos em Esfahan. Acabámos então a passear e a jantar com ele e com a sua namorada (ilegal!) e, quase que por magia, que nem desejos tornados realidade, fomos convidados para pernoitar na casa da sua família.

Dia 19 – 10 junho

Mesmo com um bebé ainda muito pequenino, esta família soube acolher-nos com o maior dos cuidados, tendo preparado um pequeno-almoço delicioso, uma marmita para o almoço, e ainda convidado para um jantar todos juntos.
Durante o dia, com o primo, fomos até Persépolis e já na volta fomos também a um parque deslumbrante na cidade, onde se praticavam todos os tipos de desportos. Houve então oportunidade para um jogo de futebol e uma partida de ping-pong! E tal como combinado, acabámos a jantar em família.

Dia 20 – 11 junho

A manhã foi longa, sendo que estivemos até as 14h00 para convencer a família de que queríamos deslocar-nos para Yazd à boleia. Queriam oferecer-nos o autocarro, e juravam não haver carros a viajar com tanto calor. Aconteceu-nos já isto um pouco por todo o lado, mas principalmente com famílias sabemos que a história se repete: acham muita graça quando nos conhecem, mas quando se trata de nos deixar seguir, têm sempre muita dificuldade. E embora saibamos que é este um indicador de carinho, cuidado e amor, temos também nós dificuldade em lidar com a situação: não queremos parecer mal-educados ou arrogantes, mas não podemos ao mesmo tempo ceder.
Partimos então já muitíssimo fora de horas e apanhámos a primeira boleia por 50 quilómetros. Quando o senhor nos deixou levámos apenas mais 5 minutos até parar um novo carro. Dois iranianos de gema, castiços e muito, muito, simpáticos. De sorriso na alma! Fizemos juntos mais de 400 quilómetros, com muita música, muita conversa (tanto quanto o farsi nos permitia), muitas partilhas, muitas fotos. E muito respeito!
Deixaram-nos por fim com o nosso novo couchsurfer. Embora nos tenha recusado hospedar, ofereceu-se para nos deixar pernoitar no seu estúdio de fotografia, onde tinha ar condicionado, casa de banho e uma mini cozinha. Estávamos por isso super encaminhados. Mas depois de petiscarmos o que trazíamos nas mochilas, juntou-se a nós mais um amigo, que por entre algumas partidas de Fifa na PS, nos convidou a ficar em casa da sua família. E assim foi!

Dia 21 – 12 junho

Embora não tenhamos partilhado tempo com a família, este nosso amigo levou-nos a passear pela cidade de carro: as temperaturas elevadas não permitiam um passeio a pé, sem cortar a respiração. Mais tarde, resolvemos comprar uma meloa e uma melancia, e fomos até às montanhas, na esperança de que uma sombra nos permitisse apanhar um pouco de ar puro. E assim foi, embora para nosso espanto as montanhas fossem também um lugar seco e árido, com uma paisagem totalmente bege. Mas pudemos desfrutar de uma tarde tipicamente iraniana, estendidos numa carpete à sombra de uma árvore. E assim nos deixámos ficar.
À noite, quis levar-nos a um restaurante para jantar: e nem sempre é fácil explicar que restaurantes e planos dispendiosos não fazem parte do nosso modo de viagem. Embora não totalmente bem sucedidos, conseguimos (quase) fazer uma adaptação entre o desejado e o pretendido, mas uma vez mais pudemos concluir que a distância cultural existe e é significativa.

Dia 22 – 13 junho

A noite foi difícil: embora na rua se façam sentir 38 graus à noite, em casa chegam a passar frio por deixarem o ar condicionado ligado dia e noite a 17 graus. E se não passam eles frio, passámos nós. Acordámos por isso com a garganta sentida, mas pouco havia a fazer. Tínhamos mais de 600 quilómetros pela frente e decerto várias boleias para apanhar até Teerão – onde tínhamos de regressar para recolher os vistos pedidos.
No decorrer do dia apanhámos 3 boleias, mas a primeira foi sem duvida inesquecível! Um casal, ela de burca (sempre sonhamos com a oportunidade de falar com alguém coberto da cena aos pés só com os olhinhos de fora!), e o marido com pelo menos mais 20 anos. Foi um quebrar de preconceitos; ela tinha uma voz doce e afável, simpática e comunicativa, por entre o seu correto inglês. Não nos permitiu que nos alongássemos tanto quanto desejaríamos, mas serviu ao encanto. Também a segunda boleia foi maravilhosa, com um senhor doutor, que nos levou por mais de 400 quilómetros, sempre interessado. Sabia falar inglês, tinha dois filhos e já tinha vivido na Alemanha. Ofereceu-nos um doce lanche e muitos sorrisos. E por fim, um outro casal, engraçado só por si, com música bem alta no carro. Despediram-se com um I love you e deixaram-nos mesmo à porta do metro. Não sabemos se sentimos ou não falta de Teerão, mas da temperatura menos quentes sentimos de certeza.

Dia 23 – 14 junho

Retornámos às embaixadas para levantar os vistos: voltar a acordar antes das 7h00 era algo de que não sentíamos de todo saudade. Mas tínhamos um plano perfeito, de forma a ficarmos despachados num só dia, muito embora para isso tivéssemos de fazer vários quilómetros a pé de um lado para o outro: iríamos primeiro levantar o visto da China às 9h00, seguíamos para a embaixada do Tajiquistão às 10h00, por ficar perto, e logo corríamos até à embaixada do Turquemenistão de forma a chegarmos antes das 11h00. Depois com mais calma, tínhamos só de apanhar o metro e às 14h00 levantaríamos o visto do Cazaquistão. Posto isto, mais tardar às 15:00h estaríamos de volta a casa, prontos para refazer as mochilas e para no dia seguinte seguir rumo ao norte, Chalus e encontrar os amigos que havíamos feito na fronteira à chegada ao Irão.
Mas não há nada como trocarem-nos as voltas todas! Na embaixada do Tajiquistão informaram-nos de que o visto só estaria pronto no dia seguinte, pelas 11h00, portanto nada mais nos restava senão ficar mais um dia em Teerão. Aproveitámos a tarde então para passear e encontrar uma amiga. Mas estávamos tão cansados que até passear custava. Conseguimos ainda palmilhar e conhecer o mercado tradicional – o bazar de Tajrish: um verdadeiro mundo; onde pudemos perceber que em Teerão os preços são brutalmente incrementados.

Dia 24 – 15 junho

Às 11h00 lá estávamos nós, com um olho aberto e outro fechado, à janela da embaixada do Tajiquistão. Voltou a ser-nos pedido que aguardássemos, cerca 30 minutos. De exaustos, caminhámos até ao parque mais próximo para dormitar num banco de jardim. Mas quando regressámos, foi-nos então pedido que esperássemos mais 1 hora. E ai, vimos os nossos planos arruinados: estava novamente cada vez mais longínqua a hipótese de seguir para o norte. E faltava-nos ainda levantar o visto do Cazaquistão. Se por um lado estávamos felizes por nos tem sido concedidos todos os vistos – porque infelizmente partilhámos a angústia de muitos viajantes ao serem recusados, por outro lado sentíamo-nos gozados e impotentes. Mas esperámos pacificamente. E quase 3 horas depois, tínhamos os nossos passaportes de volta. O mais engraçado de tudo, com o visto do Tajiquistão em manuscrito.
Conseguimos então ao final do dia dar por finda esta nossa busca incessante por vistos! E regressámos a casa aliviados, decididos a seguir para Chalus no dia seguinte.

Dia 25 – 16 junho

Deixámo-nos dormir mais do que devíamos e acabamos por ter de ir até ao escritório do nosso couchsurfer, e da sua família, para nos despedirmos. Foi uma despedida que nos apertou o coração: com eles sentimo-nos conectados e felizes, e quando assim o é, é duro de pensar que os nossos caminhos podem nunca mais cruzar-se.
Seguimos depois rumo a norte, e até lá apanhámos 3 boleias, mas de registar foi o facto de pela primeira vez termos abandonado um carro. Sabemos que pelo Irão a condução deixa muito a desejar: o estilo caótico e grotesco, a velocidade desmedida e a data de regras metem medo; mas quando a acrescentar a tudo isto se junta a loucura de alguém, então temos medo de morrer. E depois de vermos quase acontecer vários acidentes, pedimos delicadamente que parasse e afirmamos que ali ficaríamos melhor – sem dúvida!
E com a última boleia chegámos ao encontro da família com quem ficámos, perto de um delicioso rio no meio da selva, como lhe chamavam. E à chegada, para grande surpresa, recebeu-nos chuva e muita trovoada. E por entre tanto calor, cada pingo molhado sabia a pouco.

Dia 26 – 17 junho

Embora com horários fixos para as refeições em família, e embora tenhamos por isso acordado cedo para o pequeno-almoço, aproveitámos o dia de descanso em casa e pelo campo. E só ao final do dia, fizemos uma caminhada por entre a natureza que nos envolvia.

Dia 27 – 18 junho

O despertador voltou a cantar cedo, cedo demais para os sonhos que tínhamos ainda por sonhar: mas tínhamos uma família e um pequeno-almoço à nossa espera.
Pelo dia fora, decidimos prescindir da cidade para conhecer a costa e a praia mais próxima. Estávamos entusiasmados: fazia tempo que não víamos o mar, água sobre a terra ou areia. Queríamos sentir-lhe o cheiro e a sua temperatura. Mas, no Irão, nada é simples de viver. Sim, passeámos na praia. Mas homens e mulheres, têm zonas fechadas e privadas, completamente separadas, para fazer praia e tomar banho. A areia e água sujas também não fizeram as nossas delícias. Mas a verdade é que o calor tórrido convidava a um mergulho – que não aconteceu.

Dia 28 – 19 junho

A validade do nosso visto do Irão começava a esgotar-se. Muita gente nos perguntou ao longo destes dias se estava tudo bem e o porquê de ainda não termos trocado de país. Tivemos alguma dificuldade em compreender a questão, é embora saibamos que foi em virtude de preocupação, o nosso desejo seria até o de pedir a extensão do visto. Na verdade, o Irão é um país de mil encantos; e embora não trocássemos a nossa liberdade por nada, temos sempre muito a aprender com novas e diferentes realidades. E o Irão é um país recheado de gente boa, de lugares lindos e cheios de história. E para ajudar, extremamente barato.
Mas tivemos de seguir e seguimos para Gorgan, na direção da fronteira que iriamos cruzar. Apanhámos apenas uma boleia direta de uma carrinha velhota, sem ar condicionado, mas com um senhor muito simpático. Apetrechado com uma bela telefonia, conseguimos conectar o ipod e por mais de 4 horas partilhámos música portuguesa.
À chegada, tínhamos 3 diferentes casas à nossa espera: se na Europa mandamos 50 pedidos de couchsurfing para 1 resposta positiva, aqui mandámos 3 pedidos e nos 3 fomos aceites. Assim, resolvemos pernoitar com primeiro que nos aceitou; mas antes, passámos a tarde com um couchsurfer, e o final do dia com outro. Um verdadeiro 3 em 1, em apenas um dia, o que nos deixou de coração a transbordar.

Dia 29 – 20 junho

Com apenas mais um dia de visto, rumámos cedo até à estrada com o objetivo de chegar perto da fronteira. Com os horários estritos das zonas fronteiriças, o melhor seria montar a tenda (pela primeira vez!) já perto e assim estaríamos descansados.
Apanhámos 5 boleias no decorrer do dia, mas uma vez mais os nossos planos fugiram-nos por entre os pensamentos. A primeira, e grande, boleia do dia foi de um camionista amoroso: pagou-nos de tudo, procurou até um restaurante com hipótese vegetariana, comprou-nos fruta, pistachos, bolachas e chás para o caminho, e só quando nos deixou percebemos que havíamos perdido um par de ténis: a 25 quilómetros do local onde nos deixou, parámos o camião para ir à casa de banho de uma mesquita. Na volta, deixámos os ténis na escadas do camião, como sempre fazemos. Estas, por norma, ficam fechadas com a porta, e assim evitam-se maus cheiros na cabine. Mas este camião era diferente, e só o terceiro degrau estava fechado, ficando os outros dois descobertos. Assim sendo, voaram os ténis.
Pouca gente por aqui entende a importância de uns sapatos: basta ir até ao mercado e por menos de 5 euros há muita escolha. Mas o ar de pânico instalado nas nossas caras e transparente no nosso olhar, fez o camionista nem hesitar, e voltou atrás para os procurar. Mas nada. Também nós apanhámos duas boleias e ainda até um táxi (pois já o sol se punha no horizonte) e nada. Doeu-nos no coração, por várias razões. Emocionais e económicas. Levámos mais de 3 meses para escolher aquele par de ténis: foi pensado a dedo, entre o valor é a necessidade, prontos para caminhar quilómetros sem fim, com durabilidade garantida e… lindos! Mas um piscar de olhos bastou para os perdermos. E assim virámos uns pés descalços.
Eram então 22h00 e tínhamos ainda com 80 quilómetros por fazer, já pelo escuro da noite. Estávamos pouco crentes, era pouco o trânsito e rara a luz. Exterior e interior. Estávamos mesmo tristes. Mas acabámos por conseguimos boleia de um senhor com uma menina pequenina, de olhar envergonhado e sorriso maroto. Deixou-nos mais à frente uma mão cheia de quilómetros e logo depois conseguimos boleia com um camionista turco. Ia também para a fronteira, mas entre o Irão e o Turquemenistão as fronteiras para ligeiros e pesados são diferentes, pelo que parou o camião perto da bifurcação e nos convidou a dormir no camião. Ele na cama de cima, nós na de baixo. Não nos sentimos propriamente à vontade, mas serviu de descanso. E bem que precisávamos de conversar com a almofada.

Dia 30 – 21 junho

Eram então 5h50 da manhã quando voltámos a carregar as mochilas e a fazer-nos à estrada. Estávamos a apenas 50 quilómetros da fronteira e sabíamos que as portas do controlo fronteiriço abriria perto das 9h00.
Conseguimos boleia até à fronteira com 3 homens que iam no caminho, e um deles trabalhava na fronteira Iraniana. Ajudou-nos a chegar até lá e também a trocar dinheiro. E às 9h00, despedimo-nos do Irão e conseguimos passar para a fronteira do Turquemenistão. Lá, estivemos mais de duas horas, com a polícia de volta dos nossos passaportes e nós de um lado para outro. Até médico têm para confirmar que não estamos doentes (mas o termómetro, decerto avariado, indicou em ambos 35°C). No fim, para nosso espanto, e sem quererem remexer as nossas mochilas, ou revistar-nos, deixaram-nos seguir. Estávamos então num novo canto do mundo: bem-vindos!

E assim deixámos para trás um país que nos impressionou, que nos fez questionar de muitas coisas e sonhar com outras tantas. Que nos ensinou a ser mais gratos ainda pela vida que levamos (juntos) e pela liberdade que trazemos. Um país, que por entre tantas regras, tanta opressão e tanta religião, nos fez ver que ser boa pessoa, praticar o bem e ajudar o outro, vai muito além do que vimos até hoje. Aprendemos no ocidente, e nomeadamente pela europa, que somos boa gente, vivemos em paz, mas que ninguém da nada a ninguém, sem algo em troca; no Irão, questionam-se estes valores, com a certeza de que não há nada em troca daquilo que damos. E não há que temer pela partilha.

2016-06-12 17.24.40

Salam!

Olá, Irão!

De sorriso no rosto. De sorriso na alma. De sorriso no pensamento. E com o sorriso entre as nossas mãos.

Trazemos quase um mês por aqui; tantas histórias para partilhar, tantas descobertas, tantos encantos. Mas com o acesso à internet muito muito limitado, torna-se difícil fazer atualizações, ou tantas quantas gostaríamos.

Vamos por isso partilhar aqui no blogue o que partilhámos já com o Jornal das Caldas, para onde escrevemos periodicamente; com a promessa de que nos últimos dias deste percurso partilharemos aqui também um diário de bordo. Isto, principalmente, porque para muitos o Irão é um mundo desconhecido e envolto numa névoa de perigo e risco, de pobreza ou fraqueza.

Para muitos, é este um país a evitar, um país excluído, demasiado fechado ou religioso. Só o nome, República Islâmica do Irão, traz ao pensamento dos mais sensíveis imagens menos agradáveis. Mas às vezes, é preciso pesquisar um bocadinho mais, é preciso sair da caixa e procurar ver para lá da sombra.

Na verdade, o Irão tem uma cultura vincada, uma política de mãos dadas com a religião e hábitos distintos. Temos aprendido muitas coisas, descoberto outras tantas. Claro que não trocaríamos a nossa liberdade por nada, mas faz-nos bem saber a diferença. Faz-nos bem, ensina-nos a valorizar o que trazemos de origem. E mais ainda, a ser generosos.

Os homens têm uma vida santa!

Sem grandes restrições, a única obrigação prende-se com a obrigatoriedade do serviço militar (religioso) por dois anos. As mulheres, por lei, devem cobrir as curvas dos seus corpos. Têm de ter sempre o tapado e usar um véu que cubra o cabelo. Os braços também não podem estar expostos.

Fazem o ramadão pela primeira vez aos 9 anos, idade a partir da qual começam também a vestir-se assim e a rezar. Já os homens, têm de o fazer pela primeira vez aos 18 anos. Agora, vive-se o ramadão: mas não conhecemos ainda ninguém que o faça. Conhecemos sim, já, quem coma às escondidas e nos ensine a fazê-lo da melhor maneira!

Vive-se nas ruas a religião com caráter de obrigatoriedade, mas é dentro de casa que se vive a realidade. Até agora, também não experienciámos viver com uma família religiosa. Dentro de quatro paredes estamos à vontade, desde que os vizinhos ou a polícia não o vejam: de calções ou cabelo ao vento, sabe bem.

Nas ruas, sentem-se os elevados graus, o calor e o bafo quente. Ontem quando chegámos a Yazd, passava já das 20h00 e os termómetros anunciavam 37°. De cortar a respiração, neste deserto.

Ainda nas ruas, os transportes são separados, mulheres numa área, homens noutra. Também nas escolas, nas mesquitas, na praia, assim o é. Aos estádios de futebol, só os homens podem ir. Por lei, as mulheres não tocam nos homens; nós como somos casados, podemos andar de mão dada. Mas até para tirar fotografias tem de ser uma mulher a fazê-lo a outra mulher.

Em casa, sentam-se no chão, dormem no chão. Andam sempre descalços, têm grandes e longos tapetes, lindos, e carpetes. À porta da casa de banho e da cozinha, têm chinelos para lá usar. Não têm sanita (bem-vindos à Ásia), não têm banheira: há a latrina e o chuveiro.

Comem ao pequeno-almoço um pão diferente com queijo branco duro. Bebem chá no fim de todas as refeições, mas ao invés de colocarem o cubo de açúcar no chá, colocam-no na boca. E o açúcar que usam para o chá é de beterraba e não de cana. Doce na mesma!

As casas têm um aspeto particular e, por norma, parecem sujas. Têm janelas e portas, eletricidade e água; as estradas e ruas também têm todas asfalto. As autoestradas são boas e as vistas também (por onde andámos até agora, sempre com aspeto árido e montanhoso). Verdadeiramente diferente e grandioso!

As casas por fora têm todas cor castanho ou beje; não há supermercados, só minimercados e “bazares”. É o paraíso das tâmaras e dos pistachos; e é tudo muito barato. Por exemplo, um autocarro para 30 quilómetros custa em média 0,12€ e alugar um T2 são 25€ por mês. A moeda é o real, mas os preços estão sempre em tuman.

A água por aqui é boa, potável e bebem-na da torneira e de torneiras públicas que se encontram pela rua. Já a internet (conforme temos dito) é terrível, lenta e condicionada. Poucos têm wifi. O facebook é proíbido (mas todos têm instaladas as melhores aplicações para encontrar um vpn aberto). E também o nosso blogue aqui é proíbido!

Nos telemóveis, usam o telegram ao invés do whatsapp. E só nestes dias, temos mais contactos de iranianos no telefone, que de portugueses! As pessoas são tão altruístas e bondosas que a princípio até desconfiamos. Todos querem ajudar-nos, todos querem falar-nos!

Mas não sabem o que é andar a boleia, desconhecem o conceito. E mesmo depois de 30 minutos de tentativas (falhadas) do que estamos a fazer, dizem sempre que sim, que entenderam, mas logo no segundo seguinte tentam levar-nos à estação de autocarros ou parar um táxi. Aliás, por aqui, até já dinheiro nos quiseram oferecer para viajarmos, quando dizemos que o fazemos sem pagar. E pelo meio da confusão, enquanto estamos a pedir boleia, param três táxis, vários carros particulares e vêm pessoas das suas casas ver como nos podem ajudar. Instala-se facilmente o caus só para nós “servir”. E no fim, quando as buzinas do trânsito parado são mais que muitas, desistem e querem levar-nos a beber um chá. E por fim, muitas vezes, vemo-nos obrigados a concluir que estamos a viajar a pé. Uma graça.

Entre nós, vivemos o stress e a calma. O nervosismo da comunicação e o encanto das línguas. A paixão e o desafogo!

Pelas cidades, os carros parecem muito antigos, mas afinal por aqui fabricam ainda os antigos modelos. São carros novos com look vintage! Se são modernos, foram importados, e encontram-se na sua maioria em Teerão, na capital.

Também na capital as coisas, por norma, são menos lineares, menos estritas. Mais novidades, mais pessoas, menos religiosidade, menos pressão. Casar, por aqui, é também uma aventura, recheada de estranheza dentro dos hábitos que carregamos. São arranjados pelas famílias: exclui-se a fase do namoro. E mais estranho ainda, são os casamentos entre primos, familiares diretos.

Um infinito de vivências! Um infinito de crenças. A viagem pelo Irão vai já a mais de meio. Mas pela Ásia, vai ainda no início. Mas a cada dia que passa, somos cada vez mais encantados com os contrastes, apaixonados pelas pessoas. E cada vez mais gratos pela vida que temos, pela família que nos criou e pela união que trazemos.

Quanto às fotografias, são muitas e enchem-no coração de recordações; mas não conseguimos fazer upload das mesmas aqui. Vamos por isso tentando partilhar através da nossa página no facebook, http://www.facebook.com/blog.omundonamao.

Khodâfez – خدافظ!

até já Arménia, olá Irão?

Pelas ruas, sente-se a união soviética. Continua a morar aqui, por entre edifícios, ruas e jardins abandonados, outrora cuidados e com vida.

Por entre as montanhas onde dormimos, em kojori, a primeira opção para apanhar boleia foi caminhar até à estrada nacional, por um atalho e por 7 quilómetros. As mochilas pesavam, o sono e os sacos nas mãos (cheios de tralha), também.

Pelo caminho, em tão mau estado quanto possam imaginar, com alcatrão desfeito, buracos infindáveis, com lixo e até ossadas de animais, verde sem fim e silêncio absoluto. E uma paisagem incrível no meio do nada.

A primeira boleia foi de um padre: levou-nos por cerca de 1 quilómetro. Depois, continuámos a caminhar: pausadamente. Era cedo e tínhamos tempo. Mas por entre uma das nossas pausas, avistámos um camião. Já nos sentíamos a chegar ao fim e, embora fosse o segundo carro a passar em várias horas, decidimos não lhe pedir boleia. Ao contrário do que esperaríamos, parou, e convidou-nos a subir. Uma vez mais, por entre uma comunicação muito rudimentar, conseguimos entender-nos e ficámos precisamente na estrada que pretendíamos.

Já com rumo certo, esperamos muito pouco até conseguirmos a segunda boleia, direta até à fronteira com a Macedónia. Falava inglês e tinha um filho a estudar na Europa. Sabia bem onde ficava Portugal e a conversa fluiu até ao destino!

Na fronteira, as borboletas comiam-nós a barriga. É sempre aquele miudinho até pormos os pés do lado de lá. É sempre o desejo de sermos bem recebidos, de não termos de abrir as mochilas ou responder a grandes questões. É sempre o desejo simples de ser tudo simples.

E foi! À saída da Geórgia carimbaram-nos o passaporte e sorriram. À entrada da Arménia, revistaram o passaporte de ponta a ponta, folha por folha – procuravam qualquer carimbo do Azerbaijão, onde não estivemos. E posto isso, olharam-nos nos olhos, compararam as fotografias dos passaportes, carimbaram-nos e devolveram-nos.

Demos mais um passo em frente: e olá Arménia!

Chovia. Choviam pingos grossos por entre o calor que se fazia sentir. Ofereceram-nos na Turquia um chapéu de chuva, e abrigámo-nos nele até nós conseguirmos abrigar num telhado improvisado.

Aí, ainda juntinhos à fronteira, fomos abordados por vários taxistas. É difícil explicar em russo – quanto mais em arménio! – que temos dinheiro, mas não queremos apanhar um táxi. Primeiro porque se temos dinheiro, porque não haveríamos de querer? E segundo, para os turistas é tudo barato. Esta é a lógica e portanto, limitamo-nos a dizer “Niet denhek”, ou seja, não temos dinheiro.

Na verdade, por 20 quilómetros são em média 3€. E um bilhete de autocarro urbano, aqui, são 0,20€. É realmente barato, mas não é a nossa opção. Não significa que não optemos em caso de necessidade, mas não era o caso.

Fomos explicando que pretendíamos ir para Vanadzor de “autostop”. Fomo-nos sentindo comentados. Mas fomos também mantendo o sorriso e o olhar atento sobre a chuva. Só precisávamos que ela abrandasse para nos distanciarmos um pouco da zona fronteiriça. Mas não foi necessário.

Aproximou-se de nós um senhor. Olhar humilde. Sorriso humilde. Pose humilde. De simpatia no rosto, perguntou se queríamos ir para Vanadzor e se estávamos à boleia. E convidou-nos a ir também. Com uma carrinha de distribuição de frutas, variadas, instalou-nos e ofereceu-nos duas tangerinas e duas maçãs.

No caminho, ele e o seu colega, em detrimento da estrada mais curta e em pior estado, optaram pela mais longa e mais perigosa. Mais perigosa porque passa a poucos quilómetros do Azerbaijão, e por entre montanhas avistam-se os dois lados. Perante as tensões com a Arménia, estão ambos os lados avisados: quem chegar perto, não importa quem, é alvejado. E portanto, embora sem chegar perto, não é de todo confortável passar por perto. Mas percebemos que há muitos que preferem fazê-lo, tendo em conta as condições dos pavimentos. E mesmo assim, na “melhor” estrada, levámos um pouco mais de 3 horas para fazer 120 quilómetros.

Prometemos não nos voltar a queixar das estradas em Portugal. 🙂

Pelo caminho, avista-se verde. E mais verde. Montanhas e montanhas verdes e lindas. Flores, campos, árvores e verde. E estradas infinitas, num sobe e desce.

Mas por entre tudo isto, muitas ruínas. Pouco antigas: sinais apenas de abandono.

Até que chegámos ao nosso destino. Ajudou-nos a contactar quem nos ia hospedar (uma espécie de couchsurfer, mas vinda de uma nova plataforma – trustrouts, feita para viajantes à boleia) e encontrarmo-nos foi muito fácil.

Em casa, encontrámos também outra hóspede nas mesmas andanças e foi delicioso partilhar experiências e vivências, viagens e aprendizagens.

Juntos, palmilhámos parte da cidade.

Não sabemos se feitos de admiração ou tristeza. Se de desconsolo ou frustração.

A Arménia, depois de ver conquistada a sua independência, deixou para trás a União Soviética. Mas não só.

Encontrámos um país desolado e escuro. Feito de antiguidades.

Encontrámos, abraçados, um passado muito presente.

Encontram-se pela rua, à medida que vamos andando e conhecendo, vestígios do que outrora foi vida. Não há rua sem ruína. Não há rua sem abandono.

É um país fantasma. Ou, como lhe chamam, um país com história. E podia até sê-lo, e é, mas podia também haver o preservar dessa história. O conservar.

Os nossos corações ficaram alerta. Ficaram emocionados e tocados: pelas ruas vêem-se edifícios desprezados, abandonados. Fábricas vazias. Vidros partidos. Pedras soltas. Escombros. Vêem-se estátuas de outrora. Vêem-se ruínas de hotéis, saunas e luxurias do passado. Tudo a cinzento e branco. Destruído e apagado do presente.

Nos parques, bancos tortos, desfeitos dos anos e sem manutenção.

Sentem-se nas pernas as ervas altas, a relva por cortar, os canteiros e jardins por arranjar.

Nos parques, os baloiços que já não baloiçam. As brincadeiras enferrujadas e deixadas ao acaso.

Fechamos os olhos e imaginamos tudo 40 anos atrás. Cheio de cor e gente. Balanço e harmonia.

Mas abrimos os olhos e sabemo-nos no presente.

Também nos parques comboios infantis deixados para trás. Lindos, mesmo que já sem cor ou movimento.

Traços de uma história passada.

Percebemo-nos num país pobre, com uma taxa de desemprego elevadíssima é um ordenado mínimo baixíssimo. Percebemo-nos por entre miséria – é claro, também alguns opostos.

Percebemo-nos por entre uma maioria de carros (muito) antigos e uma juventude satisfeita, que pouco ou nada se questiona.

Um pão caseiro custa 0,28€. Um gelado 0,18€. Um bilhete de autocarro 0,20€.

E assim se (sobre)vive.

E no meio de tanta pobreza, carregam orgulhosamente dentes de ouro.

Quando deixámos Vanadzor para trás, era muito cedo (para nós) e achávamos que tínhamos o dia pela frente para conhecer Yerevan – a capital.

Pusemo-nos à boleia com uma placa; mas depressa percebemos que eram raros aqueles que percebiam o alfabeto latino. Mas, claro, era para nós impossível escrever em arménio hayeren. Mesrop Mashtots.

A primeira espera foi morosa. Pararam vários carros que não iam propriamente na nossa direção. Outros tantos a oferecer serviço de táxi. E muitos outros que passavam, acenavam. Estivemos mais de 1 hora para apanhar a primeira boleia.

Era um jipe, três homens, pouca conversa, mas ajudaram-nos a mudar para um sítio melhor para apanhar boleia. Não muito longe, mas foi uma mudança importante.

A segunda boleia foi de um camião pequenito. Ou uma carrinha muito grande! Um senhor muito doce, daqueles que sabemos que é mesmo boa pessoa – mas que nunca lho vamos poder dizer. Levou-nos por mais uns 10 quilómetros.

E a terceira boleia, por mais outros tantos quilómetros, foi de dois senhores. Aliás, Senhores. Com postura e muito educados. Um deles, até inglês falava. Descobrimos pelo caminho que se tratavam de militares e estavam tão encantados com a nossa viagem, que quando nos deixaram pediram para tirar uma selfie todos juntos!

Lá, voltámos a esperar um pouco. Mas não muito! Um dos carros que por nós passou, voltou atrás, e de sorriso no rosto, ofereceu-se para nos levar! À frente, levava a sua esposa, vinda do Turquemenistão. Amorosos. Grande parte da viagem deu para um o-o e dois dedos de conversa. Sorriam-lhes os olhos e o coração também.

E quase 5 horas depois, com 5 boleias e 120 quilómetros feitos, chegámos à cidade. Sim, ainda apanhamos mais uma boleia, só até ao centro. Trabalhava na embaixada de França e por isso foi em francês que nos fizemos entender. Desta, fácil! Muito fácil. Mais, trazia no carro o seu filho, cujo inglês fluía.

Pelo caminho, tudo na paisagem se repetiu. Mas a verdade é que a capital se encontra mais cuidada. Esconde bem o que os subúrbios contam.

Mas em cada esquina, alguém a pedir.

Ainda assim, a capital surpreendeu-nos. Pela beleza dos edifícios que conserva, pela beleza da natureza. Pelos museus que tivemos oportunidade de visitar. Pelos locais históricos.

Um país diferente, que nos fez questionar muita coisa. Mas onde encontrámos novamente muita gente boa. Gente que defende a causa, que defende a pátria. Gente que tem entranhada a arte de bem receber, de cuidar. Gente que nos hospedou com amor. Com gentileza. Com tudo o que tinham. Gente boa. Nós continuamos a acreditar que vale a pena acreditar. Em gente boa. Estão por toda a parte, e temos tido a sorte de nos cruzar a cada dia.

Há famílias iluminadas.

E nós dois, também família, sabemo-nos e sentimo-nos abençoados.

Amanhã bem cedo, as borboletas voltam ao estômago, à barriga e à cabeça: olá Irão.

 

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olá, Geórgia.

Um adeus à Turquia: é aquele que entregámos ante-ontem por entre sorrisos e corações cheios. Os nossos! E de todos aqueles que conhecemos.

Ainda em Trabzon, no dia da partida tivemos a sorte e o prazer de conhecer um couchsurfer que não nos pode hospedar, mas que fez questão de nos encontrar.

Levou-nos a um miradouro no topo da cidade. Encantador para a vista! E lá, bebemos chá e comemos pevides – como por aqui se faz. Partilhámos histórias e improvisámos turco; enquanto lhe permitíamos improvisar o seu inglês.

E por entre conversas percebemos que iria em trabalho, da parte da tarde, até Rize: a cidade para onde nós também pretendíamos seguir depois. E assim, juntámos o útil ao agradável, e fomos juntos.

E a hospitalidade é tanta e tamanha, que pelo caminho nos ofereceu um almoço maravilhoso (e bem ao nosso gosto!).

Desta, do tempo que passámos juntos restou gratidão.

Em Rize ficámos em casa de um amigo de um outro amigo, de tempos de Erasmus Universitários. Cedeu-nos um seu tio a casa de férias, por entre montanhas e muita natureza. Forrada de madeira, sem água quente nem internet, fizemos das noites momentos inesquecíveis, por entre banhos de caneco com água aquecida ao lume e cozinhados sem fim.

Da cidade, também encantadora, guardamos a deslumbrante vista do castelo e a simpatia de todos os que por nós se cruzavam e tentavam perceber de onde vínhamos.
E na manhã de sexta-feira, 13, deixámos Rize sem ponta de azar. 🙂

Esticámos os nossos dedinhos na estrada principal, pertinho do centro e pertinho do mar (uma delícia!), deixámo-nos refrescar pelos leves pingos de chuva que se faziam sentir em nós, e demorou muito pouco até parar um carro. Trazia nele dois senhores, pouco faladores – mas muito amáveis. Por entre o que a língua turca nos permite, partilhámos a nossa história, e apenas a seu troco, recebemos dois sorrisos e muita o bondade: deixaram-nos pois exatamente à frente do Hospital de Pazar.

Não, não estamos nem estivemos doentes. Mas foi lá que encontrámos a nossa nova couchsurfer. Neurologista de profissão e paixão, recebeu-nos e cuidou de nós com verdadeiro sangue turco.

Passámos dois dias por entre maravilhas da culinária e maravilhas da natureza. Conseguem imaginar?

É por isso também muito fácil imaginar como nos sentimos. Conectados. Amados.

Ligados.

Entre nós. Com o outro. Com o mundo.

Também nesta passagem tivemos oportunidade conhecer mais amigos. Amigos desta nossa couchsurfer, que nos receberam na sua casa para jantar. Mas gente muito especial, tão especial que nos sentimos em casa. Viajantes, também eles mochileiros de outrora, médicos psiquiatras de profissão e apaixonados pelo mundo. Pudemos trocar muitas ideias sobre doenças mentais e psicomotricidade; sobre viagens e rotas! E a madrugada já ia noite dentro quando nos obrigámos a despedirmo-nos. E mais uma vez, em mais uma cidade, e ainda na Turquia, não só nos abriram as portas de sua casa, como a janela das suas vidas. Marcante.

Temos sempre tanto a aprender com o que nos rodeia. Com quem nos rodeia.

E chegou então o momento, o momento do adeus à Turquia: aquele que entregámos ontem por entre sorrisos e corações cheios. Os nossos! E de todos aqueles que conhecemos.

E por entre a melancolia, a excitação: não há partida sem chegada, e dissemos assim Olá à Geórgia.

Abraçámo-nos na despedida, ainda em Pazar. O mar, mesmo à nossa frente, num tom entre o azul e o verde, paradisíaco e inesquecível. Esticámos os dedos. Esticámos a placa. Um minuto. Um minuto para parar um carro. Um minuto para chegar o nosso bilhete de partida.

Seguimos até à fronteira. No carro, 3 pessoas genuinamente boas, daqueles a quem o olhar faz jus. E entre um o-o (dispensável mas não evitável) e muitas partilhas por entre gestos, turco e inglês, a viagem fez-nos num verdadeiro ápice.

Na fronteira, parecíamos acabados de chegar ao texas. Gente e mais gente, confuso, sujo e barulhento. Filas, gente a vender, gente cheia de malas, sacos e malinhas. Autocarros, camiões. E fizemo-nos ao caminho.

Atravessar até à Geórgia foi mais fácil do que parecia: receberam-nos com sorrisos e descomplicações, sem grandes conversas ou revistas. E um “good trip”, que já sabemos ser os votos de uma boa viagem!

Já do lado de cá, em território e chão Georgio, sentimo-nos num mundo diferente.

A verdade é que os transportes públicos da Turquia não podem passar. Nem os táxis. Nem os carros alugados. As pessoas têm de os abandonar, passar a fronteira a pé e apanhar um novo transporte do lado de cá. Portanto, é muito fácil de imaginar o caus instalado. Todos tentam “vender” o seu transporte, ao melhor preço. Ganham a vida assim. Bem como os vendedores de rua: é comida, é água, é cigarros, é táxis, é casas de câmbio… e muita gente misturada. Muitas malas e bagagem. E muitos olhares curiosos. E, ao fundo, a bandeira da Geórgia.

Sentimo-nos verdadeiramente acabados de chegar.

Não caminhámos muito até recomeçarmos a pedir boleia. Claro está que muitos nos tentaram ajudar a troco de dinheiro, mas conseguimos recusar com facilidade e sem constrangimentos, até que em poucos minutos parou um carro. Levou-nos até Batumi a uma velocidade estonteante – se a condução na Turquia tinha muito que se lhe dissesse, aqui não há palavras. Mete medo! Pé no acelerador, mão na buzina: saiam da frente. Não, a buzina não serve para alertar em caso de perigo, serve literalmente para chamar à atenção no sentido oposto, “Cuidado, eu vou passar!”. Ficamos sem ponta de sangue e colados aos bancos, e não há mais nada que possamos fazer.

Mas por de trás da sua condução, estava um homem maravilhoso, disposto a tudo para nos ajudar. Quis levar-nos exatamente até casa de quem nos ia hospedar. E para isso, perguntou pela rua tantas vezes quantas necessárias, onde ficava a morada. Incansável, os olhos sorriam de bondade.

Também assim sorriam os olhos de quem nos hospedou. Uma verdadeira lição de vida, ainda só estamos nós a viajar à pouco mais de dois meses. Quatro amigos, turcos, recém chegados a Batumi, publicitam num grupo de facebook que se mudaram, e que podem receber quem os queira visitar. Nós! Um couchsurfing informal, mas muito gratificante.

Não há referências, não temos como expressar publicamente como fomos recebidos: mas mais uma vez, cederam-nos a cama e parte do seu tempo. Entre jantar e pequeno-almoço, entre gestos e turco, partilhámos o que pudemos.

Mas sabemo-nos mal habituados. No ocidente ouvimos sempre dizer que “ninguém dá nada a ninguém”. Aprendemos, intuitivamente, a ser desconfiados. Vivemos assim sem nos questionarmos; mas questionamos todos os que nos rodeiam e as suas ações. E chamamo-nos cuidadosos.

Aqui não mudamos aquilo que somos, mas aprendemos a ser mais alguma coisa.

Mais que não seja, generosos.

E ontem, pela manhã , partimos rumo a Tbilisi, onde estamos agora. Sabemos que prometemos atualizar o blogue, mas a viajar, nunca nada é previsível.

O tempo estava incerto, mas seguimos à aventura. Por entre nuvens e ameaças de chuva, sentíamo-nos num dia de inverno. Há dias assim.

Também os nossos corações estavam incertos. Resmungões e insatisfeitos. Que nem nuvens a estragar um dia de sol. Há dias assim.

O peso das mochilas incomodava-nos; doíam-nos os ombros, as costas, o pescoço. E o peso dd Batumi também nos incomodava. Ruas e ruas sem alcatrão, esburacadas e sujas. Prédios e prédios, metade betão, metade chapas de zinco. Prédios e prédios com andares construídos e habitados, e tantos outros completamente abertos e por construir. Uma pobreza escondida em cada esquina. Visível na forma de estar, de andar, de vestir, de ser. Muito difícil de descrever e muito fácil de sentir. Mas, junto ao mar, uma riqueza de fachada: mesmo por entre a descrição acima, grandes hotéis e um casino. Para quem? Perguntamos nós.

E cabe-nos relembrar que por aqui, o ordenado mínimo é de 150 euros. Isto quando há trabalho. Porque cabe-nos também relembrar que a taxa de desemprego aqui é superior a 30%. E não, as coisas não são mais baratas que na europa – só mesmo o tabaco. É por isso impossível não nos questionarmos sobre como vivem.

E numa pequena casa, onde se vendiam hambúrgueres e trocavam também dinheiro, aproveitámos para trocar alguns euros e fizemo-nos ao caminho. Depois, depois de quase 1 hora à espera da primeira boleia do dia, São Pedro fez das suas, e desabou a chover. Cupiosamente.

Corremos para nos abrigar, por entre chapas e telhas, chapéu de chuva e capa, e lá nos desenrascámos. Mas o dia não estava de todo a correr bem! E já não bastava estar a ficar tarde, como aqui temos 1 hora a mais no fuso horário, e sabíamos ainda ter pelo menos 6 horas de viagem. Sim, estávamos a 380 quilómetros de Tbilisi, mas conseguem imaginar o estado das estradas até lá.

(In)Resignados, esperámos que a chuva abrandasse.

E quase duas horas depois, voltámos à estrada. Mais calmos e confiantes, erguemos a nossa placa com convicção. E por entre o trânsito que se fazia sentir, encostou um carro tipo carrinha, e seguimos juntos por 50 quilómetros. Valeu-nos o turco aprendido (que especialista!) e foi fácil a comunicação!

Quando nos deixou, a chuva estava longe. Avistávamos as negras nuvens ao fundo, mas nada que nos intimidásse. E lá, foi muito rápido de apanhar a segunda boleia: um senhor ucraniano que ia até meio caminho. Fraca comunicação, mas com muita simpatia à mistura, deixou-nos já quase de noite a 180 quilómetros do nosso destino.

Ali, um senhor que nos avistou, insistiu para que fossemos para um hostel descansar. E poucos minutos depois, já nos havia oferecido o seu colar e convidado a comer e dormir em sua casa. Apontava para o céu e dizia que a noite estava a chegar. A seu ver, era hora de recolher! Levámos mais de 10 minutos a agradecer-lhe e a recusar. Sabíamos que ali conseguiríamos apanhar uma boleia direta e tínhamos uma amiga de uma amiga à nossa espera! Por isso, só precisávamos de ficar sozinhos para o conseguirmos, e assim foi! Quando nos deixou, não demorou 1 minuto até que parasse um novo carro: conduzia-o uma jovem, e permanecemos juntos por 3 horas, até ao nosso destino.

Entre inglês e turco, contámos histórias e partilhámos hábitos. Comemos pão típico da Geórgia, comprado na estrada; e passámos também momentos de aperto! Não, a condução caótica não diz só respeito a homens. É cultural e para todos. Passadeira? O que é isso? Cruzamento? Rotunda? Ultrapassagens? Duas faixas? Traço contínuo? O que é isso? Tudo para enfeitar. Até mesmo os limites de velocidade e os radares. Se diz 30 com sinal de perigo em baixo, ou obras na estrada, vai-se a 80. Ou 120 se houver necessidade de ultrapassar uma fila de camiões. Portanto, e em suma, podemos dizer que nos mantivemos acordados e animados.

E estava já perto da 1 hora da manhã quando pusemos os pés em casa: rodeados de natureza, com duas amigas incansáveis, numa casa maravilhosa, e com petiscos típicos à nossa espera. Que bom que é quando assim é, quando tudo acaba em bem!

Por hoje, hoje esgotámos energias a percorrer a cidade. Tbilisi é muito diferente de Batumi. Com um calor duro durante o dia, descobrimos o seu lado lindo, o seu lado diferente. Até a língua, estranha de ouvir, fez os seus encantos. Com muitas igrejas ortodoxas, conhecemos também novas realidades. Embora envolta de muita precariedade e miséria, é uma cidade muito bonita.

Encantou-nos, de braço no ombro e caminhar junto.

Amanhã é dia de seguir viagem. De voltar a carregar as mochilas às costas. De abraçar novos mundos. Novos sorrisos – decerto. Amanhã é dia de mais uma fronteira, de mais umas borboletas na barriga.

É dia de entrar na Arménia.

E em breve, será dia de entrar no Irão.

Quem nos sabe de cor, sabe que transbordamos felicidade.

Saudades já também – mas por entre quem ama, quem não as sente?  ♡

2016-05-17 19.54.502016-05-17 19.53.522016-05-17 19.54.182016-05-17 19.55.33IMG_77032016-05-17 19.49.312016-05-17 19.50.152016-05-17 19.50.452016-05-17 19.51.162016-05-17 19.52.542016-05-17 19.52.102016-05-15 23.09.522016-05-17 19.53.20

meio caminho em Mar Negro

Conhecemo-nos no limite. É por isso que às vezes é difícil viajar, viajar durante tanto tempo, viajar sempre com a mesma pessoa e, mais, viajar à boleia.

Descrevemos detalhadamente na apresentação desta nossa aventura (aqui no blogue) o porquê de termos escolhido deslocarmo-nos a dedo. Mas a verdade é que os momentos de espera tanto podem ser de reflexão e paz interior, calma e preserverança; ou brincadeira; como de tensão e desamor.

Não é fácil quando passamos um dia inteiro à boleia e ninguém nos leva. Ou quando chove e não resta nada mais seco em nós. Ou quando não conseguimos chegar ao nosso destino. Não é fácil. E quando o sol se põe e continuamos na estrada, sem rumo, não é fácil.

E é nos momentos em que não é fácil que nos conhecemos: que nos amamos. Que cuidamos.

Estar de mão dada na alegria – qualquer um.

Imaginem-nos insuportáveis. Com muito frio ou com muito calor. Com fome ou com sede. Rabugentos. Azedos. Irritadiços. Impertinentes.

Imaginem-nos embirrentos, cansados. No limite. E é aí mesmo que nos conhecemos.

Respeitar o espaço, saber ajudar, saber estar. Ouvir. Apregoar a paz, mesmo quando em nós próprios troveja.

Mas mesmo em casa, no conforto do lar, temos as nossas nuvens. Quem não as tem? Ninguém vive no sol. Há sempre por aí uma sombrinha. Faz parte e faz sentido. É assim que deve ser e o mais importante é saber fazer o vento soprar. E em viagem não é diferente.
Mas toda a esta conversa até aqui tem um foco muito interessante: as pessoas.

Até aqui, mesmo quando encoberto, não há dia que não se torne solarengo. Quente! Afável!

Parece contraditório, mas tão depressa em viagem pode não ser fácil; como é em viagem que tudo se torna simples. Porque é em viagem que nos pomos em contacto. Em contacto com as pessoas, com a mais bela gente do mundo. São aquelas que se cruzam em nós: as pessoas. As que nos abrem as portas de suas casas. As que nos levam. As que nos acenam. As que nos sorriem. As que nos abraçam.

E chegamos à Turquia. Sim, não é de hoje. Mas o hoje é sempre mais um dia aqui.

Quando chegámos a Samsun não fazíamos ideia do que estava para vir. Sabíamos que em Bolu, a cidade anterior – e posterior a Istambul – havíamos sido tratados com a maior das cortesias. No supermercado, que nem nos lembrássemos de querer pagar a conta; o nosso couchsurfer até levava a mal. Em casa, deu-nos o seu quarto e mudou-se para a sala. Lençóis lavados, toalhas limpas. O seu carro era o nosso carro. Os seus amigos, nossos amigos.

Mas em Samsun, sucedeu-se o mesmo. E aí, aí deixa de ser coincidência ou arte de bem receber.

Chama-se cultura.

De Bolu até Samsun, tal como partilhámos na crónica anterior, a viagem foi muito especial! Começámos por apanhar boleia de um carro para sair da cidade e, mais tarde, para muitas horas de viagem, levou-nos um camionista, no seu grande camião. Carregadíssimo, não permitia grandes velocidades. Mas estávamos em muito boa companhia. A comunicação era rudimentar, mas chegou na hora em que nos quis levar a almoçar fora. Almoçar fora significou oferecer-nos o almoço num belo e típico restaurante de borda de estrada. Pode parecer rude, mas foi do mais gentil que possam imaginar. E não, não foi tarefa difícil arranjar um prato vegetariano! Saboroso. Quis dar-nos o que no seu mundo de melhor tinha! E já depois da noite cair, entretivemo-nos a abrir e comer um grande saco de avelãs: ou tentar! E como muitas sobraram, ainda as ofereceu.

Um coração de ouro!

Já em Samsun, telefonou ao nosso novo couchsurfer e não nos deixou seguir (nem seguiu) sem que ele chegasse.

Sentirmo-nos amados e protegidos como aqui, só mesmo em casa.

Palmilhámos Samsun para a conhecer e encontrámos várias maravilhas. A melhor, a sua “rua Augusta”, em modo turco. Graciosa!

E ante-ontem, quando partimos para Bulancak, não havia preocupações que nos pertencessem.

Viajar na Turquia é uma verdadeira delícia.

Próprio de uma lua de mel. Aliás, é talvez aqui o primeiro lugar onde todos (sem exceção) nos perguntam se somos casados.

Enleações – só no final da viagem.

Mas sabe-nos muito bem dizer que sim: apaixonados!

De Samsun a Bulancak, levámos várias horas. Não que a distância fosse longa, mas voltámos a apanhar boleia de um camião. Aliás, começando pelo princípio: apanhámos para sair da cidade boleia de um carro. Quando começámos a contar a nossa história, acabou por nos explicar entre gestos e fotos que tinha um camião. Pouco depois levou-nos até um armazém e lá mesmo apontou para um pequeno camião. Vermelho. Mercedes. E disse: “Giresun!”. Percebemos que nos tinha então levado ali porque sabia que dali iria partir um camião na nossa direção. E assim foi.

O camionista, típico turco, tinha um tom de voz rouco e alto. Alto no timbre, fazia doer os ouvidos a cada expressão: mas muito entusiasmado. Sorridente, o único problema era mesmo a quantidade de cigarros que fumava a cada cinco minutos! Mas é assim, “quem anda à boleia, sujeita-se” – já dizia o pai José.

Mais uma vez, parou pelo caminho para nos oferecer chá num café de borda de estrada; e não nos deixou sem que o nosso couchsurfer nos fosse buscar (…a história repete-se!)!

A nossa estadia com este couchsurfer foi muito facilitada: professor de inglês, vivia com a mãe e, mais uma vez, fez-nos sentir em casa.

Aprendemos na sua casa que ajudar teria que ficar fora de questão: em Portugal, mesmo quando somos convidados, cabe-nos ajudar, nem que seja a levantar o nosso prato da mesa. Cabe-nos ser prestáveis. Mas aqui, cabe-nos o contrário: ficar sentados, à espera que nos sirvam. E sabe tão estranho! Pior, é que é uma ofensa querer ou tentar ajudar.

Experimentámos levar o nosso prato até à cozinha, e a primeira coisa que ouvimos foi um pedido: para não voltarmos a fazê-lo, pois significaria que a sua mãe não estava a saber receber-nos ou a dar conta do recado.

Aprendemos também que os convidados estão acima deles próprios. Aliás, têm mesmo um provérbio que o diz.

Entretanto, ainda em Istambul tínhamos conhecido uma amiga dos nossos amigos, cuja família vive perto de Giresun. Giresun é uma cidade a 20 quilómetros de Bulancak. Convidaram-nos a visitá-los, com um único senão: turco era a língua possível. Ninguém na aldeia, ou vila, no meio das montanhas e de muito verde, falava uma só palavra de inglês. Mas foi-nos impossível recusar. E ainda bem!

(Até porque entre nós há quem já tenha como sétima língua o turco)

Não sabemos como se explica o amor, como se explica a bondade. Não há explicação senão sentida, porque o que mais queremos é expressar-nos e faltam-nos as palavras.

Passeios pelas vinhas, pelas hortas. Montes e vales. Montanhas. Aldeias. Casas antigas!

Levaram-nos a conhecer cada canto das suas infâncias, por gestos e poucas palavras, cada recanto das suas vidas. Nos olhos carregavam a felicidade de nos receber. E em cada gesto também. Fluíam os abraços, os sorrisos. A gratidão. Prepararam receitas deliciosas. A casa, feita de madeira, encheu-se. Encheu-se de todos aqueles que nos quiseram receber e saudar.

E acendemos a salamandra, partimos avelãs. Torrámo-las. Apanhámos morangos. Lavámos cerejas. Pecados uns atrás dos outros – feitos de gula.

Com o cair da noite, nas nossas almas jazia que também numa casa de madeira nos conhecemos e apaixonámos, pela primeira vez.

Quando o sol ontem nasceu, era dia de voltarmos atrás, a Bulancak. Lá tínhamos deixado as nossas grandes mochilas e também um compromisso: o de irmos ao liceu, no horário da aula de inglês, conversar com os alunos e mostrar-lhes a importância da segunda língua. E por entre risinhos e muita vergonha, correu tudo muito bem!

De missão cumprida, e coração apertado apertadinho, seguimos caminho. Os nossos corações têm sido valentes; mas desgraçados, em cada despedida vêm-se aflitos.
Vales-lhe que se têm um ao outro.

E de Bulancak seguimos até Trabzon, que é de onde escrevemos hoje. Até aqui, apanhámos três boleias. Dois carros e um autocarro (dos pequeninos). Andar à boleia na Turquia é tão descomplicado e tão espontâneo, que é também um verdadeiro prazer: o primeiro carro nem nos deu tempo para pousar nada. Foi só esticar a placa. Curiosamente, era amigo do couchsurfer que nos hospedou em Samsun – pequenino este mundo! A segunda boleia foi então de um autocarro tipo shuttle bus: que até nos custou a crer que queria levar-nos sem pagarmos, mas que assim aconteceu! E a última boleia, não menos importante, foi já na cidade, mas fruto da preguiça de a atravessar por completo para chegar perto da casa do nosso novo couchsurfer.

Este, também médico, cirurgião plástico, acolheu-nos como por aqui tão bem o sabem fazer, e partilhámos o que de melhor em Portugal também nós sabemos fazer: longas e boas conversas, em torno de uma mesa recheada!

Hoje palmilhámos Trabzon e podem as nossas sapatilhas contar como foi: 15 quilómetros sempre a andar, por entre ruas estreitas e escadarias, prédios demolidos e crianças a brincar. Considerámos esta uma cidade suja e desarrumada, mas importa sempre conhecer.

Até porque a costa do Mar Negro tem sido uma verdadeira surpresa. Trazemos em nós admiração e encanto. Trazemo-nos pelo mundo fora com afeição – e sempre com respeito.

Entre nós e com o outro.

Porque o sentimento de bem-querer também se constrói. E só assim prevalece no mundo. Naquele que trazemos na mão e levamos na alma.

São já 5962 quilómetros, com 85 boleias.

São já muitas noites em muitos sofás, muitas camas. Muitas luzes. Muitos lençóis, cobertores e edredons. E dois saco-camas, que se unem num só.

São muitas partilhas. Muitas vivências. Muitas gentes. Muito crescer.

Amanhã caminharemos um pouco mais. Seremos um pouco mais também!

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a magia de ISTAMBUL

Há tanto sobre Istambul para contar, que o mínimo é mesmo a forma como aqui chegámos. Mas como as histórias se começam pelo princípio, não podemos fazê-lo diferente.

(Mas apetece-nos muito)

Fez no sábado uma semana que chegámos: partimos de Alexandroupoli, na Grécia, já tarde. Tarde, não. De tarde. Não era suposto, mas descobrimos pela manhã que não poderíamos tirar o visto da Turquia na fronteira – hoje em dia é online e chama-se e-visa. Lá está, o mundo gira, não pára, e nós andamos com ele. Acabámos por nos defrontar com alguns problemas logísticos, como o pagamento do mesmo atraves da Internet, sem MBnet feito… pensamos que conseguirão imaginar.

Bom, quando nos fizemos à estrada, era já hora de estarmos a chegar a Istambul – no nosso pensamento!

Ainda no centro da cidade, e mesmo em jeito de brincadeira, iamos andando de costas e de dedo esticado. Entre nós, trocavamos sorrisos e malandrices, gritávamos aos ventos que sabíamos que se na Grécia nos viamos gregos para andar à boleia; na cidade nem valia a pena tentar. Mas brincar também faz parte! Testar também faz parte.

E supresa das supresas: encostou uma senhora que nos levou até à entrada da autoestrada.

Não adianta dizer que era simpática, que foi um anjo ou que tudo o que nos partilhou nos foi gratificante. Não adianta porque naquele momento estávamos vidrados: vidrados no que tinha acabado de acontecer. E quando nos deixou, rimo-nos. De nos próprios. Um do outro! Rimo-nos por entre sorrisos e gargalhadas soltas.

Afinal, moral da história. Podemos achar que nos vemos gregos na Grécia e na Itália; mas também pode ser um verdadeiro mar de rosas. Aqui, ali, ou em qualquer parte do mundo: depende apenas (e só) daqueles que se cruzam no nosso caminho.

À entrada da autoesta acabámos por esperar algum tempo. Mais de uma hora decerto.

Não havia muito trânsito; e os carros que por nós passavam, nem para nós olhavam. Mas a nossa aura era verdadeiramente positiva, estávamos confiantes. Limitámo-nos a esperar. Como sempre. E como sempre também, acabou por parar um carro.

Trazia o sonho de viajar pela Europa a pedalar. Ciclista de coração, pesavam-lhe agora os seus mais de 50 anos e a frustração associada à idade. Lembrámo-lo que a idade só traz experiência; não nos impede de nada.

E como muıtas vezes por aí lemos (e sentimos – como sendo prova disso): quem quer realizar um sonho, arranja uma maneira de o fazer. Quem não quer, arranja várias desculpas.

Deixou-nos em plena autoestrada, antes mesmo de sair desta com rumo ao seu destino.

Lá, ficámos de pé atrás. A Grécia pertence à União Europeia, é suposto que as regras não sejam assim tão divergentes daquelas a que estamos habituados. E por isso, estar à boleia em plena autoestrada não parecia grande ideia. Mas não demorou muito até que passassem por nós dois carros de polícia. E nada.

Estávamos portanto a nosso belo prazer.

Ali ficámos por várias horas e por ali assistimos a tudo. Na autoestrada, vimos carros parar, carros em marcha-atrás e até pessoas a encostar, sair e pedir informações (a nós dois, com certeza).

Uma panóplia infindável de contraordenações. Pérolas – ainda na Grécia.

Ali mesmo conseguimos a terceira boleia do dia. E última! Um jovem da Geórgia parou. Apressamo-nos a entrar e foram precisos apenas 2 minutos para nos sentirmos confortáveis. E descansados.

Falava com alguma dificuldade, mas não por falta de competências linguísticas: tinha uma cicatriz indicativa de fenda do palato, já sarada, mas que influenciava a dicção. Mas nem por isso nos entendemos menos bem.

Caminhámos juntos até ao centro de Istambul. Mas até lá, foram 250 quilómetros de muitas aventuras.

A maior, na fronteira. Ultrapassámos juntos cinco postos de controle, todos eles exigentes e minuciosos. E revistaram tudo, até mesmo as nossas mochilas. É por isso que atravessar uma fronteira não tem como não ser um momento tenso. Mais, quando a comunicação se faz rudimentar e onde o inglês deixa de ser um porto de abrigo. No fim, respiramos sempre de alívio – mesmo quando não há por que temer.

Foi com pena que nos deixou na via rápida que atravessa Istambul e segue com destino a Geórgia. Sim, naquele dia (ou naquela noite), tinha ainda mais de 1500 quilómetros para fazer. Parece surreal, mas é assim mesmo. E por isso, nós dois, éramos companhia e conversa e partilha para cada hora da longa viagem que estava ainda por vir.

Mas a nossa caminhada é assim; e a pior parte dela é mesmo termos de dizer adeus. Controverso: são as pessoas que fazem valer a pena e são as pessoas quem deixamos para trás.

Mas menos controverso é o facto de rechearmos assim os nossos corações: só se sente saudade e aperto quando se gosta. Gostamo-nos muito e trazemo-nos sempre por perto; mas temos também gostado muito de todos os que se têm cruzado em nós!

Esta jornada não é só a do mundo na mão. É também a do amor no mundo e entre as nossas mãos.

E aqui em Istambul não tem sido diferente.

Se tivermos de descrever até aqui a nossa estadia, há uma palavra que lhe assenta: luxo. Temos sido afortunados.

Estamos há mais de 10 dias a viver com uma família turca, nascida e criada em
Istambul; numa casa linda e recheados de amor. Nao há forma mais bonita e completa de conhecer uma cultura e de viver uma cidade. Um verdadeiro luxo.

E não é cliché quando dizemos que nos têm dado tudo. Porque têm mesmo! E ainda mais um bocadinho. Desde passeios, jantares, encontros de família, almoços, viagens, partilhas… “Auuff” – como por aqui se diz.

Quando pensamos que falta já pouco para termos o nosso visto para o Uzebequistao (sim, é à ele que devemos esta longa estadia), ficamos até divididos: queremos muito partir, mas estava a ser tão bom ficar.. 😊

A magia que aqui presenciamos não percebemos ainda a que se deve. Talvez aos nossos arkadaslar (amigos). Talvez à cidade em si. Talvez à mistura, à diferença. À magia! Há tantas característica que valem a pena ser partilhadas, que é difícil sintetizar. Melhor, vivendo.

Os sapatos não entram em casa. Ficam à porta. Há chinelos para todos, ninguém tem de se preocupar! E por isso, andar descalço é decerto como pisar nuvens no céu.

Despedem-se com um abraço e muitos sorrisos. E güle güle!

Andar pelas ruas mais movimentadas é uma aventura. Não param quando alguém está parado para atravessar a passadeira. A única solução é tentar a sorte e pisar a estrada. E hão-de parar – esperamos nós e esperam todos! E Istambul é uma cidade tão grande que equivale a 50 Lisboas. Sim. 50.

É tanta gente, tanto trânsito, que da periferia ao centro, um percurso de 15 minutos leva 2 horas. Sempre!

Istambul, cidade, permite-nos ir da Europa à Ásia. Literalmente. Divide-se por uma ponte. E as diferenças sentem-se!

Entretanto, vive-se e sente-se o medo dos atentados, mesmo que ninguém fale abertamente sobre o assunto (ainda assim os mais próximos confirmam-no por entre os conselhos mais sábios).

Embora a maioria da população seja muçulmana, percebe-se que a prática do Islamismo é bastante peculiar. A religião adaptou-se aos tempos modernos e as demais religiões são respeitadas.

Cinco vezes por dia é cantanda nas mesquitas e para toda a cidade uma reza em árabe; nesse momento cabe a todos respeitar o som. Quem está deitado, senta-se. Quem está refastelado, endireita-se. Quem está a ouvir música, desliga-a. Para os mais religiosos, é um momento de reza. Para todos os outros é um momento de respeito.

De qualquer forma é tão comum ver alguém de alças, como coberta da cabeça aos pés. Mas mais comum é o lenço na cabeça ou o hijab. Até à pouco, era proíbido entrar na escola, ou na faculdade, assim. Hoje em dia foi liberado.

Por aqui, o vegetarianismo é difícil de entender: explicaram-nos que o Corão diz que os animais são o alimento do homem. Têm uma vasta cozinha tradicional (e são várias as iguarias vegan, sem que pensem nisso!). Deixámo-nos apaixonar pelas receitas com bulgur, lentilhas ou leguminosas. Uma típica e deliciosa é o Çiğ köfte, é amassado à mão, come-se frio, embrulhado num wrapp ou numa folha de alface, com umas gotas de limão. Também sobre o assunto e a título de curiosidade: o tofu custa 24tl por 200g, o que equivale a perto de 7€.

No que toca a dinheiro, moeda é a lira turca (tl) e as moedas fazem lembrar euros. A economia embora também baseada em mercados de rua, sustenta-se claramente em superfícies comerciais. Nos supermercados, é possível e normal encontrar pessoas com os seus próprios negócios pessoais; e gritam como se numa feira estivessem, incentivando a compra dos seus produtos.

Mas entretanto, é difícil encontrar alguém que fale inglês, mesmo que se trate de gente jovem. Pedir indicações, ajuda numa loja ou fazer compras é uma aventura.

Por fim, existem ainda duas tradições que nos marc(ar)am:

Por cortesia, cabe aos homens cumprimentar as senhoras mais idosas com um beijo na mão; depois a mão deve ser levada à testa e pode então dar-se os dois beijinhos habituais.

Por bem-estar, bebem chá preto pelo menos 3 vezes ao dia. É fervido puro e só no copo diluído em água. É servido num copo em forma de túlipa. Sempre que alguém termina, é de imediato oferecido outro.

E por entre fantasias, assim se vive em Istambul.

Fascinante. Encantadora. Sedutora.

Misteriosa.

Mais uma, pelo mundo, que marca a nossa (linda) história. E que fica na história da gente.

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