BCN

(Continue – Madrid & Zaragoza)

O sol de Saragoça espreitava pela persiana da sala. O vento fazia-a  bater, mas o sol vencia. Que bom! Porque mesmo com frio, o sol aquece-nos sempre.

Decididos a chegar a Barcelona ainda no mesmo dia, caminhámos, com o nosso amigo e o seu companheiro de casa, até sair da cidade e chegar à entrada da autoestrada. Estas entradas são sempre perfeitas, porque com mais ou menos movimento, sabemos que qualquer carro que pare poderá ser uma boleia para avançar, pois irá no nosso sentido.

E não tardou, parou um carro.

Um carro velhote.

Com uma mulher com pele mescla. E um homem com  um ar pouco amistoso.

Apressou-se a apresentar-se, a abrir a bagageira e a dizer-nos para entrar. Na verdade, nenhum de nós estava tranquilo, mas nenhum de nós voltou atrás. E entrámos.

Estamos habituados a contar a nossa história,  a com mais ou menos pormenor partilhar a nossa aventura, e a ser bem recebidos. Estamos habituados a abrir os nossos corações e a expor as nossas intenções, e a ser bem acolhidos.

Mas foi tudo ao contrário.  Minutos depois do carro estar em andamento, a conversa já decorria tensa. Espanha não prestava, os espanhóis não serviam para nada, nós não tínhamos ideias de jeito, a nossa aventura era um desperdício de tempo, as nossas vidas estavam arruinadas, a nossa viagem era vazia; o que fazíamos  bem era voltarmos para casa e pararmos de nos aproveitar do outro. E pelo meio, com tom de poucos amigos, informou-nos que era cigano, tinha 2 filhos e 4 netos. E no meio disto tudo, a mulher ao seu lado, com um olhar vago (e quem sabe amedontrado), não dizia uma palavra.

A tensão aumentava.

Não havia nada que disséssemos ou partilhassemos que fosse bem acolhido. Tudo o que expunhamos era mau. Por vezes, limitava-se a abanar a cabeça com um ar sério e rígido, severo. Implacável. Ou negava com o dedo indicador.

Pior, só quando dissemos que nos poderia deixar no caminho, na estrada para onde ia sair ou antes mesmo numa bomba de gasolina da autoestrada. Num tom austero e inflexível, limitou-se a responder que para si nenhuma das duas era boa opção.

Conseguimos agora perceber que nos deixámos levar por um preconceito. Aquele Homem havia sido verdadeiro. Partilhou que, para si, não fazia sentido andar a viajar, ao invés de andar a trabalhar. Que para si, andar a dormir em casa de amigos era um abuso e um estorvo. Era a sua opinião. Áspera,  talvez.

Impiedosa, decerto.

Embora, claro, tenha sido um brotar de más energias dentro daquele carro, o que nos assustou não foi só isso, sejamos sinceros: o tom de pele, o cheiro, a dicção, as palavras, a voz, o comportamento, a atitude – o ser cigano.

Sem espaço para respirar ou saber como reagir, agradecemos quando nos deixou. Não percebemos ainda se com desafogo ou conforto, caminhámos. Caminhámos sem conseguirmos verbalizar entre nós o que verdadeiramente havíamos vivido no decorrer daqueles minutos. Que pareceram infinitos.

Estávamos no meio do nada, mas ao fundo, víamos uma placa com a indicação de Barcelona. Perdidos não era o caso. Mas sabíamos que onde estávamos, decerto seria proibido estarmos. A velocidade que os carros que por ali passavam traziam, era grande demais. Mas depois de passarem por nós dois carros da polícia, sem qualquer manifestação, apostámos na calma.

Serenos, ainda não.

Mas deixámo-nos ficar, livres, de dedo esticado. Até parar outro carro.

Recheados de prejuizos, pobre Homem, tinha barba. Ainda não tínhamos sequer trocado dois dedos de conversa e já o havíamos julgado.  Como é que é possivel? Nós, dois, que embora limpinhos e bonitinhos, nos sentimos atrocidados quando julgados por andar à boleia; ousamos julgar outro só porque… porque?

Partilhámos com Ele a nossa história, quem éramos e o que andamos a fazer. E a estaca voltou ao zero. O entusiasmo voltou, a tranquilidade também. As energias não estavam repostas, mas tínhamos de novo a luz, ao fundo.

No entanto, não deixámos de nos questionar sobre a importância da validação da nossa aventura perante quem nos ajuda. Porque quem nos ajuda com o deslocamento, raramente ou nunca sabe qual a nossa ideia, mas estamos tão (mal) (ou bem) habituados a paninhos quentes, que ficamos desnorteados quando não nos dão palmadinhas pelas costas.

Com esta última boleia, n°20 desta viagem, voltámos a mais uma estação de serviço.

Não sabemos bem se assim será, mas por preguiça ou zona de conforto, pusemo-nos no fim da bomba, de placa em punho. BCN, dizia. O vento gelava, gelava o nariz e a ponta dos dedos. Gelava até à nossa vontade de estar quietos ao sol. Aproveitámos para petiscar  (desta, beringela com batata assada, mnhumi), cantar e até tocar armónica. Mais! Deu para avistar vários camionistas portugueses, um dos quais parou na bomba do lado de lá da autoestrada, e com quem nos animámos ao erguermos a bandeira de Portugal!

Acabámos por desistir deste plano inicial, e fizemo-nos ao caminho. Mochilões às costas e lá fomos nós para junto da estação com o intuito de abordar pessoa a pessoa.

E não tardou. A primeira pessoa que vimos abastecer, foi o nosso primeiro tiro. Pouca sorte, o marido entusiasta disse que nos levaria e que iam mesmo para Barcelona. Já a esposa recusou. Primeiro o cão que trazia (no carro de 7 lugares) invalidava que tivéssemos espaço. Poucos segundos depois, já eramos nós que tinhamos demasiadas coisas. Lo siento – disse. E seguiram para efetuar o pagamento.

Foi duro. Tínhamos ali, mesmo à nossa frente, um carro, que ia fazer por completo exactamente os 300km que nos faltavam ainda para podermos dormir numa caminha.

Porém, quando as portas da estação de serviço se abriram, vimos um acenar. Um acenar repetido, convidando a que os seguissemos. Haviam chegado a acordo e iriam levar-nos! Oh, que conforto! Que desafogo.

Foram cerca de 3 horas até chegarmos. Cerca de 3 horas de conversa, de partilha. Um casal encantador. Ele, emanava paz no seu discurso. Uma serenidade e uma quietude pouco vulgares. E foram também 3 horas de descanso e de sono, para um de nos. 😊

E por agora aqui estamos, com cerca de 1 300km percorridos e 21 boleias. E em casa de amigos, amigos especiais e de coração, de tempos e de várias aventuras antigos. Amigos com os quais nos sentimos em casa.

Amanhã, rumaremos para Montpellier, já em França. E esperamos que o sol e os deuses das boleias se mantenham do nosso lado, sempre connosco.

Nós, dois, para o que vier, estamos sempre lado a lado.

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Madrid & Zaragoza

Escrever sobre o que sentimos é muito diferente de escrever sobre o que guardamos do que já sentimos. É por isso que é tao bom e ao mesmo tempo tão importante partilhar aqui no blogue tudo e em primeira mão. Só que com este modo de viajar, é muito difícil. Todos os que nos levam, todos os que nos hospedam, todos os que partilham o seu tempo connosco, absorvem-nos e sobra-nos pouco mais que o tempo para descansar – o que é bom, é bom sinal, é enriquecedor, é do melhor que podemos querer. E se a isto somarmos o facto de querermos conhecer e palmilhar cada nova cidade, e deixarmo-nos apaixonar pelos cheiros e sabores, rotinas e sons, pores-do-sol de cada uma, então confessamos: escrever fica para depois.

Mas depois, depois queremos tanto partilhar tudo, que sonhamos com a forma como vamos pôr em palavras o que vivemos!

Estivemos em Talavera de La Reina 3 dias, 3 dias em que nos deixámos embaraçar pelo carinho da família que nos recebeu. O gosto que demonstravam por estarmos juntos ultrapassava qualquer bom pensamento pré-construído que pudessemos já levar, e foi por isso mesmo que só no final do terceiro dia nos fizemos a estrada. O sol já estava a deixar-se cair, lentamente, na linha do horizonte.

Optámos por ficar numa bomba de gasolina mesmo à saída da cidade e, ao mesmo tempo, à entrada da autoestrada. Tínhamos duas opções, como temos sempre: abordar quem esteja a pôr combustível, ou ficar de dedo esticado na estrada. Decidimos perguntar a quem estava a atestar a carrinha aquando a nossa chegada, e a resposta foi simpática e direta – não ia para o nosso destino. Acabámos então por caminhar até à estrada. Esperámos pouco mais de cinco minutos, passaram pouco mais que cinco carros. E apareceu de novo a carrinha que estava a atestar na bomba. Encostou. Queria explicar-nos que não ia diretamente para o nosso destino, mas que poderia deixar-nos mais perto de Madrid, com um pequeno desvio até lá.

Aceitámos de sorriso no rosto, entusiasmados. Com algum receio de ficar mais perto, mas ao mesmo tempo num pior lugar, e noite a dentro, para estar a pedir boleia. Mas é mesmo assim, não podíamos recusar. Conversa, mais conversa; partilhas, mais partilhas. A história da nossa aventura estava em cima da mesa! E eis que, como resumo, nos acabou por levar a conhecer Toledo (que cidade linda! Relembrou-nos da nossa Vila de Óbidos) e ainda nos deixou em Madrid e mesmo à porta de casa! A bondade humana não tem limites. Una casualidad se puede tornar en una causalidad – disse. Agradeceu-nos a experiência de nos ter conhecido, estava grato por nos ter encontrado. E nós, nem sabemos. A nossa gratidão não cabia em nós.

Em Madrid, demos corda às sapatilhas. Foram dois dias de loucura, vários quilómetros a pé. Pode dizer-se que conhecemos a cidade, e dois museus, pela metade. Ficámos na casa do tio de um amigo, onde vivia também um amigo da família: mais uma prova da bondade humana. Sentimo-nos cada vez mais ricos. Porque darmos o que é nosso, àqueles de quem gostamos, é normal. Mas darmos o que é nosso, e ainda mais bocadinho, àqueles de quem nem sabemos se gostamos, é uma dádiva.

De Madrid, saímos dia 11, já novamente no turno da tarde. Não que tenhamos acordado tarde, mas primeiro que chegássemos onde queríamos… que moroso! Caminhámos, caminhámos, e caminhámos ainda mais um bocadinho. Na verdade, para quem conhece Madrid, e para quem não conhece também,  queríamos apanhar boleia para sair da cidade, e por isso tentámos posicionar-nos numa entrada da M30, que pode equiparar-se à segunda-circular de Lisboa, com um limite de velocidade um bocadinho superior. Na verdade, tinha tudo para dar errado. Poucos carros a seguirem por onde queríamos, nós num passeio entre semáforos e tensos pelas horas. E a placa que havíamos escrito, ao contrário das outras, estava (diga-se a verdade) muito mal amanhada!

Eis que ouvimos um camião  (dos pequenos!) buzinar. E buzinou de novo. Olhámos sem perceber porque buzinava, enquanto permanecia parado na faixa da esquerda da via rápida. Foi então que avançou,  e mesmo com o movimento da estrada, encostou na faixa da direita e voltou a buzinar. Percebemos que era para nós!  Apressamo-nos a agarrar as mochilas, os sacos, as mochilas pequenas, e a olhar em volta. Não tínhamos deixado nada para trás! Corremos! Tudo em fracções de segundo! E nisto, já estava uma senhora a abrir a porta do camião, para que largassemos a tralha toda e subissemos.

Foi uma boleia curta,  mas sentimos que tinha sido um anjo na terra em tirar-nos dali. Deixou-nos depois numa boa entrada para a autoestrada que seguia com direção a Saragoça, e tardou pouco até parar um carro. O que esperámos deu-nos para comer de corrida o nosso petisco vegetariano – umas lentilhas maravilhosas!, e pouco mais.

Levou-nos até à estação de serviço da autoestrada um senhor, professor de 1°ciclo numa escola onde a maioria dos alunos são de etnia cigana. Partilhou algumas das suas histórias e cativou-nos pela tranquilidade do seu discurso.

Já na estação de serviço esperámos. Esperámos muito junto à sua saída. Cantámos, rimos, conversámos. Estivemos entusiasmados. Sempre em paz. Também nos fartámos: mas sabemos que é assim, às vezes mais fácil, as vezes mais difícil. Temos sempre em mente que, até hoje, esta viagem e cada troço da mesma, têm sido santos.

Quando a frustração já começava a inquietar o nosso estado de espírito, mudámo-nos. Voltámos a pôr as mochilas, agarrámos em tudo, e fomos até à bomba. Não havia assim tantos carros a abastecer, mas embora fraco, havia movimento! Começámos um por um, a abordar todos os condutores. Nem sempre é fácil. O medo reina, o preconceito também. Mas a pergunta dá espaço à recusa – Hola, perdon! Vosotros van en dirección de Zaragoza? Nosotros estamos intentando llegar a dedo hasta alli.

Não sabemos bem se depois de muitas ou quantas perguntas, mas depois de ainda algum tempo de espera, abordámos mais um senhor. Vimos o seu Mercedes lá ao fundo. Tinha um ar simpático e acolhedor. Bingo! Disse-nos que ia na direção e que nos levaria, mas que achava não ter espaço no carro, pois ia para a neve e levava o carro atulhado com o equipamento. Mas convidou-nosa ir espreitar e ver o que achávamos. Ora pois claro, nem que com as mochilas na cabeça, não queríamos perder aquela boleia nem por nada. Sabem as borboletas na barriga? Isso mesmo!

Quando nos aproximámos, a sua esposa sorriu-nos. Parecia até que tinha ouvido a nossa conversa com o marido! Ajudou-nos a ver como poderíamos colocar tudo dentro do carro. Ajudou-nos. Reorganizou as suas malas e colocou as nossas. E foram uma lufada de ar fresco. Bom, foram-no para um de nós: é que há quem entre nos carros e nem espere que comecem a funcionar para adormecer (mas isso fica para outra partilha 😊!).

Deixaram-nos então perto de Saragoça, exactamente onde pretendíamos. Lá, encontrámos o irmão de um amigo, da família de Talavera de la Reina. Jantámos os três, passeámos pelo pueblo e pernoitámos. Nós dois, quentinhos e apaixonados! Em poucas horas, era hora de levantar cedo, hora de rumar a Barcelona, e de somar mais algumas às já 18 boleias apanhadas.

Começam pois a esgotar-se as palavras para agradecer. É que a hospitalidade é tamanha. O nosso coração não tem como não transbordar! O mundo na mão começa a não ser só porque o vamos percorrer pedindo boleia – com a mão, mas porque em cada canto deste, decerto encontraremos a quem só conseguiremos agradecer abraçando – juntando as mãos.

(to be continued)

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talavera de la Reina ES

7 homens. Uma carrinha. Entravam?

Começámos (mais uma vez) fora de horas.  Não sabemos muito bem como tudo se processa assim, mas certo é que por mais que ponhamos o despertador para as 9:00h, às 11:00h ainda não estamos prontos, logo às 12:00h ainda não estamos perto de estar a postos na estrada. Quem nos conhece sabe que somos díspares; um sempre a horas, outro sempre atrasado. Chamamos-lhe carinhosamente de equilíbrio!

Mas ontem, ontem partimos com batota. A família que nos acolheu, não só nos deu tudo o que de melhor tinha, como ainda nos levou a Badajoz. Esta boleia foi iluminada. As boas energias, a satisfação que traziam no coração, abençoaram as boleias seguintes. É que tudo influência a forma como o mundo gira: se no pensamento guardamos o melhor deste, então é mesmo isso que a nós vem.

Não demorou nem 5 minutos. Estávamos já a ser levados para perto de Mérida por uma jovem entusiasmada e de sorriso fácil, feliz por nos ter encontrado. E nós, uma vez mais, gratos por tão boa energia!

Chegados, descemos do seu carro, mochilas às costas e mil sacos nas mãos (é, é que a família hospitaleira de Elvas não nos deixou seguir sem várias refeições de avanço no bolso!). Não tínhamos ainda deslumbrado o que nos rodeava, já estava um carro parado, com os vidros abertos, de onde escutámos um gracioso “Hola!!!“.

Seguiam com direção ao nosso destino, e podiam deixar-nos em Mérida. Perfeito. Apaixonados por Lisboa, sugeriram que trocássemos contactos. Quem sabe um dia, por lá, nos voltemos a ver!

Já em Mérida, a estação de serviço era grande. A nossa fome já apertava (e mais um belo petisco vegetariano nos aguardava!), mas com o desenrolar daquele final de manhã, não ousávamos ver os carros por nós a passar e não esticar o dedo. A excitação era tanta, que nem a mochila descarregávamos.

Não sabemos bem se chegamos a esperar 10 minutos. Mas pararam. 7 homens. Uma carrinha. Casacos verdes. Sorrisos no rosto. Jogadores de futebol 11, jovens e entusiasmados com a nossa presença. Facilmente ali imaginámos ou revimos alguns dos nossos amigos, de caminho para uma jogatana (ou jornada!). “Para donde vas?”, perguntaram uns por cima dos outros! Não hesitámos!! Subimos e seguimos juntos por mais 120km.

Num piscar de olhos, estávamos a 60km do nosso destino: Talavera de la Reina.

Mas depois, depois é que foi. Em pouco mais de 5km, apanhámos mais duas boleias. O tempo já nos começava a fugir das mãos. No entanto o sol brilhava e mantivemo-nos inspirados.

A sétima boleia do dia, não sabemos ainda se bem aceite, tirou-nos de um lugar estratégico, em detrimento de um punhado de quilómetros de avanço. Deixámo-nos iludir pelo sentimento de estar mais perto de um novo lar e pela simpatia do condutor. Ainda assim, de lá, nunca saberíamos o que seria melhor.

Passaram-se depois várias horas. O sol já se queria esconder. A neve deixava-se avistar ao fundo, no cimo das montanhas. Os nossos narizes já revelavam o frio que sentíamos, vermelhos e a pingar. Os carros que avistávamos eram poucos, e de tempo a tempo.

Pensámos nós, horas antes, que chegaríamos rápido ao nosso novo destino. Mas andar à boleia é mesmo assim.

Calma. Paciência. Resistência. Tolerância.

Precaução.

Todos os carros que avistavamos na estrada em que estavamos, eram carros bons, carros caros. Não sabemos bem o que era o que nos corria pela alma, talvez descriminação seja uma palavra forte demais, mas deixavamos que a riqueza aparente dos que por nós passavam, nos deixassem discrentes. Passaram várias horas e ninguém parava. Ninguém.

Conversámos. Sorrimos. Fartámo-nos. Brincámos.  Respirámos. Tocámos armónica.

Tudo. E o tempo passava. Quando, de repente, vimos um Porche parar. Sim, um Porche Cayene. Lindo, por fora e por dentro!

Eis que sai um Senhor, cavalheiro, calmo e repleto de cortesia. Ofereceu-se para nos ajudar, e acreditem, pareciamos já sabe-se lá o quê: gelados, com gorros, capuzes postos, luvas, casacos, sacos, mochilões, mochilas pequenas, enfim. Uma catrefada de tralhas. Com a nossa, nova e humilde, casa às costas.

E assim chegámos. Despidos de prejulgamentos. Cheios de amor!

Talavera de la Reina, em Espanha, consagrou-se assim a primeira paragem além-fronteiras. Aqui, encontrámos uma nova família. Tão querida quanto posseis imaginar!

A aproximadamente 600km de casa, com 15 boleias, mantemo-nos unidos. Felizes!

E sabem, nem tudo o que parece, é.

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