como: viajar muito barato

Primeiro ensinamento: as melhores coisas da vida são grátis!

– Este é o nosso mote; e com isto em mente a viagem é sempre mais proveitosa e barata. –

Claro que há coisas que são difíceis visitar sem pagar mas, em comparação com o total de experiências que uma viagem te proporciona, essas visitas pagas são irrelevantes.

Todas as viagens são divididas em, pelo menos, três grupos de gastos: transporte, alojamento e alimentação. Dependendo para onde viajas, pode juntar-se outro gasto considerável – os vistos. Este último, pode ser o pior: não há volta a dar. Quanto aos outros grupos, podem reduzir- a zero (ou quase).

Transporte

O nosso transporte de eleição é e será sempre à boleia (carona, em português do Brasil). Na apresentação desta nossa viagem, falámos já do porquê desta nossa escolha. Mas uma vez mais temos de ser flexíveis e jogar com o que temos. Para atravessar mar, nem sempre é fácil conseguir boleia; mas não é impossível. Requer mais tempo, mais paciência e mais disponibilidade – mas trará também mais frutos.

Temos também de sublinhar que existem países onde é ilegal andar à boleia e ainda outros onde as regras para o fazer são muito específicas. Varia imenso de país para país e de cultura para cultura: há lugares onde esticar o dedo é uma grande ofensa, outros onde não percebem o que fazemos na borda da estrada. Assim sendo, uma vez mais, convém pesquisar. Uma boa ajuda a acrescentar é o site do Hitchwiki. Mas há outras formas de nos deslocarmos de lugar para lugar de forma grátis; por exemplo, andar a pé ou de bicicleta. E há imensa gente pelo mundo que se desloca desta forma.

– Relocations

Principalmente nos países anglo-saxónicos (Austrália, EUA, Nova Zelândia) vais encontrar muitas oportunidades para fazer relocation. Basicamente, isto e levar um carro, que foi alugado do ponto A para o ponto B, de volta do ponto B para o ponto A. Há muitos sites que servem de plataforma a estas oportunidades. As possibilidades são imensas, alguns pagam tudo (combustível, ferries) e ainda dão dinheiro, outras disponibilizam só o carro por um preço baixo por dia. Por vezes são oportunidades tão boas que até parecem impossíveis. Tal como os carros alugados, recomendo que tenham atenção ao tipo de seguro que o carro tem: em alguma situações em caso de acidente pode sair muiiito caro. – Nós, infelizmente, partimos o pára-choques e pagámos o equivalente a 350 euros. Mas quando tudo corre bem, é uma oportunidade muito interessante.

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A pedir a primeira boleia, no Irão.

Alojamento

– Amigos e/ou família

Recorremos, na maioria das vezes e, em primeiro lugar, a amigos. Temos a sorte de ao longo dos últimos anos, entre Erasmus e intercâmbios, projetos da faculdade e projetos pessoais, termos cruzado o nosso caminho com pessoas espalhadas pelo mundo. E, feliz ou infelizmente, com o fenómeno migratório existente em Portugal nos dias que correm, a lista de amigos por aí fora é extensa. Mas, claro, na Europa é fácil, na China também, o mesmo na Austrália, Estados Unidos e Canadá, contanto também claro com toda a família pelo mundo espalhada. Mas depois passamos ao plano B: amigos de amigos.

– Amigos de amigos e conhecidos

Não há vergonhas, porque nós hospedamos sempre todos aqueles que podemos; e não somos exigentes! Um bocadinho de chão abrigado e seguro está perfeito!

O facebook e outras redes sociais são uma ótima ferramenta nestas duas primeiras opções.

– Couchsurfing

Por fim, recorremos ao couchsurfing: o couchsurfing é uma plataforma onde estamos registados (e onde qualquer um se pode registar). A ideia é conhecer diferentes pessoas e diferentes culturas. No nosso país hospedamos ou recebemos para um jantar ou passeio quem podemos, quando viajamos somos hospedamos por quem pode, passeamos ou jantamos nos mesmos moldes. E é esta a forma mais intensa e única de estar em contacto com os locais. Mas não é exclusiva! O coushsurfing não é para todos os gostos, mas nós damo-nos muito bem.

– Tenda

Temos também uma tenda, na mochila. Sempre que a utilizámos foi por estarmos à boleia e não conseguirmos chegar ao nosso destino. Porque de todas as outras vezes que o tentámos fazer, quando pedimos autorização aos proprietários dos terrenos ou às pessoas que víamos por perto, estas convidaram-nos sempre para suas casas. E esta é também uma perspetiva única e muito especial. Para montar a tenda, as regras variam de país para país: na França ou países nórdicos podes montar em quase todos os lugares não protegidos e longe de casas, respeitando, a natureza, pessoas e animais. Na Escócia, podes montar a tenda em campos privados desde que não estejam cultivados. Basicamente, podes invadir qualquer propriedade privada que não esteja a ser usada. Na Polónia e Estónia o wild camping também é bastante tolerado, desde que se seja discreto e longe de casas e parques nacionais.

Cada país tem as suas regras e o melhor mesmo é pesquisar sempre. Em Portugal é ilegal, e em muitos outros países também. Na nossa opinião, se fores um campista muito consciente, podes fazê-lo em quase todos os países, não deixando NADA para trás além de pegadas, montando a tenda depois do anoitecer e levantando antes do amanhecer. O melhor para acampar é perguntar às pessoas se te cedem um pedaço do seu quintal, geralmente mais seguro e menos problemático. Com sorte, ainda te cedem um teto e um pratinho de sopa.

– Workaway

Esta é uma forma de trocar algum tempo de trabalho diário, por estadia e, por vezes, alimentação. Existem vários websites (e.g. Helpx) que funcionam como plataforma para facilitar o contacto entre quem hospeda e quem oferece o trabalho.

– Housesitting

Esta é uma boa opção para estadias mais longas num lugar. Por norma, os donos das casas necessitam que tomem conta do jardim, das flores ou dos animais, enquanto se encontram de férias. Há varias opções e também vários websites (e.g Housesitting Company) que facilitam o contacto entre os proprietários e aqueles que se propõe a tomar conta da casa. Nunca fizemos, mas já ouvimos relatos de muitas experiências: umas excelentes, outras nem tanto.

– Parcerias/trabalho

Muitos hosteis por esse mundo ficariam muito contentes em trocar hospedagem por algum serviço que possas oferecer. Neste campo, vale tudo: manda e-mails, oferece o que puderes e vais ficar surpreendido com a quantidade de respostas positivas. Podes propor-te para diversas coisas, tais como trabalhar na recepção, fazer limpeza, fazer as camas, tratar do jardim, traduzir documentos, fazer uma página web e, se tiveres um blogue ou experiência em viagens, podes também fazer reviews e publicidade, trabalhar e publicar fotos/videos nas redes sociais, ajudar como conselheiro de negócio; entre muitas outras possibilidades. Como te podes dar conta, as oportunidades são muitas! Sê criativo, persistente e profissional e vais ter muito boas experiências.

– Outras aventuras

Além da tenda, já dormimos em hospitais, restaurantes, igrejas ou salas de reza, entre muitos outros lugares – mas estes não faziam parte do planeamento, fazem parte da magia do caminho. Existem também hosteis muito baratos, principalmente no sudoeste asiático, a menos de um euro. Nunca utilizámos, mas acreditamos que sejam uma boa solução para tomar um banho e dar descanso à tenda. Em último caso, procura algo que esteja aberto 24horas: McDonald’s, uma estação de serviço, hospital ou aeroporto. Uma estação de comboio ou autocarros também pode funcionar mas, dependendo do país, se adormeceres ficarás mais exposto aos amigos do alheio.

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Quando acampámos pela primeira vez. Na China.

Alimentação

A alimentação é um dos gastos mais difíceis de reduzir a zero, mas não impossível. De qualquer forma, não é assim tão duro poupar dinheiro no que se come.

Pela nossa experiência, tentamos cozinhar sempre que possível. Compramos os ingredientes nos mercados locais, quando estes existem ou nos supermercados em cidades grandes. E, por norma, cozinhamos na casa de quem nos hospeda. Quando não temos hipótese de cozinhar, compramos fruta, legumes e pão para ir comendo. Quando cozinhamos, tentamos fazer a mais de forma a levar connosco nas visitas pelas cidades ou no trajeto à boleia entre cidades. Uma boa forma de também poupar na comida é procurar supermercados com descontos nos produtos a sair de validade. Normalmente, são os supermercados grandes que fazem estes descontos. Neste caso, tentamos comprar as frutas e legumes que estejam em promoção.

Muitas vezes, as pessoas que nos hospedam, ou dão boleia, também nos oferecem comida (que se vegetariana, aceitamos e agradecemos).

Para comer sem pagar, temos dicas para todos os gostos, das mais radicais às mais conservadores:

1. Tablediving – Consiste em ir a um lugar onde há muita gente a comer e aproveitar os seus restos. Há restos para todos os gostos, desde o falafel já metade comido, até ao pacote de batatas que vinha com todos os menus e por isso não foi tocado, ou as bolachas que não fazem o estilo do cliente e por isso ficam no prato. Requer cuidado e crítica.

2. Dumpster diving – Não é nada mais que resgatar comida (em bom estado) que é desperdiçada diariamente por mercados, supermercados, minimercados e muitos outros estabelecimentos comerciais. Na maior parte das vezes requer que se procures nos contentores de comida, mas muitas outras vezes pode encontrar-se caixas de cartão à porta dos estabelecimentos comerciais já fechados. Este último exemplo é o caso de todos os dias, na China Town, em Honolulu, no Hawaii (EUA). O mesmo no fecho do mercado biológico de Wellington, na Nova Zelândia, todos os domingos por volta das 14h. São quilos e quilos de comida ótima e selecionada, que por não estar perfeita, vai para o lixo (das duas vezes que lá fomos, foram vários os produtores que colocaram à disposição várias caixas para que as pessoas escolhessem antes de colocar nos contentores, incluindo pêssegos, laranjas, maçãs, abacates, pimentos, couves, salsa, entre muitos outros).

3. Harvesting – Isto não é nada mais que colher fruta de arvores públicas. Por exemplo, no Algarve, existem algumas laranjeiras na via pública ou, na Nova Zelândia, algumas maceiras em parques e estradas. Outra opção é aproveitar a fruta que esta caída da árvore e que não será colhida. Por esse mundo fora há imensas árvores de fruto e seguramente vais encontrar muita fruta que irá apodrecer. Mantém sempre a descrição e se alguém não se mostrar contente com o que estás a fazer, vai-te embora sem discutir.

4. Meios de transporte – Muitas vezes, nos aviões, comboios ou autocarros, os passageiros recebem snacks e… desperdiçam tudo. Pedindo ,ou indo com calma quando te levantas, consegues encontrar comida que provavelmente, se não a resgatares, vai ser deitada fora. Atenta que o desperdício alimentar existe em grande escala.

5. Restaurantes grátis – Neste mundo capitalista há coisas que as pessoas do século XXI não estão preparadas para ouvir falar. Almoços grátis é uma delas: mas eles existem, e muitos! Há cantinas em templos Budistas, Sikh, Hindus (entre outros), que oferecem várias refeições grátis todos os dias. Na Singapura, é fácil de encontrar muitos (este foi o melhor na nossa opinião) e dá muito jeito porque é um país caro. Estas cantinas servem toda a gente, uma vez que acreditam que perante o ato de dar muito, irão também receber muito. Existem também muitas cantinas para pessoas mais necessitadas e outros tantos restaurantes que funcionam por doação voluntária de qualquer valor.

6.Eventos – Por vezes, nos centros de congressos e afins, existem grandes eventos com muita comidinha boa e outros brindes. Parece que não podemos entrar, mas podemos. Quem está à porta ou não está a controlar ou pede por um ingresso/uma pulseira, que muitas vezes estão disponíveis na hora depois de ser feito o registo uns metros mais à frente, numa secção própria. Um dia, em Kuala Lumpur, vimos destes eventos no KLCC e por curiosidade tentámos entrar. Passados 5 minutos, estávamos a apreciar grandes petiscos vegetarianos. Às vezes, é só tentar.

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Estes legumes e frutas foram resgatados no fecho de um mercado, na Macedónia.

Vistos

Destes, não dá para fugir. O visto terá sempre de ser pago. Os conselhos que podemos dar têm por objetivo pagarem o menos possível:

– Faz tudo sozinho, lê outros blogues, recolhe a informação necessária e vai diretamente à embaixada. Leva contigo todos os documentos, fotografias, entre outros, que saibas que vais precisar. E no caminho para a embaixada não te deixes enrolar com as pessoas que te querem ajudar a troco de dinheiro.

– Tenta pedir o visto sem que te peçam carta de convite. Às vezes pode depender de embaixada para embaixada, podes tentar contactar varias embaixadas e ver se os requisitos mudam. Se não conseguires fugir da carta de convite, contacta um hostel que te possa fazer essa carta e procura a opção mais barata. Muitas vezes pessoas particulares podem também fazer essa carta mas o processo é tão chato para a pessoa que pode não compensar.

– Se te pedirem reservas de voos e hosteis, reserva tudo online em sites que te devolvam o dinheiro sem custos.

– Caso sejam necessários outros requisitos (como um seguro de saúde), normalmente as embaixadas não querem saber muito disso, portanto, se o teu foco não for estar protegido e sim unicamente obter o visto, um seguro de acidentes pessoais que custa 30 euros por ano funcionará.

– Leva sempre contigo fotos tipo passe: vais poupar dezenas de euros pelo mundo com este simples detalhe.

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O que mais dores de cabeça nos deu para obter: o visto para os EUA.

Para já, estes são os melhores conselhos que podemos dar para iniciar uma viagem verdadeiramente low cost!

Em viagem, como na vida, existem muitas coisas que não podemos antecipar mas, na maior parte dos casos, com calma, perseverança e muita criatividade, tudo se resolve: mesmo para quem não ganhou a lotaria, nem tem pais ricos.

Deixa a tua opinião e partilha mais ideias.

E lembra-te! No final: tudo acaba bem. Se ainda não esta bem, é porque ainda não chegou ao fim. 🙂

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de olhos em bico!

Chegámos à China! Sim, à grande China, do lado de lá do mapa! Gigante e imensa. E chegámos à boleia!

Foram 5 meses de caminho, de aventuras e histórias, de partilhas, vivências, loucuras e muito amor. Foram quilómetros e países, amizades infinitas e aprendizagens constantes. E foram também saudades e lágrimas, abraços e sorrisos.

Mas quando nos soubemos a pisar a China, ai: que emoção! Estávamos em êxtase, que nem duas crianças na feira popular! Queríamos absorver tudo, ver tudo, sentir tudo. Que loucos!

Chegámos à fronteira a uma boa hora, mas com a mudança do fuso horário em mais duas horas, vimos o nosso dia encurtado. Ainda assim, nada importava senão as luzes, os sons, os olhares. A fronteira da China é única, e depois de tantas outras que atravessámos a pé, nem queríamos acreditar. Se por um lado todas as outras fronteiras ficam no meio do nada, por entre montanhas e um vazio; a fronteira entre o Cazaquistão e a China fica exatamente no meio de uma cidade. Sim, é isso mesmo! E, não obstante, enquanto nos restantes edifícios fronteiriços encontrámos espaços vazios, ocupados por autoridades armadas, uma câmara de RX, uma mesa de revista e um computador, na China encontrámos um espaço cheio de gente (ou não se tratasse da China!), equipamentos eletrónicos, luzes, luzinhas e sons, câmaras, passadeiras rolantes e computadores. Um mundo muito diferente!

Levámos pouco mais de 10 minutos a ganhar o carimbo no visto do nosso passaporte, por entre a amabilidade de todos e a descomplicação dos papéis a preencher.

E, foi quando pusemos os nossos pezinhos na cidade de Khorgos, que nem queríamos acreditar!

Carros, pessoas, prédios, luzes.

Tudo piscava! Tudo mexia!

Tudo era uma imensidão: e nós, parados, estupefactos, de olhos abertos e alma encantada!

Fazia tempo que não víamos nada assim – se é que alguma vez vimos.

Caminhámos depois, para nos pormos à boleia. Eram 14:00h (GMT+8) e tínhamos 660 quilómetros para fazer. Mas parecíamos anestesiados: nada importava.

Olhámos deslumbrados a cada passo que demos. E escolhemos uma sombra, numa via rápida dentro ainda da cidade, para pousar as coisas e esticar a nossa placa; pouco depois de termos conhecido a primeira local que nos ajudou a retoca-la, por entre a nossa inexperiência com caracteres chineses. Ia por acaso na nossa direção, Urumqi, mas tinha o carro cheio.

Com a nossa primeira placa escrita em chinês, foi na estrada que passámos a tarde toda: e ninguém parou. Os carros, sem compaixão, passavam por nós, um por um; e seguiam, indiferentes à nossa presença.

E nas suas pequenas motas elétricas, iam parando pessoas na tentativa de perceber o que estávamos ali a fazer. A placa escrita, o dedo esticado, as mochilas no chão, não lhes dizia nada. Sem que conseguíssemos comunicar (literalmente), íamos dizendo “dabianche” da forma que sabíamos e lá iam entendendo que ali nos encontrávamos à espera de quem fosse na nossa direção.

Acabámos por fazer um amigo, professor em Pequim, e foi com ele que caminhámos e mudámos de lugar. O novo posto não era de uma melhoria significativa, mas quando estamos muito tempo à boleia, à espera e sempre no mesmo sítio, temos necessidade de mudar, de improvisar: de fazer acontecer!

Como se procurássemos livrar-nos das más energias que inevitavelmente se vão acumulando com o cansaço.

E fresquinhos na nova estrada, aproximou-se de nós um senhor, pelo seu próprio pé. Não lhe percebemos as frases, mas ficou a intenção. Descobrimos que ia na nossa direção por entre gestos e que para nos levar precisava de ver o nosso passaporte, para sua segurança.

Tirámos então as fotocópias que temos, e seguimos!

Seguimos juntos por toda a noite e sabíamos que haveríamos de chegar pela madrugada. A couchsurfer que nos iria hospedar, depressa avisou que a partir das 22:00h não poderia abrir a porta, e por isso sabíamos estávamos entregues a nós próprios à chegada.

Mas deixámo-nos ir! A viagem era longa o suficiente para não nos preocuparmos por antecipação, e deu ainda para, por entre um pequeno acesso à internet, percebermos que não sabíamos virar-nos sem o Google, sendo que estivemos longos minutos a pensar num motor de pesquisa alternativo.

O condutor, embora com a barreira da linguagem, mostrou-se sempre amável e muito educado, disponível e calmo. Sabíamo-nos em segurança e fomo-nos deixando dormir. Mas foi pelo caminho, ainda que de forma ilegal, que pediu que conduzíssemos por ele: uma verdadeira loucura face às regras de trânsito chinesas, mas não tão grave em autoestrada às 3:00h da manhã! E ainda que sempre com muitas instruções, lá aproveitou para descansar.

À chegada a Urumqi, por volta das 5:00h, deixou que ficássemos a dormir no seu carro, e foi só as 7:00h que nos foi chamar para nos levar a tomar o pequeno-almoço. Tipicamente chinês (percebemos agora) levou-nos a uma espécie de restaurante para pequenos almoços, que a princípio até pensámos que seria seu, uma vez que em plena sala de refeições começou a fazer a barba. Mas não. Meio às escuras, lá escolhemos o que queríamos comer; já eles, têm por hábito pedir uma espécie de sopa doce ou insossa, feita com feijão, milho, arroz ou millet (da qual não gostamos assim tanto) ou fritos. E comem tudo com pauzinhos, mesmo havendo colheres!

Foi então que depois nos levou a casa da nossa couchsurfer, onde passámos 3 noites. Uma família tipicamente Chinesa, com horários rígidos e muita disciplina. O filho, mesmo de férias, crescia de forma regrada, tendo horários para tudo: as 7:00h devia acordar, as 8:00h ler em voz alta um livro em inglês (repetindo as frases até as pronunciar de forma perfeita), às 9:00h acompanhar a mãe ao trabalho e lá ficar a estudar; as 17:00h regressar e ir jogar basquetebol, enquanto a mãe corrige os trabalhos realizados durante o dia; as 18:00h rever os trabalhos, as 19:00h tocar um instrumento, e por aí fora, todos os dias da semana. E em dia de festa, havia direito a ver um filme. Em casa, sem televisão ou internet, também eram vegetarianos.

Foi, para nós, um primeiro impacto muito agressivo. Sabíamos, de ouvir, da rigidez educativa, do sistema padronizado exigido, mas não esperávamos senti-lo tão de imediato. Não sabemos se será assim com todas as famílias, mas vivenciamos um bom exemplo com esta.

Mas marcou-nos a nossa estadia em Urumqi as pessoas com quem nos cruzámos nas ruas, que nos ajudaram de forma espontânea! No primeiro dia, depois de muito palmilharmos na procura de um banco para trocar dinheiro, fomos sabendo pelas ruas que havia apenas um banco na cidade habilitado para o fazer. Contudo, embora numa pequena cidade (com 3 milhões de habitantes), era difícil que a pé chegássemos a todo o lado; mas sem dinheiro trocado, era impossível que apanhássemos transportes. Assim, continuámos de banco em banco a tentar a nossa sorte, até que uma funcionária, num deles, falando umas poucas palavras de inglês, se juntou com os colegas para recolher as moedas que entre todos tinham, e nos ofereceu para que apanhássemos o autocarro necessário para chegar ao dito Banco da China, noutro lado da cidade. E ofereceu a mais, para o caso de necessitarmos.

Não sabíamos nem o que fazer com as mãos, estávamos incrédulos. E gratos!

Pouco a pouco, estávamos a (re)descobrir um povo: em Portugal conhecemo-lo na sua face discreta, pouco comunicativa. E era este o preconceito que trazíamos em nós.

Levámos depois várias horas até encontrar o dito cujo, o famoso banco. Encontrámos outros com o mesmo nome, que ou só trocavam dólares, ou não tinham posto de troca. Andámos às voltas, perdidos, rua para a frente, rua para trás, e de cada vez que pedíamos ajuda ou indicações, mandavam-nos para um ponto diferente e distante na cidade. Lá nos desenrascámos: com uma taxa de câmbio miserável, mas felizes ainda assim!

Recordamos então com muito carinho os primeiros dias em Urumqi, nomeadamente por termos ali descoberto uma nova China, uma China muito diferente e muito mais à frente do que poderíamos imaginar.

E embora cuspam para o chão, em todo o lado e sem rodeios; andem constantemente montados em motas elétricas, de buzina em punho e sem modos, ou façam do mandarim um bruxedo, não nos tentando sequer entender; vivemos encantados!

Também no segundo dia, quando perdidos pela cidade e sem saber que transportes apanhar até casa, fomos abençoados. A chuva batia forte, o calor deu lugar ao fresco que sentíamos nas pernas e por todo o corpo. O trânsito caótico, as buzinas e a confusão; tudo fazia para que o nosso discernimento estivesse condicionado. Pedimos então ajuda a uma jovem, que mesmo sem falar inglês se dedicou a tentar entender-nos. Com o auxílio do mapa, mostrámos-lhe para onde queríamos ir e depressa ligou para uma linha de informações de forma a saber que transportes e quais os seus números, e onde os apanhar, para nos levar de onde estávamos até ao nosso destino – casa. Depois, depois gesticulou para que a seguíssemos, alterou a sua vida, pagou-nos o elétrico e o autocarro e levou-nos até à porta do condomínio.

(Sim, por toda a China, não há prédio sem condomínio. Não cremos que seja por questão de segurança, porque por todo o lado o sabemos seguro. Mas confere alguma organização às cidades e, por norma, dependendo do valor, podem ter não só o estacionamento privado para o carro, como piscina, ginásio ou supermercado.)

Ficámos então sem palavras: não sabíamos como lhe agradecer, como demonstrar a nossa gratidão perante a sua disponibilidade e amabilidade.

Sorrimos. Agarrámos o peito e inclinámo-nos para a frente. E com o telefone mostrámos-lhe o Wechat: sorriu de volta e enquanto acenava com a cabeça e dizia “ah ah ah” (característico por aqui, em sinal de concordância!), deu-nos então o seu contacto. Agradecemos mais tarde por escrito, porque uma das maravilhas deste Wechat (uma aplicação equiparada ao Whatsapp ou Viber), é que permite de forma automática a tradução entre inglês e caracteres chineses, simplificando a vida de todos!

Tivemos também na cidade o prazer de jantar com um couchsurfer que, embora não nos tenha podido hospedar, nos proporcionou a experiência de novos sabores vegetarianos pela cozinha chinesa – uma verdadeira delícia!

Pelas noites que ali passámos, tentámos recuperar juntos de uma pequena gripe, estado febril que só um pouco atrapalhou. Mas foi ali também que dormimos separados, por imposição de quem nos hospedou. Não que tenhamos compreendido o porquê, mas coube-nos respeitar: e palpita-nos que tenha a ver com a rigidez imposta ao filho e a algum exemplo que queira dar, mas isto nunca saberemos.

Já ao quinto dia, seguimos para Hami, uma cidade a 500 quilómetros, ainda na mesma província.

Deram-nos boleia dois carros, na tentativa de nos colocar num melhor lugar para apanhar uma boleia direta, o que não aconteceu. Houve muito quem parasse, quem nos abordasse e não escondesse a curiosidade. Tentaram também falar-nos e explicar várias coisas, mas o discurso exclusivo em chinês impediu qualquer comunicação. Mas até dinheiro nos quiseram dar.

Quando apanhámos a terceira boleia do dia, de uma mulher, ficámos na autoestrada, num lugar à partida melhor, ainda que proibido por lei para caminhar. Contudo, o sol levou muito pouco até se pôr, o que na província em questão se dava depois das 22:00h. Era tarde. Estávamos cansados e já pouco crentes. Mas continuávamos atentos a quem por nós passava, enquanto erguíamos já a bandeira de Portugal para chamar à atenção dos mais distraídos.

Até avistarmos a polícia.

Estremecemos. Assustados! Sem sabermos bem qual a consequência de estarmos ali à boleia.

Pararam o carro ao nosso lado. Luzes acesas a piscar (o que faz parte da China). E saíram para nos abordar.

Sorriram, sem que o esperássemos! E por entre abraços, diziam “Putauia! Cilo!“.

Tinham reconhecido a bandeira de Portugal, e diziam em Chinês exatamente isso, “Portugal! Ronaldo!” – Sim, por aqui traduzem tudo! Seja nomes próprios ou palavras que diríamos universais.

Ofereceram-se então para nos dar boleia por 100 quilómetros e foi quando chegámos ao posto de polícia seguinte (dentro da autoestrada, o que é por aqui comum após cada portagem), que nos disseram que era tarde para continuarmos à boleia, oferecendo o jardim para montar a tenda.

Assim o fizemos, de forma luxuosa, com Wi-Fi e wc neste nosso “parque de campismo”! E, na manhã seguinte, não só acordámos com um esquilo à janela, como com um pequeno-almoço e muitos sorrisos! A polícia, doce, descansou-nos e prometeu-nos que nos arranjaria uma boleia direta. Estávamos pouco crentes, mas assim o fizeram, mandado parar os carros um por um. Indescritível!

Muita bondade!

Quem nos levou, ofereceu-nos pelo caminho um almoço típico e deixou-nos já à noite onde nos pudemos encontrar com um amigo da irmã de quem nos ia hospedar. A história é confusa, mas muito bonita: uma couchsurfer, a Tina (nome por ela escolhido) a estudar noutra cidade, tratou de falar com um amigo de infância e com o irmão, para que um nos fosse buscar e o outro, mesmo estando a trabalhar, nos hospedasse. E assim aconteceu!

Na manhã seguinte, e depois de nos termos dado tão bem, foi buscar-nos novamente o melhor amigo que se ofereceu para nos hospedar por uma noite mais, para que passássemos esse dia juntos. E assim fizemos, com muita amizade e aprendizagem à mistura.

Pela cidade, não só vivemos templos antigos, como até à bola deu para jogar. E pelas ruas, assistimos também à vida na sua verdadeira essência asiática, começando pelos homens com as camisolas arregaçadas para cima e de umbigo à mostram, e terminando com a cultura das bebidas, que sejam estas quais forem, devem ser quentes, por questão de crença na saúde. Quanto à água, talvez ajude também o facto desta não ser potável, o que leva a que muitas famílias a fervam. Desta forma, com um Chinês anda sempre uma garrafa de vidro.

A noite em Hami terminou então com amigos, numa ida a um grande hipermercado (coisa que não pisávamos há já muito tempo!) e num grande jantar por nós cozinhado! Que delícia!

No dia seguinte, foi então dia de partir para Jiuquan, agora sim numa nova província! O caminho correu sobre ouro: apanhámos ainda em Sami uma boleia de 3 polícias à paisana e, chegados ao seu posto, trataram de nos arranjar uma outra boleia direta. Ofereceram-nos dois banquinhos para que esperássemos sentadinhos, e foram parando todos os carros até encontrarem o tal.

Chegámos já perto das 21:00h e foi-nos receber à estrada o nosso couchsurfer. Apressou-se depois a convidar-nos para jantar, numa mesa farta e recheada de iguarias típicas e vegetarianas, de entre as quais, sopa de noodles e cogumelos, tofu transparente picante, feijões crocantes assados em palitos, e umas tantas outras. Para acompanhar, chá e leite de amêndoa. Não saímos de lá a rebolar, mas pouco faltou. E, também no restaurante, vimos foi outros sair em braços, de tão bêbados que estavam.

À caminha chegámos já fora de horas, cansados, mas de barriga cheia. No conforto dos lençóis e do quarto mais fresco, deixámo-nos dormir. E sonhar.

E foi por isso que, na manhã seguinte, nem os raios de sol nos despertaram. O sono era profundo, e nós (que nem gostamos nada de dormir), fomos levados pela sensação de bem-estar que temos ao descansar.

Mas tínhamos de partir, e sabíamo-lo muito bem.

Era então novamente mais tarde que cedo quando chegámos à estrada que desejávamos, depois de em pleno centro da cidade nos termos posto à boleia. E tivemos sorte; parou uma senhora e a sua filha, com as quais nos comunicámos através do tradutor do telefone.

Já à entrada da autoestrada tivemos de ser mais pacientes, levou tempo. Mas antes de passar a portagem, por entre os carros parados, um jipe abriu a janela e apontou para um outro jipe mais à frente, que depressa nos acenou.

Era um JEEP, robusto e azul vivo. Eram dois rapazes. Fumavam ambos, mas nunca dentro do carro: e ainda bem, porque se havíamos curado um estado febril, agora havia tosse e dor de garganta que nunca mais acabava (o costume: quem nos conhece até se deve perguntar como é que foi só agora a primeira vez; mas isso só agradecendo ao “nosso” Homeopata que, da ultima vez, pôs isto nos trinques!).

Seguimos então juntos, com eles e com todos os amigos que seguiam em carros separados. E, quando pelo caminho pararam para partilhar uma melancia, com a ajuda de uma jovem lá nos fizeram chegar a mensagem de que, embora não tivessem primeiramente planeado passar pela cidade para onde nós íamos, tinham alterado o roteiro do dia para lá nos deixar. Estava um dia chuvoso: ficámos tão agradecidos.

Já na cidade de Lanzhou, esperaram que o nosso couchsurfer, o John, fosse ao nosso encontro. A chuva caía intensa e a noite era escura, mas ele lá apareceu, magrito, todo molhado e recheado de energias! Boas energias!

Trazia um sorriso no rosto, de orelha a orelha! Ajudou-nos a despedir de quem nos havia dado boleia e seguimos a pé até sua casa!

Quando lhe escrevemos através do couchsurfing pela primeira vez, contámos a nossa história numa versão muito breve. Quando o John nos respondeu, a mensagem vinha do coração: queria muito hospedar-nos, conhecer-nos e conhecer aprofundadamente o nosso caminho; mas a casa onde se encontrava, era uma casa antiga, num prédio antigo. Um apartamento sem cozinha, sem casa de banho, sem chuveiro. O fogão ficava no corredor, mesmo à porta. Era um bico elétrico, por cima de um armário pequenino. A casa de banho, era comum ao andar, feita de 3 latrinas sem divisória e um lavatório comprido. Chuveiro, não havia em lado nenhum.

Aceitámos, mesmo perante a descrição. E quando chegámos, sabíamos já ao que íamos. Deu-nos o que tinha, inclusive a sua cama. Mas não foi fácil. A tosse era muita, o cansaço também, e no momento da chegada, foi um misto de emoções; a gratidão era óbvia, mas jazia em nós ao mesmo tempo a petrificação perante a condições (in)existentes.

Lidamos de forma diferente com isso, e temos uma maturidade diferente perante a dificuldade. Ou mesmo que não seja uma dificuldade, uma expectativa incumprida. Ou uma adversidade. Como a ter de se sair de casa durante a noite para se ir à casa de banho. Mesmo já sabendo que assim o seria.

Mas é no abraço um do outro que nos consolamos. Que crescemos. Que nos acalmamos.

É juntos, e depois do estado de exaltação, na paz, que nos curamos, nos ajudamos. Nos tornamos melhores.

E custa, custa sarar na diferença.

Também hospedados em casa daquele que se tornou um amigo, o John, ficou um casal russo, com quem partilhámos os dias que se seguiram e as noites mal dormidas graças a uma tosse desmedida.

Tomámos banho ora de alguidar, ora em casa de uma prima; e foi o pai do John que todas as noites nos preparou um jantar maravilhoso e típico, no seu modesto fogão de corredor. A loiça, lavámo-la no lavatório grande e comum da casa de banho do piso; e num instante nos habituámos a viver assim. Felizes com tão pouco, e com tanto ao mesmo tempo!

E já no último dia, almoçámos uns noodles de vegetais, com picante de cortar a respiração, com pauzinhos e até não caber mais. Confessou-nos o John, por entre o seu olhar malandro, que dizem sempre os locais que comem alho cru com as refeições por fazer bem: mas não é essa a principal razão. Comem o alho sim, para desinfetar o organismo – “Vocês sabem, os restaurantes aqui na China não são assim tão limpos”, dizia no seu inglês perfeito, após 4 anos a viver em diferentes países em África.

E, pouco a pouco, entregámo-nos à vida por aqui. Uma vida apaixonante.

Também antes de irmos embora nos ofereceu um xarope natural para a tosse: não sabíamos de que era feito, se nos faria bem ou mal, se era bom ou mau. Mas, sob a regra do “faz como vires fazer”, aceitámos, sabendo ser feito apenas com plantas, sem químicos.

(Podemos adiantar que a melhoria não foi imediata, não ocorreu no próprio dia. Mas aconteceu. E, sem recorrermos a nenhum dos medicamentos que trazemos por prevenção na mala, ficámos felizes por termos dado tempo ao tempo e tempo a um produto natural para nos tratar.)

E partimos então, depois de 12 dias na China, para Xi’an. Estávamos desejosos por lá chegar: íamos encontrar e ficar com os primeiros portugueses desde França. Íamos poder deixar a roupa de inverno.

Íamos poder conversar até mais não!

Saímos então cedo, e fizemo-nos à estrada com os nossos companheiros russos. E, só à entrada da autoestrada nos separámos. Ali, ficámos menos tempo do que o esperado, e apanhou-nos um jipe com uma família amorosa. Viajavam novamente mais, mas em carros separados. E aceitaram levar-nos.

Fizemos muitos quilómetros juntos, ainda; mas foi quando nos deixaram na cidade em que pararam para almoçar, que o pânico se instalou. Com um grande enxame de abelhas por toda a zona das portagens e entrada da cidade, víamos as pessoas correr apressadas e assustadas, cobertas com casacos e de rosto escondido.

Mas, nós, carregados com 3 mochilas, um saco de tralhas enorme e pesado, mais um garrafão de água acabado de nos ser oferecido, parecíamos lesmas. As abelhas chocavam (literalmente) contra nós à medida que andávamos. Eram tantas e voavam de forma tão perdida no espaço, que não havia ordem possível.

Era correr, fugir, tentar escapar.

Mas se um de nós estava calmo e sereno, a apreciar a loucura; o outro estava em estado de alarme e de lágrimas nos olhos. Nem a palavra pânico o conseguiria descrever na perfeição.

E enquanto fugíamos perante a nossa lentidão, fomos picados.

— É engraçado, só um de nós foi picado, só um de nós teve febre, só um de nós teve tosse. Mas “fomos”, “temos”, “somos”. É isso, somos um só. —

A dor da picada era de congelar o cérebro, mas não havia tempo a perder, nem para tirar o ferrão, nem para lavar com água ou pôr uma moeda. Com isto, caminhámos até onde nos sentimos seguros, mas em contrapartida até onde seria muito difícil conseguir uma nova boleia.

Passámos ali grande parte da tarde, sempre atentos a todos e quaisquer bichos voadores. E só quando a polícia passou uma mangueira pelo ar na zona das portagens, diminuindo significativamente a quantidade de abelhas no ar, nos atrevemos a chegar mais perto. E foi aí que as meninas da brisa (ou equivalente) nos ajudaram a parar os carros até encontrarmos alguém que nos deixasse mais à frente, numa estação de serviço. E assim foi, tão rápido!

Já na estação, estava a anoitecer a olhos vistos. O sol descia sem licença, no horizonte. E a luz era cada vez menos. Mas mesmo a tempo, parou um jovem casal, que ia praticamente na nossa direção. E já quase às 23:30h, acabaram por nos levar à porta de casa, em Xi’an.

Saídos do carro, o bafo foi imediato. Um calor insuportável, com uma humidade elevadíssima. Impossível parar de suar ou respirar com tranquilidade. Nunca tínhamos sentido nada assim, nunca! E assim foi em todos os dias da nossa estadia: adormecer e acordar suados. Lençóis molhados, roupa molhada: e não adiantava secar depois do banho, o suor voltava no mesmo instante.

Da nossa estadia, guardamos com carinho os novos amigos portugueses que fizemos e que esperamos reencontrar um dia por ruelas de calçada. Guardamos também tudo quanto visitámos, o templo Bell Tower, a Muslim Street, ou a escolinha de futebol do Figo. E, para sempre, o aniversário do mês: 20/8: não é todos os anos que se está na China a comemorar 26 primaveras!

Refeitas as malas, com menos 10 quilos por certo, seguimos viagem. Não que tenha custado, mas quando paramos mais dias num só lugar, também nos sabe tão bem, que depois sentimos algum atrito para voltar à estrada. Podemos dizer que nos deixamos habituar ao conforto do lar e damos asas à preguiça. Mas não pode ser: há um mundo há nossa espera!

Fomos então para Zhenzhou e lá chegámos já de noite e após 5 boleias, não tão difíceis de apanhar pelo chinês que começámos a dominar. Pelo meio, numa delas, acabámos por sair do carro por não conseguirmos comunicar com o casal que nos levava: nada de mal aconteceu ou se previa, mas é muito difícil quando assim acontece. Nem as pessoas se conseguem explicar, nem nós.

Encontrámos então a Tina, a couchsurfer que em tempos nos havia ajudado. Hospedou-nos na universidade onde estuda e onde vários estudantes, mesmo de férias, passam o seu tempo. Das salas de aula fazem salas de estudo e dormitório, mesmo que sem cozinha ou chuveiro. Uma vez mais adotámos a técnica do banho de alguidar e fomos felizes e lavadinhos assim!

Partilhámos de noite, os dois, um sofá no escritório de uma professora, e na manhã seguinte levou-nos a Tina e os seus amigos a tomar o pequeno-almoço à cantina. Passava pouco das 7:00h e o movimento era já mais que muito.

Palmilhámos o seu campos universitário e também o de Medicina Tradicional Chinesa, onde nos deixámos encantar com os lagos e os seus nenúfares perfeitos.

Perto das 11:00h e antes de nos deixar seguir para a próxima cidade, levou-nos a almoçar a um restaurante e a provar comida local: sopa de milho doce, tofu mole com ovos pretos ou batata frita quase crua. Embora tudo muito estranho para o nosso paladar, tudo delicioso. Mas o mais gratificante, os rituais à mesa: pedem pratos sem fim, não um por pessoa. Depois, nas mesas circulares, fica o manjar no meio e rodam entre todos. A loiça vem “embalada” após lavada, com um rótulo de desinfeção; ainda assim, quando chega a água fervida à mesa (a que bebem também), lavam a loiça peça por peça; e a água que sobra desta bagunceira, atiram para o chão, para um canto da sala. Ah, sim, porque embora haja uma sala ampla onde se pode almoçar com outras pessoas (no registo de restaurantes que conhecemos), há também salas privadas com uma só mesa. O que levam à boca mas não conseguem comer, vão cuspindo para o lado do prato, para a mesa. E em poucos minutos, está instalado o caos numa mesa de restaurante, entre guardanapos amachucados, comida cuspida, restos ou plásticos das embalagens da loiça. Pelo meio, embora nunca tenhamos visto fazerem-no para o chão, puxam o catarro e, ou vão lá fora cuspir, ou fazem-no ali para um guardanapo.

Também fumam em todo o lado, e em todo lado cheira a Martim Moniz, seja restaurante ou loja de conveniência. É a China.

Mas é nas ruas e nos mercados recônditos que encontrámos as iguarias mais estranhas e penosas: aranhas, baratas ou escaravelhos fritos, petiscos de escorpião ou patinhos bebés assados. Vale tudo. E dizem entre risos, comem tudo o que tenha pernas, menos mobílias.

Seguimos então para Shijiazhuang, depois da Tina nos ter ido ainda comprar um enorme farnel ao supermercado do campos universitário. Um verdadeiro anjo!

Fizemo-nos então à estrada sem que o cobrador da portagem nos tenha propriamente ajudado, depois de nos impedir que passássemos dali em diante.

Mas correu tudo pelo melhor e, embora tenhamos chegado já de noite, chegámos bem e felizes, depois de 3 boleia diferentes, até casa da nossa nova couchsurfer.

Na verdade, hospedou-nos por dois dias num escritório de família, agora vazio, num imponente edifício na cidade. Com uma vista estrondosa do andar em que ficámos, dormimos em duas marquesas que juntámos lado a lado, sob as luzes da noite. Sem chuveiro, adotámos de novo a nossa técnica do alguidar; e sem cozinha desenrascamo-nos sem grande atrapalhação. Contudo, convidou-nos pelo meio a tomar banho na sua casa (onde realmente não teríamos condições para pernoitar).

Ainda em Shijiazhuang, tivemos a sorte de conhecer e travar amizade com dois portugueses e a família de um deles. Ambos a trabalhar já há algum tempo na China, permitiram-nos a abordagem a esta cultura de um novo ponto de vista. Do dia que passámos juntos, recordamos todas as partilhas, passeios, sorrisos e gargalhadas, e também um delicioso jantar. É assim, sem querer, que se tropeça nas gentes da nossa terra: gentes boas de conhecer, que nos confortam tão longe de casa.

Mas sem que nos possamos esquecer, foi também juntos que vivenciámos mais um momento hilariante. Foi à saída de um centro comercial, grande e afamado no centro da cidade, que à porta sentimos pingos nos pés. Incrédulos com a possibilidade de ser chuva, olhámos em volta: e para o canto de uma das grandes portas do centro comercial, estava uma criança dos seus 12 anos a urinar.

Incrível, não é? Mas é mesmo assim. Não interessa que dentro do centro comercial haja casas de banho com fartura. Não importa que rua sim, rua não, haja um sinal a indicar uma casa de banho pública (dizendo até “public toilet” – sendo estas por norma um espaço com várias latrinas, mas sem divisórias, o que torna o momento íntimo num momento de confraternização, com a maior das naturalidades). Prevalece a vontade, o desejo e a falta de higiene. Também já assistimos a crianças com as suas calças cortadas/rasgadas por entre as pernas (como aqui se usa), agachadas em qualquer passeio a fazê-lo sem rodeios, ou mães a segurar os bebés para o fazerem para um caixote do lixo ou lavatório. Não limpa, sacode, e continua caminho.

E também nós acabámos por continuar o nosso caminho, depois então até Pequim, onde chegámos cedo. Pouco passava da hora de almoço, mesmo com um trânsito infinito para entrar na cidade. Enorme, recheada de grandes prédios, grandes edifícios, grandes estradas, que se cruzavam entre si e pessoas. Muitas pessoas.

Na China nunca estamos sozinhos. Muito menos em Pequim.

Aproveitámos então para procurar um grande supermercado, de forma a comprar água e alguns legumes. Muito embora a nossa escolha recaia sempre sobre comprar a locais, em mercados, na China os hipermercados têm uma característica que não podemos negligenciar ou ignorar: têm caixotes com legumes e frutas que já ninguém compra, por estarem feios ou maduras, a menos de metade do preço. E se por um lado queremos sempre ajudar os locais, por outro não podemos compactuar com o desperdício alimentar. Por isso, em Pequim, agimos assim. Mais tarde, em cidades mais pequenas, encontrámos também pequenas lojinhas com esta opção, e aí foi aos nossos queridos velhotes a quem comprámos.

Mas em Pequim a loucura foi imensa, porque também a comida feita de fresco tinha este tipo de promoção ao final do dia, o que nos deixou de barriguinha cheia, com bolsos ainda cheios 🙂

Seguimos depois para casa da nossa couchsurfer! Sabíamos que dominaria inglês, por ter já feito Erasmus, o que nos deixou ansiosos no entender de algumas tradições! Fizemos então do final do dia, madrugada, e conversámos a gosto:

Mais que não seja no que respeita a coisas simples, como o casamento ou um funeral, sabemos que as diferenças são sempre mais que muitas, e por isso aproveitámos também para satisfazer curiosidades antigas.

Quando morre um familiar, a tradição mais antiga exige que se leve o corpo para uma montanha: lá, no cimo, ao ser devorado por um animal, o seu espírito será elevado.

Não tão apreciado por parte do povo é a postura do governo. Assumidamente comunistas só de nome, contudo, são proprietários legais das casas outrora por alguém compradas, após 30, 45 ou 70 anos, em função do que se pague. E, importa salientar, valem muito dinheiro.

Mas o mais engraçado foi perceber que, para um chinês, a Europa é a referencia no que respeita à segurança. Contudo, na China não há assaltos à mão armada e a segurança é elevadíssima.

E assim, dormimos juntinhos e satisfeitos, como se não houvesse amanhã. Cansados no corpo, mas muito despertos na alma.

O segundo dia em Pequim foi mais burocrático, mas sem sucesso face ao que pretendíamos. Voltando à saga dos vistos, gostaríamos de pedir uma nova entrada no nosso, de forma a podermos visitar Macau e a voltar à China, para entrar por terra no Vietname.

Fomos por isso para a polícia tentar a nossa sorte, que se revelou um azar. Embora acreditemos que nada acontece por acaso, foi um desolo ver que se limitavam a abanar a mão perante os nossos pedidos.

Ouvimos por aí dizer que a lei é sempre passível de “alterar”, que na China depende sempre da vontade de cada um, e da carteira de todos os outros, e que, prova disso, seria que nunca deveríamos tentar tratar de papelada à hora de almoço, fecho do dia ou sexta-feira à tarde. Demasiadas restrições para sermos os sortudos. E enfim, difícil se revelou. Quando pedimos uma solução, sugeriram que “googlássemos” – estando o Google bloqueado na China!

Visitámos então a cidade nas redondezas e deixámos o assunto amornar. Tentámos ainda planear a nossa ida à Muralha da China, mas acabámos por deixá-la para um dia depois, de forma a encontrarmos um programa alternativo ao habitual turista.

E assim, fomos pela primeira vez a um “Fake Market”, no caso o Pearl Market mesmo em frente ao Temple of Heaven , o que foi uma verdadeira loucura: se por um lado nos estavam constantemente a puxar e a impingir coisas, por outro nunca pensámos poder ver tanta coisa junta, falsa ou fruto de contrabando, passível de ficar a tão baixo custo! É o capitalismo chinês – que é até muito interessante: na China, criam tudo mais barato, por certo com menos qualidade, mas assim acessível a todos!

Visitámos ainda a praça Tianamen e terminámos a noite com o primeiro amigo que fizemos na China, em Khorgos, na fronteira com o Cazaquistão, onde estava de viagem. Acabou então por nos levar a um restaurante 100% vegetariano, onde nos deixámos deslumbrar com o menu. Novamente, e tipicamente à chinesa, depois de escolhermos os nossos pratos, mandou vir mais dois ou três, que partilhámos de bom agrado! Era comida europeia, mas em tom de partilha: tínhamos já algumas saudades (porque um falafel cai sempre bem 🙂 ).

Acabámos então por no dia seguinte madrugar e seguir para um trecho da muralha mais afastado, em Mutanyau. Saímos cedo. Não estava frio, mas sentíamos nos braços aquela humidade da manhã.

Ao contrário do habitual em Pequim, o céu estava azul, limpo e o sol brilhava. Parecia um dia escolhido a dedo para visitar a Grande Muralha.

Fizemo-lo por nós próprios, e embora não tenhamos escolhido a zona perfeita (por ser turística) ou o timing perfeito (por ser um domingo de verão), conseguimos fazê-lo por 70RMB, menos de 10€, os dois. E não foi difícil, exigiu apenas planeamento e corda nos sapatos!

Fomos de autocarro até à cidade mais próxima e, após duas horas, quase à chegada, tentaram enganar-nos. Trazíamos já a lição estudada, tínhamos já lido sobre isso e estávamos de sobre aviso. Ainda assim, foi chato e constrangedor; muito embora tenhamos de tirar o chapéu à genialidade da manha. Ora então, já perto do destino, mas ainda a uns quantos quilómetros da chegada, numa das paragens do autocarro, entra um sujeito pela porta traseira e grita “Great Wall, it’s here!”, e quando no seu olhar nos avista, fá-lo ainda com mais esforço “Go down, you! It’s here to go to the Great Wall”. E perante a nossa calma e passividade, gritou ainda mais e mais alto, até que nos sentimos obrigados a dizer que sabíamos muito bem onde deveríamos sair. E agradecemos. Com isto, o plano é que os turistas depois de tanto tempo de autocarro, agradeçam a ajuda e desçam ali mesmo. Contudo, ali, não havendo mais nada, e estando ainda longe da entrada da muralha, têm de apanhar um táxi (com o sujeito que as incentivou a descer). E assim vão enchendo os bolsos!

Por fim, chegados nós ao local correto, conseguimos comprar os dois bilhetes como sendo estudantes (exigem apenas que o cartão tenha fotografia e por isso limitámo-nos a ser criativos!) e logo depois subimos montanha a pé em vez de pagarmos pelo famoso ShutleBus. À chegada ao topo, e início da zona turística, apresentámos os bilhetes e subimos até à famosa e grande muralha a pé, em vez de pagarmos pelo teleférico.

E, adiantamos que, embora se faça em menos de duas horas e seja doloroso para as pernas, vale a pena! Vale a pena o cansaço e o prazer de chegar. Vale a pena o caminho e o desfrutar da ansiedade. E, à chegada, o gosto é outro!

É linda. Infinita. Imensa! É majestosa. É imponente.

Gostámos tanto de a ver pela primeira vez!

Caminhámos pela muralha tanto quanto conseguimos, quanto os nossos sonhos desejaram.

Fotografámo-la. Admirámo-la. Sentimo-la.

E ainda lá em cima, fizemos um dos nossos habituais pic-nic, saborosos e distintos, sob o olhar atento de todos os que por nós passavam.

Voltámos depois para a baixo, novamente a pé, já mais mortos que vivos, e sempre de dedo esticado. Apanhou-nos então um taxista só até à estrada principal. E lá, minutos depois, apanhou-nos um casal. A troco da ainda longa boleia, sugeriram que jantássemos juntos: e podemos partilhar que foi um dos jantares mais épicos de sempre! HotPotHot, o nome do restaurante, inserido num hotel. Uma loucura. Gigante, imenso; buffet livre de bebidas e comida. Cada um com o seu “pote” de água temperada sempre a ferver, pudemos escolher por entre as mil iguarias o que queríamos comer e cozinhar: trinta tipos de cogumelos, tofu, vegetais, legumes, enfim. Uma panóplia infindável. E também com pratos já cozinhados. Um sem fim de coisas vegetarianas e de-li-ci-o-sas! Com
frutos tropicais e até pastéis de nata! Escusado será dizer que até nos custou depois a adormecer.

Quando acordámos estavamos já há 4 dias em Pequim e o combinado era trocarmos de casa. Fomos assim para casa da Rafaela, uma portuguesa que ouviu falar de nós através de um grupo no Wechat, casada com um Japonês e com dois filhotes nascidos na China: uma doçura!

Um lar! Num ambiente calmo, descontraído e em paz. Numa casa acolhedora, com uma decoração linda e chão de madeira!

Tanto foi, que acabámos por ficar mais uma noite, com a oportunidade de dar uma entrevista muito especial para o “Diário do Povo”, um jornal que publica em português e em chinês.

Fomos também ainda a um mercado de rua, “Wangfujing”: com animais muito estranhos, as iguarias eram as mais variadas. Da centopeia ao gato, do escaravelho à vaca, havia de tudo. Uma dor na alma.

Nenhum animal merece ser criado, explorado e/ou morto para satisfação de cada um de nós. Sabemos hoje que temos alternativas completas a nível nutricional e de cosmética, não sendo justo que olhemos para um cão ou um gato, de forma diferente daquela que olhamos para uma vaca ou um coelho. Nem que desvalorizemos um escorpião ou uma estrela do mar. Merecem todos o nosso respeito. E não culpemos a cultura, não responsabilizemos a nossa história pelo nosso egoísmo. Estamos sempre a tempo de mudar, de ser melhor. #govegan

Terminámos então o nosso dia a apanhar de um caixote do lixo um (literal) caixote de fruta. Boa! Que vimos ser largado por uma senhora da frutaria da rua por onde passávamos. Pêssegos. Meloas. Maçãs. E uvas. Tudo bom! Mais maduro, menos maduro, depois de lavado, nem queríamos acreditar!

E no nosso dia extra, fomos também a um mercado de cultura tradicional chinesa, “Panjiayuan”, com antiguidades do tempo do Mao Tse Tung. Um mundo sem fim, tradutor de muito daquilo que se encontra pela rua. Marcante, as pinturas de caracteres chineses e a ambição das pessoas por nozes simétricas e pedras “preciosas”, que vimos atingir valores inimagináveis.

Saímos de Pequim no nosso vigésimo quatro dia de China e, ainda assim, com a sensação de que poderíamos passar outros tantos só ali e não conheceríamos tudo! Pequim é realmente encantadora!

E na manhã seguinte, conseguimos então boleia para Zibo: uma boleia direta mas que nos deixou à entrada da cidade. Cansados, enquanto caminhávamos sem alternativa, parou um senhor que nos quis levar até casa. Amoroso, não descansou enquanto não nos viu acomodados. Aqui, ficámos com duas estudantes russas e um gatinho escanzelado, recém resgatado. E por entre pulgas, repusemos as nossas energias para partir no dia seguinte.

Metemo-nos à boleia para Yangzhou e lá chegámos já de noite, depois de 5 boleias. A última, foi com três jovens que iam para Xangai, mas entraram na cidade, com um pequeno desvio, só para nos deixar perto de casa! Mas foi ainda no caminho que assistimos ao mais hilariante: testes de alcolemia realizado sem equipamentos! O polícia mandou parar, o condutor abriu o vidro e em pleno trânsito teve apenas que soprar, soprar com muita força, para o nariz do senhor agente. Este cheirou, e em função da sua percepção, mandou (ou não) avançar! E como esta, há muitas outras situações das quais nunca nos lembraríamos e perante as quais ficamos estupefactos.

Enfim, ao ponto de encontro, chegou o nosso couchsurfer, orgulhoso por nos estar a ir buscar, com um sorriso de orelha a orelha, levou-nos até casa. Lá, esperavam-nos a filhota e a esposa, que se mantinham acordadas para nos esperarem!

Por ser professor de inglês num escola pública, convidou-nós a conhecer os seus alunos na manhã seguinte. Tomámos então o pequeno-almoço na cantina do liceu: leite de soja (que aqui é mesmo natural, sem sequer adoçantes! Resta saber a origem desta soja…..) e “mandô”, uma espécie de pão de arroz muito fofo, com coisas dentro, como pasta de feijão ou legumes.

Na sala de aula, dá-se início aos trabalhos às 8:00h. Lêem, os alunos, em conjunto o mesmo texto, em voz alta, seja sobre ciências ou química, em chinês ou inglês. Fazem do ruído da escola um verdadeiro eco, com a crença profunda de que este é um método educativo relevante. Depois então, as 8:30h, começam a sério. Soubemos também que as aulas não têm hora de terminar, terminam apenas e só quando o trabalho está findo. E ainda, que os alunos são extremamente disciplinados é bem educados.

Pelo restante dia, passeamos pela cidade, completamente derretidos pelo sol que se fazia sentir. Um calor insuportável. E à noite, fizemos um jantar em casa de outra amiga, também professora de inglês: mas que curiosamente não sabia falar inglês, necessitando de tradução de praticamente tudo quando falávamos.

Frescos, na manhã seguinte, seguimos para Suzhou, uma cidade pretinha e a que todos teciam grandes elogios. Apanhámos uma boleia direta, com um jovem ligado à moda e que acabou por nos oferecer um pulseira com pedras ligada ao budismo. À chegada, ainda um pedacito longe, caminhámos até casa do nosso couchsurfer, que acabou por nos encontrar pelo caminho. A casa, uma grande vivenda, ficava num lindo bairro e lá vivia com a sua esposa e o seu filho. Ele, muito mimado, tal como os próprios pais assumiram, por ser filho único e muito desejado. Abria a boca e os pais já estavam a correr na sua direção. Gritava constantemente e cada atitude deixava muito a desejar, tendo em conta os seus já 10 anos.

Pela cidade passeámos, mas esta ficou aquém das nossas expectativas. Muito aquém.

E ao nosso trigésimo dia na China, partimos para Xangai, desejosos de conhecer a cidade maravilhosa! Chegámos cedo, ainda perto da hora de almoço, com 2 boleias. Deixou-nos a última perto do pequeno aeroporto da cidade e apanhámos depois o metro até chegarmos a casa de um amigo de velhos tempos, a trabalhar na cidade. Os transportes, uma verdadeira loucura, com dezenas de linhas, identificadas por números e não cores, com saídas identificadas também com números e não letras, como em cidades mais pequenas; deixaram-nos boquiabertos. Ainda no metro, enquanto este se encontra em andamento, é pelas janelas que se vê publicidades tipo filme. Uma loucura! E aproveitando ser ainda cedo, conhecemos a zona junto ao rio, com vista sobre as grandes e majestosas Torres de Xangai.

Por todas as noites, fomos hospedados por um português carismático, através da sua namorada que em Portugal e desde o inicio acompanhou a nossa aventura! Ele, com uma história de vida multicultural, fez da sua casa, a nossa própria casa.

Durante a nossa estadia, fomos no primeiro dia à polícia (novamente na esperança de obter uma nova entrada para a China, de forma a visitarmos Macau) e a um dos grandes fake Market, onde à porta encontrámos uma lista de marcas não passíveis de contrabando. Todas as outras existentes são então comercializadas, como é o caso da Nike, Converse, Apple ou Dior. Encontra-se de tudo: de malas, a ténis, tabletes, telefones ou relógios, roupas, mochilas.. Enfim. Os preços são feitos pelo cliente, e a negociação é a chave do negócio. All Star, Converse, vimos começar em 600RMB (80€) e terminar em 50RMB (7,5€), reflexo do monopólio existente. Mas contam os locais que há americanos que vêm e compram praticamente pelo preço inicial proposto, permitindo que o lucro seja exorbitante!

Já no segundo dia, conhecemos uma zona tradicional, com templos e casas antigas. E depois de num grupo do Wechat, termos chegado a uma Portuguesa, a Maria, tratámos de encontrá-la com muita ansiedade. Ia voar de Lisboa, e aceitou com a maior das generosidades trazer-nos uma mala com algumas roupas e mimos da mamã. E após grande emoção entre a sua chegada e a chegada das malas, chegou então o momento de ir a sua casa buscar o nosso azeite e afins: era meia mala das grandes, cheia de coisas boas (e também coisas a mais – ou não tivesse sido uma Mãe a enviar o pedido)!

A Maria foi aquela pessoa que fomos conhecer sem expectativas e que guardaremos para sempre no coração. Fala com a alma, e viaja apaixonada, como nós, sempre que pode. Ficou em nós a sua simplicidade e simpatia, e o desejo de a voltar a encontrar em breve. E em qualquer parte do mundo, saberemos que estará a ser contagiada e a contagiar, com o seu sorriso no rosto e doçura no olhar.

Ainda durante a nossa estadia, fomos conhecer a “nova Xangai”, completamente modernizada, limpa. E chique. Com prédios altíssimos, zona de altas marcas e grandes lojas, como Prada ou Gucci. Hotéis de luxo e restaurantes caríssimos, mas subimos sorrateiramente a um dos prédios mais altos, e conseguimos ainda assim, e de fugida, ver a vista lá de cima.
De tarde, perdemo-nos por bairros antigos e jardins de bambus. Acabámos o dia na zona M50, alternativa e recheada de arte, num reencontro com a Maria e uma nova amiga, a Carol.

Não diferente de todas as outras cidades da China, vimos pelas ruas e assim que o sol de pôs grupos de pessoas a dançar, ao som de baladas típicas, sem que se consiga identificar quem é o mentor da aula. Com mais ou menos dificuldade, todos tentam praticar o seu desporto e são bem rígidos perante os seus objetivos.

E assim vivemos o nosso primeiro mês na Ásia, na China! Mas não nos deixámos abrandar: de Xangai, seguimos para Hangzhou, Fuzhou, Xiamen e Shenzhen.

Porque muito embora não seja o relógio a comandar os nossos dias, e nos deixemos levar a cada dia pelo bater dos nossos corações, sabemo-nos sempre com (quase) mundo inteiro por descobrir.

A Hangzhou chegámos com apenas uma boleia, e lá ficámos com um novo couchsurfer e o seu persa – lindo de morrer! Passámos um tempo doce e de descanso, com a certeza de que esta passou com certeza a ser a nossa cidade de eleição. Com um lago maravilhoso e uma montanha com vistas sobre a cidade indescritíveis, fizemos da nossa estadia um momento inesquecível. Talvez por ter tido também há pouco tempo o encontro G20 a possamos ter encontrado mais arranjada ou limpa que o costume; mas guardamo-la assim mesmo no coração!

Ainda assim, pela cidade, pudemos confirmar por entre a multidão que “noção de espaço” é coisa estranha. Os chineses não só não fazem ideia do que seja, como não se preocupam com isso, de uma forma extremamente natural. Encontrões são o prato do dia, mas o mais bizarro e ao mesmo tempo hilário, é o momento em que estamos a mexer no telefone e se vêm encostar a nós a olhar para o ecrã (acreditamos nós que na tentativa de perceber o que estamos a fazer). Não há palavras!

Também por lá partilhámos uma tarde com um senhor do Brasil, apaixonado pela essência da China. Levou-nos não só numa caminhada pela cidade, como a conhecer a estátua de Marco Polo. E, por fim, a jantar num restaurante Italiano, por entre conversas mais profundas e momentos de reflexão.

À chegada a casa, tínhamos como surpresa um jantar preparado, onde procurámos com carinho encontrar um espacinho no estômago para o apreciar. E estava realmente delicioso, tipicamente chinês e cheio de tofu – como tanto gostamos!

Partimos depois para Fuzhou, mas a coisa não correu assim tão bem. O despertador, a tocar desde cedo, mas em silêncio, não nos acordou. E depois, depois o autocarro urbano também não apareceu. E para ajudar à festa, chovia. E chovia. E chovia.

Embora com ajuda de muito boa gente, que de tudo fez para que o desfecho fosse o melhor, apanhámos duas boleias, por entre o trânsito caótico da China – com carros em contra mão até na entrada da autoestrada – mas chegámos apenas à estação de serviço de uma pequena cidade, onde acabámos por pernoitar. Lá, acolheram-nos com muito amor: no restaurante desviaram uma mesa, e ali fizemos a cama. Colchões no chão, sacos-cama no seu melhor. Wi-Fi da cafeteria, e dormimos descansados, na esperança de que o sol no dia seguinte desse ares da sua graça.

Mas não. Chovia, parava, chovia, choviscava. E sol nada. Eram pouco mais de 7:00h e já estávamos de volta à estrada, onde passámos novamente o dia. Mas desta, chegámos ao destino depois de 5 boleias, todas muito diferentes e muito especiais.

De um jovem alternativo e muito simpático, a duas jovens muito tias e muito queridas, a um gordinho num Mini cor-de-rosa; vivemos só emoções fortes. Mas a mais fortes de todas, só quando pusemos os pezinhos em casa!

De felicidade, descanso e paz para o corpo.

Mas mais.

Em Fuzhou ficámos com um jovem chinês. Não lhe conseguimos ao primeiro momento tirar a pinta, mas hoje estamos felizes pela oportunidade que nos demos. O cansaço que trazíamos no corpo, a cozinha muito suja e o cheiro a tabaco fizeram-nos vacilar, por certo. Mas assim, ninguém vê o essencial. Porque o essencial não se vê com os olhos. Demo-nos então uma oportunidade, e foi num passeio já de noite, pelo centro da cidade e por entre amigos, que nos sentimos tão bem. E que bom assim, porque não só as energias físicas se recarregam.

E, por fim, depois de uma boa noite e de um pequeno-almoço muito acolhedor, fizemo-nos caracóis a caminho, de casa às costas, com Xiamen em mira. E assim a avistámos, perfeita no meio do mar, depois de 3 boleias muito bem sucedidas.

Não cansados ainda de aventuras, e depois de chegados a Xiamen, fomos avisados da proximidade do Tufão Meranti. Tínhamos acabado de chegar: acabado de nos apaixonar pela casa, apaixonar pela vista, pelo mar. Tínhamos acabado de nos apaixonar pela ilha. E também por quem nos estava a hospedar. Éramos então feitos de encanto, de amor.

Na verdade, não valorizámos qualquer aviso; nem nós, nem os locais. Se o recolher tinha sido aconselhado a partir das 17:00h naquele dia, eram 23:30h e continuávamos sentados na varanda a jantar, conversar, confraternizar. A Aida, iraniana, esposa do João, português, casados e um doce. Hospedaram-nos com tanto tanto carinho, que também não era preciso o tufão para que tudo se tornasse inesquecível.

Continuávamos então na varanda, os três (com o João de férias em Portugal), até ao pequeno sinal de uma barata a entrar casa a dentro, esvoaçante.

O tufão tudo levou: palmeiras e outras árvores, carros e o que mais apanhou pelas ruas. Em casa, o barulho fazia-se ensurdecedor e cíclico. As janelas, abanavam, batiam. Estilhaçavam-se outras, e o medo instalou-se. Não queríamos propriamente acreditar que afinal era mesmo verdade… mas era! E em pleno nono andar, a casa inundou. Inundou mesmo: por entre toalhões que de forma descontrolada começámos por pôr no chão e a carpete de seda feita à mão e trazida do Irão. O clima era de destruição. Os sons eram horrorosos e ecoavam. Não parecia ter fim. Foram mais de duas horas de pânico, de espera. Lá fora, tudo voava, tudo se despedaçava. E nós, escondidos num quarto interior, espreitávamos a medo, por entre a curiosidade e o receio.

No rosto da Aida, caiam lágrimas. Sentidas.

Era a presença da destruição que assustava; não o tufão.

Seguiram-se momentos, horas e dias, duros. Vimos o recomeçar, o seguir em frente, de perto. E ajudámos por casa tanto quanto pudemos, até que do nosso campo visual se eliminassem lembranças. Mas, da rua, não mais. Não havia estrada sem árvore caída, sem vidros ou destroços.

E assim ficou uma ilha por conhecer, mas (re)conhecida na sua essência. Não a vimos como nova, e talvez nunca venhamos a ver. Mas certo é que em nós ficou marcada.

Alargada assim a nossa estadia, chegámos só depois a Shenzhen, com 3 morosas boleias. Lá, encontrámos um amigo português, já tarde, também ele treinador de futebol. Com uma humildade desmedida, fez da sua cama a nossa cama e da sua presença uma verdadeira companhia. No decorrer do dia, palmilhámos a cidade por entre os seus maravilhosos parques e, já depois de almoço, conseguimos dar sangue para a Cruz Vermelha – uma experiência internacional muito interessante, até mesmo na forma como tudo se processa. E o mais engraçado, o facto de oferecerem um brinde pela doação: no caso, um selfie stick.

Já à noite, tivemos a oportunidade única de jantar num restaurante Budista, e por isso vegetariano. Buffet, e ainda sem álcool. O verdadeiro paraíso, porque mesmo que não soubéssemos do que se tratava, sabíamos que podíamos comer! Quem lá nos levou foi a amiga que fizemos em Pequim, e que já lá nos havia proporcionado uma das melhores experiências de sempre à mesa, quando nos levou ao HotPotHot; o que nos deixou perplexos e em êxtase.

Cheios, aptos quase que para rebolar, conseguimos adormecer só depois de uma caminhada e um chá quente. E para acordar na manhã seguinte, não foi fácil. Eram pouco mais de 6:00h quando o despertador tocou. Era hora de seguir para Hong Kong, e havia tanto até lá para fazer!

Mas mais tarde, partilharemos também estas aventuras, e outras tantas. E em breve, chegaremos também a Macau! E logo depois voltaremos à China, para chegar ao Vietname. O tempo não pára e depressa esperamos conseguir partilhar toda e cada vivência.

Têm sido as diferenças culturais que nos têm apaixonado neste longo caminho, mas mais ainda a descoberta ou confirmação de que a hospitalidade e generosidade são características transversais à humanidade.

Vamos decerto manter-nos sonhadores, neste caminho que traçamos com muito amor, e palmilhar o mundo que nos falta.

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Oh Quirguistão

Oh Quirguistão! Quirguistão de paisagens soberbas, de montanhas majestosas e natureza sem fim. De lagos, do azul transparente ao verde água. Do verão ao inverno, do sol à chuva feita de trovoada.

Oh Quirguistão: trazes os Açores em ti – sentimos!

Mesmo antes de atravessarmos a fronteira, o alívio já era nosso. A não necessidade de visto e os sorrisos à entrada do país preencheram-nos a alma de alívio, e seguimos. Seguimos por entre o calor e o caminho árido, por entre o pó que íamos respirando e sentido no corpo, até encontrarmos a pequena sombra de uma árvore para nos acolher.

Respirámos. E sorrimos.

Estávamos pois com os pés assentes no primeiro país da Ásia central que vive em democracia. E curiosidade fervilhava em nós!

A primeira boleia foi de um Gigoli, um carro velhote, ainda dos tempos da antiga União Soviética, que nos deixou na primeira cidade no nosso caminho. Na verdade, estávamos sem destino certo; mas depois de termos encontrado quem partilhasse connosco um pouco de internet, percebemos que rumaríamos a Osh, a cidade seguinte. E lá teríamos um couchsurfer e uma família de braços abertos para nos receber.

Não hesitámos.

Os dias anteriores tinham sido feitos de desgaste físico e psicológico. Tinham já sido várias as noites seguidas sem poiso certo, em que só na hora de montar a tenda éramos hospedados por locais.

A experiência é gratificante, mas a realidade é que nessas condições visitamos as cidades com muito menos disponibilidade; e carregados com as mochilas, acabamos por direcionar o tempo para a procura de onde lavar as mãos e os pés, onde conseguir internet ou um lugar para descarregar as coisas.

Portanto, não hesitámos.

E chegámos a Osh com uma única boleia, por mais de 3 horas, com o diretor de um canal televisivo nacional, não sem que pelo caminho nos deixássemos apaixonar pelo horizonte.

Em Osh ficámos 3 noites, com a certeza de que fomos hospedados com a maior da hospitalidade. Para nós, cozinharam diariamente pratos típicos. Connosco, visitaram a cidade e mostraram tudo quanto puderam, tendo até pedido ajuda a voluntárias no trabalho para fazerem de guias turísticas! Descansámos, recuperámos energias e demos uma entrevista para a Rádio, RDP, no Pequeno-Almoço Continental.

E foi ao quarto dia que partimos para Djalal, uma pequena cidade a poucos quilómetros de Osh, no sentido de Bishkek, onde chegámos com apenas uma boleia e onde fomos hospedados por uma couchsurfer: desta vez mulher, a viver no momento sozinha com a sua bebé de 4 meses. Entusiasmados pela abertura da conversa, partilhámos noite dentro factos e histórias sobre as nossas culturas, à vez e quase que em termo comparativo. E só quando satisfeitos e munidos de histórias infinitas, nos deixámos dormir, no conforto da nossa história e do nosso abraço.

Mas foi no dia seguinte, diante dos mais de 700 quilómetros que tínhamos para fazer, que refletimos sobre os ganhos da noite anterior. Aprendemos, sem rodeios, que as tradições existem e sobrevivem ainda por mão daqueles que têm medo de as enfrentar. São várias, e delas fazem parte os casamentos na mocidade, com 1000 convidados no mínimo. O dinheiro investido é estrondoso e não importa se faria falta. As prendas são obrigatórias e variam, podendo ir dos eletrodomésticos a uma vaca; da mesma forma que é obrigatório aos pais do noivo pagarem um certo valor pela noiva. Mas tudo isto, a nossa couchsurfer revogou , sem receios. E nós dois, só depois incrédulos. Porque à primeira vista, que mal tem agir diferente? Pois é, na Ásia central, tem todo o mal do mundo. Mas quando caímos em nós, já o dia ia longe.

Tínhamos por objetivo chegar a Issyk Kul, um famoso lago infinito, rodeado de praias, recantos paradisíacos e montanhas de perder de vista, com neve no topo. Mas foi uma missão falhada e abortada sem ressentimentos.

Apanhámos uma primeira boleia de um senhor já velhote, com um grande orgulho em ter duas esposas e vários filhos de ambas, até uma pequena vila. De lá, conseguimos uma outra boleia, mas de um taxista. A simpatia não era o seu forte, mas era de todo o seu modo de ser. Tinha por princípio criticar e não sorrir, o que não nos intimidou mas não nos deixou felizes!

Seguia para Bishkek, a capital, a 600 quilómetros de onde estávamos. O caminho era longo e demorado, montanha acima, montanha abaixo. E com o GPS íamos vendo que as horas de caminho eram infinitas. Pela estrada, apanhou mais duas jovens através do seu serviço de táxi, mas nem assim deu largas ao seu bom humor.

Pretendíamos sair da estrada que leva a Bishkek no cume de uma montanha, onde seguia depois uma estrada secundária para o tão desejado lago; e foi assim que fizemos. Mas foi também no topo da mesma montanha, que sentimos o que é poder passar do verão para o inverno em poucos minutos. Se no carro entrámos de chinelos e perna ao léu, com 40 graus suados, naquela estação de serviço que nos acolheu só tivemos tempo de tirar da mochila os casacos polares, o cachecol e os ténis (sobreviventes).

Se horas antes brilhava no céu um sol ardente, naquele momento chovia copiosamente.

Na bomba, ofereceram-nos chá e wi-fi. E abrigo. Sim, wi-fi, aberta, no meio do nada: o que já não víamos acontecer desde que deixámos para trás a Europa e que, naquele momento, nos soube tão bem e nos serviu de tanto.

Percebemos então através das pessoas locais que a maioria segue a estrada até Bishkek e só depois apanha a estrada que segue para Issyk Kul. E assim, em menos de nada, contactámos uma couchsurfer de Bishkek na tentativa de perceber se nos poderia hospedar ainda no mesmo dia e fizemo-nos ao caminho.

Batíamos os dentes à velocidade do vento e aquecíamos as mãos conforme conseguíamos. Já tínhamos saudades de sentir frio, mas também não era preciso tanto, nem tão de repente.

Ajudaram-nos então os senhores da própria estação de serviço a conseguir uma boleia: conheciam bem os carros e os seus condutores, e depressa nos ajudaram a saber a quem ir perguntar.

A boleia conseguida foi a melhor que poderíamos alguma vez ter desejado: um jovem e um jipe, ambos com vontade de nos mostrar com calma e entusiasmo cada paisagem – todas elas de cortar a respiração.

E foi quando já de noite nos deixou à porta de casa, que pediu à nossa couchsurfer que nos tratasse com respeito e demonstrasse a hospitalidade do povo Quirguis. E ela assim o fez!

Tínhamos o estômago colado às costas e o corpo moído depois de 10 horas de viagem. Sonhávamos com comer, banho e cama. E mais ou menos assim foi! Quando das carpetes do chão da sala fizemos o nosso ninho, nem queríamos acreditar!

É que melhor que nos termos, e nos termos juntos pelo mundo fora; é tudo isto junto e um refúgio na alma. ❤

Foi só quando o sol nasceu e cresceu no céu que nos fizemos prontos num ápice. Queríamos chegar a Issyk Kul e mergulhar, e nadar e refazer todas as nossas reservas de vitamina D. Mas foi quando estávamos já de saída que percebemos que quem nos ia hospedar lá na noite anterior não poderia fazê-lo nesta. E ficámos sem chão! Deveríamos ir ou ficar? Acampar onde calhasse ou esperar até ao dia seguinte?

Somos feitos de decisões diárias, mas quando nos trocam os planos, trocam-nos tudo.
Aproveitando a disponibilidade da nossa couchsurfer, decidimos então meio à pressão ficar.

Decidimos aproveitar o dia em Bishkek, (re)planear a nossa estadia no Algarve Quirguis e seguir na manhã seguinte.

A verdade é que a nossa couchsurfer foi um poço de histórias na nossa história, e estávamos confortáveis na sua presença e hospitalidade. Tinha 21 anos e era já divorciada: uma força da natureza, avessa a tudo o que respeitava as tradições que haveria de ter cumprido. Casou por imposição familiar, com um homem que pode escolher. Mas foi depois de se mudar para casa dos sogros, como manda a “lei”, que viu os seus dias transformados num verdadeiro pesadelo: lava roupa, cozinha todas as refeições, lava loiça, limpa a casa, serve todos (…), enfim. Não se identificando com a situação e vida que se via obrigada a levar, venceu tudo e todos e deixou o marido. A sogra, convidou-a a sair, dizendo-lhe que ao contrário dela, o filho iria encontrar alguém decerto bem melhor. Hoje, trabalha para uma organização internacional de casas de acolhimento de crianças vítimas de maus tratos ou órfãs, e orgulha-se do seu percurso, muito embora a sociedade a descrimine e a faça querer, dia após dia, fugir do país que a viu crescer.

E seguimos para o centro da capital, onde passámos o dia. Visitámos os locais históricos, típicos e culturais, estatuas, parques, monumentos e, com fascínio, o Osh Bazar – antigo, imenso e tradutor dos costumes das gentes daquela terra. Da roupa, aos detergentes, produtos alimentares e até bricolage, era só caminhar e estava à vista de qualquer um. Feito de cores e aromas, de tom russo e muita confusão, e também malandros: foi lá, que pela primeira vez nesta viagem nos tentaram roubar, abrindo-nos a pequena mochila com que sempre andamos. Verdinhos, em vez de pela frente, vinha pendurada às costas, mesmo que a pedi-las. Vá lá que a reação foi rápida e o alarido instantâneo, não tendo dado para mais nada senão para abrir o fecho.

Também de volta a casa a aventura não foi menor: não sabíamos o número do autocarro ou das mashrutkas que iam na nossa direção, e a única coisa que tínhamos era o nome da mesquita do bairro, de afamada que era! Levámos 2 horas até entrarmos numa pequena van rumo a casa, depois de mil vezes perguntarmos a todos aqueles que por nós passavam se faziam ideia de como poderíamos chegar.

Mas, não finito o dia, tínhamos sido enganados: embora o condutor tenha dito que sim quando lhe perguntámos a direção, pudemos ver pelo GPS do telefone que estávamos cada vez mais longe e mais longe. Acabámos então por nos chegar à frente e perguntar o que se estava a passar, ao que nos respondeu calma e prontamente: “eu não estou a ir para a mesquita, eu vim de lá”. E riu-se.

Se há momentos tristes na vida, são aqueles em que nos sentimos enganados ou atraiçoados, seja em que contexto for. Momentos em que nos perguntamos mas porquê?

Ninguém quer saber de onde um autocarro vem, e sim para onde vai. Como é óbvio. Ainda tentámos pedir o dinheiro de volta, mas a única coisa que conseguimos foi chatear-nos. Mais.

Seguimos a pé. Era difícil agora acreditar em quem quer que fosse. Confiar. Ou sorrir.

Mas estávamos longe e a noite já se fazia escura. Acabámos por apanhar uma outra mashrutka, desta vez certeira. E quando o dia chegou ao fim, sabíamos que nada de grave nos tinha acontecido; ainda assim, jazia em nós um misto de emoções.

Cansados, nem a luz do sol nos acordou na manhã seguintr e deixámo-nos dormir até mais tarde. Eram pouco mais de 250 quilómetros até Cholponata em Issyk Kul, e acreditámos poder fazê-los com calma.

Embora com uma viagem atribulada (nem só de dias cor-de-rosa nos fazemos, e é no abraço da conciliação que nos sabemos mais fortes e sempre unidos), chegámos ao nosso destino ao cair do sol, depois de 3 boleias e algum tempo de espera entre elas. Pelo caminho, feito de pessoas de coração de ouro, conhecemos também três ciclistas franceses, o que nos deixou e deixa sempre entusiasmados – afinal, há mais por aí quem cumpra sonhos!

Já em Cholponata, depois de muito esforço para contactarmos quem nos iria hospedar, amigo de uma amiga couchsurfer, lá chegámos. E chegámos a um hostel! A zona, de tão turística e verdadeiramente comparável a qualquer passeio marítimo algarvio, atraiu-nos pela proximidade com a praia e pela música vinda de cada bar ou restaurante, num clima leve com cheiro a verão. E, por ser dono do hostel, instalou-nos num dos quartos livres.

Embora adoremos conhecer pessoas e adoremos envolver-nos na forma como vivem, este momento a dois foi tudo quanto precisávamos.

Palavras para quê?

Quando o sol nasceu, demos asas aos fatos de banho e passámos o dia na praia: rabiosques de molho e pés na areia! Do chapéu de chuva fizemos um chapéu de sol, e deixámo-nos deslumbrar por aquele lago doce e quente, rodeado de montanhas cobertas de neve.

E até ali, fomos presenteados com hábitos: ao invés da bola de berlim, vendem-se peixinhos assados espetados numa cana. Aos invés de gaivotas para pedalar, vêm-se escorregas infantis que terminam na água e fazem as delícias dos mais pequenos e até graúdos. Ao invés do homogéneo, tão depressa se vê alguém muçulmano coberto dos pés à cabeça como se vê senhoras em topless. Ou, melhor, senhoras cobertas a colocar gentilmente protetor a senhoras sem sutien. Um verdadeiro misto. E bronzeiam-se de pé, com as pernas e braços ligeiramente afastados e mãos voltadas para cima. E assim se vive a praia.

Feitas as nossas delícias, foi ao final do dia que partimos para Karakol. O plano não era obrigatório, e embora dar a volta ao lago implicasse mais de 400 quilómetros, havia a curiosidade de ver todas as outras paisagens.

Vimos o sol pôr-se enquanto pedimos boleia, e valeu a pena. Nos nossos corpos suados, restava o cheiro do protetor e no cabelo ficavam as ondas de banhos repetidos. E sentíamos que tínhamos todo o tempo do mundo em nós.

Até que depois de uma boleia com um senhor verdadeiramente castiço, nos levou uma carrinha com uma família muito animada, indo diretamente para a nossa direção!

Assim chegámos e fomos recebidos de braços abertos, por um couchsurfer e a sua família. Ali, encontrámos uma casa típica, com a sua casa de banho no exterior e a mais de 50 metros no quintal, com apenas um buraco por entre as tábuas de madeira que faziam o chão, e um buraco infinito, sem luz, com um cheiro hediondo. Típico! Tão típico que já nem estranhamos. Da lanterna fazemos a nossa melhor amiga, e pela noite a dentro já sabemos que não há espaço para “vontades”!

Mas foi antes de irmos dormir que tivemos direito a uma experiência única, e muito quente! Chamam-lhe sauna de forma traduzida, “banha” no seu contexto original, russo. Consiste em colocar muita lenha numa espécie de salamandra, com uma espécie de contentor de água por cima, com uma torneira. O espaço, de madeira, aquece exorbitantemente como se realmente de uma sauna se tratasse. E é ali que tomam banho, depois de suados. Misturam a água fervida com água fria, e é com a ajuda de um alguidar que se banham, e que nos banhámos também.

E não fosse a nossa pele quente depois de um dia de sol e praia, e a nossa barriga cheia do jantar, e teríamos usufruído mais e melhor do momento: inesquecível porém!

Na manhã seguinte voltámos a consciencializar-nos de que existe um grande desfaz amento entre o que as pessoas dizem, fazem e aquilo que entendemos. Não adianta dar nada como certo, nem mesmo o que nos explicam: depressa mudam tudo e não há nada que possamos fazer para entender. Restou-nos e resta-nos sempre sorrir e acenar, relativizar e aceitar. Na verdade, esta tudo bem para nós. E assim, ao invés de irmos com o nosso couchsurfer passear, fomos nós, os dois, conhecer a cidade e os seus recantos, durante a manhã.

Já de tarde, voltámos a carregar as mochilas e a fazer-nos ao caminho. Tínhamos por meta chegar de novo a Bishkek, onde seríamos hospedados por uma nova família. E assim o conseguimos, quase em contra relógio, mas com tudo muito bem cronometrado.
Apanhámos primeiro boleia de um jovem, por poucos quilómetros. A partir de Karakol mão existiam cidades, apenas paisagens, aldeias e praias. Turistas, nenhuns. Apenas paraíso. Logo depois, apanhou-nos uma família por mais de 300 quilómetros, quase até Bishkek. Foram várias horas juntos e até um mergulho pelo caminho. E só já perto da cidade, quando nos deixaram, é que apanhámos a terceira boleia do dia, com um senhor da Nigéria. Fluente em inglês, encantador e um verdadeiro cavalheiro. Médico no hospital público da cidade, partilhou o desgosto que tem por sofrer diariamente de racismo no país e confessou que só parou para nos levar por saber que éramos turistas. E só nos deixou quando nos entregou em mãos à nova família, que infelizmente e discretamente também o olhou de lado.

Família tradicional e convencional, embora com todos médicos, muito ligados às tradições a que já nos temos vindo a habituar. A esposa do nosso couchsurfer, ali a viver desde o casamento há mais de 2 anos, agia como verdadeira criada. Ainda assim, embora por vezes mesmo à nossa frente mal tratada, pode partilhar connosco os jantares. E em Bishkek pela segunda vez, aproveitámos para visitar o que nos havia faltado: o lado mais moderno e amado pelos locais: o centro comercial. Não que tivéssemos saudades, mas já fazia tempo que não víamos uma coisa assim!

E assim no dia seguinte partimos rumo ao Cazaquistão, o último país desta Ásia Central. Mas não sem antes refletirmos sobre algumas coisas que por lá vimos, como é o facto de no Quirguistão comerem cavalo como em Portugal se come vaca. Da mesma forma que nos Açores se vê prados fora repletos de vaquinhas, por lá viam-se cavalos, lindos e soltos, de crinas esvoaçantes. Custa, não custa? Pois é, a nós também nos custa que se comam porquinhos, galinhas ou outros animais. Mas parece-nos que ainda vamos ter muito que chorar Ásia fora.

Outra marca que em nós ficou foi a bebida típica: mais forte que vodka, é feita de leite de cavalo fermentado. Quem tem coragem de o beber, diz que é forte, bom e único. Quanto a nós, poderão imaginar.

E posta de parte esta cultura alimentícia, que explicam os entendidos ser fruto da vida nómada que levavam no país em tempos antigos, resta-nos partilhar que também foi com alguma apreensão que descobrimos que em tempos se raptavam as mulheres. Assim, aos homens já não caberia pagar por elas. E perdida a virgindade mais ninguém as queria, aceitando assim as raparigas ficar entregues a quem as havia raptado.

E muitas mais histórias decerto ficaram por aprender, descobrir ou partilhar. Há um infinito mundo por detrás de cada cultura, em cada país que atravessamos. Ainda assim, sabemo-nos sortudos por chegarmos tão perto e saborearmos tanto.

Chegámos então à fronteira que ditou o adeus a mais este cantinho, com apenas uma boleia e chuviscos para a despedida. E há já 5 meses que o fazemos, dia após dia: despedirmo-nos. Continua a custar, mas sabemos que é por um novo amanhã, sempre neste mundo que trazemos na mão.

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aventuras Tajiques

O Tajiquistão sorriu-nos pelo imediato da nossa travessia, embora de início ainda a medo, não houve motivo para desalento.

O sol já se punha, lá no horizonte, por entre as montanhas áridas que faziam a nossa paisagem. Sabíamos que ali, e um pouco por todo o território Tajique, não devemos sair da rota principal: há minas antipessoais perdidas por tempos antigos.

Mas na fronteira, sem cuidados demais, quiseram apenas saber com que comida entrávamos no país e, uma vez mais, parabenizaram-nos pela chegada à final do campeonato da Europa, nunca sem antes pronunciar o nome do melhor do mundo!

Claro que 1 minuto depois de abandonarmos o edifício fronteiriço, tínhamos 30 taxistas em nosso redor. Falavam um por cima dos outros, na tentativa de nos levar, ou apenas de nos trocar dinheiro. Dólar, dólar – repetiram milhentas vezes. Mas o dinheiro, esse já tínhamos trocado do lado do Uzebequistão, e táxis não utilizamos. Portanto, agradecemos e seguimos.

Assim contado até parece um processo simples, mas a verdade é que é duro deixar estas pessoas para trás: nós vamos andando, e elas vêm andando atrás de nós! Mas mantemos a calma, vamos dizendo adeus e elas lá desistem…

Mais à frente, na nossa caminhada, parou um carro. Era um táxi e por isso recusámos de imediato, explicando que estávamos à boleia. O senhor mostrou-se generoso e disse-nos que ia para a próxima cidade, podendo levar-nos até lá.

Dushambe era exatamente para onde queríamos ir e onde tínhamos um couchsurfer à espera. E por isso aceitámos. Pelo caminho a conversa foi fluindo em russo (a mais recente aquisição) e, tendo-se o taxista mostrado disponível, demos-lhe o número do nosso amigo para que lhe ligasse, avisando-o de que estaríamos a chegar.

Correu tudo muito bem até ao destino, mas infelizmente fomos enganados: cobrou dinheiro ao nosso couchsurfer por nos ter levado e este até já sabia disso de antemão. Não houve nada que pudéssemos fazer, pois entre nós a combinação era outra. Mas foi infeliz em nós este começo. Até porque mais pessoas partilharam o táxi e portanto o desvio não foi nenhum.

Ficámos por Dushambe 4 noites: depois da corrida por entre os 5 dias de visto do Turquemenistão e os registos do Uzebequistão, sentimo-nos livres para parar e descansar.

Aproveitámos para dormir, cozinhar e passear, com a alegria de ver Portugal consagrar-se campeão europeu! Não estávamos por terras lusas para celebrar calorosamente, mas tínhamos um bar Tajique, ao ar livre e com uma imensa tela, cheio de gente. E uma bandeira portuguesa. E sofremos juntos, vibrámos juntos, celebrámos juntos!

Ao quinto dia, decidimos partir rumo a norte. Estivemos sempre indecisos sobre visitar ou não a famosa Pamir Highway, mas deixámo-nos levar pelo nosso instinto e optámos por cruzar o lado oposto do país. Sabemos que ficou assim por visitar um dos pontos mais afamados do país, visitado propositadamente por muitos turistas pelas suas paisagens desertas; mas sabíamos que à boleia poderíamos até ter de esperar muitas horas, ou dias, por um carro. E sabíamos igualmente que rumo a norte tínhamos também um mundo por descobrir!

Afastámo-nos da cidade com um transporte urbano e tínhamos por objetivo chegar a um dos mais famosos lagos do país, situado no cume de montanhas, por entre 40 graus na base e serras ainda nevadas no topo. Pretendíamos chegar e acampar. E por entre o calor que sentíamos, conseguíamos apenas sonhar com a ideia de montar a nossa tenda (pela primeira vez!!!) e de mergulhar no lago. De nadar, refrescar, ler um livro numa sombra e adormecer com o céu estrelado, por entre uma vista esplendorosa, de montanhas e água translúcida.

À saída da cidade e pouco antes de nós pormos à boleia, avistámos uma viajante. Pela sede de conhecer pessoas ou somente por curiosidade, depressão aproximámos. Chamava-se Lena e era Japonesa! Viajava à mais de 1 ano, mas já tinha voltado ao Japão por duas vezes: uma delas não programada, depois de ter partido uma perna no México! Viajava sempre sozinha, sem receios e de sorriso no rosto, depois de ter passado pela América do sul e central, Europa e África. De gargalhadas fáceis e sem rodeios, aceitou juntar-se a nós para ir visitar o lago, alterando assim o seu rumo.

Viajámos então a 3, à boleia! E não, não foi o fim do mundo; mas foi um trinta e um chegar ao nosso destino!

Demorámos várias horas até conseguirmos chegar perto das montanhas: fizemos pouco mais de 100 quilómetros em mais de 8 horas, por entre estradas aceitáveis, com um carro, dois camiões e um jipe. As boleias foram aparecendo e fomos desfrutando do caminho! Juntos.

Estamos muito habituados a viajar a dois, tanto que já nos sentimos por completo um só. Não há rodeios, não há omissões. Vivemos muito mais que juntos! Vivemos na plenitude de um casamento, mas um casamento nómada! Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, sem escapes.

Na verdadeira essência do amor.

Quem o conhece, sabe que nem só de dias felizes vive. Mas é mesmo nesses que se aprende a ser mais e melhor. E a ficar por perto.

Contudo, ter um terceiro elemento 24h por dia connosco foi um desafio muito interessante!

O último jipe a dar-nos boleia, trazia dentro 3 jovens, afortunados e generosos. Levaram-nos a lanchar/jantar fora e quando nos deixaram à entrada das montanhas, despediram-se calorosamente e convidaram-nos ainda a seguir com eles até Khujan – a cidade onde haveríamos de chegar dias depois. Chegámos até à hesitar pela boa energia que sentíamos todos juntos; mas o repouso no lago chamava por nós!

Estávamos então a 35 quilómetros do lago. Um pulinho mais, pensávamos nós!

Já não era cedo, mas mantínhamos a esperança de chegar ainda de dia.

Os minutos foram passando. As horas também. As nuvens no céu foram-se aproximando, chegando e tapando o sol. E caíram os primeiros pingos de chuva.

Não queríamos acreditar. E, principalmente, não queríamos acreditar quando vimos a luz do sol esmorecer.

Continuávamos exatamente no mesmo sítio, à entrada das montanhas. E por entre os poucos carros que iam passando, as pessoas iam-nos dizendo que não iam para lá. Que já era tarde. E começámos então a perceber que seria difícil adormecer ao som da natureza, com vista para o lago.

Começámos a olhar em redor a ver onde poderíamos vir a montar a tenda: mas não estávamos tristes! Pensámos apenas que chegaríamos no dia seguinte, no auge do sol e do calor (que a avaliar pelos dias anteriores, continuaria a ser de cortar a respiração), prontos para um merecido mergulho. E estávamos contentes, sabíamo-nos bem e felizes. E tínhamos connosco mantimentos suficientes para duas noites, o que nos deixava em tudo tranquilos no tempo.

Mas pouco tempo depois, parou um carro. Não ia para Iskandarkul, o lago, mas ia até meio caminho! Pior não ficávamos e mais perto ficávamos de certeza. E seguimos!

Percebemos à chegada, que embora a 15 quilómetros do destino, não iríamos chegar. A estrada, até lá, metia medo! Sem asfalto, pelas montanhas, curva atrás de contracurva, buracos atrás de buracos. Quase 1 hora de caminho para 20 quilómetros: uma loucura.

Escolhemos então o lugar para montar a tenda e vimos vários locais a observar-nos. Numa aldeia tão remota, por onde os turistas passam mas nunca param, parecíamos decerto extraterrestres. E evitando que sentissem que estávamos a abusar dos seus campos, optámos por uma vez mais perguntar se poderíamos montar a tenda ali. E uma vez mais também, e sem duvidas, convidaram-nos para suas casas!

A família era grande, muito grande, e em pouco mais de 30 minutos estávamos instalados e com um manjar a nossos pés: sentados por entre carpetes e de mesa posta no chão (como já nos habituámos), e sem mulheres em redor, mantendo-se as tradições pela Ásia Central fora: só os homens recebem e jantam com os convidados.

Dormimos os três juntinhos, por entre colchões asiáticos e lençóis, pelo chão a que as nossas costas já se habituaram; e foi com o nascer do sol e do céu azul que nos fizemos acordar e despachar. Tínhamos um longo e novo dia pela frente, quase quase a chegar ao lago. E deu ainda tempo para uma jogatana de futebol, por entre o campo de terra batida e os pés descalços.

Depois, não sabemos como, agora que tentamos recordar, mas a verdade é que passámos boa parte do dia à boleia. Lanchámos, almoçámos, rimos, conversámos; brincámos à apanhada com as crianças que aos poucos se iam juntado em nosso redor e esticámos os dedos sempre que um carro se aproximava. Deu também tempo para uma jogatana de futebol e uns golos de raspão!

De esperança fizemos o nosso dia, às tantas já pouco crentes! Até que um jovem aceitou levar-nos!

Voltámos a levar quase 45 minutos para fazer 10 quilómetros. A estrada mantinha-se sempre nas mesmas condições, mas cada vez mais a subir, sempre por entre curvas e montanhas acima.

E, inexplicavelmente, quase como se estivéssemos nos Açores!, o tempo não parecia mais o mesmo. Até mesmo quando começámos a avistar o lago e a descer, a humidade e o frio que se faziam sentir por entre montanhas, era inexplicável! Não nos lembrávamos sequer da última vez que tínhamos sentido frio ou necessidade de tirar uma camisola do fundo da mochila.

Chovia. Chovia bem, com pingos grossos! E os nossos narizes reclamavam por um quentinho.

Depressa percebemos que os sonhos que trazíamos de algibeira não eram os mais apropriados: o sol, o calor, a tenda à beira lago, o livro, os mergulhos… não eram para ali.

Palmilhámos uma pequena distância em torno do lago. Lindo, de verdade. Com uma paisagem soberba.

Não nos conseguimos fazer os 3 de vontades comuns, mas chegámos a acordo. Procurámos por um lugar para montar a tenda, abrigado e sossegado: e acabámos no jardim do vigia do lago, mas pouco satisfeitos.

Por um lado, queríamos muito ficar e pernoitar. Tínhamos levado dois dias a chegar ali, e não fazia sentido nenhum tocar e fugir. Por outro, sabíamos que o tempo estava pouco convidativo, que íamos ficar para na madrugada seguinte seguir. Decidimos então ficar atentos à estrada que nos tinha trazido: e se algum carro fosse na direção da estrada nacional, e nos quisesse dar boleia, aceitaríamos e dormiríamos lá, uma vez que pelo menos fora das montanhas a temperatura era quente e convidativa a um sono na rua.

Conhecemos pelo meio vários turistas a pernoitar no lago, e foi com eles que passámos grande parte do serão: temos tantas histórias e tantas aventuras no bolso, que tema de conversa não falta.

E já de noite, já depois de termos despejado as mochilas, puxado os sacos cama e as leggings de inverno para dormir, vimos luzes vindas do lago. E não é que iam não só na direção da estrada nacional, como até Khujand? Era um jipe, vinha cheio e trazia 3 pessoas.

Mas com jeitinho, coube também a nossa tralha e nós 3 lá dentro. E seguimos! E sabíamos que à nossa espera teríamos os amigos que tínhamos feito no dia anterior.

Pelo meio, com um valente enjoo e valentes vómitos: as curvas eram muitas e com jipe, a velocidade embora controlada, permitia muitos abanos.

Mas chegámos, já perto da 00h30, quase a Khujand. Deixaram-nos a 15 quilómetros, onde as estradas se dividiam e onde havia um posto da polícia. Ali, deveríamos apanhar um táxi para chegar até aos nossos amigos, a pedido destes tendo em conta a hora. Mas ali, ali não passavam táxis.

E ali, assistimos a uma das cenas mais deploráveis de sempre: os polícias, embriagados, mandavam parar todos os carros e camiões e carrinhas e carrinhos que passavam. E não pediam os documentos sequer – esticavam a mão para um aperto, e logo de seguida punham a mão ao bolso. Inicialmente nem percebíamos o que se estava a passar, mas pouco depois fez-se luz. Afinal, a corrupção não era um conto. Não era só mais uma história. E a verdade. E estava ali, à frente dos nosso olhos, a fazer-se acontecer.

Já em Dushambe, na capital, um polícia nos tinha abordado: primeiro com simpatia, depois informando-nos de que era o seu aniversario. E minutos depois, pedindo-nos dinheiro. Começou nos dólares, passou para os euros e terminou na moeda local. Recusámos tudo, dissemos não ter. Mas vivemos assim a nossa primeira experiência patética e lastimável.

Acabámos então em Khujan, depois dos nossos amigos nos terem ido buscar. E dormimos no restaurante de família de um deles: um restaurante afamado e com vários yurts como salas de jantar, onde nos instalámos e dormimos descansados.

Na manhã seguinte madrugámos: o sol era forte desde cedo, e se não fosse pela luz, era pelo calor. E seguimos para a cidade. Mais que tudo, precisávamos de um banho. Estávamos suados, cansados e sujos. E de mochilas às costas, lá fomos os 3. Tínhamos uma resposta positiva de um couchsurfing e só estávamos à espera de o conseguir encontrar.

A cidade pareceu-nos desde logo simpática, embora cheia de lixo nas ruas. E num dos parques perto do rio, encontrámos uma sombra para descansar.

Ali, tentámos por várias vezes contactar o nosso couchsurfer, mas sem sucesso. E deixámo-nos ficar. Tínhamos sempre a hipótese de voltar para o restaurante, mas sem dúvida que precisávamos de um banho.

E por entre a pausa e o descanso, reencontrámos o casal de viajantes russos, com quem estivemos juntos no Uzebequistão. Alegria! Num piscar de olhos, éramos já 5.

E embora a Lena tenha decido seguir para um hostel, decidimos os restantes seguir para o grande lago a 15 quilómetros da cidade, onde sabíamos que encontraríamos uma praia de água doce. Vimos o sol pôr-se e tomámos um longo banho, desfrutamos do tempo a passar, do calor e da companhia. E já mais à noite, quando nos preparávamos para montar a nossa tenda nas areias negras que se entranhavam nos nossos pés, veio o vigia da praia aconselhar-nos a pernoitar no terraço de sua casa.

Não queríamos ir, sonhávamos com a ideia de finalmente adormecer com o lago de fundo e as estrelas no céu. E de podermos acordar, mergulhar, com paz na alma e amor no coração.

Mas nada acontece por acaso, e se o vigia nos tinha oferecido o seu espaço como sendo mais seguro, só nos coube aceitar. Os viajantes russos decidiram pôr os seus colchões no chão e trancaram-se a dormir ao ar livre. Já nós, levámos mais uma horas: decidimos montar a tenda, por entre os mosquitos e as aranhas, as baratas e os bichos que não se sabe.

E na manhã seguinte, foi um instante até nos enfiarmos de novo dentro de água. Levámos connosco uma melancia e assim tomámos o nosso pequeno-almoço, frescos e saborosos.

À tarde, seguimos para Khujand. Deixámos as malas de novo no restaurante e passeámos pela cidade! Com um calor de brandar aos céus, de derreter mesmo à sombra. Só à noite, nos sentimos melhor, já de volta ao nosso yurt, onde voltámos a descansar e dormir.

Sem rumo certo ou destino obrigatório, partimos na manhã seguinte para Isfara – uma cidade fronteiriça com o Quirguistão, o país seguinte. Até lá, apanhámos uma boleia direta, que nos deixou no centro da cidade. Lá, não tínhamos novamente couchsurfing nem ninguém à nossa espera. Estávamos perdidos por entre o nosso tempo, e cansados também.

Muitas noites seguidas com rumo incerto. Muitas noites seguidas sem chuveiro, sem chuveiro ou almofada. Sem teto ou eletricidade. Sempre com a mão doce de alguém que nos quis ajudar, mas sem certezas de nada.

Ou certezas de tudo: a de que nos tínhamos um ao outro. Só.

E, por uma noite mais, acabámos hospedados. Era velhote, conhecemo-nos por entre as ruas da cidade e ajudou-nos a guardar as mochilas durante a tarde. Ao final do dia, enquanto procurávamos um local para montar a tenda, ofereceu-se para nos hospedar. A casa, também velhota, estava em remodelações: e no quarto já novo, lavámos o chão, montámos uma cama de ferro, a rede mosquiteira e esperámos pela noite cair. Aquecemos juntos água para o banho, com uma fogueira e, sozinho, cozinhou uma maravilha vegetariana, uma salada e abriu um melão.

Tinha sido um dia difícil. Um final de tarde duro. O cansaço talvez já fosse mais psicológico que físico. Mas com gentes improváveis se travam amizades. Gentes que mais que tudo, são de bem. Dão o que podem, o que têm. E que nos mostram que, no fim, acaba sempre tudo bem.

Pela manhã, com escadote de madeira, apanhámos as ameixas maduras lá do alto. E numa caixa feita de garrafa de óleo, acondicionámos as que seguiriam connosco: estávamos pois de partida para o Quirguistão.

Conseguimos uma boleia até à fronteira, depois de uma caminhada pelo centro, onde nos conseguimos desfazer das últimas notas da moeda local e onde nos abastecemos de água potável – e sentimos tantas saudades de abrir uma torneira e de nos podermos lambuzar à vontade em água!

A zona fronteiriça percorremo-la a pé e sem problemas: o caminho não era assim tão longo e o edifício feito de contentores metálicos azuis, onde a única coisa que fizeram foi carimbar os nossos passaportes e, sem poder deixar de ser, sorrir pelo Ronaldo.

Foi assim num piscar de olhos que vivemos a vida no Tajiquistão: onde os olhos não são em bico mas as tradições são já asiáticas; onde o calor é muito e a água não é potável; onde há desperdício de água em cada rua e lixo espalhado em cada esquina; onde as vestes se caraterizaram por vestidos coloridos até ao joelho, com calças do mesmo tecido por baixo, e ainda meias com sandálias ou chinelos! Um país barato, com uma capital encantadora e com natureza infinita. E, como em cada parte do mundo, com gente de coração de ouro (bem mais reluzente que os dentes a que já nos habituámos!).

2016-07-20 18.18.142016-07-20 18.19.012016-07-20 18.28.182016-07-20 18.19.542016-07-20 18.16.472016-07-20 18.22.192016-07-20 18.23.212016-07-20 18.24.332016-07-20 18.24.572016-07-20 18.26.282016-07-20 18.21.232016-07-20 18.30.142016-07-20 18.31.152016-07-20 18.31.592016-07-20 18.32.332016-07-20 18.35.202016-07-20 18.35.592016-07-20 18.29.412016-07-20 18.27.11

por terras do Uzbequistão

Nos últimos tempos, os capítulos da nossa história terminam e recomeçam em fronteiras, com borboletas no estômago e muitas burocracias. Mas viramos página a página, com muita calma, com muitos sonhos na algibeira e cada vez mais ricos.

Na travessia finda do Turquemenistão, os militares mostraram-se simpáticos, tendo até fechado os olhos para uma troca de dinheiro oficiosa. Sabíamos já que neste novo país, o Uzbequistão, a troca de dinheiro se deve fazer no mercado negro, uma vez que nos bancos a taxa de câmbio chega a ser 2 vezes inferior.

Assim, conseguimos trocar o que nos restava na moeda do turquemena (manat) por notas uzebeques (sum), ainda em terras turquemenas: e o mais engraçado, a nota mais pequena vale 0,02€ (tendo em conta a taxa a que trocámos sempre o dinheiro, de 6500sum). E assim nos fizemos sempre acompanhar por um valente e vistoso molho de notas – como qualquer local.

Aliás, eles, os locais, chegam a trazer as notas no bolso, presas com um elástico, como se se tratasse de contrabando ou algo assim, enfiadas em sacos de plástico – o que vimos mesmo que na mala das senhoras.

Esperávamos que ali, na fronteira, nos revistassem de ponta a pavio. Tínhamos já lido vários relatos, vários blogues, conhecido vários viajantes; e a história repetia-se. Sabíamos ser obrigatório declarar valores e ser proibido, por entre muitas coisas, fotografias ou livros de caráter pornográfico ou religioso. Desta, estávamos preparados: tínhamos o nosso dinheiro contado, fotografias e livros controlados, tudo a postos.

Até as nossas mais lindas fotografias com beijinhos estavam apagadas.

Mas depois de preenchermos as declarações na fronteira, passámos as mochilas no RX, e tínhamos o coração a mil. Os relatos de revistas duradouras e minuciosas eram tantos, que não nos víamos sair dali nem em 3 horas, face à quantidade de tralha que sempre nos acompanha.

A primeira pergunta foi simples – medicines?

Dissemos que sim e indicou-nos que tirássemos tudo para fora. Não sabemos bem o que nos passou pela cabeça, mas tiramos só a embalagem metálica onde estão todos os medicamentos da tiroide e pilulas, que nos acompanham. A bolsa com tudo o que é comprimidos de emergência, continuou dentro da mochila. E, propositadamente, não tirámos a caixinha das vitaminas sem rótulo.

Depois de confirmar no computador o conteúdo do que lhe havíamos apresentado, balanceávamos o nosso espírito por entre o receio e a calma. Quando nos perguntou se tínhamos mais algum medicamento na mala, e decidimos dizer que não, não foi planeado, foi instintivo.

Podia ter corrido muito mal, mas correu muito bem. Mandou-nos guardar as declarações para apresentar à saída do país e autorizou-nos a seguir. Naquele momento, não estávamos crentes de que fosse aquela a verdadeira barreira. E até sairmos da zona fronteiriça, confessamos que estávamos sempre à espera do tal momento em que nos iriam separar e revistar e interrogar.

Mas não. Não aconteceu. Não sabemos porquê, mas sabemo-nos gratos por não nos terem feito desarrumar tudo e viver um momento tão tenso.

Sabemo-nos decerto abençoados, pelo nosso caminho até aqui e por cada dia que passa.

Seguimos então depois a pé. Os taxistas morrem de amores por nós, quando nos vêm a chegar por perto, carregados e suados, desejosos de uma sombra ou uma boleia; mas depressa se desencantam quando dizemos que não queremos táxi ou não temos dinheiro. É difícil de lhes explicar a eles, e a muitas pessoas até, que nós temos dinheiro sim, mas não para transportes. Ou seja, o dinheiro que temos é para nos alimentarmos, para situações de necessidade ou para burocracias.

Para transporte temos os pés e todos os carros que estejam a ir na nossa direção e nos queiram levar. Está completamente contra o nosso modo de vida ou principio de viagem apanhar um táxi: fazer um carro, singular, que não vai levar mais ninguém nesse sentido, deslocar-se, consumir e poluir – muito embora aqui na Ásia vejamos na maioria táxis partilhados, que só arrancam quando cheios. Uns prodígios. 

No nosso sentido, o da cidade mais próxima, seguiam camiões, mas também os taxistas se encarregavam de lhes dizer que lhes era proibido levarem-nos. Portanto, caminhámos até nos afastarmos da zona fronteiriça, da confusão. Caminhámos a custo, porque as temperaturas a rondar os 40 graus e o sol intenso, faziam-nos destilar e querer parar a cada 5 minutos.

Numa dessas mesmas paragens, acabámos por conhecer um ciclista alemão, também a recarregar forças numa sombra. Temos tido a oportunidade de conhecer muitos viajantes, mas nunca dois iguais, com o mesmo modo de viajar, destino ou rota, o que é sempre enriquecedor. Ainda assim, temos sempre em comum uma coisa: deixámos tudo para trás e decidimos fazer o que muitos querem e não têm coragem – viver!

E pouco depois, conseguimos boleia de um camionista até Buhkara, onde tínhamos uma couchsurfer à nossa espera. Delicada e doce, foi até ao nosso encontro para nos conduzir até sua casa. Lá, além da irmã, do filho e dos 3 sobrinhos, hospedava também um outro ciclista, alemão. Viajante de paixão e neurologista de profissão, partilhámos então o serão.

E no dia seguinte, juntos conhecemos a cidade, os seus recantos e encantos, sabores e cheiros. E à noite, cozinhámos em casa e partilhámos segredos por entre as paredes da cozinha. Velha, suja, mas muito acolhedora.

Por entre o terror que é dormir e descansar por entre os milhentos mosquitos existentes, picadas e zumbidos, mesmo depois de montada a rede mosquiteira; conseguimos levantar-nos cedo para seguir rumo a Samarqant. Mas depois de nos conectarmos para confirmar o couchsurfing, pudemos perceber que embora confirmada a estadia, não tínhamos qualquer informação sobre quem nos iria hospedar. Mesmo depois de lhe termos enviadas várias mensagens (lidas), não tínhamos resposta a nenhuma. Nem telefone, nem morada. Nada.

Perdemos assim a manhã a tentar contactar esta futura couchsurfer, mas sem sucesso. E já ao início da tarde, decidimos que não adiantava esperar mais, e fizemo-nos à estrada. Em última instância, a nossa tenda esperava a sua estreia. E com tão bom tempo, não nos poderíamos queixar.

Uma vez mais, atordoados com o calor, caminhámos até termos a certeza de que estaríamos longe de olhares militares ou policiais.

Aqui, no Uzebequistão, a cada 3 dias é obrigatório o registo de dormida, em hotel ou hostel, ou a mudança de região devidamente comprovada, como por exemplo com bilhete de autocarro ou comboio noturnos. E à saída do país devemos apresentar esses mesmos registos, sob pena de multa ou deportação.

Contudo, dado o país em questão, sabemos que a polícia faz como quer e exige o que quer e, nós, como só pretendemos apanhar um comboio noturno a cada 3 dias para não termos problemas, preferimos manter-nos longe. Até porque se for para serem corruptos, com um estrangeiro, calha ainda melhor. Mas no total de 13 dias, temos dois bilhetes e fotografias que comprovam que nos fomos movendo de região em região: esperemos que os deuses das boleias nos protejam!

Depois de muitos táxis recusados, pararam dois senhores. De sorriso genuíno, gesticularam para que entrássemos e seguíssemos juntos. Afinal, iam para Tashkent, a capital, a mais de 600 quilómetros e portanto passariam por Samarqant.

Já no carro, e com mais de 100 quilómetros feitos, começámos a ponderar seguir também para a capital. Não tínhamos ninguém à nossa espera em Samarqant, nem casa, nem amigos. E teríamos sempre de lá voltar perto para atravessar a fronteira. E em Tashkent, tínhamos uma amiga.

Pedimos então para lhe telefonar (vale-nos a destreza em russo também) e passado pouco tempo tínhamos no telefone o contacto de quem nos poderia hospedar.

Pelo caminho jantámos, com muita simpatia e muita dificuldade em fugir de carne. Chegámos então nessa noite, já perto da 00h00. E como em casa de quem nos ia hospedar estava um outro casal de ciclistas alemão já a dormir, montámos o arraial no chão da sala de jantar. E que bem dormimos!

Na manhã seguinte, tínhamos como objetivo conseguir comprar um bilhete de comboio para a próxima noite e assim fizemos. Conseguimos por 7,5€ uma viagem de 16 horas para o lado oposto do país. Na verdade, atravessámo-lo à boleia e agora regressaríamos para trás para o visitar.

Durante o resto do dia fizemos por passear e conseguimos ainda encontrar-nos com a nossa amiga. Francesa, viajada e a viver a cada ano num país diferente; outrora professora no Irão ou até Iraque, quis palmilhar connosco a cidade de lés a lés, até mesmo quando já estávamos estoirados. E já à noite, aproveitámos para lavar roupa e para nos deitar cedo. O dia seguinte iria decerto ser longo.

De malas praticamente aviadas, com já pouca coisa por secar, fomos até ao mais antigo mercado da cidade, Churus. O maior mercado que alguma vez vimos, numa dimensão gigantesca. Com roupa, cosméticos, calçado, comida, fruta, legumes, (…). Perdemo-nos por lá e por lá andámos por mais de 3 horas com a certeza de que não vimos nem metade.

Abastecemo-nos de fruta, pão e frutos secos, para a viagem. Comprámos um pastel típico de batata para o almoço e o tempo já estava contado para chegar ao comboio.

Mas fomos com calma, com a inocência típica quem ainda não viu acontecer. Para entrar na gare estivemos um bocado. Tal como à entrada do metro nos revistam (a nós e a todas as pessoas, uma por uma), ali não seria diferente. Revistaram-nos por duas vezes diferentes, mostrámos o passaporte outras tantas e os bilhetes umas três ou quatro.

E quando chegámos à nossa carruagem, o caus estava instalado. Como seria de esperar de uma cabine económica, zero de ar condicionado, zero de espaço. Portanto, 40 e vários graus infernais, lugares marcados no galheto e espaço para ficarmos juntos ainda menos.

Se por um lado dava vontade de rir, por outro dava vontade de chorar.

Pedimos ainda ajuda ao “comandante”, que aquilo que fez foi gritar pelo lado de fora do comboio que havia americanos a precisar de ajuda; e logo alguém veio, para fazer de uma mesa um assento.

Percebemos então como trabalhava. A primeira hora foi de tensão, calor e talvez desespero. Restava-nos observar as pessoas, mesmo em bancos separados. Aos poucos, foram-se conhecendo, movendo, e já tínhamos uma cama (por entre as muitas suspensas por entre os bancos e os porta-malas), um assento e uma mini-mesa para comer. Aos poucos, já nos queriam conhecer, oferecer comida e até um lenço típico! Aos poucos, já só o calor incomodava. E assim se passaram as horas, quase sem que dessemos por elas. E conseguimos os dois, dormir, deitadinhos. Um numa cama, outro no porta malas. Mas com direito a colchão e almofada e tudo!

O sol entrava já pelas janelas do comboio pouco passava das 5h00 da manhã. E o calor, que pela noite fora se tinha feito acalmar, voltava então em força.

Por entre o embalo do baloiçar dos carris, tomámos o pequeno-almoço, mas não ao mesmo tempo: ó-ó é bom em qualquer caminha do mundo, e enquanto um madruga ou outro sonha!

Dividimos assim a mesa com uma senhora já velhinha, que por entre os dentes que lhe restavam, só se via ouro no sorriso. E por entre os frutos que volta e meia lhe oferecíamos, dizia baixinho – Spasibo, obrigada.

Chegámos a Urgench com mais de 1 hora de atraso, e mal descemos pudemos avistar nas grades da estação o nosso couchsurfer. Esperava-nos desde a hora prevista (o que neste país não vale nada), com um sorriso largo no rosto e também na alma! E consigo, trazia dois couchsurfers da Rússia, também em sua casa hospedados. Com uma história parecida com a nossa, recém casados, a viajar à boleia pela Ásia, ela vegetariana e ambos sem beber álcool; tornaram-se a nossa companhia.

Em casa, depois de um banho fresco e de roupa lavada num grande alguidar, almoçámos juntos e passámos a tarde por entre histórias e longas partilhas. E já quase com o sol na linha do horizonte, depois de jantados, seguimos para um passeio pelo centro da cidade. A verdade é que se para muitos por aqui não alegra a hora do sol se pôr, a nós sabe-nos muito bem serem 21h30 e ainda haver luz.

E mais à noite, tristes por não conseguirmos ver a seleção a jogar, remediámo-nos nos braços um do outro, no sono que em nós jazia.

Madrugámos para ir até Khiva, a 30 quilómetros de Urgench: uma cidade histórica, incluída na antiga rota da seda. Indescritível, maravilhosa e imponente, com construções de fazer vibrar o olhar e sonhar. Por entre tons terra e azul turquesa, azulejos e artesanato. Um verdadeiro encanto, daqueles que se visita uma vez na vida e se guarda para sempre. No coração.

Regressámos mais tarde a casa, e depois de uma melancia para o almoço, fizemo-nos à cidade à procura de wifi. No Uzebequistão, a internet não é má: só praticamente não existe. São poucos os que a têm em casa, muito poucos. Porque é realmente cara. Da mesma forma que são muito poucos os cafés ou locais com wifi. Existem sim centros, com computadores e ligação, pagando-se à hora; mas lá não conseguimos conectar o telefone, onde temos o nosso parceiro WhatsApp, através do qual damos notícias à nossa querida família.

Neste sentido, temos feito algumas descobertas e, o mais fantástico, temo-nos desenvincilhado.

A primeira invenção, foi instalar aplicações, nos nossos equipamentos, que tentam descodificar passwords. Nem sempre funciona, mas às vezes faz a nossa sorte! Mais tarde, aprendemos a pedir às pessoas – aquelas que desconfiamos que saibam, para fazer hotspot com o seu telefone, partilhando assim wifi. É claro, é uma verdadeira modernice. Mas a verdade é que já nos tem desenrascado muitas vezes. Para um acesso curto e rápido, mesmo que não tenham muitos dados, ficam felizes por nos ajudar e nós muito gratos. E a terceira invenção, mas não pior, é procurar um hotel com o maior número de estrelas possíveis.

Porquê com muitas estrelas? Porque, vendo uma menina turista entrar, explicando que está de viagem no país e que precisaria de verificar o e-mail, gostam de mostrar que têm um excelente acesso à internet e cedem a chave sem qualquer constrangimento. Não sabemos bem, mas talvez pensem que num futuro próximo possamos escolhê-los para nos instalarmos. Ou talvez seja apenas cortesia, não interferindo com o bom funcionamento do hotel uma pessoa a mais a navegar. Em contrapartida, tentámos já hostels ou pequenos hotéis, mas sem sucesso. Exigem sempre o pagamento de alguma quantia, que sejamos seus hóspedes ou que consumamos algo no bar.

Já tarde, de barriga cheia de wifi, e muito satisfeitos com muitos miminhos da família, regressámos a casa. E lá, tínhamos trigo serraceno cozido à nossa espera! Muitos não conhecem as maravilhas deste cereal que adoramos, mas confessamos aqui que sabemos cozinhá-lo muito melhor – ou não fossemos nós uns verdadeiros chefs vegetarianos, eheh.

Levantámo-nos todos juntos depois na manhã seguinte para um grande pequeno-almoço. Embora com direções diferentes, íamos todos pôr-nos à boleia! O casal russo para para Bukahra, nós par Samarqant. E tivemos a sorte de podermos juntos apanhar a primeira boleia do dia ainda em casa, do pai do nosso querido couchsurfer. Há couchsurfers e couchsurfers, e embora gostemos de cada um à sua maneira, há sempre aqueles que nos marcam: e este foi um deles. Talvez pela sua humildade. Ou pela sua disponibilidade. Mas decerto por ser mesmo uma boa pessoa neste mundo.

Assim, quase sem darmos por isso, estávamos a 30 quilómetros da cidade e já na estrada principal para esperarmos pela nossa sorte.

Num instante conseguimos boleia, e em pouco mais de 1 horas, estávamos de novo de mochila às costas, já no nosso destino. Não tínhamos ninguém para nos hospedar na cidade, mas tínhamos um couchsurfer à nossa espera para nos conhecer. Não podia alojar-nos pois a família não concorda, mas quis ainda assim encontrar-nos e receber-nos na sua cidade.

Deslumbrado pelo mundo “lá fora”, apaixonado por cada viajante que conhece e pelo globo que sabe de cor; ajudou-nos tanto quanto pode, levando-nos até à bilheteira mais próxima, pois estávamos já em contagem decrescente para um novo comboio, um novo registo. E descobrimos então que o próximo duraria 20 horas, com um custo um bocadinho mais elevado, perto dos 12 euros.

Seguimos depois já sozinhos pela cidade. Tínhamos algumas luzes de onde poderíamos acampar e fizemos por segui-las. Perto do rio, ainda que dentro da cidade, junto a algumas vivendas novas e depois de algumas casas antigas. Por lá, encontrámos dezenas de crianças, curiosas pois com estes dois extraterrestres de grandes mochilas às costas e olhos sem ser em bico.

Seguiram-nos, e por entre risos falavam do Ronaldo, e do Figo também. Portugalia, diziam de ouvido em ouvido. E por entre os quintais víamos gente e gente a espreitar. Se a missão era secreta, deixou de o ser. Se o objetivo era passarmos despercebidos, também estava falhado. E restava o receio: receio de que alguém se sentisse intimidado e chamasse a polícia.

Decidimos então mudar de jogo: se perguntássemos a quem por ali nos olhava se o sítio era bom para acampar por uma noite, passaríamos a bola para o outro lado. Poderiam dizer-nos que sim, e chamar a polícia na mesma, claro. Mas era menos óbvio que o fizessem.

Contudo, as primeiras pessoas que abordámos, logo nos convidaram para sua casa. A princípio para por a tenda num quintal. Depois para dormir numa estrutura com cama de rede. E a única pergunta mais séria foi a se tínhamos os passaportes e visto, legais.

A família era grande, e por ser sábado, era dia de festa. E festa que é festa, pede vodka. Muita vodka. Mais vodka. E em resumo, estava o dono da casa bêbedo. Mas não foi por isso que nos recebeu pior ou com menos cuidado. Apresentou a gente da casa, a casa de banho, o chuveiro, os animais e mandou vir comida para a mesa com fartura. Só o tom de voz, esse, é que era pior. Intimidava, mesmo que por entre risos. Pensámos ainda que fosse do álcool ou até mesmo sem querer, pois berrava com entusiasmo cada frase que dizia. Mas pudemos mais tarde perceber que na presença de outras pessoas se continha. E, não bastasse já tamanha generosidade, ainda tinha wifi em casa – da boa!

Pudemos depois descansar e dormir, até no dia seguinte sermos acordados com um valente e sonoro “Tiaga!! Dawai” – pois em russo o “o” tem som de “a”, dizendo também eles “Cristiana Ronalda”! Tínhamos já o pequeno-almoço à nossa espera, típico e delicioso, sem margem para refutas – tal como no dia anterior, tendo-nos nós precavido com a alergia à carne.

Pelo dia fora passeámos com o seu filho e um sobrinho, tendo estes sido uma grande ajuda para voltar a trocar dinheiro no mercado negro e a comprar os bilhetes de comboio. E lá, mais uma vez impera a calma: quase 2 horas de espera com apenas 5 pessoas à nossa frente.

Acabámos depois a dormir a sesta e mais tarde, em casa, a conhecer uma amiga da família, professora de inglês.

Embora não tenhamos percebido o porquê, não fomos convidados a jantar com os amigos da família, tendo-nos eles preparado o jantar numa sala à parte. Mas moído o assunto, acreditamos ter sido por receio de denuncia à polícia – já que é pública a (infeliz) proibição de hospedar turistas…

Mas, desta, tivemos um jantar a dois, calmo e tranquilo.

Amoroso por entre o divagar do nosso namoro.

E na manhã seguinte, no nosso 10° dia no Uzebequistão, dissemos adeus a Nukus e aos seus encantos. Percorremos o bazar da cidade de mochilas às costas e tralhas nas mãos, regateamos, tirámos fotos com as senhoras que nos venderam alperces e fizemos o farnel das próximas 24 horas. E por fim, apanhámos um mashrutka por 5 quilómetros, até à estação.

Mashrutka não é um taxi, nem é uma van: fica-se pelo meio de ambos. Com um tamanho muito catita!

Esperámos pelo comboio, por mais de 3 horas, por entre a antecedência com que devemos chegar e o atraso que depois anunciaram. Só nos restou recordar que em outro qualquer lugar europeu, seria de esperar que todos se indignassem, que reclamassem pelo atraso, exigissem dinheiro ou uma sombra. Até a nós nos deu vontade! Mas aqui, até mesmo quando já nós nos comíamos por dentro, de indignação, as pessoas à nossa volta transpiravam calma. Acreditamos ser uma arte, esta a do saber esperar sem reclamar. E assim fizemos, por entre uma árvore que escolhemos para nos acolher.

Quando o comboio chegou, trazia espaço com fartura. Pudemos instalar as mochilas no sitio certo e tivemos direito a colchão e lençóis lavados para as camas de primeiro andar. E, como bónus, dois lugares com mesa livres para almoçarmos e passarmos parte da tarde. Só já mais à noite, numa nova paragem, a carruagem se encheu de gente. Mas aí, já descansados na cama, embora apanhados de sobressalto, pouco nos incomodou.

A tarde, noite e manhã passaram rápido e sem grande custo, o calor não era tanto assim (ou já nós nos fizemos habituar) e a maior parte do tempo aproveitámos para escrever e dormir! Mas, de nos tirar o sono foi o choque que tivemos relativamente ao lixo: seja nova ou velha, qualquer pessoa agarra no que tem e vai atirando pela janela do comboio em andamento. Seja garrafas ou sacos, embalagens ou restos de comida, vai tudo. E ensinam os avós aos netos como fazê-lo! E dão-se ainda ao luxo de nos olhar como porcos por guardarmos religiosamente o nosso lixo todo num saco de plástico até à chegada.

À chegada, a Samarqant, estávamos sem rumo. Novamente, não tínhamos ninguém para nos hospedar, ou pelo menos até termos saído de casa ninguém nos havia confirmado estadia no couchsurfing. Estávamos então preparados para erguer a nossa tenda pela primeira vez nesta viagem.

Passámos o dia com algum sacrifício por entre o calor, o peso das mochilas e a busca de wifi. A cidade, linda, exigia-nos que nos movêssemos, que a palmilhássemos. Que a quiséssemos visitar. Apanhou-nos de surpresa pela beldade das construções históricas, pela limpeza das ruas, pelo ornamento dos parques. Mas com a carga que trazíamos, a cada 10 minutos de caminhada só conseguíamos desejar por uma sombra e um recanto para parar.

Encontrámos depois, por entre uma zona verdadeiramente turística, um bazar. Uma vez mais, lindo em termos arquitectónicos, mas não tão recheado como outros que pudemos já encontrar. Decidimos visitá-lo à vez depois de encontrarmos um banco para descansar e largar as mochilas: e por entre o tempo de espera um do outro, surgiu conversa com uma vendedora ambulante de lenços e echarpes.

De repente, e sem nos apercebermos, tivemos das partilhas mais bonitas e intensas que pudemos alguma vez viver. Com um nível inglês muito além do que pudemos esperar, e por entre frases carregadas de emoção, descreveu-nos a sua história de vida, reflexa da te todas as mulheres no país. Com pesar e tristeza, não se coibiu de falar de tudo o que a amargura. E até talvez com leveza a mais, face ao que poderíamos imaginar, não teve rodeios. Casou-se jovem, aos 18 anos, tal como a família espera e impõe. As raparigas não estudam, nem devem: porque se forem boas raparigas, depressa se devem casar e de nada lhes serve os estudos para tratar da família. Seguiu então para casa dos sogros, onde passou a trabalhar do nascer ao pôr-do-sol: lava roupa, estende roupa, faz pequeno-almoço, deixa almoço preparado, faz jantar, limpa a casa, trata do quintal, lava a loiça e, rápido, tem muitos filhos e cuida deles. E durante o dia, vai ainda trabalhar – mas neste momento está muito mau, não há turistas e é deles que precisa.

Os sogros, sem trabalho e sempre em casa, exigem desde sempre que tudo seja feito com rapidez e rigor. E, por entre risos, contou até que por uma manhã de cansaço se deixou dormir por uma pouco mais, até por volta das 6 horas, tendo acordado com o cunhado aos gritos mandando-a ir tratar das suas lides. Com um sorriso ainda no rosto, explicou-nos que nesse momento esperou que o marido a defendesse, compreendendo-a cansada: mas não.

Com duas filhas para cuidar, partilhou também – e com rapidez, que são estas as sobreviventes de quatro. A primeira bebé morreu aos 6 meses de gestação e a última morreu também. Não falou de imediato porquê, mas mais à frente tivemos coragem de lhe perguntar. Da primeira gravidez a bebé não sobreviveu por excesso de trabalho, muita carga e falta de descanso. A ultima, foi obrigada a abortar – era mais uma menina e o marido agora quer rapazes. Pudemos mais tarde perceber que, de futuro, as meninas se vão, tal como a mãe, um dia para casa da família dos seus maridos. Já os rapazes, para sempre em casa ficam e sempre alguém trazem para cuidar deles. É a lei da vida por aqui.

E toda esta conversa sempre por entre sorrisos. E muita vontade de falar.

Os nossos corações estavam mais apertados que o dela – isso pudemos senti-lo.

Sonhava um dia poder ir viajar por outros países com o marido, passar tempo com ele longe da vida que traz. Confessou também que agora, por entre o seu dia-a-dia, não tem tempo: e que por isso sabe que o marido vai com outras mulheres. Não concorda, mas assume que nada pode fazer, porque não tem tempo nem para se arranjar pela manhã.

E em pouco mais de 30 minutos tínhamos um relato, para nós doloroso, de uma vida perfeitamente normal por aqui.

Despedimo-nos, gratos pela conversa, pela generosidade. Pela força.

De mochilas novamente as costas, comprámos algumas frutas e pão caseiro para o almoço e seguimos caminho. Os preços por ali muito elevados, mais do dobro face a outras cidades, por ser um local turístico e por não terem na cidade agricultores, importando tudo. Ainda assim, fizemo-nos ao negócio e conseguimos alguns preços mais baixos.

Pela cidade conhecemos dois viajantes, em separado. Um italiano e um francês. O último, praticamente com a mesma rota que nós, mas de bicicleta, ambos inspiradores à sua maneira.

E já mesmo ao final do dia, por entre a nossa busca, encontrámos uma rede wifi aberta! E lá tínhamos à nossa espera a confirmação de um couchsurfer em Samarqant para nos hospedar. Professor universitário,1 de economia, tinha-se registado no site à uma semana. Fomos por isso os seus primeiros hospedes, a sua primeira experiência. Levou-nos a jantar fora e a dormir no seu apartamento na cidade, e por entre o medo da polícia, pediu-nos que fossemos muito discretos em casa. Lá, deixou-nos sozinhos, tendo ir dormir à sua casa de família, onde teria a mulher e filhos à espera. E assim, percebemos que nos hospedou em segredo.

Na manhã seguinte, em pezinhos de lã, saímos do bairro e, com a maior das generosidades, quis dar-nos a provar tudo o que de típico encontrávamos pela cidade.

Começámos por uma pastelaria, onde provámos deliciosos salgados vegetarianos. E seguimos para o mercado. Mas sobre este temos tanto para dizer que é complicado escolher por onde começar! Numa palavra: badalhoquice. Cá vamos.

Pudemos encontrar em todos os mercados rulotes de bebidas. São carrinhos, cada um com a sua especialidade. Sempre que passeamos sozinhos, observamos de longe, mas por norma não chegamos perto. Temos sempre algum receio, nomeadamente no processo de produção da bebida em si, pois a água por aqui não é potável e trazemos alguns recados do nosso médico da consulta do viajante, que pretendemos cumprir. Mas, acompanhados por locais, nem sempre é fácil!

Assim, à chegada, foi-nos comprar uma bebida feita exclusivamente com gelo, onde acrescentam por cima caramelo. E é isto. Adoram por ser refrescante e doce ao mesmo tempo.

Embora em casa fujamos do açúcar, de viagem sabemo-nos muito flexíveis e claro, o que é doce nunca amargou! Mas, e aquele gelo? “Nunca consumam gelo nas ruas”, ouvimos nós no gabinete. O melhor que conseguimos foi um a dividir pelos dois!
Mais à frente, depois de compradas algumas frutas, sempre com a maior das generosidades, quis oferecer-nos uma bebida obtida exclusivamente de amoras. Um líquido preto e, à partida, saudável e saboroso. Mas o pior estava para vir! No fundo dos alguidares das amoras, acumulava-se esse líquido. Com um prato de plástico, tiravam as amoras para sacos de plástico colocados na balança. E em cima do carrinho, tinham 5 copos de vidro de diferentes volumes, desde o cálice ao copo alto: e era com esses copos, de diferentes preços, que apanhavam o líquido do fundo do alguidar, o tal que se bebia. Só que os copos, tal como dissemos, de vidro, nunca eram lavados. O senhor do bigode, chegava, escolhia, bebia, e siga: volta a encher o copo e a bebida está a venda de novo. A senhora dos dentes de ouro e lenço na cabeça, chegava, escolhia, bebia, e siga: a história repetia-se. Era tamanha a badalhoquice e, como que por instinto, conseguimos em segundos dizer que preferíamos provar as amoras inteiras.

Não é fácil. Não é nada fácil explicar que embora viajantes, pretendemos manter alguns cuidados de higiene – até mesmo muitas vezes perante outros viajantes.

Aliás, muitas vezes percebemos que há um desfasamento entre nós e os que nos rodeiam nestas aventuras. Porque sim, gostamos de ter a roupa lavada, de tomar banho todos os dias ou de lavar os dentes tantas vezes quantas consigamos. Gostamos de dormir com pijama lavado, de trocar de roupa interior diariamente ou ter um lençol nosso e lavado para por nos colchões ou nas camas que nos dão. E sabemo-nos olhados como mesquinhas, mas não faz mal!

Sabemo-nos bem assim. E ainda bem que nos temos um ao outro, em sintonia. ❤

Já depois de visitado o mercado, seguimos para as montanhas mais próximas, as 50 quilómetros da cidade, onde visitámos um campo férias onde este couchsurfer já havia trabalhado. Embora com cerca de 600 crianças, depois de conhecermos os monitores, não pudemos deixar de nos lembrar dos nossos tempos de trabalho na CAF da APEECV em Queijas, onde também fomos muito felizes!

E já de tarde regressámos a casa: tivemos depois tempo para reorganizar as nossas mochilas, descansar um pouco e só ao pôr-do-sol fomos sozinhos visitar mais um lindo parque na cidade.

Em casa, tentámos de tudo para ver Portugal jogar. Mas não foi fácil. Sem televisão e com uma internet emprestada por um vizinho, desistimos e ouvimos o relato do jogo pela rádio… mas adormecemos. Acordámos mais tarde com o golo do Nani e percebemos que estávamos então na final! Aconchegámo-nos, virámo-nos para o lado e seguimos sonhos fora.

Na manhã seguinte era dia de seguir para Termez, uma cidade a sul, com fronteira com o Afeganistão. E embora tenhamos tido esperança de que fosse fácil lá chegar, deparámo-nos com um dia à antiga, durante o qual apanhámos 7 boleias: e por cada uma esperámos mais de 1 hora.

Em todas as boleias encontrámos pessoas recheadas de simpatia, mas pelo dia fora houve duas situações que nos marcaram. A primeira que recordamos, marcou-nos porque acabámos a recusar uma boleia: 3 senhores, muito bem parecidos e com um belo carro, falavam connosco de modo exuberado e riam-se de tudo quanto lhes dizíamos. Calculamos pois que estivessem bêbedos. Depois de pararem e de gozarem o prato, seguiram. E mais tarde, ainda nós continuávamos à boleia no mesmo sítio, voltaram dizendo que nos levavam e que iam exatamente para Termez – e foi quando recusámos. As vezes não é fácil, quando estamos à muitas horas para fazer poucos quilómetros, quando vemos as sombras a mudar de posição e nós sempre no mesmo sitio. Mas trata-se de instinto e esse temos de o seguir. É preferível não chegar ao nosso destino, mas estar em segurança.

Já mais tarde, num outro local alguns quilómetros depois, algumas boleias depois, sentimo-nos em Itália. Vimos sol pôr-se. Estivemos várias horas no mesmo sítio, vimos a vida pela aldeia acontecer, e nós sem nos mexermos. Ponderávamos já inclusive onde poderíamos montar a tenda. Até que parou um carro, e de lá saiu um polícia, dizendo – problemas?

Estremecemos dos pés à cabeça. E num segundo, os nossos olhos puderam ver de tudo: passaportes, registos, dinheiro, chatices, corrupção, autocarros, táxis e hotéis.

Respondemos prontamente em russo – niet problema! Mas não convencido, depressa perguntou às pessoas que se começaram a juntar à nossa volta quem éramos e o que estávamos ali a fazer. Foram dizendo que éramos turistas de Portugal, e que estávamos a viajar a pé e ali à espera de um carro no nosso caminho, mas que não tínhamos dinheiro para pagar.

Sabemos bem que tudo na vida se rege pela sinceridade e verdade, mas ali não sabíamos se tinha sido boa opção.

Contudo, no mesmo instante, o trabalho do polícia foi começar a mandar parar carros. Um por um, gritava, gesticulava. Eles encostavam, falava e mandava-os seguir. Até que com uma carrinha das que só por aqui há – as Damas, nos gritou a nós para que entrássemos.

As Damas, são também as carrinhas utilizadas como mashrutkas, e por isso foi imediato pensarmos que talvez estivessem a contar que pagássemos, mas não tínhamos opção. Enfiados ali dentro pela polícia, agradecemos muito e seguimos.

A conversa não foi imediata, os primeiros quilómetros foram maioritariamente em silêncio, mas pouco a pouco, fomo-nos ligando. Eram dois senhores, e já não eram novos. Mas foi talvez o caminho que nos conectou: a estrada, só vendo se crê. Adoraríamos conseguir transpor em palavras a miséria, sem asfalto, sem luz e com dois sentidos, com buracos e montes de areia e pedras, com descidas e subidas, com gravilha e pó. Anti-amortecedores. Anti-carros. Anti-costas. Parecia até que tínhamos entrado no país vizinho! E a melhor forma de classificar: impossível de adormecer.

Foram mais de 2 horas assim, com a coadjuvante de que a cada 30 minutos tínhamos um posto de controlo da polícia (como por todo o Uzbequistão), onde verificam se a pessoa veio em excesso de velocidade (o que no caso era impossível) e se está tudo legalizado. Estes postos dividem regiões, como se em Portugal houvesse na A8 um controlo em Caldas da Rainha, em Torres Vedras, e por aí fora, com o objetivo de manter a segurança e ordem do país. No entanto, dada a proximidade com o Afeganistão, a conversa era mais séria e acrescia o controlo face a drogas.

Sempre pacientes, os nossos condutores, ajudaram-nos sempre que foi preciso declarar os nossos passaportes nesses mesmos postos, esperando com calma e de sorriso no rosto. E já no último posto de controlo, estavam os polícias a ver o jogo do dia anterior, de Portugal contra Wales. E uma vez mais graças ao futebol português se quebrou o gelo.

Já perto da 00h00 chegámos à cidade destino da nossa boleia, mas estávamos ainda a 30 quilómetros de Termez. Sabíamos que tínhamos um couchsurfer maravilhoso e acordado à nossa espera, e por isso fazíamos questão de chegar. Na cidade onde nos encontrávamos, foi a vez dos nossos condutores procurarem por uma boleia para nós, mas sem trânsito e apenas com táxis parados na praça central, depressa percebemos que a missão seria praticamente impossível.

Foi então que num gesto verdadeiramente abençoado decidiram fazer eles próprios de táxi, levar outra pessoa que desejava seguir e oferecer-nos a nós o caminho que restava. E quase sem que pudéssemos acreditar, estávamos a chegar a casa. Seguros, sãos e salvos.

Descansámos que nem anjos, sem que nada nos fizesse despertar. Ainda que o calor fosse muito. Dormimos tanto quanto precisámos, com a certeza de que não poderíamos ter escolhido uma melhor família para nos acolher! E já só à noite, quando as temperaturas eram mais suportáveis, fomos conhecer a cidade e os seus encantos. A verdade é que em Termez, não queríamos acreditar, mas pela localização geográfica, as temperaturas durante o dia variam entre os 50 e os 60 graus. Uma loucura que impede qualquer um de sair durante o dia, e faz com que todos saiam à noite. E à noite que vemos mercados, vendedores, lojas e supermercados, tudo a trabalhar.

Já tarde, cozinhámos à portuguesa, tão bem e com tanto amor quanto sabemos. E sabemos que assim fica de comer e chorar por mais!

Mas foi no dia seguinte que foi difícil de acordar. Era cedo, cedo demais. O calor não cansa, mas mói. E a luz do sol por entre as cortinas da sala não era nada benvinda. Mas teve de ser, e ao segundo despertador começámos o dia. E que dia!

Era pois dia de deixar o Uzbequistão. Era finalmente o dia de chegar à fronteira, de ver como ia desenrolar-se a história dos registos. Será que nos iam pedir os papéis? Será que iam tentar extorquir-nos dinheiro? Será que iam deportar-nos com um carimbo no passaporte?

Embora nenhuma das hipóteses fosse conveniente, só queríamos sentir-nos livres e despacharmo-nos o mais rapidamente possível. Tínhamos um papelinho verde escrito à mão com o nosso roteiro no país e dentro da lei: nunca mais de 72 horas numa região sem registo de hotel. E para evitar maiores confusões, pelo meio dois comboios noturnos. Era esperar para ver.

Passámos o dia à boleia, e se para chegar a Termez não foi fácil, para de lá sair também não.

No primeiro lugar onde nos pusemos à boleia, estivemos mais de 2 horas. Enganados pela sombra de uma árvore, vimos as águas que trazíamos congeladas derreterem. E aquecerem.

Foram vários os carros que pararam esperando de nós dinheiro, e podíamos ver muitos deles a passarem por nós e a voltar para trás na expectativa de que fossemos uma mina de ouro. Depressa se desencantavam e rápido nos deixavam para trás, voltando nós à estaca zero.

Percebíamos ser cada vez mais difícil atravessar as fronteiras no mesmo dia. Mais, não havia qualquer informação online sobre os seus horários, e por isso estávamos sem ideia de como o tudo iria acontecer.

Acabou por parar um carro que nos levou por muitos e bons quilómetros, com apenas um pequeno problema: quis levar-nos a almoçar fora com um amigo, e fez para durar a conversa à mesa. Claro está que temos sempre de contar com estes desvios, mas estávamos em pleno contra-relógio, coisa a que já não estamos habituados.

O nosso coração por norma bate calmo e sereno, e tem sido ele a comandar os nossos dias.

Quando nos deixou, estávamos a 40 quilómetros da fronteira, mas no meio de uma cidade. Caminhámos enquanto a força do corpo nos permitiu, suados e destilados pelo calor e pelas mochilas, até que um taxista – amoroso! nos quis ajudar e nos levou por 2 quilómetros, até à estrada principal.

Aí, caído do céu, parou um camionista Bielorrusso. Falava inglês e ia também para a fronteira. As manhas, sabia-as todas e por isso à chegada tínhamos a lição bem estudada. Era hora de enfrentar as feras.

O primeiro controlo do passaporte fizemos numa verdadeira rulote, com um militar e por entre dezenas de locais que pretendiam também atravessar a fronteira – eram já 18h00 mas estava tudo a funcionar como se cedo fosse.

Caminhámos depois até ao gradeamento e lá encontrámos um militar eximiamente fardado e equipado. Sem rodeios, pediu-nos os passaportes e, sem nos deixar respirar, pediu também os registos.

Baaaammmm.

Tínhamos muita coisa combinada, mas caiu tudo por terra. E a única coisa que conseguimos fazer, foi mantermo-nos firmes. Em cada frase, mostramo-nos tão confiantes quanto soubemos.

Mandaram-nos esperar por duas vezes, e por cada uma vinham 3 e 4 militares, polícias, chefes e chefinhas pedir explicações. Mantivemos sempre o nosso discurso e esperámos sempre descontraídos. Tínhamos mais uma carta no bolso: em última instância, pedir que ligassem para uma embaixada europeia. Mas não foi preciso. A espera foi longa, mas calculamos que unicamente para nos aborrecer.

Carregamos o material e seguimos, aliviados e felizes, com a sensação de missão cumprida!

Os seguintes controlos foram fáceis, nada mais que declarações, mochilas no rx e uma voltinha pelas fotografias do tablet. E o truque é deixar estar por aqui as do casamento: sorriem muito e mandam-nos seguir. Oxalá assim continue, agora que dissemos Olá ao Tajiquistão!

E relembrando-nos nós agora, não podemos deixar de partilhar a mais bela parte que guardamos dos sorrisos até aqui: os dentes de ouro! Lamentamos que arranquem os saudáveis para os pôr reluzentes, mas lá que é uma moda vistosa, é! E rica também.

Como todas as recordações que guardamos: ricas.
Como cada vez mais nos sentimos, dia após dia, com o mundo na mão.

E COM PORTUGAL CAMPEÃO! 🌏❤

2016-07-10 14.59.002016-07-10 15.42.262016-07-10 15.35.482016-07-10 15.18.122016-07-10 15.34.242016-07-10 15.34.562016-07-10 15.20.342016-07-10 15.22.102016-07-10 15.34.022016-07-10 15.44.012016-07-10 15.41.152016-07-10 15.43.152016-07-10 15.45.022016-07-10 15.00.492016-07-10 15.36.562016-07-10 15.23.432016-07-10 15.23.002016-07-10 15.37.502016-07-10 15.45.522016-07-10 15.26.522016-07-10 15.30.522016-07-10 15.27.382016-07-10 15.33.412016-07-10 15.42.072016-07-10 15.39.112016-07-10 15.02.07

lado secreto: Turquemenistão

Por entre a vantagem que é saber que temos sempre um novo país à nossa espera, depois de 30 dias no Irão, foi difícil sair do país sem que este deixasse saudade: na verdade, habituámo-nos às pessoas e aos seus costumes, como sempre, mas era hora de seguir.

E deixamo-nos levar: sabemos sempre que há algo de bom do outro lado.

Conseguimos um visto de cinco dias para o Turquemenistão, com obrigatoriedade de cruzar a fronteira em Bajgiran. Um visto caríssimo e difícil de obter, mas tivemos a sorte do nosso lado. Tínhamos por isso de 21 a 25 de junho, datas definidas.

Atravessámos do Irão para o Turquemenistão e, depois de passarmos a fronteira, fomos obrigados a apanhar um autocarro até ao final da fronteira militar. Não fomos sujeitos a nenhum tipo de revista, mas levaram pelo menos 3 horas para nos deixarem passar. E os nossos passaportes passaram pela mão de pelo menos 5 policias .

Depois, saturados mas felizes, andámos 5 dolorosos quilómetros até à primeira paragem de autocarro urbano (que custou a módica quantia de 0,07€ por 15 quilómetros). Muito sol, um calor soberbo. E pelo caminho ainda tentámos apanhar boleia, mas só havia táxis neste percurso.

Então fizemo-nos fortes. E seguimos.

Com muito cansaço e pouca informação concreta sobre o país, quando chegámos a Ashgabat – a capital, a surpresa foi imediata. Tudo minuciosamente desenhado, edifícios enormes e imponentes, estradas maravilhosamente arranjadas. Tudo limpo, detalhadamente arranjado. Canteiros, flores, árvores. Candeeiros indescritíveis, paralelamente organizados. Uma cidade branca. E assim, recém chegados, parecia que tínhamos dado a volta ao mundo e aterrado bem longe, num poço de riqueza.

Estávamos incrédulos.

Os prédios, forrados a mármore. As estátuas, em ouro. Pelas ruas, polícias em cada esquina, paragens de autocarro com ar condicionado e televisão. E pessoas por todo o lado a limpar: vimos de tudo um pouco, desde a retocar os bancos de jardim a pincel, a limpar as fontes ou quaisquer resíduos de partilha elástica dos passeios. E uma vez mais, tudo branquinho, com pormenores em ouro.

Até os autocarros eram lindos.

Mas turistas, nem por sombras.

Encontrámos por entre as ruas desenhadas e os parques majestosos o nosso couchsurfer e deixámos as mochilas no seu carro. Fomos passear pela cidade, deslumbrados e acabámos a dormitar, à vez, num banco de jardim. E mesmo à sombra, sempre a suar.

Já de noite, fomos para casa. Lá, ficámos chocados: os filhos pareciam criados, a trabalhar exaustivamente. Limparam o jardim, lavaram as escadas, prepararam a mesa, trouxeram o jantar, levantaram a loiça e não pararam enquanto não tiveram autorização. E no fim, nem eles nem a mulher puderam jantar connosco, tendo jantado numa divisão à parte.

Com alguma estranheza, pudemos mais tarde vir a perceber que culturalmente nunca a mulher deve fazer as refeições junto do marido quando há convidados. E que nada de anormal aconteceu com as crianças, sendo socialmente expectável que ajudem os pais em tudo.

À noite, dormimos no jardim. Tínhamos combinado que montaríamos a tenda, mas tendo em conta a estrutura de madeira que todos têm nos seus jardins para beber chá, coberta com carpetes, decidimos apenas pendurar a rede mosquiteira.

Embora a família nos tivesse acolhido de uma forma muito querida, foi ao mesmo tempo muito estranho e constrangedor terem uma casa tão grande, com uma sala espaçosa e por ocupar, e terem-nos deixado a dormir na rua; mas o calor era tanto que não houve problema. E decerto aqui nada mais se trata senão de um desfasamento cultural.

Na manhã seguinte, pelas 7h00 tocou o despertador. O cansaço era tanto que nem a luz do dia nos despertou mais cedo. Tínhamos de nos despachar para ir para a cidade, de boleia com a família, pois estávamos distantes do centro.

Embora exaustos, visitámos os bazares da cidade. Pelas ruas, não se via comércio: há locais específicos para isso. E num deles, fomos até obrigados a apagar as fotografias que havíamos tirado.

Absorvidos pela ditadura, vivem o medo dos comentários e também das fotografias. Porque não nos podemos nunca esquecer de que o Turquemenistão é o segundo país do mundo com uma ditadura mais repressiva, depois da Coreia do Norte.

Neste lustre país, o antigo presidente deu-se até ao luxo de erguer a sua própria estátua em vida, e não só. Mudou também o nome das ruas e os meses do ano, para nomes dos seus familiares e de si próprio. Contudo, hoje em dia, depois de ter já falecido, os nomes dos meses estão restabelecidos.

Mais à tarde, ligámos a outro couchsurfer que se mostrou interessado em mostrar-nos a cidade, mesmo não tido oportunidade de nos hospedar! De carro, levou-nos a visitar todos os edifícios famosos e um miradouro; e partilhou ainda algumas das tradições mais comuns no país. Entre dentes, comentou a política, as vestes, atitudes e hábitos, o policiamento e algumas regras.

Já de noite, voltámos a casa para jantar e dormir (no jardim), e embora mais fresco de noite, ficámos bem!

Aliás, quem é que no abraço quente de quem ama, não fica bem?

E na manhã seguinte, partimos. Partimos de Ashgabat para Mary.

Era a primeira vez, oficialmente, que estávamos a boleia no país. E as borboletas no estômago eram mais que muitas. Não éramos fugitivos, nem estávamos a fazer nada de ilegal, mas a verdade é que tivemos de andar a fugir da polícia – apenas e só com receio de que nos fossem pedir dinheiro por andarmos à boleia. A corrupção é elevada e de conhecimento publico, e sabíamo-nos alvos fáceis. Mas o único polícia que nos abordou, quis apenas aconselhar-nos de algo. Só não percebemos o quê, dada a barreira linguística. Mas demos cordas aos pés, e pusemo-nos a andar.

Estivemos mais de 2 horas à boleia, por entre o sol e um calor insuportável, logo pela manhã. Um suplício. O suor marcava as nossas t-shirts, como se já do final do dia se tratasse.

Até que conseguimos boleia. Boleia de um ministro! Levou-nos mesmo até à entrada da cidade onde o nosso couchsurfer vivia, mas não sem antes ter sido mandado parar pela polícia por alegado excesso de velocidade e ter tentado pagar por fora. E assim vive e sobrevive a história do suborno-feliz.

Já perto das 16h00 chegámos e tínhamos um típico almoço à nossa espera. Que embora numa casa antiga, com uma casa de banho apetrechada com um buraco no chão; recheada de pessoas muito carinhosas.

Ao final do dia, já com temperaturas respiráveis, fomos passear. Este nosso novo amigo, com um jeito especial de pensar (que nos fez a nós questionar), levou-nos aos mais belos recantos da antiguidade de Merv, em Mary. E juntos, no topo de uma montanha no deserto, assistimos ao mais divino pôr-do-sol dos últimos tempos!

Com tanto de romântico.

De volta a casa, por segundos, cruzámo-nos com um ciclista carregado de malas: um viajante, portanto! E de tão raro, voltámos a trás. Vindo da Alemanha, procurava um local para a acampar de noite. E foi então que o nosso couchsurfer, de coração grande, o convidou para ficar connosco também. Acabámos então o serão com um jantar delicioso, com iguarias locais vegetarianas: de comer e chorar por mais!

Mas no dia seguinte, era hora de partir. Tomámos o pequeno-almoço juntos, e seguimos rumo a Turkmenabat, perto já da fronteira. A realidade é que 5 dias para conhecer e atravessar um país é uma verdadeira loucura. Ainda assim, temos de estar gratos aos anjos e aos astros. E a todos os que torcem por nós: porque são poucos aqueles que vêm concedida esta oportunidade, este visto.

Depois de mais uma pequena longa caminhada debaixo de sol intenso, conseguimos uma boleia até ao início da autoestrada, com dois senhores locais e muito castiços, com um carro mais que velhote – daqueles que depressa dizemos que não chega nem ao Painho ; e logo outra mesmo até ao destino. Esta última, com um senhor generoso e calmo, que nos quis até oferecer leite de camelo, mas que com respeito aceitou a nossa recusa, por entre o deserto, muito calor, sem ar condicionado no carro e muitos, muitos camelos pelo caminho.

O nosso couchsurfer foi-nos buscar à chegada. E depois de um banho, levou-nos a almoçar fora, a um delicioso buffet. Eram 17h00, e do restaurante seguimos para casa da sogra, que nos havia preparado um lanche. Eram então 18h00. E depois, mal chegámos a casa, pouco depois das 19h00, tínhamos o jantar na mesa. Tudo vegetariano, mas uma loucura de tanta comida! Se por um lado, o verdadeiro acolhimento à portuguesa, por outra, estávamos que já nem podíamos!

Mas para desmoer, ficaram os homens em casa e foram as meninas passear. Por entre-paredes, o serão fez-se por entre conversas, partilhas e vídeo jogos. Pela rua, palmilhou-se o bairro. Conheceram-se as amigas, as amigas das amigas, a modista, a senhora do mini-mercado e quem mais passasse. E já depois do anoitecer, fez-se um passeio pelo mais bonito parque da cidade: uma volta na roda gigante, uma viagem de gaivota pelo lago iluminado. Muitos sorrisos. E muita partilha cultural.

Pelo parque, mulheres nos seus trajes típicos: longos vestidos, de tecidos variados e lindíssimos. Floridos ou com diferentes padrões, praticamente até ao chão. Pudemos aprender que mulheres com lenço na cabeça, são casadas. Também segundo as tradições do país, por baixo do lenço da cabeça, põe uma estrutura de esponja para fazer altura e tornar o casamento vistoso. Gostam pois de dar nas vistas, e se possível, utilizar também grandes brincos e anéis de ouro. E dentes também de ouro: não só um, mas vários ou todos na boca (como por toda a Ásia Central, talvez).

Mas as tradições relativas à virilidade masculina foram as mais espantosas (mas nada inesperados): a homossexualidade é proibida. Quantos aos casais heterossexuais, depois do casamento, devem ir viver para casa dos pais do marido até que o irmão mais novo se case, e assim substitua os serviços da cunhada. Até lá, à mulher, cabe-lhe cuidar da casa, dos sogros, dos vários filhos que deve ter e ainda trabalhar onde o marido achar por bem. E vivem felizes assim, reconhecendo que o trabalho é muito e desgastante; mas que a vida é assim.

E no dia seguinte, na hora da despedida, tínhamos mais um quilos extra nas mochilas, por entre prendas e souvenirs. Nem sempre é fácil explicarmos que tudo o que nos dão, teremos de carregar às costas. Principalmente quando a comunicação é básica e o carinho enorme.

Até à fronteira, levou-nos o couchsurfer que nos hospedou. E já lá, voltámos a ser forçados a apanhar um autocarro, ainda em terra turquemena. Quando chegados ao edifício fronteiriço, onde só queremos receber o carimbo de saída do país no passaporte, fizeram-nos preencher um formulário e quiseram revistar-nos. Não foi uma revista exaustiva, mas aperta sempre o coração. As mochilas grandes bastou-lhes um olhar superficial, depois de perguntaram várias vezes se por baixo era só roupa. Já o nosso saco das ciganadas, o que habitualmente trazemos na mão com comida ou outras tralhas, esse foi despejado. E depois: fotografias. Começámos por mostrar a gopro e fazê-los ver que eram só vídeos e nenhum do país. Mas não satisfeitos, pediram por mais. Embaraçados, entregámos o telefone com a pasta das imagens aberta. Lá, tudo o que tínhamos eram parques e selfies. E com tanta coisa, esqueceram-se de revistar uma das mochilas pequenas, onde estava a verdadeira câmara fotográfica.

Ufff.

Gostaríamos de dizer que não tínhamos lá nada de ilegal, mas tirámos algumas fotos de locais públicos e poderiam fazer-nos apagá-las. Passar fronteiras é sempre um momento de tensão: mas passar fronteiras na Ásia Central é também um verdadeiro jogo de paciência. É de brandar aos céus.

E até à linha final da área delimitada militarmente, tivemos novamente de apanhar um autocarro. Não que sejam dispendiosos, mas o caráter de obrigatoriedade tira qualquer um do serio, até porque as distâncias eram curtas e caminhar estaria ao alcance de qualquer um.

E chegámos então à fronteira do Uzebequistão!

Da nossa estadia no Turquemenistão registámos muitos momentos, muitas aprendizagens. Mas a primeira coisa que nos ocorre dizer, é que é um país louco. E, sejamos sinceros, lindo.

Ainda assim, no que respeita à vida e ao dia-a-dia, guardamos que têm horários parecidos com os nossos e, tal como nós, cozinham com muito tomate e arroz. Descobrimos que uma bebida típica é o sumo obtido quando se cozem maçãs, e a fruta de eleição no verão é o melão. Bebem chá verde várias vezes ao dia, mesmo quando estão quase quarenta graus – o que já nem estranhamos! O pão é muito diferente e as compotas também. Mas o mais invulgar mesmo foi ver o leite de camelo.

Quanto a fumar, é proibido! E por isso vimos fazerem-no às escondidas. Às 22h00 ouvimos e vimos a polícia pelas ruas, exigindo o recolher. Talvez tenha sido esta uma das vivências mais impressionantes e claras da ditadura existente, não esquecendo nunca de que durante o dia e em cada esquina encontrámos sempre policias.

Mas é assim, de estranhezas, curiosidades, questionamentos e graças que se faz uma viagem pelo mundo. E quase de repente, e num piscar de olhos, deixamos todas as novidades às quais já nos habituámos, e recomeçamos do zero.

E levamos o que podemos levar: um ao outro, e o mundo na mão. Por entre sorrisos. E memórias cravadas no coração. Para sempre.

 

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diário pela antiga Pérsia

REPÚBLICA ISLÂMICA DO IRÃO

Visto 30 dias
Entrada 23 maio
Saída 21 junho

39 boleias
4128 quilómetros

Dia 1 – 23 maio

Partimos de Yerevan, na Arménia, com rumo ao Irão.
Saímos já mais tarde que cedo, e sabíamos ainda assim que tínhamos um longo dia pela frente. O objetivo era chegar a Tabriz – estávamos por isso a 500 de distância, longos, tendo em conta que por cada 100 quilómetros levávamos quase de 2 horas na estrada, montanha acima, montanha abaixo.
Apanhámos no total deste dia 5 boleias: A primeira, com uma família que ia para a sua quinta. De sorrisos fáceis, convidaram-nos para ir também. Logo depois, quase gerando um acidente e uma luta, parou um casal que nos levou muitos quilómetros. Pelo caminho, ofereceram-nos frutas, doces, bebidas e tudo do melhor. E já quase pelo final, ainda pararam para visitar um camarada do tempo do serviço militar. Falava francês e recebeu-nos de mesa cheia! A terceira boleia foi com um senhor com carro importado, como tantos, com o volante lado direito. Quando nos apanhou estávamos já estoirados, depois de atravessarmos uma pequena cidade a pé. Quando nos deixou, apanhou-nos uma Van, privada com serviço de autocarro. Ajudaram-nos a chegar a próxima cidade! Lá, um homem parou oferecendo-se como um táxi. Recusámos e explicámos porquê, mas logo depois ofereceu-se para nos levar a mesma. Foi estranho, mas aceitámos. Mas mais estranho foi pelo caminho. Sempre de olhos postos em nós, pouco falador e pouco comunicativo. Pelo caminho, apanhou outro homem, que sem dar tempo para trocas, se sentou no banco de trás. O caminho durou mais de 2 horas e as estrelas já brilhavam no céu. Sentíamos os nossos corações palpitar e queríamos só chegar ao local acordado. E chegámos. E foi lá que apanhámos a última boleia do dia, mesmo sem sabermos que assim seria. Um senhor dócil e simpático, que acabou por nos deixar na fronteira.
Estávamos muito tensos pela quarta boleia, tinha sido tudo muito estranho e sentíamo-nos desconectados do mundo. Mas na fronteira, embora já de noite, decidimos atravessar.
A travessia correu bem. Do lado da Arménia levaram 20 minutos a inspecionar os nossos passaportes. Vieram 3 guardas diferentes para os controlar, e no fim ainda tivemos direito a um micro-interrogatório (acreditamos que por brincadeira e só para chatear). As perguntas desnecessárias, feitas em separado e sem intuito, fizeram-nos perceber que de nada se tratava.
Do lado do Irão, atravessámos cada posto com um sorriso de volta – e tanto que precisávamos deles! Acabámos depois por ficar a dormir na fronteira, a convite do controlador que falava turco. Mas antes, conhecemos um casal de Chalus, do norte do Irão; doces e recém-casados, ofereceram-nos jantar, sobremesa, sumos, tâmaras e pistachos. Ajudaram-nos e trocámos contactos. No fundo, foram a lufada de ar fresco de que precisávamos! As horas anteriores não tinham sido fáceis. Não chegar ao destino, não é fácil. Chegar a um país com uma cultura tão diferente e com tantas restrições para as mulheres também não. No fundo, estávamos confusos. Trazíamos um turbilhão de emoções em nós.
Dormimos então na sala de reza feminina, juntos mas separados. Um sono de pouco mais de 4 horas. Reticente. Mas seguro. E mesmo sem nos tocarmos, os nossos olhares diziam tudo; felizes na certeza de nos termos um ao outro.

Dia 2 – 24 maio

Pela manhã acordámos em pés de lã. Não sabíamos ainda bem como trabalhava este mundo desconhecido, mas sentíamos algum desconforto por termos dormido os dois na sala de reza que pertence às mulheres e que é vedada ao olhar de qualquer homem. Ao mesmo tempo, sabíamo-nos mais tranquilos.
O controlador, dócil e amável, ofereceu-nos o pequeno-almoço e a primeira boleia do dia, até Julfa – a primeira cidade que pisámos. Mas ali, estivemos quase 30 minutos em negociações: depois de na fronteira termos explicado por várias vezes a forma como viajávamos, foi difícil que nos deixasse seguir. Quis por tudo enfiar-nos num táxi! Achou por fim que o problema seria dinheiro, e assim ofereceu-se também para o pagar. Foi árduo e penoso, não queríamos ser mal educados ou desprezar a sua boa vontade, mas acabámos por nos sentir cansados, e alegámos por fim não gostar de táxis. Começou depois o discurso em como os táxis são seguros no Irão e um role mais de argumentos, tudo para nos demover da ideia de andar à boleia. Mas não conseguiu. E nós conseguimos seguir viagem!
Contudo, foi um dia de perfeito de desespero. De angústia. No decorrer do dia, apanhámos 3 boleias: A primeira com um rapaz novo, que embora pouco conversador, se mostrou interessado em ajudar dois turistas, tendo-nos deixado à entrada da estrada que seguia no nosso sentido, mas não sem antes um role infindável de taxistas ter parado à nossa frente. Aqui, foi a loucura. Havia muito trânsito, e os carros buzinavam. E um por um, iam parando, oferecendo serviço de táxi. À medida que iam parando, formavam-se filas de carros, e instalava-se o caus. É difícil de descrever, mas a pressão era muito. Falavam rápido e em farsi, diziam repetidamente táxi e autobus, e não desarredavam pé até sentirem que nos tinham ajudado. Chegámos a ter 20 pessoas à nossa volta, a falar umas por cima das outras e nós sem conseguirmos explicar o nosso objetivo: apanhar uma boleia! Entretanto, também das lojas e minimercados, começaram a vir pessoas. Inacreditável. Até que sem percebermos como, conseguimos uma boleia de um senhor, amigo de um outro que estava no meio da rua. E seguimos, exaustos. A última boleia, já numa cidade perto de Tabriz, foi mais natural. Claro que voltámos a sentir-nos tensos com as pessoas à nossa volta a tentar – nos ajudar e nós sem nos conseguirmos explicar, mas decorreu com mais tranquilidade. Parou um senhor que, depois de lhe termos mostrado o nosso papel mágico (escrito em farsi e que diz, resumidamente, “Senhor condutor, se for na nossa direção e puder levar-nos sem cobrar dinheiro, ficaremos gratos”) andou connosco às voltas, e mais voltas, até encontrar a casa do nosso primeiro couchsurfer, que estava até ao final do dia a trabalhar.
Assim, já em casa, conhecemos os seus amigos durante a tarde, deram-nos chá e acesso à internet. A casa era um verdadeiro caus: cobertores, colchões, roupa suja, loiça, comida, tudo a monte. Não havia quartos, apenas um espaço. E a casa de banho ficava na rua. Não que nos tenhamos deixar impressionar, mas a sensação era a de chegada a um terceiro mundo. Quando o nosso couchsurfer finalmente chegou, foi muito estranho. Ficou desassossegado e aborrecido por termos tido acesso à internet e, mais inquietador ainda, quis levar-nos à polícia para que assinássemos um papel em como éramos seus hospedes. Ficámos desconfiados e muito desconfortáveis: tão desconfortáveis que não precisávamos de falar, os nossos olhares bastavam-nos para nos sabermos em sintonia. E por isso, questionámos o porquê. Mentiu-nos, sem hesitar, dizendo que a polícia tinha contactado todos os couchsurfers registados. Percebemos que não tinha qualquer fundamento, mas voltou a meter os pés pelas mãos dizendo que tinha o seu número no seu perfil. Decidimos ir embora. Não fazia sentido continuar assim, a partilhar o tempo assim.
Metemos as mochilas às costas e saímos. Não tínhamos um rumo definido, mas a primeira coisa que fizemos foi ir trocar dinheiro – no Irão não há possibilidade de acesso a contas estrangeiras, os cartões tão pura e simplesmente não funcionam. E portanto, prevenimo-nos trazendo euros e dólares. E decidimos seguir para a morada que um outro couchsurfer nos tinha dado, com o intuito de nos hospedar mais tarde. Estávamos cansados, desiludidos e nervosos: queríamos só um porto de abrigo.
No autocarro, que para nosso espanto nos custou 0,12€, conhecemos dois senhores, que nos ajudaram tanto quanto puderam. Um deles, foi buscar o seu carro para nos levar à porta de casa à chegada à paragem depois de 30 quilómetros. O outro, queria que fossemos para sua casa beber chá.
À chegada a casa do novo couchsurfer, o alívio instalou-se em nós. Os sorrisos sinceros, a humildade, a simpatia. A simplicidade. Dois irmãos, uma casa normal (rodeada de carpetes) e limpa. E sossegada. Prepararam-nos o jantar e pudemos respirar, enfim, em paz.

Dia 3 – 25 maio

Deixámo-nos dormir tanto quanto precisávamos, descansámos o corpo e a alma. Recarregámos energias e voltámos a apaixonar-nos pelos sonhos que trazemos. E saímos para passear. À boleia com um dos irmãos que nos hospedava, fomos até Kandovan: uma cidade construída nas montanhas, nas rochas. Casas, lojas, vida. Uma vida muito diferente, muito especial. E já ao final do dia, como a quarta das boleias, levou-nos uma família que viajava de férias. Uma delícia de gente: bem como nos ensinam, pararam pelo caminho, esticaram as mantas pelo chão, tiraram a botija e em cinco minutos tínhamos um banquete!
E assim fizemos do nosso dia, o primeiro verdadeiro dia de turistas: porque viajantes somos sempre!

Dia 4 – 26 maio

Após duas noites de conforto, partimos para Zanjan. Tomámos ainda o pequeno-almoço em casa, como pelo Irão se quer: lavash (um pão que mais parece um crepe gigante) e muito chá, e logo depois apanhámos um novo autocarro para sair da cidade.
Ainda pouco certos de como iria correr, levámos connosco uma placa já escrita em farsi e muitas borboletas no estômago. É tão duro quanto se possa imaginar, não conseguir comunicar. E mais ainda quando nos querem ajudar, mas não queremos aceitar o tipo de ajuda.
Por entre muita calma e perseverança, apanhámos até ao nosso destino 4 boleias: A primeira, acabou por ser de um taxista, que por entre gestos e teatros nos entendeu e nos quis ajudar a chegar mais adiante. Mas no lugar em que nos deixou, pararam vários carros e voltou a instalar-se o caus. Falavam uns por cima dos outros e foi trabalhoso desenvencilharmo-nos. Até encontrarmos um jovem, acompanhado pela sua mãe, falando ambos inglês. Vestidos de preto dos pés à cabeça, explicaram-nos já dentro do carro que estavam de luto pelo pai e marido, pelo irmão e respetivo filho. Ainda assim, com um coração de ouro, ajudaram-nos a seguir caminho, levando-nos até à autoestrada. Lá, quis-nos levar um senhor que não nos levou a lado nenhum, acabando por nos deixar praticamente no mesmo sitio, mas muito feliz por nos conhecer. Por fim, entusiasmados e radiantes, pararam dois senhores de Teerão, e que portanto iam na nossa direção. Pelo caminho, pararam para nos mostrar as montanhas coloridas e também para beber chá. Levaram-nos depois até casa da nossa nova couchsurfer – e para isso, andaram mais de 20 minutos às voltas com o carro, sabendo nós que a pé não demoraríamos mais de 5 minutos. Mas no Irão é assim, a hospitalidade é tanta que só quando nos sabem bem, e em casa, é que descansam!
E já no nosso novo lar, tivemos uma casa só para nós: embora fora em trabalho, a nossa couchsurfer deixou as chaves, e a família encarregou-se de nos abrir a porta e de nos receber. Gratidão transbordava em nós, felizes depois de chegados.

Dia 5 – 27 maio

Com a casa para nós, aproveitámos para gerir o dia como gostamos, entre cozinhados improvisados e música durante o duche! E pelo meio, encontrámos o sobrinho da nossa couchsurfer, com quem palmilhámos a pequena cidade. Era sexta-feira, o que equivale a um domingo pelo Irão: dia de ir rezar, dia de descanso. E, por isso, praticamente tudo fechado. Professor de inglês, permitiu-nos aprender muito sobre o país e a sua cultura.

Dia 6 – 28 maio

Com já tudo aberto pelas ruas foras, decidimos sair pouco depois da hora de almoço para visitar o mercado tradicional da cidade. Mas não sem antes darmos as boas vindas a um viajante de Itália, que ainda mesmo de nós sabermos, se iria instalar connosco! Mundo curioso este!
Já ao final do dia, fomos assistir e participar na aula de inglês do sobrinho da nossa couchsurfer a seu convite. E mais à noite, por entre o jantar e o arrumar das mochilas, conhecemos a dona da casa, que havia acabado de chegar. De tom de voz dócil, pequenina e já mais velhinha, deixou-nos admirar como é sempre tempo para conhecer e para partilhar.

Dia 7 – 29 maio

Antes de nos fazermos à estrada de novo, com rumo a Teerão, fizemos um verdadeiro banquete para o pequeno-almoço. E na hora da despedida, recebemos uma prenda: uma caneta especial, para futuro registo de emoções em viagem, pela nossa generosidade. E aí, caiu-nos tudo: como é possível que nos tenham hospedado, recebido e ainda agradecido?
Mochilas às costas e fizemo-nos ao caminho. O calor sentia-se por entre o suor que se acumulava nos nossos pescoços. E no cansaço que tão facilmente se fazia sentir no nosso corpo.
Por entre recusas de táxis, parou um ciclista, vibrante e caloroso! Conversámos por 5 minutos, registámos o momento numa fotografia e seguimos!
Até Teerão acabámos por apanhar 4 boleias: A primeira foi de um senhor que nos deixou na entrada da autoestrada, exatamente onde precisávamos, muito feliz por nos conhecer – o que percebemos claramente quando disse por repetidas vezes ‘Cristiano Ronaldo, Carlos Queiroz’! E assim nos despedimos. Ali, não levamos mais de 5 minutos até para um camião, com um jovem que chamava por ‘Mr.Tiago’ sempre que a nós se queria dirigir. Não entendeu bem o conceito da nossa viagem, por mais que lho tentássemos explicar. Mostrámos-lhe o papel mágico e até encontrámos num dicionário que por lá tinha, com a tradução de “hitchhiking” para farsi, e já quando estávamos crentes de que havia percebido, perguntou-nos se era para nos deixar na estação de autocarros da cidade para onde seguia. Sorrimos e descemos ainda na autoestrada. Lá apanhámos uma boleia de mais um senhor de meia idade, pouco conversador, mas atencioso, tendo-nos deixado uns quilómetros mais à frente. E aí sim, entrámos no último carro do dia: já mais que meio desejosos de chegar a casa, de largar mochilas e sacos, tirar roupa e hijab. Com ar de fanfarrão, contou-nos que tinha loja em Bangkok e que teria gosto em encontrar-nos lá um dia. E chegámos a Teerão – no ar, além do calor, sentia-se a poluição e o ar pesado, digno de uma capital.
Já em casa da nossa nova couchsurfer, jantámos, rimos, conversámos e partilhámos hábitos entre as nossas culturas. Foi ela, a primeira a deixar-nos entrar na sua cultura, sem constrangimentos. Tivemos direito a perguntar tudo sobre tudo: por entre a curiosidade e a ânsia que trazíamos em nós (partilhado no post anterior). E quando nos fomos deitar, era já tarde. Tarde demais para quem no dia seguinte tinha tanto para palmilhar.

Dia 8 – 30 maio

Às 6h50 soou o despertador. Os raios de sol rompiam já altos pela janela da sala. E as nossas costas estalavam: dormir no chão com um colchão feito à mão e envolto de tecido tornou-se um hábito, mas acordar cedo jamais poderá tornar-se.
A primeira embaixada a que fomos foi a do Turquemenistão: a do país que se segue na nossa rota. Lá, conhecemos vários viajantes! E entre nós , ajudamo-nos tanto quanto pudemos, ou a causa não fosse a mesma. Primeiro, um casal da Austrália e, depois, um rapariga francesa. E até pela janela da embaixada aceitarem todos os nossos papéis e formulários, os nossos corações vivem momentos de aperto. Mas no fim, aprendemos, corre sempre tudo bem, acabada sempre tudo em bem. (E se ainda não está bem, é porque ainda não terminou).
Pela tarde fora, passeámos com a nova amiga de França e cruzámos o centro da cidade, ruas movimentadas e o mercado moderno. E visitámos ainda, com alegria e amor à camisola, a nossa embaixada – a embaixada de Portugal. Confessamos ter sido uma delícia falar português, ter sido uma delícia ser tão bem recebidos. E de lá, trouxemos duas cartas de recomendação e suporte, um para a embaixada da China e outra para o Tajiquistão. E ainda o número de telefone da nossa embaixadora, que amorosa e delicadamente, nos deixou à vontade para a contactarmos a qualquer hora do dia, ou da noite, em caso de necessidade.
De regresso a casa, sentimo-nos impotentes – o corpo exigia-nos uma sesta. Só mais tarde, recuperados, preparámos o jantar. E para nossa surpresa, tínhamos mais uma prima à mesa: surpresa pela pessoa que pudemos conhecer. De sorriso na alma, de bem com a vida, partilhou a sua história sem receios, a sua vida outrora estritamente religiosa e o seu dia-a-dia hoje, longe e discente. Uma vez mais, perguntas atrás de perguntas, não a deixámos descansar enquanto não nos vimos esclarecidos. Foi um mundo posto em cima da mesa, uma vida sem medos, uma partilha intensa.
E o relógio marcava 2h00, quando sabíamos que tínhamos os formulários das próximas embaixadas para preencher. Mas desistimos: o sono venceu-nos, e por ente quatro paredes e o nosso lençol verde alface, abraçámo-nos e não resistimos aos sonhos.

Dia 9 – 31 maio

Quando nos tivemos de levantar as 8h00 parecia ser mentira. Mas tinha de ser. Primeiro, porque tivemos oportunidade ir a casa da prima da nossa couchsurfer lavar roupa; e não menos importante, em segundo lugar, tínhamos por preencher os papéis para embaixada da China. Pela internet, encontrámos relatos de quão difícil é o pedido deste visto: exigem bilhetes de avião, marcações de hotel, carta de emprego, carta de recomendação, …. Enfim, um mundo de papelada. Tratámos de tudo durante a manhã, e já meio a correr, chegámos a tempo. Mas nada do que havíamos lido se aplicou: fomos recebidos com sorrisos, e depois de dizermos o nosso país de origem, limitaram-se a pedir-nos os formulários, os passaportes e a carta de recomendação da embaixada portuguesa. De espanto, quem sabe, ainda nos questionaram se ao invés de um visto de 30 dias, não gostaríamos de 60. E assim foi: fácil e sem problemas, como nunca pudemos imaginar. Combinámos pois levantar o visto em 10 dias, mas dali trazíamos já a confirmação de que tínhamos sido aceites – e leveza foi tudo o que pudemos sentir.
De mão dada, ficámos frescos que nem alfaces, prontos para o que havia ainda de vir!
Acabámos ainda por ir até à embaixada do Tajiquistão saber como trabalhavam, e com todas as informações recolhidas, rumámos a casa. Mais que exaustos. E para não falharmos em nada (quem nem trabalhadores), conhecemos o caus do metro de Teerão na hora de ponta.
Acabámos mais tarde a nossa noite, com um amigo da nossa couchsurfer, todos juntos, no Roof of Tehran: um miradouro, a norte da cidade, de onde se pode ter noção da sua imensidão (é de sublinhar que apenas e só na cidade de Teerão vivem 10 milhões de pessoas, o equivalente a Portugal continental! Dá para imaginar?).

Dia 10 – 1 junho

Teve tanto de doloroso acordar cedo, como ir à embaixada do Tajiquistão pela manhã, com tanto calor e sem autocarros, com mais de 3 quilómetros sempre sempre a subir. Lá, acabou por correr tudo bem, sendo que ficámos de levantar os vistos em 10 dias. Posto isto, e sempre a pé por entre embaixadas, seguimos para a da China, de forma a pagar os vistos, uma vez que não o tínhamos conseguido fazer aquando o pedido dada a hora já tardia.
Acabámos por fazer de tomate e pepino o nosso almoço e continuámos a nossa linda saga, desta rumo à embaixada do Cazaquistão. Também lá correu tudo muito bem, com a diferença de que fomos muito bem recebidos!
Exaustos. Já fartos de Teerão e da sua confusão. Cansados. Com o corpo e a mente a pedir descanso. Mas o dia ainda não tinha chegado ao fim: havia aqui pelo meio da história deste dia, um dente molar partido, e foi por isso ainda tempo de ir procurar a clínica dentária que nos aconselharam. E agora, é só dar asas à imaginação para prever como correu: primeiro, o dentista não falavam inglês; depois, era o dentista o único médico da clinica; por fim conseguimos uma assistente para fazer de tradutora – e diga-se de verdade que era amorosa e delicada. Não foi fácil explicar a situação, mas por entre uma sala cheia de marquesas e várias senhoras de boca aberta à espera da intervenção, conseguimos agendar para o dia seguinte o tratamento, e ouve ainda espaço para negoceio do valor, que acabou por ficar nos 25 euros. E aí sim, mortos.
Mas o dia ainda não tinha acabado. Por ser fim-de-semana, a nossa couchsurfer ia visitar a família. E nós, tendo de ficar mais um dia na cidade, decidimos mudar-nos: já tarde, voltámos a fechar as mochilas. É era já perto da 00h00 quando começámos a jantar com a nossa “nova família”: uma família tão, mas tão querida. Daquelas famílias que são como as famílias – que ficam no coração.

Dia 11 – 2 junho

Embora muito mais tarde que em todos os outros dias, voltou a ser penoso sair da cama. Mais, quando sabíamos que íamos para o dentista. Tal como acontece sempre no fim, correu tudo bem. Mas até lá, doloroso. Por entre o nervoso que trazíamos e todas as borboletas no estômago que nos assolavam, primeiro queriam fazer uma intervenção, mas acabaram a fazer outra. E doeu, doeu muito. Materiais sabe-se lá se desinfetados ou não, nunca havemos de descobrir. Mesmo a chorar, o dentista continuava. Mas agora visto de fora, há que entender: com tanto trabalho a fazer, não se pode parar só porque está a doer. E com a certeza de que o serviço não ficou uma beleza, mas na esperança que se aguente até ao regresso a Portugal, voltámos para casa. Decidimos dar um descanso a nós próprios, almoçámos com calma, escrevemos para o jornal que nos acompanha e atualizámos este nosso diário. Fugimos assim ao calor e à azáfama que se vive por cada ruela da cidade, por cada avenida repleta de trânsito e cada esquina caótica.
Já só quando o sol se preparava para pôr, fomos passear até à ponte de Teerão e voltámos ao miradouro. E assim, neste dia, completámos três meses de viagem!

Dia 12 – 3 junho

Tentámos começar o dia cedo, mas o cansaço venceu-nos. E por entre um sono abraçado, amoroso e delicado, deixámo-nos dormir mais do que devíamos. Então, mais a correr que ponderados, arrumamos as mochilas: de duas grandes fizemos duas mais pequenas, para viajar pelo sul durante os quinze dias seguintes. E num piscar de olhos, tomámos o pequeno-almoço e afastámo-nos da cidade tanto quanto pudemos com o metro.
A autoestrada onde nos pusemos à boleia ficava ainda distante, mas caminhámos até lá, por entre um festival religioso a que se assistia. E lá, por entre a confusão, apanhámos uma boleia até Kashan, exatamente onde pretendíamos chegar! O senhor, com um carro bem bom – pouco ao estilo iraniano – pelo caminho parou para nos comprar sumos e águas, e acabou por nos deixar já dentro da cidade, a pouco do centro. Por lá, caminhámos à procura de internet… mas foi mais difícil que água no deserto. O calor consumia-nos, era tanto e tão seco. Mas estávamos felizes, mesmo que sem destino: porque pela primeira vez no Irão, não tínhamos ainda encontrado um couchsurfer para nos hospedar. E a tenda, essa, tinha ficado em Teerão.
Pelo passeio, conhecemos um rapaz numa mesquita e, mesmo sem que seja permitido às mulheres assistir a jogos de futebol, acabámos a tarde a ver o seu treino (depois de concedida a devida autorização). Mas continuávamos sem poiso certo.
Só mais tarde, encontrámos a amiga de um rapaz que conhecemos no metro em Teerão. Confessou-nos que a mãe nos podia hospedar, mas que ela não achava por bem hospedar casais. E por isso, levou-nos até ao hostel de um amigo, para que pudéssemos ter internet, e verificar o nosso perfil do couchsurfing. Por entre um chá e dois dedos de conversa, com vários sorrisos e muita amabilidade, quis hospedar-nos: e assim passámos a nossa primeira noite num Hostel. Muito acolhedor, muito limpo e muito tradicional. E nós muito agradecidos, por mais um soninho descansado!

Dia 13 – 4 de junho

O horário do pequeno-almoço era fixo, e portanto o de acordar também! Banhinho tomado, barriguinha cheia, e seguimos. Queríamos conhecer a cidade de Kashan mesmo antes de seguirmos para sul, para Esfahan. E assim fizemos, e por entre duas ruas do bazar, conhecemos um senhor – já mais para o velhote, e de bicicleta, que nos levou a conhecer os locais mais turísticos da cidade. Sempre, falando em inglês! E com um sentido de hospitalidade indescritível, com um tom de voz e modo de falar tão carinhoso quanto possam imaginar.
Comprámos alguns frutos para o almoço, e seguimos depois de autocarro até ao Fin Garder, um jardim que todos nos aconselharam a conhecer, mas onde não entrámos pelo preço exuberante exigido a turistas. Assim, continuámos, a pé até à autoestrada onde pedimos boleia. Mas o sol, esse, fazia-nos derreter. Não de amor, de calor!
Apanhámos então boleia de um casal, direta para Esfahan. Depois de falarem com a família que nos ia hospedar – e que conhecemos por sorte em Istambul, deixaram-nos na autoestrada, no posto de polícia. Faltavam-nos ainda 60 quilómetros até à vila para onde íamos, chamada Mobahrek.
Conseguimos então boleia de um senhor, que nos levou a ver um rio muito bonito e ainda a sua casa – para nos oferecer duas latas de wishkey (um dos frutos proibidos no Irão). E depois, depois andou às voltas até entender onde nos devia deixar para chegarmos à família que nos ia hospedar. Por meio de muitos desentendimentos e alguma tensão, deixou-nos numa rotunda onde um táxi amigo da família nos havia de apanhar. Não estávamos bem em sintonia, mas chegámos bem a casa da família: com quatro filhos. E irmãos, sobrinhos, pais. E uma grande casa, e um grande jantar no chão. E muita paz no coração!

Dia 14 – 5 junho

Esperávamos que o ramadão tivesse já começado, mas não: aprendemos que depende da lua. Ainda assim acordámos mais cedo para ir para a cidade, tomámos um típico e delicioso pequeno-almoço e, já mais que despachados, acabámos por decidir com a família ir só no dia seguinte para a cidade. Na verdade, este tipo de situações foram recorrentes: um desfasamento cultural acentuado, tão acentuado que muitas vezes não percebíamos o que se passava em nosso redor. Mas lá fora, muito calor, sol intenso.
Ficámos assim a manhã em casa, a escrever, e os miúdos também. Gritaria, choros e risos constantes. E o melhor, dormimos a sesta. Já ao final do dia, fomos a uma fazenda, recheada de árvores de ginja e de cerejas, de amoras e pêssegos. Apanhámos de tudo um pouco, comemos de tudo um pouco, por entre o pó acumulado nas árvores e os jarros de água que o permitiam lavar. Bebemos chá já ao anoitecer, sentados numa carpete por entre a terra batida da fazenda e terminámos a noite em casa dos pais do pai de família que nos está a hospedar. Jantámos já depois das 23h00, como foi sempre comum. Em carpetes e no chão, com mesas que dependem só do comprimento do plástico que se corta para fazer de toalha. Panquecas de espinafres, caldeirada de beringela frita. Muito arroz. Muita salada. Muito iogurte. Muita carne na mesa. Muita água fresquinha e pão daquele que só por estes lados conhecemos (e ao qual já nos habituámos). Muita conversa, muita hospitalidade. Muitas cerejas! Muito chá! Muitos cubos de açúcar. E como não podia faltar, muita brincadeira por entre as dezenas de crianças que se juntam, quando a família se junta!

Dia 15 – 6 junho

Voltámos então a acordar bem cedo, com o intuito de ir conhecer a cidade com a família. Mas por entre 4 filhos, não é fácil. Tomámos o pequeno-almoço e seguimos. Por entre os familiares fomos deixando as crianças , uma a uma. Mas com a mais pequena, na casa dos tios, acabámos por entrar e ficar para beber um chá. Depois o tempo passou, e almoçámos também. E entretanto, eram já 16h00. Mais uma vez, não entendemos como tudo se processou, por entre a pressa de sair e a hora tardia a que finalmente chegámos à cidade, ao centro de Esfahan. Visitámos alguns museus, palmilhámos algumas ruas típicas, conhecemos o grande e maravilhoso bazar e a sua mesquita. E deixámo-nos apaixonar. E terminámos o dia com um gelado, mais um passeio, um jantar numa pizaria local, e mais um chá, já tarde, novamente em casa de familiares aquando o recolher das crianças. Um dia cheio, mas cheio também de novidades e convivência.

Dia 16 – 7 junho

Não resistimos, e deixámo-nos dormir até tarde. Passámos o dia meio relaxados – e que bem nos soube. Só ao final do dia, fomos para a cidade para visitar o que nos faltavam. E pelo meio, vivemos o verdadeiro pânico com a condução e o trânsito iraniano. Passámos um dia calmo, e terminámos a jantar em casa da família da família que nos estava a hospedar (novamente, longe da nossa própria cultura, comemos primeiro os doces, depois o prato principal, e tudo isto já depois das 23h00).

Dia 17 – 8 junho

Chegou o dia de deixar Mobarakeh, em Esfahan e seguir para Shiraz. Assim, a família ofereceu-se para nos levar ao local certo para apanhar boleia, mas depois de tantos dias juntos, não haviam percebido completamente o conceito, e por isso, não se foram embora enquanto não nos arranjaram um carro. Euforicamente, pararam praticamente todos os carros que por nós passavam – o que para nós foi duro, uma vez que só nos faz sentido apanhar boleia com aqueles que param por nos quererem ajudar.
Até ao destino não demorou, e conseguimos chegar com 3 boleias. A primeira, com um senhor muito simpático, com o jipe muito confortável, por entre conversa fluída e muitos frutos secos. Logo depois, um outro senhor. Mas desta, um pouco estranho. Ou talvez não e só pouco falador. Por fim, levou-nos um casal delicioso: tinham vivido no Canadá e traziam escondido no carro o seu cãozinho (por ser no Irão proibido ter animais domésticos). Partilhámos assim um longo caminho, mas sempre repleto de histórias e partilhas, para nós muito enriquecedoras.
Em Shiraz, ficámos com um couchsurfer, numa casa por ele construída. Também ele com um cachorro (de guarda! Para que não haja confusões com a polícia) e até piscina. No entanto, não conseguimos sentir-nos ali confortáveis, muito embora não saibamos explicar o porquê. Talvez pela forma como falava, pelo seu tom monocórdico entre nós e agressivo com o animal e com o seu servo. Também este, já velhinho, fazia tudo quanto lhe era ordenado, até mesmo levar-nos a passear já à noite pela cidade. Mas os nosso corações batiam descontrolados: não nos sentíamos em casa. E talvez o pior de tudo, tenha sido percebermos que não havia lido sequer o nosso pedido no couchsurfing, pois não sabia que éramos vegetarianos. Claro que no fundo se traduziu em dois hambúrgueres a mais; mas não encontrámos a paz desejada.

Dia 18 – 9 junho

Uma vez mais, a noite foi curta. E embora nos tenha sido pedido para acordarmos cedo, levámos muito até sairmos de casa. Chegados a cidade, o primeiro passeio deu-se por um dos mais maravilhosos edifícios que alguma vez pudemos visitar: uma mesquita grandiosa, lustrosa. De cortar a respiração! E ainda com guia internacional feminino e masculino, gratuitos.
Mais tarde, encontrámos o primo de uma amiga da família com quem ficámos em Esfahan. Acabámos então a passear e a jantar com ele e com a sua namorada (ilegal!) e, quase que por magia, que nem desejos tornados realidade, fomos convidados para pernoitar na casa da sua família.

Dia 19 – 10 junho

Mesmo com um bebé ainda muito pequenino, esta família soube acolher-nos com o maior dos cuidados, tendo preparado um pequeno-almoço delicioso, uma marmita para o almoço, e ainda convidado para um jantar todos juntos.
Durante o dia, com o primo, fomos até Persépolis e já na volta fomos também a um parque deslumbrante na cidade, onde se praticavam todos os tipos de desportos. Houve então oportunidade para um jogo de futebol e uma partida de ping-pong! E tal como combinado, acabámos a jantar em família.

Dia 20 – 11 junho

A manhã foi longa, sendo que estivemos até as 14h00 para convencer a família de que queríamos deslocar-nos para Yazd à boleia. Queriam oferecer-nos o autocarro, e juravam não haver carros a viajar com tanto calor. Aconteceu-nos já isto um pouco por todo o lado, mas principalmente com famílias sabemos que a história se repete: acham muita graça quando nos conhecem, mas quando se trata de nos deixar seguir, têm sempre muita dificuldade. E embora saibamos que é este um indicador de carinho, cuidado e amor, temos também nós dificuldade em lidar com a situação: não queremos parecer mal-educados ou arrogantes, mas não podemos ao mesmo tempo ceder.
Partimos então já muitíssimo fora de horas e apanhámos a primeira boleia por 50 quilómetros. Quando o senhor nos deixou levámos apenas mais 5 minutos até parar um novo carro. Dois iranianos de gema, castiços e muito, muito, simpáticos. De sorriso na alma! Fizemos juntos mais de 400 quilómetros, com muita música, muita conversa (tanto quanto o farsi nos permitia), muitas partilhas, muitas fotos. E muito respeito!
Deixaram-nos por fim com o nosso novo couchsurfer. Embora nos tenha recusado hospedar, ofereceu-se para nos deixar pernoitar no seu estúdio de fotografia, onde tinha ar condicionado, casa de banho e uma mini cozinha. Estávamos por isso super encaminhados. Mas depois de petiscarmos o que trazíamos nas mochilas, juntou-se a nós mais um amigo, que por entre algumas partidas de Fifa na PS, nos convidou a ficar em casa da sua família. E assim foi!

Dia 21 – 12 junho

Embora não tenhamos partilhado tempo com a família, este nosso amigo levou-nos a passear pela cidade de carro: as temperaturas elevadas não permitiam um passeio a pé, sem cortar a respiração. Mais tarde, resolvemos comprar uma meloa e uma melancia, e fomos até às montanhas, na esperança de que uma sombra nos permitisse apanhar um pouco de ar puro. E assim foi, embora para nosso espanto as montanhas fossem também um lugar seco e árido, com uma paisagem totalmente bege. Mas pudemos desfrutar de uma tarde tipicamente iraniana, estendidos numa carpete à sombra de uma árvore. E assim nos deixámos ficar.
À noite, quis levar-nos a um restaurante para jantar: e nem sempre é fácil explicar que restaurantes e planos dispendiosos não fazem parte do nosso modo de viagem. Embora não totalmente bem sucedidos, conseguimos (quase) fazer uma adaptação entre o desejado e o pretendido, mas uma vez mais pudemos concluir que a distância cultural existe e é significativa.

Dia 22 – 13 junho

A noite foi difícil: embora na rua se façam sentir 38 graus à noite, em casa chegam a passar frio por deixarem o ar condicionado ligado dia e noite a 17 graus. E se não passam eles frio, passámos nós. Acordámos por isso com a garganta sentida, mas pouco havia a fazer. Tínhamos mais de 600 quilómetros pela frente e decerto várias boleias para apanhar até Teerão – onde tínhamos de regressar para recolher os vistos pedidos.
No decorrer do dia apanhámos 3 boleias, mas a primeira foi sem duvida inesquecível! Um casal, ela de burca (sempre sonhamos com a oportunidade de falar com alguém coberto da cena aos pés só com os olhinhos de fora!), e o marido com pelo menos mais 20 anos. Foi um quebrar de preconceitos; ela tinha uma voz doce e afável, simpática e comunicativa, por entre o seu correto inglês. Não nos permitiu que nos alongássemos tanto quanto desejaríamos, mas serviu ao encanto. Também a segunda boleia foi maravilhosa, com um senhor doutor, que nos levou por mais de 400 quilómetros, sempre interessado. Sabia falar inglês, tinha dois filhos e já tinha vivido na Alemanha. Ofereceu-nos um doce lanche e muitos sorrisos. E por fim, um outro casal, engraçado só por si, com música bem alta no carro. Despediram-se com um I love you e deixaram-nos mesmo à porta do metro. Não sabemos se sentimos ou não falta de Teerão, mas da temperatura menos quentes sentimos de certeza.

Dia 23 – 14 junho

Retornámos às embaixadas para levantar os vistos: voltar a acordar antes das 7h00 era algo de que não sentíamos de todo saudade. Mas tínhamos um plano perfeito, de forma a ficarmos despachados num só dia, muito embora para isso tivéssemos de fazer vários quilómetros a pé de um lado para o outro: iríamos primeiro levantar o visto da China às 9h00, seguíamos para a embaixada do Tajiquistão às 10h00, por ficar perto, e logo corríamos até à embaixada do Turquemenistão de forma a chegarmos antes das 11h00. Depois com mais calma, tínhamos só de apanhar o metro e às 14h00 levantaríamos o visto do Cazaquistão. Posto isto, mais tardar às 15:00h estaríamos de volta a casa, prontos para refazer as mochilas e para no dia seguinte seguir rumo ao norte, Chalus e encontrar os amigos que havíamos feito na fronteira à chegada ao Irão.
Mas não há nada como trocarem-nos as voltas todas! Na embaixada do Tajiquistão informaram-nos de que o visto só estaria pronto no dia seguinte, pelas 11h00, portanto nada mais nos restava senão ficar mais um dia em Teerão. Aproveitámos a tarde então para passear e encontrar uma amiga. Mas estávamos tão cansados que até passear custava. Conseguimos ainda palmilhar e conhecer o mercado tradicional – o bazar de Tajrish: um verdadeiro mundo; onde pudemos perceber que em Teerão os preços são brutalmente incrementados.

Dia 24 – 15 junho

Às 11h00 lá estávamos nós, com um olho aberto e outro fechado, à janela da embaixada do Tajiquistão. Voltou a ser-nos pedido que aguardássemos, cerca 30 minutos. De exaustos, caminhámos até ao parque mais próximo para dormitar num banco de jardim. Mas quando regressámos, foi-nos então pedido que esperássemos mais 1 hora. E ai, vimos os nossos planos arruinados: estava novamente cada vez mais longínqua a hipótese de seguir para o norte. E faltava-nos ainda levantar o visto do Cazaquistão. Se por um lado estávamos felizes por nos tem sido concedidos todos os vistos – porque infelizmente partilhámos a angústia de muitos viajantes ao serem recusados, por outro lado sentíamo-nos gozados e impotentes. Mas esperámos pacificamente. E quase 3 horas depois, tínhamos os nossos passaportes de volta. O mais engraçado de tudo, com o visto do Tajiquistão em manuscrito.
Conseguimos então ao final do dia dar por finda esta nossa busca incessante por vistos! E regressámos a casa aliviados, decididos a seguir para Chalus no dia seguinte.

Dia 25 – 16 junho

Deixámo-nos dormir mais do que devíamos e acabamos por ter de ir até ao escritório do nosso couchsurfer, e da sua família, para nos despedirmos. Foi uma despedida que nos apertou o coração: com eles sentimo-nos conectados e felizes, e quando assim o é, é duro de pensar que os nossos caminhos podem nunca mais cruzar-se.
Seguimos depois rumo a norte, e até lá apanhámos 3 boleias, mas de registar foi o facto de pela primeira vez termos abandonado um carro. Sabemos que pelo Irão a condução deixa muito a desejar: o estilo caótico e grotesco, a velocidade desmedida e a data de regras metem medo; mas quando a acrescentar a tudo isto se junta a loucura de alguém, então temos medo de morrer. E depois de vermos quase acontecer vários acidentes, pedimos delicadamente que parasse e afirmamos que ali ficaríamos melhor – sem dúvida!
E com a última boleia chegámos ao encontro da família com quem ficámos, perto de um delicioso rio no meio da selva, como lhe chamavam. E à chegada, para grande surpresa, recebeu-nos chuva e muita trovoada. E por entre tanto calor, cada pingo molhado sabia a pouco.

Dia 26 – 17 junho

Embora com horários fixos para as refeições em família, e embora tenhamos por isso acordado cedo para o pequeno-almoço, aproveitámos o dia de descanso em casa e pelo campo. E só ao final do dia, fizemos uma caminhada por entre a natureza que nos envolvia.

Dia 27 – 18 junho

O despertador voltou a cantar cedo, cedo demais para os sonhos que tínhamos ainda por sonhar: mas tínhamos uma família e um pequeno-almoço à nossa espera.
Pelo dia fora, decidimos prescindir da cidade para conhecer a costa e a praia mais próxima. Estávamos entusiasmados: fazia tempo que não víamos o mar, água sobre a terra ou areia. Queríamos sentir-lhe o cheiro e a sua temperatura. Mas, no Irão, nada é simples de viver. Sim, passeámos na praia. Mas homens e mulheres, têm zonas fechadas e privadas, completamente separadas, para fazer praia e tomar banho. A areia e água sujas também não fizeram as nossas delícias. Mas a verdade é que o calor tórrido convidava a um mergulho – que não aconteceu.

Dia 28 – 19 junho

A validade do nosso visto do Irão começava a esgotar-se. Muita gente nos perguntou ao longo destes dias se estava tudo bem e o porquê de ainda não termos trocado de país. Tivemos alguma dificuldade em compreender a questão, é embora saibamos que foi em virtude de preocupação, o nosso desejo seria até o de pedir a extensão do visto. Na verdade, o Irão é um país de mil encantos; e embora não trocássemos a nossa liberdade por nada, temos sempre muito a aprender com novas e diferentes realidades. E o Irão é um país recheado de gente boa, de lugares lindos e cheios de história. E para ajudar, extremamente barato.
Mas tivemos de seguir e seguimos para Gorgan, na direção da fronteira que iriamos cruzar. Apanhámos apenas uma boleia direta de uma carrinha velhota, sem ar condicionado, mas com um senhor muito simpático. Apetrechado com uma bela telefonia, conseguimos conectar o ipod e por mais de 4 horas partilhámos música portuguesa.
À chegada, tínhamos 3 diferentes casas à nossa espera: se na Europa mandamos 50 pedidos de couchsurfing para 1 resposta positiva, aqui mandámos 3 pedidos e nos 3 fomos aceites. Assim, resolvemos pernoitar com primeiro que nos aceitou; mas antes, passámos a tarde com um couchsurfer, e o final do dia com outro. Um verdadeiro 3 em 1, em apenas um dia, o que nos deixou de coração a transbordar.

Dia 29 – 20 junho

Com apenas mais um dia de visto, rumámos cedo até à estrada com o objetivo de chegar perto da fronteira. Com os horários estritos das zonas fronteiriças, o melhor seria montar a tenda (pela primeira vez!) já perto e assim estaríamos descansados.
Apanhámos 5 boleias no decorrer do dia, mas uma vez mais os nossos planos fugiram-nos por entre os pensamentos. A primeira, e grande, boleia do dia foi de um camionista amoroso: pagou-nos de tudo, procurou até um restaurante com hipótese vegetariana, comprou-nos fruta, pistachos, bolachas e chás para o caminho, e só quando nos deixou percebemos que havíamos perdido um par de ténis: a 25 quilómetros do local onde nos deixou, parámos o camião para ir à casa de banho de uma mesquita. Na volta, deixámos os ténis na escadas do camião, como sempre fazemos. Estas, por norma, ficam fechadas com a porta, e assim evitam-se maus cheiros na cabine. Mas este camião era diferente, e só o terceiro degrau estava fechado, ficando os outros dois descobertos. Assim sendo, voaram os ténis.
Pouca gente por aqui entende a importância de uns sapatos: basta ir até ao mercado e por menos de 5 euros há muita escolha. Mas o ar de pânico instalado nas nossas caras e transparente no nosso olhar, fez o camionista nem hesitar, e voltou atrás para os procurar. Mas nada. Também nós apanhámos duas boleias e ainda até um táxi (pois já o sol se punha no horizonte) e nada. Doeu-nos no coração, por várias razões. Emocionais e económicas. Levámos mais de 3 meses para escolher aquele par de ténis: foi pensado a dedo, entre o valor é a necessidade, prontos para caminhar quilómetros sem fim, com durabilidade garantida e… lindos! Mas um piscar de olhos bastou para os perdermos. E assim virámos uns pés descalços.
Eram então 22h00 e tínhamos ainda com 80 quilómetros por fazer, já pelo escuro da noite. Estávamos pouco crentes, era pouco o trânsito e rara a luz. Exterior e interior. Estávamos mesmo tristes. Mas acabámos por conseguimos boleia de um senhor com uma menina pequenina, de olhar envergonhado e sorriso maroto. Deixou-nos mais à frente uma mão cheia de quilómetros e logo depois conseguimos boleia com um camionista turco. Ia também para a fronteira, mas entre o Irão e o Turquemenistão as fronteiras para ligeiros e pesados são diferentes, pelo que parou o camião perto da bifurcação e nos convidou a dormir no camião. Ele na cama de cima, nós na de baixo. Não nos sentimos propriamente à vontade, mas serviu de descanso. E bem que precisávamos de conversar com a almofada.

Dia 30 – 21 junho

Eram então 5h50 da manhã quando voltámos a carregar as mochilas e a fazer-nos à estrada. Estávamos a apenas 50 quilómetros da fronteira e sabíamos que as portas do controlo fronteiriço abriria perto das 9h00.
Conseguimos boleia até à fronteira com 3 homens que iam no caminho, e um deles trabalhava na fronteira Iraniana. Ajudou-nos a chegar até lá e também a trocar dinheiro. E às 9h00, despedimo-nos do Irão e conseguimos passar para a fronteira do Turquemenistão. Lá, estivemos mais de duas horas, com a polícia de volta dos nossos passaportes e nós de um lado para outro. Até médico têm para confirmar que não estamos doentes (mas o termómetro, decerto avariado, indicou em ambos 35°C). No fim, para nosso espanto, e sem quererem remexer as nossas mochilas, ou revistar-nos, deixaram-nos seguir. Estávamos então num novo canto do mundo: bem-vindos!

E assim deixámos para trás um país que nos impressionou, que nos fez questionar de muitas coisas e sonhar com outras tantas. Que nos ensinou a ser mais gratos ainda pela vida que levamos (juntos) e pela liberdade que trazemos. Um país, que por entre tantas regras, tanta opressão e tanta religião, nos fez ver que ser boa pessoa, praticar o bem e ajudar o outro, vai muito além do que vimos até hoje. Aprendemos no ocidente, e nomeadamente pela europa, que somos boa gente, vivemos em paz, mas que ninguém da nada a ninguém, sem algo em troca; no Irão, questionam-se estes valores, com a certeza de que não há nada em troca daquilo que damos. E não há que temer pela partilha.

2016-06-12 17.24.40

Salam!

Olá, Irão!

De sorriso no rosto. De sorriso na alma. De sorriso no pensamento. E com o sorriso entre as nossas mãos.

Trazemos quase um mês por aqui; tantas histórias para partilhar, tantas descobertas, tantos encantos. Mas com o acesso à internet muito muito limitado, torna-se difícil fazer atualizações, ou tantas quantas gostaríamos.

Vamos por isso partilhar aqui no blogue o que partilhámos já com o Jornal das Caldas, para onde escrevemos periodicamente; com a promessa de que nos últimos dias deste percurso partilharemos aqui também um diário de bordo. Isto, principalmente, porque para muitos o Irão é um mundo desconhecido e envolto numa névoa de perigo e risco, de pobreza ou fraqueza.

Para muitos, é este um país a evitar, um país excluído, demasiado fechado ou religioso. Só o nome, República Islâmica do Irão, traz ao pensamento dos mais sensíveis imagens menos agradáveis. Mas às vezes, é preciso pesquisar um bocadinho mais, é preciso sair da caixa e procurar ver para lá da sombra.

Na verdade, o Irão tem uma cultura vincada, uma política de mãos dadas com a religião e hábitos distintos. Temos aprendido muitas coisas, descoberto outras tantas. Claro que não trocaríamos a nossa liberdade por nada, mas faz-nos bem saber a diferença. Faz-nos bem, ensina-nos a valorizar o que trazemos de origem. E mais ainda, a ser generosos.

Os homens têm uma vida santa!

Sem grandes restrições, a única obrigação prende-se com a obrigatoriedade do serviço militar (religioso) por dois anos. As mulheres, por lei, devem cobrir as curvas dos seus corpos. Têm de ter sempre o tapado e usar um véu que cubra o cabelo. Os braços também não podem estar expostos.

Fazem o ramadão pela primeira vez aos 9 anos, idade a partir da qual começam também a vestir-se assim e a rezar. Já os homens, têm de o fazer pela primeira vez aos 18 anos. Agora, vive-se o ramadão: mas não conhecemos ainda ninguém que o faça. Conhecemos sim, já, quem coma às escondidas e nos ensine a fazê-lo da melhor maneira!

Vive-se nas ruas a religião com caráter de obrigatoriedade, mas é dentro de casa que se vive a realidade. Até agora, também não experienciámos viver com uma família religiosa. Dentro de quatro paredes estamos à vontade, desde que os vizinhos ou a polícia não o vejam: de calções ou cabelo ao vento, sabe bem.

Nas ruas, sentem-se os elevados graus, o calor e o bafo quente. Ontem quando chegámos a Yazd, passava já das 20h00 e os termómetros anunciavam 37°. De cortar a respiração, neste deserto.

Ainda nas ruas, os transportes são separados, mulheres numa área, homens noutra. Também nas escolas, nas mesquitas, na praia, assim o é. Aos estádios de futebol, só os homens podem ir. Por lei, as mulheres não tocam nos homens; nós como somos casados, podemos andar de mão dada. Mas até para tirar fotografias tem de ser uma mulher a fazê-lo a outra mulher.

Em casa, sentam-se no chão, dormem no chão. Andam sempre descalços, têm grandes e longos tapetes, lindos, e carpetes. À porta da casa de banho e da cozinha, têm chinelos para lá usar. Não têm sanita (bem-vindos à Ásia), não têm banheira: há a latrina e o chuveiro.

Comem ao pequeno-almoço um pão diferente com queijo branco duro. Bebem chá no fim de todas as refeições, mas ao invés de colocarem o cubo de açúcar no chá, colocam-no na boca. E o açúcar que usam para o chá é de beterraba e não de cana. Doce na mesma!

As casas têm um aspeto particular e, por norma, parecem sujas. Têm janelas e portas, eletricidade e água; as estradas e ruas também têm todas asfalto. As autoestradas são boas e as vistas também (por onde andámos até agora, sempre com aspeto árido e montanhoso). Verdadeiramente diferente e grandioso!

As casas por fora têm todas cor castanho ou beje; não há supermercados, só minimercados e “bazares”. É o paraíso das tâmaras e dos pistachos; e é tudo muito barato. Por exemplo, um autocarro para 30 quilómetros custa em média 0,12€ e alugar um T2 são 25€ por mês. A moeda é o real, mas os preços estão sempre em tuman.

A água por aqui é boa, potável e bebem-na da torneira e de torneiras públicas que se encontram pela rua. Já a internet (conforme temos dito) é terrível, lenta e condicionada. Poucos têm wifi. O facebook é proíbido (mas todos têm instaladas as melhores aplicações para encontrar um vpn aberto). E também o nosso blogue aqui é proíbido!

Nos telemóveis, usam o telegram ao invés do whatsapp. E só nestes dias, temos mais contactos de iranianos no telefone, que de portugueses! As pessoas são tão altruístas e bondosas que a princípio até desconfiamos. Todos querem ajudar-nos, todos querem falar-nos!

Mas não sabem o que é andar a boleia, desconhecem o conceito. E mesmo depois de 30 minutos de tentativas (falhadas) do que estamos a fazer, dizem sempre que sim, que entenderam, mas logo no segundo seguinte tentam levar-nos à estação de autocarros ou parar um táxi. Aliás, por aqui, até já dinheiro nos quiseram oferecer para viajarmos, quando dizemos que o fazemos sem pagar. E pelo meio da confusão, enquanto estamos a pedir boleia, param três táxis, vários carros particulares e vêm pessoas das suas casas ver como nos podem ajudar. Instala-se facilmente o caus só para nós “servir”. E no fim, quando as buzinas do trânsito parado são mais que muitas, desistem e querem levar-nos a beber um chá. E por fim, muitas vezes, vemo-nos obrigados a concluir que estamos a viajar a pé. Uma graça.

Entre nós, vivemos o stress e a calma. O nervosismo da comunicação e o encanto das línguas. A paixão e o desafogo!

Pelas cidades, os carros parecem muito antigos, mas afinal por aqui fabricam ainda os antigos modelos. São carros novos com look vintage! Se são modernos, foram importados, e encontram-se na sua maioria em Teerão, na capital.

Também na capital as coisas, por norma, são menos lineares, menos estritas. Mais novidades, mais pessoas, menos religiosidade, menos pressão. Casar, por aqui, é também uma aventura, recheada de estranheza dentro dos hábitos que carregamos. São arranjados pelas famílias: exclui-se a fase do namoro. E mais estranho ainda, são os casamentos entre primos, familiares diretos.

Um infinito de vivências! Um infinito de crenças. A viagem pelo Irão vai já a mais de meio. Mas pela Ásia, vai ainda no início. Mas a cada dia que passa, somos cada vez mais encantados com os contrastes, apaixonados pelas pessoas. E cada vez mais gratos pela vida que temos, pela família que nos criou e pela união que trazemos.

Quanto às fotografias, são muitas e enchem-no coração de recordações; mas não conseguimos fazer upload das mesmas aqui. Vamos por isso tentando partilhar através da nossa página no facebook, http://www.facebook.com/blog.omundonamao.

Khodâfez – خدافظ!

até já Arménia, olá Irão?

Pelas ruas, sente-se a união soviética. Continua a morar aqui, por entre edifícios, ruas e jardins abandonados, outrora cuidados e com vida.

Por entre as montanhas onde dormimos, em kojori, a primeira opção para apanhar boleia foi caminhar até à estrada nacional, por um atalho e por 7 quilómetros. As mochilas pesavam, o sono e os sacos nas mãos (cheios de tralha), também.

Pelo caminho, em tão mau estado quanto possam imaginar, com alcatrão desfeito, buracos infindáveis, com lixo e até ossadas de animais, verde sem fim e silêncio absoluto. E uma paisagem incrível no meio do nada.

A primeira boleia foi de um padre: levou-nos por cerca de 1 quilómetro. Depois, continuámos a caminhar: pausadamente. Era cedo e tínhamos tempo. Mas por entre uma das nossas pausas, avistámos um camião. Já nos sentíamos a chegar ao fim e, embora fosse o segundo carro a passar em várias horas, decidimos não lhe pedir boleia. Ao contrário do que esperaríamos, parou, e convidou-nos a subir. Uma vez mais, por entre uma comunicação muito rudimentar, conseguimos entender-nos e ficámos precisamente na estrada que pretendíamos.

Já com rumo certo, esperamos muito pouco até conseguirmos a segunda boleia, direta até à fronteira com a Macedónia. Falava inglês e tinha um filho a estudar na Europa. Sabia bem onde ficava Portugal e a conversa fluiu até ao destino!

Na fronteira, as borboletas comiam-nós a barriga. É sempre aquele miudinho até pormos os pés do lado de lá. É sempre o desejo de sermos bem recebidos, de não termos de abrir as mochilas ou responder a grandes questões. É sempre o desejo simples de ser tudo simples.

E foi! À saída da Geórgia carimbaram-nos o passaporte e sorriram. À entrada da Arménia, revistaram o passaporte de ponta a ponta, folha por folha – procuravam qualquer carimbo do Azerbaijão, onde não estivemos. E posto isso, olharam-nos nos olhos, compararam as fotografias dos passaportes, carimbaram-nos e devolveram-nos.

Demos mais um passo em frente: e olá Arménia!

Chovia. Choviam pingos grossos por entre o calor que se fazia sentir. Ofereceram-nos na Turquia um chapéu de chuva, e abrigámo-nos nele até nós conseguirmos abrigar num telhado improvisado.

Aí, ainda juntinhos à fronteira, fomos abordados por vários taxistas. É difícil explicar em russo – quanto mais em arménio! – que temos dinheiro, mas não queremos apanhar um táxi. Primeiro porque se temos dinheiro, porque não haveríamos de querer? E segundo, para os turistas é tudo barato. Esta é a lógica e portanto, limitamo-nos a dizer “Niet denhek”, ou seja, não temos dinheiro.

Na verdade, por 20 quilómetros são em média 3€. E um bilhete de autocarro urbano, aqui, são 0,20€. É realmente barato, mas não é a nossa opção. Não significa que não optemos em caso de necessidade, mas não era o caso.

Fomos explicando que pretendíamos ir para Vanadzor de “autostop”. Fomo-nos sentindo comentados. Mas fomos também mantendo o sorriso e o olhar atento sobre a chuva. Só precisávamos que ela abrandasse para nos distanciarmos um pouco da zona fronteiriça. Mas não foi necessário.

Aproximou-se de nós um senhor. Olhar humilde. Sorriso humilde. Pose humilde. De simpatia no rosto, perguntou se queríamos ir para Vanadzor e se estávamos à boleia. E convidou-nos a ir também. Com uma carrinha de distribuição de frutas, variadas, instalou-nos e ofereceu-nos duas tangerinas e duas maçãs.

No caminho, ele e o seu colega, em detrimento da estrada mais curta e em pior estado, optaram pela mais longa e mais perigosa. Mais perigosa porque passa a poucos quilómetros do Azerbaijão, e por entre montanhas avistam-se os dois lados. Perante as tensões com a Arménia, estão ambos os lados avisados: quem chegar perto, não importa quem, é alvejado. E portanto, embora sem chegar perto, não é de todo confortável passar por perto. Mas percebemos que há muitos que preferem fazê-lo, tendo em conta as condições dos pavimentos. E mesmo assim, na “melhor” estrada, levámos um pouco mais de 3 horas para fazer 120 quilómetros.

Prometemos não nos voltar a queixar das estradas em Portugal. 🙂

Pelo caminho, avista-se verde. E mais verde. Montanhas e montanhas verdes e lindas. Flores, campos, árvores e verde. E estradas infinitas, num sobe e desce.

Mas por entre tudo isto, muitas ruínas. Pouco antigas: sinais apenas de abandono.

Até que chegámos ao nosso destino. Ajudou-nos a contactar quem nos ia hospedar (uma espécie de couchsurfer, mas vinda de uma nova plataforma – trustrouts, feita para viajantes à boleia) e encontrarmo-nos foi muito fácil.

Em casa, encontrámos também outra hóspede nas mesmas andanças e foi delicioso partilhar experiências e vivências, viagens e aprendizagens.

Juntos, palmilhámos parte da cidade.

Não sabemos se feitos de admiração ou tristeza. Se de desconsolo ou frustração.

A Arménia, depois de ver conquistada a sua independência, deixou para trás a União Soviética. Mas não só.

Encontrámos um país desolado e escuro. Feito de antiguidades.

Encontrámos, abraçados, um passado muito presente.

Encontram-se pela rua, à medida que vamos andando e conhecendo, vestígios do que outrora foi vida. Não há rua sem ruína. Não há rua sem abandono.

É um país fantasma. Ou, como lhe chamam, um país com história. E podia até sê-lo, e é, mas podia também haver o preservar dessa história. O conservar.

Os nossos corações ficaram alerta. Ficaram emocionados e tocados: pelas ruas vêem-se edifícios desprezados, abandonados. Fábricas vazias. Vidros partidos. Pedras soltas. Escombros. Vêem-se estátuas de outrora. Vêem-se ruínas de hotéis, saunas e luxurias do passado. Tudo a cinzento e branco. Destruído e apagado do presente.

Nos parques, bancos tortos, desfeitos dos anos e sem manutenção.

Sentem-se nas pernas as ervas altas, a relva por cortar, os canteiros e jardins por arranjar.

Nos parques, os baloiços que já não baloiçam. As brincadeiras enferrujadas e deixadas ao acaso.

Fechamos os olhos e imaginamos tudo 40 anos atrás. Cheio de cor e gente. Balanço e harmonia.

Mas abrimos os olhos e sabemo-nos no presente.

Também nos parques comboios infantis deixados para trás. Lindos, mesmo que já sem cor ou movimento.

Traços de uma história passada.

Percebemo-nos num país pobre, com uma taxa de desemprego elevadíssima é um ordenado mínimo baixíssimo. Percebemo-nos por entre miséria – é claro, também alguns opostos.

Percebemo-nos por entre uma maioria de carros (muito) antigos e uma juventude satisfeita, que pouco ou nada se questiona.

Um pão caseiro custa 0,28€. Um gelado 0,18€. Um bilhete de autocarro 0,20€.

E assim se (sobre)vive.

E no meio de tanta pobreza, carregam orgulhosamente dentes de ouro.

Quando deixámos Vanadzor para trás, era muito cedo (para nós) e achávamos que tínhamos o dia pela frente para conhecer Yerevan – a capital.

Pusemo-nos à boleia com uma placa; mas depressa percebemos que eram raros aqueles que percebiam o alfabeto latino. Mas, claro, era para nós impossível escrever em arménio hayeren. Mesrop Mashtots.

A primeira espera foi morosa. Pararam vários carros que não iam propriamente na nossa direção. Outros tantos a oferecer serviço de táxi. E muitos outros que passavam, acenavam. Estivemos mais de 1 hora para apanhar a primeira boleia.

Era um jipe, três homens, pouca conversa, mas ajudaram-nos a mudar para um sítio melhor para apanhar boleia. Não muito longe, mas foi uma mudança importante.

A segunda boleia foi de um camião pequenito. Ou uma carrinha muito grande! Um senhor muito doce, daqueles que sabemos que é mesmo boa pessoa – mas que nunca lho vamos poder dizer. Levou-nos por mais uns 10 quilómetros.

E a terceira boleia, por mais outros tantos quilómetros, foi de dois senhores. Aliás, Senhores. Com postura e muito educados. Um deles, até inglês falava. Descobrimos pelo caminho que se tratavam de militares e estavam tão encantados com a nossa viagem, que quando nos deixaram pediram para tirar uma selfie todos juntos!

Lá, voltámos a esperar um pouco. Mas não muito! Um dos carros que por nós passou, voltou atrás, e de sorriso no rosto, ofereceu-se para nos levar! À frente, levava a sua esposa, vinda do Turquemenistão. Amorosos. Grande parte da viagem deu para um o-o e dois dedos de conversa. Sorriam-lhes os olhos e o coração também.

E quase 5 horas depois, com 5 boleias e 120 quilómetros feitos, chegámos à cidade. Sim, ainda apanhamos mais uma boleia, só até ao centro. Trabalhava na embaixada de França e por isso foi em francês que nos fizemos entender. Desta, fácil! Muito fácil. Mais, trazia no carro o seu filho, cujo inglês fluía.

Pelo caminho, tudo na paisagem se repetiu. Mas a verdade é que a capital se encontra mais cuidada. Esconde bem o que os subúrbios contam.

Mas em cada esquina, alguém a pedir.

Ainda assim, a capital surpreendeu-nos. Pela beleza dos edifícios que conserva, pela beleza da natureza. Pelos museus que tivemos oportunidade de visitar. Pelos locais históricos.

Um país diferente, que nos fez questionar muita coisa. Mas onde encontrámos novamente muita gente boa. Gente que defende a causa, que defende a pátria. Gente que tem entranhada a arte de bem receber, de cuidar. Gente que nos hospedou com amor. Com gentileza. Com tudo o que tinham. Gente boa. Nós continuamos a acreditar que vale a pena acreditar. Em gente boa. Estão por toda a parte, e temos tido a sorte de nos cruzar a cada dia.

Há famílias iluminadas.

E nós dois, também família, sabemo-nos e sentimo-nos abençoados.

Amanhã bem cedo, as borboletas voltam ao estômago, à barriga e à cabeça: olá Irão.

 

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olá, Geórgia.

Um adeus à Turquia: é aquele que entregámos ante-ontem por entre sorrisos e corações cheios. Os nossos! E de todos aqueles que conhecemos.

Ainda em Trabzon, no dia da partida tivemos a sorte e o prazer de conhecer um couchsurfer que não nos pode hospedar, mas que fez questão de nos encontrar.

Levou-nos a um miradouro no topo da cidade. Encantador para a vista! E lá, bebemos chá e comemos pevides – como por aqui se faz. Partilhámos histórias e improvisámos turco; enquanto lhe permitíamos improvisar o seu inglês.

E por entre conversas percebemos que iria em trabalho, da parte da tarde, até Rize: a cidade para onde nós também pretendíamos seguir depois. E assim, juntámos o útil ao agradável, e fomos juntos.

E a hospitalidade é tanta e tamanha, que pelo caminho nos ofereceu um almoço maravilhoso (e bem ao nosso gosto!).

Desta, do tempo que passámos juntos restou gratidão.

Em Rize ficámos em casa de um amigo de um outro amigo, de tempos de Erasmus Universitários. Cedeu-nos um seu tio a casa de férias, por entre montanhas e muita natureza. Forrada de madeira, sem água quente nem internet, fizemos das noites momentos inesquecíveis, por entre banhos de caneco com água aquecida ao lume e cozinhados sem fim.

Da cidade, também encantadora, guardamos a deslumbrante vista do castelo e a simpatia de todos os que por nós se cruzavam e tentavam perceber de onde vínhamos.
E na manhã de sexta-feira, 13, deixámos Rize sem ponta de azar. 🙂

Esticámos os nossos dedinhos na estrada principal, pertinho do centro e pertinho do mar (uma delícia!), deixámo-nos refrescar pelos leves pingos de chuva que se faziam sentir em nós, e demorou muito pouco até parar um carro. Trazia nele dois senhores, pouco faladores – mas muito amáveis. Por entre o que a língua turca nos permite, partilhámos a nossa história, e apenas a seu troco, recebemos dois sorrisos e muita o bondade: deixaram-nos pois exatamente à frente do Hospital de Pazar.

Não, não estamos nem estivemos doentes. Mas foi lá que encontrámos a nossa nova couchsurfer. Neurologista de profissão e paixão, recebeu-nos e cuidou de nós com verdadeiro sangue turco.

Passámos dois dias por entre maravilhas da culinária e maravilhas da natureza. Conseguem imaginar?

É por isso também muito fácil imaginar como nos sentimos. Conectados. Amados.

Ligados.

Entre nós. Com o outro. Com o mundo.

Também nesta passagem tivemos oportunidade conhecer mais amigos. Amigos desta nossa couchsurfer, que nos receberam na sua casa para jantar. Mas gente muito especial, tão especial que nos sentimos em casa. Viajantes, também eles mochileiros de outrora, médicos psiquiatras de profissão e apaixonados pelo mundo. Pudemos trocar muitas ideias sobre doenças mentais e psicomotricidade; sobre viagens e rotas! E a madrugada já ia noite dentro quando nos obrigámos a despedirmo-nos. E mais uma vez, em mais uma cidade, e ainda na Turquia, não só nos abriram as portas de sua casa, como a janela das suas vidas. Marcante.

Temos sempre tanto a aprender com o que nos rodeia. Com quem nos rodeia.

E chegou então o momento, o momento do adeus à Turquia: aquele que entregámos ontem por entre sorrisos e corações cheios. Os nossos! E de todos aqueles que conhecemos.

E por entre a melancolia, a excitação: não há partida sem chegada, e dissemos assim Olá à Geórgia.

Abraçámo-nos na despedida, ainda em Pazar. O mar, mesmo à nossa frente, num tom entre o azul e o verde, paradisíaco e inesquecível. Esticámos os dedos. Esticámos a placa. Um minuto. Um minuto para parar um carro. Um minuto para chegar o nosso bilhete de partida.

Seguimos até à fronteira. No carro, 3 pessoas genuinamente boas, daqueles a quem o olhar faz jus. E entre um o-o (dispensável mas não evitável) e muitas partilhas por entre gestos, turco e inglês, a viagem fez-nos num verdadeiro ápice.

Na fronteira, parecíamos acabados de chegar ao texas. Gente e mais gente, confuso, sujo e barulhento. Filas, gente a vender, gente cheia de malas, sacos e malinhas. Autocarros, camiões. E fizemo-nos ao caminho.

Atravessar até à Geórgia foi mais fácil do que parecia: receberam-nos com sorrisos e descomplicações, sem grandes conversas ou revistas. E um “good trip”, que já sabemos ser os votos de uma boa viagem!

Já do lado de cá, em território e chão Georgio, sentimo-nos num mundo diferente.

A verdade é que os transportes públicos da Turquia não podem passar. Nem os táxis. Nem os carros alugados. As pessoas têm de os abandonar, passar a fronteira a pé e apanhar um novo transporte do lado de cá. Portanto, é muito fácil de imaginar o caus instalado. Todos tentam “vender” o seu transporte, ao melhor preço. Ganham a vida assim. Bem como os vendedores de rua: é comida, é água, é cigarros, é táxis, é casas de câmbio… e muita gente misturada. Muitas malas e bagagem. E muitos olhares curiosos. E, ao fundo, a bandeira da Geórgia.

Sentimo-nos verdadeiramente acabados de chegar.

Não caminhámos muito até recomeçarmos a pedir boleia. Claro está que muitos nos tentaram ajudar a troco de dinheiro, mas conseguimos recusar com facilidade e sem constrangimentos, até que em poucos minutos parou um carro. Levou-nos até Batumi a uma velocidade estonteante – se a condução na Turquia tinha muito que se lhe dissesse, aqui não há palavras. Mete medo! Pé no acelerador, mão na buzina: saiam da frente. Não, a buzina não serve para alertar em caso de perigo, serve literalmente para chamar à atenção no sentido oposto, “Cuidado, eu vou passar!”. Ficamos sem ponta de sangue e colados aos bancos, e não há mais nada que possamos fazer.

Mas por de trás da sua condução, estava um homem maravilhoso, disposto a tudo para nos ajudar. Quis levar-nos exatamente até casa de quem nos ia hospedar. E para isso, perguntou pela rua tantas vezes quantas necessárias, onde ficava a morada. Incansável, os olhos sorriam de bondade.

Também assim sorriam os olhos de quem nos hospedou. Uma verdadeira lição de vida, ainda só estamos nós a viajar à pouco mais de dois meses. Quatro amigos, turcos, recém chegados a Batumi, publicitam num grupo de facebook que se mudaram, e que podem receber quem os queira visitar. Nós! Um couchsurfing informal, mas muito gratificante.

Não há referências, não temos como expressar publicamente como fomos recebidos: mas mais uma vez, cederam-nos a cama e parte do seu tempo. Entre jantar e pequeno-almoço, entre gestos e turco, partilhámos o que pudemos.

Mas sabemo-nos mal habituados. No ocidente ouvimos sempre dizer que “ninguém dá nada a ninguém”. Aprendemos, intuitivamente, a ser desconfiados. Vivemos assim sem nos questionarmos; mas questionamos todos os que nos rodeiam e as suas ações. E chamamo-nos cuidadosos.

Aqui não mudamos aquilo que somos, mas aprendemos a ser mais alguma coisa.

Mais que não seja, generosos.

E ontem, pela manhã , partimos rumo a Tbilisi, onde estamos agora. Sabemos que prometemos atualizar o blogue, mas a viajar, nunca nada é previsível.

O tempo estava incerto, mas seguimos à aventura. Por entre nuvens e ameaças de chuva, sentíamo-nos num dia de inverno. Há dias assim.

Também os nossos corações estavam incertos. Resmungões e insatisfeitos. Que nem nuvens a estragar um dia de sol. Há dias assim.

O peso das mochilas incomodava-nos; doíam-nos os ombros, as costas, o pescoço. E o peso dd Batumi também nos incomodava. Ruas e ruas sem alcatrão, esburacadas e sujas. Prédios e prédios, metade betão, metade chapas de zinco. Prédios e prédios com andares construídos e habitados, e tantos outros completamente abertos e por construir. Uma pobreza escondida em cada esquina. Visível na forma de estar, de andar, de vestir, de ser. Muito difícil de descrever e muito fácil de sentir. Mas, junto ao mar, uma riqueza de fachada: mesmo por entre a descrição acima, grandes hotéis e um casino. Para quem? Perguntamos nós.

E cabe-nos relembrar que por aqui, o ordenado mínimo é de 150 euros. Isto quando há trabalho. Porque cabe-nos também relembrar que a taxa de desemprego aqui é superior a 30%. E não, as coisas não são mais baratas que na europa – só mesmo o tabaco. É por isso impossível não nos questionarmos sobre como vivem.

E numa pequena casa, onde se vendiam hambúrgueres e trocavam também dinheiro, aproveitámos para trocar alguns euros e fizemo-nos ao caminho. Depois, depois de quase 1 hora à espera da primeira boleia do dia, São Pedro fez das suas, e desabou a chover. Cupiosamente.

Corremos para nos abrigar, por entre chapas e telhas, chapéu de chuva e capa, e lá nos desenrascámos. Mas o dia não estava de todo a correr bem! E já não bastava estar a ficar tarde, como aqui temos 1 hora a mais no fuso horário, e sabíamos ainda ter pelo menos 6 horas de viagem. Sim, estávamos a 380 quilómetros de Tbilisi, mas conseguem imaginar o estado das estradas até lá.

(In)Resignados, esperámos que a chuva abrandasse.

E quase duas horas depois, voltámos à estrada. Mais calmos e confiantes, erguemos a nossa placa com convicção. E por entre o trânsito que se fazia sentir, encostou um carro tipo carrinha, e seguimos juntos por 50 quilómetros. Valeu-nos o turco aprendido (que especialista!) e foi fácil a comunicação!

Quando nos deixou, a chuva estava longe. Avistávamos as negras nuvens ao fundo, mas nada que nos intimidásse. E lá, foi muito rápido de apanhar a segunda boleia: um senhor ucraniano que ia até meio caminho. Fraca comunicação, mas com muita simpatia à mistura, deixou-nos já quase de noite a 180 quilómetros do nosso destino.

Ali, um senhor que nos avistou, insistiu para que fossemos para um hostel descansar. E poucos minutos depois, já nos havia oferecido o seu colar e convidado a comer e dormir em sua casa. Apontava para o céu e dizia que a noite estava a chegar. A seu ver, era hora de recolher! Levámos mais de 10 minutos a agradecer-lhe e a recusar. Sabíamos que ali conseguiríamos apanhar uma boleia direta e tínhamos uma amiga de uma amiga à nossa espera! Por isso, só precisávamos de ficar sozinhos para o conseguirmos, e assim foi! Quando nos deixou, não demorou 1 minuto até que parasse um novo carro: conduzia-o uma jovem, e permanecemos juntos por 3 horas, até ao nosso destino.

Entre inglês e turco, contámos histórias e partilhámos hábitos. Comemos pão típico da Geórgia, comprado na estrada; e passámos também momentos de aperto! Não, a condução caótica não diz só respeito a homens. É cultural e para todos. Passadeira? O que é isso? Cruzamento? Rotunda? Ultrapassagens? Duas faixas? Traço contínuo? O que é isso? Tudo para enfeitar. Até mesmo os limites de velocidade e os radares. Se diz 30 com sinal de perigo em baixo, ou obras na estrada, vai-se a 80. Ou 120 se houver necessidade de ultrapassar uma fila de camiões. Portanto, e em suma, podemos dizer que nos mantivemos acordados e animados.

E estava já perto da 1 hora da manhã quando pusemos os pés em casa: rodeados de natureza, com duas amigas incansáveis, numa casa maravilhosa, e com petiscos típicos à nossa espera. Que bom que é quando assim é, quando tudo acaba em bem!

Por hoje, hoje esgotámos energias a percorrer a cidade. Tbilisi é muito diferente de Batumi. Com um calor duro durante o dia, descobrimos o seu lado lindo, o seu lado diferente. Até a língua, estranha de ouvir, fez os seus encantos. Com muitas igrejas ortodoxas, conhecemos também novas realidades. Embora envolta de muita precariedade e miséria, é uma cidade muito bonita.

Encantou-nos, de braço no ombro e caminhar junto.

Amanhã é dia de seguir viagem. De voltar a carregar as mochilas às costas. De abraçar novos mundos. Novos sorrisos – decerto. Amanhã é dia de mais uma fronteira, de mais umas borboletas na barriga.

É dia de entrar na Arménia.

E em breve, será dia de entrar no Irão.

Quem nos sabe de cor, sabe que transbordamos felicidade.

Saudades já também – mas por entre quem ama, quem não as sente?  ♡

2016-05-17 19.54.502016-05-17 19.53.522016-05-17 19.54.182016-05-17 19.55.33IMG_77032016-05-17 19.49.312016-05-17 19.50.152016-05-17 19.50.452016-05-17 19.51.162016-05-17 19.52.542016-05-17 19.52.102016-05-15 23.09.522016-05-17 19.53.20