Hk & Macau (& restinhos de China)

Se sonhávamos que seria assim? Não.

Cheirava bem! As ruas eram limpas. O sol jazia no céu azul sem nuvens brancas. Os bancos de jardim cuidados. Os canteiros arranjados.

Muitos carros. Muitas pessoas. Estradas estreitas. Becos recônditos.

Mercados antigos escondidos.

Prédios altos. Muitas luzes. Grandes lojas. Grandes marcas. Gentes de dinheiro!

Casas pequenas. Apartamentos minúsculos. Vida cara.

Mas cheirava bem! A lavado, limpo. A cuidado.

Assim encontrámos Hong Kong! Longe dos nossos pensamentos, por certo afastado dos nossos sonhos: nós que nem fazíamos questão de visitar!

Dos cinco dias que lá passámos, a grande responsabilidade era a de tratar dos vistos: o que nos permitiria voltar à China, e visitar o próximo país, o Vietname. Mas o reboliço foi tamanho!

À chegada, saídos do metro, caminhámos ainda carregados até à embaixada da China. Na impossibilidade de subirmos com comida ou líquidos, dividimo-nos e conseguimos na mesma obter a informação de que tanto precisávamos: quais os documentos exigidos para a obtenção de novo visto. Um infinito de papelada, verdadeiramente de bradar aos céus! Copia de passaporte, formulário, reserva de hotéis, reserva de transporte.

Saímos de lá então ao encontro do nosso couchsurfer, um rapaz do Bangladesh, que sem qualquer problema e muito amavelmente se propôs a encontrar-se perto do centro para nos dar a chave de sua casa. Assim fizemos, e de no nosso encontro saímos com um pedaço de papel com um mapa desenhado e indicações para lá chegarmos. E chegámos!

Completamente estafados, suados e sedentos. E antes mesmo de começarmos a tratar da papelada, sentimo-nos bem melhor depois de um duche refrescante!

Os papéis, com a ajuda do booking e da TAP – face às suas facilidades de cancelamento, e de um amigo à distância, ficaram prontos num instante. As cópias estavam também feitas. Seguimos de volta para a Embaixada da China. E quando acabámos de preencher os formulários e obtivemos a nossa senha (indicando que tínhamos mais de 200 pessoas à nossa frente), voltámos a dividir-nos para apressar trabalho. 🙂

Ficou então um a aguardar e outro seguiu para a Embaixada do Vietname, novamente para saber da papelada, tempo de espera e preços. E correu bem! Deu tempo para ir, voltar e continuarmos juntos à espera da nossa vez. Aí, por entre a notável melodia da língua portuguesa, reconhecemos a presença de um casal português; sem que conseguíssemos ficar indiferentes, e como já tão bem sabemos fazer, metemos conversa.

Fluiu, e fluiu. Fluiu entre sorrisos e aquilo que veio a ser uma amizade!

No dia seguinte, numa manhã chuvosa, seguiu-se o visto do Vietname. Ficou pedido, mas a muito custo: queriam o passaporte (que havia ficado na Embaixada da China). Por entre propostas mirabolantes, como a de pagarmos quase duas vezes mais ou a de nos ser dado uma folha em forma de visto que poderia não nos permitir entrar por terra; lá chegámos ao consenso de deixar o visto pedido, com o compromisso de lhes entregarmos o passaporte passados 3 dias, quando o fossemos buscar à Embaixada da China, e de lá voltarmos para o levantar no dia seguinte. E confusões à parte, lá seguimos satisfeitos, com paz na alma e sossego na mente. Estava feito. Agora era cruzar os dedos e esperar!

Demos então uma pequena volta pelo centro de Hong Kong e, já de mochilas novamente às costas, seguimos de barco para a Ilha de Lamma. Lá, chegámos já de noite, mas ainda cedo. Por entre o balanço do ondular do mar, a disposição não era a melhor; mas o desejo de conhecer a casa tropical perto da praia, tratava qualquer mal!

– É como o amor.

Na ilha ficámos com um couchsurfer alemão, e por voltar tarde, sabíamos por cortesia sua onde estava a chave escondida; bastava procurar pela casa número 6.

Pena foi que não correu como previsto. Palmilhámos parte da ilha sem que o desejássemos. Carregados. À chuva. Por entre vegetação e com os mais diversos animais (também eles tropicais – demais!).

A cada pessoa que se cruzava no nosso caminho, perguntávamos pelas direções. Mas sem pudor, diziam aldrabadamente que nos dirigíssemos para a esquerda, direita, cima ou baixo; e seguiam. Só já exaustos percebemos que também elas não faziam ideia de onde ficava a casa que procurávamos!

Inclusive, já desgastados, encontrámos um casal que nos disse que ali, ali mesmo onde estávamos, era a casa deles, número 5. Mas que lá não era o bairro que procurávamos. Que lá não havia nenhuma casa número 6, nem mesmo a casa ao lado. E ainda nos cruzámos mais uma outra vez, mas foram sempre tão assertivos que nunca duvidámos.

Já cansados e ainda pouco intimidados com os avisos sobre as cobras (já que só depois de vermos a primeira nos convencemos), descarregámos as mochilas num ponto certo da vila e, pouco depois, apareceu o nosso couchsurfer, que de imediato nos reconheceu!

Suados que nem pintinhos molhados, seguimos juntos até casa: aquela que ficava exatamente ao lado da número 5. E até hoje não percebemos o porquê daquele casal nos ter enganado: ou não fossem eles saber o bairro em que vivem.

Mas como acaba sempre tudo em bem, terminámos a noite numa casa gira, com um jantar muito diferente e muito bom (com direito a creme de beterraba – imaginam as saudades que trazemos destes petiscos?), um banho e um quarto com uma caminha grande e lavada, refrescada com o ar condicionado. E, claro, com direito a bons sonhos só de pensar na praia do dia seguinte!

Assim foi, marcámos a nossa estadia na ilha pelos passeios, trilhas e mergulhos no mar! Coleccionámos conchinhas partidas e búzios incompletos, vimos aranhas maiores que as nossas mãos e turistas que nunca mais acabavam. E também uma cobra ainda a porta de casa!

Mas foi de lá que saímos de coração a transbordar.

De volta a Hong Kong, a primeira preocupação foi a de levantar o visto da China para entregar o passaporte na Embaixada do Vietname. Conforme combinado, lá ficaria até ao à manhã seguinte de forma a estamparem o visto – e por ser mais uma noite, decidimos ficar com os nossos mais recentes amigos portugueses, aproveitando assim para visitar e confraternizar o que nos faltava!

Mas na Embaixada da China quase nos trocaram as voltas. A tentativa foi a de não nos dar o visto; e por isso se seguiu uma entrevista/inquérito. Porque viajamos à tanto tempo, porque visitámos tantos países, porque temos tantos vistos? E, principalmente, porque temos um carimbo vermelho da Turquia?

A questão do terrorismo vive-se mesmo quando ausente. Mas a explicação era simples: era somente o carimbo de saída do país – tanto que em turco diz “çıkış”.

Foi então preciso algum esforço. Muita conversa. Muito paleio. Cair na graça. E lá veio o visto no passaporte!

De corrida, na Embaixada do Vietname os funcionários eram já outros. E com a comunicação fraca, ao invés de complicar, facilitaram: e o visto ficou pronto na hora!

Tínhamos então a hipótese de seguir na hora para Macau, mas acabámos por optar pelo programa já definido: passear, jantar e dormir com o Tiago e a Liliana. E assim fizemos: e ainda bem! Agora guardamos com carinho esses momentos, todas as partilhas e sorrisos!

Mas foi quando o sol raiou que os nossos corações bateram forte. Era hora de apanhar o barco e chegar a Macau! Sim, Macau!

No porto, conseguimos um bilhete a bom preço para a Taipa, a ilha adjacente e, depois de partilharmos algum tempo com uma amiga de Hong Kong que fizemos na Ásia Central, embarcámos. O nervoso miudinho era maior que nós dois. Era ansiedade! Então lá seguimos, de mãos dadas, por entre o balançar do ferry ainda parado.

Lá dentro, sentámo-nos nos lugares marcados, com uma televisão à frente: e foi nela que passou o vídeo de emergência, logo para começar, com legendas em português! Já estávamos em casa!

Os sorrisos começaram a rasgar-se de orelha a orelha. E mesmo depois de atracarmos, era português por todo o lado. Indicações, ruas, anúncios, placares, panfletos. Que delírio!

Em Macau temos família: um primo macaense (por definição, filho de um(a) chinês(a) e um(a) português(a)), e foi ele que nos acolheu à chegada e durante a nossa estadia.

Em Macau palmilhámos rua acima, rua abaixo. Deslumbrámo-nos com cada azuleijo, cada pedra de calçada; igreja ou farol: estávamos em casa. E essa era a melhor sensação de todas.

Mas Macau é caro – tão ou mais que Hong Kong. E longe das zonas tradicionais, vivem agora os casinos, luxuosos, imensos (e lindos!), com salas de jogo 24 horas por dia e centros comerciais de grandes marcas incorporados, com ShutleBus gratuitos entre Macau e a Taipa. Por lá também nos deixámos perder, pela imensidão e novidade.

Mas Macau é mais que isso. É uma fusão de culturas que se sente em cada beco. Em cada rua ou ruela. Macau é uma franca mistura entre Portugal e a China: porque a arquitetura é portuguesa, os largos e os passeios também o são! Mas o hábitos, esses não nos pertencem mais. Não há loja sem tradução do chinês para o português no seu letreiro, por norma dizendo “estabelecimento de comidas”; mas dentro é a China que vive, por entre os cheiros ou a desorganização.

Mas é mesmo deste contraste que vive Macau. Desta história dupla e cruzada.

Também nós sempre ouvimos dizer que Macau havia sido um presente. Já os chineses contestam a história.

Há muitos anos, Macau estava a ser invadido por piratas. Os portugueses, que haviam lá chegado, ajudaram o povo chinês a lutar e a proteger-se, e por isso
Macau lhes foi entregue por 500 anos como agradecimento.

Ouvida do lado de cá: os piratas eram portugueses. 🙂

A falar português já são poucos os locais, mas com a grande comunidade portuguesa, não foi difícil encontrar quem o falasse. Mas o mais surpreendente foi termos tido a sorte de assistir a um espetáculo do Grupo Folclórico! E foi ao som do “malhão malhão” que nos deixámos levar!

Abraçados. Em paz!

Também abraçados fomos pela televisão de Macau, com quem estivemos para uma entrevista muito simpática, realizada no Templo de A’ma.

Infelizmente, foi também em Macau que vivemos a primeira alergia dermatológica por picadas de insectos: eram tantas e tão incomodativas, as pintinhas, bolhas e borbulhas, que acabámos no médico: mas um médio especial, o Doutor Rui Furtado, colega e também amigo da querida avó “Oliveirinha” – como carinhosamente lhe chamava no bloco. Conseguiu dar-nos a sua opinião e marcar para posteriormente uma consulta de dermatologia, quem em tudo nos valeu, não só pelo atendimento como pelo tratamento. Com o Doutor Rui e a sua esposa, recordámos bons momentos e novos criámos, para um dia partilhar.

Hoje já passou.

Mas a todos os níveis Macau nos fez sentir em casa.

Até ao último minuto, quando vivemos um encontro muito desejado e especial. Por todas as suas competências pessoais, pela sua personalidade terra a terra, pela generosidade e simplicidade, simpatia e bondade. Por nos ter feito ser diferentes, por nos ter feito pensar. Por nos ter feito sorrir, ponderar crenças e valores e estudar. Por isto e mais ainda. Uma Professora, Celeste, que nos marcou em tempos universitários e que por circunstâncias da vida nos cruzou uma vez mais o caminho. E foi tão confortante receber um abraço sincero, apoio sentido e ter o prazer de partilhar um momento numa fase destas. Mais, com duas colegas maravilhosas, já “locais”, com quem dividimos o nosso tempo. Somos muito gratos!

Chegou então a hora de partir. Regressar à China e retomar o caminho, a rota rumo ao Vietname!

Atravessámos a fronteira a pé, aquela que muitos macaenses atravessam diariamente para comprar comida mais barata, nomeadamente vegetais e frutas – percebemos nós logo à chegada aquando a nossa busca incessante por coisas a preços acessíveis.

E foi perto da fronteira, numa estrada principal que nos pusemos à boleia. Mas depois de 10 dias parados, já nem o corpo estava habituado!

Tivemos uma tarde penosa, muitos carros e poucas boleias. Mas tivemos também a sorte de encontrar quem nos tenha querido ajudar, mesmo sem nos poder levar: foi o caso de um jovem, que de mota andava a distribuir pizzas. A nós, ofereceu-nos uma grande água (um bem tão precioso!) e uma pizza de fruta. Um amor!

Foi já ao final do dia que dali um senhor nos levou. Eram pouco mais de 100 quilómetros, mas chegámos depois do anoitecer. E não descansou enquanto na nos deixou com o nosso novo couchsurfer, tendo para isso que andar, verdadeiramente, às voltas na cidade.

À nossa espera estava também um casal de australianos, a viajar há já 3 anos. Rumavam agora a casa, sendo Guangzhou uma das suas últimas paragens.

Em casa, o ambiente era simpático mas não podemos dizer que nos tenhamos sentido conectados. Às vezes é mesmo assim, e sabemo-nos agradecidos pelo teto que temos. Pelo banho que podemos tomar. E, claro, por estarmos juntos.

Nenhum dos três criava grande empatia, mas principalmente o nosso couchsurfer. Reservado, foi pouca a comunicação que tivemos. Talvez sejamos nós com sede de conhecer as pessoas. Talvez sejamos nós e as nossas expectativas. Talvez. Certo é que nos recebeu e acolheu! E ajudou! Com ele, ficámos duas noites, sendo que na segunda encontrámos um amigo ligado ao futebol e a projetos profissionais passados, que nos havia trazido algumas coisas de Portugal e com quem tivemos o prazer de jantar!

E ao terceiro dia, véspera de feriado na China a 1 de outubro, saímos cedo para nos pormos à boleia para Guilin.

Chovia aquela chuva molha-parvos, que não impede mas incomoda. Mas estávamos decididos. O destino era muito turístico, mas igualmente muito bonito. E todo o esforço, tarde ou cedo, é recompensado.

Apanhámos um autocarro para sair da cidade, que não sabemos ainda hoje porquê, não nos levou ao destino esperado. Ficámos então a meio caminho daquilo que seria o sítio ideal.

Caminhámos então. E a chuva intensificou-se. Molhava a sério. Eram pingos grossos é daqueles que se fazem sentir no corpo. Mas estávamos tão absorvidos pela ânsia de partir, que nem isso nos fez mudar de ideias.

Abrigámo-nos então de início numa ponte e lá pedimos boleia. Sem sucesso, ao final de algumas horas e já com chuva miudinha novamente, caminhámos. Já não sabemos quanto, mas foram alguns quilómetros.

As mochilas pesavam, mas dávamo-nos gratos por não chover.

E uma vez mais, por estarmos juntos. E apaixonados!

Chegámos então às portagens da autoestrada, e o trânsito apresentava-se caótico. Na China, nesta semana festiva, com a duração de 7 dias posteriores ao tal feriado, não só tudo pára, como as portagens são gratuitas! A juntar a isso a quantidade de chineses por metro quadrado, dá para imaginar o caos.

Parecia o paraíso das boleias! Mil carros, que tão lentamente passavam por nós: era só esperar.

Fizemo-nos em paciência.

Com calma, foram mais de 9 horas de pé, a pedir boleia. Mais de 11 horas de estrada. E apenas dois carros nos abordaram: um casal sírio, que não ia na nossa direção, e um senhor que queria dinheiro pela boleia, mesmo indo na nossa direção. Em 9 horas não houve nem mais um carro preocupado connosco. Nem mais um ser a olhar por nós! Estávamos tão destroçado que não conseguíamos acreditar no que estava a acontecer.

E já de noite fizemos por apanhar o último metro para voltar para a cidade. Caminhámos sem que nos lembrássemos já das dores no corpo ou nos pés, no pesado das nossas pernas ou no dormente das nossas costas.

Estávamos anestesiados!

Não queríamos mais ir para Guilin. Só para casa. E nesse preciso momento – tendo nós a sorte de termos conhecido um novo couchsurfer mexicano – decidimos que era em Guangzhou que iríamos passar o fim-de-semana. Só queríamos descansar, dormir, recuperar.

E assim fizemos, com a certeza de que no dia seguinte o sol nasceu com uma nova força. E nós também, já em paz, resignado se convictos de que nada acontece por acaso. Mais tarde, veríamos o porquê de termos ficado ali retidos.

Desfrutámos então da cidade de Guangzhou até mais não. Visitámos os pontos turísticos, a torre de Cantão, os parques mais bonitos e também o rio. E subimos ainda ao centésimo andar de um maravilhoso hotel, de onde discretamente nos deixámos deslumbrar pela vista ao anoitecer.

Abraçados, sorrimos e vivemos unidos este momento. Numa tranquilidade indescritível. No silêncio das estrelas, lá no alto. Estávamos felizes!

E assim decidimos partir, na manhã seguinte, para a cidade seguinte: Nanning. Guilin haveria ficado a meio caminho com um pequeno desvio, mas agora seguiríamos diretos.

Confiantes de que o tempo de espera passado daria lugar a muitas e boas boleias, seguimos para uma avenida principal. Lá, de cartão esticado e corpos ao sol, pedimos boleia por pouco tempo até parar o primeiro carro. Era um casal, amoroso. Tinham à pouco tempo estado a viajar na Austrália e lá viveram a aventura de se perder; contudo, alguém os ajudou prontamente e por isso assim o decidiram fazer connosco, levando-nos até uma das entradas da autoestrada.

Lá, vimos gente chegar, gente partir. Vimos o sol dar lugar às nuvens, e as nuvens dar lugar à chuva. Vimos anoitecer e o nascer da lua. Mas boleia, nem uma.

E, sem querer, tínhamos passado mais 9 horas ali.

Parecíamos transparentes!

Mas já não nos deixámos abalar, destroçar ou sentir. No nosso limite, agarrámos nas coisas e voltámos para casa. Tínhamos também a hipótese de continuar noite fora ali mesmo. Todavia, seria uma noite em branco, e provavelmente uma noite perdida.

Riram-se os nossos amigos por nos ver chegar. Incrédulos.

Então das tripas fizemos coração, e na madrugada seguinte, fizemo-nos novamente ao caminho. O corpo dorido pedia por mais cama, mas não podia ser. Tínhamos de ver onde iria esta nossa desventura com as boleias chegar. Ainda assim, levámos connosco o horário e números dos autocarros para voltar para casa, não fosse o Diabo tecê-las novamente.

Escolhemos então um terceiro sítio diferente (que era o primeiro que havíamos escolhido quando queríamos ir para Guilin e o autocarro desviou a meio). Estava um sol tão ardente que tínhamos dificuldade em permanecer quietos com a placa. E fomos então fazendo turnos.

Até que parou um jipe! Eram dois senhores, já meia idade! Sorriram, disseram que iam na nossa direção e que seria grátis! Nem queríamos acreditar…

Mesmo indo para apenas 120 quilómetros, iam na nossa direção e estávamos excitadíssimos!

Fizemos do tradutor offline do telefone o nosso meio de comunicação e assim partilhámos a nossa história. Amorosos, estavam tão felizes quanto nós, e felizes com a ideia de alguém estar a viajar tanto tempo, por tantos lugares.

Quiseram depois antes de nos deixar, oferecer o almoço. E então juntos lá nós dividimos por entre os práticos típicos vegetarianos e aquilo que eles preferiram comer, sempre com a maior gentileza e generosidade de sempre! E na hora da despedida, quiseram ofereceu-nos dinheiro, o que prontamente recusámos. Sabíamos que não tínhamos feito qualquer conversa que os levasse a querer ajudar-nos, e percebemos que era claramente um apoio à nossa viagem, por a terem encontrado encantadora! Mas não podíamos aceitar: já tinham feito por nós tudo quanto poderíamos desejar! E agradecemos, sorrimos, levámos a nossa mão ao peito e desejámos tudo de bom.

Contudo, minutos depois logo descobrimos que haviam escondido o dinheiro nas nossas mochilas. E, sem que pudéssemos imaginar, eram 500¥ – o equivalente a 68€. Sim, muito dinheiro! Não sabíamos sequer o que fazer, como fazer. Estávamos tão envergonhados e ao mesmo tempo tão gratos! Já para não falar da boleia, do almoço e das várias águas e sumos que nos haviam comprado para o restante caminho.

Na estação de serviço onde ficámos, apressámo-nos depois para nos pôr novamente à boleia. Faltavam-nos ainda mais de 400 quilómetros e a manhã já lá ia. Caminhámos assim até ao fim da imensa área (que como dita a China, grande, com restaurantes, supermercado, casas de banho e bomba de gasolina – ao que já nos habituámos), e lá instalámos o nosso “estaminé”. Mas demorou pouco até que a polícia a nós se juntasse. Nunca sabemos bem se por graça ou precaução, gostam sempre de fazer a sua conversa e por fim avisar que não podemos ir para a autoestrada. Agradecemos sempre e deixamo-nos estar! Mas desta vez, quiseram também fotografias. E nos entretantos, apareceu um camionista dizendo que não ia para Nanning, mas passaria por lá.

Recusámos. Porque levaria muito tempo. Porque normalmente na China andam sempre 2 por camião e seríamos 4. Porque não queríamos chegar de noite.

Amoroso, insistiu. Sorriu e disse que não levaria assim tantas horas. E que nos deixaria apenas a 20 quilómetros do centro da cidade.

A polícia sorriu, e sugeriu-nos que fossemos. E acabámos por ir. Ao mesmo tempo, em nós, havia qualquer coisa que nos dizia que devíamos ir. E tudo à nossa volta nos convidava a ir.

Pelo caminho percebemos o quão certos estávamos! Porque mesmo sabendo que iríamos chegar de noite, o camionista estava sozinho. E era um doce de pessoa. Sabemos agora a companhia que lhe fizemos e o bem que nos fez! Sorriu o caminho todo! Foi generoso o caminho todo! Deu-nos a sua fruta, parou para nos comprar uma maçaroca de milho e dois sumos e não hesitou em fazer de tudo para que nos sentíssemos bem. E tivemos ainda direito a ver dois DVD’s durante o caminho, que embora em Chinês, nos entretiveram e bem!

Indescritível.

Quando nos deixou custou a todos a despedida. Sentimo-nos vazios ao deixá-lo seguir a sua jornada tão sozinho: faltavam-lhe ainda mais de 800 quilómetros. Mas foi bom, foi bom o que até ali partilhámos!

Era já noite, conforme temíamos. Ficámos numa portagem, e ali não nos restou mais senão mostrar a nossa placa e esperar! Mas não esperámos mais que 15 minutos até que parasse um jipe, com um jovem que prontamente se ofereceu para nos deixar à porta de casa.

Fomos assim abençoados com um dia recheado de encontros maravilhosos, que culminou com o conhecer da nossa couchsurfer: uma jovem simples, mas muito querida. Da sua sala, fez o nosso quarto; do seu gato felpudo, o nosso mimo. E quando nos deixámos cair na cama, nem queríamos acreditar!

Estávamos de volta. De volta à estrada. De volta à nossa desejada aventura. 🙂

Em Nanning ficámos apenas duas noites, um dia – que deu para descansar, passear e ainda pic-nicar! Caminhámos em torno do famoso lago, pela cidade e no mercado nocturno (de perder de vista com as mais estranhas iguarias).

Passámos também parte do tempo na tentativa de trocar os Yuans que tínhamos para dólares, mas foi a missão impossível: de banco em banco, as desculpas foram variando. “Tem de ser no Banco da China”, “Só trocamos para Euros”, “Só temos 100 dólares”, “Precisam do certificado de troca à chegada”, “O vosso certificado não é válido”, … Até que nos cansámos e todos os bancos fecharam.

Terminámos depois a noite a jantar num terraço no décimo nono andar e brindámos às luzes que iluminavam a cidade.

E seguimos!

O prazo do nosso visto do Vietname já estava a contar e por isso tinha de ser assim. Contudo, completámos os exactos dois meses de China: dois meses intensos, bem vividos e muito especiais.

Para a vida, levamos a certeza de que nunca mais veremos um chinês da mesma maneira. Que os caracteres chineses são giros e giros de desenhar, mas que o chinês e os seus quatro tons são o verdadeiro enigma. Levamos histórias e olhares infinitos, uma cultura nova dentro da nossa, hábitos maravilhosos e outros que nem tento, mas uma viagem e aprendizagens que ficarão para sempre.

Com a certeza também de que não é preciso conseguir comunicar para se conseguir ajudar.

Deixar Nanning para trás foi também um processo moroso, mas não tão difícil. Acordámos cedo, muito cedo para nós: quando os sonhos ainda vivem, o abraço ainda sabe a pouco e a almofada chama por nós. Mas teve de ser.

Apanhámos várias boleias, todas elas reflexo de uma generosidade imensa; entre a cidade e o aeroporto, com um táxi da UBER; do aeroporto para as portagens perto novamente da cidade, com um senhor. Mas a seguinte, até à fronteira, foi a mais engraçada. Arranjada pelo polícia que veio ao nosso encontro, foi num autocarro pequenito. Demorámos algum tempo até nos entendermos, mas chegámos por fim à conclusão de que íamos exatamente para o mesmo sítio. Inglês falava e depois de saber dizer boleia perfeito saímos da china

Chegámos então juntos ao fim da China: à entrada do Vietname. E estávamos a pequenos passos do alcançar.

O Sudeste Asiático parecia longe. Tão longe, há 7 meses atrás. E é tão bonito perceber que aqui chegámos juntos, comandados pelo bater do nosso coração e com uma mão cheia de coisas boas para sempre.

2016-10-15-02-13-112016-10-15-02-12-262016-10-15-02-11-552016-10-15-02-10-342016-10-15-02-05-552016-10-15-02-04-542016-10-15-02-04-082016-10-15-02-02-472016-10-15-02-01-442016-10-15-02-00-29img-20161015-wa0044img-20161015-wa0043img-20161015-wa0041img-20161015-wa0040img-20161015-wa0039img-20161015-wa0037img-20161015-wa0035img-20161015-wa0032img-20161015-wa0031img-20161015-wa0030img-20161015-wa0029img-20161015-wa0026img-20161015-wa0025img-20161015-wa0024img-20161015-wa0022img-20161015-wa0021img-20161015-wa0019img-20161015-wa0017

de olhos em bico!

Chegámos à China! Sim, à grande China, do lado de lá do mapa! Gigante e imensa. E chegámos à boleia!

Foram 5 meses de caminho, de aventuras e histórias, de partilhas, vivências, loucuras e muito amor. Foram quilómetros e países, amizades infinitas e aprendizagens constantes. E foram também saudades e lágrimas, abraços e sorrisos.

Mas quando nos soubemos a pisar a China, ai: que emoção! Estávamos em êxtase, que nem duas crianças na feira popular! Queríamos absorver tudo, ver tudo, sentir tudo. Que loucos!

Chegámos à fronteira a uma boa hora, mas com a mudança do fuso horário em mais duas horas, vimos o nosso dia encurtado. Ainda assim, nada importava senão as luzes, os sons, os olhares. A fronteira da China é única, e depois de tantas outras que atravessámos a pé, nem queríamos acreditar. Se por um lado todas as outras fronteiras ficam no meio do nada, por entre montanhas e um vazio; a fronteira entre o Cazaquistão e a China fica exatamente no meio de uma cidade. Sim, é isso mesmo! E, não obstante, enquanto nos restantes edifícios fronteiriços encontrámos espaços vazios, ocupados por autoridades armadas, uma câmara de RX, uma mesa de revista e um computador, na China encontrámos um espaço cheio de gente (ou não se tratasse da China!), equipamentos eletrónicos, luzes, luzinhas e sons, câmaras, passadeiras rolantes e computadores. Um mundo muito diferente!

Levámos pouco mais de 10 minutos a ganhar o carimbo no visto do nosso passaporte, por entre a amabilidade de todos e a descomplicação dos papéis a preencher.

E, foi quando pusemos os nossos pezinhos na cidade de Khorgos, que nem queríamos acreditar!

Carros, pessoas, prédios, luzes.

Tudo piscava! Tudo mexia!

Tudo era uma imensidão: e nós, parados, estupefactos, de olhos abertos e alma encantada!

Fazia tempo que não víamos nada assim – se é que alguma vez vimos.

Caminhámos depois, para nos pormos à boleia. Eram 14:00h (GMT+8) e tínhamos 660 quilómetros para fazer. Mas parecíamos anestesiados: nada importava.

Olhámos deslumbrados a cada passo que demos. E escolhemos uma sombra, numa via rápida dentro ainda da cidade, para pousar as coisas e esticar a nossa placa; pouco depois de termos conhecido a primeira local que nos ajudou a retoca-la, por entre a nossa inexperiência com caracteres chineses. Ia por acaso na nossa direção, Urumqi, mas tinha o carro cheio.

Com a nossa primeira placa escrita em chinês, foi na estrada que passámos a tarde toda: e ninguém parou. Os carros, sem compaixão, passavam por nós, um por um; e seguiam, indiferentes à nossa presença.

E nas suas pequenas motas elétricas, iam parando pessoas na tentativa de perceber o que estávamos ali a fazer. A placa escrita, o dedo esticado, as mochilas no chão, não lhes dizia nada. Sem que conseguíssemos comunicar (literalmente), íamos dizendo “dabianche” da forma que sabíamos e lá iam entendendo que ali nos encontrávamos à espera de quem fosse na nossa direção.

Acabámos por fazer um amigo, professor em Pequim, e foi com ele que caminhámos e mudámos de lugar. O novo posto não era de uma melhoria significativa, mas quando estamos muito tempo à boleia, à espera e sempre no mesmo sítio, temos necessidade de mudar, de improvisar: de fazer acontecer!

Como se procurássemos livrar-nos das más energias que inevitavelmente se vão acumulando com o cansaço.

E fresquinhos na nova estrada, aproximou-se de nós um senhor, pelo seu próprio pé. Não lhe percebemos as frases, mas ficou a intenção. Descobrimos que ia na nossa direção por entre gestos e que para nos levar precisava de ver o nosso passaporte, para sua segurança.

Tirámos então as fotocópias que temos, e seguimos!

Seguimos juntos por toda a noite e sabíamos que haveríamos de chegar pela madrugada. A couchsurfer que nos iria hospedar, depressa avisou que a partir das 22:00h não poderia abrir a porta, e por isso sabíamos estávamos entregues a nós próprios à chegada.

Mas deixámo-nos ir! A viagem era longa o suficiente para não nos preocuparmos por antecipação, e deu ainda para, por entre um pequeno acesso à internet, percebermos que não sabíamos virar-nos sem o Google, sendo que estivemos longos minutos a pensar num motor de pesquisa alternativo.

O condutor, embora com a barreira da linguagem, mostrou-se sempre amável e muito educado, disponível e calmo. Sabíamo-nos em segurança e fomo-nos deixando dormir. Mas foi pelo caminho, ainda que de forma ilegal, que pediu que conduzíssemos por ele: uma verdadeira loucura face às regras de trânsito chinesas, mas não tão grave em autoestrada às 3:00h da manhã! E ainda que sempre com muitas instruções, lá aproveitou para descansar.

À chegada a Urumqi, por volta das 5:00h, deixou que ficássemos a dormir no seu carro, e foi só as 7:00h que nos foi chamar para nos levar a tomar o pequeno-almoço. Tipicamente chinês (percebemos agora) levou-nos a uma espécie de restaurante para pequenos almoços, que a princípio até pensámos que seria seu, uma vez que em plena sala de refeições começou a fazer a barba. Mas não. Meio às escuras, lá escolhemos o que queríamos comer; já eles, têm por hábito pedir uma espécie de sopa doce ou insossa, feita com feijão, milho, arroz ou millet (da qual não gostamos assim tanto) ou fritos. E comem tudo com pauzinhos, mesmo havendo colheres!

Foi então que depois nos levou a casa da nossa couchsurfer, onde passámos 3 noites. Uma família tipicamente Chinesa, com horários rígidos e muita disciplina. O filho, mesmo de férias, crescia de forma regrada, tendo horários para tudo: as 7:00h devia acordar, as 8:00h ler em voz alta um livro em inglês (repetindo as frases até as pronunciar de forma perfeita), às 9:00h acompanhar a mãe ao trabalho e lá ficar a estudar; as 17:00h regressar e ir jogar basquetebol, enquanto a mãe corrige os trabalhos realizados durante o dia; as 18:00h rever os trabalhos, as 19:00h tocar um instrumento, e por aí fora, todos os dias da semana. E em dia de festa, havia direito a ver um filme. Em casa, sem televisão ou internet, também eram vegetarianos.

Foi, para nós, um primeiro impacto muito agressivo. Sabíamos, de ouvir, da rigidez educativa, do sistema padronizado exigido, mas não esperávamos senti-lo tão de imediato. Não sabemos se será assim com todas as famílias, mas vivenciamos um bom exemplo com esta.

Mas marcou-nos a nossa estadia em Urumqi as pessoas com quem nos cruzámos nas ruas, que nos ajudaram de forma espontânea! No primeiro dia, depois de muito palmilharmos na procura de um banco para trocar dinheiro, fomos sabendo pelas ruas que havia apenas um banco na cidade habilitado para o fazer. Contudo, embora numa pequena cidade (com 3 milhões de habitantes), era difícil que a pé chegássemos a todo o lado; mas sem dinheiro trocado, era impossível que apanhássemos transportes. Assim, continuámos de banco em banco a tentar a nossa sorte, até que uma funcionária, num deles, falando umas poucas palavras de inglês, se juntou com os colegas para recolher as moedas que entre todos tinham, e nos ofereceu para que apanhássemos o autocarro necessário para chegar ao dito Banco da China, noutro lado da cidade. E ofereceu a mais, para o caso de necessitarmos.

Não sabíamos nem o que fazer com as mãos, estávamos incrédulos. E gratos!

Pouco a pouco, estávamos a (re)descobrir um povo: em Portugal conhecemo-lo na sua face discreta, pouco comunicativa. E era este o preconceito que trazíamos em nós.

Levámos depois várias horas até encontrar o dito cujo, o famoso banco. Encontrámos outros com o mesmo nome, que ou só trocavam dólares, ou não tinham posto de troca. Andámos às voltas, perdidos, rua para a frente, rua para trás, e de cada vez que pedíamos ajuda ou indicações, mandavam-nos para um ponto diferente e distante na cidade. Lá nos desenrascámos: com uma taxa de câmbio miserável, mas felizes ainda assim!

Recordamos então com muito carinho os primeiros dias em Urumqi, nomeadamente por termos ali descoberto uma nova China, uma China muito diferente e muito mais à frente do que poderíamos imaginar.

E embora cuspam para o chão, em todo o lado e sem rodeios; andem constantemente montados em motas elétricas, de buzina em punho e sem modos, ou façam do mandarim um bruxedo, não nos tentando sequer entender; vivemos encantados!

Também no segundo dia, quando perdidos pela cidade e sem saber que transportes apanhar até casa, fomos abençoados. A chuva batia forte, o calor deu lugar ao fresco que sentíamos nas pernas e por todo o corpo. O trânsito caótico, as buzinas e a confusão; tudo fazia para que o nosso discernimento estivesse condicionado. Pedimos então ajuda a uma jovem, que mesmo sem falar inglês se dedicou a tentar entender-nos. Com o auxílio do mapa, mostrámos-lhe para onde queríamos ir e depressa ligou para uma linha de informações de forma a saber que transportes e quais os seus números, e onde os apanhar, para nos levar de onde estávamos até ao nosso destino – casa. Depois, depois gesticulou para que a seguíssemos, alterou a sua vida, pagou-nos o elétrico e o autocarro e levou-nos até à porta do condomínio.

(Sim, por toda a China, não há prédio sem condomínio. Não cremos que seja por questão de segurança, porque por todo o lado o sabemos seguro. Mas confere alguma organização às cidades e, por norma, dependendo do valor, podem ter não só o estacionamento privado para o carro, como piscina, ginásio ou supermercado.)

Ficámos então sem palavras: não sabíamos como lhe agradecer, como demonstrar a nossa gratidão perante a sua disponibilidade e amabilidade.

Sorrimos. Agarrámos o peito e inclinámo-nos para a frente. E com o telefone mostrámos-lhe o Wechat: sorriu de volta e enquanto acenava com a cabeça e dizia “ah ah ah” (característico por aqui, em sinal de concordância!), deu-nos então o seu contacto. Agradecemos mais tarde por escrito, porque uma das maravilhas deste Wechat (uma aplicação equiparada ao Whatsapp ou Viber), é que permite de forma automática a tradução entre inglês e caracteres chineses, simplificando a vida de todos!

Tivemos também na cidade o prazer de jantar com um couchsurfer que, embora não nos tenha podido hospedar, nos proporcionou a experiência de novos sabores vegetarianos pela cozinha chinesa – uma verdadeira delícia!

Pelas noites que ali passámos, tentámos recuperar juntos de uma pequena gripe, estado febril que só um pouco atrapalhou. Mas foi ali também que dormimos separados, por imposição de quem nos hospedou. Não que tenhamos compreendido o porquê, mas coube-nos respeitar: e palpita-nos que tenha a ver com a rigidez imposta ao filho e a algum exemplo que queira dar, mas isto nunca saberemos.

Já ao quinto dia, seguimos para Hami, uma cidade a 500 quilómetros, ainda na mesma província.

Deram-nos boleia dois carros, na tentativa de nos colocar num melhor lugar para apanhar uma boleia direta, o que não aconteceu. Houve muito quem parasse, quem nos abordasse e não escondesse a curiosidade. Tentaram também falar-nos e explicar várias coisas, mas o discurso exclusivo em chinês impediu qualquer comunicação. Mas até dinheiro nos quiseram dar.

Quando apanhámos a terceira boleia do dia, de uma mulher, ficámos na autoestrada, num lugar à partida melhor, ainda que proibido por lei para caminhar. Contudo, o sol levou muito pouco até se pôr, o que na província em questão se dava depois das 22:00h. Era tarde. Estávamos cansados e já pouco crentes. Mas continuávamos atentos a quem por nós passava, enquanto erguíamos já a bandeira de Portugal para chamar à atenção dos mais distraídos.

Até avistarmos a polícia.

Estremecemos. Assustados! Sem sabermos bem qual a consequência de estarmos ali à boleia.

Pararam o carro ao nosso lado. Luzes acesas a piscar (o que faz parte da China). E saíram para nos abordar.

Sorriram, sem que o esperássemos! E por entre abraços, diziam “Putauia! Cilo!“.

Tinham reconhecido a bandeira de Portugal, e diziam em Chinês exatamente isso, “Portugal! Ronaldo!” – Sim, por aqui traduzem tudo! Seja nomes próprios ou palavras que diríamos universais.

Ofereceram-se então para nos dar boleia por 100 quilómetros e foi quando chegámos ao posto de polícia seguinte (dentro da autoestrada, o que é por aqui comum após cada portagem), que nos disseram que era tarde para continuarmos à boleia, oferecendo o jardim para montar a tenda.

Assim o fizemos, de forma luxuosa, com Wi-Fi e wc neste nosso “parque de campismo”! E, na manhã seguinte, não só acordámos com um esquilo à janela, como com um pequeno-almoço e muitos sorrisos! A polícia, doce, descansou-nos e prometeu-nos que nos arranjaria uma boleia direta. Estávamos pouco crentes, mas assim o fizeram, mandado parar os carros um por um. Indescritível!

Muita bondade!

Quem nos levou, ofereceu-nos pelo caminho um almoço típico e deixou-nos já à noite onde nos pudemos encontrar com um amigo da irmã de quem nos ia hospedar. A história é confusa, mas muito bonita: uma couchsurfer, a Tina (nome por ela escolhido) a estudar noutra cidade, tratou de falar com um amigo de infância e com o irmão, para que um nos fosse buscar e o outro, mesmo estando a trabalhar, nos hospedasse. E assim aconteceu!

Na manhã seguinte, e depois de nos termos dado tão bem, foi buscar-nos novamente o melhor amigo que se ofereceu para nos hospedar por uma noite mais, para que passássemos esse dia juntos. E assim fizemos, com muita amizade e aprendizagem à mistura.

Pela cidade, não só vivemos templos antigos, como até à bola deu para jogar. E pelas ruas, assistimos também à vida na sua verdadeira essência asiática, começando pelos homens com as camisolas arregaçadas para cima e de umbigo à mostram, e terminando com a cultura das bebidas, que sejam estas quais forem, devem ser quentes, por questão de crença na saúde. Quanto à água, talvez ajude também o facto desta não ser potável, o que leva a que muitas famílias a fervam. Desta forma, com um Chinês anda sempre uma garrafa de vidro.

A noite em Hami terminou então com amigos, numa ida a um grande hipermercado (coisa que não pisávamos há já muito tempo!) e num grande jantar por nós cozinhado! Que delícia!

No dia seguinte, foi então dia de partir para Jiuquan, agora sim numa nova província! O caminho correu sobre ouro: apanhámos ainda em Sami uma boleia de 3 polícias à paisana e, chegados ao seu posto, trataram de nos arranjar uma outra boleia direta. Ofereceram-nos dois banquinhos para que esperássemos sentadinhos, e foram parando todos os carros até encontrarem o tal.

Chegámos já perto das 21:00h e foi-nos receber à estrada o nosso couchsurfer. Apressou-se depois a convidar-nos para jantar, numa mesa farta e recheada de iguarias típicas e vegetarianas, de entre as quais, sopa de noodles e cogumelos, tofu transparente picante, feijões crocantes assados em palitos, e umas tantas outras. Para acompanhar, chá e leite de amêndoa. Não saímos de lá a rebolar, mas pouco faltou. E, também no restaurante, vimos foi outros sair em braços, de tão bêbados que estavam.

À caminha chegámos já fora de horas, cansados, mas de barriga cheia. No conforto dos lençóis e do quarto mais fresco, deixámo-nos dormir. E sonhar.

E foi por isso que, na manhã seguinte, nem os raios de sol nos despertaram. O sono era profundo, e nós (que nem gostamos nada de dormir), fomos levados pela sensação de bem-estar que temos ao descansar.

Mas tínhamos de partir, e sabíamo-lo muito bem.

Era então novamente mais tarde que cedo quando chegámos à estrada que desejávamos, depois de em pleno centro da cidade nos termos posto à boleia. E tivemos sorte; parou uma senhora e a sua filha, com as quais nos comunicámos através do tradutor do telefone.

Já à entrada da autoestrada tivemos de ser mais pacientes, levou tempo. Mas antes de passar a portagem, por entre os carros parados, um jipe abriu a janela e apontou para um outro jipe mais à frente, que depressa nos acenou.

Era um JEEP, robusto e azul vivo. Eram dois rapazes. Fumavam ambos, mas nunca dentro do carro: e ainda bem, porque se havíamos curado um estado febril, agora havia tosse e dor de garganta que nunca mais acabava (o costume: quem nos conhece até se deve perguntar como é que foi só agora a primeira vez; mas isso só agradecendo ao “nosso” Homeopata que, da ultima vez, pôs isto nos trinques!).

Seguimos então juntos, com eles e com todos os amigos que seguiam em carros separados. E, quando pelo caminho pararam para partilhar uma melancia, com a ajuda de uma jovem lá nos fizeram chegar a mensagem de que, embora não tivessem primeiramente planeado passar pela cidade para onde nós íamos, tinham alterado o roteiro do dia para lá nos deixar. Estava um dia chuvoso: ficámos tão agradecidos.

Já na cidade de Lanzhou, esperaram que o nosso couchsurfer, o John, fosse ao nosso encontro. A chuva caía intensa e a noite era escura, mas ele lá apareceu, magrito, todo molhado e recheado de energias! Boas energias!

Trazia um sorriso no rosto, de orelha a orelha! Ajudou-nos a despedir de quem nos havia dado boleia e seguimos a pé até sua casa!

Quando lhe escrevemos através do couchsurfing pela primeira vez, contámos a nossa história numa versão muito breve. Quando o John nos respondeu, a mensagem vinha do coração: queria muito hospedar-nos, conhecer-nos e conhecer aprofundadamente o nosso caminho; mas a casa onde se encontrava, era uma casa antiga, num prédio antigo. Um apartamento sem cozinha, sem casa de banho, sem chuveiro. O fogão ficava no corredor, mesmo à porta. Era um bico elétrico, por cima de um armário pequenino. A casa de banho, era comum ao andar, feita de 3 latrinas sem divisória e um lavatório comprido. Chuveiro, não havia em lado nenhum.

Aceitámos, mesmo perante a descrição. E quando chegámos, sabíamos já ao que íamos. Deu-nos o que tinha, inclusive a sua cama. Mas não foi fácil. A tosse era muita, o cansaço também, e no momento da chegada, foi um misto de emoções; a gratidão era óbvia, mas jazia em nós ao mesmo tempo a petrificação perante a condições (in)existentes.

Lidamos de forma diferente com isso, e temos uma maturidade diferente perante a dificuldade. Ou mesmo que não seja uma dificuldade, uma expectativa incumprida. Ou uma adversidade. Como a ter de se sair de casa durante a noite para se ir à casa de banho. Mesmo já sabendo que assim o seria.

Mas é no abraço um do outro que nos consolamos. Que crescemos. Que nos acalmamos.

É juntos, e depois do estado de exaltação, na paz, que nos curamos, nos ajudamos. Nos tornamos melhores.

E custa, custa sarar na diferença.

Também hospedados em casa daquele que se tornou um amigo, o John, ficou um casal russo, com quem partilhámos os dias que se seguiram e as noites mal dormidas graças a uma tosse desmedida.

Tomámos banho ora de alguidar, ora em casa de uma prima; e foi o pai do John que todas as noites nos preparou um jantar maravilhoso e típico, no seu modesto fogão de corredor. A loiça, lavámo-la no lavatório grande e comum da casa de banho do piso; e num instante nos habituámos a viver assim. Felizes com tão pouco, e com tanto ao mesmo tempo!

E já no último dia, almoçámos uns noodles de vegetais, com picante de cortar a respiração, com pauzinhos e até não caber mais. Confessou-nos o John, por entre o seu olhar malandro, que dizem sempre os locais que comem alho cru com as refeições por fazer bem: mas não é essa a principal razão. Comem o alho sim, para desinfetar o organismo – “Vocês sabem, os restaurantes aqui na China não são assim tão limpos”, dizia no seu inglês perfeito, após 4 anos a viver em diferentes países em África.

E, pouco a pouco, entregámo-nos à vida por aqui. Uma vida apaixonante.

Também antes de irmos embora nos ofereceu um xarope natural para a tosse: não sabíamos de que era feito, se nos faria bem ou mal, se era bom ou mau. Mas, sob a regra do “faz como vires fazer”, aceitámos, sabendo ser feito apenas com plantas, sem químicos.

(Podemos adiantar que a melhoria não foi imediata, não ocorreu no próprio dia. Mas aconteceu. E, sem recorrermos a nenhum dos medicamentos que trazemos por prevenção na mala, ficámos felizes por termos dado tempo ao tempo e tempo a um produto natural para nos tratar.)

E partimos então, depois de 12 dias na China, para Xi’an. Estávamos desejosos por lá chegar: íamos encontrar e ficar com os primeiros portugueses desde França. Íamos poder deixar a roupa de inverno.

Íamos poder conversar até mais não!

Saímos então cedo, e fizemo-nos à estrada com os nossos companheiros russos. E, só à entrada da autoestrada nos separámos. Ali, ficámos menos tempo do que o esperado, e apanhou-nos um jipe com uma família amorosa. Viajavam novamente mais, mas em carros separados. E aceitaram levar-nos.

Fizemos muitos quilómetros juntos, ainda; mas foi quando nos deixaram na cidade em que pararam para almoçar, que o pânico se instalou. Com um grande enxame de abelhas por toda a zona das portagens e entrada da cidade, víamos as pessoas correr apressadas e assustadas, cobertas com casacos e de rosto escondido.

Mas, nós, carregados com 3 mochilas, um saco de tralhas enorme e pesado, mais um garrafão de água acabado de nos ser oferecido, parecíamos lesmas. As abelhas chocavam (literalmente) contra nós à medida que andávamos. Eram tantas e voavam de forma tão perdida no espaço, que não havia ordem possível.

Era correr, fugir, tentar escapar.

Mas se um de nós estava calmo e sereno, a apreciar a loucura; o outro estava em estado de alarme e de lágrimas nos olhos. Nem a palavra pânico o conseguiria descrever na perfeição.

E enquanto fugíamos perante a nossa lentidão, fomos picados.

— É engraçado, só um de nós foi picado, só um de nós teve febre, só um de nós teve tosse. Mas “fomos”, “temos”, “somos”. É isso, somos um só. —

A dor da picada era de congelar o cérebro, mas não havia tempo a perder, nem para tirar o ferrão, nem para lavar com água ou pôr uma moeda. Com isto, caminhámos até onde nos sentimos seguros, mas em contrapartida até onde seria muito difícil conseguir uma nova boleia.

Passámos ali grande parte da tarde, sempre atentos a todos e quaisquer bichos voadores. E só quando a polícia passou uma mangueira pelo ar na zona das portagens, diminuindo significativamente a quantidade de abelhas no ar, nos atrevemos a chegar mais perto. E foi aí que as meninas da brisa (ou equivalente) nos ajudaram a parar os carros até encontrarmos alguém que nos deixasse mais à frente, numa estação de serviço. E assim foi, tão rápido!

Já na estação, estava a anoitecer a olhos vistos. O sol descia sem licença, no horizonte. E a luz era cada vez menos. Mas mesmo a tempo, parou um jovem casal, que ia praticamente na nossa direção. E já quase às 23:30h, acabaram por nos levar à porta de casa, em Xi’an.

Saídos do carro, o bafo foi imediato. Um calor insuportável, com uma humidade elevadíssima. Impossível parar de suar ou respirar com tranquilidade. Nunca tínhamos sentido nada assim, nunca! E assim foi em todos os dias da nossa estadia: adormecer e acordar suados. Lençóis molhados, roupa molhada: e não adiantava secar depois do banho, o suor voltava no mesmo instante.

Da nossa estadia, guardamos com carinho os novos amigos portugueses que fizemos e que esperamos reencontrar um dia por ruelas de calçada. Guardamos também tudo quanto visitámos, o templo Bell Tower, a Muslim Street, ou a escolinha de futebol do Figo. E, para sempre, o aniversário do mês: 20/8: não é todos os anos que se está na China a comemorar 26 primaveras!

Refeitas as malas, com menos 10 quilos por certo, seguimos viagem. Não que tenha custado, mas quando paramos mais dias num só lugar, também nos sabe tão bem, que depois sentimos algum atrito para voltar à estrada. Podemos dizer que nos deixamos habituar ao conforto do lar e damos asas à preguiça. Mas não pode ser: há um mundo há nossa espera!

Fomos então para Zhenzhou e lá chegámos já de noite e após 5 boleias, não tão difíceis de apanhar pelo chinês que começámos a dominar. Pelo meio, numa delas, acabámos por sair do carro por não conseguirmos comunicar com o casal que nos levava: nada de mal aconteceu ou se previa, mas é muito difícil quando assim acontece. Nem as pessoas se conseguem explicar, nem nós.

Encontrámos então a Tina, a couchsurfer que em tempos nos havia ajudado. Hospedou-nos na universidade onde estuda e onde vários estudantes, mesmo de férias, passam o seu tempo. Das salas de aula fazem salas de estudo e dormitório, mesmo que sem cozinha ou chuveiro. Uma vez mais adotámos a técnica do banho de alguidar e fomos felizes e lavadinhos assim!

Partilhámos de noite, os dois, um sofá no escritório de uma professora, e na manhã seguinte levou-nos a Tina e os seus amigos a tomar o pequeno-almoço à cantina. Passava pouco das 7:00h e o movimento era já mais que muito.

Palmilhámos o seu campos universitário e também o de Medicina Tradicional Chinesa, onde nos deixámos encantar com os lagos e os seus nenúfares perfeitos.

Perto das 11:00h e antes de nos deixar seguir para a próxima cidade, levou-nos a almoçar a um restaurante e a provar comida local: sopa de milho doce, tofu mole com ovos pretos ou batata frita quase crua. Embora tudo muito estranho para o nosso paladar, tudo delicioso. Mas o mais gratificante, os rituais à mesa: pedem pratos sem fim, não um por pessoa. Depois, nas mesas circulares, fica o manjar no meio e rodam entre todos. A loiça vem “embalada” após lavada, com um rótulo de desinfeção; ainda assim, quando chega a água fervida à mesa (a que bebem também), lavam a loiça peça por peça; e a água que sobra desta bagunceira, atiram para o chão, para um canto da sala. Ah, sim, porque embora haja uma sala ampla onde se pode almoçar com outras pessoas (no registo de restaurantes que conhecemos), há também salas privadas com uma só mesa. O que levam à boca mas não conseguem comer, vão cuspindo para o lado do prato, para a mesa. E em poucos minutos, está instalado o caos numa mesa de restaurante, entre guardanapos amachucados, comida cuspida, restos ou plásticos das embalagens da loiça. Pelo meio, embora nunca tenhamos visto fazerem-no para o chão, puxam o catarro e, ou vão lá fora cuspir, ou fazem-no ali para um guardanapo.

Também fumam em todo o lado, e em todo lado cheira a Martim Moniz, seja restaurante ou loja de conveniência. É a China.

Mas é nas ruas e nos mercados recônditos que encontrámos as iguarias mais estranhas e penosas: aranhas, baratas ou escaravelhos fritos, petiscos de escorpião ou patinhos bebés assados. Vale tudo. E dizem entre risos, comem tudo o que tenha pernas, menos mobílias.

Seguimos então para Shijiazhuang, depois da Tina nos ter ido ainda comprar um enorme farnel ao supermercado do campos universitário. Um verdadeiro anjo!

Fizemo-nos então à estrada sem que o cobrador da portagem nos tenha propriamente ajudado, depois de nos impedir que passássemos dali em diante.

Mas correu tudo pelo melhor e, embora tenhamos chegado já de noite, chegámos bem e felizes, depois de 3 boleia diferentes, até casa da nossa nova couchsurfer.

Na verdade, hospedou-nos por dois dias num escritório de família, agora vazio, num imponente edifício na cidade. Com uma vista estrondosa do andar em que ficámos, dormimos em duas marquesas que juntámos lado a lado, sob as luzes da noite. Sem chuveiro, adotámos de novo a nossa técnica do alguidar; e sem cozinha desenrascamo-nos sem grande atrapalhação. Contudo, convidou-nos pelo meio a tomar banho na sua casa (onde realmente não teríamos condições para pernoitar).

Ainda em Shijiazhuang, tivemos a sorte de conhecer e travar amizade com dois portugueses e a família de um deles. Ambos a trabalhar já há algum tempo na China, permitiram-nos a abordagem a esta cultura de um novo ponto de vista. Do dia que passámos juntos, recordamos todas as partilhas, passeios, sorrisos e gargalhadas, e também um delicioso jantar. É assim, sem querer, que se tropeça nas gentes da nossa terra: gentes boas de conhecer, que nos confortam tão longe de casa.

Mas sem que nos possamos esquecer, foi também juntos que vivenciámos mais um momento hilariante. Foi à saída de um centro comercial, grande e afamado no centro da cidade, que à porta sentimos pingos nos pés. Incrédulos com a possibilidade de ser chuva, olhámos em volta: e para o canto de uma das grandes portas do centro comercial, estava uma criança dos seus 12 anos a urinar.

Incrível, não é? Mas é mesmo assim. Não interessa que dentro do centro comercial haja casas de banho com fartura. Não importa que rua sim, rua não, haja um sinal a indicar uma casa de banho pública (dizendo até “public toilet” – sendo estas por norma um espaço com várias latrinas, mas sem divisórias, o que torna o momento íntimo num momento de confraternização, com a maior das naturalidades). Prevalece a vontade, o desejo e a falta de higiene. Também já assistimos a crianças com as suas calças cortadas/rasgadas por entre as pernas (como aqui se usa), agachadas em qualquer passeio a fazê-lo sem rodeios, ou mães a segurar os bebés para o fazerem para um caixote do lixo ou lavatório. Não limpa, sacode, e continua caminho.

E também nós acabámos por continuar o nosso caminho, depois então até Pequim, onde chegámos cedo. Pouco passava da hora de almoço, mesmo com um trânsito infinito para entrar na cidade. Enorme, recheada de grandes prédios, grandes edifícios, grandes estradas, que se cruzavam entre si e pessoas. Muitas pessoas.

Na China nunca estamos sozinhos. Muito menos em Pequim.

Aproveitámos então para procurar um grande supermercado, de forma a comprar água e alguns legumes. Muito embora a nossa escolha recaia sempre sobre comprar a locais, em mercados, na China os hipermercados têm uma característica que não podemos negligenciar ou ignorar: têm caixotes com legumes e frutas que já ninguém compra, por estarem feios ou maduras, a menos de metade do preço. E se por um lado queremos sempre ajudar os locais, por outro não podemos compactuar com o desperdício alimentar. Por isso, em Pequim, agimos assim. Mais tarde, em cidades mais pequenas, encontrámos também pequenas lojinhas com esta opção, e aí foi aos nossos queridos velhotes a quem comprámos.

Mas em Pequim a loucura foi imensa, porque também a comida feita de fresco tinha este tipo de promoção ao final do dia, o que nos deixou de barriguinha cheia, com bolsos ainda cheios 🙂

Seguimos depois para casa da nossa couchsurfer! Sabíamos que dominaria inglês, por ter já feito Erasmus, o que nos deixou ansiosos no entender de algumas tradições! Fizemos então do final do dia, madrugada, e conversámos a gosto:

Mais que não seja no que respeita a coisas simples, como o casamento ou um funeral, sabemos que as diferenças são sempre mais que muitas, e por isso aproveitámos também para satisfazer curiosidades antigas.

Quando morre um familiar, a tradição mais antiga exige que se leve o corpo para uma montanha: lá, no cimo, ao ser devorado por um animal, o seu espírito será elevado.

Não tão apreciado por parte do povo é a postura do governo. Assumidamente comunistas só de nome, contudo, são proprietários legais das casas outrora por alguém compradas, após 30, 45 ou 70 anos, em função do que se pague. E, importa salientar, valem muito dinheiro.

Mas o mais engraçado foi perceber que, para um chinês, a Europa é a referencia no que respeita à segurança. Contudo, na China não há assaltos à mão armada e a segurança é elevadíssima.

E assim, dormimos juntinhos e satisfeitos, como se não houvesse amanhã. Cansados no corpo, mas muito despertos na alma.

O segundo dia em Pequim foi mais burocrático, mas sem sucesso face ao que pretendíamos. Voltando à saga dos vistos, gostaríamos de pedir uma nova entrada no nosso, de forma a podermos visitar Macau e a voltar à China, para entrar por terra no Vietname.

Fomos por isso para a polícia tentar a nossa sorte, que se revelou um azar. Embora acreditemos que nada acontece por acaso, foi um desolo ver que se limitavam a abanar a mão perante os nossos pedidos.

Ouvimos por aí dizer que a lei é sempre passível de “alterar”, que na China depende sempre da vontade de cada um, e da carteira de todos os outros, e que, prova disso, seria que nunca deveríamos tentar tratar de papelada à hora de almoço, fecho do dia ou sexta-feira à tarde. Demasiadas restrições para sermos os sortudos. E enfim, difícil se revelou. Quando pedimos uma solução, sugeriram que “googlássemos” – estando o Google bloqueado na China!

Visitámos então a cidade nas redondezas e deixámos o assunto amornar. Tentámos ainda planear a nossa ida à Muralha da China, mas acabámos por deixá-la para um dia depois, de forma a encontrarmos um programa alternativo ao habitual turista.

E assim, fomos pela primeira vez a um “Fake Market”, no caso o Pearl Market mesmo em frente ao Temple of Heaven , o que foi uma verdadeira loucura: se por um lado nos estavam constantemente a puxar e a impingir coisas, por outro nunca pensámos poder ver tanta coisa junta, falsa ou fruto de contrabando, passível de ficar a tão baixo custo! É o capitalismo chinês – que é até muito interessante: na China, criam tudo mais barato, por certo com menos qualidade, mas assim acessível a todos!

Visitámos ainda a praça Tianamen e terminámos a noite com o primeiro amigo que fizemos na China, em Khorgos, na fronteira com o Cazaquistão, onde estava de viagem. Acabou então por nos levar a um restaurante 100% vegetariano, onde nos deixámos deslumbrar com o menu. Novamente, e tipicamente à chinesa, depois de escolhermos os nossos pratos, mandou vir mais dois ou três, que partilhámos de bom agrado! Era comida europeia, mas em tom de partilha: tínhamos já algumas saudades (porque um falafel cai sempre bem 🙂 ).

Acabámos então por no dia seguinte madrugar e seguir para um trecho da muralha mais afastado, em Mutanyau. Saímos cedo. Não estava frio, mas sentíamos nos braços aquela humidade da manhã.

Ao contrário do habitual em Pequim, o céu estava azul, limpo e o sol brilhava. Parecia um dia escolhido a dedo para visitar a Grande Muralha.

Fizemo-lo por nós próprios, e embora não tenhamos escolhido a zona perfeita (por ser turística) ou o timing perfeito (por ser um domingo de verão), conseguimos fazê-lo por 70RMB, menos de 10€, os dois. E não foi difícil, exigiu apenas planeamento e corda nos sapatos!

Fomos de autocarro até à cidade mais próxima e, após duas horas, quase à chegada, tentaram enganar-nos. Trazíamos já a lição estudada, tínhamos já lido sobre isso e estávamos de sobre aviso. Ainda assim, foi chato e constrangedor; muito embora tenhamos de tirar o chapéu à genialidade da manha. Ora então, já perto do destino, mas ainda a uns quantos quilómetros da chegada, numa das paragens do autocarro, entra um sujeito pela porta traseira e grita “Great Wall, it’s here!”, e quando no seu olhar nos avista, fá-lo ainda com mais esforço “Go down, you! It’s here to go to the Great Wall”. E perante a nossa calma e passividade, gritou ainda mais e mais alto, até que nos sentimos obrigados a dizer que sabíamos muito bem onde deveríamos sair. E agradecemos. Com isto, o plano é que os turistas depois de tanto tempo de autocarro, agradeçam a ajuda e desçam ali mesmo. Contudo, ali, não havendo mais nada, e estando ainda longe da entrada da muralha, têm de apanhar um táxi (com o sujeito que as incentivou a descer). E assim vão enchendo os bolsos!

Por fim, chegados nós ao local correto, conseguimos comprar os dois bilhetes como sendo estudantes (exigem apenas que o cartão tenha fotografia e por isso limitámo-nos a ser criativos!) e logo depois subimos montanha a pé em vez de pagarmos pelo famoso ShutleBus. À chegada ao topo, e início da zona turística, apresentámos os bilhetes e subimos até à famosa e grande muralha a pé, em vez de pagarmos pelo teleférico.

E, adiantamos que, embora se faça em menos de duas horas e seja doloroso para as pernas, vale a pena! Vale a pena o cansaço e o prazer de chegar. Vale a pena o caminho e o desfrutar da ansiedade. E, à chegada, o gosto é outro!

É linda. Infinita. Imensa! É majestosa. É imponente.

Gostámos tanto de a ver pela primeira vez!

Caminhámos pela muralha tanto quanto conseguimos, quanto os nossos sonhos desejaram.

Fotografámo-la. Admirámo-la. Sentimo-la.

E ainda lá em cima, fizemos um dos nossos habituais pic-nic, saborosos e distintos, sob o olhar atento de todos os que por nós passavam.

Voltámos depois para a baixo, novamente a pé, já mais mortos que vivos, e sempre de dedo esticado. Apanhou-nos então um taxista só até à estrada principal. E lá, minutos depois, apanhou-nos um casal. A troco da ainda longa boleia, sugeriram que jantássemos juntos: e podemos partilhar que foi um dos jantares mais épicos de sempre! HotPotHot, o nome do restaurante, inserido num hotel. Uma loucura. Gigante, imenso; buffet livre de bebidas e comida. Cada um com o seu “pote” de água temperada sempre a ferver, pudemos escolher por entre as mil iguarias o que queríamos comer e cozinhar: trinta tipos de cogumelos, tofu, vegetais, legumes, enfim. Uma panóplia infindável. E também com pratos já cozinhados. Um sem fim de coisas vegetarianas e de-li-ci-o-sas! Com
frutos tropicais e até pastéis de nata! Escusado será dizer que até nos custou depois a adormecer.

Quando acordámos estavamos já há 4 dias em Pequim e o combinado era trocarmos de casa. Fomos assim para casa da Rafaela, uma portuguesa que ouviu falar de nós através de um grupo no Wechat, casada com um Japonês e com dois filhotes nascidos na China: uma doçura!

Um lar! Num ambiente calmo, descontraído e em paz. Numa casa acolhedora, com uma decoração linda e chão de madeira!

Tanto foi, que acabámos por ficar mais uma noite, com a oportunidade de dar uma entrevista muito especial para o “Diário do Povo”, um jornal que publica em português e em chinês.

Fomos também ainda a um mercado de rua, “Wangfujing”: com animais muito estranhos, as iguarias eram as mais variadas. Da centopeia ao gato, do escaravelho à vaca, havia de tudo. Uma dor na alma.

Nenhum animal merece ser criado, explorado e/ou morto para satisfação de cada um de nós. Sabemos hoje que temos alternativas completas a nível nutricional e de cosmética, não sendo justo que olhemos para um cão ou um gato, de forma diferente daquela que olhamos para uma vaca ou um coelho. Nem que desvalorizemos um escorpião ou uma estrela do mar. Merecem todos o nosso respeito. E não culpemos a cultura, não responsabilizemos a nossa história pelo nosso egoísmo. Estamos sempre a tempo de mudar, de ser melhor. #govegan

Terminámos então o nosso dia a apanhar de um caixote do lixo um (literal) caixote de fruta. Boa! Que vimos ser largado por uma senhora da frutaria da rua por onde passávamos. Pêssegos. Meloas. Maçãs. E uvas. Tudo bom! Mais maduro, menos maduro, depois de lavado, nem queríamos acreditar!

E no nosso dia extra, fomos também a um mercado de cultura tradicional chinesa, “Panjiayuan”, com antiguidades do tempo do Mao Tse Tung. Um mundo sem fim, tradutor de muito daquilo que se encontra pela rua. Marcante, as pinturas de caracteres chineses e a ambição das pessoas por nozes simétricas e pedras “preciosas”, que vimos atingir valores inimagináveis.

Saímos de Pequim no nosso vigésimo quatro dia de China e, ainda assim, com a sensação de que poderíamos passar outros tantos só ali e não conheceríamos tudo! Pequim é realmente encantadora!

E na manhã seguinte, conseguimos então boleia para Zibo: uma boleia direta mas que nos deixou à entrada da cidade. Cansados, enquanto caminhávamos sem alternativa, parou um senhor que nos quis levar até casa. Amoroso, não descansou enquanto não nos viu acomodados. Aqui, ficámos com duas estudantes russas e um gatinho escanzelado, recém resgatado. E por entre pulgas, repusemos as nossas energias para partir no dia seguinte.

Metemo-nos à boleia para Yangzhou e lá chegámos já de noite, depois de 5 boleias. A última, foi com três jovens que iam para Xangai, mas entraram na cidade, com um pequeno desvio, só para nos deixar perto de casa! Mas foi ainda no caminho que assistimos ao mais hilariante: testes de alcolemia realizado sem equipamentos! O polícia mandou parar, o condutor abriu o vidro e em pleno trânsito teve apenas que soprar, soprar com muita força, para o nariz do senhor agente. Este cheirou, e em função da sua percepção, mandou (ou não) avançar! E como esta, há muitas outras situações das quais nunca nos lembraríamos e perante as quais ficamos estupefactos.

Enfim, ao ponto de encontro, chegou o nosso couchsurfer, orgulhoso por nos estar a ir buscar, com um sorriso de orelha a orelha, levou-nos até casa. Lá, esperavam-nos a filhota e a esposa, que se mantinham acordadas para nos esperarem!

Por ser professor de inglês num escola pública, convidou-nós a conhecer os seus alunos na manhã seguinte. Tomámos então o pequeno-almoço na cantina do liceu: leite de soja (que aqui é mesmo natural, sem sequer adoçantes! Resta saber a origem desta soja…..) e “mandô”, uma espécie de pão de arroz muito fofo, com coisas dentro, como pasta de feijão ou legumes.

Na sala de aula, dá-se início aos trabalhos às 8:00h. Lêem, os alunos, em conjunto o mesmo texto, em voz alta, seja sobre ciências ou química, em chinês ou inglês. Fazem do ruído da escola um verdadeiro eco, com a crença profunda de que este é um método educativo relevante. Depois então, as 8:30h, começam a sério. Soubemos também que as aulas não têm hora de terminar, terminam apenas e só quando o trabalho está findo. E ainda, que os alunos são extremamente disciplinados é bem educados.

Pelo restante dia, passeamos pela cidade, completamente derretidos pelo sol que se fazia sentir. Um calor insuportável. E à noite, fizemos um jantar em casa de outra amiga, também professora de inglês: mas que curiosamente não sabia falar inglês, necessitando de tradução de praticamente tudo quando falávamos.

Frescos, na manhã seguinte, seguimos para Suzhou, uma cidade pretinha e a que todos teciam grandes elogios. Apanhámos uma boleia direta, com um jovem ligado à moda e que acabou por nos oferecer um pulseira com pedras ligada ao budismo. À chegada, ainda um pedacito longe, caminhámos até casa do nosso couchsurfer, que acabou por nos encontrar pelo caminho. A casa, uma grande vivenda, ficava num lindo bairro e lá vivia com a sua esposa e o seu filho. Ele, muito mimado, tal como os próprios pais assumiram, por ser filho único e muito desejado. Abria a boca e os pais já estavam a correr na sua direção. Gritava constantemente e cada atitude deixava muito a desejar, tendo em conta os seus já 10 anos.

Pela cidade passeámos, mas esta ficou aquém das nossas expectativas. Muito aquém.

E ao nosso trigésimo dia na China, partimos para Xangai, desejosos de conhecer a cidade maravilhosa! Chegámos cedo, ainda perto da hora de almoço, com 2 boleias. Deixou-nos a última perto do pequeno aeroporto da cidade e apanhámos depois o metro até chegarmos a casa de um amigo de velhos tempos, a trabalhar na cidade. Os transportes, uma verdadeira loucura, com dezenas de linhas, identificadas por números e não cores, com saídas identificadas também com números e não letras, como em cidades mais pequenas; deixaram-nos boquiabertos. Ainda no metro, enquanto este se encontra em andamento, é pelas janelas que se vê publicidades tipo filme. Uma loucura! E aproveitando ser ainda cedo, conhecemos a zona junto ao rio, com vista sobre as grandes e majestosas Torres de Xangai.

Por todas as noites, fomos hospedados por um português carismático, através da sua namorada que em Portugal e desde o inicio acompanhou a nossa aventura! Ele, com uma história de vida multicultural, fez da sua casa, a nossa própria casa.

Durante a nossa estadia, fomos no primeiro dia à polícia (novamente na esperança de obter uma nova entrada para a China, de forma a visitarmos Macau) e a um dos grandes fake Market, onde à porta encontrámos uma lista de marcas não passíveis de contrabando. Todas as outras existentes são então comercializadas, como é o caso da Nike, Converse, Apple ou Dior. Encontra-se de tudo: de malas, a ténis, tabletes, telefones ou relógios, roupas, mochilas.. Enfim. Os preços são feitos pelo cliente, e a negociação é a chave do negócio. All Star, Converse, vimos começar em 600RMB (80€) e terminar em 50RMB (7,5€), reflexo do monopólio existente. Mas contam os locais que há americanos que vêm e compram praticamente pelo preço inicial proposto, permitindo que o lucro seja exorbitante!

Já no segundo dia, conhecemos uma zona tradicional, com templos e casas antigas. E depois de num grupo do Wechat, termos chegado a uma Portuguesa, a Maria, tratámos de encontrá-la com muita ansiedade. Ia voar de Lisboa, e aceitou com a maior das generosidades trazer-nos uma mala com algumas roupas e mimos da mamã. E após grande emoção entre a sua chegada e a chegada das malas, chegou então o momento de ir a sua casa buscar o nosso azeite e afins: era meia mala das grandes, cheia de coisas boas (e também coisas a mais – ou não tivesse sido uma Mãe a enviar o pedido)!

A Maria foi aquela pessoa que fomos conhecer sem expectativas e que guardaremos para sempre no coração. Fala com a alma, e viaja apaixonada, como nós, sempre que pode. Ficou em nós a sua simplicidade e simpatia, e o desejo de a voltar a encontrar em breve. E em qualquer parte do mundo, saberemos que estará a ser contagiada e a contagiar, com o seu sorriso no rosto e doçura no olhar.

Ainda durante a nossa estadia, fomos conhecer a “nova Xangai”, completamente modernizada, limpa. E chique. Com prédios altíssimos, zona de altas marcas e grandes lojas, como Prada ou Gucci. Hotéis de luxo e restaurantes caríssimos, mas subimos sorrateiramente a um dos prédios mais altos, e conseguimos ainda assim, e de fugida, ver a vista lá de cima.
De tarde, perdemo-nos por bairros antigos e jardins de bambus. Acabámos o dia na zona M50, alternativa e recheada de arte, num reencontro com a Maria e uma nova amiga, a Carol.

Não diferente de todas as outras cidades da China, vimos pelas ruas e assim que o sol de pôs grupos de pessoas a dançar, ao som de baladas típicas, sem que se consiga identificar quem é o mentor da aula. Com mais ou menos dificuldade, todos tentam praticar o seu desporto e são bem rígidos perante os seus objetivos.

E assim vivemos o nosso primeiro mês na Ásia, na China! Mas não nos deixámos abrandar: de Xangai, seguimos para Hangzhou, Fuzhou, Xiamen e Shenzhen.

Porque muito embora não seja o relógio a comandar os nossos dias, e nos deixemos levar a cada dia pelo bater dos nossos corações, sabemo-nos sempre com (quase) mundo inteiro por descobrir.

A Hangzhou chegámos com apenas uma boleia, e lá ficámos com um novo couchsurfer e o seu persa – lindo de morrer! Passámos um tempo doce e de descanso, com a certeza de que esta passou com certeza a ser a nossa cidade de eleição. Com um lago maravilhoso e uma montanha com vistas sobre a cidade indescritíveis, fizemos da nossa estadia um momento inesquecível. Talvez por ter tido também há pouco tempo o encontro G20 a possamos ter encontrado mais arranjada ou limpa que o costume; mas guardamo-la assim mesmo no coração!

Ainda assim, pela cidade, pudemos confirmar por entre a multidão que “noção de espaço” é coisa estranha. Os chineses não só não fazem ideia do que seja, como não se preocupam com isso, de uma forma extremamente natural. Encontrões são o prato do dia, mas o mais bizarro e ao mesmo tempo hilário, é o momento em que estamos a mexer no telefone e se vêm encostar a nós a olhar para o ecrã (acreditamos nós que na tentativa de perceber o que estamos a fazer). Não há palavras!

Também por lá partilhámos uma tarde com um senhor do Brasil, apaixonado pela essência da China. Levou-nos não só numa caminhada pela cidade, como a conhecer a estátua de Marco Polo. E, por fim, a jantar num restaurante Italiano, por entre conversas mais profundas e momentos de reflexão.

À chegada a casa, tínhamos como surpresa um jantar preparado, onde procurámos com carinho encontrar um espacinho no estômago para o apreciar. E estava realmente delicioso, tipicamente chinês e cheio de tofu – como tanto gostamos!

Partimos depois para Fuzhou, mas a coisa não correu assim tão bem. O despertador, a tocar desde cedo, mas em silêncio, não nos acordou. E depois, depois o autocarro urbano também não apareceu. E para ajudar à festa, chovia. E chovia. E chovia.

Embora com ajuda de muito boa gente, que de tudo fez para que o desfecho fosse o melhor, apanhámos duas boleias, por entre o trânsito caótico da China – com carros em contra mão até na entrada da autoestrada – mas chegámos apenas à estação de serviço de uma pequena cidade, onde acabámos por pernoitar. Lá, acolheram-nos com muito amor: no restaurante desviaram uma mesa, e ali fizemos a cama. Colchões no chão, sacos-cama no seu melhor. Wi-Fi da cafeteria, e dormimos descansados, na esperança de que o sol no dia seguinte desse ares da sua graça.

Mas não. Chovia, parava, chovia, choviscava. E sol nada. Eram pouco mais de 7:00h e já estávamos de volta à estrada, onde passámos novamente o dia. Mas desta, chegámos ao destino depois de 5 boleias, todas muito diferentes e muito especiais.

De um jovem alternativo e muito simpático, a duas jovens muito tias e muito queridas, a um gordinho num Mini cor-de-rosa; vivemos só emoções fortes. Mas a mais fortes de todas, só quando pusemos os pezinhos em casa!

De felicidade, descanso e paz para o corpo.

Mas mais.

Em Fuzhou ficámos com um jovem chinês. Não lhe conseguimos ao primeiro momento tirar a pinta, mas hoje estamos felizes pela oportunidade que nos demos. O cansaço que trazíamos no corpo, a cozinha muito suja e o cheiro a tabaco fizeram-nos vacilar, por certo. Mas assim, ninguém vê o essencial. Porque o essencial não se vê com os olhos. Demo-nos então uma oportunidade, e foi num passeio já de noite, pelo centro da cidade e por entre amigos, que nos sentimos tão bem. E que bom assim, porque não só as energias físicas se recarregam.

E, por fim, depois de uma boa noite e de um pequeno-almoço muito acolhedor, fizemo-nos caracóis a caminho, de casa às costas, com Xiamen em mira. E assim a avistámos, perfeita no meio do mar, depois de 3 boleias muito bem sucedidas.

Não cansados ainda de aventuras, e depois de chegados a Xiamen, fomos avisados da proximidade do Tufão Meranti. Tínhamos acabado de chegar: acabado de nos apaixonar pela casa, apaixonar pela vista, pelo mar. Tínhamos acabado de nos apaixonar pela ilha. E também por quem nos estava a hospedar. Éramos então feitos de encanto, de amor.

Na verdade, não valorizámos qualquer aviso; nem nós, nem os locais. Se o recolher tinha sido aconselhado a partir das 17:00h naquele dia, eram 23:30h e continuávamos sentados na varanda a jantar, conversar, confraternizar. A Aida, iraniana, esposa do João, português, casados e um doce. Hospedaram-nos com tanto tanto carinho, que também não era preciso o tufão para que tudo se tornasse inesquecível.

Continuávamos então na varanda, os três (com o João de férias em Portugal), até ao pequeno sinal de uma barata a entrar casa a dentro, esvoaçante.

O tufão tudo levou: palmeiras e outras árvores, carros e o que mais apanhou pelas ruas. Em casa, o barulho fazia-se ensurdecedor e cíclico. As janelas, abanavam, batiam. Estilhaçavam-se outras, e o medo instalou-se. Não queríamos propriamente acreditar que afinal era mesmo verdade… mas era! E em pleno nono andar, a casa inundou. Inundou mesmo: por entre toalhões que de forma descontrolada começámos por pôr no chão e a carpete de seda feita à mão e trazida do Irão. O clima era de destruição. Os sons eram horrorosos e ecoavam. Não parecia ter fim. Foram mais de duas horas de pânico, de espera. Lá fora, tudo voava, tudo se despedaçava. E nós, escondidos num quarto interior, espreitávamos a medo, por entre a curiosidade e o receio.

No rosto da Aida, caiam lágrimas. Sentidas.

Era a presença da destruição que assustava; não o tufão.

Seguiram-se momentos, horas e dias, duros. Vimos o recomeçar, o seguir em frente, de perto. E ajudámos por casa tanto quanto pudemos, até que do nosso campo visual se eliminassem lembranças. Mas, da rua, não mais. Não havia estrada sem árvore caída, sem vidros ou destroços.

E assim ficou uma ilha por conhecer, mas (re)conhecida na sua essência. Não a vimos como nova, e talvez nunca venhamos a ver. Mas certo é que em nós ficou marcada.

Alargada assim a nossa estadia, chegámos só depois a Shenzhen, com 3 morosas boleias. Lá, encontrámos um amigo português, já tarde, também ele treinador de futebol. Com uma humildade desmedida, fez da sua cama a nossa cama e da sua presença uma verdadeira companhia. No decorrer do dia, palmilhámos a cidade por entre os seus maravilhosos parques e, já depois de almoço, conseguimos dar sangue para a Cruz Vermelha – uma experiência internacional muito interessante, até mesmo na forma como tudo se processa. E o mais engraçado, o facto de oferecerem um brinde pela doação: no caso, um selfie stick.

Já à noite, tivemos a oportunidade única de jantar num restaurante Budista, e por isso vegetariano. Buffet, e ainda sem álcool. O verdadeiro paraíso, porque mesmo que não soubéssemos do que se tratava, sabíamos que podíamos comer! Quem lá nos levou foi a amiga que fizemos em Pequim, e que já lá nos havia proporcionado uma das melhores experiências de sempre à mesa, quando nos levou ao HotPotHot; o que nos deixou perplexos e em êxtase.

Cheios, aptos quase que para rebolar, conseguimos adormecer só depois de uma caminhada e um chá quente. E para acordar na manhã seguinte, não foi fácil. Eram pouco mais de 6:00h quando o despertador tocou. Era hora de seguir para Hong Kong, e havia tanto até lá para fazer!

Mas mais tarde, partilharemos também estas aventuras, e outras tantas. E em breve, chegaremos também a Macau! E logo depois voltaremos à China, para chegar ao Vietname. O tempo não pára e depressa esperamos conseguir partilhar toda e cada vivência.

Têm sido as diferenças culturais que nos têm apaixonado neste longo caminho, mas mais ainda a descoberta ou confirmação de que a hospitalidade e generosidade são características transversais à humanidade.

Vamos decerto manter-nos sonhadores, neste caminho que traçamos com muito amor, e palmilhar o mundo que nos falta.

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