p’lo outback Australiano

Foi depois do primeiro voo desta nossa volta ao mundo que chegámos de Díli a Darwin, na Australia. Uma hora e meia: de medos, de excitação, de nervosismos, de anseios. Uma hora e meia de nós.

Com 9 horas e 30 minutos de avanço, face ao fuso horário de Portugal, souberam pela primeira vez, ao seguir pelo computador, que chegámos bem. Sãos e salvos, apesar de todo o medo sentido por um de nós nos ares. Mas, o pior, estava ainda para vir:

Pegámos nas mochilas, afeitos a um novo mundo, e acabaram ali mesmo com os nossos sorrisos, quando barrados pela imigração. Na verdade, a falha foi nossa, mas não fazíamos ideia de quão grave havia sido.

Começaram por perguntar-nos se trazíamos nas mochilas bens alimentares. Não – respondemos, sem que pudéssemos alguma vez ter noção do perigo presente nas nossas palavras.

A verdade é que tínhamos uma das mochilas cheias de presentes recebidos no ano novo, vindos de Portugal: coisinhas boas e do bem. A nossa querida quinoa. Os nossos queridos chouriços de soja. A aveia, o côco ralado, a manteiga de amendoim. Mas achámos que seria tão irrelevante, que sem qualquer sentimento de omissão respondemos.

Sabíamos ser proibido entrar com carne, e isso não tínhamos… portanto, lavámos assim as nossas mãos!

Começámos por ser informados que no RX tinham identificado a comida e acabámos, ali mesmo, com as mochilas abertas.

A sorte? A sorte é que, de coração, não agimos por mal. Não havia nada a esconder. Fomos irresponsáveis e agimos com uma leviandade não desejável – certo. Mas nada mais que isso. E as lágrimas encheram-nos os olhos, na eminência de ficarmos sem nada.

Agora, recordamos com gratidão a voz daquele senhor baixinho e sério: “Arrumem tudo e podem ir, mas não repitam a proeza. Numa situação normal, tinham a pagar 400 dólares de multa”.

E corremos. Fugimos dali o mais depressa que conseguimos.

Tínhamos, sem dúvida, mil borboletas na barriga.

Mas abraçámo-nos: felizes. E aliviados!! Tão aliviados.

Na sala de espera, no aeroporto, encontrámos o nosso couchsurfer. No carro, à nossa espera, tinha a sua esposa. E, para eles, há poucas palavras. Foram incríveis! Do primeiro, ao último momento. Conversámos, partilhámos histórias de vida, profissionais, viagens, amores; demos a volta à cozinha, fizemos iguarias, vimos o pôr-do-sol e fomos claramente bem-afortunados.

Em Darwin, acabámos por ficar um dia a mais, e em todos eles dormimos muito, batendo recordes de 12 horas! Na cidade de Darwin, conseguimos encontrar uma amiga timorense, de um amigo português que conhecemos em Díli. Mas o tempo nem sempre esteve do nosso lado: embora quente, de chuva.

Foi também lá que trocámos o nosso dinheiro e deu ainda tempo para visitar o afamado ao museu da cidade, sobre a Australia, onde pudemos conhecer todos os animais venenosos habitantes do país e a realidade face à cultura tradicional – a história das pessoas aborígenes.

Estas, as pessoas realmente nativas, sofreram muito. E sofrem ainda hoje. Sao pretas. Têm pelos. Comportam-se de uma forma diferente. Andam descalças. São livres. E não aceitam, nem conseguem desculpar aquilo que os famosos e bravos brancos fizeram quando lá chegaram. Não obstante o genocídio, roubaram crianças, roubaram terras, roubaram vidas. E hoje, são ainda vítimas de racismo perante a sociedade que lá habita, tirando claro raras excepções daqueles que lhes dedicam a vida. E esta é, na verdade, a verdadeira história da magnífica Austrália, que de magnífico tem pouco.

– Mas foram eles, os aborígenes, que por várias vezes nos deram boleia e que sempre chegaram perto para conversar, pelas ruas desertas das cidades quase fantasma do norte. E sim, estão desfasados da sociedade, desfasados do mundo em que as obrigam hoje a viver. –

Nos três dias passados em Darwin, ficámos inevitavelmente chocados com o vazio da cidade, sendo que claro vínhamos habituados a países de terceiro mundo, com pessoas sempre por todo o lado. Custou-nos a frieza das pessoas e fez-nos falta o calor humano, os sorrisos e a cortesia.

Ao quarto dia, partimos. Deixamos a casa cedo, de manhã. Arrumamos tudo e saímos. Caminhámos até à estrada principal para nos pormos à boleia e ali ficámos. O tempo estava encoberto, fazia algum calor e volta e meia chovia, em forma de aguaceiro. Na paragem de autocarro mais próxima encontrámos onde abrigar as mochilas e ali ficámos, por perto, de placa à vista e dedo esticado, à vez.

E, nos entretantos, defrontámo-nos com as mais estranhas pessoas: de bêbados, a loucos: calhou-nos passar de tudo por nós.

O dia passou-se, e não houve ninguém que parásse. Nem tão pouco para oferecer ajuda. Ninguém. O lugar talvez não fosse o melhor, mas não era de todo o pior. E os carros, esses, tinham por certo onde parar – se quisessem.

Já quando o sol se preparava para se despedir no horizonte, parou uma senhora. Disse-nos, com pesar no olhar, que já nos tinha visto de manhã quando ia para o trabalho. Também tinha andado a boleia, sabia bem o que estávamos a viver. E, sem rodeios, lamentou não ter parado mais cedo, na crença de que alguém o fizesse, e ofereceu-se para nos levar para sua casa. Mas os nossos corações gritavam. Não era dia para desistir. Era de dia de andar para a frente.

Assim, deixou-nos com o seu número de telefone, num lugar já fora da cidade, onde por certo acreditou ser melhor; com o compromisso entre nós de que, caso ninguém parasse, nos voltaria a buscar para que dormíssemos em sua casa.

Queríamos ir para Katherine, a 300 quilómetros de Darwin, onde ainda estávamos: a mais de 3 horas de caminho e onde nos esperava um casal de couchsurfers.

Ali, naquele novo lugar, pararam mais carros. Nenhum ia na nossa direcção, a princípio, até parar, por fim, um jipe. Era um aborígene. Era enorme. Grande e gordo. Com uma voz foraz. Mas não nos intimidou: o seu olhar era doce.

Levou-nos, partilhou a medo a sua história e acabou por nos deixar na casa da nova família. Ela era irlandesa, ele australiano. Chegámos já de noite, tarde, pouco mais deu que para apresentações e dormir.

Mas além de cansados, estávamos serenos e desafogados.

Tínhamos conseguido!

E adormecemos assim, abraçados, depois de um banho refrescante, debaixo da nossa rede mosquiteira, com a ventoinha apontada para nós.

Ali, embora o plano fosse de ficar só uma noite, acabámos por pedir para alongar a nossa estadia – e ainda bem que o fizemos.

Descansámos. Ficámos em casa. Fizemos um batido de banana e manteiga de amendoim. Cozinhámos para todos. Lavámos roupa. Escrevemos e dormimos. A aldeia era muito pequena. A casa era grande e desorganizada. Tinham um gato. E baratas! E, o mais especial, tinham um cd da Mariza e já a tinham visto ao vivo.

Partimos então na manhã seguinte, rumo ao famoso Outback. De casa, recebemos uma boleia até um bom lugar para pedir boleia. Não estávamos preocupados, mas tínhamos em nós aquele receio miudinho: os últimos dias na estrada não tinham sido fáceis, mas trazíamos em nós dois fé. Muita fé. E amor.

Então, brincámos. Viajámos dentro da nossa própria viagem. E desfrutámos do que a vida nos estava a oferecer.

Com ternura.

O lugar era deserto e tinha poucas sombras. Esperámos por várias horas, com um calor já soberbo, embora fosse ainda cedo. Até parar uma carrinha. Era um rapaz com uma história incrível: trabalhava nas comunidades aborígenes contra o absentismo escolar das crianças e era apaixonado pelo que fazia.

Mas no lugar em que nos deixou, sofremos. Esperámos quase 7 horas, entre o desespero do calor e do vazio. Vimos a esperança dissipar-se. O nosso olhar pedido.

Estávamos ali, no outback. Só nós. E os aborígenes que pelas ruas deambulavam.

Os carros que passavam: e contávamo-los pelos dedos de uma mão.

E foi quando já fazíamos contas às horas, que parou uma senhora aborígene. Sorria, pelos olhos, na alegria de nos poder ajudar.

E assim se vê que foi perante aqueles a quem a história da vida foi injusta, que tivemos sorrisos, ajuda, amizade: os aborígenes, ou indígenas. Na verdade, pouco se sabe sobre estes fora da Austrália, pouco se fala ou desenvolve. Mas nós chegámos-lhes perto.

Ia de caminho para um funeral, porque não interessa quantos quilómetros são – dizia, a tradição que traz une sempre a família.

A viagem atribulada, feita já no escuro da noite, foi de 600 quilómetros, por estradas de longas distâncias sem iluminação, rede telefónica ou estações de serviço, com muitos cangurus e muitos destes infelizmente apanhados pelos carros. E vimos também muita vida selvagem, parte dela tão perigosa, como cobras, aranhas, centopeias, sapos; tudo venenoso e, até, letal.

E, na mais violenta das vivências, registámos o momento em que atropelámos dois cangurus, pequenitos, que se atravessaram na estrada. Assustámo-nos. Sofremos. E o carro seguiu.

Deixou-nos passava já das 23:00h, em Tennant Creek, no nosso destino. E, num bar, esperava-nos o nosso couchsurfer.

As apresentações foram rápidas, entre amigos e, sem demoras, estavamos de banho tomado, em sua casa, prontos da dormir. Cedeu-nos a sua cama de casal, o seu quarto e até a sua casa; porque mesmo tendo planos com a namorada, não deixou de nos hospedar.

No dia seguinte, debaixo dos muitos graus escaldantes e dolorosos, palmilhámos a cidade na procura de uma couchsurfer que também tinha aceite hospedar-nos. E por entre a confusão dos números das casas e dos nomes das ruas, lá chegámos.

E o seu ar condicionado e um refresco, nunca souberam tão bem!

Ali, na sua casa, conhecemos também outros dois viajantes, franceses, com a mesma rota que nós. Animámo-nos, silenciosamente, com a possibilidade de nos poderem dar uma boleia no dia seguinte, mas tinham o carro atulhado e definitivamente sem espaço. Pena, pensámos – novamente em silêncio entre nós.

Mas entre nós não silêncios: há palavras por dizer, mas que os olhos não deixam perdidas.

É muito mais que magia.

O sol nasceu radioso, na manhã seguinte. Vimos-lhe os raios atravessar a janela. Não estávamos ainda certos do nosso plano, não sabíamos bem dose deveríamos partir ou não, mas sabiamos que o mais certo seria seguirmos rumo à costa. Não tínhamos poiso confirmado, mas tínhamos o farnel pronto.

Era então já mais tarde que o previsto, quando ganhámos uma boleia do nosso couchsurfer até à estação de serviço da saída da cidade. Tínhamos 700 quilómetros para fazer até Mount Isa, mas ainda não tínhamos casa confirmada para ficar. Estávamos, portanto, entregues ao sabor do vento, esperançosos com o rumo que o dia que tínhamos pela frente podia levar.

Na bomba de gasolina tivemos pouca sorte perante os carros que fomos abordado. O calor, uma vez mais, era desesperante e só as pequenas sombras nos valiam.

Mas sorriamos. Sempre.

Até parar um jovem, estranho de tão extrovertido e humilde, que almejava encontrar quem lhe desse dinheiro para combustível. Lamentámos não poder ajudar; mas foi nesse momento que nos prometeu que se arranjasse quem o fizesse, que nos daria boleia.

A verdade? Não acreditámos que fosse acontecer.

A verdade novamente? É que aconteceu!

A viagem foi do mais hilariante, sendo que até para conduzir nos pediu. E, sem sombra de dúvidas, era um bom rapaz. Pobre, mas modesto, simples e despretensioso.

Mas, infelizmente, o combustível chegou ao fim, e acabou por nos deixar numa aldeia, novamente vazia, já perto do pôr-do-sol.

Pedimos boleia, enquanto o lusco-fusco nos permitiu. E, divididos entre a esperança e a certeza, enquanto procurávamos pelo melhor lugar para montar a tenda, fizeram-se de novo ouvir os seus raters.

Tinha uma vez mais encontrado quem lhe emprestasse dinheiro, e assim fomos até Mount Isa juntos.

Sem sítio para ficar, pedimos-lhe que nos deixasse no Mc Donald’s da cidade, onde pudemos conectar-nos à internet mesmo estando fechado e ver que tínhamos um couchsurfer para nos hospedar. Infelizmente, dada a hora, tardia, tinha entrado ao serviço e só nos poderia abrir a porta de manhã.

Não dormimos. Descansámos num banco de jardim à saída da cidade enquanto esperámos que amanhecesse. E consideramos este como tendo sido um dos dias mais duros em viagem.

Cansados, começámos com o nascer do sol à boleia.

Uma vez mais, não havia quem parasse: até encostar um jipe. Parecia tão bom para ser verdade, que nem queríamos acreditar. Mas embora tenha sido de coração e com boa vontade, adiantou-nos somente uns 2 quilómetros. Ia para uma quinta ali perto, mas ficámos gratos por nos ter dado o que podia.

Estávamos então num verdadeiro deserto, onde havia uma árvore despida, com uma fraca sombrinha.

Não eram ainda 7 horas e o calor era já intolerável – mas pouco ou nada podíamos fazer, senão esperar, com a ajuda da sombra do nosso chapéu de chuva.

Quase sem água e sem boleia, decidimos à vez render-nos ao sol e procurar por água. Nada mais nos restou senão caminhar e procurar por moradias onde pudéssemos pedir que nos enchessem as garrafas de água com água da torneira, mas a missão não foi fácil.

Na primeira casa, até água da mangueira do jardim nos foi recusada.

Desumano.

E depressa nos consciencializámos, ali mesmo, que as pessoas, diferentes, eram definitivamente pouco acolhedoras. Fizeram dos nossos dias, os dias mais insuportáveis desta viagem, por entre a sede que sentimos e os pedidos de ajuda negados.

Mas foi também nas pessoas, nas que menos esperávamos, que encontrámos consolo.

Mais tarde, conseguimos finalmente quem nos deixasse utilizar a mangueira do jardim para ter água e um camionista que nos quisesse levar. Foi por pouco tempo e deixou-nos na entrada de outra aldeia, onde voltámos a tentar ficar escondidos debaixo de uma árvore – mas foi uma grande ajuda.

Ali, conspirámos. Conversámos. Reclamámos. Rimos.

Dançámos. Suámos.

E fizemos apostas!

Até que parou uma alemã. Na verdade, passou por nós, não parou e voltou para trás, convencida de que tinha de nos ajudar. E assim o fez, levando-nos até à sua cidade, Julia Creek.

Quando nos deixou, não sentíamos as pernas. Estávamos extenuados. Exaustos. Esgotados.

Pelo calor. Pelo cansaço.

Mas não era altura de desistir.

De fato, acreditámos sempre que seria possível chegar à costa, a Townsville.

E foi por entre queixas e fraquezas, crenças e pedidos, que parou outro camião! E o melhor, tinha ar condicionado – o que por norma detestamos, pelas dores de garganta que nos provoca; mas que ali nos levou ao céu!

Ia até Richmond, onde nos deixou já ao anoitecer, ainda a 500 quilómetros da nossa meta.

A cidade era despovoada, uma vez mais. Não havia pessoas, nem supermercado, nada. Mas o clima era calmo e de segurança. Havia uma bomba de gasolina, onde até as coisas fora de prazo se vendiam, em promoção; e onde registámos o recorde de uma água de 50cl por 5 dólares. (Contudo, foi nesta mesma bomba de gasolina que nos sentimos salvos, no momento em que pedimos um copo com gelo e este nos foi cedido – porque não, a nossa água não estava bebível: de tão morna, tão mole).

Não quisemos dar-nos por vencidos de imediato, e por isso deixámo-nos ficar de dedo esticado até a noite cair na escuridão.

Depois disso, nada mais nos restou.

E, recordamos, estávamos tristes.

Mas por entre essa tristeza, sabíamo-nos fortes. E juntos!

Descobrimos então onde apanhar wi-fi aberta, numa biblioteca fechada. Tentámos, sem sorte, enviar alguns pedidos de couchsurfing à última da hora e jantámos as bem-ditas papas de chia e açaí que trazíamos ainda na mochila. Estava tanto tanto calor, que mais nada nos apetecia.

E, para ajudar, havia mosquitos, aranhas, bichos e bichinhos por todo o lado.

Sem remédio, e na tentativa de remediar, fomos até ao posto de polícia, que encontrámos no mapa que trazemos, perguntar onde seria seguro acampar: mas nem isso estava aberto.

Pelo caminho, contudo, descobrimos uma torneira com mangueira, no jardim do posto dos correios: e foi ali mesmo que tomamos banho, por entre uma aventura desmedida, risos e cumplicidade.

Vestimos roupinha lavada e montámos a tenda – no jardim da biblioteca. E assim, afortunados, estávamos num campismo de luxo, com banhinho, wi-fi e luz.

E, a bem dizer, a tristeza tinha dado lugar à paz. À esperança.

E ao amor, sob as estrelas.

Uma vez mais, o nascer do sol chamou por nós: mesmo que moídos.

Mas estávamos de ‘forças’ renovadas. E a esperança no auge!

Pusemo-nos à boleia e cruzámos os dedos. Tudo a correr bem, e a noite seria diferente!

Mas a manhã passou-se: e nada.

– A não ser a inesperada visita dos amigos franceses que havíamos feito em Tennant Creek. Cruzaram-se ainda no nosso caminho e, nesses instantes, pararam mais que nunca outros carros, enquanto continuávamos a pedir boleia: pensando estes sempre que era o carro deles avariado e não propriamente nós a pedir boleia. –

Já de tarde, e quando rogávamos já pragas a todos os deuses das boleias, parou com a maior tranquilidade deste mundo, um francês com a sua campervan, com o mesmo desitino que nós!

Foram largas horas de viagem, mas avistámos finalmente a costa – onde, adiantamos já, fomos tão felizes!

Percebemos, ali, que o outback australiano é um difícil de descrever e fácil de sentir. Descobrimos, por lá, uma versão do país muito verde e ao mesmo tempo um cenário desértico, avermelhado, plano e sem fim. Descobrimos depressa que o céu parecia palpável e que era talvez o mais bonito que alguma vez tínhamos visto.

E também as estradas infinitas no horizonte e cor-de-laranja fizeram o nosso encanto, ao longo de vários dias, onde as temperaturas médias estiveram sempre acima dos 40 graus – mas onde andar à boleia foi um verdadeiro desespero.

Naquele momento, foi difícil deixar partir o nosso novo amigo, sozinho na sua campervan, entregue ao destino da noite; enquanto a nós nos esperava um banho refrescante e uma couchsurfer para nos acolher. Mas, no fundo, viajar é isto mesmo.

Uns dias de sol, outros de chuva.

E foi assim que, com pequenas ajudas e muitas mais histórias, conseguimos fazer 2500 quilómetros em sete dias.

Abraçados, emaranhados na nossa paixão.

Entre nós.

E pelo mundo!

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como: viajar muito barato

Primeiro ensinamento: as melhores coisas da vida são grátis!

– Este é o nosso mote; e com isto em mente a viagem é sempre mais proveitosa e barata. –

Claro que há coisas que são difíceis visitar sem pagar mas, em comparação com o total de experiências que uma viagem te proporciona, essas visitas pagas são irrelevantes.

Todas as viagens são divididas em, pelo menos, três grupos de gastos: transporte, alojamento e alimentação. Dependendo para onde viajas, pode juntar-se outro gasto considerável – os vistos. Este último, pode ser o pior: não há volta a dar. Quanto aos outros grupos, podem reduzir- a zero (ou quase).

Transporte

O nosso transporte de eleição é e será sempre à boleia (carona, em português do Brasil). Na apresentação desta nossa viagem, falámos já do porquê desta nossa escolha. Mas uma vez mais temos de ser flexíveis e jogar com o que temos. Para atravessar mar, nem sempre é fácil conseguir boleia; mas não é impossível. Requer mais tempo, mais paciência e mais disponibilidade – mas trará também mais frutos.

Temos também de sublinhar que existem países onde é ilegal andar à boleia e ainda outros onde as regras para o fazer são muito específicas. Varia imenso de país para país e de cultura para cultura: há lugares onde esticar o dedo é uma grande ofensa, outros onde não percebem o que fazemos na borda da estrada. Assim sendo, uma vez mais, convém pesquisar. Uma boa ajuda a acrescentar é o site do Hitchwiki. Mas há outras formas de nos deslocarmos de lugar para lugar de forma grátis; por exemplo, andar a pé ou de bicicleta. E há imensa gente pelo mundo que se desloca desta forma.

– Relocations

Principalmente nos países anglo-saxónicos (Austrália, EUA, Nova Zelândia) vais encontrar muitas oportunidades para fazer relocation. Basicamente, isto e levar um carro, que foi alugado do ponto A para o ponto B, de volta do ponto B para o ponto A. Há muitos sites que servem de plataforma a estas oportunidades. As possibilidades são imensas, alguns pagam tudo (combustível, ferries) e ainda dão dinheiro, outras disponibilizam só o carro por um preço baixo por dia. Por vezes são oportunidades tão boas que até parecem impossíveis. Tal como os carros alugados, recomendo que tenham atenção ao tipo de seguro que o carro tem: em alguma situações em caso de acidente pode sair muiiito caro. – Nós, infelizmente, partimos o pára-choques e pagámos o equivalente a 350 euros. Mas quando tudo corre bem, é uma oportunidade muito interessante.

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A pedir a primeira boleia, no Irão.

Alojamento

– Amigos e/ou família

Recorremos, na maioria das vezes e, em primeiro lugar, a amigos. Temos a sorte de ao longo dos últimos anos, entre Erasmus e intercâmbios, projetos da faculdade e projetos pessoais, termos cruzado o nosso caminho com pessoas espalhadas pelo mundo. E, feliz ou infelizmente, com o fenómeno migratório existente em Portugal nos dias que correm, a lista de amigos por aí fora é extensa. Mas, claro, na Europa é fácil, na China também, o mesmo na Austrália, Estados Unidos e Canadá, contanto também claro com toda a família pelo mundo espalhada. Mas depois passamos ao plano B: amigos de amigos.

– Amigos de amigos e conhecidos

Não há vergonhas, porque nós hospedamos sempre todos aqueles que podemos; e não somos exigentes! Um bocadinho de chão abrigado e seguro está perfeito!

O facebook e outras redes sociais são uma ótima ferramenta nestas duas primeiras opções.

– Couchsurfing

Por fim, recorremos ao couchsurfing: o couchsurfing é uma plataforma onde estamos registados (e onde qualquer um se pode registar). A ideia é conhecer diferentes pessoas e diferentes culturas. No nosso país hospedamos ou recebemos para um jantar ou passeio quem podemos, quando viajamos somos hospedamos por quem pode, passeamos ou jantamos nos mesmos moldes. E é esta a forma mais intensa e única de estar em contacto com os locais. Mas não é exclusiva! O coushsurfing não é para todos os gostos, mas nós damo-nos muito bem.

– Tenda

Temos também uma tenda, na mochila. Sempre que a utilizámos foi por estarmos à boleia e não conseguirmos chegar ao nosso destino. Porque de todas as outras vezes que o tentámos fazer, quando pedimos autorização aos proprietários dos terrenos ou às pessoas que víamos por perto, estas convidaram-nos sempre para suas casas. E esta é também uma perspetiva única e muito especial. Para montar a tenda, as regras variam de país para país: na França ou países nórdicos podes montar em quase todos os lugares não protegidos e longe de casas, respeitando, a natureza, pessoas e animais. Na Escócia, podes montar a tenda em campos privados desde que não estejam cultivados. Basicamente, podes invadir qualquer propriedade privada que não esteja a ser usada. Na Polónia e Estónia o wild camping também é bastante tolerado, desde que se seja discreto e longe de casas e parques nacionais.

Cada país tem as suas regras e o melhor mesmo é pesquisar sempre. Em Portugal é ilegal, e em muitos outros países também. Na nossa opinião, se fores um campista muito consciente, podes fazê-lo em quase todos os países, não deixando NADA para trás além de pegadas, montando a tenda depois do anoitecer e levantando antes do amanhecer. O melhor para acampar é perguntar às pessoas se te cedem um pedaço do seu quintal, geralmente mais seguro e menos problemático. Com sorte, ainda te cedem um teto e um pratinho de sopa.

– Workaway

Esta é uma forma de trocar algum tempo de trabalho diário, por estadia e, por vezes, alimentação. Existem vários websites (e.g. Helpx) que funcionam como plataforma para facilitar o contacto entre quem hospeda e quem oferece o trabalho.

– Housesitting

Esta é uma boa opção para estadias mais longas num lugar. Por norma, os donos das casas necessitam que tomem conta do jardim, das flores ou dos animais, enquanto se encontram de férias. Há varias opções e também vários websites (e.g Housesitting Company) que facilitam o contacto entre os proprietários e aqueles que se propõe a tomar conta da casa. Nunca fizemos, mas já ouvimos relatos de muitas experiências: umas excelentes, outras nem tanto.

– Parcerias/trabalho

Muitos hosteis por esse mundo ficariam muito contentes em trocar hospedagem por algum serviço que possas oferecer. Neste campo, vale tudo: manda e-mails, oferece o que puderes e vais ficar surpreendido com a quantidade de respostas positivas. Podes propor-te para diversas coisas, tais como trabalhar na recepção, fazer limpeza, fazer as camas, tratar do jardim, traduzir documentos, fazer uma página web e, se tiveres um blogue ou experiência em viagens, podes também fazer reviews e publicidade, trabalhar e publicar fotos/videos nas redes sociais, ajudar como conselheiro de negócio; entre muitas outras possibilidades. Como te podes dar conta, as oportunidades são muitas! Sê criativo, persistente e profissional e vais ter muito boas experiências.

– Outras aventuras

Além da tenda, já dormimos em hospitais, restaurantes, igrejas ou salas de reza, entre muitos outros lugares – mas estes não faziam parte do planeamento, fazem parte da magia do caminho. Existem também hosteis muito baratos, principalmente no sudoeste asiático, a menos de um euro. Nunca utilizámos, mas acreditamos que sejam uma boa solução para tomar um banho e dar descanso à tenda. Em último caso, procura algo que esteja aberto 24horas: McDonald’s, uma estação de serviço, hospital ou aeroporto. Uma estação de comboio ou autocarros também pode funcionar mas, dependendo do país, se adormeceres ficarás mais exposto aos amigos do alheio.

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Quando acampámos pela primeira vez. Na China.

Alimentação

A alimentação é um dos gastos mais difíceis de reduzir a zero, mas não impossível. De qualquer forma, não é assim tão duro poupar dinheiro no que se come.

Pela nossa experiência, tentamos cozinhar sempre que possível. Compramos os ingredientes nos mercados locais, quando estes existem ou nos supermercados em cidades grandes. E, por norma, cozinhamos na casa de quem nos hospeda. Quando não temos hipótese de cozinhar, compramos fruta, legumes e pão para ir comendo. Quando cozinhamos, tentamos fazer a mais de forma a levar connosco nas visitas pelas cidades ou no trajeto à boleia entre cidades. Uma boa forma de também poupar na comida é procurar supermercados com descontos nos produtos a sair de validade. Normalmente, são os supermercados grandes que fazem estes descontos. Neste caso, tentamos comprar as frutas e legumes que estejam em promoção.

Muitas vezes, as pessoas que nos hospedam, ou dão boleia, também nos oferecem comida (que se vegetariana, aceitamos e agradecemos).

Para comer sem pagar, temos dicas para todos os gostos, das mais radicais às mais conservadores:

1. Tablediving – Consiste em ir a um lugar onde há muita gente a comer e aproveitar os seus restos. Há restos para todos os gostos, desde o falafel já metade comido, até ao pacote de batatas que vinha com todos os menus e por isso não foi tocado, ou as bolachas que não fazem o estilo do cliente e por isso ficam no prato. Requer cuidado e crítica.

2. Dumpster diving – Não é nada mais que resgatar comida (em bom estado) que é desperdiçada diariamente por mercados, supermercados, minimercados e muitos outros estabelecimentos comerciais. Na maior parte das vezes requer que se procures nos contentores de comida, mas muitas outras vezes pode encontrar-se caixas de cartão à porta dos estabelecimentos comerciais já fechados. Este último exemplo é o caso de todos os dias, na China Town, em Honolulu, no Hawaii (EUA). O mesmo no fecho do mercado biológico de Wellington, na Nova Zelândia, todos os domingos por volta das 14h. São quilos e quilos de comida ótima e selecionada, que por não estar perfeita, vai para o lixo (das duas vezes que lá fomos, foram vários os produtores que colocaram à disposição várias caixas para que as pessoas escolhessem antes de colocar nos contentores, incluindo pêssegos, laranjas, maçãs, abacates, pimentos, couves, salsa, entre muitos outros).

3. Harvesting – Isto não é nada mais que colher fruta de arvores públicas. Por exemplo, no Algarve, existem algumas laranjeiras na via pública ou, na Nova Zelândia, algumas maceiras em parques e estradas. Outra opção é aproveitar a fruta que esta caída da árvore e que não será colhida. Por esse mundo fora há imensas árvores de fruto e seguramente vais encontrar muita fruta que irá apodrecer. Mantém sempre a descrição e se alguém não se mostrar contente com o que estás a fazer, vai-te embora sem discutir.

4. Meios de transporte – Muitas vezes, nos aviões, comboios ou autocarros, os passageiros recebem snacks e… desperdiçam tudo. Pedindo ,ou indo com calma quando te levantas, consegues encontrar comida que provavelmente, se não a resgatares, vai ser deitada fora. Atenta que o desperdício alimentar existe em grande escala.

5. Restaurantes grátis – Neste mundo capitalista há coisas que as pessoas do século XXI não estão preparadas para ouvir falar. Almoços grátis é uma delas: mas eles existem, e muitos! Há cantinas em templos Budistas, Sikh, Hindus (entre outros), que oferecem várias refeições grátis todos os dias. Na Singapura, é fácil de encontrar muitos (este foi o melhor na nossa opinião) e dá muito jeito porque é um país caro. Estas cantinas servem toda a gente, uma vez que acreditam que perante o ato de dar muito, irão também receber muito. Existem também muitas cantinas para pessoas mais necessitadas e outros tantos restaurantes que funcionam por doação voluntária de qualquer valor.

6.Eventos – Por vezes, nos centros de congressos e afins, existem grandes eventos com muita comidinha boa e outros brindes. Parece que não podemos entrar, mas podemos. Quem está à porta ou não está a controlar ou pede por um ingresso/uma pulseira, que muitas vezes estão disponíveis na hora depois de ser feito o registo uns metros mais à frente, numa secção própria. Um dia, em Kuala Lumpur, vimos destes eventos no KLCC e por curiosidade tentámos entrar. Passados 5 minutos, estávamos a apreciar grandes petiscos vegetarianos. Às vezes, é só tentar.

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Estes legumes e frutas foram resgatados no fecho de um mercado, na Macedónia.

Vistos

Destes, não dá para fugir. O visto terá sempre de ser pago. Os conselhos que podemos dar têm por objetivo pagarem o menos possível:

– Faz tudo sozinho, lê outros blogues, recolhe a informação necessária e vai diretamente à embaixada. Leva contigo todos os documentos, fotografias, entre outros, que saibas que vais precisar. E no caminho para a embaixada não te deixes enrolar com as pessoas que te querem ajudar a troco de dinheiro.

– Tenta pedir o visto sem que te peçam carta de convite. Às vezes pode depender de embaixada para embaixada, podes tentar contactar varias embaixadas e ver se os requisitos mudam. Se não conseguires fugir da carta de convite, contacta um hostel que te possa fazer essa carta e procura a opção mais barata. Muitas vezes pessoas particulares podem também fazer essa carta mas o processo é tão chato para a pessoa que pode não compensar.

– Se te pedirem reservas de voos e hosteis, reserva tudo online em sites que te devolvam o dinheiro sem custos.

– Caso sejam necessários outros requisitos (como um seguro de saúde), normalmente as embaixadas não querem saber muito disso, portanto, se o teu foco não for estar protegido e sim unicamente obter o visto, um seguro de acidentes pessoais que custa 30 euros por ano funcionará.

– Leva sempre contigo fotos tipo passe: vais poupar dezenas de euros pelo mundo com este simples detalhe.

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O que mais dores de cabeça nos deu para obter: o visto para os EUA.

Para já, estes são os melhores conselhos que podemos dar para iniciar uma viagem verdadeiramente low cost!

Em viagem, como na vida, existem muitas coisas que não podemos antecipar mas, na maior parte dos casos, com calma, perseverança e muita criatividade, tudo se resolve: mesmo para quem não ganhou a lotaria, nem tem pais ricos.

Deixa a tua opinião e partilha mais ideias.

E lembra-te! No final: tudo acaba bem. Se ainda não esta bem, é porque ainda não chegou ao fim. 🙂

como: planear uma longa viagem

Não é díficil, mas exige algum trabalho e dedicação. Assim, esperamos que estas dicas te possam ajudar!

Começa por ler muito e definir um objetivo, ou vários.

Por exemplo: quero visitar a minha tia nos Estados Unidos, quero conhecer os lugares de interesse religioso na península ibérica, quero subir ao Machu Picchu ou quero tirar um foto com a torre Eiffel.

Com a nossa viagem, começou assim:

Definimos que países gostaríamos de visitar e só depois começámos a tentar montar um roteiro. Aí, de acordo com vistos, tempo de permanência e outros lugares que nos pudessem interessar por perto.

É muito importante olhar para o mapa com atenção e, também, ler blogues: não somos os primeiros a viajar, nem seremos os últimos, e todas as experiências anteriores são fontes ricas de informações reais e de ideias a reter. Por isso, procurar outras pessoas que tenham feito viagens semelhantes é indispensável. Há sempre segredos, truques, novidades e, à pesquisa formal, tentámos sempre adicionar a informal (falar com amigos ou procurar outros viajantes).

Face a um roteiro definido, munimo-nos de flexibilidade para alterar a qualquer momento o que estava previsto. Não é viável dar por garantido nada, porque há sempre fronteiras a fechar, horários, condições, regras a mudar.

Como andamos à boleia (e por terra), tivemos de ter em conta também os vistos que conseguíamos, ou não, obter em viagem e demos uma espreitadela em artigos que nos dessem uma noção de como seria apanhar boleia ou dormir sem pagar, em determinados países (e.g..: Em alguns estados dos EUA é proibido pedir boleia; no Myanmar os locais não podem ter ninguém em casa depois das 9h da noite, no Turquemenistão e Uzbequistão existem regras parecidas mas conseguimos “passar entre os pingos da chuva”).

Em suma:

1. Planeia a viagem de forma a que possas chegar a cada país na melhor altura possível (evita monções ou calor extremo);

2. Tenta levar dólares americanos e trocar no país para onde vais viajar;

3. Avisa as pessoas para onde vais e quais os teus planos, mas não marques horas certas para falar com ninguém. Darás notícias quando puderes;

4. Para uma volta ao mundo o ideal será andar com uma mochila de 50 litros. Mais de 60 litros de bagagem, segundo a nossa experiência, significa que estás a levar muito material que vais usar uma vez de seis em seis meses. Deixa esse material em casa e.g.: aquelas calças lindas que vou usar para ir a um evento especial durante a viagem; aquele cobertor térmico que pesa 1kg mas me salva te temperaturas negativas. Uma viagem grande não tem espaço para estas especificidades; no máximo, compras em segunda mão quando precisares e deixas quando estiveres de partida;

5. Viajar pode ser perigoso mas ficar em casa também tem o seu perigo. Cabe-te a ti tomar as decisões certas e de forma consciente.

“Um barco está seguro no porto, mas não foi para isso que os barcos foram construídos.” Paulo Coelho

Pega na mochila e no farnel e vai,

atira-te neste mundo (que trazemos na mão!),

hoje é o dia. Sem medos.

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E antes de saires para uma longa viagem, não te esqueças:

– Check up médico e dentário
– Situação na segurança social e finanças
– Seguro de saúde (caso se aplique)
– Consulta do viajante
– Vacinas (caso necessário)
– Procuração de plenos poderes a familiar ou amigo
– Vistos (na maior parte dos casos, também se pode tratar em viagem)

Partilha aqui as tuas dúvidas, as tuas sugestões ou a tua opinião. xx

Timor em português!

De sorriso sincero no rosto, naquele tom de pele castanho, perdido no olhar de amêndoa doce, escuro e característico, que de uma forma tão genuína veste quem por lá nasceu. É Timor-Lorosae. São timorenses.

Assim chegámos a Timor-Leste, depois de com esforço atravessarmos a fronteira com Timor Ocidental, ainda na Indonésia. São a mesma ilha, têm uma história triste comum*, mas de ambos os lados deliram com a pele branca e o nariz proeminente de qualquer estrangeiro que por ali ande.

*Porque a história de Timor-Leste tem pano para mangas, mas consegue resumir-se à independência de Portugal em 1975 (sendo até então conhecido como o Timor português), tendo logo sido invadidos; o fim ocupação Indonésia deu-se em 1999 e sua independência total em 2002  – o que faz deste um país muito novo.

Na fronteira tirámos mais fotografias com locais que em qualquer outro sítio nesta viagem; não que noutros países, como por exemplo nos da Ásia Central, não tivessem também esse desejo, mas tinham também muito mais vergonha. Ali, os mais comedidos tiravam de longe, os mais destemidos vinham até nós. Abraçavam-nos, agarravam-nos, sorriam, pousavam para a foto e faziam filas. Foram sem duvida dezenas de fotografias, depois de termos passado a noite num ferry que abanava mais que uma rolha em alto mar e uma madrugada e manhã à boleia, sem descanço.

E mais, era Ano Novo! Sim, era dia 1 de janeiro de 2017, no auge da euforia de uma nova primavera.

Estavam, por isso, todos em nosso redor felizes e reluzentes, animados com a chegada de mais um ano. E nós estávamo-lo também, mas trazíamos em nós uma incerteza tamanha: a de não sabermos se iríamos conseguir chegar até Dili, a capital, naquele mesmo dia. E tínhamos em nós a consciência vincada, dos avisos que nos foram feitos, do perigo que seria chegar à capital já de noite e sem alguém para nos receber. Faltavam-nos, ali mesmo, umas três horas de caminho, por 100 quilómetros por fazer, por estradas esburacadas e paisagens à beira mar criadas.

E ali mesmo, no edifício fronteiriço, sorrimos. Havia já, quem de cor falasse português – e que mais podem dois portugueses querer?

Sorrimos! E sorrimos de novo, entre olhares cúmplices e confiantes, apaixonados e tão, tão cansados.

Éramos nós.

Atravessámos o famoso arco de boas vindas a Timor-Leste (em português escrito!!), sem medo, e a pé, e depois de carimbados os passaportes, seguimos. E estávamos finalmente no nosso tão desejado destino!

Ali, sabíamos já que encontraríamos uma segunda casa e que poderíamos descansar quanto tempo quiséssemos. Era família do coração – aquela que temos a sorte de poder escolher.

E embora estivéssemos muito, muito felizes, estávamos também exaustos por tudo aquilo que tínhamos vivido até então, depois de duas noites mal dormidas e muitas horas a bordo de um ferry mal-amanhado, depois de celebrado o ano novo com a chegada à ilha de Timor e o barulho de todas as motas em nosso redor.

Depois de termos atravessado a fronteira a paisagem não era diferente: árida, quente e pobre, numa estrada infinita de alcatrão velho e barracas de chapas de zinco vazias, com pilares de pau. Ao lixo pelo chão já vínhamos também habituados e por isso a diferença no olhar foi pequena.

Já não tínhamos muito que comer, senão umas mangas de sobra e uma bolachas de limão; mas nada disso interessava. Só queríamos chegar a Casa! Das bolachas fizemos almoço e demos corda aos sapatos.

As sombras eram raras, mas sabemos bem que as fomos aproveitando conforme podíamos. E a cada escasso carro que víamos passar, pedíamos boleia! Lá iam parando, e o entusiasmo era tanto que já só falávamos a nossa tão querida língua, sem tão pouco nos questionarmos sobre isso. Era instintivo e automático! E tão, tão bonito.

Demorou pouco até conseguirmos a nossa primeira boleia, no momento exacto em que nos conseguimos abrigar do sol para beber um pouco de água. E é tão engraçado ver como nos lembramos de tão pequenos pormenores.

Eram dois senhores, policias, militares ou guardas, não conseguimos precisar, mas decerto trabalhadores na fronteira. Iam por apenas dois quilómetros, até ao café mais próximo. Mas foi uma grande ajuda! – por vezes, há quem não pare por não ir longe, mas tudo aquilo que muitas vezes precisamos é de nos sentar dois minutos e renovar a esperança. E assim foi!

Já perto de uma pequena ponte que cruza um rio, sujo, ficámos bem! Atravessamo-la a pé e, do lado de lá, voltámos a conseguir uma boleia. E desta, a certeira! Era uma família, um carro cheio. O pai, vice-presidente da CPLP, a filha estudante de medicina e fluente em inglês. A avó, professora, falava bem português. Recusaram a principio dar-nos boleia, porque sem dúvida, não havia nem um pequenino acento num banco disponível. Mas havia a bagageira! E a sede de avistar Dili era tanta, que nem hesitámos!

Estavam juntos com um grupo enorme de pessoas, que ali passavam num passeio em forma de comemoração pelo aniversário de um dos membros da família. E com todos eles, fomos parando para visitar praias, miradouros e até à verdadeira festa de aniversário numa colina nos levaram. Havia cerveja, sumos de banana com gás e até gente a falar português!
(E já para o fim, havia também um infinito de lixo espalhado e abandonado)

À chegada a Dili tínhamos instruções (dos amigos que nos iriam receber, e que à data estavam em Portugal), para que telefonássemos ao Senhor Filomeno ou à Mana Ela. Tinham ambos ficado com a chave e ambos saberiam como nos orientar.

Assim, ainda no carro, pedimos que telefonassem a um deles, mas nem tudo correu como previsto! Timor-Leste é perito nestes acontecimentos, mas não estávamos ainda bem cientes disso. Tudo leva o seu tempo e tudo exige a sua calma.

Primeiro, não havia cobertura. Passado umas horas, ninguém atendia.

Já mais tarde, diríamos até no lusco-fusco, o telefone através do qual tínhamos ligado já não estava no carro, e a neta, intermediária, também não. Acabámos ainda assim por nos conseguir explicar e voltar a ligar: sempre na incerteza e sem saber se o Senhor Filomeno teria ou não ligado de volta para o telefone anterior.

Conseguimos quase à chegada – e que mesmo assim leva sempre uma hora no transito caótico da entrada de Dili – falar com a Mana Ela. Ou assim pensávamos que tinha sido. E estava tudo combinado. Às 19h na catedral, a famosa catedral. E assim foi. Fazia-se acompanhar de um senhor com quem falámos em português, e por defeito, assumimos de imediato ser o senhorio, Senhor Filomeno.

Caminhámos então juntos, a transbordar de felicidade e em paz por termos conseguido chegar, por entre o bairro dos Professores, num clima de pobreza, estradas tortas e lixo perdido.

Os sorrisos vinham-nos dos olhos. Puros, singelos. Perdidos por tudo o que víamos e na simpatia daqueles que se aproximavam. É que caminhando pelas ruas fomos sendo sempre cumprimentados com um ‘Boa tardi, vai aonde?’ ou, em língua tétum, ‘Botarde, Ba ne’e bee?’. (Mas vinhamos já treinados da Indónesia, habituados ao ‘mauke mana?’). E é o cumprimento dos timorenses aquele que reconhecemos como sendo um um gesto comovente. Um aperto de mão rápido e solene e, depois, a mesma mão usada no cumprimento é levada ao coração – o que simboliza respeito pelo cumprimentado. Porém, percebemos, nem todos os timorenses o fazem.

– A língua mais falada durante a ocupação da Indonésia, era claro o indonésio (o que ainda hoje se percebe ter acontecido). Durante esse mesmo período a língua portuguesa foi proibida. Hoje o tétum é o mais falado na capital e o português é também língua oficial.  –

Rua para frente, rua para trás, e lá chegámos. A casa, fria e vazia, dizia-nos pouco, naquele momento. O cheiro incerto, a falta de personalidade e, sem bandeira portuguesa, fez-nos questionar se estaríamos na casa certa.

Armários vazios. Não, não podia ser.

Sem falar português, aquela que acreditámos ser a Mana Ela e que depressa percebemos que não seria, pouco entendia do que se estava a passar. E aquele que a acompanhava, e que achávamos ser o Senhor Filomeno, também não o era.

Wi-Fi nem vê-la. Telefone também não, que a pulsa (o saldo) dos telefones tinha terminado.

Estávamos portanto entregues ao vazio.

Se um de nós emana calma, o outro contrabalança. E ainda bem que assim o é, em forma de equilibro e muito amor. Naquele momento, não havia cansaço que vencesse: precisávamos de descobrir onde ficar.

Um mês antes havíamos encontrado entes amigos na Malásia, na escala que faziam rumo a Portugal para passar o Natal. Por sorte, tínhamos ainda uma fotografia tirada juntos guardada e foi essa a nossa salvação! Apressámo-nos a mostrá-la e guardamos até hoje as suas caras de espanto. Conheciam bem, afinal, o casal da casa que procurávamos, mas não faziam ideia de onde ficava. E foi nesse preciso momento que percebemos que não poderíamos estar com nenhum dos dois que havíamos contactado.

Isto, isto é Timor-Leste!

Espera atrás de espera, e esperámos mais um bocadinho. Com  calma, muita calma.

Acabou então por aparecer o Senhor Filomeno, o verdadeiro, proprietário da casa e português falante. Este, depressa nos levou a casa. À verdadeira casa, àquela que percebemos de imediato ser familiar. Aquela a que agora também guardamos como nossa.

E, finalmente em casa, sentiamos pouco mais que o nosso coração a bater.

Havia uma gatinha – e toda a bagunça que ela se tinha encarregue de fazer na ausência dos donos.

E havia um lar.

Estávamos folgados!

Afortunados. Felizes.

Pena só tinhamos por haver ainda mosquitos doenças tropicais com as quais tínhamos uma vez mais de nos preocupar; e por não haver internet… mas sobre isso, não sabíamos ainda nem de perto a realidade!

Sem chances de avisar quem quer que fosse sobre a nossa chegada, demos jeito à bagunça, alimentámo-nos nós e alimentámos a pequena SUAI, abrimos o sofá cama da sala e dormimos. Dormimos muito. Muito. E sonhámos. E descansámos.

A manhã nasceu na mesma euforia com que a noite se pôs, sendo ainda assim já dia 2. Pouco importava. A festa fazia-se ainda, pelo Ano Novo. As mesmas motas, o mesmo barulho. A mesma felicidade.

E preparávamo-nos nós para tratar de almoçar, quando se abre o portão, naquele também seu som tão característico..

Eram eles! A Débora. O David. E a Madalena. Estávamos tão emocionados: esperámos tanto e tão ansiosamente por aquele momento!

A Madalena é uma jovem timorense que se encontra a viver com eles por ser do distrito e necessitar de estudar na capital.

E começámos assim o primeiro de vinte e dois (especiais) dias juntos.

Podemos agora escrever sobre tudo o que fizemos. Tudo o que vivemos. Tudo o que partilhámos, conversámos, discutimos, refletimos e aprendemos. Tudo o que sorrimos. Tudo o que fomos. Mas nada se aproximará daquilo que guardámos no coração.

Começámos por conhecer recantos de Timor e a vida por lá sentida. Aprendemos os cantos à casa e o ritmo a que nela se vive. Fomos aos supermercados do costume, o Páteo ou o Leader, e consciencializámo-nos do custo de tudo. Em dólares americanos, a preços exurbitantes tendo em conta o país, pobre. Os produtos  não são escassos, mas dependem da hora, dia, momento ou época. É também difícil de encontrar alguma coisa à primeira e dar azo a desejos é praticamente impossível. Faz-se a festa com pequenas coisas e o capitalismo torna-se limitado. Já o consumismo é grande e cada vez maior, mas não há muitas empresas e, uma vez mais, a escolha é pouca. As prioridades também as encontrámos invetidas: primeiro vêm as motas e os telemóveis e, só depois, a saúde e a educação. E o (pouco) dinheiro, voa.

Assim, descobrimos que ser-se local é duro, mas ser-se estrangeiro também não é fácil. Uma casa com condições mínimas leva mais de meio ordenado – não local. E um timorense, tendo em conta o que recebe, não é fácil de se perceber que decerto viverá com o mínimo dos mínimos. Comer mais que arroz e os típicos fritos, só em dia de festa. Tudo isto, graças à presença da ONU, que avançou com missões de paz no terreno em 1999 e que teve sempre poder de compra acima da média.

O país também não é grande produtor. Arriscariamos dizer que por lá se vive em preguiça. Dá trabalho fazer diferente ou cultivar. Não têm habitos de agricultura e não aproveitam, conforme poderiam, o potencial das suas terras. A produção de café é significativa, mas tendo em conta o clima e os solos, haveria muito mais para fazer e criar. Morangos só em dia de festa. Bananas, abacates e papaias têm com fartura, mas em escala insignificante face ao que poderia efetivamente ser. Também os preços, uma vez mais, são insuportáveis para o produtos em questão – frutas e legumes locais.

Encontra-se, contudo, uma vasta variedade de produtos portugueses, e muitos até da marca branca do Continente ou Área Viva. Há azeite Galo, bolachas maria, farinha Branca de Neve ou água Luso.

Desta forma, durante a nossa amada estadia, aproveitámos para por em dia todos os nossos dotes culinários. Demos asas à imaginação e muita cor à nossa alimentação vegetariana. Cozinhámos tudo quanto desejámos, criámos pratos lindos e saborosos e, o melhor, fizemos pão e bebidas vegetais caseiras todos os dias.

Mas embora Timor-Leste seja um país lindo, com uma cultura linda e pessoas lindas, que nos enchem o coração com o seu olhar e a forma como dizem “Portugal é nosso!!”, não só a alimentação, a agricultura e os preços são uma lacuna. Há mais, e mais grave.

Há currupção. Ao mais alto nível. E há o sistema educativo. E há currpução no sistema educativo – que está em desenvolvimento, mas com carências e lacunas visíveis. E se é a educação das pessoas que pode mudar o mundo, então Timor-Leste começa a perder-se de pequenino. As escolas não são propriamente eficientes e a qualidade do ensino deixa muito a desejar. As pessoas habituaram-se ao facilitismo e também não encaram as regras com bons olhos. Horários, metas, avaliações… são tudo termos aborrecidos e, até, desconhecidos. Também o ensino privado deixa muito a desejar e a melhorar. As bases acabam por ser as mesmas e o sentido de responsabilidade por parte dos professores e alunos é algo desvanecido. A perspetiva do deixa-andar e os sorrisos sossegados no rosto acabam por resolver até os maiores problemas; e os jovens de hoje em dia não encontram objetivos que os façam lutar por uma educação rigorosa. Gostam de brincar, não importa a idade que tenham. A cultura de rua está muito presente e aplica-se à maioria das famílias, que retratam um povo relaxado e com pouca iniciativa, mesmo que feliz.

Não menos grave é o estado do país, das cidades, das aldeias, das ruas, das estradas. E das casas. O lixo é um problema atual e a sua falta de tratamento também. Fazem queimadas sempre que assim se lembram e em cada canto ou recanto, o mais provavel é que se tropece num monte de plástico, papel e resíduos alimentares. Timor-Leste é claramente um país em vias de desenvolvimento, mas o dinheiro mal gerido leva a que muitos destes problemas se arrastem e alastrem.

Em consequência do problema do lixo, há também cada vez mais doenças e doenças transmitidas por mosquitos. O sistema de saúde deixa também muito a desejar. As tradições timorenses, crenças e espiritualidade, fazem com que muitos se afastem dos cuidados médicos. Os que a estes recorrem, nem sempre são efetivamente tratados ou conseguem vir de lá esclarecidos.

No fundo, foi para nós engraçado ver como é que um pais pequeno funciona como um pais grande, mesmo que com fracas condições: têm ministérios, televisão, embaixadas, doutores (ou aspirantes), rádio, universidades… e pobreza, lixo, fumo, estradas sem asfalto.. tudo isto junto. E com uma beleza inegualável. E tão inegualável!

Aprendemos muito. E muitas coisas.

E uma das mais engraçadas foi a como ir ao banho sem que fossemos atacados por um crocodilo:

Estávamos na Embaixada de Portugal, depois de termos feito um pedido de informação sobre a renovação do passaporte por e-mail. Conseguimos com isso que nos fosse remetido um e-mail automático (sem que soubessemos que o era), com  a marcação de uma reunião para as oito horas da manhã. E lá estávamos nós então, com outras cem pessoas, todos à espera da mesma reunião. O calor era tremendo, como sempre, e o suor escorria-nos pelo corpo – como todos os dias. Enquanto esperávamos, aproximou-se um senhor, que sem hesitar, avançou em português. Começou por perguntar de que zona de Portugal vinhamos. Trava-nos por Mana e Maun (mano). E ria, perdido, por entre as mil histórias de que se foi lembrando sobre a sua antiga patroa, também ela portuguesa. Margarida, dizia.

A conversa foi, e tanto foi que ia já naquilo que não podiamos perder. Falou-nos de Baucau e de tantos outros lugares mágicos – muitos dos quais não chegámos a conhecer. Mas falou-nos também do quanto tinhamos ainda por nadar nos seus mares azuis. Confessámos-lhe então jamais ali fazê-lo, com medo de um ataque de crocodilo. E ele, tão querido, riu-se. De novo!

Ensinou-nos então, de coração aberto e com crença no olhar, que bastaria enrolar em cada tornozelo e pulso uma folha de palmeira. Desta forma, os crocodilos saberiam que somos família. Sim, família. E é aqui que está a graça, a dádiva e a inspiração. A convicção e a fé são inegualáveis. Acreditam que o espírito dos seus avós vive em pequenos crocodilos, e por isso os alimentam e protegem. E bastaria assim as folhas nas extremidades para que nos reconhecessem.

Perguntámos-lhe então, ‘E se não nos reconhecer e acabar por nos comer?’, ao que sem pensar, encolhendo os ombros e muito sério disse… ‘Paxiênxia’!

Da Embaixada não troxemos nada mais senão esta aventura e uma dor de cabeça em burocracias. Documentos, documentação, papelada e trabalho: um vazio e uma lentidão, por Timor.

E por entre tantas outras pequenas aventuras, fomos também a uma festa na escola. À cerimónia do içar da bandeira timorense no Ministério da Educação. À Lusa, à RTTL e à rádio, para diferentes entrevistas. À escola portuguesa e ao cemintério de Santa Cruz.

Jantámos com um casal de portugueses aventureiros, exploradores, criativos e generosos, com uma história de amor com o mundo e por Timor: a Katy e o Ricardo (podem conhecer a história deles aqui); e partilhámos um pôr-do-sol e um sumo natural com um amigo de uma amiga, que agora é nosso amigo também, mentor da nossa ida posterior ao programa de rádio português!

E no cimo dos nossos corações ficou também registado o nosso encontro com uma família muito especial:

Há vários anos, num programa de intercâmbio de três meses para docentes entre Portugal e Timor-Leste, conhecemos a Ricardina. A Ricardina descobriu muito connosco – o que era trânsito organizado, um supermercado limpo, uma cama com lençóis, um autocolismo ou um elevador. Descobriu o que era um país desenvolvido e soube integrar-se nele. Pintou as unhas. Foi ao cabeleireiro. Melhorou o seu português e engordou vários (muitos) quilos. Mas foi muito mais aquilo que ela nos ensinou a nós. A sua preserverança, a sua luta, a sua garra. A sua vergonha, a sua paz, a sua calma. O seu coração gigante, naquele corpo pequenino. Aquela voz de melodia suave e tom neutro. O seu sorriso, o seu olhar. As suas mãos ásperas e tão suaves. Sempre frias! “Ai senhora”, “Mana Joana…”; e tantas outras expressões em nós marcadas.

Passaram-se os anos, os meses, os dias; passou-se o tempo. E as saudades nunca passaram.

Despedimo-nos um dia, perto do aeroporto, no hotel onde a deixámos. A ela, ao António (que também ficou nas Caldas) e a todos os restantes colegas timorenses. Chorámos, na promessa de que um dia a voltariamos a encontrar, em Timor-Leste!

E a promessa cumpriu-se, até mesmo quando já nem ela acreditava. E a sua voz estremeceu, no dia em que lhe telefonámos, pela primeira vez, e lhe dissemos que estávamos ali mesmo, em Dili. Sorriu pelo telefone. Sorriu tanto, e chorou de novo. Era tudo, e era principalmente a saudade em voz.

Encontrámo-nos várias vezes durante a nossa estadia. Em Dili, em Ermera, em Gleno e também no aeroporto – desta, foi ela a deixar-nos partir.

Partilhámos momentos especiais. Visitámos-lhe a casa, a vila, a escola, a aldeia. A provincia, a casa dos pais, a estrada. O tempo. Demos-nos tempo e tempo para estar. Conhecemos-lhe finalmente os filhos. A familía. O lar. E ela, sempre envergonhada, abraçava-nos a cada emoção forte. Queria dar-nos a conhecer tudo aquilo que tinha e sabia, e tapava os olhos de medo. Sabia bem, guardava bem, as condições em que sabia vivermos em Portugal, e que em nada se assemelham àquelas em que vive em Timor.

Aprendemos assim a entender tudo aquilo que não entendiamos em casa. Percebemos tudo aquilo que não conseguiamos perceber outrora. Cada comportamento, cada atitude, cada gesto… é tudo uma questão de cultura. De vida. De história. E a história da Ricardina é agora também nossa.

Na despedida ficou a promessa. Voltamos a encontrar-nos em 2021. Esperamos por ti.

E também na despedida, de Timor, daquela que foi a nossa casa, naquele que é o lar da Débora e do David, vivemos momentos de deleite e bem-estar, paz e amizade. Aproveitámos o sol para subir ao Cristo Rei, avistar a Praia dos Portugueses e saborear a famosa água de côco e os petiscos da Mana Fina, na Praia da Areia Branca.

De toda a estadia, acabámos por não ver crocodilos… mas também não fazíamos questão!

E não experimentámos andar de microlete – o transporte público mais afamado, porque nunca foi preciso. Mas que são únicas só de ver, são! Por fim, já na hora da partida, fomos presenteados com um “tais” (pano em tétum): os lenços ou as faixas de tecido timorenses, muito célebres e tão representativos.

Guardamos tudo em nós. O vivido. O por viver. O visitado. E o que ficará para a próxima.

No nosso coração.

Juntos. Sempre, sempre juntos.

Timor-Leste é especial. 

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7 ilhas na Indonésia

O “fast boat” partiu de Singapura à hora prevista, mais vazio que cheio e muito limpo – mal sabíamos nós o que na verdade nos esperava: em abundância de gente e em sujidade.

Foi a Batam que chegámos, dia 13 dezembro. Tínhamos em nós, como sempre, todos os sonhos do mundo. Mas, desta vez, trazíamos também o receio de tudo quanto nos esperava. Da quantidade de quilómetros que íamos fazer. Da quantidade de ferries que íamos apanhar. E do desconhecido. Porque sobre a Indonésia e as suas ilhas, quanto mais pesquisámos, mais confusos ficámos, ainda que uma coisa fosse certa: a de que toda a gente sorri e faz por ajudar.

Assim, à nossa chegada tínhamos uma família à nossa espera. Ela, Sulastri, a mãe e esposa, era a couchsurfer, e mesmo antes de nos conhecer já nos havia ajudado e muito.

Quando ainda em Singapura tentávamos arranjar solução para que conseguíssemos comprar o bilhete de barco para Jacarta, foi a Sulastri quem nos facilitou tudo. O barco partia de um porto; os bilhetes vendiam-se noutro. Nós chegávamos a uma hora, a bilheteira fechava a outra. Enfim, quando tudo parecia ser impossível de conciliar, vimos luz. Luz humana. E não há agradecimento que pague, quando alguém que ainda nem nos conhece, nos vai comprar dois bilhetes – caros, e nos vai buscar ao porto, e nos leva a passear pela cidade, e a jantar fora, e às compras… não há palavras!

A sua casa era pobre. O bairro também.

As pessoas, humildes, olhavam por entre as cortinas das janelas. E só os pequenos mais atrevidos vinham à rua espreitar. Espreitar os turistas. Os brancos.

E nós dois, chegados de Singapura, não sabíamos o que esperar. Ou o que nos esperava.
As condições não eram de facto as melhores. A casa de banho, uma latrina. O autoclismo, um tanque com água e um balde. O chuveiro, o mesmo tanque e o mesmo balde. (Tudo como descobrimos depois ser típico, tradicional e normal na Indonésia). A cozinha, ao ar livre. As paredes, embora brancas, castanhas. As portas empenadas. Os colchões de casal no chão. E sorrisos. Sorrisos no rosto. E humildade.

Tínhamos tanto para aprender.

Na manhã seguinte, depois de também terem trocado turnos de trabalho, levaram-nos ao porto que se seguia. Ainda em Batam.

Esperavam-nos cerca de 30 horas de barco, o PELNI, numa escuridão. Ali, sofríamos por antecipação, sem saber ao certo o que nos esperava. Mas pelas pesquisas, nada de bom seria. Previa-se uma confusão imensa. Um barco desorganizado. Sem condições, sem casas de banho, sem ar condicionado, sem camas, sem coletes salva vida, sem regras. Esperávamos que todos fumassem em todo o lado (como já nos tínhamos apercebido ser), que todos comessem em todo o lado. Que tudo acontecesse em todo o lado.

Mas trazíamos fé: fé numa zona em que nos conseguíssemos deitar, numa zona em que não fumassem, numa zona em que pudéssemos estar.

À chegada ao porto, a confusão era imensa. Atrás do carro, como manda a tradição, correram aqueles que ganham o seu dia a carregar bagagem, na expetativa de poder carregar as nossas malas – o que não aconteceu.

Já depois de feitas as despedidas e todos os agradecimentos que pudemos expressar, entrámos. Entrámos no porto.

Tinha gente, mas não tanta quanto receávamos. E eram até talvez mais as caixas, os caixotes, as galinhas, as malas e as embalagens, que propriamente as pessoas, que se sentavam por todo o lado e se abanavam com o que podiam, enquanto esperavam pelo abrir dos portões. E fumavam, claramente por todo o lado, enquanto se questionavam, provavelmente, sobre o que faziam ali, dois brancos, na entrada para a classe económica, onde vive o caos.

Tínhamos tantas borboletas na barriga, que nem por um segundo conseguimos sentar-nos. E foi o melhor que fizemos, porque no momento em que o portão se abriu, abriu-se também a jaula da selva. Estava instalada a confusão! Tropeçavam uns por cima dos outros, empurravam-se e corriam. Era a tentativa de chegada ao barco. A tentativa de escolha do melhor lugar. E nós não lhes ficámos atrás, sempre sobre a teoria do “faz como vires fazer!”.

Fomos então os primeiros a entrar no autocarro que liga o edifício portuário ao barco e um dos primeiros a de lá sair. E de mochilas às costas, caminhámos rápido até estarmos em mar.

No barco, foi-nos a correr indicada uma cama. E ainda às escuras, aceitámos. Era uma cama! E tinha ali ao lado uma casa de banho. E um sinal bem grande de “proibido fumar”. Pareceu-nos perfeito! E sentámo-nos, observando o que ali à volta acontecia.

As pessoas, os locais, entravam que nem formigas. E os pertences eram mais que muitos, carregados por todos aqueles que assim ganham a vida.

E nós ali, impávidos mas pouco serenos. Em pura observação.

Quando tudo começou a acalmar, e já depois de termos conhecido um alemão, de quem até hoje ficámos amigos e que a nós se decidiu juntar, conseguimos olhar em nosso redor.

Com olhos de ver.

Sempre com as mochilas em mira, fomos ver. Ver o que havia mais, depois daquelas camas onde nos havíamos instalado. E, para nosso espanto, havia mais camas. Mais beliches. Mais colchões. Mais casas de banho. Mais sinais de “proibido fumar”. Mais espaço. E mais fresco!

Agarrámos então nas tralhas e bagagens, e mudámo-nos. E foi o melhor que poderíamos ter feito!

O barco, afinal, não ia nem perto de estar cheio. E afinal não era um ferry, era um cruzeiro. E afinal não estava a cair de velho, tinha sido remodelado. E afinal não estava assim tão sujo, era limpo a cada 12 horas.

Então, por mais que as pessoas fossem descuidadas, sujas ou pouco educadas, eram palco de simpatia, de sorrisos e generosidade. E aquela que tinha tudo para ser um pesadelo de viagem, foi uma bênção. Pena foi só o que chorámos por antecipação, o que sofremos no planeamento e o que imaginámos que podia vir a ser.

Na conclusão, fomos abençoados. Não houve agitação no mar. Havia televisões a transmitir futebol. Havia chuveiros e boas casas de banho. Havia restaurante. Bar. Música ao vivo. Até wi-fi para quem quisesse comprar! Havia camas e colchões para todos. E ainda almoço e jantar (que muito embora não fosse vegetariano, aceitámos, oferecendo o que não comíamos a outras pessoas). E houve também direito a amizades e muita conversa à mistura, com mais um espanhol ciclista que a nós se juntou.

Chegámos então a Jakarta, ilha de Java, dia 15 de dezembro à noite. E não é que estivéssemos cansados, mas estávamos com certeza moídos. E ao mesmo tempo felizes, muito felizes!

Caminhámos até a estação de autocarros urbanos mais próxima, acompanhados por muitos daqueles que tinham também vindo no mesmo barco que nós. E em especial, por uma senhora grávida, que embora envergonhada e a falar por gestos, conseguiu explicar que queria tocar nos nossos narizes (sob a crença de que o bebe terá agora um igual, com cana e comprido).

Por ser Bekasi o nosso destino, no transito caótico de Jakarta, decidimos apanhar o autocarro urbano. E por 20km, levámos mais de duas horas. Verdadeiramente infernal.

À chegada, procurámos quem na rua nos deixasse telefonar e assim conseguimos chegar à couchsurfer que nos iria hospedar. Com uma voz doce, apressou-se a dizer que iria buscar-nos onde estávamos e assim nos encontrámos, por entre a multidão e a confusão que se fazia sentir. Caminhámos depois juntos, por becos e ruelas, e até pela linha de comboio, até que numa pequena avenida entrámos numa pequena van – conhecida como angkot ou microlete, que nos levou até perto de casa. A sua casa, onde carinhosamente havia deixado preparados alguns snaks, muito famosos na Indonésia, feitos de banana, de batata, e frutos secos, e tantas outras coisas! E embora fosse uma casa pobre, onde a casa de banho era ao ar livre e as paredes não eram de todo limpas, percebemos ser uma das melhores casas nas redondezas. Tínhamos até wi-fi, algo raro. E tivemos também um jantar local, de arroz, legumes e tempeh, e um pequeno almoço pela família preparado, com pataniscas vegetarianas e muito tofu, sem claro que pudesse faltar o arroz!

Com lápis de cera, escrevemos a placa seguinte. Estávamos prontos para mais um dia de estrada. Mas, sem que concordássemos previamente ou sem estarmos à espera, já tinha sido chamado um Uber para nos levar até a estrada que saía da cidade e onde nos íamos pôr à boleia. E ainda que pouco satisfeitos com a resolução em si, seguimos. E partimos.

Fugimos assim de Jakarta, do centro da confusão. Do caos em carros. Em pessoas, em lixo. Dos grandes arranha céus em contraste com pobreza extrema, falta de higiene e saneamento.

De Bekasi, fomos para Kendal, perto de Semarang. Até lá, não que tenha sido um dia difícil, mas foi duro. Duro na pele, nos enjoos, no calor, no trânsito, no tempo. Principalmente no tempo. Foram quatro boleias para 400 quilómetros: e 12 horas a andar de carro. Pessoas fantásticas, doces. Pessoas com humor, com liberdade e simpatia. E todas nos deram boleia de sorriso no rosto, até já de noite e com as luzes das estrelas.

Na cidade, ficámos com um novo couchsurfer. Era jovem, afortunado e filho de donos de um grande restaurante. A casa, onde viva, era pobre e suja. Com paredes acastanhadas. E teias de aranha. Mas mais longe, a pouco tempo de carro, tinha uma casa, de família, novinha em folha. Aliás, uma mansão. Onde as paredes brancas reluziam e os azulejos do chão também. Não tinha internet. Nem televisão. Nem tão pouco água quente. Estava a meio na sua construção, havendo por isso divisões a céu aberto. Mas era um paraíso.

Ali montámos a nossa rede mosquiteira, e dormimos que nem príncipes e princesas. Mas por poucas horas, até percebermos que tinha um de nós já sido provavelmente vítima da falta de saneamento, e por isso presentado com muita dor de barriga, mau estar e diarreia. Faz parte, faz sempre parte, nestes países! E muita sorte tivemos de ter sido só então.

Passámos assim a noite acordados, entre a casa de banho e o quarto, apoio moral e carinho. E quando amanheceu conseguimos tudo menos levantar-nos e seguir caminho. Estávamos exaustos.

Passava depois pouco das 16h00 e, por entre o arroz cozido, branco, e a muita água potável que bebemos (porque na Indonésia não há água que não estando engarrafada seja potável ou própria sequer para cozinhar), estávamos prontos. Sim, prontos. Podíamos ter tirado o dia para descansar, ou para nos deixarmos estar. Mas não!

Pusemo-nos à boleia para Jogjakarta, com a esperança de que por serem apenas 150 quilómetros, fosse um trajeto curto! E era, e andar à boleia era fácil, muito fácil! Mas levou quase 7 horas, tendo nós apanhado 2 boleias. O último senhor acabou por desviar-se da estrada principal, o que ainda nos valeu um susto: não que tivéssemos medo dele, mas qualquer desvio na ilha de Java é coisa para levar mais uma mão cheia de horas na estrada. Percebemos então que queria ir visitar a sua família e assim o fez, tendo-nos deixado horas depois mesmo à porta de casa, feliz por nos ter conhecido e de braços abertos para se o desejássemos voltar a encontrar!

Clarificamos em nós que os quilómetros eram imprevisíveis. E que por isso é que na Indonésia se fala em horas e não em quilómetros. Além do muito trânsito, muitas estradas estão em más condições. E para ajudar, os autocarros comportam-se como ambulâncias, buzinando a toda a hora, em excesso de velocidade e ultrapassagens perigosas, tudo para cumprir horários. E os demais, na estrada, cedem-lhes passagem e respeitam a urgência – que por tantas vezes é realmente perigosa!

Em Jogjakarta passámos duas noites. A nossa couchsurfer era trabalhadora numa Guest House recém aberta e amiga do dono, que aceitou lá hospedar-nos. Ficámos muito muito bem instalados: num quarto só para nós, com facilidade para prender a rede mosquiteira e tinha sanita, o auge do moderno (mas não, não tinha chuveiro)!

A cidade, que embora muito turística, era pouco cuidada relativamente ao lixo. Por lá passeámos e tivemos a sorte de conseguir conciliar o horário de vários couchsurfers e assim fizemos um grande encontro, isto porque ao longo da nossa estadia na Indonésia, foram poucas as vezes que enviámos pedidos particulares ou individuais para que nos hospedassem. Colocámos antes nos grupos a nossa história e o que não faltaram foi ofertas de pessoas que teriam prazer em encontrar-nos e alojar-nos. Uma cultura muito hospitaleira e um desejo muito grande de aprender ou treinar o inglês!

Contudo, em Jogjakarta, sofremos com a excessiva exploração de cavalos, a maior parte visivelmente mal tratados. Percebemos mais tarde que acontece o mesmo um pouco por todas as ilhas que visitámos, mas ali foi mais doloroso por percebermos que eram os turistas os grande responsáveis pelo alimentar desta indústria.

De lá, depois de termos acordado muito, muito dedo, seguimos para Malang. Caminhámos para sair da cidade e tivemos ainda de voltar atrás para ir buscar a nossa querida toalha de banho, esquecida no quarto. Apanhámos depois um autocarro urbano e já na estrada certa, pusemo-nos à boleia. A primeira correu bem, foi rápida e com uns senhores amorosos. Estávamos confiantes e só queríamos chegar a casa das amigas ucrânianas que nos esperavam, numa residência de professores estrangeiros universitários.

Mas até chegar a segunda boleia, penámos.

Penámos pelas horas que esperámos. Pelo desespero. Pela chuva. Pelo cansaço.

Esperámos mais de 7 horas, com uma placa erguida a dizer Malang.

Pelo meio, conhecemos a acedemos a tirar fotografias com locais, arranjámos wi-fi no minimercado lá perto, e houve até outros viajantes a oferecer-nos comida. Tudo isto sem que ninguém falasse inglês. Mas boleias, nem vê-las!

Decidimos então trocar de roupa e pôr chinelos. A chuva, que teimava em não parar, era também fonte da nossa desgraça ali, naquele momento. E não havia já chapéu de chuva ou capa que nos vedasse. E trocámos também a placa que dizia Malang, por uma placa a dizer Bali (na esperança que a loucura do destino, a 1000 quilómetros , fizesse alguém parar! Até porque sabíamos que havia camiões e autocarros a fazer o percurso).

Mas foi também ali que nos rimos muito, perdidos, pela graça de um jovem que por nós passou. Abordou-nos de forma simpática e humilde para nos avisar que ali, na estrada onde estávamos, seria muito difícil encontrar um carro para alugar. Não percebemos à primeira, mas ele falava a sério!! Dizia que as companhias de carros para alugar não iriam tão longe, nem por ali. Embora incrédulos, vimos que falava firme e certo do que dizia.

Levou tempo, mas lá lhe explicámos a nossa história e o que fazíamos ali, à boleia.

Já de noite, quando assumimos ser difícil encontrar quem nos levasse, considerámos tudo. Deveríamos caminhar? Ou ficar ali mesmo? Montar a tenda? Comprar jantar? Parar de pedir boleia? Ou continuar? Até quando?

E por entre todas estas indecisões, o rapaz a quem explicámos o que era andar à boleia, enviou uma mensagem. Nela, dizia que se ainda não tivéssemos conseguido encontrar um carro, que poderíamos dormir em sua casa. E logo depois acrescentou que poderíamos tomar banho e que seríamos bem vindos para jantar!

Há pessoas únicas e maravilhosas, não há?

Aceitámos, claro, e revezámo-nos entre os últimos minutos de boleia (por si acaso..) e o arrumar das mochilas, já que depois de mais de 7 horas no mesmo lugar, tínhamos pois o acampamento montado!

E foi num desses segundos que parou um carro! Fez sinal e encostou mais à frente.

Era daquelas pessoas que só de olhar nos olhos lhe sabíamos o bem. Para ajudar, falava inglês. E o mais engraçado era que embora não fosse para Bali, estivesse a ir para Malang!!

Ora, como é que é possível que a mostrar a placa de Malang tantas horas, ninguém tenha parado, e que a mostrar a placa de Bali, tenha parado um sujeito a ir para Malang?

Contado leva tempo, mas foi num segundo que pensámos, aceitámos, explicámos por escrito ao rapaz da casa que tínhamos encontrado boleia, empacotámos tudo e seguimos. Era uma longa jornada, ainda, e íamos fazê-la de noite. Mas estávamos bem entregues. Contudo, gelados.

Parámos pelo caminho, passava já dá meia noite, para jantar. Ofereceu-nos arroz com legumes, água e café e seguimos caminho, sem que pudéssemos imaginar que chegaríamos a casa passava já das 4h00 da manhã. E estávamos perdidos de sono!

O plano em Malang era parar e seguir. Fazer da cidade uma paragem para descanso e continuar até Bali, mas não conseguimos. Ficámos então duas noites, durante as quais conhecemos pessoas extraordinárias, incluindo uma portuguesa! Voltámos depois ainda a encontrar quem nos tinha dado boleia, e ainda a sua família.

E embora estivéssemos receosos pela quantidade de mosquitos existentes na zona, valemo-nos da nossa rede mosquiteira e assim descansámos. Mas o corpo pedia mais. Mas horas de descanso. Ou mais cama. Mais calma. Mais calor. Mais tempo. Ou mais casa.

Mas partimos no dia seguinte, rumo a Bali.

Eram muitos, muitos quilómetros. Mas sabíamos que havia quem o fizesse de seguida, e não era impossível. Aliás, não há impossíveis à boleia. Então tentámos a nossa sorte, ainda que depois tenhamos percebido que tivemos algum azar.

Começou por chover a meio do dia, o que em nada nos ajudou. E o vento, as oscilações entre o sol quente e a tempestade, o quente e o frio, com o cansaço, resultou em dor de garganta. Mais tarde, em dor de cabeça e, por fim, em febre.

Tínhamos já apanhado 3 boleias, mas mais que conseguimos foi chegar ao meio do nada, literalmente. Mas ali mesmo, percebemos que havia um hospital, e foi para lá que caminhámos: a custo.

A febre, o mau estar, as dores no corpo e o peso da mochila dariam conta de qualquer ser humano.

No hospital, com as condições que podem imaginar, tivemos a graça de ser atendidos na urgência por uma médica a quem o inglês não era estranho e depressa nos acalmámos. Talvez o que fizemos não seja o que se deva fazer, mas febre num país tropical, da sempre aso a dúvidas. Malaria, dengue, encefalite e mais mil doenças de nomes estranho, fazem todas parte do reportório da Indonésia e a doutora fez questão de as relembrar uma por uma.

Viu a garganta com a lanterna do telemóvel.

O senhor da receção ajudou a senhora das análises a tirar sangue.

As análises foram feitas ali mesmo, em cima da mesa onde escrevem e também comem.

Vale tudo! Tudo num hospital público, sendo o único num raio de 300 quilómetros!

Ali ficámos, mesmo depois de sabermos que provavelmente não passaria de uma infeção na garganta, uma gripe, e claro o sistema imunitário em baixo. Resolvido com antibiótico (que afinal o hospital não tinha), paracetamol, anti-histamínico e vitaminas, acabámos a jantar o que nos ofereceram, a tomar banho no balneário do hospital e a dormir juntos na cama das urgências, onde a capa da cama ou o lençol tem de ser trazido pela pessoa internada. E no dia seguinte, já quase como novos, pagámos pelo serviço 0,70€ e seguimos.

Já não faltava tudo para Bali e agora sim, tínhamos a certeza no coração de que lá chegaríamos. E assim foi! Apanhámos duas boleias, e um barco. Conhecemos uma família e um jovem local de Bali já do lado de lá. E fruto da amabilidade de ambos, conseguimos chegar!

Na ilha ficámos duas noites, em casa de uma couchsurfer habituada a hospedar sem limites. Trazia em si uma capa protetora e levou algum tempo até lhe conseguirmos chegar. Acabámos contudo por colecionar bons momentos juntos, mas Bali não foi de todo um lugar que nós impressionasse. Ou se o fez, não foi pelos melhores motivos.

As pessoas menos simpáticas, mais interessadas no dinheiro; as praias sujas, cuidadas apenas nas épocas mais turísticas; o mar poluído… tudo somado, deixou muito a desejar.

Apanhámos então duas boleias até ao porto de Bali, rumo a Lombok. Foram duas boleias fáceis e certeiras, de pessoas cujo coração tem um tamanho infinito. Mas perdemo-nos no tempo enquanto esperámos por encontrar um camião que nos levasse no ferry de forma gratuita e acabámos por atravessar mar já fora de horas. Assim, só já de noite conseguimos as duas boleias que nos levaram à aldeia que procurávamos. A última muito difícil, depois de várias horas à espera, de anoitecer e de muitos locais nos terem já abordado.

As boas vindas não foram as melhores.

E mais marcante: era noite de Natal. Sim, 24 de dezembro.

As emoções estavam à flor da pele. À flor do coração.

A tudo o que estávamos a viver, acrescentámos as saudades de casa. A dificuldade em lidar com isso. E por entre lágrimas, aperto e dureza, amargura, ânsia e desespero, principalmente quando percebemos não ter Internet por perto.

A família que nos acolheu, já a dormir à hora que chegámos, era muçulmana (como a grande maioria).

E o filho, pequenino, tinha sido circuncisado por motivos religiosos (para purificação e por permitir no futuro limpar-se mais facilmente, da mesma forma que mulheres menstruadas não podem entrar na mesquita). E assim, com todos focados nas suas vidas, não tivemos nada que nos aproximasse de uma noite natalícia. Restava uma sensação de vazio, na ausência daquela que é também a nossa família. Mas felizes por estarmos bem. E juntos.

Dia 25, logo pela manhã, decidimos mudar de casa. Avançar no caminho e procurar um lugar onde pudéssemos estar em contacto durante o almoço em Portugal! Conseguimos então a primeira boleia com a cunhada da couchsurfer que nos havia hospedado, que acabou por nos levar até casa dos sogros, onde por coincidência estavam a ter uma celebração muçulmana (mas que em nada conectada com o Natal).

Lá, conhecemos um familiar que mas tarde iria na nossa direção e depressa combinámos para que nos levasse até perto de Salong, o nosso próximo destino. Deixou-nos a poucos quilómetros, muito poucos, e de lá depressa apanhámos uma boleia de uma pick-up recheada de jovens, cheia de escuteiros. Até chegarmos, foram pelo caminho histéricos e em euforia. Tirámos fotografias, fizemos vídeos. Valeu tudo! Trocámos contactos, sorrisos e abraços, e na despedida contactaram o nosso couchsurfer para o avisarem de onde nos haviam deixado.

Era um jovem, Afan, o couchsurfer. A princípio, pareceu-nos estranho. Mas foram pensamentos infundados! Em sua casa encontrámos uma doce família e vários dos seus amigos. Jogámos ping-pong. Petiscámos e jantámos e petiscámos de novo até tarde. E por haver Wi-Fi, conseguimos fazer uma ligação com vídeo para a nossa família, que no auge de todo o amor que por eles nutrimos, estavam todos juntos! Alegres, em torno da mesa do almoço de natal, e falamos com pais, irmãos, tios, avós e primos. E a quem não conseguimos falar no momento, conseguimos deixar um vídeo. Dormimos, assim, felizes e de coração quentinho.

Reconfortados.

Amados.

Na manhã seguinte, sentimos os raios de sol fortes. Sabíamos que era hora de despachar e partir para Sumbawa, mas os pais do Afan fizeram questão de nos levar ao porto onde apanhámos o ferry. Hesitámos a princípio, mas depressa percebermos ser uma alegria! Foi a família toda, num clima de felicidade constante!

Apanhámos então o primeiro ferry que conseguimos, depois deste se atrasar mais de uma hora (nada que seja estranho neste país, confessamos!).

Já na ilha de Sumbawa, sem que tivéssemos tempo para pensar no que quer que fosse, deixámo-nos deslumbrar pela paisagem! Uma ilha quase deserta, linda, majestosa. Indescritível e inesquecível. E talvez por isso nos tenha ficado cravada na mente.

A primeira cidade que procurávamos, tinha decerto mais aspeto de aldeia que de cidade: Sumbawa Besar! Ainda no ferry, conseguimos uma boleia de uma pick-up. Eram uns 10 homens e estavam a chegar para ajudar no terramoto de Bima. Bima é uma cidade mais a leste, para o meio do país, por onde mais tarde passámos. Mas já tínhamos ouvido falar da tragédia que lá se tinha instalado: muitas chuvas, cheias, ventos, muita gente desalojada, muita confusão e miséria naqueles dias, e até uma ponte caída.

Assim, assistimos a ondas de solidariedade vindas não só da própria ilha, como de ilhas vizinhas. Vimos concertos solidários a acontecer, vimos homens e mais homens a chegar só para ajudar. Carrinhas de mantimentos. Comida. Água.

E força. E tantos, tantos sorrisos. Estas pessoas, mais que tudo, traziam alento.

Pelo caminho, sempre animados, foram fazendo uma visita guiada por onde passávamos, enquanto todos juntos dividíamos o espaço que restava na caixa aberta. E já a mais de meio, depois de terem já parado para rezar, encontrámos uma mangueira carregada de mangas. Umas maduras, outras verdes. E em menos de nada, tínhamos 20 mangas no colo: estávamos no paraíso!!!

À chegada a Sumbawa Besar era ainda cedo. Passava pouco desde a hora de almoço e por sabermos que estaria em casa, procurámos o Johny, o couchsurfer que nos iria hospedar.

Caminhámos pela aldeia, por estradas de terra batida e muitas poças de lama. Fomos avistando e cumprimentando as crianças que encontrámos, com o típico e habitual “Hello mister” e percebendo que as condições locais não eram de todo as melhores. Muitos lagos repletos de lixo. Muita lama. Fraldas sujas por todo o lado. Plásticos a boiar, montes de terra misturada com restos alimentares.

O cheiro no ar era intenso e, embora estivéssemos literalmente no coração da natureza, a falta de saneamento e tratamento do lixo fazia igualmente sentir-se.

O Johny era um jovem cordial, sincero e afetuoso. Sabíamos no seu olhar a felicidade que trazia por nos receber. E esperamos nós nunca ter dado transparência ao que estávamos a sentir.

A sua casa não tinha portas. Nem janelas. E ficava no meio daquele panorama que acima descrevemos. Mas, o pior: tanto ele, como os amigos, fumavam em casa. E acendiam uns cigarros nos outros, sem que fosse possível respirar por perto.

Mesmo com a quantidade de mosquitos por perto e com as condições que tínhamos, a decisão de ficar ou partir foi difícil e ainda nos levou mais de uma hora. Não é fácil explicar a realidade das situações e há pouca coisa que justifique não podermos ficar com alguém de bem. Mais, quando percebemos que as pessoas querem muito e de coração receber-nos.

Mas decidimos partir. Ainda que com um nó na garganta, ainda que soubéssemos que nos tínhamos explicado e que não havia mágoas por resolver. Mas a razão falou mais alto.

Ou não . Terá sido o medo?

Estávamos então de volta à estrada, rumo a Dompu, a cidade seguinte onde tínhamos quem nos hospedasse. Placa esticada e não esperámos praticamente nada até que parasse a próxima carrinha, uma vez mais cheia de homens recém chegados para ajudar em Bima.

A boleia foi direta e já mais de metade feita de noite. Parámos apenas e só para um chá e uns biscoitos. E chegámos pouco passava da 00h.

Lá esperava-nos um família. Dois jovens recém casados, com uma casa humilde mas muito limpa (face aos padrões indonésios) e o seu café. Lá, num quarto pequenino mas muito cuidado, tinham preparado a cama para nós e a única coisa que tivemos de fazer foi montar a rede mosquiteira. Não só pelos mosquitos, mas pelas aranhas: nada simpáticas, do tamanho da palma da mão.

Com eles ficámos dois dias, durante os quais visitámos uma famosa praia de surf, a cidade e os seus encantos; e juntos cozinhámos para toda a família, amigos e vizinhança!

Era já dia 28, aproximava-se a passagem de ano e a nossa tao desejada chegada a Timor. Mas tínhamos ainda pela frente um longo caminho!

Começámos por conseguir uma boleia até Bima com amigos dos nossos couchsurfers, que iam para lá ajudar. À chegada, contornámos a cidade e, mesmo assim, eram visíveis os destroços e o caos, mas havia pouco que pudéssemos nós fazer, a não ser conversar com os locais e deixar que tirassem fotografias connosco!

Lá caminhámos muito e acabámos por conseguimos sair da cidade e chegar a Sape com uma família. Foi complicado apanhar boleia, os locais não nos largavam. Alguns queriam realmente ajudar, mas todos os outros não percebiam o que estávamos a fazer e queriam apenas e só estar ali, ao lado, a ver.

Em Sape, andámos perdidos à procura daquele que seria o nosso próximo couchsurfer, o Minh (que já em tempos alojou um casal de amigos nosso – que mundo pequenino!). Ligávamos e não atendia. Procurávamos outra pessoa para lhe ligar, e voltava a não atender. E assim fomos andando, debaixo de uma chuva miúda e dos olhares atentos de quem por ali vivia.

Mais à frente, num posto dos correios, decidimos tentar a nossa sorte e perguntar se tinham wi-fi. As ligações apareciam no telefone, mas codificadas. E embora não houvesse internet, havia fraternidade e preocupação. Havia intenção de ajudar, o que nos conforta sempre.

Conseguimos então voltar a telefonar e desta estabelecer ligação. Percebemos assim que a casa ficava a 12 quilómetros do local em que estávamos e não tínhamos alternativa senão caminhar e tentar encontrar uma nova boleia.

Sem hesitar, foi o próprio senhor dos correios e um colega a oferecer boleia. De mota! E lá fomos, depois do posto fechar, cada um com os olhos postos no outro, rumo à pequena aldeia.

Não só a casa do Minh era enorme, como a sua família também o era. Gigante! Muitos muitos sobrinhos, que mal nos viram chegar, depressa nos rodearam. E a primeira pergunta que o mais destemido fez foi a que muitos pensam mas ninguém pergunta: Vocês têm muito dinheiro, não é?

Com o Minh ficámos apenas uma noite e eram 5h30 da manhã já o despertador tocava. Não sabíamos ainda se ia haver ferry para a ilha das Flores, tendo em conta todos os cancelamentos anteriores dadas as intempéries, mas não podíamos nunca dar-nos ao luxo de o perder.

Comprámos pelo caminho umas bananas a peso de ouro (não fomos nós a negocia-las, e quando se encomenda o serviço não há porque reclamar) e chegámos pouco passava das 6h00 ao porto. Sinal de barco não havia. Bilheteira também não. E corriam, por entre os locais, os zunzuns de que em breve também não haveria.

Passámos o dia no porto. Escolhemos um banco, e de lá pouco ou nada saímos. A esperança foi a última a morrer, mas quando o sol se pôs o cansaço já pesava.

Fizemos vários amigos ali. Todos os turistas que vinham em busca do ferry a nós se juntaram e mais para o fim já éramos uma verdadeira família.

Cada oficial que passava trazia uma notícia diferente: Hoje já não há barcos; Vai sair um ferry dentro de 3 horas; O ferry sai amanhã pela manhã; …e assim alteravam os factos de meia em meia hora, sem que chegássemos alguma vez a saber a verdade.

Acabou por sair eram 23 horas, quando já ninguém acreditava e muitos tinham ido reservar hotel (ou uma espécie de). E estávamos tão felizes! Mesmo quando nos diziam entre dentes que podia não ser seguro viajar de noite, que nem sempre havia coletes salva-vidas para todos ou coisas que tal.

Estávamos serenos. Tranquilos. E mesmo, mesmo felizes. A um passo de Timor, a dois passos de Timor-Leste e do tão esperado descanso em 10 meses de viagem.

Chegámos às Flores, a Labuan Bajo eram 5:30h da manhã. Caminhámos. Mochilas às costas. Pensamentos positivos. Mas boleia, nada.

E foi quando parámos para descansar por entre a nossa subida na ilha, que sentimos o chão tremer. Não estávamos certos, mas quando olhámos em redor, uns segundos depois, voltou a abanar tudo. A sério! O chão fugiu-nos dos pés e o coração da boca. Era um tremor de terra.

E com a presença inigualável de sinais a indicar a rota de fuga em caso de tremor de terra e consequente tsunami, subimos a montanha mais depressa que nunca!

Nada de mais se veio a confirmar, e ainda bem. Mas em choque, continuámos a caminhar e assim seguimos até ao topo. Na verdade, caminhámos muito. E muito carregados. E, lá em cima, rendemo-nos ao descanso e limitámo-nos a pedir boleia.

Vendiam gasolina em garrafas, ali na borda da estrada. E mesmo em frente a uma bomba de gasolina. E essa imagem guardamo-la com estranheza!

Acabámos então ao longo do dia por conseguir todas as boleias de que precisávamos ate Aimere e lá chegámos depois de um dia inteiro na estrada e 3 diferentes boleias, que sem dúvida em comum tinham a sua generosidade. Ofereceram-nos o almoço, um lanche-almoço e muito carinho.

E finalmente chegámos a Aimere, por entre caminhos verdes e únicos, intocados e virgens, de uma beleza indescritível. Não conhecemos o verdadeiro cerne da ilha das Flores, mas trazemos a certeza de que valerá a pena voltar para visitar.

Era de já de noite e restou-nos em primeiro lugar tentar procurar o que comprar para comer no dia seguinte nas tantas horas de barco que nós esperavam para fazer. E posto isto, com alguma limitação face à oferta da pequena cidade, demos início à procura de um poiso para dormir.

A nossa tenda é e será sempre o nosso porto de abrigo, mas por descargo de consciência, deixámos os preconceitos e a vergonha de lado, e decidimos averiguar se o único hostel da zona teria interesse em trabalhar connosco. E com a ajuda de tradução de um Senhor muçulmano e extremamente religioso, com quem acabámos por travar amizade, lá conseguimos chegar a uma parceria que nos permitiu pernoitar sem pagar. E, o mais importante, tomar um banho e descansar.

Era então dia 31: o tão esperado para apanhar o ferry até ao porto de Kupang, na ilha de Timor.

Estávamos muito ansiosos. E nervosos. Não sabíamos bem como tudo iria acontecer. Será que à chegada a Timor conseguiríamos boleias a tempo para chegar a Timor-Leste? Será que o barco tem condições? Ou terá gente a fumar nas zonas fechadas, galinhas e comida tudo à mistura e a festa instalada?

Comprámos o nosso bilhete. Classe económica.

Entrámos já passava da hora anunciada. Chovia lá fora. Abanava (e muito!) lá dentro. Vimos camas, colchões. Sinais com proibição de fumar. Casas de banho. Nem tudo parecia mau. E se não fosse termos sido possivelmente vítimas de corrupção no momento em que nos exigiram dinheiro por estarmos deitados nas camas, podemos dizer que não foi o pior dos cenários.

Mas, embora tenhamos enjoado e passado a 00h do ano novo a dormir, chegámos a Timor Ocidental eram 2h30, 6 horas antes do previsto! E pode parecer o cúmulo dos cúmulos acreditarmos que isto foi o melhor que nos poderia ter acontecido, mas mais tarde irão perceber que realmente o foi.

Era de noite, certo. E a noite, como a qualquer um, intimida. Mas ali não tínhamos espaço, nem tempo, para intimidações. Tínhamos só de nos mexer.

Conseguimos então a primeira boleia do ano novo eram 3h00 da manhã, com um jipe e três jovens que vinham também no barco. Aceitaram ajudar-nos a chegar a Kupang, e de lá saberíamos já ser mais fácil. E foi.

Mas foi assustador. Assustador chegar no ano novo, assustador ver a loucura da passagem de ano. Assustador ver a festa que se faz com motas e barulho.

No nosso cantinho, já num lugar perfeito para apanhar boleia, esperámos pelo amanhecer e assistimos a tudo o que tivemos direito, na certeza de que ali estávamos os dois, abençoados na nossa própria presença, no conforto do nosso abraço.

Estávamos impávidos, mas pouco serenos. Víamos o mundo girar.

E foi com a ajuda de mais quatro diferentes carros, quatro diferentes histórias de vida e quatro diferentes motivações, que conseguimos chegar à fronteira de Timor Ocidental e Timor Leste, na presença de uma das mais lindas zonas de sempre, entre mar e montanhas, onde depressa fomos absorvidos pelos locais e pela sua ânsia de conhecer e tocar estrangeiros.

Ali estávamos, nós, juntos, a pouco mais de 100 quilómetros de Dili. Com o coração nas mãos, num desejo sufocante de tocar aquela terra outrora portuguesa. E a tirar fotografias e a ser fotografados, quase que sem controlo, pelos olhares e câmaras de curiosos e apaixonados por uma pele branca e um nariz saliente.

Intenso, absorvente, energético. Vivo. Ardente. Assim vamos sempre recordar aquele atravessar de país.

E feita a emigração, carimbo no passaporte, estávamos em Timor-Leste!

Que bom que é estar em casa.

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Hk & Macau (& restinhos de China)

Se sonhávamos que seria assim? Não.

Cheirava bem! As ruas eram limpas. O sol jazia no céu azul sem nuvens brancas. Os bancos de jardim cuidados. Os canteiros arranjados.

Muitos carros. Muitas pessoas. Estradas estreitas. Becos recônditos.

Mercados antigos escondidos.

Prédios altos. Muitas luzes. Grandes lojas. Grandes marcas. Gentes de dinheiro!

Casas pequenas. Apartamentos minúsculos. Vida cara.

Mas cheirava bem! A lavado, limpo. A cuidado.

Assim encontrámos Hong Kong! Longe dos nossos pensamentos, por certo afastado dos nossos sonhos: nós que nem fazíamos questão de visitar!

Dos cinco dias que lá passámos, a grande responsabilidade era a de tratar dos vistos: o que nos permitiria voltar à China, e visitar o próximo país, o Vietname. Mas o reboliço foi tamanho!

À chegada, saídos do metro, caminhámos ainda carregados até à embaixada da China. Na impossibilidade de subirmos com comida ou líquidos, dividimo-nos e conseguimos na mesma obter a informação de que tanto precisávamos: quais os documentos exigidos para a obtenção de novo visto. Um infinito de papelada, verdadeiramente de bradar aos céus! Copia de passaporte, formulário, reserva de hotéis, reserva de transporte.

Saímos de lá então ao encontro do nosso couchsurfer, um rapaz do Bangladesh, que sem qualquer problema e muito amavelmente se propôs a encontrar-se perto do centro para nos dar a chave de sua casa. Assim fizemos, e de no nosso encontro saímos com um pedaço de papel com um mapa desenhado e indicações para lá chegarmos. E chegámos!

Completamente estafados, suados e sedentos. E antes mesmo de começarmos a tratar da papelada, sentimo-nos bem melhor depois de um duche refrescante!

Os papéis, com a ajuda do booking e da TAP – face às suas facilidades de cancelamento, e de um amigo à distância, ficaram prontos num instante. As cópias estavam também feitas. Seguimos de volta para a Embaixada da China. E quando acabámos de preencher os formulários e obtivemos a nossa senha (indicando que tínhamos mais de 200 pessoas à nossa frente), voltámos a dividir-nos para apressar trabalho. 🙂

Ficou então um a aguardar e outro seguiu para a Embaixada do Vietname, novamente para saber da papelada, tempo de espera e preços. E correu bem! Deu tempo para ir, voltar e continuarmos juntos à espera da nossa vez. Aí, por entre a notável melodia da língua portuguesa, reconhecemos a presença de um casal português; sem que conseguíssemos ficar indiferentes, e como já tão bem sabemos fazer, metemos conversa.

Fluiu, e fluiu. Fluiu entre sorrisos e aquilo que veio a ser uma amizade!

No dia seguinte, numa manhã chuvosa, seguiu-se o visto do Vietname. Ficou pedido, mas a muito custo: queriam o passaporte (que havia ficado na Embaixada da China). Por entre propostas mirabolantes, como a de pagarmos quase duas vezes mais ou a de nos ser dado uma folha em forma de visto que poderia não nos permitir entrar por terra; lá chegámos ao consenso de deixar o visto pedido, com o compromisso de lhes entregarmos o passaporte passados 3 dias, quando o fossemos buscar à Embaixada da China, e de lá voltarmos para o levantar no dia seguinte. E confusões à parte, lá seguimos satisfeitos, com paz na alma e sossego na mente. Estava feito. Agora era cruzar os dedos e esperar!

Demos então uma pequena volta pelo centro de Hong Kong e, já de mochilas novamente às costas, seguimos de barco para a Ilha de Lamma. Lá, chegámos já de noite, mas ainda cedo. Por entre o balanço do ondular do mar, a disposição não era a melhor; mas o desejo de conhecer a casa tropical perto da praia, tratava qualquer mal!

– É como o amor.

Na ilha ficámos com um couchsurfer alemão, e por voltar tarde, sabíamos por cortesia sua onde estava a chave escondida; bastava procurar pela casa número 6.

Pena foi que não correu como previsto. Palmilhámos parte da ilha sem que o desejássemos. Carregados. À chuva. Por entre vegetação e com os mais diversos animais (também eles tropicais – demais!).

A cada pessoa que se cruzava no nosso caminho, perguntávamos pelas direções. Mas sem pudor, diziam aldrabadamente que nos dirigíssemos para a esquerda, direita, cima ou baixo; e seguiam. Só já exaustos percebemos que também elas não faziam ideia de onde ficava a casa que procurávamos!

Inclusive, já desgastados, encontrámos um casal que nos disse que ali, ali mesmo onde estávamos, era a casa deles, número 5. Mas que lá não era o bairro que procurávamos. Que lá não havia nenhuma casa número 6, nem mesmo a casa ao lado. E ainda nos cruzámos mais uma outra vez, mas foram sempre tão assertivos que nunca duvidámos.

Já cansados e ainda pouco intimidados com os avisos sobre as cobras (já que só depois de vermos a primeira nos convencemos), descarregámos as mochilas num ponto certo da vila e, pouco depois, apareceu o nosso couchsurfer, que de imediato nos reconheceu!

Suados que nem pintinhos molhados, seguimos juntos até casa: aquela que ficava exatamente ao lado da número 5. E até hoje não percebemos o porquê daquele casal nos ter enganado: ou não fossem eles saber o bairro em que vivem.

Mas como acaba sempre tudo em bem, terminámos a noite numa casa gira, com um jantar muito diferente e muito bom (com direito a creme de beterraba – imaginam as saudades que trazemos destes petiscos?), um banho e um quarto com uma caminha grande e lavada, refrescada com o ar condicionado. E, claro, com direito a bons sonhos só de pensar na praia do dia seguinte!

Assim foi, marcámos a nossa estadia na ilha pelos passeios, trilhas e mergulhos no mar! Coleccionámos conchinhas partidas e búzios incompletos, vimos aranhas maiores que as nossas mãos e turistas que nunca mais acabavam. E também uma cobra ainda a porta de casa!

Mas foi de lá que saímos de coração a transbordar.

De volta a Hong Kong, a primeira preocupação foi a de levantar o visto da China para entregar o passaporte na Embaixada do Vietname. Conforme combinado, lá ficaria até ao à manhã seguinte de forma a estamparem o visto – e por ser mais uma noite, decidimos ficar com os nossos mais recentes amigos portugueses, aproveitando assim para visitar e confraternizar o que nos faltava!

Mas na Embaixada da China quase nos trocaram as voltas. A tentativa foi a de não nos dar o visto; e por isso se seguiu uma entrevista/inquérito. Porque viajamos à tanto tempo, porque visitámos tantos países, porque temos tantos vistos? E, principalmente, porque temos um carimbo vermelho da Turquia?

A questão do terrorismo vive-se mesmo quando ausente. Mas a explicação era simples: era somente o carimbo de saída do país – tanto que em turco diz “çıkış”.

Foi então preciso algum esforço. Muita conversa. Muito paleio. Cair na graça. E lá veio o visto no passaporte!

De corrida, na Embaixada do Vietname os funcionários eram já outros. E com a comunicação fraca, ao invés de complicar, facilitaram: e o visto ficou pronto na hora!

Tínhamos então a hipótese de seguir na hora para Macau, mas acabámos por optar pelo programa já definido: passear, jantar e dormir com o Tiago e a Liliana. E assim fizemos: e ainda bem! Agora guardamos com carinho esses momentos, todas as partilhas e sorrisos!

Mas foi quando o sol raiou que os nossos corações bateram forte. Era hora de apanhar o barco e chegar a Macau! Sim, Macau!

No porto, conseguimos um bilhete a bom preço para a Taipa, a ilha adjacente e, depois de partilharmos algum tempo com uma amiga de Hong Kong que fizemos na Ásia Central, embarcámos. O nervoso miudinho era maior que nós dois. Era ansiedade! Então lá seguimos, de mãos dadas, por entre o balançar do ferry ainda parado.

Lá dentro, sentámo-nos nos lugares marcados, com uma televisão à frente: e foi nela que passou o vídeo de emergência, logo para começar, com legendas em português! Já estávamos em casa!

Os sorrisos começaram a rasgar-se de orelha a orelha. E mesmo depois de atracarmos, era português por todo o lado. Indicações, ruas, anúncios, placares, panfletos. Que delírio!

Em Macau temos família: um primo macaense (por definição, filho de um(a) chinês(a) e um(a) português(a)), e foi ele que nos acolheu à chegada e durante a nossa estadia.

Em Macau palmilhámos rua acima, rua abaixo. Deslumbrámo-nos com cada azuleijo, cada pedra de calçada; igreja ou farol: estávamos em casa. E essa era a melhor sensação de todas.

Mas Macau é caro – tão ou mais que Hong Kong. E longe das zonas tradicionais, vivem agora os casinos, luxuosos, imensos (e lindos!), com salas de jogo 24 horas por dia e centros comerciais de grandes marcas incorporados, com ShutleBus gratuitos entre Macau e a Taipa. Por lá também nos deixámos perder, pela imensidão e novidade.

Mas Macau é mais que isso. É uma fusão de culturas que se sente em cada beco. Em cada rua ou ruela. Macau é uma franca mistura entre Portugal e a China: porque a arquitetura é portuguesa, os largos e os passeios também o são! Mas o hábitos, esses não nos pertencem mais. Não há loja sem tradução do chinês para o português no seu letreiro, por norma dizendo “estabelecimento de comidas”; mas dentro é a China que vive, por entre os cheiros ou a desorganização.

Mas é mesmo deste contraste que vive Macau. Desta história dupla e cruzada.

Também nós sempre ouvimos dizer que Macau havia sido um presente. Já os chineses contestam a história.

Há muitos anos, Macau estava a ser invadido por piratas. Os portugueses, que haviam lá chegado, ajudaram o povo chinês a lutar e a proteger-se, e por isso
Macau lhes foi entregue por 500 anos como agradecimento.

Ouvida do lado de cá: os piratas eram portugueses. 🙂

A falar português já são poucos os locais, mas com a grande comunidade portuguesa, não foi difícil encontrar quem o falasse. Mas o mais surpreendente foi termos tido a sorte de assistir a um espetáculo do Grupo Folclórico! E foi ao som do “malhão malhão” que nos deixámos levar!

Abraçados. Em paz!

Também abraçados fomos pela televisão de Macau, com quem estivemos para uma entrevista muito simpática, realizada no Templo de A’ma.

Infelizmente, foi também em Macau que vivemos a primeira alergia dermatológica por picadas de insectos: eram tantas e tão incomodativas, as pintinhas, bolhas e borbulhas, que acabámos no médico: mas um médio especial, o Doutor Rui Furtado, colega e também amigo da querida avó “Oliveirinha” – como carinhosamente lhe chamava no bloco. Conseguiu dar-nos a sua opinião e marcar para posteriormente uma consulta de dermatologia, quem em tudo nos valeu, não só pelo atendimento como pelo tratamento. Com o Doutor Rui e a sua esposa, recordámos bons momentos e novos criámos, para um dia partilhar.

Hoje já passou.

Mas a todos os níveis Macau nos fez sentir em casa.

Até ao último minuto, quando vivemos um encontro muito desejado e especial. Por todas as suas competências pessoais, pela sua personalidade terra a terra, pela generosidade e simplicidade, simpatia e bondade. Por nos ter feito ser diferentes, por nos ter feito pensar. Por nos ter feito sorrir, ponderar crenças e valores e estudar. Por isto e mais ainda. Uma Professora, Celeste, que nos marcou em tempos universitários e que por circunstâncias da vida nos cruzou uma vez mais o caminho. E foi tão confortante receber um abraço sincero, apoio sentido e ter o prazer de partilhar um momento numa fase destas. Mais, com duas colegas maravilhosas, já “locais”, com quem dividimos o nosso tempo. Somos muito gratos!

Chegou então a hora de partir. Regressar à China e retomar o caminho, a rota rumo ao Vietname!

Atravessámos a fronteira a pé, aquela que muitos macaenses atravessam diariamente para comprar comida mais barata, nomeadamente vegetais e frutas – percebemos nós logo à chegada aquando a nossa busca incessante por coisas a preços acessíveis.

E foi perto da fronteira, numa estrada principal que nos pusemos à boleia. Mas depois de 10 dias parados, já nem o corpo estava habituado!

Tivemos uma tarde penosa, muitos carros e poucas boleias. Mas tivemos também a sorte de encontrar quem nos tenha querido ajudar, mesmo sem nos poder levar: foi o caso de um jovem, que de mota andava a distribuir pizzas. A nós, ofereceu-nos uma grande água (um bem tão precioso!) e uma pizza de fruta. Um amor!

Foi já ao final do dia que dali um senhor nos levou. Eram pouco mais de 100 quilómetros, mas chegámos depois do anoitecer. E não descansou enquanto na nos deixou com o nosso novo couchsurfer, tendo para isso que andar, verdadeiramente, às voltas na cidade.

À nossa espera estava também um casal de australianos, a viajar há já 3 anos. Rumavam agora a casa, sendo Guangzhou uma das suas últimas paragens.

Em casa, o ambiente era simpático mas não podemos dizer que nos tenhamos sentido conectados. Às vezes é mesmo assim, e sabemo-nos agradecidos pelo teto que temos. Pelo banho que podemos tomar. E, claro, por estarmos juntos.

Nenhum dos três criava grande empatia, mas principalmente o nosso couchsurfer. Reservado, foi pouca a comunicação que tivemos. Talvez sejamos nós com sede de conhecer as pessoas. Talvez sejamos nós e as nossas expectativas. Talvez. Certo é que nos recebeu e acolheu! E ajudou! Com ele, ficámos duas noites, sendo que na segunda encontrámos um amigo ligado ao futebol e a projetos profissionais passados, que nos havia trazido algumas coisas de Portugal e com quem tivemos o prazer de jantar!

E ao terceiro dia, véspera de feriado na China a 1 de outubro, saímos cedo para nos pormos à boleia para Guilin.

Chovia aquela chuva molha-parvos, que não impede mas incomoda. Mas estávamos decididos. O destino era muito turístico, mas igualmente muito bonito. E todo o esforço, tarde ou cedo, é recompensado.

Apanhámos um autocarro para sair da cidade, que não sabemos ainda hoje porquê, não nos levou ao destino esperado. Ficámos então a meio caminho daquilo que seria o sítio ideal.

Caminhámos então. E a chuva intensificou-se. Molhava a sério. Eram pingos grossos é daqueles que se fazem sentir no corpo. Mas estávamos tão absorvidos pela ânsia de partir, que nem isso nos fez mudar de ideias.

Abrigámo-nos então de início numa ponte e lá pedimos boleia. Sem sucesso, ao final de algumas horas e já com chuva miudinha novamente, caminhámos. Já não sabemos quanto, mas foram alguns quilómetros.

As mochilas pesavam, mas dávamo-nos gratos por não chover.

E uma vez mais, por estarmos juntos. E apaixonados!

Chegámos então às portagens da autoestrada, e o trânsito apresentava-se caótico. Na China, nesta semana festiva, com a duração de 7 dias posteriores ao tal feriado, não só tudo pára, como as portagens são gratuitas! A juntar a isso a quantidade de chineses por metro quadrado, dá para imaginar o caos.

Parecia o paraíso das boleias! Mil carros, que tão lentamente passavam por nós: era só esperar.

Fizemo-nos em paciência.

Com calma, foram mais de 9 horas de pé, a pedir boleia. Mais de 11 horas de estrada. E apenas dois carros nos abordaram: um casal sírio, que não ia na nossa direção, e um senhor que queria dinheiro pela boleia, mesmo indo na nossa direção. Em 9 horas não houve nem mais um carro preocupado connosco. Nem mais um ser a olhar por nós! Estávamos tão destroçado que não conseguíamos acreditar no que estava a acontecer.

E já de noite fizemos por apanhar o último metro para voltar para a cidade. Caminhámos sem que nos lembrássemos já das dores no corpo ou nos pés, no pesado das nossas pernas ou no dormente das nossas costas.

Estávamos anestesiados!

Não queríamos mais ir para Guilin. Só para casa. E nesse preciso momento – tendo nós a sorte de termos conhecido um novo couchsurfer mexicano – decidimos que era em Guangzhou que iríamos passar o fim-de-semana. Só queríamos descansar, dormir, recuperar.

E assim fizemos, com a certeza de que no dia seguinte o sol nasceu com uma nova força. E nós também, já em paz, resignado se convictos de que nada acontece por acaso. Mais tarde, veríamos o porquê de termos ficado ali retidos.

Desfrutámos então da cidade de Guangzhou até mais não. Visitámos os pontos turísticos, a torre de Cantão, os parques mais bonitos e também o rio. E subimos ainda ao centésimo andar de um maravilhoso hotel, de onde discretamente nos deixámos deslumbrar pela vista ao anoitecer.

Abraçados, sorrimos e vivemos unidos este momento. Numa tranquilidade indescritível. No silêncio das estrelas, lá no alto. Estávamos felizes!

E assim decidimos partir, na manhã seguinte, para a cidade seguinte: Nanning. Guilin haveria ficado a meio caminho com um pequeno desvio, mas agora seguiríamos diretos.

Confiantes de que o tempo de espera passado daria lugar a muitas e boas boleias, seguimos para uma avenida principal. Lá, de cartão esticado e corpos ao sol, pedimos boleia por pouco tempo até parar o primeiro carro. Era um casal, amoroso. Tinham à pouco tempo estado a viajar na Austrália e lá viveram a aventura de se perder; contudo, alguém os ajudou prontamente e por isso assim o decidiram fazer connosco, levando-nos até uma das entradas da autoestrada.

Lá, vimos gente chegar, gente partir. Vimos o sol dar lugar às nuvens, e as nuvens dar lugar à chuva. Vimos anoitecer e o nascer da lua. Mas boleia, nem uma.

E, sem querer, tínhamos passado mais 9 horas ali.

Parecíamos transparentes!

Mas já não nos deixámos abalar, destroçar ou sentir. No nosso limite, agarrámos nas coisas e voltámos para casa. Tínhamos também a hipótese de continuar noite fora ali mesmo. Todavia, seria uma noite em branco, e provavelmente uma noite perdida.

Riram-se os nossos amigos por nos ver chegar. Incrédulos.

Então das tripas fizemos coração, e na madrugada seguinte, fizemo-nos novamente ao caminho. O corpo dorido pedia por mais cama, mas não podia ser. Tínhamos de ver onde iria esta nossa desventura com as boleias chegar. Ainda assim, levámos connosco o horário e números dos autocarros para voltar para casa, não fosse o Diabo tecê-las novamente.

Escolhemos então um terceiro sítio diferente (que era o primeiro que havíamos escolhido quando queríamos ir para Guilin e o autocarro desviou a meio). Estava um sol tão ardente que tínhamos dificuldade em permanecer quietos com a placa. E fomos então fazendo turnos.

Até que parou um jipe! Eram dois senhores, já meia idade! Sorriram, disseram que iam na nossa direção e que seria grátis! Nem queríamos acreditar…

Mesmo indo para apenas 120 quilómetros, iam na nossa direção e estávamos excitadíssimos!

Fizemos do tradutor offline do telefone o nosso meio de comunicação e assim partilhámos a nossa história. Amorosos, estavam tão felizes quanto nós, e felizes com a ideia de alguém estar a viajar tanto tempo, por tantos lugares.

Quiseram depois antes de nos deixar, oferecer o almoço. E então juntos lá nós dividimos por entre os práticos típicos vegetarianos e aquilo que eles preferiram comer, sempre com a maior gentileza e generosidade de sempre! E na hora da despedida, quiseram ofereceu-nos dinheiro, o que prontamente recusámos. Sabíamos que não tínhamos feito qualquer conversa que os levasse a querer ajudar-nos, e percebemos que era claramente um apoio à nossa viagem, por a terem encontrado encantadora! Mas não podíamos aceitar: já tinham feito por nós tudo quanto poderíamos desejar! E agradecemos, sorrimos, levámos a nossa mão ao peito e desejámos tudo de bom.

Contudo, minutos depois logo descobrimos que haviam escondido o dinheiro nas nossas mochilas. E, sem que pudéssemos imaginar, eram 500¥ – o equivalente a 68€. Sim, muito dinheiro! Não sabíamos sequer o que fazer, como fazer. Estávamos tão envergonhados e ao mesmo tempo tão gratos! Já para não falar da boleia, do almoço e das várias águas e sumos que nos haviam comprado para o restante caminho.

Na estação de serviço onde ficámos, apressámo-nos depois para nos pôr novamente à boleia. Faltavam-nos ainda mais de 400 quilómetros e a manhã já lá ia. Caminhámos assim até ao fim da imensa área (que como dita a China, grande, com restaurantes, supermercado, casas de banho e bomba de gasolina – ao que já nos habituámos), e lá instalámos o nosso “estaminé”. Mas demorou pouco até que a polícia a nós se juntasse. Nunca sabemos bem se por graça ou precaução, gostam sempre de fazer a sua conversa e por fim avisar que não podemos ir para a autoestrada. Agradecemos sempre e deixamo-nos estar! Mas desta vez, quiseram também fotografias. E nos entretantos, apareceu um camionista dizendo que não ia para Nanning, mas passaria por lá.

Recusámos. Porque levaria muito tempo. Porque normalmente na China andam sempre 2 por camião e seríamos 4. Porque não queríamos chegar de noite.

Amoroso, insistiu. Sorriu e disse que não levaria assim tantas horas. E que nos deixaria apenas a 20 quilómetros do centro da cidade.

A polícia sorriu, e sugeriu-nos que fossemos. E acabámos por ir. Ao mesmo tempo, em nós, havia qualquer coisa que nos dizia que devíamos ir. E tudo à nossa volta nos convidava a ir.

Pelo caminho percebemos o quão certos estávamos! Porque mesmo sabendo que iríamos chegar de noite, o camionista estava sozinho. E era um doce de pessoa. Sabemos agora a companhia que lhe fizemos e o bem que nos fez! Sorriu o caminho todo! Foi generoso o caminho todo! Deu-nos a sua fruta, parou para nos comprar uma maçaroca de milho e dois sumos e não hesitou em fazer de tudo para que nos sentíssemos bem. E tivemos ainda direito a ver dois DVD’s durante o caminho, que embora em Chinês, nos entretiveram e bem!

Indescritível.

Quando nos deixou custou a todos a despedida. Sentimo-nos vazios ao deixá-lo seguir a sua jornada tão sozinho: faltavam-lhe ainda mais de 800 quilómetros. Mas foi bom, foi bom o que até ali partilhámos!

Era já noite, conforme temíamos. Ficámos numa portagem, e ali não nos restou mais senão mostrar a nossa placa e esperar! Mas não esperámos mais que 15 minutos até que parasse um jipe, com um jovem que prontamente se ofereceu para nos deixar à porta de casa.

Fomos assim abençoados com um dia recheado de encontros maravilhosos, que culminou com o conhecer da nossa couchsurfer: uma jovem simples, mas muito querida. Da sua sala, fez o nosso quarto; do seu gato felpudo, o nosso mimo. E quando nos deixámos cair na cama, nem queríamos acreditar!

Estávamos de volta. De volta à estrada. De volta à nossa desejada aventura. 🙂

Em Nanning ficámos apenas duas noites, um dia – que deu para descansar, passear e ainda pic-nicar! Caminhámos em torno do famoso lago, pela cidade e no mercado nocturno (de perder de vista com as mais estranhas iguarias).

Passámos também parte do tempo na tentativa de trocar os Yuans que tínhamos para dólares, mas foi a missão impossível: de banco em banco, as desculpas foram variando. “Tem de ser no Banco da China”, “Só trocamos para Euros”, “Só temos 100 dólares”, “Precisam do certificado de troca à chegada”, “O vosso certificado não é válido”, … Até que nos cansámos e todos os bancos fecharam.

Terminámos depois a noite a jantar num terraço no décimo nono andar e brindámos às luzes que iluminavam a cidade.

E seguimos!

O prazo do nosso visto do Vietname já estava a contar e por isso tinha de ser assim. Contudo, completámos os exactos dois meses de China: dois meses intensos, bem vividos e muito especiais.

Para a vida, levamos a certeza de que nunca mais veremos um chinês da mesma maneira. Que os caracteres chineses são giros e giros de desenhar, mas que o chinês e os seus quatro tons são o verdadeiro enigma. Levamos histórias e olhares infinitos, uma cultura nova dentro da nossa, hábitos maravilhosos e outros que nem tento, mas uma viagem e aprendizagens que ficarão para sempre.

Com a certeza também de que não é preciso conseguir comunicar para se conseguir ajudar.

Deixar Nanning para trás foi também um processo moroso, mas não tão difícil. Acordámos cedo, muito cedo para nós: quando os sonhos ainda vivem, o abraço ainda sabe a pouco e a almofada chama por nós. Mas teve de ser.

Apanhámos várias boleias, todas elas reflexo de uma generosidade imensa; entre a cidade e o aeroporto, com um táxi da UBER; do aeroporto para as portagens perto novamente da cidade, com um senhor. Mas a seguinte, até à fronteira, foi a mais engraçada. Arranjada pelo polícia que veio ao nosso encontro, foi num autocarro pequenito. Demorámos algum tempo até nos entendermos, mas chegámos por fim à conclusão de que íamos exatamente para o mesmo sítio. Inglês falava e depois de saber dizer boleia perfeito saímos da china

Chegámos então juntos ao fim da China: à entrada do Vietname. E estávamos a pequenos passos do alcançar.

O Sudeste Asiático parecia longe. Tão longe, há 7 meses atrás. E é tão bonito perceber que aqui chegámos juntos, comandados pelo bater do nosso coração e com uma mão cheia de coisas boas para sempre.

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de olhos em bico!

Chegámos à China! Sim, à grande China, do lado de lá do mapa! Gigante e imensa. E chegámos à boleia!

Foram 5 meses de caminho, de aventuras e histórias, de partilhas, vivências, loucuras e muito amor. Foram quilómetros e países, amizades infinitas e aprendizagens constantes. E foram também saudades e lágrimas, abraços e sorrisos.

Mas quando nos soubemos a pisar a China, ai: que emoção! Estávamos em êxtase, que nem duas crianças na feira popular! Queríamos absorver tudo, ver tudo, sentir tudo. Que loucos!

Chegámos à fronteira a uma boa hora, mas com a mudança do fuso horário em mais duas horas, vimos o nosso dia encurtado. Ainda assim, nada importava senão as luzes, os sons, os olhares. A fronteira da China é única, e depois de tantas outras que atravessámos a pé, nem queríamos acreditar. Se por um lado todas as outras fronteiras ficam no meio do nada, por entre montanhas e um vazio; a fronteira entre o Cazaquistão e a China fica exatamente no meio de uma cidade. Sim, é isso mesmo! E, não obstante, enquanto nos restantes edifícios fronteiriços encontrámos espaços vazios, ocupados por autoridades armadas, uma câmara de RX, uma mesa de revista e um computador, na China encontrámos um espaço cheio de gente (ou não se tratasse da China!), equipamentos eletrónicos, luzes, luzinhas e sons, câmaras, passadeiras rolantes e computadores. Um mundo muito diferente!

Levámos pouco mais de 10 minutos a ganhar o carimbo no visto do nosso passaporte, por entre a amabilidade de todos e a descomplicação dos papéis a preencher.

E, foi quando pusemos os nossos pezinhos na cidade de Khorgos, que nem queríamos acreditar!

Carros, pessoas, prédios, luzes.

Tudo piscava! Tudo mexia!

Tudo era uma imensidão: e nós, parados, estupefactos, de olhos abertos e alma encantada!

Fazia tempo que não víamos nada assim – se é que alguma vez vimos.

Caminhámos depois, para nos pormos à boleia. Eram 14:00h (GMT+8) e tínhamos 660 quilómetros para fazer. Mas parecíamos anestesiados: nada importava.

Olhámos deslumbrados a cada passo que demos. E escolhemos uma sombra, numa via rápida dentro ainda da cidade, para pousar as coisas e esticar a nossa placa; pouco depois de termos conhecido a primeira local que nos ajudou a retoca-la, por entre a nossa inexperiência com caracteres chineses. Ia por acaso na nossa direção, Urumqi, mas tinha o carro cheio.

Com a nossa primeira placa escrita em chinês, foi na estrada que passámos a tarde toda: e ninguém parou. Os carros, sem compaixão, passavam por nós, um por um; e seguiam, indiferentes à nossa presença.

E nas suas pequenas motas elétricas, iam parando pessoas na tentativa de perceber o que estávamos ali a fazer. A placa escrita, o dedo esticado, as mochilas no chão, não lhes dizia nada. Sem que conseguíssemos comunicar (literalmente), íamos dizendo “dabianche” da forma que sabíamos e lá iam entendendo que ali nos encontrávamos à espera de quem fosse na nossa direção.

Acabámos por fazer um amigo, professor em Pequim, e foi com ele que caminhámos e mudámos de lugar. O novo posto não era de uma melhoria significativa, mas quando estamos muito tempo à boleia, à espera e sempre no mesmo sítio, temos necessidade de mudar, de improvisar: de fazer acontecer!

Como se procurássemos livrar-nos das más energias que inevitavelmente se vão acumulando com o cansaço.

E fresquinhos na nova estrada, aproximou-se de nós um senhor, pelo seu próprio pé. Não lhe percebemos as frases, mas ficou a intenção. Descobrimos que ia na nossa direção por entre gestos e que para nos levar precisava de ver o nosso passaporte, para sua segurança.

Tirámos então as fotocópias que temos, e seguimos!

Seguimos juntos por toda a noite e sabíamos que haveríamos de chegar pela madrugada. A couchsurfer que nos iria hospedar, depressa avisou que a partir das 22:00h não poderia abrir a porta, e por isso sabíamos estávamos entregues a nós próprios à chegada.

Mas deixámo-nos ir! A viagem era longa o suficiente para não nos preocuparmos por antecipação, e deu ainda para, por entre um pequeno acesso à internet, percebermos que não sabíamos virar-nos sem o Google, sendo que estivemos longos minutos a pensar num motor de pesquisa alternativo.

O condutor, embora com a barreira da linguagem, mostrou-se sempre amável e muito educado, disponível e calmo. Sabíamo-nos em segurança e fomo-nos deixando dormir. Mas foi pelo caminho, ainda que de forma ilegal, que pediu que conduzíssemos por ele: uma verdadeira loucura face às regras de trânsito chinesas, mas não tão grave em autoestrada às 3:00h da manhã! E ainda que sempre com muitas instruções, lá aproveitou para descansar.

À chegada a Urumqi, por volta das 5:00h, deixou que ficássemos a dormir no seu carro, e foi só as 7:00h que nos foi chamar para nos levar a tomar o pequeno-almoço. Tipicamente chinês (percebemos agora) levou-nos a uma espécie de restaurante para pequenos almoços, que a princípio até pensámos que seria seu, uma vez que em plena sala de refeições começou a fazer a barba. Mas não. Meio às escuras, lá escolhemos o que queríamos comer; já eles, têm por hábito pedir uma espécie de sopa doce ou insossa, feita com feijão, milho, arroz ou millet (da qual não gostamos assim tanto) ou fritos. E comem tudo com pauzinhos, mesmo havendo colheres!

Foi então que depois nos levou a casa da nossa couchsurfer, onde passámos 3 noites. Uma família tipicamente Chinesa, com horários rígidos e muita disciplina. O filho, mesmo de férias, crescia de forma regrada, tendo horários para tudo: as 7:00h devia acordar, as 8:00h ler em voz alta um livro em inglês (repetindo as frases até as pronunciar de forma perfeita), às 9:00h acompanhar a mãe ao trabalho e lá ficar a estudar; as 17:00h regressar e ir jogar basquetebol, enquanto a mãe corrige os trabalhos realizados durante o dia; as 18:00h rever os trabalhos, as 19:00h tocar um instrumento, e por aí fora, todos os dias da semana. E em dia de festa, havia direito a ver um filme. Em casa, sem televisão ou internet, também eram vegetarianos.

Foi, para nós, um primeiro impacto muito agressivo. Sabíamos, de ouvir, da rigidez educativa, do sistema padronizado exigido, mas não esperávamos senti-lo tão de imediato. Não sabemos se será assim com todas as famílias, mas vivenciamos um bom exemplo com esta.

Mas marcou-nos a nossa estadia em Urumqi as pessoas com quem nos cruzámos nas ruas, que nos ajudaram de forma espontânea! No primeiro dia, depois de muito palmilharmos na procura de um banco para trocar dinheiro, fomos sabendo pelas ruas que havia apenas um banco na cidade habilitado para o fazer. Contudo, embora numa pequena cidade (com 3 milhões de habitantes), era difícil que a pé chegássemos a todo o lado; mas sem dinheiro trocado, era impossível que apanhássemos transportes. Assim, continuámos de banco em banco a tentar a nossa sorte, até que uma funcionária, num deles, falando umas poucas palavras de inglês, se juntou com os colegas para recolher as moedas que entre todos tinham, e nos ofereceu para que apanhássemos o autocarro necessário para chegar ao dito Banco da China, noutro lado da cidade. E ofereceu a mais, para o caso de necessitarmos.

Não sabíamos nem o que fazer com as mãos, estávamos incrédulos. E gratos!

Pouco a pouco, estávamos a (re)descobrir um povo: em Portugal conhecemo-lo na sua face discreta, pouco comunicativa. E era este o preconceito que trazíamos em nós.

Levámos depois várias horas até encontrar o dito cujo, o famoso banco. Encontrámos outros com o mesmo nome, que ou só trocavam dólares, ou não tinham posto de troca. Andámos às voltas, perdidos, rua para a frente, rua para trás, e de cada vez que pedíamos ajuda ou indicações, mandavam-nos para um ponto diferente e distante na cidade. Lá nos desenrascámos: com uma taxa de câmbio miserável, mas felizes ainda assim!

Recordamos então com muito carinho os primeiros dias em Urumqi, nomeadamente por termos ali descoberto uma nova China, uma China muito diferente e muito mais à frente do que poderíamos imaginar.

E embora cuspam para o chão, em todo o lado e sem rodeios; andem constantemente montados em motas elétricas, de buzina em punho e sem modos, ou façam do mandarim um bruxedo, não nos tentando sequer entender; vivemos encantados!

Também no segundo dia, quando perdidos pela cidade e sem saber que transportes apanhar até casa, fomos abençoados. A chuva batia forte, o calor deu lugar ao fresco que sentíamos nas pernas e por todo o corpo. O trânsito caótico, as buzinas e a confusão; tudo fazia para que o nosso discernimento estivesse condicionado. Pedimos então ajuda a uma jovem, que mesmo sem falar inglês se dedicou a tentar entender-nos. Com o auxílio do mapa, mostrámos-lhe para onde queríamos ir e depressa ligou para uma linha de informações de forma a saber que transportes e quais os seus números, e onde os apanhar, para nos levar de onde estávamos até ao nosso destino – casa. Depois, depois gesticulou para que a seguíssemos, alterou a sua vida, pagou-nos o elétrico e o autocarro e levou-nos até à porta do condomínio.

(Sim, por toda a China, não há prédio sem condomínio. Não cremos que seja por questão de segurança, porque por todo o lado o sabemos seguro. Mas confere alguma organização às cidades e, por norma, dependendo do valor, podem ter não só o estacionamento privado para o carro, como piscina, ginásio ou supermercado.)

Ficámos então sem palavras: não sabíamos como lhe agradecer, como demonstrar a nossa gratidão perante a sua disponibilidade e amabilidade.

Sorrimos. Agarrámos o peito e inclinámo-nos para a frente. E com o telefone mostrámos-lhe o Wechat: sorriu de volta e enquanto acenava com a cabeça e dizia “ah ah ah” (característico por aqui, em sinal de concordância!), deu-nos então o seu contacto. Agradecemos mais tarde por escrito, porque uma das maravilhas deste Wechat (uma aplicação equiparada ao Whatsapp ou Viber), é que permite de forma automática a tradução entre inglês e caracteres chineses, simplificando a vida de todos!

Tivemos também na cidade o prazer de jantar com um couchsurfer que, embora não nos tenha podido hospedar, nos proporcionou a experiência de novos sabores vegetarianos pela cozinha chinesa – uma verdadeira delícia!

Pelas noites que ali passámos, tentámos recuperar juntos de uma pequena gripe, estado febril que só um pouco atrapalhou. Mas foi ali também que dormimos separados, por imposição de quem nos hospedou. Não que tenhamos compreendido o porquê, mas coube-nos respeitar: e palpita-nos que tenha a ver com a rigidez imposta ao filho e a algum exemplo que queira dar, mas isto nunca saberemos.

Já ao quinto dia, seguimos para Hami, uma cidade a 500 quilómetros, ainda na mesma província.

Deram-nos boleia dois carros, na tentativa de nos colocar num melhor lugar para apanhar uma boleia direta, o que não aconteceu. Houve muito quem parasse, quem nos abordasse e não escondesse a curiosidade. Tentaram também falar-nos e explicar várias coisas, mas o discurso exclusivo em chinês impediu qualquer comunicação. Mas até dinheiro nos quiseram dar.

Quando apanhámos a terceira boleia do dia, de uma mulher, ficámos na autoestrada, num lugar à partida melhor, ainda que proibido por lei para caminhar. Contudo, o sol levou muito pouco até se pôr, o que na província em questão se dava depois das 22:00h. Era tarde. Estávamos cansados e já pouco crentes. Mas continuávamos atentos a quem por nós passava, enquanto erguíamos já a bandeira de Portugal para chamar à atenção dos mais distraídos.

Até avistarmos a polícia.

Estremecemos. Assustados! Sem sabermos bem qual a consequência de estarmos ali à boleia.

Pararam o carro ao nosso lado. Luzes acesas a piscar (o que faz parte da China). E saíram para nos abordar.

Sorriram, sem que o esperássemos! E por entre abraços, diziam “Putauia! Cilo!“.

Tinham reconhecido a bandeira de Portugal, e diziam em Chinês exatamente isso, “Portugal! Ronaldo!” – Sim, por aqui traduzem tudo! Seja nomes próprios ou palavras que diríamos universais.

Ofereceram-se então para nos dar boleia por 100 quilómetros e foi quando chegámos ao posto de polícia seguinte (dentro da autoestrada, o que é por aqui comum após cada portagem), que nos disseram que era tarde para continuarmos à boleia, oferecendo o jardim para montar a tenda.

Assim o fizemos, de forma luxuosa, com Wi-Fi e wc neste nosso “parque de campismo”! E, na manhã seguinte, não só acordámos com um esquilo à janela, como com um pequeno-almoço e muitos sorrisos! A polícia, doce, descansou-nos e prometeu-nos que nos arranjaria uma boleia direta. Estávamos pouco crentes, mas assim o fizeram, mandado parar os carros um por um. Indescritível!

Muita bondade!

Quem nos levou, ofereceu-nos pelo caminho um almoço típico e deixou-nos já à noite onde nos pudemos encontrar com um amigo da irmã de quem nos ia hospedar. A história é confusa, mas muito bonita: uma couchsurfer, a Tina (nome por ela escolhido) a estudar noutra cidade, tratou de falar com um amigo de infância e com o irmão, para que um nos fosse buscar e o outro, mesmo estando a trabalhar, nos hospedasse. E assim aconteceu!

Na manhã seguinte, e depois de nos termos dado tão bem, foi buscar-nos novamente o melhor amigo que se ofereceu para nos hospedar por uma noite mais, para que passássemos esse dia juntos. E assim fizemos, com muita amizade e aprendizagem à mistura.

Pela cidade, não só vivemos templos antigos, como até à bola deu para jogar. E pelas ruas, assistimos também à vida na sua verdadeira essência asiática, começando pelos homens com as camisolas arregaçadas para cima e de umbigo à mostram, e terminando com a cultura das bebidas, que sejam estas quais forem, devem ser quentes, por questão de crença na saúde. Quanto à água, talvez ajude também o facto desta não ser potável, o que leva a que muitas famílias a fervam. Desta forma, com um Chinês anda sempre uma garrafa de vidro.

A noite em Hami terminou então com amigos, numa ida a um grande hipermercado (coisa que não pisávamos há já muito tempo!) e num grande jantar por nós cozinhado! Que delícia!

No dia seguinte, foi então dia de partir para Jiuquan, agora sim numa nova província! O caminho correu sobre ouro: apanhámos ainda em Sami uma boleia de 3 polícias à paisana e, chegados ao seu posto, trataram de nos arranjar uma outra boleia direta. Ofereceram-nos dois banquinhos para que esperássemos sentadinhos, e foram parando todos os carros até encontrarem o tal.

Chegámos já perto das 21:00h e foi-nos receber à estrada o nosso couchsurfer. Apressou-se depois a convidar-nos para jantar, numa mesa farta e recheada de iguarias típicas e vegetarianas, de entre as quais, sopa de noodles e cogumelos, tofu transparente picante, feijões crocantes assados em palitos, e umas tantas outras. Para acompanhar, chá e leite de amêndoa. Não saímos de lá a rebolar, mas pouco faltou. E, também no restaurante, vimos foi outros sair em braços, de tão bêbados que estavam.

À caminha chegámos já fora de horas, cansados, mas de barriga cheia. No conforto dos lençóis e do quarto mais fresco, deixámo-nos dormir. E sonhar.

E foi por isso que, na manhã seguinte, nem os raios de sol nos despertaram. O sono era profundo, e nós (que nem gostamos nada de dormir), fomos levados pela sensação de bem-estar que temos ao descansar.

Mas tínhamos de partir, e sabíamo-lo muito bem.

Era então novamente mais tarde que cedo quando chegámos à estrada que desejávamos, depois de em pleno centro da cidade nos termos posto à boleia. E tivemos sorte; parou uma senhora e a sua filha, com as quais nos comunicámos através do tradutor do telefone.

Já à entrada da autoestrada tivemos de ser mais pacientes, levou tempo. Mas antes de passar a portagem, por entre os carros parados, um jipe abriu a janela e apontou para um outro jipe mais à frente, que depressa nos acenou.

Era um JEEP, robusto e azul vivo. Eram dois rapazes. Fumavam ambos, mas nunca dentro do carro: e ainda bem, porque se havíamos curado um estado febril, agora havia tosse e dor de garganta que nunca mais acabava (o costume: quem nos conhece até se deve perguntar como é que foi só agora a primeira vez; mas isso só agradecendo ao “nosso” Homeopata que, da ultima vez, pôs isto nos trinques!).

Seguimos então juntos, com eles e com todos os amigos que seguiam em carros separados. E, quando pelo caminho pararam para partilhar uma melancia, com a ajuda de uma jovem lá nos fizeram chegar a mensagem de que, embora não tivessem primeiramente planeado passar pela cidade para onde nós íamos, tinham alterado o roteiro do dia para lá nos deixar. Estava um dia chuvoso: ficámos tão agradecidos.

Já na cidade de Lanzhou, esperaram que o nosso couchsurfer, o John, fosse ao nosso encontro. A chuva caía intensa e a noite era escura, mas ele lá apareceu, magrito, todo molhado e recheado de energias! Boas energias!

Trazia um sorriso no rosto, de orelha a orelha! Ajudou-nos a despedir de quem nos havia dado boleia e seguimos a pé até sua casa!

Quando lhe escrevemos através do couchsurfing pela primeira vez, contámos a nossa história numa versão muito breve. Quando o John nos respondeu, a mensagem vinha do coração: queria muito hospedar-nos, conhecer-nos e conhecer aprofundadamente o nosso caminho; mas a casa onde se encontrava, era uma casa antiga, num prédio antigo. Um apartamento sem cozinha, sem casa de banho, sem chuveiro. O fogão ficava no corredor, mesmo à porta. Era um bico elétrico, por cima de um armário pequenino. A casa de banho, era comum ao andar, feita de 3 latrinas sem divisória e um lavatório comprido. Chuveiro, não havia em lado nenhum.

Aceitámos, mesmo perante a descrição. E quando chegámos, sabíamos já ao que íamos. Deu-nos o que tinha, inclusive a sua cama. Mas não foi fácil. A tosse era muita, o cansaço também, e no momento da chegada, foi um misto de emoções; a gratidão era óbvia, mas jazia em nós ao mesmo tempo a petrificação perante a condições (in)existentes.

Lidamos de forma diferente com isso, e temos uma maturidade diferente perante a dificuldade. Ou mesmo que não seja uma dificuldade, uma expectativa incumprida. Ou uma adversidade. Como a ter de se sair de casa durante a noite para se ir à casa de banho. Mesmo já sabendo que assim o seria.

Mas é no abraço um do outro que nos consolamos. Que crescemos. Que nos acalmamos.

É juntos, e depois do estado de exaltação, na paz, que nos curamos, nos ajudamos. Nos tornamos melhores.

E custa, custa sarar na diferença.

Também hospedados em casa daquele que se tornou um amigo, o John, ficou um casal russo, com quem partilhámos os dias que se seguiram e as noites mal dormidas graças a uma tosse desmedida.

Tomámos banho ora de alguidar, ora em casa de uma prima; e foi o pai do John que todas as noites nos preparou um jantar maravilhoso e típico, no seu modesto fogão de corredor. A loiça, lavámo-la no lavatório grande e comum da casa de banho do piso; e num instante nos habituámos a viver assim. Felizes com tão pouco, e com tanto ao mesmo tempo!

E já no último dia, almoçámos uns noodles de vegetais, com picante de cortar a respiração, com pauzinhos e até não caber mais. Confessou-nos o John, por entre o seu olhar malandro, que dizem sempre os locais que comem alho cru com as refeições por fazer bem: mas não é essa a principal razão. Comem o alho sim, para desinfetar o organismo – “Vocês sabem, os restaurantes aqui na China não são assim tão limpos”, dizia no seu inglês perfeito, após 4 anos a viver em diferentes países em África.

E, pouco a pouco, entregámo-nos à vida por aqui. Uma vida apaixonante.

Também antes de irmos embora nos ofereceu um xarope natural para a tosse: não sabíamos de que era feito, se nos faria bem ou mal, se era bom ou mau. Mas, sob a regra do “faz como vires fazer”, aceitámos, sabendo ser feito apenas com plantas, sem químicos.

(Podemos adiantar que a melhoria não foi imediata, não ocorreu no próprio dia. Mas aconteceu. E, sem recorrermos a nenhum dos medicamentos que trazemos por prevenção na mala, ficámos felizes por termos dado tempo ao tempo e tempo a um produto natural para nos tratar.)

E partimos então, depois de 12 dias na China, para Xi’an. Estávamos desejosos por lá chegar: íamos encontrar e ficar com os primeiros portugueses desde França. Íamos poder deixar a roupa de inverno.

Íamos poder conversar até mais não!

Saímos então cedo, e fizemo-nos à estrada com os nossos companheiros russos. E, só à entrada da autoestrada nos separámos. Ali, ficámos menos tempo do que o esperado, e apanhou-nos um jipe com uma família amorosa. Viajavam novamente mais, mas em carros separados. E aceitaram levar-nos.

Fizemos muitos quilómetros juntos, ainda; mas foi quando nos deixaram na cidade em que pararam para almoçar, que o pânico se instalou. Com um grande enxame de abelhas por toda a zona das portagens e entrada da cidade, víamos as pessoas correr apressadas e assustadas, cobertas com casacos e de rosto escondido.

Mas, nós, carregados com 3 mochilas, um saco de tralhas enorme e pesado, mais um garrafão de água acabado de nos ser oferecido, parecíamos lesmas. As abelhas chocavam (literalmente) contra nós à medida que andávamos. Eram tantas e voavam de forma tão perdida no espaço, que não havia ordem possível.

Era correr, fugir, tentar escapar.

Mas se um de nós estava calmo e sereno, a apreciar a loucura; o outro estava em estado de alarme e de lágrimas nos olhos. Nem a palavra pânico o conseguiria descrever na perfeição.

E enquanto fugíamos perante a nossa lentidão, fomos picados.

— É engraçado, só um de nós foi picado, só um de nós teve febre, só um de nós teve tosse. Mas “fomos”, “temos”, “somos”. É isso, somos um só. —

A dor da picada era de congelar o cérebro, mas não havia tempo a perder, nem para tirar o ferrão, nem para lavar com água ou pôr uma moeda. Com isto, caminhámos até onde nos sentimos seguros, mas em contrapartida até onde seria muito difícil conseguir uma nova boleia.

Passámos ali grande parte da tarde, sempre atentos a todos e quaisquer bichos voadores. E só quando a polícia passou uma mangueira pelo ar na zona das portagens, diminuindo significativamente a quantidade de abelhas no ar, nos atrevemos a chegar mais perto. E foi aí que as meninas da brisa (ou equivalente) nos ajudaram a parar os carros até encontrarmos alguém que nos deixasse mais à frente, numa estação de serviço. E assim foi, tão rápido!

Já na estação, estava a anoitecer a olhos vistos. O sol descia sem licença, no horizonte. E a luz era cada vez menos. Mas mesmo a tempo, parou um jovem casal, que ia praticamente na nossa direção. E já quase às 23:30h, acabaram por nos levar à porta de casa, em Xi’an.

Saídos do carro, o bafo foi imediato. Um calor insuportável, com uma humidade elevadíssima. Impossível parar de suar ou respirar com tranquilidade. Nunca tínhamos sentido nada assim, nunca! E assim foi em todos os dias da nossa estadia: adormecer e acordar suados. Lençóis molhados, roupa molhada: e não adiantava secar depois do banho, o suor voltava no mesmo instante.

Da nossa estadia, guardamos com carinho os novos amigos portugueses que fizemos e que esperamos reencontrar um dia por ruelas de calçada. Guardamos também tudo quanto visitámos, o templo Bell Tower, a Muslim Street, ou a escolinha de futebol do Figo. E, para sempre, o aniversário do mês: 20/8: não é todos os anos que se está na China a comemorar 26 primaveras!

Refeitas as malas, com menos 10 quilos por certo, seguimos viagem. Não que tenha custado, mas quando paramos mais dias num só lugar, também nos sabe tão bem, que depois sentimos algum atrito para voltar à estrada. Podemos dizer que nos deixamos habituar ao conforto do lar e damos asas à preguiça. Mas não pode ser: há um mundo há nossa espera!

Fomos então para Zhenzhou e lá chegámos já de noite e após 5 boleias, não tão difíceis de apanhar pelo chinês que começámos a dominar. Pelo meio, numa delas, acabámos por sair do carro por não conseguirmos comunicar com o casal que nos levava: nada de mal aconteceu ou se previa, mas é muito difícil quando assim acontece. Nem as pessoas se conseguem explicar, nem nós.

Encontrámos então a Tina, a couchsurfer que em tempos nos havia ajudado. Hospedou-nos na universidade onde estuda e onde vários estudantes, mesmo de férias, passam o seu tempo. Das salas de aula fazem salas de estudo e dormitório, mesmo que sem cozinha ou chuveiro. Uma vez mais adotámos a técnica do banho de alguidar e fomos felizes e lavadinhos assim!

Partilhámos de noite, os dois, um sofá no escritório de uma professora, e na manhã seguinte levou-nos a Tina e os seus amigos a tomar o pequeno-almoço à cantina. Passava pouco das 7:00h e o movimento era já mais que muito.

Palmilhámos o seu campos universitário e também o de Medicina Tradicional Chinesa, onde nos deixámos encantar com os lagos e os seus nenúfares perfeitos.

Perto das 11:00h e antes de nos deixar seguir para a próxima cidade, levou-nos a almoçar a um restaurante e a provar comida local: sopa de milho doce, tofu mole com ovos pretos ou batata frita quase crua. Embora tudo muito estranho para o nosso paladar, tudo delicioso. Mas o mais gratificante, os rituais à mesa: pedem pratos sem fim, não um por pessoa. Depois, nas mesas circulares, fica o manjar no meio e rodam entre todos. A loiça vem “embalada” após lavada, com um rótulo de desinfeção; ainda assim, quando chega a água fervida à mesa (a que bebem também), lavam a loiça peça por peça; e a água que sobra desta bagunceira, atiram para o chão, para um canto da sala. Ah, sim, porque embora haja uma sala ampla onde se pode almoçar com outras pessoas (no registo de restaurantes que conhecemos), há também salas privadas com uma só mesa. O que levam à boca mas não conseguem comer, vão cuspindo para o lado do prato, para a mesa. E em poucos minutos, está instalado o caos numa mesa de restaurante, entre guardanapos amachucados, comida cuspida, restos ou plásticos das embalagens da loiça. Pelo meio, embora nunca tenhamos visto fazerem-no para o chão, puxam o catarro e, ou vão lá fora cuspir, ou fazem-no ali para um guardanapo.

Também fumam em todo o lado, e em todo lado cheira a Martim Moniz, seja restaurante ou loja de conveniência. É a China.

Mas é nas ruas e nos mercados recônditos que encontrámos as iguarias mais estranhas e penosas: aranhas, baratas ou escaravelhos fritos, petiscos de escorpião ou patinhos bebés assados. Vale tudo. E dizem entre risos, comem tudo o que tenha pernas, menos mobílias.

Seguimos então para Shijiazhuang, depois da Tina nos ter ido ainda comprar um enorme farnel ao supermercado do campos universitário. Um verdadeiro anjo!

Fizemo-nos então à estrada sem que o cobrador da portagem nos tenha propriamente ajudado, depois de nos impedir que passássemos dali em diante.

Mas correu tudo pelo melhor e, embora tenhamos chegado já de noite, chegámos bem e felizes, depois de 3 boleia diferentes, até casa da nossa nova couchsurfer.

Na verdade, hospedou-nos por dois dias num escritório de família, agora vazio, num imponente edifício na cidade. Com uma vista estrondosa do andar em que ficámos, dormimos em duas marquesas que juntámos lado a lado, sob as luzes da noite. Sem chuveiro, adotámos de novo a nossa técnica do alguidar; e sem cozinha desenrascamo-nos sem grande atrapalhação. Contudo, convidou-nos pelo meio a tomar banho na sua casa (onde realmente não teríamos condições para pernoitar).

Ainda em Shijiazhuang, tivemos a sorte de conhecer e travar amizade com dois portugueses e a família de um deles. Ambos a trabalhar já há algum tempo na China, permitiram-nos a abordagem a esta cultura de um novo ponto de vista. Do dia que passámos juntos, recordamos todas as partilhas, passeios, sorrisos e gargalhadas, e também um delicioso jantar. É assim, sem querer, que se tropeça nas gentes da nossa terra: gentes boas de conhecer, que nos confortam tão longe de casa.

Mas sem que nos possamos esquecer, foi também juntos que vivenciámos mais um momento hilariante. Foi à saída de um centro comercial, grande e afamado no centro da cidade, que à porta sentimos pingos nos pés. Incrédulos com a possibilidade de ser chuva, olhámos em volta: e para o canto de uma das grandes portas do centro comercial, estava uma criança dos seus 12 anos a urinar.

Incrível, não é? Mas é mesmo assim. Não interessa que dentro do centro comercial haja casas de banho com fartura. Não importa que rua sim, rua não, haja um sinal a indicar uma casa de banho pública (dizendo até “public toilet” – sendo estas por norma um espaço com várias latrinas, mas sem divisórias, o que torna o momento íntimo num momento de confraternização, com a maior das naturalidades). Prevalece a vontade, o desejo e a falta de higiene. Também já assistimos a crianças com as suas calças cortadas/rasgadas por entre as pernas (como aqui se usa), agachadas em qualquer passeio a fazê-lo sem rodeios, ou mães a segurar os bebés para o fazerem para um caixote do lixo ou lavatório. Não limpa, sacode, e continua caminho.

E também nós acabámos por continuar o nosso caminho, depois então até Pequim, onde chegámos cedo. Pouco passava da hora de almoço, mesmo com um trânsito infinito para entrar na cidade. Enorme, recheada de grandes prédios, grandes edifícios, grandes estradas, que se cruzavam entre si e pessoas. Muitas pessoas.

Na China nunca estamos sozinhos. Muito menos em Pequim.

Aproveitámos então para procurar um grande supermercado, de forma a comprar água e alguns legumes. Muito embora a nossa escolha recaia sempre sobre comprar a locais, em mercados, na China os hipermercados têm uma característica que não podemos negligenciar ou ignorar: têm caixotes com legumes e frutas que já ninguém compra, por estarem feios ou maduras, a menos de metade do preço. E se por um lado queremos sempre ajudar os locais, por outro não podemos compactuar com o desperdício alimentar. Por isso, em Pequim, agimos assim. Mais tarde, em cidades mais pequenas, encontrámos também pequenas lojinhas com esta opção, e aí foi aos nossos queridos velhotes a quem comprámos.

Mas em Pequim a loucura foi imensa, porque também a comida feita de fresco tinha este tipo de promoção ao final do dia, o que nos deixou de barriguinha cheia, com bolsos ainda cheios 🙂

Seguimos depois para casa da nossa couchsurfer! Sabíamos que dominaria inglês, por ter já feito Erasmus, o que nos deixou ansiosos no entender de algumas tradições! Fizemos então do final do dia, madrugada, e conversámos a gosto:

Mais que não seja no que respeita a coisas simples, como o casamento ou um funeral, sabemos que as diferenças são sempre mais que muitas, e por isso aproveitámos também para satisfazer curiosidades antigas.

Quando morre um familiar, a tradição mais antiga exige que se leve o corpo para uma montanha: lá, no cimo, ao ser devorado por um animal, o seu espírito será elevado.

Não tão apreciado por parte do povo é a postura do governo. Assumidamente comunistas só de nome, contudo, são proprietários legais das casas outrora por alguém compradas, após 30, 45 ou 70 anos, em função do que se pague. E, importa salientar, valem muito dinheiro.

Mas o mais engraçado foi perceber que, para um chinês, a Europa é a referencia no que respeita à segurança. Contudo, na China não há assaltos à mão armada e a segurança é elevadíssima.

E assim, dormimos juntinhos e satisfeitos, como se não houvesse amanhã. Cansados no corpo, mas muito despertos na alma.

O segundo dia em Pequim foi mais burocrático, mas sem sucesso face ao que pretendíamos. Voltando à saga dos vistos, gostaríamos de pedir uma nova entrada no nosso, de forma a podermos visitar Macau e a voltar à China, para entrar por terra no Vietname.

Fomos por isso para a polícia tentar a nossa sorte, que se revelou um azar. Embora acreditemos que nada acontece por acaso, foi um desolo ver que se limitavam a abanar a mão perante os nossos pedidos.

Ouvimos por aí dizer que a lei é sempre passível de “alterar”, que na China depende sempre da vontade de cada um, e da carteira de todos os outros, e que, prova disso, seria que nunca deveríamos tentar tratar de papelada à hora de almoço, fecho do dia ou sexta-feira à tarde. Demasiadas restrições para sermos os sortudos. E enfim, difícil se revelou. Quando pedimos uma solução, sugeriram que “googlássemos” – estando o Google bloqueado na China!

Visitámos então a cidade nas redondezas e deixámos o assunto amornar. Tentámos ainda planear a nossa ida à Muralha da China, mas acabámos por deixá-la para um dia depois, de forma a encontrarmos um programa alternativo ao habitual turista.

E assim, fomos pela primeira vez a um “Fake Market”, no caso o Pearl Market mesmo em frente ao Temple of Heaven , o que foi uma verdadeira loucura: se por um lado nos estavam constantemente a puxar e a impingir coisas, por outro nunca pensámos poder ver tanta coisa junta, falsa ou fruto de contrabando, passível de ficar a tão baixo custo! É o capitalismo chinês – que é até muito interessante: na China, criam tudo mais barato, por certo com menos qualidade, mas assim acessível a todos!

Visitámos ainda a praça Tianamen e terminámos a noite com o primeiro amigo que fizemos na China, em Khorgos, na fronteira com o Cazaquistão, onde estava de viagem. Acabou então por nos levar a um restaurante 100% vegetariano, onde nos deixámos deslumbrar com o menu. Novamente, e tipicamente à chinesa, depois de escolhermos os nossos pratos, mandou vir mais dois ou três, que partilhámos de bom agrado! Era comida europeia, mas em tom de partilha: tínhamos já algumas saudades (porque um falafel cai sempre bem 🙂 ).

Acabámos então por no dia seguinte madrugar e seguir para um trecho da muralha mais afastado, em Mutanyau. Saímos cedo. Não estava frio, mas sentíamos nos braços aquela humidade da manhã.

Ao contrário do habitual em Pequim, o céu estava azul, limpo e o sol brilhava. Parecia um dia escolhido a dedo para visitar a Grande Muralha.

Fizemo-lo por nós próprios, e embora não tenhamos escolhido a zona perfeita (por ser turística) ou o timing perfeito (por ser um domingo de verão), conseguimos fazê-lo por 70RMB, menos de 10€, os dois. E não foi difícil, exigiu apenas planeamento e corda nos sapatos!

Fomos de autocarro até à cidade mais próxima e, após duas horas, quase à chegada, tentaram enganar-nos. Trazíamos já a lição estudada, tínhamos já lido sobre isso e estávamos de sobre aviso. Ainda assim, foi chato e constrangedor; muito embora tenhamos de tirar o chapéu à genialidade da manha. Ora então, já perto do destino, mas ainda a uns quantos quilómetros da chegada, numa das paragens do autocarro, entra um sujeito pela porta traseira e grita “Great Wall, it’s here!”, e quando no seu olhar nos avista, fá-lo ainda com mais esforço “Go down, you! It’s here to go to the Great Wall”. E perante a nossa calma e passividade, gritou ainda mais e mais alto, até que nos sentimos obrigados a dizer que sabíamos muito bem onde deveríamos sair. E agradecemos. Com isto, o plano é que os turistas depois de tanto tempo de autocarro, agradeçam a ajuda e desçam ali mesmo. Contudo, ali, não havendo mais nada, e estando ainda longe da entrada da muralha, têm de apanhar um táxi (com o sujeito que as incentivou a descer). E assim vão enchendo os bolsos!

Por fim, chegados nós ao local correto, conseguimos comprar os dois bilhetes como sendo estudantes (exigem apenas que o cartão tenha fotografia e por isso limitámo-nos a ser criativos!) e logo depois subimos montanha a pé em vez de pagarmos pelo famoso ShutleBus. À chegada ao topo, e início da zona turística, apresentámos os bilhetes e subimos até à famosa e grande muralha a pé, em vez de pagarmos pelo teleférico.

E, adiantamos que, embora se faça em menos de duas horas e seja doloroso para as pernas, vale a pena! Vale a pena o cansaço e o prazer de chegar. Vale a pena o caminho e o desfrutar da ansiedade. E, à chegada, o gosto é outro!

É linda. Infinita. Imensa! É majestosa. É imponente.

Gostámos tanto de a ver pela primeira vez!

Caminhámos pela muralha tanto quanto conseguimos, quanto os nossos sonhos desejaram.

Fotografámo-la. Admirámo-la. Sentimo-la.

E ainda lá em cima, fizemos um dos nossos habituais pic-nic, saborosos e distintos, sob o olhar atento de todos os que por nós passavam.

Voltámos depois para a baixo, novamente a pé, já mais mortos que vivos, e sempre de dedo esticado. Apanhou-nos então um taxista só até à estrada principal. E lá, minutos depois, apanhou-nos um casal. A troco da ainda longa boleia, sugeriram que jantássemos juntos: e podemos partilhar que foi um dos jantares mais épicos de sempre! HotPotHot, o nome do restaurante, inserido num hotel. Uma loucura. Gigante, imenso; buffet livre de bebidas e comida. Cada um com o seu “pote” de água temperada sempre a ferver, pudemos escolher por entre as mil iguarias o que queríamos comer e cozinhar: trinta tipos de cogumelos, tofu, vegetais, legumes, enfim. Uma panóplia infindável. E também com pratos já cozinhados. Um sem fim de coisas vegetarianas e de-li-ci-o-sas! Com
frutos tropicais e até pastéis de nata! Escusado será dizer que até nos custou depois a adormecer.

Quando acordámos estavamos já há 4 dias em Pequim e o combinado era trocarmos de casa. Fomos assim para casa da Rafaela, uma portuguesa que ouviu falar de nós através de um grupo no Wechat, casada com um Japonês e com dois filhotes nascidos na China: uma doçura!

Um lar! Num ambiente calmo, descontraído e em paz. Numa casa acolhedora, com uma decoração linda e chão de madeira!

Tanto foi, que acabámos por ficar mais uma noite, com a oportunidade de dar uma entrevista muito especial para o “Diário do Povo”, um jornal que publica em português e em chinês.

Fomos também ainda a um mercado de rua, “Wangfujing”: com animais muito estranhos, as iguarias eram as mais variadas. Da centopeia ao gato, do escaravelho à vaca, havia de tudo. Uma dor na alma.

Nenhum animal merece ser criado, explorado e/ou morto para satisfação de cada um de nós. Sabemos hoje que temos alternativas completas a nível nutricional e de cosmética, não sendo justo que olhemos para um cão ou um gato, de forma diferente daquela que olhamos para uma vaca ou um coelho. Nem que desvalorizemos um escorpião ou uma estrela do mar. Merecem todos o nosso respeito. E não culpemos a cultura, não responsabilizemos a nossa história pelo nosso egoísmo. Estamos sempre a tempo de mudar, de ser melhor. #govegan

Terminámos então o nosso dia a apanhar de um caixote do lixo um (literal) caixote de fruta. Boa! Que vimos ser largado por uma senhora da frutaria da rua por onde passávamos. Pêssegos. Meloas. Maçãs. E uvas. Tudo bom! Mais maduro, menos maduro, depois de lavado, nem queríamos acreditar!

E no nosso dia extra, fomos também a um mercado de cultura tradicional chinesa, “Panjiayuan”, com antiguidades do tempo do Mao Tse Tung. Um mundo sem fim, tradutor de muito daquilo que se encontra pela rua. Marcante, as pinturas de caracteres chineses e a ambição das pessoas por nozes simétricas e pedras “preciosas”, que vimos atingir valores inimagináveis.

Saímos de Pequim no nosso vigésimo quatro dia de China e, ainda assim, com a sensação de que poderíamos passar outros tantos só ali e não conheceríamos tudo! Pequim é realmente encantadora!

E na manhã seguinte, conseguimos então boleia para Zibo: uma boleia direta mas que nos deixou à entrada da cidade. Cansados, enquanto caminhávamos sem alternativa, parou um senhor que nos quis levar até casa. Amoroso, não descansou enquanto não nos viu acomodados. Aqui, ficámos com duas estudantes russas e um gatinho escanzelado, recém resgatado. E por entre pulgas, repusemos as nossas energias para partir no dia seguinte.

Metemo-nos à boleia para Yangzhou e lá chegámos já de noite, depois de 5 boleias. A última, foi com três jovens que iam para Xangai, mas entraram na cidade, com um pequeno desvio, só para nos deixar perto de casa! Mas foi ainda no caminho que assistimos ao mais hilariante: testes de alcolemia realizado sem equipamentos! O polícia mandou parar, o condutor abriu o vidro e em pleno trânsito teve apenas que soprar, soprar com muita força, para o nariz do senhor agente. Este cheirou, e em função da sua percepção, mandou (ou não) avançar! E como esta, há muitas outras situações das quais nunca nos lembraríamos e perante as quais ficamos estupefactos.

Enfim, ao ponto de encontro, chegou o nosso couchsurfer, orgulhoso por nos estar a ir buscar, com um sorriso de orelha a orelha, levou-nos até casa. Lá, esperavam-nos a filhota e a esposa, que se mantinham acordadas para nos esperarem!

Por ser professor de inglês num escola pública, convidou-nós a conhecer os seus alunos na manhã seguinte. Tomámos então o pequeno-almoço na cantina do liceu: leite de soja (que aqui é mesmo natural, sem sequer adoçantes! Resta saber a origem desta soja…..) e “mandô”, uma espécie de pão de arroz muito fofo, com coisas dentro, como pasta de feijão ou legumes.

Na sala de aula, dá-se início aos trabalhos às 8:00h. Lêem, os alunos, em conjunto o mesmo texto, em voz alta, seja sobre ciências ou química, em chinês ou inglês. Fazem do ruído da escola um verdadeiro eco, com a crença profunda de que este é um método educativo relevante. Depois então, as 8:30h, começam a sério. Soubemos também que as aulas não têm hora de terminar, terminam apenas e só quando o trabalho está findo. E ainda, que os alunos são extremamente disciplinados é bem educados.

Pelo restante dia, passeamos pela cidade, completamente derretidos pelo sol que se fazia sentir. Um calor insuportável. E à noite, fizemos um jantar em casa de outra amiga, também professora de inglês: mas que curiosamente não sabia falar inglês, necessitando de tradução de praticamente tudo quando falávamos.

Frescos, na manhã seguinte, seguimos para Suzhou, uma cidade pretinha e a que todos teciam grandes elogios. Apanhámos uma boleia direta, com um jovem ligado à moda e que acabou por nos oferecer um pulseira com pedras ligada ao budismo. À chegada, ainda um pedacito longe, caminhámos até casa do nosso couchsurfer, que acabou por nos encontrar pelo caminho. A casa, uma grande vivenda, ficava num lindo bairro e lá vivia com a sua esposa e o seu filho. Ele, muito mimado, tal como os próprios pais assumiram, por ser filho único e muito desejado. Abria a boca e os pais já estavam a correr na sua direção. Gritava constantemente e cada atitude deixava muito a desejar, tendo em conta os seus já 10 anos.

Pela cidade passeámos, mas esta ficou aquém das nossas expectativas. Muito aquém.

E ao nosso trigésimo dia na China, partimos para Xangai, desejosos de conhecer a cidade maravilhosa! Chegámos cedo, ainda perto da hora de almoço, com 2 boleias. Deixou-nos a última perto do pequeno aeroporto da cidade e apanhámos depois o metro até chegarmos a casa de um amigo de velhos tempos, a trabalhar na cidade. Os transportes, uma verdadeira loucura, com dezenas de linhas, identificadas por números e não cores, com saídas identificadas também com números e não letras, como em cidades mais pequenas; deixaram-nos boquiabertos. Ainda no metro, enquanto este se encontra em andamento, é pelas janelas que se vê publicidades tipo filme. Uma loucura! E aproveitando ser ainda cedo, conhecemos a zona junto ao rio, com vista sobre as grandes e majestosas Torres de Xangai.

Por todas as noites, fomos hospedados por um português carismático, através da sua namorada que em Portugal e desde o inicio acompanhou a nossa aventura! Ele, com uma história de vida multicultural, fez da sua casa, a nossa própria casa.

Durante a nossa estadia, fomos no primeiro dia à polícia (novamente na esperança de obter uma nova entrada para a China, de forma a visitarmos Macau) e a um dos grandes fake Market, onde à porta encontrámos uma lista de marcas não passíveis de contrabando. Todas as outras existentes são então comercializadas, como é o caso da Nike, Converse, Apple ou Dior. Encontra-se de tudo: de malas, a ténis, tabletes, telefones ou relógios, roupas, mochilas.. Enfim. Os preços são feitos pelo cliente, e a negociação é a chave do negócio. All Star, Converse, vimos começar em 600RMB (80€) e terminar em 50RMB (7,5€), reflexo do monopólio existente. Mas contam os locais que há americanos que vêm e compram praticamente pelo preço inicial proposto, permitindo que o lucro seja exorbitante!

Já no segundo dia, conhecemos uma zona tradicional, com templos e casas antigas. E depois de num grupo do Wechat, termos chegado a uma Portuguesa, a Maria, tratámos de encontrá-la com muita ansiedade. Ia voar de Lisboa, e aceitou com a maior das generosidades trazer-nos uma mala com algumas roupas e mimos da mamã. E após grande emoção entre a sua chegada e a chegada das malas, chegou então o momento de ir a sua casa buscar o nosso azeite e afins: era meia mala das grandes, cheia de coisas boas (e também coisas a mais – ou não tivesse sido uma Mãe a enviar o pedido)!

A Maria foi aquela pessoa que fomos conhecer sem expectativas e que guardaremos para sempre no coração. Fala com a alma, e viaja apaixonada, como nós, sempre que pode. Ficou em nós a sua simplicidade e simpatia, e o desejo de a voltar a encontrar em breve. E em qualquer parte do mundo, saberemos que estará a ser contagiada e a contagiar, com o seu sorriso no rosto e doçura no olhar.

Ainda durante a nossa estadia, fomos conhecer a “nova Xangai”, completamente modernizada, limpa. E chique. Com prédios altíssimos, zona de altas marcas e grandes lojas, como Prada ou Gucci. Hotéis de luxo e restaurantes caríssimos, mas subimos sorrateiramente a um dos prédios mais altos, e conseguimos ainda assim, e de fugida, ver a vista lá de cima.
De tarde, perdemo-nos por bairros antigos e jardins de bambus. Acabámos o dia na zona M50, alternativa e recheada de arte, num reencontro com a Maria e uma nova amiga, a Carol.

Não diferente de todas as outras cidades da China, vimos pelas ruas e assim que o sol de pôs grupos de pessoas a dançar, ao som de baladas típicas, sem que se consiga identificar quem é o mentor da aula. Com mais ou menos dificuldade, todos tentam praticar o seu desporto e são bem rígidos perante os seus objetivos.

E assim vivemos o nosso primeiro mês na Ásia, na China! Mas não nos deixámos abrandar: de Xangai, seguimos para Hangzhou, Fuzhou, Xiamen e Shenzhen.

Porque muito embora não seja o relógio a comandar os nossos dias, e nos deixemos levar a cada dia pelo bater dos nossos corações, sabemo-nos sempre com (quase) mundo inteiro por descobrir.

A Hangzhou chegámos com apenas uma boleia, e lá ficámos com um novo couchsurfer e o seu persa – lindo de morrer! Passámos um tempo doce e de descanso, com a certeza de que esta passou com certeza a ser a nossa cidade de eleição. Com um lago maravilhoso e uma montanha com vistas sobre a cidade indescritíveis, fizemos da nossa estadia um momento inesquecível. Talvez por ter tido também há pouco tempo o encontro G20 a possamos ter encontrado mais arranjada ou limpa que o costume; mas guardamo-la assim mesmo no coração!

Ainda assim, pela cidade, pudemos confirmar por entre a multidão que “noção de espaço” é coisa estranha. Os chineses não só não fazem ideia do que seja, como não se preocupam com isso, de uma forma extremamente natural. Encontrões são o prato do dia, mas o mais bizarro e ao mesmo tempo hilário, é o momento em que estamos a mexer no telefone e se vêm encostar a nós a olhar para o ecrã (acreditamos nós que na tentativa de perceber o que estamos a fazer). Não há palavras!

Também por lá partilhámos uma tarde com um senhor do Brasil, apaixonado pela essência da China. Levou-nos não só numa caminhada pela cidade, como a conhecer a estátua de Marco Polo. E, por fim, a jantar num restaurante Italiano, por entre conversas mais profundas e momentos de reflexão.

À chegada a casa, tínhamos como surpresa um jantar preparado, onde procurámos com carinho encontrar um espacinho no estômago para o apreciar. E estava realmente delicioso, tipicamente chinês e cheio de tofu – como tanto gostamos!

Partimos depois para Fuzhou, mas a coisa não correu assim tão bem. O despertador, a tocar desde cedo, mas em silêncio, não nos acordou. E depois, depois o autocarro urbano também não apareceu. E para ajudar à festa, chovia. E chovia. E chovia.

Embora com ajuda de muito boa gente, que de tudo fez para que o desfecho fosse o melhor, apanhámos duas boleias, por entre o trânsito caótico da China – com carros em contra mão até na entrada da autoestrada – mas chegámos apenas à estação de serviço de uma pequena cidade, onde acabámos por pernoitar. Lá, acolheram-nos com muito amor: no restaurante desviaram uma mesa, e ali fizemos a cama. Colchões no chão, sacos-cama no seu melhor. Wi-Fi da cafeteria, e dormimos descansados, na esperança de que o sol no dia seguinte desse ares da sua graça.

Mas não. Chovia, parava, chovia, choviscava. E sol nada. Eram pouco mais de 7:00h e já estávamos de volta à estrada, onde passámos novamente o dia. Mas desta, chegámos ao destino depois de 5 boleias, todas muito diferentes e muito especiais.

De um jovem alternativo e muito simpático, a duas jovens muito tias e muito queridas, a um gordinho num Mini cor-de-rosa; vivemos só emoções fortes. Mas a mais fortes de todas, só quando pusemos os pezinhos em casa!

De felicidade, descanso e paz para o corpo.

Mas mais.

Em Fuzhou ficámos com um jovem chinês. Não lhe conseguimos ao primeiro momento tirar a pinta, mas hoje estamos felizes pela oportunidade que nos demos. O cansaço que trazíamos no corpo, a cozinha muito suja e o cheiro a tabaco fizeram-nos vacilar, por certo. Mas assim, ninguém vê o essencial. Porque o essencial não se vê com os olhos. Demo-nos então uma oportunidade, e foi num passeio já de noite, pelo centro da cidade e por entre amigos, que nos sentimos tão bem. E que bom assim, porque não só as energias físicas se recarregam.

E, por fim, depois de uma boa noite e de um pequeno-almoço muito acolhedor, fizemo-nos caracóis a caminho, de casa às costas, com Xiamen em mira. E assim a avistámos, perfeita no meio do mar, depois de 3 boleias muito bem sucedidas.

Não cansados ainda de aventuras, e depois de chegados a Xiamen, fomos avisados da proximidade do Tufão Meranti. Tínhamos acabado de chegar: acabado de nos apaixonar pela casa, apaixonar pela vista, pelo mar. Tínhamos acabado de nos apaixonar pela ilha. E também por quem nos estava a hospedar. Éramos então feitos de encanto, de amor.

Na verdade, não valorizámos qualquer aviso; nem nós, nem os locais. Se o recolher tinha sido aconselhado a partir das 17:00h naquele dia, eram 23:30h e continuávamos sentados na varanda a jantar, conversar, confraternizar. A Aida, iraniana, esposa do João, português, casados e um doce. Hospedaram-nos com tanto tanto carinho, que também não era preciso o tufão para que tudo se tornasse inesquecível.

Continuávamos então na varanda, os três (com o João de férias em Portugal), até ao pequeno sinal de uma barata a entrar casa a dentro, esvoaçante.

O tufão tudo levou: palmeiras e outras árvores, carros e o que mais apanhou pelas ruas. Em casa, o barulho fazia-se ensurdecedor e cíclico. As janelas, abanavam, batiam. Estilhaçavam-se outras, e o medo instalou-se. Não queríamos propriamente acreditar que afinal era mesmo verdade… mas era! E em pleno nono andar, a casa inundou. Inundou mesmo: por entre toalhões que de forma descontrolada começámos por pôr no chão e a carpete de seda feita à mão e trazida do Irão. O clima era de destruição. Os sons eram horrorosos e ecoavam. Não parecia ter fim. Foram mais de duas horas de pânico, de espera. Lá fora, tudo voava, tudo se despedaçava. E nós, escondidos num quarto interior, espreitávamos a medo, por entre a curiosidade e o receio.

No rosto da Aida, caiam lágrimas. Sentidas.

Era a presença da destruição que assustava; não o tufão.

Seguiram-se momentos, horas e dias, duros. Vimos o recomeçar, o seguir em frente, de perto. E ajudámos por casa tanto quanto pudemos, até que do nosso campo visual se eliminassem lembranças. Mas, da rua, não mais. Não havia estrada sem árvore caída, sem vidros ou destroços.

E assim ficou uma ilha por conhecer, mas (re)conhecida na sua essência. Não a vimos como nova, e talvez nunca venhamos a ver. Mas certo é que em nós ficou marcada.

Alargada assim a nossa estadia, chegámos só depois a Shenzhen, com 3 morosas boleias. Lá, encontrámos um amigo português, já tarde, também ele treinador de futebol. Com uma humildade desmedida, fez da sua cama a nossa cama e da sua presença uma verdadeira companhia. No decorrer do dia, palmilhámos a cidade por entre os seus maravilhosos parques e, já depois de almoço, conseguimos dar sangue para a Cruz Vermelha – uma experiência internacional muito interessante, até mesmo na forma como tudo se processa. E o mais engraçado, o facto de oferecerem um brinde pela doação: no caso, um selfie stick.

Já à noite, tivemos a oportunidade única de jantar num restaurante Budista, e por isso vegetariano. Buffet, e ainda sem álcool. O verdadeiro paraíso, porque mesmo que não soubéssemos do que se tratava, sabíamos que podíamos comer! Quem lá nos levou foi a amiga que fizemos em Pequim, e que já lá nos havia proporcionado uma das melhores experiências de sempre à mesa, quando nos levou ao HotPotHot; o que nos deixou perplexos e em êxtase.

Cheios, aptos quase que para rebolar, conseguimos adormecer só depois de uma caminhada e um chá quente. E para acordar na manhã seguinte, não foi fácil. Eram pouco mais de 6:00h quando o despertador tocou. Era hora de seguir para Hong Kong, e havia tanto até lá para fazer!

Mas mais tarde, partilharemos também estas aventuras, e outras tantas. E em breve, chegaremos também a Macau! E logo depois voltaremos à China, para chegar ao Vietname. O tempo não pára e depressa esperamos conseguir partilhar toda e cada vivência.

Têm sido as diferenças culturais que nos têm apaixonado neste longo caminho, mas mais ainda a descoberta ou confirmação de que a hospitalidade e generosidade são características transversais à humanidade.

Vamos decerto manter-nos sonhadores, neste caminho que traçamos com muito amor, e palmilhar o mundo que nos falta.

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6 meses: FAQ

São 6:
6 meses de viagem
6 meses de aventura
6 meses de amor

E por estes, e por todos os que virão ainda, pelo mundo, estamos muito felizes!

Partilhamos assim as respostas a todas as questões que nos fizeram chegar, na esperança de que satisfaça a curiosidade de cada um, e faça sorrir, faça viver, faça sonhar!

É muito amor não é? E loucura também?

Tiago – Um pouco dos dois, mas mais gosto por conhecer e aprender.
Joana – Amor decerto! Quanto à loucura… pobres dos sãos!

Qual foi, até à data, a melhor e pior experiência?

Tiago – A melhor experiência foi termos sido hospedados por locais em aldeias remotas. A pior foi andar à boleia com quem não confiávamos, no final correu tudo bem, mas foi uma viagem muito tensa.
Joana – Partilhamos a pior, quanto à melhor, não consigo escolher. Esta viagem é feita de boas experiências! Talvez guarde com carinho a chegada ao Irão: não estava à espera de tamanha hospitalidade. Não há reflexo da realidade do país fora deste, o que é uma pena!

Nunca tiveram medo?

Tiago – Nunca tive medo, mas senti alguma tensão quando um condutor se desviou do caminho: afinal ia só visitar uns amigos.
Joana – Já senti sim, e uma das vezes foi exatamente nessa situação. Queria sair do carro, não queria esperar para ver. Sou mais medrosa! Mas há uma linha muito tênue que separa o medo da tranquilidade; quero com isto dizer que sempre que tive receio de alguma coisa, foi num segundo que me acalmei e vi que estava tudo bem.

Do que mais sentem falta?

Tiago – De azeite, da minha família e amigos. E da minha bicicleta! E embora só tenha descoberto há três dias, também tinha saudades de bolachas Maria.
Mas nesta viagem estamos sempre ocupados e por isso não temos muito tempo para sentir saudades. O nosso dia é conhecer pessoas, caminhar, apanhar boleia, conhecer pessoas outra vez e dormir.
Joana – Da minha família e amigos, embora estejamos sempre em contacto. Também sinto muita falta do meu espaço (coisa que nunca tinha pensado gostar tanto), da minha cozinha e dos meus lápis-de-cor. Tenho saudades de conduzir, e de passear na baixa em Lisboa.

Acham que vão conseguir voltar e ficar?

Tiago – Encaramos esta fase como uma experiência que queríamos ter e por isso sabemos que a vida terá outras fases pelas quais também queremos passar. É como perguntar a um estudante universitário se vai conseguir adaptar-se à vida de trabalhador… O que tem de ser tem muita força.
Joana – Não tenho a menor dúvida!

Dão-se bem a tempo inteiro?

Tiago – Temos algumas desavenças, claro. Não somos perfeitos e é assim que nos tornamos mais fortes. Mas especialmente quando nos faltam boleias ou passa do meio dia e ainda não temos poiso certo, há maior tensão. Mas sei que quando por qualquer momento não estamos juntos, nos sentimos vazios.
Joana – Importa que no fim fique tudo bem, que não nos deixemos adormecer de costas voltadas. Acredito que, mais que tudo, somos pessoas. Como tal, temos os nossos momentos: e melhores ou piores, e especialmente neste tipo de viagem nem sempre é fácil gerir sentimentos. Só nos temos a nós e sabemos bem disso. Sabemos que somos a nossa companhia a cem por cento, mesmo quando estamos insuportáveis.

Quanto dinheiro já gastaram? Têm conseguido manter a vossa proposta de orçamento?

Tiago – Gastámos à volta de 1300€ em 6 meses. Significa que estamos completamente dentro do nosso orçamento inicial de 10€ diários para os dois.
Joana – Só em vistos fizemos um investimento de 700€, quase tanto quanto o que gastámos até agora em bens (alimentares ou de cosmética). É uma pena não termos passaportes diplomáticos!!

Têm conseguido manter o vosso estilo de vida alimentar, o veganismo?

Joana – Esse começou por ser um grande desafio e aprendemos, com o tempo, a levar os dias sem culpa. Depois da Turquia, a comunicação começou a ser uma barreira cada vez mais acentuada. Pensávamos que conseguíamos explicar sempre que éramos vegetarianos, mas por muitas vezes as pessoas recebiam-nos em suas casas com grandes banquetes, recheados de carne, laticínios e ovos. Até mesmo do pão não lhe sabíamos a origem. Foi uma gestão pessoal muito complicada, porque saímos de Portugal veganos e sem consumir produtos processados. Açúcar estava fora da lista, por exemplo. Hoje sem comprometimentos sabemos que nos limitámos a adaptar a este momento da nossa vida, do qual não nos orgulhamos a nível alimentar. Não compramos produtos de origem animal e ovos sabemo-los caseiros. Não podemos dizer que vivemos felizes no que respeita a esta opção, mas sabemos ser a mais sensata face à viagem que estamos a fazer. Carne, peixe e leite continua absolutamente fora do nosso cardápio. E sabemos que aquando o nosso regresso continuaremos a ser o que já um dia fomos: amigos e respeitadores da vida. Pelo mundo, a nossa atitude não é diferente; mas impõe-se respeitar os que nos estão a receber e que, por muitas vezes, nos partilham aquilo que têm no prato. Em casa as coisas são diferentes, aqui estamos completamente fora da nossa zona de conforto.
Tiago – É possível dar a volta ao mundo como veganos, mas com o nosso molde de viagem é que é mais difícil. Quando estamos numa aldeia remota e as pessoas nos acolhem nas suas casas e nos dão aquilo que têm, não podemos recusar tudo. Quanto mais quando existem barreiras linguísticas e culturais que dificultam qualquer explicação. Em relação à carne e ao peixe não somos flexíveis, cada vez nos custa mais entender que continuemos (sociedade) a comer carne sem pensar no que estamos a fazer. Já quanto aos ovos temos sido bastantes flexíveis, leite não bebemos, mas de vez em quando não existem outras opções além de derivados do leite e esporadicamente consumimo-los. Por favor, revoltem-se com esta flexibilidade e espetem-nos as vossas farpas de todos os lados.

Têm algum cuidado especial?

Joana – Na viagem em geral, tentamos ter algum cuidado com aquilo que comemos e a forma como o fazemos. Normalmente, se é algo cru, não temos água potável para lavar e não dá para descascar, não comemos. Outro tipo de cuidado especial, só no que respeita a atitudes. Eu sei que sou mais impulsiva e explosiva que o Tiago, o que por vezes lhe dá trabalho! Tenho dificuldade em conter-me perante uma injustiça, por exemplo; mas tenho-me tornado cada vez mais cuidadosa, muito embora nem sempre saiba reagir da melhor forma, o que é importante perante um mundo desconhecido.
Tiago – Uma regra importante: faz como vires fazer, até ao teu limite. Por exemplo, eu não consigo atirar lixo para o chão, mas consigo sentar-me no chão e comer com as mãos, todos do mesmo prato. Outra regra de ouro é fugir dos problemas: se alguém nos quer arranjar problemas, primamos por sair dessa situação sem repostar ou sequer tentar dar uma chapinha de luva branca, como tanto gostamos noutros contextos. Acreditamos que esta atitude a longo prazo nos é retribuída em forma de energia positiva, o que não só nos influência a nós próprios, como a todos os que cruzam o nosso caminho. “Be ALWAYS polite”, se bem que para um de nós isso é um desafio muito grande.

Conseguem descrever um momento caricato ou embaraçoso?

Tiago – Numa boleia no Quirguistão, o senhor levou alguma tempo a dizer-me em russo que ia ao hospital visitar um familiar com cancro e eu sem perceber muito bem, seguia dizendo: “sim, muito bom”. Quando percebi, já era tarde; mas no final da viagem disse-lhe que esperava que tudo corresse pelo melhor.

O que trazem nas mochilas?

Tiago – Uma tenda, um marcador (para escrever num pedaço de cartão para onde vamos), meia dúzia de trapos para vestir e para durante a noite nos aquecer, uns electrónicos para manter o contacto e tirar fotografias e muitos sorrisos. Também temos uma mochila mais pequena com comida e água. E a bandeira de Portugal!
Joana – Além da roupa e calçado (que inicialmente era de verão e inverno, mas que agora se resumiu à primeira), uma rede mosquiteira de casal, repelentes, cosméticos (shampo e sabonete sólidos, cremes, desodorizante e coisas de menina!), bijuterias, e alguns medicamentos de rotina e outros de emergência. Tenho também música e um caderno.

Há recomendações específicas para andar à boleia?

Joana – Paciência, é o mais importante. Mas eu diria que não há nada específico, a não ser o bom senso. Primeiro, há que confiar na pessoa que parou, pelo menos à primeira vista. É preferível não chegar ao destino, e estar bem, que o contrário. Depois, há que partilhar a nossa história com quem nos está a ajudar, que é a única coisa que podemos dar em troca (a não ser que a barreira linguística não o permita, mas é por isso também que o Tiago se empenha tanto na aprendizagem da língua de cada país por onde passamos). E por fim, deixar bem claro sempre que estamos à boleia, que não pretendemos que a pessoa altere a sua rota e nos leve apenas para onde já está a ir, sem que paguemos por isso. Cabe-nos também no carro respeitar as pessoas e, por exemplo, não começar a mexer nas mochilas ou a falar Português entre nós – por vezes quem nos leva também tem algum receio. Ainda assim, no que toca a viajar por países por culturas distintas é que encontro uma recomendação/regra fundamental: não julgar. Às vezes é difícil, às vezes não percebemos nada, mas é mesmo assim.
Tiago – “Quem está à boleia, sujeita-se”. Ter sempre isto em mente, e depois tentar criar confiança com o condutor: partilhar o mais que consigamos e o mais que ele queira saber.

À data, qual o maior impacto da viagem na vossa vida? E em vocês próprios?

Joana – Acredito que só teremos resposta para estas perguntas aquando o nosso regresso, contudo acredito também que a cada dia que passa nos conhecemos melhor.
Tiago – Com esta viagem aprendemos a dar valor a uma simples cama ou garrafa de água. Cada barreira que ultrapassamos faz-nos enfrentar as próximas barreiras com mais confiança e isso é algo que levamos para a vida. Ao nível dos valores, creio que nos tornámos já mais tolerantes, pacientes e reflexivos.

Oh Quirguistão

Oh Quirguistão! Quirguistão de paisagens soberbas, de montanhas majestosas e natureza sem fim. De lagos, do azul transparente ao verde água. Do verão ao inverno, do sol à chuva feita de trovoada.

Oh Quirguistão: trazes os Açores em ti – sentimos!

Mesmo antes de atravessarmos a fronteira, o alívio já era nosso. A não necessidade de visto e os sorrisos à entrada do país preencheram-nos a alma de alívio, e seguimos. Seguimos por entre o calor e o caminho árido, por entre o pó que íamos respirando e sentido no corpo, até encontrarmos a pequena sombra de uma árvore para nos acolher.

Respirámos. E sorrimos.

Estávamos pois com os pés assentes no primeiro país da Ásia central que vive em democracia. E curiosidade fervilhava em nós!

A primeira boleia foi de um Gigoli, um carro velhote, ainda dos tempos da antiga União Soviética, que nos deixou na primeira cidade no nosso caminho. Na verdade, estávamos sem destino certo; mas depois de termos encontrado quem partilhasse connosco um pouco de internet, percebemos que rumaríamos a Osh, a cidade seguinte. E lá teríamos um couchsurfer e uma família de braços abertos para nos receber.

Não hesitámos.

Os dias anteriores tinham sido feitos de desgaste físico e psicológico. Tinham já sido várias as noites seguidas sem poiso certo, em que só na hora de montar a tenda éramos hospedados por locais.

A experiência é gratificante, mas a realidade é que nessas condições visitamos as cidades com muito menos disponibilidade; e carregados com as mochilas, acabamos por direcionar o tempo para a procura de onde lavar as mãos e os pés, onde conseguir internet ou um lugar para descarregar as coisas.

Portanto, não hesitámos.

E chegámos a Osh com uma única boleia, por mais de 3 horas, com o diretor de um canal televisivo nacional, não sem que pelo caminho nos deixássemos apaixonar pelo horizonte.

Em Osh ficámos 3 noites, com a certeza de que fomos hospedados com a maior da hospitalidade. Para nós, cozinharam diariamente pratos típicos. Connosco, visitaram a cidade e mostraram tudo quanto puderam, tendo até pedido ajuda a voluntárias no trabalho para fazerem de guias turísticas! Descansámos, recuperámos energias e demos uma entrevista para a Rádio, RDP, no Pequeno-Almoço Continental.

E foi ao quarto dia que partimos para Djalal, uma pequena cidade a poucos quilómetros de Osh, no sentido de Bishkek, onde chegámos com apenas uma boleia e onde fomos hospedados por uma couchsurfer: desta vez mulher, a viver no momento sozinha com a sua bebé de 4 meses. Entusiasmados pela abertura da conversa, partilhámos noite dentro factos e histórias sobre as nossas culturas, à vez e quase que em termo comparativo. E só quando satisfeitos e munidos de histórias infinitas, nos deixámos dormir, no conforto da nossa história e do nosso abraço.

Mas foi no dia seguinte, diante dos mais de 700 quilómetros que tínhamos para fazer, que refletimos sobre os ganhos da noite anterior. Aprendemos, sem rodeios, que as tradições existem e sobrevivem ainda por mão daqueles que têm medo de as enfrentar. São várias, e delas fazem parte os casamentos na mocidade, com 1000 convidados no mínimo. O dinheiro investido é estrondoso e não importa se faria falta. As prendas são obrigatórias e variam, podendo ir dos eletrodomésticos a uma vaca; da mesma forma que é obrigatório aos pais do noivo pagarem um certo valor pela noiva. Mas tudo isto, a nossa couchsurfer revogou , sem receios. E nós dois, só depois incrédulos. Porque à primeira vista, que mal tem agir diferente? Pois é, na Ásia central, tem todo o mal do mundo. Mas quando caímos em nós, já o dia ia longe.

Tínhamos por objetivo chegar a Issyk Kul, um famoso lago infinito, rodeado de praias, recantos paradisíacos e montanhas de perder de vista, com neve no topo. Mas foi uma missão falhada e abortada sem ressentimentos.

Apanhámos uma primeira boleia de um senhor já velhote, com um grande orgulho em ter duas esposas e vários filhos de ambas, até uma pequena vila. De lá, conseguimos uma outra boleia, mas de um taxista. A simpatia não era o seu forte, mas era de todo o seu modo de ser. Tinha por princípio criticar e não sorrir, o que não nos intimidou mas não nos deixou felizes!

Seguia para Bishkek, a capital, a 600 quilómetros de onde estávamos. O caminho era longo e demorado, montanha acima, montanha abaixo. E com o GPS íamos vendo que as horas de caminho eram infinitas. Pela estrada, apanhou mais duas jovens através do seu serviço de táxi, mas nem assim deu largas ao seu bom humor.

Pretendíamos sair da estrada que leva a Bishkek no cume de uma montanha, onde seguia depois uma estrada secundária para o tão desejado lago; e foi assim que fizemos. Mas foi também no topo da mesma montanha, que sentimos o que é poder passar do verão para o inverno em poucos minutos. Se no carro entrámos de chinelos e perna ao léu, com 40 graus suados, naquela estação de serviço que nos acolheu só tivemos tempo de tirar da mochila os casacos polares, o cachecol e os ténis (sobreviventes).

Se horas antes brilhava no céu um sol ardente, naquele momento chovia copiosamente.

Na bomba, ofereceram-nos chá e wi-fi. E abrigo. Sim, wi-fi, aberta, no meio do nada: o que já não víamos acontecer desde que deixámos para trás a Europa e que, naquele momento, nos soube tão bem e nos serviu de tanto.

Percebemos então através das pessoas locais que a maioria segue a estrada até Bishkek e só depois apanha a estrada que segue para Issyk Kul. E assim, em menos de nada, contactámos uma couchsurfer de Bishkek na tentativa de perceber se nos poderia hospedar ainda no mesmo dia e fizemo-nos ao caminho.

Batíamos os dentes à velocidade do vento e aquecíamos as mãos conforme conseguíamos. Já tínhamos saudades de sentir frio, mas também não era preciso tanto, nem tão de repente.

Ajudaram-nos então os senhores da própria estação de serviço a conseguir uma boleia: conheciam bem os carros e os seus condutores, e depressa nos ajudaram a saber a quem ir perguntar.

A boleia conseguida foi a melhor que poderíamos alguma vez ter desejado: um jovem e um jipe, ambos com vontade de nos mostrar com calma e entusiasmo cada paisagem – todas elas de cortar a respiração.

E foi quando já de noite nos deixou à porta de casa, que pediu à nossa couchsurfer que nos tratasse com respeito e demonstrasse a hospitalidade do povo Quirguis. E ela assim o fez!

Tínhamos o estômago colado às costas e o corpo moído depois de 10 horas de viagem. Sonhávamos com comer, banho e cama. E mais ou menos assim foi! Quando das carpetes do chão da sala fizemos o nosso ninho, nem queríamos acreditar!

É que melhor que nos termos, e nos termos juntos pelo mundo fora; é tudo isto junto e um refúgio na alma. ❤

Foi só quando o sol nasceu e cresceu no céu que nos fizemos prontos num ápice. Queríamos chegar a Issyk Kul e mergulhar, e nadar e refazer todas as nossas reservas de vitamina D. Mas foi quando estávamos já de saída que percebemos que quem nos ia hospedar lá na noite anterior não poderia fazê-lo nesta. E ficámos sem chão! Deveríamos ir ou ficar? Acampar onde calhasse ou esperar até ao dia seguinte?

Somos feitos de decisões diárias, mas quando nos trocam os planos, trocam-nos tudo.
Aproveitando a disponibilidade da nossa couchsurfer, decidimos então meio à pressão ficar.

Decidimos aproveitar o dia em Bishkek, (re)planear a nossa estadia no Algarve Quirguis e seguir na manhã seguinte.

A verdade é que a nossa couchsurfer foi um poço de histórias na nossa história, e estávamos confortáveis na sua presença e hospitalidade. Tinha 21 anos e era já divorciada: uma força da natureza, avessa a tudo o que respeitava as tradições que haveria de ter cumprido. Casou por imposição familiar, com um homem que pode escolher. Mas foi depois de se mudar para casa dos sogros, como manda a “lei”, que viu os seus dias transformados num verdadeiro pesadelo: lava roupa, cozinha todas as refeições, lava loiça, limpa a casa, serve todos (…), enfim. Não se identificando com a situação e vida que se via obrigada a levar, venceu tudo e todos e deixou o marido. A sogra, convidou-a a sair, dizendo-lhe que ao contrário dela, o filho iria encontrar alguém decerto bem melhor. Hoje, trabalha para uma organização internacional de casas de acolhimento de crianças vítimas de maus tratos ou órfãs, e orgulha-se do seu percurso, muito embora a sociedade a descrimine e a faça querer, dia após dia, fugir do país que a viu crescer.

E seguimos para o centro da capital, onde passámos o dia. Visitámos os locais históricos, típicos e culturais, estatuas, parques, monumentos e, com fascínio, o Osh Bazar – antigo, imenso e tradutor dos costumes das gentes daquela terra. Da roupa, aos detergentes, produtos alimentares e até bricolage, era só caminhar e estava à vista de qualquer um. Feito de cores e aromas, de tom russo e muita confusão, e também malandros: foi lá, que pela primeira vez nesta viagem nos tentaram roubar, abrindo-nos a pequena mochila com que sempre andamos. Verdinhos, em vez de pela frente, vinha pendurada às costas, mesmo que a pedi-las. Vá lá que a reação foi rápida e o alarido instantâneo, não tendo dado para mais nada senão para abrir o fecho.

Também de volta a casa a aventura não foi menor: não sabíamos o número do autocarro ou das mashrutkas que iam na nossa direção, e a única coisa que tínhamos era o nome da mesquita do bairro, de afamada que era! Levámos 2 horas até entrarmos numa pequena van rumo a casa, depois de mil vezes perguntarmos a todos aqueles que por nós passavam se faziam ideia de como poderíamos chegar.

Mas, não finito o dia, tínhamos sido enganados: embora o condutor tenha dito que sim quando lhe perguntámos a direção, pudemos ver pelo GPS do telefone que estávamos cada vez mais longe e mais longe. Acabámos então por nos chegar à frente e perguntar o que se estava a passar, ao que nos respondeu calma e prontamente: “eu não estou a ir para a mesquita, eu vim de lá”. E riu-se.

Se há momentos tristes na vida, são aqueles em que nos sentimos enganados ou atraiçoados, seja em que contexto for. Momentos em que nos perguntamos mas porquê?

Ninguém quer saber de onde um autocarro vem, e sim para onde vai. Como é óbvio. Ainda tentámos pedir o dinheiro de volta, mas a única coisa que conseguimos foi chatear-nos. Mais.

Seguimos a pé. Era difícil agora acreditar em quem quer que fosse. Confiar. Ou sorrir.

Mas estávamos longe e a noite já se fazia escura. Acabámos por apanhar uma outra mashrutka, desta vez certeira. E quando o dia chegou ao fim, sabíamos que nada de grave nos tinha acontecido; ainda assim, jazia em nós um misto de emoções.

Cansados, nem a luz do sol nos acordou na manhã seguintr e deixámo-nos dormir até mais tarde. Eram pouco mais de 250 quilómetros até Cholponata em Issyk Kul, e acreditámos poder fazê-los com calma.

Embora com uma viagem atribulada (nem só de dias cor-de-rosa nos fazemos, e é no abraço da conciliação que nos sabemos mais fortes e sempre unidos), chegámos ao nosso destino ao cair do sol, depois de 3 boleias e algum tempo de espera entre elas. Pelo caminho, feito de pessoas de coração de ouro, conhecemos também três ciclistas franceses, o que nos deixou e deixa sempre entusiasmados – afinal, há mais por aí quem cumpra sonhos!

Já em Cholponata, depois de muito esforço para contactarmos quem nos iria hospedar, amigo de uma amiga couchsurfer, lá chegámos. E chegámos a um hostel! A zona, de tão turística e verdadeiramente comparável a qualquer passeio marítimo algarvio, atraiu-nos pela proximidade com a praia e pela música vinda de cada bar ou restaurante, num clima leve com cheiro a verão. E, por ser dono do hostel, instalou-nos num dos quartos livres.

Embora adoremos conhecer pessoas e adoremos envolver-nos na forma como vivem, este momento a dois foi tudo quanto precisávamos.

Palavras para quê?

Quando o sol nasceu, demos asas aos fatos de banho e passámos o dia na praia: rabiosques de molho e pés na areia! Do chapéu de chuva fizemos um chapéu de sol, e deixámo-nos deslumbrar por aquele lago doce e quente, rodeado de montanhas cobertas de neve.

E até ali, fomos presenteados com hábitos: ao invés da bola de berlim, vendem-se peixinhos assados espetados numa cana. Aos invés de gaivotas para pedalar, vêm-se escorregas infantis que terminam na água e fazem as delícias dos mais pequenos e até graúdos. Ao invés do homogéneo, tão depressa se vê alguém muçulmano coberto dos pés à cabeça como se vê senhoras em topless. Ou, melhor, senhoras cobertas a colocar gentilmente protetor a senhoras sem sutien. Um verdadeiro misto. E bronzeiam-se de pé, com as pernas e braços ligeiramente afastados e mãos voltadas para cima. E assim se vive a praia.

Feitas as nossas delícias, foi ao final do dia que partimos para Karakol. O plano não era obrigatório, e embora dar a volta ao lago implicasse mais de 400 quilómetros, havia a curiosidade de ver todas as outras paisagens.

Vimos o sol pôr-se enquanto pedimos boleia, e valeu a pena. Nos nossos corpos suados, restava o cheiro do protetor e no cabelo ficavam as ondas de banhos repetidos. E sentíamos que tínhamos todo o tempo do mundo em nós.

Até que depois de uma boleia com um senhor verdadeiramente castiço, nos levou uma carrinha com uma família muito animada, indo diretamente para a nossa direção!

Assim chegámos e fomos recebidos de braços abertos, por um couchsurfer e a sua família. Ali, encontrámos uma casa típica, com a sua casa de banho no exterior e a mais de 50 metros no quintal, com apenas um buraco por entre as tábuas de madeira que faziam o chão, e um buraco infinito, sem luz, com um cheiro hediondo. Típico! Tão típico que já nem estranhamos. Da lanterna fazemos a nossa melhor amiga, e pela noite a dentro já sabemos que não há espaço para “vontades”!

Mas foi antes de irmos dormir que tivemos direito a uma experiência única, e muito quente! Chamam-lhe sauna de forma traduzida, “banha” no seu contexto original, russo. Consiste em colocar muita lenha numa espécie de salamandra, com uma espécie de contentor de água por cima, com uma torneira. O espaço, de madeira, aquece exorbitantemente como se realmente de uma sauna se tratasse. E é ali que tomam banho, depois de suados. Misturam a água fervida com água fria, e é com a ajuda de um alguidar que se banham, e que nos banhámos também.

E não fosse a nossa pele quente depois de um dia de sol e praia, e a nossa barriga cheia do jantar, e teríamos usufruído mais e melhor do momento: inesquecível porém!

Na manhã seguinte voltámos a consciencializar-nos de que existe um grande desfaz amento entre o que as pessoas dizem, fazem e aquilo que entendemos. Não adianta dar nada como certo, nem mesmo o que nos explicam: depressa mudam tudo e não há nada que possamos fazer para entender. Restou-nos e resta-nos sempre sorrir e acenar, relativizar e aceitar. Na verdade, esta tudo bem para nós. E assim, ao invés de irmos com o nosso couchsurfer passear, fomos nós, os dois, conhecer a cidade e os seus recantos, durante a manhã.

Já de tarde, voltámos a carregar as mochilas e a fazer-nos ao caminho. Tínhamos por meta chegar de novo a Bishkek, onde seríamos hospedados por uma nova família. E assim o conseguimos, quase em contra relógio, mas com tudo muito bem cronometrado.
Apanhámos primeiro boleia de um jovem, por poucos quilómetros. A partir de Karakol mão existiam cidades, apenas paisagens, aldeias e praias. Turistas, nenhuns. Apenas paraíso. Logo depois, apanhou-nos uma família por mais de 300 quilómetros, quase até Bishkek. Foram várias horas juntos e até um mergulho pelo caminho. E só já perto da cidade, quando nos deixaram, é que apanhámos a terceira boleia do dia, com um senhor da Nigéria. Fluente em inglês, encantador e um verdadeiro cavalheiro. Médico no hospital público da cidade, partilhou o desgosto que tem por sofrer diariamente de racismo no país e confessou que só parou para nos levar por saber que éramos turistas. E só nos deixou quando nos entregou em mãos à nova família, que infelizmente e discretamente também o olhou de lado.

Família tradicional e convencional, embora com todos médicos, muito ligados às tradições a que já nos temos vindo a habituar. A esposa do nosso couchsurfer, ali a viver desde o casamento há mais de 2 anos, agia como verdadeira criada. Ainda assim, embora por vezes mesmo à nossa frente mal tratada, pode partilhar connosco os jantares. E em Bishkek pela segunda vez, aproveitámos para visitar o que nos havia faltado: o lado mais moderno e amado pelos locais: o centro comercial. Não que tivéssemos saudades, mas já fazia tempo que não víamos uma coisa assim!

E assim no dia seguinte partimos rumo ao Cazaquistão, o último país desta Ásia Central. Mas não sem antes refletirmos sobre algumas coisas que por lá vimos, como é o facto de no Quirguistão comerem cavalo como em Portugal se come vaca. Da mesma forma que nos Açores se vê prados fora repletos de vaquinhas, por lá viam-se cavalos, lindos e soltos, de crinas esvoaçantes. Custa, não custa? Pois é, a nós também nos custa que se comam porquinhos, galinhas ou outros animais. Mas parece-nos que ainda vamos ter muito que chorar Ásia fora.

Outra marca que em nós ficou foi a bebida típica: mais forte que vodka, é feita de leite de cavalo fermentado. Quem tem coragem de o beber, diz que é forte, bom e único. Quanto a nós, poderão imaginar.

E posta de parte esta cultura alimentícia, que explicam os entendidos ser fruto da vida nómada que levavam no país em tempos antigos, resta-nos partilhar que também foi com alguma apreensão que descobrimos que em tempos se raptavam as mulheres. Assim, aos homens já não caberia pagar por elas. E perdida a virgindade mais ninguém as queria, aceitando assim as raparigas ficar entregues a quem as havia raptado.

E muitas mais histórias decerto ficaram por aprender, descobrir ou partilhar. Há um infinito mundo por detrás de cada cultura, em cada país que atravessamos. Ainda assim, sabemo-nos sortudos por chegarmos tão perto e saborearmos tanto.

Chegámos então à fronteira que ditou o adeus a mais este cantinho, com apenas uma boleia e chuviscos para a despedida. E há já 5 meses que o fazemos, dia após dia: despedirmo-nos. Continua a custar, mas sabemos que é por um novo amanhã, sempre neste mundo que trazemos na mão.

2016-08-03 12.53.052016-08-03 12.52.232016-08-03 12.53.582016-08-04 00.49.422016-08-04 00.51.312016-08-04 00.57.522016-08-03 01.37.402016-08-04 00.54.532016-08-04 00.55.442016-08-04 00.56.362016-08-04 00.56.572016-08-04 00.53.562016-07-30 14.11.202016-08-04 00.53.07

aventuras Tajiques

O Tajiquistão sorriu-nos pelo imediato da nossa travessia, embora de início ainda a medo, não houve motivo para desalento.

O sol já se punha, lá no horizonte, por entre as montanhas áridas que faziam a nossa paisagem. Sabíamos que ali, e um pouco por todo o território Tajique, não devemos sair da rota principal: há minas antipessoais perdidas por tempos antigos.

Mas na fronteira, sem cuidados demais, quiseram apenas saber com que comida entrávamos no país e, uma vez mais, parabenizaram-nos pela chegada à final do campeonato da Europa, nunca sem antes pronunciar o nome do melhor do mundo!

Claro que 1 minuto depois de abandonarmos o edifício fronteiriço, tínhamos 30 taxistas em nosso redor. Falavam um por cima dos outros, na tentativa de nos levar, ou apenas de nos trocar dinheiro. Dólar, dólar – repetiram milhentas vezes. Mas o dinheiro, esse já tínhamos trocado do lado do Uzebequistão, e táxis não utilizamos. Portanto, agradecemos e seguimos.

Assim contado até parece um processo simples, mas a verdade é que é duro deixar estas pessoas para trás: nós vamos andando, e elas vêm andando atrás de nós! Mas mantemos a calma, vamos dizendo adeus e elas lá desistem…

Mais à frente, na nossa caminhada, parou um carro. Era um táxi e por isso recusámos de imediato, explicando que estávamos à boleia. O senhor mostrou-se generoso e disse-nos que ia para a próxima cidade, podendo levar-nos até lá.

Dushambe era exatamente para onde queríamos ir e onde tínhamos um couchsurfer à espera. E por isso aceitámos. Pelo caminho a conversa foi fluindo em russo (a mais recente aquisição) e, tendo-se o taxista mostrado disponível, demos-lhe o número do nosso amigo para que lhe ligasse, avisando-o de que estaríamos a chegar.

Correu tudo muito bem até ao destino, mas infelizmente fomos enganados: cobrou dinheiro ao nosso couchsurfer por nos ter levado e este até já sabia disso de antemão. Não houve nada que pudéssemos fazer, pois entre nós a combinação era outra. Mas foi infeliz em nós este começo. Até porque mais pessoas partilharam o táxi e portanto o desvio não foi nenhum.

Ficámos por Dushambe 4 noites: depois da corrida por entre os 5 dias de visto do Turquemenistão e os registos do Uzebequistão, sentimo-nos livres para parar e descansar.

Aproveitámos para dormir, cozinhar e passear, com a alegria de ver Portugal consagrar-se campeão europeu! Não estávamos por terras lusas para celebrar calorosamente, mas tínhamos um bar Tajique, ao ar livre e com uma imensa tela, cheio de gente. E uma bandeira portuguesa. E sofremos juntos, vibrámos juntos, celebrámos juntos!

Ao quinto dia, decidimos partir rumo a norte. Estivemos sempre indecisos sobre visitar ou não a famosa Pamir Highway, mas deixámo-nos levar pelo nosso instinto e optámos por cruzar o lado oposto do país. Sabemos que ficou assim por visitar um dos pontos mais afamados do país, visitado propositadamente por muitos turistas pelas suas paisagens desertas; mas sabíamos que à boleia poderíamos até ter de esperar muitas horas, ou dias, por um carro. E sabíamos igualmente que rumo a norte tínhamos também um mundo por descobrir!

Afastámo-nos da cidade com um transporte urbano e tínhamos por objetivo chegar a um dos mais famosos lagos do país, situado no cume de montanhas, por entre 40 graus na base e serras ainda nevadas no topo. Pretendíamos chegar e acampar. E por entre o calor que sentíamos, conseguíamos apenas sonhar com a ideia de montar a nossa tenda (pela primeira vez!!!) e de mergulhar no lago. De nadar, refrescar, ler um livro numa sombra e adormecer com o céu estrelado, por entre uma vista esplendorosa, de montanhas e água translúcida.

À saída da cidade e pouco antes de nós pormos à boleia, avistámos uma viajante. Pela sede de conhecer pessoas ou somente por curiosidade, depressão aproximámos. Chamava-se Lena e era Japonesa! Viajava à mais de 1 ano, mas já tinha voltado ao Japão por duas vezes: uma delas não programada, depois de ter partido uma perna no México! Viajava sempre sozinha, sem receios e de sorriso no rosto, depois de ter passado pela América do sul e central, Europa e África. De gargalhadas fáceis e sem rodeios, aceitou juntar-se a nós para ir visitar o lago, alterando assim o seu rumo.

Viajámos então a 3, à boleia! E não, não foi o fim do mundo; mas foi um trinta e um chegar ao nosso destino!

Demorámos várias horas até conseguirmos chegar perto das montanhas: fizemos pouco mais de 100 quilómetros em mais de 8 horas, por entre estradas aceitáveis, com um carro, dois camiões e um jipe. As boleias foram aparecendo e fomos desfrutando do caminho! Juntos.

Estamos muito habituados a viajar a dois, tanto que já nos sentimos por completo um só. Não há rodeios, não há omissões. Vivemos muito mais que juntos! Vivemos na plenitude de um casamento, mas um casamento nómada! Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, sem escapes.

Na verdadeira essência do amor.

Quem o conhece, sabe que nem só de dias felizes vive. Mas é mesmo nesses que se aprende a ser mais e melhor. E a ficar por perto.

Contudo, ter um terceiro elemento 24h por dia connosco foi um desafio muito interessante!

O último jipe a dar-nos boleia, trazia dentro 3 jovens, afortunados e generosos. Levaram-nos a lanchar/jantar fora e quando nos deixaram à entrada das montanhas, despediram-se calorosamente e convidaram-nos ainda a seguir com eles até Khujan – a cidade onde haveríamos de chegar dias depois. Chegámos até à hesitar pela boa energia que sentíamos todos juntos; mas o repouso no lago chamava por nós!

Estávamos então a 35 quilómetros do lago. Um pulinho mais, pensávamos nós!

Já não era cedo, mas mantínhamos a esperança de chegar ainda de dia.

Os minutos foram passando. As horas também. As nuvens no céu foram-se aproximando, chegando e tapando o sol. E caíram os primeiros pingos de chuva.

Não queríamos acreditar. E, principalmente, não queríamos acreditar quando vimos a luz do sol esmorecer.

Continuávamos exatamente no mesmo sítio, à entrada das montanhas. E por entre os poucos carros que iam passando, as pessoas iam-nos dizendo que não iam para lá. Que já era tarde. E começámos então a perceber que seria difícil adormecer ao som da natureza, com vista para o lago.

Começámos a olhar em redor a ver onde poderíamos vir a montar a tenda: mas não estávamos tristes! Pensámos apenas que chegaríamos no dia seguinte, no auge do sol e do calor (que a avaliar pelos dias anteriores, continuaria a ser de cortar a respiração), prontos para um merecido mergulho. E estávamos contentes, sabíamo-nos bem e felizes. E tínhamos connosco mantimentos suficientes para duas noites, o que nos deixava em tudo tranquilos no tempo.

Mas pouco tempo depois, parou um carro. Não ia para Iskandarkul, o lago, mas ia até meio caminho! Pior não ficávamos e mais perto ficávamos de certeza. E seguimos!

Percebemos à chegada, que embora a 15 quilómetros do destino, não iríamos chegar. A estrada, até lá, metia medo! Sem asfalto, pelas montanhas, curva atrás de contracurva, buracos atrás de buracos. Quase 1 hora de caminho para 20 quilómetros: uma loucura.

Escolhemos então o lugar para montar a tenda e vimos vários locais a observar-nos. Numa aldeia tão remota, por onde os turistas passam mas nunca param, parecíamos decerto extraterrestres. E evitando que sentissem que estávamos a abusar dos seus campos, optámos por uma vez mais perguntar se poderíamos montar a tenda ali. E uma vez mais também, e sem duvidas, convidaram-nos para suas casas!

A família era grande, muito grande, e em pouco mais de 30 minutos estávamos instalados e com um manjar a nossos pés: sentados por entre carpetes e de mesa posta no chão (como já nos habituámos), e sem mulheres em redor, mantendo-se as tradições pela Ásia Central fora: só os homens recebem e jantam com os convidados.

Dormimos os três juntinhos, por entre colchões asiáticos e lençóis, pelo chão a que as nossas costas já se habituaram; e foi com o nascer do sol e do céu azul que nos fizemos acordar e despachar. Tínhamos um longo e novo dia pela frente, quase quase a chegar ao lago. E deu ainda tempo para uma jogatana de futebol, por entre o campo de terra batida e os pés descalços.

Depois, não sabemos como, agora que tentamos recordar, mas a verdade é que passámos boa parte do dia à boleia. Lanchámos, almoçámos, rimos, conversámos; brincámos à apanhada com as crianças que aos poucos se iam juntado em nosso redor e esticámos os dedos sempre que um carro se aproximava. Deu também tempo para uma jogatana de futebol e uns golos de raspão!

De esperança fizemos o nosso dia, às tantas já pouco crentes! Até que um jovem aceitou levar-nos!

Voltámos a levar quase 45 minutos para fazer 10 quilómetros. A estrada mantinha-se sempre nas mesmas condições, mas cada vez mais a subir, sempre por entre curvas e montanhas acima.

E, inexplicavelmente, quase como se estivéssemos nos Açores!, o tempo não parecia mais o mesmo. Até mesmo quando começámos a avistar o lago e a descer, a humidade e o frio que se faziam sentir por entre montanhas, era inexplicável! Não nos lembrávamos sequer da última vez que tínhamos sentido frio ou necessidade de tirar uma camisola do fundo da mochila.

Chovia. Chovia bem, com pingos grossos! E os nossos narizes reclamavam por um quentinho.

Depressa percebemos que os sonhos que trazíamos de algibeira não eram os mais apropriados: o sol, o calor, a tenda à beira lago, o livro, os mergulhos… não eram para ali.

Palmilhámos uma pequena distância em torno do lago. Lindo, de verdade. Com uma paisagem soberba.

Não nos conseguimos fazer os 3 de vontades comuns, mas chegámos a acordo. Procurámos por um lugar para montar a tenda, abrigado e sossegado: e acabámos no jardim do vigia do lago, mas pouco satisfeitos.

Por um lado, queríamos muito ficar e pernoitar. Tínhamos levado dois dias a chegar ali, e não fazia sentido nenhum tocar e fugir. Por outro, sabíamos que o tempo estava pouco convidativo, que íamos ficar para na madrugada seguinte seguir. Decidimos então ficar atentos à estrada que nos tinha trazido: e se algum carro fosse na direção da estrada nacional, e nos quisesse dar boleia, aceitaríamos e dormiríamos lá, uma vez que pelo menos fora das montanhas a temperatura era quente e convidativa a um sono na rua.

Conhecemos pelo meio vários turistas a pernoitar no lago, e foi com eles que passámos grande parte do serão: temos tantas histórias e tantas aventuras no bolso, que tema de conversa não falta.

E já de noite, já depois de termos despejado as mochilas, puxado os sacos cama e as leggings de inverno para dormir, vimos luzes vindas do lago. E não é que iam não só na direção da estrada nacional, como até Khujand? Era um jipe, vinha cheio e trazia 3 pessoas.

Mas com jeitinho, coube também a nossa tralha e nós 3 lá dentro. E seguimos! E sabíamos que à nossa espera teríamos os amigos que tínhamos feito no dia anterior.

Pelo meio, com um valente enjoo e valentes vómitos: as curvas eram muitas e com jipe, a velocidade embora controlada, permitia muitos abanos.

Mas chegámos, já perto da 00h30, quase a Khujand. Deixaram-nos a 15 quilómetros, onde as estradas se dividiam e onde havia um posto da polícia. Ali, deveríamos apanhar um táxi para chegar até aos nossos amigos, a pedido destes tendo em conta a hora. Mas ali, ali não passavam táxis.

E ali, assistimos a uma das cenas mais deploráveis de sempre: os polícias, embriagados, mandavam parar todos os carros e camiões e carrinhas e carrinhos que passavam. E não pediam os documentos sequer – esticavam a mão para um aperto, e logo de seguida punham a mão ao bolso. Inicialmente nem percebíamos o que se estava a passar, mas pouco depois fez-se luz. Afinal, a corrupção não era um conto. Não era só mais uma história. E a verdade. E estava ali, à frente dos nosso olhos, a fazer-se acontecer.

Já em Dushambe, na capital, um polícia nos tinha abordado: primeiro com simpatia, depois informando-nos de que era o seu aniversario. E minutos depois, pedindo-nos dinheiro. Começou nos dólares, passou para os euros e terminou na moeda local. Recusámos tudo, dissemos não ter. Mas vivemos assim a nossa primeira experiência patética e lastimável.

Acabámos então em Khujan, depois dos nossos amigos nos terem ido buscar. E dormimos no restaurante de família de um deles: um restaurante afamado e com vários yurts como salas de jantar, onde nos instalámos e dormimos descansados.

Na manhã seguinte madrugámos: o sol era forte desde cedo, e se não fosse pela luz, era pelo calor. E seguimos para a cidade. Mais que tudo, precisávamos de um banho. Estávamos suados, cansados e sujos. E de mochilas às costas, lá fomos os 3. Tínhamos uma resposta positiva de um couchsurfing e só estávamos à espera de o conseguir encontrar.

A cidade pareceu-nos desde logo simpática, embora cheia de lixo nas ruas. E num dos parques perto do rio, encontrámos uma sombra para descansar.

Ali, tentámos por várias vezes contactar o nosso couchsurfer, mas sem sucesso. E deixámo-nos ficar. Tínhamos sempre a hipótese de voltar para o restaurante, mas sem dúvida que precisávamos de um banho.

E por entre a pausa e o descanso, reencontrámos o casal de viajantes russos, com quem estivemos juntos no Uzebequistão. Alegria! Num piscar de olhos, éramos já 5.

E embora a Lena tenha decido seguir para um hostel, decidimos os restantes seguir para o grande lago a 15 quilómetros da cidade, onde sabíamos que encontraríamos uma praia de água doce. Vimos o sol pôr-se e tomámos um longo banho, desfrutamos do tempo a passar, do calor e da companhia. E já mais à noite, quando nos preparávamos para montar a nossa tenda nas areias negras que se entranhavam nos nossos pés, veio o vigia da praia aconselhar-nos a pernoitar no terraço de sua casa.

Não queríamos ir, sonhávamos com a ideia de finalmente adormecer com o lago de fundo e as estrelas no céu. E de podermos acordar, mergulhar, com paz na alma e amor no coração.

Mas nada acontece por acaso, e se o vigia nos tinha oferecido o seu espaço como sendo mais seguro, só nos coube aceitar. Os viajantes russos decidiram pôr os seus colchões no chão e trancaram-se a dormir ao ar livre. Já nós, levámos mais uma horas: decidimos montar a tenda, por entre os mosquitos e as aranhas, as baratas e os bichos que não se sabe.

E na manhã seguinte, foi um instante até nos enfiarmos de novo dentro de água. Levámos connosco uma melancia e assim tomámos o nosso pequeno-almoço, frescos e saborosos.

À tarde, seguimos para Khujand. Deixámos as malas de novo no restaurante e passeámos pela cidade! Com um calor de brandar aos céus, de derreter mesmo à sombra. Só à noite, nos sentimos melhor, já de volta ao nosso yurt, onde voltámos a descansar e dormir.

Sem rumo certo ou destino obrigatório, partimos na manhã seguinte para Isfara – uma cidade fronteiriça com o Quirguistão, o país seguinte. Até lá, apanhámos uma boleia direta, que nos deixou no centro da cidade. Lá, não tínhamos novamente couchsurfing nem ninguém à nossa espera. Estávamos perdidos por entre o nosso tempo, e cansados também.

Muitas noites seguidas com rumo incerto. Muitas noites seguidas sem chuveiro, sem chuveiro ou almofada. Sem teto ou eletricidade. Sempre com a mão doce de alguém que nos quis ajudar, mas sem certezas de nada.

Ou certezas de tudo: a de que nos tínhamos um ao outro. Só.

E, por uma noite mais, acabámos hospedados. Era velhote, conhecemo-nos por entre as ruas da cidade e ajudou-nos a guardar as mochilas durante a tarde. Ao final do dia, enquanto procurávamos um local para montar a tenda, ofereceu-se para nos hospedar. A casa, também velhota, estava em remodelações: e no quarto já novo, lavámos o chão, montámos uma cama de ferro, a rede mosquiteira e esperámos pela noite cair. Aquecemos juntos água para o banho, com uma fogueira e, sozinho, cozinhou uma maravilha vegetariana, uma salada e abriu um melão.

Tinha sido um dia difícil. Um final de tarde duro. O cansaço talvez já fosse mais psicológico que físico. Mas com gentes improváveis se travam amizades. Gentes que mais que tudo, são de bem. Dão o que podem, o que têm. E que nos mostram que, no fim, acaba sempre tudo bem.

Pela manhã, com escadote de madeira, apanhámos as ameixas maduras lá do alto. E numa caixa feita de garrafa de óleo, acondicionámos as que seguiriam connosco: estávamos pois de partida para o Quirguistão.

Conseguimos uma boleia até à fronteira, depois de uma caminhada pelo centro, onde nos conseguimos desfazer das últimas notas da moeda local e onde nos abastecemos de água potável – e sentimos tantas saudades de abrir uma torneira e de nos podermos lambuzar à vontade em água!

A zona fronteiriça percorremo-la a pé e sem problemas: o caminho não era assim tão longo e o edifício feito de contentores metálicos azuis, onde a única coisa que fizeram foi carimbar os nossos passaportes e, sem poder deixar de ser, sorrir pelo Ronaldo.

Foi assim num piscar de olhos que vivemos a vida no Tajiquistão: onde os olhos não são em bico mas as tradições são já asiáticas; onde o calor é muito e a água não é potável; onde há desperdício de água em cada rua e lixo espalhado em cada esquina; onde as vestes se caraterizaram por vestidos coloridos até ao joelho, com calças do mesmo tecido por baixo, e ainda meias com sandálias ou chinelos! Um país barato, com uma capital encantadora e com natureza infinita. E, como em cada parte do mundo, com gente de coração de ouro (bem mais reluzente que os dentes a que já nos habituámos!).

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