linda Tailândia

Vindos do Laos, no êxtase da chegada à Tailândia, desejávamos o cruzar da fronteira tão depressa quanto possível! O Laos, na sua essência, tinha sim sido uma verdadeira caixinha de surpresas: pelas pessoas, pelas paisagens, pela vida. E também pelas estradas e boleias. Não que não estivéssemos à espera; mas o sobe e desce das montanhas, as curvas e contracurvas… faziam-nos desejar por fim algum descanso!

16 de novembro de 2016: preenchemos os papéis no limite do tempo, enchemos as garrafas de água num dispensador potável, recolhemos os passaportes, trocámos o lado da estrada e seguimos. Estávamos cansados do que já havíamos caminhado até ali, mas caminhámos alguns metros. Queríamos alcançar uma estrada mais à frente, mais movimentada; mas o carro preto que vimos parado na fronteira não nos deu tempo. Era uma jovem, vestida de preto e muito, muito sorridente. Esticou-nos o telefone: era um amigo para traduzir. Queria dar-nos boleia por ir exatamente para a mesma cidade que nós, Nam. Nem queríamos acreditar, não tínhamos sequer chegado a pedir boleia. Trazíamos só a placa com o nome na mão, com o objetivo de a esticar depois.

Foram várias horas. Seguimos juntos, sem que conseguíssemos conversar. A barreira linguística era grande. Mas sempre com o suporte do amigo tradutor, via telefone, fomos conseguindo conhecer-nos. Eram ambos professores – daí vestida de preto – e a sede de nos ajudar foi maior que qualquer vergonha.

Em Nam ficámos uma noite, com um grupo de professoras de inglês vindas dos Estados Unidos. Uma casa grande, de madeira, numa cidade que dizem ser lindíssima. Mas a nós faltaram-nos as forças para a visitar. O cansaço era extremo, e ainda cedo a cama chamou por nós. O corpo dorido, as horas de sono em atraso. E descansámos por quase 12 horas sem que dessemos por elas.

Mas na manhã seguinte, depois de um batido de banana e manga e umas torradas (as saudades que trazemos de pequenos-almoços ocidentais caseiros fazem-nos ser felizes sempre que os temos!), e depois de pintada a nova placa, estávamos prontos para seguir novamente.

Não sem antes à casa onde estávamos ter chegado uma nova couchsurfer, com quem acabámos por trocar muitas e bonitas histórias de viagem e com quem fomos também ao mercado mais próximo comprar bananas para o caminho!

Desta, rumo a Lampang, seguimos com um casal. Demorou pouco, muito pouco, até que conseguíssemos uma boleia direta. Era uma carrinha de mercadorias, e fomos nós dois, lá atrás, com a porta semiaberta e ao sabor do vento. À chegada, deixaram-nos exatamente onde precisávamos e foi com selfies que nos despedimos.

Em Lampang ficámos com um couchsurfer do Azerbaijão. Com ar de iraniano, e também de turco, tinha uma festa marcada para a noite e por isso deixou-nos completamente à vontade naquela que é a sua casa, num condomínio fechado e um tanto ou quanto afastado de toda a cidade. Antes de sair, indicou-nos aquele que seria o único restaurante da zona e, depois de termos só tomado o pequeno-almoço já cedo, agradecemos sobre onde ir procurar jantar. Não gostamos de recorrer a restaurantes, mesmo que se tratem de tascas locais ou street food, mas não nos restava opção. Nem água tínhamos. Tomámos um duche e saímos. Mas, embora não fosse tarde, quando lá chegámos, estava fechado.

Não havia, portanto, onde encontrar comida ou água nas redondezas.

Tudo fechado. Um silêncio absoluto.

Restavam-nos então duas opções: ir dormir, assim mesmo, ou ir bater à porta das pessoas, mostrando a fotografia de uma garrafa de água e comida. E nestas situações não há, nem pode haver, vergonha. Não há, nem pode haver, constrangimentos. É ir e pronto.

E o mais engraçado desta aventura foi que nos bastou bater à primeira porta. Não perceberam de imediato o que procurávamos, mas começámos por perguntar onde encontrar o que lhes mostrávamos nas fotografias. Depois então de, por gestos!, dizerem que em lado nenhum conseguiríamos comprar água ou comida, apressaram-se a ir à cozinha. Preparam noodles, uma garrafa de água, umas bolachas e um sumo. E não aceitaram dinheiro. Só sorrisos.

A generosidade humana não tem limites. E temos vindo a experienciá-lo das mais diversas formas. E das mais bonitas também!

Juntos.

Dormimos depois descansados, mesmo que com os nossos colchões de meio metro no chão e a nossa rede mosquiteira presa por entre fios espalhados e seguros num varão do cortinado.

Ainda ensonados, na manhã seguinte saímos cedo, rumo a Chiang Mai – a cidade dos templos. Não estava longe e foi fácil de lá chegar com uma só boleia. Numa pick-up, a família convidou-nos a ir lá dentro! A comunicação, rudimentar à falta do inglês, fez-se mais por olhares e gestos que por palavras. E à chegada, no culminar da nossa gratidão, ligaram ao nosso couchsurfer, que acabou por nos encontrar na bomba de gasolina onde nos deixaram.

Não esperámos assim tanto, ainda que estivéssemos estado o tempo todo na dúvida da nossa combinação. Até que então apareceu, com os seus óculos redondos, já de uma certa idade, calça vincada e a falar inglês – o nosso couchsurfer. Com uma simpatia desmedida, estava com muita pena por não nos poder hospedar em sua casa, pois tinha também lá dois hóspedes vindos através do Airbnb (uma plataforma para aluguer de quartos ou casas, de curtas ou longas estadias).

Contudo, nada atrapalhado, foi em casa da sua mãe que nos recebeu e alojou. Já vazia de gente, mas ainda equipada, instalou-nos e deixou-nos à vontade, com chaves na mão e total liberdade, naquela que foi a nossa casa por três dias e duas noites. Mas com um pequeno detalhe, comum na zona: não havia cozinha.

Na Ásia a street food tem um impacto e uma procura tão grande que há quem simplesmente não cozinhe. Não encontram vantagens e vivem felizes assim, chegando até por vezes a confessar-nos que acreditam sair mais barato.

(In)Felizmente, olhando para nós dois, é incompatível viver sem uma cozinha! Desta forma, só nos ocorreu começar a pensar em como é que nos haveríamos de desenrascar. Procurámos então pelo mercado ou supermercado mais próximo e foi lá que percebemos haver sempre ao final do dia comida feita, legumes e frutas em promoção. E quando dizemos promoção, é mesmo das valentes, a ponto de termos conseguido uma embalagem de arroz cozido por 1,50BAT (0,03€) ou um quilo de mangas por 1BAT (0,02€)! E por entre as promoções diárias havia de tudo! Noodles, legumes, pão, biscoitos… enfim, à dimensão da imaginação. Com o único (e enorme) problema associado ao desperdício de plástico e embalagens, tão famoso pela Tailândia.

E foi enquanto andávamos perdidos pela escolhas que fazíamos, que conhecemos um casal, ela russa e ele bielorusso, também eles viajantes à boleia. Conversa puxa conversa e, estávamos já sentados numa mesa do centro comercial a petiscar parte do que havíamos comprado, percebemos que era na tenda que estavam a pernoitar.

Sem problemas em dividir a enorme cama que tínhamos, tentámos perceber junto do nosso couchsurfer se haveria a hipótese de hospedá-los também. E tal como imaginávamos, acabámos a partilhar tudo quanto tínhamos. O mais importante, histórias e aprendizagens!

Descobrimos então a cidade juntos, as promoções de final do dia juntos também e tudo o que mais fizemos. Até mesmo quando procurámos um hospital para fazer análises de rotina, o fizemos juntos! E foi com eles que aprendemos algo que agora trazemos connosco:

— de forma a gerarem algum dinheiro em viagem, imprimiram algumas das fotografias que foram tirando pelo caminho e, em tempos mais mortos pelas cidades por onde passam, vendem as mesmas: as pessoas escolhem e levam a que mais gostam e deixam um donativo do valor que entenderem.

Posto isto, da ideia deles fizemos a nossa e guardamo-la em nós! E na pior das hipóteses, ficaríamos apenas com lindas fotografias do nosso caminho já impressas; com a certeza de que não mudaríamos, nem mudaremos, em nada o nosso modo de viajar com dinheiro extra. Mas certo é que com os voos que temos para comprar, é sempre uma grande e boa ajuda! E o mais bonito desta ideia, é que a cada pessoa é dada a possibilidade de nos dar o que puder por querer apoiar esta nossa caminhada.

E depois de por Chiang Mai nos deixarmos apaixonar por cada templo budista banhado a ouro, de sermos seduzidos pelo mercado local e tão turístico e fascinados por cada balão de papel, partimos para Bangkok.

A viagem era longa, muitos quilómetros e um longo desafio – mais que por nós aceite.

E fica tão mais fácil quando o coração bate forte. Pela aventura. E por nós! No conforto que é saber que somos um (só).

Posto isto, conseguimos então a primeira boleia, enquanto caminhávamos debaixo de sol, com um novo chapéu de palha lilás que encontrámos perdido. Era uma senhora, numa pick-up, excitada e entusiasmada para nos ajudar. Queria por força convencer-nos a apanhar um comboio para Bangkok, daqueles que para os locais são gratuitos e levam horas infinitas. Mas como falava sem se atrapalhar inglês, conseguimos explicar-lhe este sonho que trazemos.

E encantada com a ideia, acabou por nos levar mais à frente, naquele que seria o nosso caminho.

Lá, voltamos a ter que caminhar. Mas desta, com fé no caminho! Os nossos corações, fortes num corpo já mais fraco, sabiam que dali sairia uma boleia até Lampang. De lá seria já mais fácil descer no sentido de Bangkok. Com sorte, seria até uma boleia direta.

E assim foi!

Um jovem, com tanto de envergonhado como de extrovertido. Simples. Simpático. Queria muito praticar o seu inglês recém-aprendido e viu em nós a oportunidade perfeita. Desta, o caminho foi de pouco mais que uma hora, mas feito de curtos e longos diálogos, profundas partilhas e muitas histórias.

Quando nos despedimos, em Lampang, a tal cidade, ficámos numa estação de serviço. A única da zona, localizada na estrada principal rumo a sul. Então foi ali mesmo que largámos as mochilas, que almoçámos (o que havíamos trazido do Tesco da noite anterior – os belos petiscos vegetarianos, com sabores locais caraterísticos e tão especiais) e que nos deixámos ficar, de placa de cartão erguida e cheios de esperança.

E é nestes momentos que ter fé é importante; porque mesmo que corra tudo ao contrário, sabemo-nos a sorrir na imensidão das nossas crenças!

E amor. Muito amor.

Era um carro vermelho. Pequenino. Modesto. Encostou. Fez marcha atrás. E parou junto a nós. Era um pai. E um filho. E por entre tantos outros que vimos passar, iam para a capital tailandesa, tal como nós! Demoraram mais que muitos a esboçar sorrisos, mas sempre muito educados e prestáveis, fizeram das quase 8 horas de caminho um momento muito tranquilo. As estradas boas também ajudaram. E no fim, já de noite, ao contrário do que esperávamos, alteraram ligeiramente a sua rota e deixaram-nos à porta de casa – o que foi um alívio para nós, tendo em conta o tardio do tempo, a imensidão da cidade e o cansaço que trazíamos.

Em casa, esperavam-nos dois amigos de amigos, chineses, a trabalhar em Bangkok. Foi um pedido de ultima da hora feito a amigos que temos pela Ásia, depois de percebermos que embora com muitos conhecidos por perto e um couchsurfing apalavrado, naquela noite ninguém nos poderia hospedar. Mas foi ali que fomos muito bem recebidos, com sorrisos no rosto e na alma. O serão fez-se então de partilhas e até algum mandarim já quase esquecido; e a noite fez-se no sofá, no descanso da ausência de mosquitos, numa metrópole tão imensa.

Na manhã seguinte, depois de partilhado um pequeno-almoço daqueles que tão bem conhecemos, conseguimos uma boleia da casa até perto do condômino da nossa couchsurfer. Local, jovem e, contrariando as tendências locais e a cultura do seu país, a viver com o seu namorado da Lituânia. A Smuk. Sorridente, com uma energia infinita, em êxtase por nos receber como primeiros surfers, deixou-nos à vontade e fez da nossa estadia, uma passagem muito simpática. Das 2 noites que partilhámos juntos, cozinhámos, rimos, nadámos, conversámos, sorrimos, vivemos. Fomos, no sentido do quão bom é ser. Ser. Saber ser, saber estar. Saber conviver.
E deixámo-nos lá deslumbrar pela vida que é Bangkok. Um outro mundo, não à parte, mas muito diferente daquilo que é o Sudeste Asiático. Pela piscina soberba no topo do vigésimo terceiro andar do condomínio onde dormimos. Pela multiculturalidade das ruas. Pelo comércio. Pelos transportes. Pela grandeza. Pelos mercados. Por tudo. E chegámos ao fim com a certeza de que outros três dias não seriam também suficientes para tudo quanto queríamos ter ali vivido.

E foi também em Bangkok que, pela primeira vez, experimentámos “vender” as nossas fotografias. Mas sem sucesso. Foram poucos os curiosos e nenhuns os generosos; o que em nós não teve grande impacto. Se por um lado nos entristeceu a experiência, por outro não era nada que não estivéssemos à espera. E por isso, sem rancor ou vergonha, guardámos aquelas que são joias de recordações de uma vida bem vivida, e seguimos.

Seguimos para perto de Prachuap Khirikhan, uma pequena aldeia, ou cidade, distante de tudo e de todos, rodeada de verde vivo. Até lá, chegámos com três boleias, duas pick-up e um camião. Todos especiais, mas o último com um grande constrangimento. Nem sempre nos damos a conhecer ao primeiro minuto, e nem sempre é fácil lidar com a generosidade daqueles que nos rodeiam – o senhor, camionista, numa das suas breves paragens, fez questão de nos comprar comida, mas não foi uma comida qualquer. Foram dois hambúrgueres. De vaca: aquilo que aos olhos de todos é um animal, inocente, morto. (Mas nem todos querem ver.) Deparámo-nos assim com um momento embaraçoso já que nem em última instancia queremos magoar alguém. Mas, se há quem diga que para um coração generoso, coração e meio, a verdade é que mesmo separados por uma barreira linguística, nos conseguimos explicar e fazer entender.

Em Prachuap ficámos uma noite. Era professora e mãe solteira, a nossa couchsurfer. Doce, empática e meiga. Preparou-nos o quarto, ligou o ar condicionado, deu-nos a chave, e saiu. A dar aulas numa pequena aldeia distante, utilizava aquela que era a sua casa apenas aos fins-de-semana ou quando hospedava alguém – que era o caso, mas ainda assim não conseguia lá ficar.

Um anjo na terra, não é? Se aprofundarmos isto em nós, chegamos sempre à conclusão de que somos abençoados. E que não temos alternativa senão ser gratos! Ora, quem é que inserido na nossa cultura iria fazer quilómetros para abrir as portas de sua casa e deixar dois estranhos lá dentro, mesmo na nossa ausência? Sem sequer ter tempo efetivo para os conhecer? Não sabemos.

Mas sabemos que é na generosidade dos que nos rodeiam que os nossos sonhos vivem.

E foi então na tranquilidade da noite, mesmo que com algumas baratas à mistura e muitos mosquitos do lado de fora da nossa rede mosquiteira, que demos asas a cada sonho nosso, abraçados naquele que é o nosso ninho em cada cama que fazemos.

E na manhã seguinte, ainda o sol subia lentamente sobre a linha do horizonte, já nós estávamos quase prontos para partir. A viagem ia ser longa, mas o destino prometia: Ilha de Koh Samui!

Chave escondida, conforme combinado, e seguimos com vontade de chegar. E chegámos, depois de longas e variadas boleias, onde quase nos imaginámos a morrer na praia. Foram 5 os diferentes carros, que pouco a pouco, nos ajudaram a lá chegar. E um ferry. E por entre todos esses carros, todas essas boleias, vivemos histórias muito diferentes. Um camionista, amoroso, depois de insistir para nos levar mais longe, já fora da sua rota, e depois de nós insistirmos de volta para que não o fizesse, encheu-nos um saco de mangas e fez questão que o levássemos. Apanhámos também uma pequena boleia de uma jovem, que trazia no banco pendura um transexual. De lábios azuis, unhas coloridas e sorriso no rosto, estava ali para ajudar a traduzir aquilo que dizíamos por falar muito bem inglês. E por entre toda a ajuda, ofereceu-nos também a sua casa na Austrália. Corações sem limite! E por fim, já quando nos vimos perto do porto, mas não o suficiente para caminharmos, foi um senhor, já velhinho, a quem no principio achámos que não conseguiríamos entender, que nos levou até ao ferry. E foi “ferry” a palavra que nos uniu, por ser a mesma nas nossas línguas!

Já no porto, conseguimos apanhar o mais bonito dos barcos: aquele que nos permitiu comtemplar o pôr-do-sol em plena travessia. Mágico, deu tons de rosa ao céu. E laranjas. Até que nele nasceram as estrelas. E a lua. E assim chegámos a Koh Samui, uma ilha grande, abençoada por praias de areia branca e águas quentes e transparentes. E foi ali mesmo, ainda no porto, que apanhámos a última boleia do dia, com um casal que nos deixou à porta de casa. Não sem antes nos avisar de que na ilha havia uma grande máfia: a máfia dos taxistas, que por maldade tendem a vandalizar os carros que vêem dar boleia ou “roubar” clientes. Mas já habituados a esquemas andamos sempre nós, pelo que agradecemos o conselho e sorrimos, ansiosos por ver no que o futuro nos reservaria.

Uma casa. Numa espécie de quinta sem animais. Por entre outras casas. E um silêncio absoluto. Um casal da Rússia. Dois couchsurfers. E dois colchões no chão. Uma rede mosquiteira por entre fios cruzados no ar. E calor. Mosquitos. Uma extra-aranha gigantérrima e veloz. E cozinhados. Batidos. E mergulhos. Praia. 3 noites e 6 boleias a passeio. E paz.

Guardámos tudo isto que vivemos, e chegou o dia de seguir. Como sempre chega!

Mesmo com uma boleia direta desde a vila onde estavámos, até ao porto, o ferry que apanhámos de volta foi já fora de horas. Mas não conseguimos despachar-nos antes. Ainda assim, já no continente, os deuses das boleias foram-nos fieis e o destino não estava longe. Fizemo-nos à estrada, de placa erguida e mochilas às costas. E conseguimos, com 2 boleias de gente boa, chegar a Nakhon Si Thammarat, cada vez mais a sul.

Lá, no centro comercial da cidade, esperámos a nossa couchsurfer e logo depois a sua prima, para que esta nos desse boleia até casa. Longe, numa aldeia pequenina, muito pequenina e remota, encontrámos a sua casa e a sua família. E lá nos receberam, de alma aberta, atentos a cada passo, disponíveis em cada olhar. No chão fizemos a cama, nas cadeiras prendemos a rede. E mais um ninho se instalava até que o sol raiasse. Mas antes, muito antes, cantaram as galinhas e os galos, e o sono de profundo a leve passou. Ainda assim, fizemos da manhã descanso e recuperámos energias, até que a nós se juntou um novo casal de viajantes australianos.

Com eles, e com a nossa couchsurfer, andámos à boleia de uma mota com atrelado e visitámos a cidade próxima. Templos budistas, mercados locais e até um café europeu. E ao final do dia, despedimo-nos por entre abraços e conhecemos o nosso novo couchsurfer.

Um jovem, acompanhado pela sua esposa, sobrinha e filho. A viver na cidade, considerámos a nosso favor a mudança tendo em conta que no dia seguinte teríamos de estar mais perto da estrada nacional, aquela que nos levaria mais a sul. Assim, foi com todos eles que jantámos (por sua insistência, num restaurante Malaio, onde as opções vegetarianas eram poucas, mas onde estavam felizes) e foi perto deles que dormimos! Pela primeira vez nesta viagem, hospedados numa oficina de carros no rés-do-chão de onde viviam, fizemos do sofá da sala de espera uma cama e da casa de banho uma banheira. E que bem que ficámos!

Pela manhã, muito cedo, ouvimos os portões abrir e a vida lá for a começar. Depressa nos apressámos e num ápice estávamos prontos. Dali, fez a família questão de nos levar a tomar o pequeno-almoço a um restaurante chinês e vegetariano, onde logo pela manhã os pratos servidos são um verdadeiro almoço ou jantar, com a agravante de que tudo é uma imitação de peixe ou carne. E, sem que pudéssemos esperar, ofereceram-nos também uma verdadeira marmita para que pelo caminho estivéssemos munidos, e levaram-nos até à bomba de gasolina da estrada principal na direção sul, com destino a Hat Yai.

Ali pousámos as mochilas e escolhemos uma sombra. Tínhamos sono, muito sono! Muita vontade de adormecer pelo caminho e pouca força para estar ali, de pé, a mostrar o pedaço de cartão onde escrevemos o nome da cidade. Mas não tínhamos outra hipótese, até que parasse o primeiro carro.

Nos entretantos, vieram os locais, as pessoas das redondezas, de telefone em punho, com alguém do lado de lá para traduzir: “Aqui não há carros a ir para Hat Yai. É longe.” “Grátis? Isso não existe aqui!” “Têm de ir para o centro da cidade e apanhar um autocarro ou um táxi.”. Mas esta conversa já nós conhecemos. De cor. Porque para os locais, nunca dá para andar à boleia. Nunca há carros a ir na nossa direção. Nunca. Mas depois, na ponta da língua temos pronta a nossa salvação: “Nós temos tempo, queremos esperar”. E assim se despedem, ora a rir em ar de troça, ora a sorrir com esperança e compaixão. E não, não adianta contar que viemos de Portugal até aqui à boleia, porque não há quem entenda. Embora às vezes tentemos essa sorte!

Até que então parou um carro. Abriu as janelas. E lá dentro vimos dois cavalheiros, que se apressaram a dizer-nos que iam para a mesma cidade. E fomos juntos, por entre paisagens magníficas e sonos profundos.

Em Hat Yai, já perto da fronteira com a Malásia, deixaram-nos num grande centro comercial, deslocado da cidade, perto da casa do nosso novo couchsurfer. Mas era cedo, tão cedo que nem nós próprios queríamos acreditar que já tínhamos estado à boleia, feito tantos quilómetros e chegado. Eram 13 horas. Decidimos então entrar: sem tão poucos nos lembrarmos que devido à instabilidade do país na zona em questão, as revistas são obrigatórias em qualquer lugar. Assim, toca de abrir as mochilas todas, embora sem grande vontade de as desarrumar. E uma vez dentro do centro comercial, procurámos a zona de refeições e foi lá que nos deixámos estar por várias horas.

Acabámos depois por conseguir que no balcão de informações nos guardassem as mochilas para que conseguíssemos dar uma volta pelas redondezas, mas por pouco tempo. Depressa chegou a hora de nos encontrarmos com o nosso couchsurfer e de juntos seguirmos para sua casa.

Uma casa de família, grande, bonita e cheia de gente (que na sua maioria falava chinês). Dois cães, primos, sobrinhos, pais, irmãos, babysitter e amigos dos mais pequenos. Todos juntos. Uma grande cozinha e, embora com poucos quartos, em cada um havia grande camas de casal, várias. E foi num deles que partilhámos uma com o nosso couchsurfer e mais espaço havia.

Ele era jovem, de origem chinesa, nascido na Malásia e pouco conversador, mas recebeu-nos de braços abertos e também ali degustámos diferentes iguarias, com a especial e habitual presença do arroz – a todas as refeições.

E na manhã seguinte, ao raiar do sol, seguiu-se a chuva. Intensa e forte, com pingos grossos, daqueles que molham: e juntos faziam um ruído monocórdico e impossível de ignorar. A cama chamou então por nós por mais uma hora, mas havia em nós o sentimento impaciente do que se avizinhava: a Malásia. Já ali ao lado, distante por tão pouco.

Despachámo-nos então e quando prontos um dos membros da família ofereceu-se para nos ajudar com uma curta boleia até à estrada onde tínhamos de pedir boleia. Pelo caminho, atrapalhados entre capas da chuva e mochilas, conseguimos escrever uma placa e foi com ela que conseguimos a boleia seguinte.

Demorou até chegar, não falava inglês, mas quis de coração ajudar-nos. Era já mais velhote e tinha um jipe. Não conseguimos perceber exatamente para onde ia, mas deu-nos a alegria de nos deixar exatamente na fronteira. E era cedo, estava tudo a correr bem, apesar da chuva, tinha tudo para dar certo.

Caminhámos de cabeça erguida, curiosos. E de mão dada, juntos.

Carimbámos o passaporte e seguimos por caminhos da terra de ninguém, até à próxima fronteira.

Da Tailândia, guardamos muita coisa. Mas o mais bonito de tudo, são as pessoas que trazemos. Os momentos que vivemos. As amizades que fizemos. Aqueles que fomos. O que sentimos. O que agora somos. E somos muito mais, por toda a generosidade, por todos os sorrisos, por todos os abraços, por todos os olhares, todas as chegadas e todas as partidas, todas as despedidas. Pelos mergulhos, pelas paisagens, pelos pôr do sol, pelas ruas, pelos mercados, pelos templos, pelas culturas, pelas comidas. No fundo, por tudo.

Porque nós somos feitos de tudo o que absorvemos e nos envolve.

Somos feitos do mundo!

E de amor também.

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Foi o Cambodja.

De sorriso fácil.

De essência simples. Genuíno. Doce. E simpático. De olhos de amêndoa. Pele escura. Sorriso no rosto. De boas gentes. De um verde infinito. De sabores. De cheiros. De calma e euforia, num misto. De história. De crenças. De budistas. De frutas tropicais. De flores. De aromas. De tuk tuks. De Khmers.

É o Cambodja.

(E adiantamos já que nos rendemos ao seu encanto.)

Chegámos a Phnom Penh, vindos de Ho Chi Minh, no Vietname. Na fronteira, mesmo com a chuva intensa que se fazia sentir, foi de boa vontade que nos receberam e a ajudaram a tratar do visto. Mas burocracias à parte, sentimo-nos em casa!

Descansados, seguimos. Seguimos a pé e sempre à boleia, até apanharmos a nossa primeira boleia, de um autocarro turístico. A zona, fronteiriça, embora pobre e pouco cuidada, ostentava em seu redor uma vasta panóplia de casinos – já velhos e pouco cuidados, mas aparentemente a funcionar!

No autocarro que nos levou seguiam pouco mais de 10 passageiros, vindos das Filipinas e com um inglês fluente. E muito embora não tenhamos partilhado o nosso tempo, tivemos a infelicidade de assistir a um atropelamento, que deu azo a conversação, de um senhor numa mota, e fuga. Ficou estendido e inconsciente. E nós alarmados. Mas segundo consta, não foi fuga, nem abandono, nem nada: foi o normal. Ups, bateu. Seguiu.

Continuámos viagem e chegámos a Phnom Penh já o sol se tinha posto. No autocarro, quem lá seguia deixou para trás várias embalagens ainda fechadas de comida, sandes ou folhados, ou coisas do género, que embora tivessem carne, recolhemos e entregámos a quem vimos a necessitado. Uma tristeza, este capitalismo exacerbado e o desperdício de comida a que assistimos diariamente.

Na cidade esperámos pelo couchsurfer com quem ficámos por duas noites: duas noites calmas, no encanto e no sossego desta nova cidade, duas noites de descobertas e muitas partilhas.

É tão bom ficar com um local, deixar que as tradições e o que são se nos entranhe na pele e no coração.

Loucos com a quantidade de tuk tuks por cada rua, visitámos a cidade, por entre sorrisos e o Khmer que íamos apreendendo com cada condutor que entusiasmado perguntava “do you want tuk tuk with me?”.

E com tudo em dólares, seja no mercado ou lojas, com esquecimento sobre os rials (moeda oficial), mandam preços para o ar de forma convidativa, sem noção do que queremos, esperando que queiramos o que todos os turistas querem!

Muitos templos, muitas pagodas, muito sol, muitos mercados, muitos monges, muitos turistas. Muita fruta, muitos legumes frescos. E muita coisa gira para ver. E fazer!

Muita história gravada na pele de todos aqueles que fomos conhecendo, nomeadamente nos templos que fomos visitando. Sentimos muita pobreza e encontrámos várias crianças/famílias sem abrigo, muitas delas a viver onde se reza e a ser educadas e instruídas por monges. Habituadas a pedir a todos aqueles que lhes pareçam estrangeiros, o contacto torna-se superficial e até mesmo estranho. Às crianças, fogem-lhes por entre os dedos as brincadeiras de rua, estendendo as mãos para pedir uma esmola sempre que a imaginam.

Já na última noite, fomos nós ajudados. Sem que pudéssemos prever (mas podendo imaginar), molhou-nos a chuva batida a vento e o cheiro a terra molhada, por ruas estreitinhas e ratinhos a passear. Mas foi aqui mesmo, nesta aventura, que uma mãe e o seu filhote de olhos em bico nos ofereceu um chapéu de chuva amarelinho – o nosso melhor amigo neste Sudeste Asiático, percebemo-lo então.

Na manhã seguinte, seguimos para o aeroporto. E não, não foi para voar! Lá, esperámos uma amiga de Portugal, a Iolinda, como lhe costumamos chamar. A aterrar vinda de Lisboa, ou das trinta mil escalas que fez!, e a caminho de Kampot: o nosso destino seguinte, lá em baixo, no sul do Cambodja.

Assim fomos, com uma boleia boa, pré-combinada, cheia de conversas, partilhas, risadas e mimos. Cheia de ananás aos cubos e em modo lento, como o trânsito exige! E à chegada, à chegada tínhamos uma equipa fantástica à nossa espera, pataniscas vegetarianas e o Tertúlia (o melhor restaurante português das bandas!) e muita saudade – que só nós, portugueses, sabemos o que é.

E gratos por tudo, por lá passámos três noites, e em nada mentimos se dissermos que nem demos por elas. Foi dias de descanso. De uma calma que só em Kampot. De sentir em casa. De estar em casa. De cozinhar. De conversar. De escrever. De sentir.

E só quase por entre as estrelas, visitámos a cidade pelo pedalar de duas bicicletas e o silêncio raro de uma cidade!

Voltámos então depois para Phnom Penh, entre gargalhadas e muito vento na cara, com uma boleia de uma pick-up! Lá atrás, vimos as nuvens passear no céu, as casas e palhotas à beira da estrada, as crianças em carrinhos de brincar e o sol, sempre, a brilhar.

Estávamos felizes.

Somos felizes!

Foi uma boleia que teve tanto de demorado, como de rápido, mas que abriu um precedente muito valioso: o de que estamos preparados para fazer curtas e longas distâncias lá atrás, naquela parte do carro que de confortável tem pouco, mas de belo e vivido tem tudo. Gostámos!

Desta segunda vez em Phnom Penh ficámos num hotel – You Khin House, uma vez mais a troco de uma parceria nossa. Este, por um motivo especial. Surgiu depois de criada uma escola com um sistema de ensino baseado no modelo montessoriano – que a nós nos diz muito, como fonte de sustento para a mesma.

Contudo, hoje em dia o lucro não cobre os gastos e por isso que está a decorrer um crowdfunding* por forma a permitir que a educação destas crianças seja garantida.

Assim, aproveitámos o dia para visitar a escola, o centro de lazer e atividades a ela associado e, de tarde, o museu S-21. Este, criado após o genocídio associado ao Khmer Rouge, permitiu-nos aprofundar a história do Cambodja, a dor por todos sentida, a tristeza e desgraça vivida. O Khmer Rouge saiu do poder em 1979, com o apoio dos vietnamitas, os mesmos que os ajudaram a subir até lá em 1975. Após este período, foi declarado genocídio associado a este mesmo mandato, durante o qual foram perseguidas, interrogadas, torturadas e mortas cerca de 2 milhões de pessoas, com especial enfoque naqueles que eram literados. Visitámos por isso o museu, mas decidimos não visitar os “killing fields”. Foi intenso e ainda bem que o fizemos juntos.

Mais à noite, e para terminar o dia no auge das experiências, jantámos no DID. E vale tanto a pena partilharmos isto, que temos até medo de não conseguir deixar transparecer o que vivemos!

O DID – Dine in the Dark, é um restaurante onde os nossos sentidos são deixados no limite. Embora não seja uma ideia inovadora, e embora exista já na Europa e redores, não deixará nunca de se original e desafiante. O conceito é inesquecível, a equipa também, e a comida não lhes fica atrás.

Criado num espaço “abandonado”, uma pequena galeria de arte, começa por ter tudo em tons baixos e fraca luminosidade. Lá, fomos convidados a escolher o menu surpresa: Menu Vegetariano. De seguida, fomos convidados a retirar o relógio (por ter ponteiros luminosos) e a arrumar o telefone e equipamentos electrónicos numa caixa ou na nossa mochila. E por fim, foi-nos atribuído um guia: um guia cego, o Fredo. O Fredo ficou responsável por nós, e encaminhou-nos, de mãos no ombro dos outros, até à sala escura. Não, não era uma sala com pouca luz. Não, não tinha velas. Era verdadeiramente escuro. Negro.

Nunca tínhamos visto nada assim.

Ouvíamos os risos, como nunca, daqueles que preenchiam também a sala.

Sentimos o fresco do ar condicionado. O arrepio do desconhecido.

Sensação de claustrofobia. E sentámo-nos, sob as indicações das mãos delicadas do Fredo.

Pouco depois, serviu-nos as entradas. Depois o prato principal. Depois a sobremesa.

Não vimos nenhum deles. Mas sentimo-los chiques e cuidados. Pratos arranjados. Sabores intensos. Apurados!

A descoberta tomou conta de nós. Primeiro com talheres, depois já com as mãos: queríamos tanto saber mais, sentir mais. Saborear mais. E estava tudo divinal!

Antes de deixarmos para trás este espaço, fomos por fim convidados a ver os pratos que havíamos recebido. E o mais engraçado, foi a surpresa que não tivemos. “Bom trabalho!”, pensámos, orgulhosos pela nossa perspicácia e desembaraço.

Fica assim agora o nosso convite para que visitem um espaço assim ou que façam do vosso espaço um espaço para está experiência sensitiva. Vale a pena!

E quanto ao DID, vale ainda mais a pena quando aliado à integração de todos. (❤ de psicomotricista!)

Partimos então para Siem Reap de coração cheio, de alma preenchida. Não era tarde quando nos pusemos à boleia, e sabíamos que tínhamos um autocarro urbano, muito embora só haja três linhas de há dois anos para cá, com pouquíssimos autocarros em cada.

Contudo, enquanto o esperávamos calmamente, fomos deixando ver aos carros que passavam a nossa placa, onde tínhamos escrito o nosso destino. E, por entre a azáfama de tuk tuks e motas – onde também as crianças as conduzem! –encostou um carro com dois coreanos, que sem que conseguíssemos comunicar na perfeição, nos levaram. Mas não, não levaram para onde pretendíamos ir com o autocarro, e no fim ainda nos pediram dinheiro. É verdade, foi tão triste e tão constrangedor em nós. Temos sempre o cuidado de antes de entrar num carro explicar que não pretendemos pagar pela boleia, e assim se acusam táxis ou aqueles que realmente nos querem ajudar. Mas com dois coreanos sentimos que não havia necessidade de qualquer explicação… e estávamos tão enganados.

Mas enfim, lá nos explicámos conforme conseguimos e lá aceitaram que não pagássemos: e verdade seja dita, nem sequer nos tinham levado para onde precisávamos, e sim para onde iam; portanto estávamos de consciência tranquila.

Seguimos então a pé, sem alternativa agora de autocarro. Não faltava assim tanto para a ponte, mas por poucos que fossem os quilómetros, com as mochilas, tudo parece imenso.

Durante a pequena jornada fomos parando para descansar e aproveitando para pedir boleia; e foi por entre um desses instantes que parou um outro senhor com a sua esposa. Decididos a ajudar-nos, levaram-nos até à tal ponte que tínhamos de atravessar de forma a encontrar o melhor lugar para nos pormos. Estoirados quando lá chegámos, abrigámo-nos no chapéu de chuva como sendo de sol, e pedimos boleia.

Muita boleia nós pedimos, e nada.

Vimos o sol rodar, girar lá em cima e derreter-nos o corpo. Mudámos as mochilas várias vezes de posição em função de uma pequena sombra. E destilámos: estava difícil de apanhar boleia.

E nos entretantos rimo-nos e muito com os locais que por ali andavam:
– O que fazem uma data de homens a correr atrás de um autocarro? São condutores de tuktuk.
– E o que são homens a correr à frente dos tuktuk? São condutores de autocarros (vans).
Todos, na busca de mais clientes!

Até que parou um jipe, por entre macacadas para chamar à atenção de todos os carros. Era um pai com o seu filho e iam diretos também para Siem Reap! Fizemos então uma viagem de sonho, prudente mas rápida, e chegámos já ao pôr-do-sol.

No lusco-fusco, visitámos o mercado local para comprar alguma comida. Por todo o lado há padarias, com influência francesa, sendo a baguette a mais famosa. Nos mercados reina ainda a confusão, embora com menos ratos. O arroz mantém-se como primordial na alimentação. Muitas mangas, papaias, maracujás, anonas, maçãs, bananas, ananáses, e outros tantos que nem lhes sabemos o nome!

Só depois seguimos para o primeiro hotel da cidade com quem havíamos feito parceria – New Riverside Hotel. Longe do centro, mas com uma paz inexplicável, ficámos duas noites num quarto de sonho, com uma piscina de sonho e pequeno-almoço também de sonho. Como nem nós algum dia pudéssemos pensar vir a viver!

No dia seguinte, descansámos, espreguiçámos, ronhámos (sim, de ronha!). E passeámos. No centro, no mercado local onde apetece comprar tudo pelas cores e beleza, pelos cheiros e simpatia. Vimos roupas, acessórios, bugigangas e hammocks lindos. E já ao anoitecer, fomos jantar ao Little Kroma, um restaurante pequenino e caseiro, com pratos típicos e vários vegetarianos, e muito familiar! Perdemo-nos ali com novos sabores.

Nas últimas duas noites no Cambodja, ficámos num outro hotel –Lemon&Gingergrass Hotel, com quem também trabalhámos e com quem vivemos a experiência de visitar os Templos de Angkor e aprender a cozinhar aquilo que dizem ser o mais tradicional que por lá vimos: os famosos spring rolls, a salada de manga e o amok de tofu. Inexplicável! E inesquecível. Trazemos agora guardadinho em nós a imensidão dos templos que pisámos por entre o silêncio da surpresa e as receitas de cada prato que fizemos.

Foram dias intensos, bem vividos e apaixonantes. Dias que dificilmente algum dia conseguiremos pôr por palavras, mas onde algumas das fotografias falam por si! Da loucura que é visitar os templos de Angkor Wat e Angkor Thom; à magia da noite do “night market” no centro da cidade: um misto de passado e presente que fica no coração.

Gostámos! Muito.

E gostámos também muito do lugar onde fomos convidados a provar vários pratos típicos Khmer, deliciosos e lindos, exóticos e saborosos, com um serviço de excelência – Khmer Touch Cuisine, mesmo no centrinho do centro.

E com tantas maravilhas, tantas experiências, tantas partilhas e tantos momentos, só podemos estar gratos pela passagem no Cambodja; onde nem tudo foi perfeito, nem tudo foi magnífico ou ideal, mas onde fomos abençoamos com uma viagem rodeada de boas pessoas, bons lugares e boas vivências!

Já no último dia, caminhámos tanto quanto pudemos para nos afastar da cidade, sempre de placa em punho, até conseguirmos boleia para uma cidade próxima. Lá sim, caminhámos vários quilómetros, subimos subimos e chegámos. De suor escorrido no corpo e respiração ofegante. Cansados. Mas chegámos. Chegámos à fronteira.

– Não sem antes pelo caminho termos sido inundados pelos habituais “tuk tuk?”. Faz parte!

E por fim, estávamos tão tão exaustos, mas quase quase do lado de lá. Carimbámos o passaporte à saída, sem percalços, e seguimos. Tínhamos à nossa espera o nordeste da Tailândia, uma rota não-turística até ao Laos e muitos locais à nossa espera.

Despedimo-nos assim de sorriso no rosto, ansiosos do mundo, de mão dada, com amor: até um dia Cambodja!

* Crowdfunding – https://www.generosity.com/education-fundraising/free-education-for-children-in-poverty-in-cambodia/x/1595936

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até já Arménia, olá Irão?

Pelas ruas, sente-se a união soviética. Continua a morar aqui, por entre edifícios, ruas e jardins abandonados, outrora cuidados e com vida.

Por entre as montanhas onde dormimos, em kojori, a primeira opção para apanhar boleia foi caminhar até à estrada nacional, por um atalho e por 7 quilómetros. As mochilas pesavam, o sono e os sacos nas mãos (cheios de tralha), também.

Pelo caminho, em tão mau estado quanto possam imaginar, com alcatrão desfeito, buracos infindáveis, com lixo e até ossadas de animais, verde sem fim e silêncio absoluto. E uma paisagem incrível no meio do nada.

A primeira boleia foi de um padre: levou-nos por cerca de 1 quilómetro. Depois, continuámos a caminhar: pausadamente. Era cedo e tínhamos tempo. Mas por entre uma das nossas pausas, avistámos um camião. Já nos sentíamos a chegar ao fim e, embora fosse o segundo carro a passar em várias horas, decidimos não lhe pedir boleia. Ao contrário do que esperaríamos, parou, e convidou-nos a subir. Uma vez mais, por entre uma comunicação muito rudimentar, conseguimos entender-nos e ficámos precisamente na estrada que pretendíamos.

Já com rumo certo, esperamos muito pouco até conseguirmos a segunda boleia, direta até à fronteira com a Macedónia. Falava inglês e tinha um filho a estudar na Europa. Sabia bem onde ficava Portugal e a conversa fluiu até ao destino!

Na fronteira, as borboletas comiam-nós a barriga. É sempre aquele miudinho até pormos os pés do lado de lá. É sempre o desejo de sermos bem recebidos, de não termos de abrir as mochilas ou responder a grandes questões. É sempre o desejo simples de ser tudo simples.

E foi! À saída da Geórgia carimbaram-nos o passaporte e sorriram. À entrada da Arménia, revistaram o passaporte de ponta a ponta, folha por folha – procuravam qualquer carimbo do Azerbaijão, onde não estivemos. E posto isso, olharam-nos nos olhos, compararam as fotografias dos passaportes, carimbaram-nos e devolveram-nos.

Demos mais um passo em frente: e olá Arménia!

Chovia. Choviam pingos grossos por entre o calor que se fazia sentir. Ofereceram-nos na Turquia um chapéu de chuva, e abrigámo-nos nele até nós conseguirmos abrigar num telhado improvisado.

Aí, ainda juntinhos à fronteira, fomos abordados por vários taxistas. É difícil explicar em russo – quanto mais em arménio! – que temos dinheiro, mas não queremos apanhar um táxi. Primeiro porque se temos dinheiro, porque não haveríamos de querer? E segundo, para os turistas é tudo barato. Esta é a lógica e portanto, limitamo-nos a dizer “Niet denhek”, ou seja, não temos dinheiro.

Na verdade, por 20 quilómetros são em média 3€. E um bilhete de autocarro urbano, aqui, são 0,20€. É realmente barato, mas não é a nossa opção. Não significa que não optemos em caso de necessidade, mas não era o caso.

Fomos explicando que pretendíamos ir para Vanadzor de “autostop”. Fomo-nos sentindo comentados. Mas fomos também mantendo o sorriso e o olhar atento sobre a chuva. Só precisávamos que ela abrandasse para nos distanciarmos um pouco da zona fronteiriça. Mas não foi necessário.

Aproximou-se de nós um senhor. Olhar humilde. Sorriso humilde. Pose humilde. De simpatia no rosto, perguntou se queríamos ir para Vanadzor e se estávamos à boleia. E convidou-nos a ir também. Com uma carrinha de distribuição de frutas, variadas, instalou-nos e ofereceu-nos duas tangerinas e duas maçãs.

No caminho, ele e o seu colega, em detrimento da estrada mais curta e em pior estado, optaram pela mais longa e mais perigosa. Mais perigosa porque passa a poucos quilómetros do Azerbaijão, e por entre montanhas avistam-se os dois lados. Perante as tensões com a Arménia, estão ambos os lados avisados: quem chegar perto, não importa quem, é alvejado. E portanto, embora sem chegar perto, não é de todo confortável passar por perto. Mas percebemos que há muitos que preferem fazê-lo, tendo em conta as condições dos pavimentos. E mesmo assim, na “melhor” estrada, levámos um pouco mais de 3 horas para fazer 120 quilómetros.

Prometemos não nos voltar a queixar das estradas em Portugal. 🙂

Pelo caminho, avista-se verde. E mais verde. Montanhas e montanhas verdes e lindas. Flores, campos, árvores e verde. E estradas infinitas, num sobe e desce.

Mas por entre tudo isto, muitas ruínas. Pouco antigas: sinais apenas de abandono.

Até que chegámos ao nosso destino. Ajudou-nos a contactar quem nos ia hospedar (uma espécie de couchsurfer, mas vinda de uma nova plataforma – trustrouts, feita para viajantes à boleia) e encontrarmo-nos foi muito fácil.

Em casa, encontrámos também outra hóspede nas mesmas andanças e foi delicioso partilhar experiências e vivências, viagens e aprendizagens.

Juntos, palmilhámos parte da cidade.

Não sabemos se feitos de admiração ou tristeza. Se de desconsolo ou frustração.

A Arménia, depois de ver conquistada a sua independência, deixou para trás a União Soviética. Mas não só.

Encontrámos um país desolado e escuro. Feito de antiguidades.

Encontrámos, abraçados, um passado muito presente.

Encontram-se pela rua, à medida que vamos andando e conhecendo, vestígios do que outrora foi vida. Não há rua sem ruína. Não há rua sem abandono.

É um país fantasma. Ou, como lhe chamam, um país com história. E podia até sê-lo, e é, mas podia também haver o preservar dessa história. O conservar.

Os nossos corações ficaram alerta. Ficaram emocionados e tocados: pelas ruas vêem-se edifícios desprezados, abandonados. Fábricas vazias. Vidros partidos. Pedras soltas. Escombros. Vêem-se estátuas de outrora. Vêem-se ruínas de hotéis, saunas e luxurias do passado. Tudo a cinzento e branco. Destruído e apagado do presente.

Nos parques, bancos tortos, desfeitos dos anos e sem manutenção.

Sentem-se nas pernas as ervas altas, a relva por cortar, os canteiros e jardins por arranjar.

Nos parques, os baloiços que já não baloiçam. As brincadeiras enferrujadas e deixadas ao acaso.

Fechamos os olhos e imaginamos tudo 40 anos atrás. Cheio de cor e gente. Balanço e harmonia.

Mas abrimos os olhos e sabemo-nos no presente.

Também nos parques comboios infantis deixados para trás. Lindos, mesmo que já sem cor ou movimento.

Traços de uma história passada.

Percebemo-nos num país pobre, com uma taxa de desemprego elevadíssima é um ordenado mínimo baixíssimo. Percebemo-nos por entre miséria – é claro, também alguns opostos.

Percebemo-nos por entre uma maioria de carros (muito) antigos e uma juventude satisfeita, que pouco ou nada se questiona.

Um pão caseiro custa 0,28€. Um gelado 0,18€. Um bilhete de autocarro 0,20€.

E assim se (sobre)vive.

E no meio de tanta pobreza, carregam orgulhosamente dentes de ouro.

Quando deixámos Vanadzor para trás, era muito cedo (para nós) e achávamos que tínhamos o dia pela frente para conhecer Yerevan – a capital.

Pusemo-nos à boleia com uma placa; mas depressa percebemos que eram raros aqueles que percebiam o alfabeto latino. Mas, claro, era para nós impossível escrever em arménio hayeren. Mesrop Mashtots.

A primeira espera foi morosa. Pararam vários carros que não iam propriamente na nossa direção. Outros tantos a oferecer serviço de táxi. E muitos outros que passavam, acenavam. Estivemos mais de 1 hora para apanhar a primeira boleia.

Era um jipe, três homens, pouca conversa, mas ajudaram-nos a mudar para um sítio melhor para apanhar boleia. Não muito longe, mas foi uma mudança importante.

A segunda boleia foi de um camião pequenito. Ou uma carrinha muito grande! Um senhor muito doce, daqueles que sabemos que é mesmo boa pessoa – mas que nunca lho vamos poder dizer. Levou-nos por mais uns 10 quilómetros.

E a terceira boleia, por mais outros tantos quilómetros, foi de dois senhores. Aliás, Senhores. Com postura e muito educados. Um deles, até inglês falava. Descobrimos pelo caminho que se tratavam de militares e estavam tão encantados com a nossa viagem, que quando nos deixaram pediram para tirar uma selfie todos juntos!

Lá, voltámos a esperar um pouco. Mas não muito! Um dos carros que por nós passou, voltou atrás, e de sorriso no rosto, ofereceu-se para nos levar! À frente, levava a sua esposa, vinda do Turquemenistão. Amorosos. Grande parte da viagem deu para um o-o e dois dedos de conversa. Sorriam-lhes os olhos e o coração também.

E quase 5 horas depois, com 5 boleias e 120 quilómetros feitos, chegámos à cidade. Sim, ainda apanhamos mais uma boleia, só até ao centro. Trabalhava na embaixada de França e por isso foi em francês que nos fizemos entender. Desta, fácil! Muito fácil. Mais, trazia no carro o seu filho, cujo inglês fluía.

Pelo caminho, tudo na paisagem se repetiu. Mas a verdade é que a capital se encontra mais cuidada. Esconde bem o que os subúrbios contam.

Mas em cada esquina, alguém a pedir.

Ainda assim, a capital surpreendeu-nos. Pela beleza dos edifícios que conserva, pela beleza da natureza. Pelos museus que tivemos oportunidade de visitar. Pelos locais históricos.

Um país diferente, que nos fez questionar muita coisa. Mas onde encontrámos novamente muita gente boa. Gente que defende a causa, que defende a pátria. Gente que tem entranhada a arte de bem receber, de cuidar. Gente que nos hospedou com amor. Com gentileza. Com tudo o que tinham. Gente boa. Nós continuamos a acreditar que vale a pena acreditar. Em gente boa. Estão por toda a parte, e temos tido a sorte de nos cruzar a cada dia.

Há famílias iluminadas.

E nós dois, também família, sabemo-nos e sentimo-nos abençoados.

Amanhã bem cedo, as borboletas voltam ao estômago, à barriga e à cabeça: olá Irão.

 

2016-05-22 21.28.132016-05-22 10.42.012016-05-22 10.45.332016-05-22 10.41.002016-05-22 10.48.352016-05-22 10.47.142016-05-22 10.43.182016-05-22 10.42.542016-05-22 10.38.182016-05-22 10.37.202016-05-22 10.36.072016-05-22 10.33.502016-05-22 10.32.252016-05-22 00.57.542016-05-22 21.23.342016-05-22 21.24.122016-05-22 21.22.48IMG_2027

olá, Geórgia.

Um adeus à Turquia: é aquele que entregámos ante-ontem por entre sorrisos e corações cheios. Os nossos! E de todos aqueles que conhecemos.

Ainda em Trabzon, no dia da partida tivemos a sorte e o prazer de conhecer um couchsurfer que não nos pode hospedar, mas que fez questão de nos encontrar.

Levou-nos a um miradouro no topo da cidade. Encantador para a vista! E lá, bebemos chá e comemos pevides – como por aqui se faz. Partilhámos histórias e improvisámos turco; enquanto lhe permitíamos improvisar o seu inglês.

E por entre conversas percebemos que iria em trabalho, da parte da tarde, até Rize: a cidade para onde nós também pretendíamos seguir depois. E assim, juntámos o útil ao agradável, e fomos juntos.

E a hospitalidade é tanta e tamanha, que pelo caminho nos ofereceu um almoço maravilhoso (e bem ao nosso gosto!).

Desta, do tempo que passámos juntos restou gratidão.

Em Rize ficámos em casa de um amigo de um outro amigo, de tempos de Erasmus Universitários. Cedeu-nos um seu tio a casa de férias, por entre montanhas e muita natureza. Forrada de madeira, sem água quente nem internet, fizemos das noites momentos inesquecíveis, por entre banhos de caneco com água aquecida ao lume e cozinhados sem fim.

Da cidade, também encantadora, guardamos a deslumbrante vista do castelo e a simpatia de todos os que por nós se cruzavam e tentavam perceber de onde vínhamos.
E na manhã de sexta-feira, 13, deixámos Rize sem ponta de azar. 🙂

Esticámos os nossos dedinhos na estrada principal, pertinho do centro e pertinho do mar (uma delícia!), deixámo-nos refrescar pelos leves pingos de chuva que se faziam sentir em nós, e demorou muito pouco até parar um carro. Trazia nele dois senhores, pouco faladores – mas muito amáveis. Por entre o que a língua turca nos permite, partilhámos a nossa história, e apenas a seu troco, recebemos dois sorrisos e muita o bondade: deixaram-nos pois exatamente à frente do Hospital de Pazar.

Não, não estamos nem estivemos doentes. Mas foi lá que encontrámos a nossa nova couchsurfer. Neurologista de profissão e paixão, recebeu-nos e cuidou de nós com verdadeiro sangue turco.

Passámos dois dias por entre maravilhas da culinária e maravilhas da natureza. Conseguem imaginar?

É por isso também muito fácil imaginar como nos sentimos. Conectados. Amados.

Ligados.

Entre nós. Com o outro. Com o mundo.

Também nesta passagem tivemos oportunidade conhecer mais amigos. Amigos desta nossa couchsurfer, que nos receberam na sua casa para jantar. Mas gente muito especial, tão especial que nos sentimos em casa. Viajantes, também eles mochileiros de outrora, médicos psiquiatras de profissão e apaixonados pelo mundo. Pudemos trocar muitas ideias sobre doenças mentais e psicomotricidade; sobre viagens e rotas! E a madrugada já ia noite dentro quando nos obrigámos a despedirmo-nos. E mais uma vez, em mais uma cidade, e ainda na Turquia, não só nos abriram as portas de sua casa, como a janela das suas vidas. Marcante.

Temos sempre tanto a aprender com o que nos rodeia. Com quem nos rodeia.

E chegou então o momento, o momento do adeus à Turquia: aquele que entregámos ontem por entre sorrisos e corações cheios. Os nossos! E de todos aqueles que conhecemos.

E por entre a melancolia, a excitação: não há partida sem chegada, e dissemos assim Olá à Geórgia.

Abraçámo-nos na despedida, ainda em Pazar. O mar, mesmo à nossa frente, num tom entre o azul e o verde, paradisíaco e inesquecível. Esticámos os dedos. Esticámos a placa. Um minuto. Um minuto para parar um carro. Um minuto para chegar o nosso bilhete de partida.

Seguimos até à fronteira. No carro, 3 pessoas genuinamente boas, daqueles a quem o olhar faz jus. E entre um o-o (dispensável mas não evitável) e muitas partilhas por entre gestos, turco e inglês, a viagem fez-nos num verdadeiro ápice.

Na fronteira, parecíamos acabados de chegar ao texas. Gente e mais gente, confuso, sujo e barulhento. Filas, gente a vender, gente cheia de malas, sacos e malinhas. Autocarros, camiões. E fizemo-nos ao caminho.

Atravessar até à Geórgia foi mais fácil do que parecia: receberam-nos com sorrisos e descomplicações, sem grandes conversas ou revistas. E um “good trip”, que já sabemos ser os votos de uma boa viagem!

Já do lado de cá, em território e chão Georgio, sentimo-nos num mundo diferente.

A verdade é que os transportes públicos da Turquia não podem passar. Nem os táxis. Nem os carros alugados. As pessoas têm de os abandonar, passar a fronteira a pé e apanhar um novo transporte do lado de cá. Portanto, é muito fácil de imaginar o caus instalado. Todos tentam “vender” o seu transporte, ao melhor preço. Ganham a vida assim. Bem como os vendedores de rua: é comida, é água, é cigarros, é táxis, é casas de câmbio… e muita gente misturada. Muitas malas e bagagem. E muitos olhares curiosos. E, ao fundo, a bandeira da Geórgia.

Sentimo-nos verdadeiramente acabados de chegar.

Não caminhámos muito até recomeçarmos a pedir boleia. Claro está que muitos nos tentaram ajudar a troco de dinheiro, mas conseguimos recusar com facilidade e sem constrangimentos, até que em poucos minutos parou um carro. Levou-nos até Batumi a uma velocidade estonteante – se a condução na Turquia tinha muito que se lhe dissesse, aqui não há palavras. Mete medo! Pé no acelerador, mão na buzina: saiam da frente. Não, a buzina não serve para alertar em caso de perigo, serve literalmente para chamar à atenção no sentido oposto, “Cuidado, eu vou passar!”. Ficamos sem ponta de sangue e colados aos bancos, e não há mais nada que possamos fazer.

Mas por de trás da sua condução, estava um homem maravilhoso, disposto a tudo para nos ajudar. Quis levar-nos exatamente até casa de quem nos ia hospedar. E para isso, perguntou pela rua tantas vezes quantas necessárias, onde ficava a morada. Incansável, os olhos sorriam de bondade.

Também assim sorriam os olhos de quem nos hospedou. Uma verdadeira lição de vida, ainda só estamos nós a viajar à pouco mais de dois meses. Quatro amigos, turcos, recém chegados a Batumi, publicitam num grupo de facebook que se mudaram, e que podem receber quem os queira visitar. Nós! Um couchsurfing informal, mas muito gratificante.

Não há referências, não temos como expressar publicamente como fomos recebidos: mas mais uma vez, cederam-nos a cama e parte do seu tempo. Entre jantar e pequeno-almoço, entre gestos e turco, partilhámos o que pudemos.

Mas sabemo-nos mal habituados. No ocidente ouvimos sempre dizer que “ninguém dá nada a ninguém”. Aprendemos, intuitivamente, a ser desconfiados. Vivemos assim sem nos questionarmos; mas questionamos todos os que nos rodeiam e as suas ações. E chamamo-nos cuidadosos.

Aqui não mudamos aquilo que somos, mas aprendemos a ser mais alguma coisa.

Mais que não seja, generosos.

E ontem, pela manhã , partimos rumo a Tbilisi, onde estamos agora. Sabemos que prometemos atualizar o blogue, mas a viajar, nunca nada é previsível.

O tempo estava incerto, mas seguimos à aventura. Por entre nuvens e ameaças de chuva, sentíamo-nos num dia de inverno. Há dias assim.

Também os nossos corações estavam incertos. Resmungões e insatisfeitos. Que nem nuvens a estragar um dia de sol. Há dias assim.

O peso das mochilas incomodava-nos; doíam-nos os ombros, as costas, o pescoço. E o peso dd Batumi também nos incomodava. Ruas e ruas sem alcatrão, esburacadas e sujas. Prédios e prédios, metade betão, metade chapas de zinco. Prédios e prédios com andares construídos e habitados, e tantos outros completamente abertos e por construir. Uma pobreza escondida em cada esquina. Visível na forma de estar, de andar, de vestir, de ser. Muito difícil de descrever e muito fácil de sentir. Mas, junto ao mar, uma riqueza de fachada: mesmo por entre a descrição acima, grandes hotéis e um casino. Para quem? Perguntamos nós.

E cabe-nos relembrar que por aqui, o ordenado mínimo é de 150 euros. Isto quando há trabalho. Porque cabe-nos também relembrar que a taxa de desemprego aqui é superior a 30%. E não, as coisas não são mais baratas que na europa – só mesmo o tabaco. É por isso impossível não nos questionarmos sobre como vivem.

E numa pequena casa, onde se vendiam hambúrgueres e trocavam também dinheiro, aproveitámos para trocar alguns euros e fizemo-nos ao caminho. Depois, depois de quase 1 hora à espera da primeira boleia do dia, São Pedro fez das suas, e desabou a chover. Cupiosamente.

Corremos para nos abrigar, por entre chapas e telhas, chapéu de chuva e capa, e lá nos desenrascámos. Mas o dia não estava de todo a correr bem! E já não bastava estar a ficar tarde, como aqui temos 1 hora a mais no fuso horário, e sabíamos ainda ter pelo menos 6 horas de viagem. Sim, estávamos a 380 quilómetros de Tbilisi, mas conseguem imaginar o estado das estradas até lá.

(In)Resignados, esperámos que a chuva abrandasse.

E quase duas horas depois, voltámos à estrada. Mais calmos e confiantes, erguemos a nossa placa com convicção. E por entre o trânsito que se fazia sentir, encostou um carro tipo carrinha, e seguimos juntos por 50 quilómetros. Valeu-nos o turco aprendido (que especialista!) e foi fácil a comunicação!

Quando nos deixou, a chuva estava longe. Avistávamos as negras nuvens ao fundo, mas nada que nos intimidásse. E lá, foi muito rápido de apanhar a segunda boleia: um senhor ucraniano que ia até meio caminho. Fraca comunicação, mas com muita simpatia à mistura, deixou-nos já quase de noite a 180 quilómetros do nosso destino.

Ali, um senhor que nos avistou, insistiu para que fossemos para um hostel descansar. E poucos minutos depois, já nos havia oferecido o seu colar e convidado a comer e dormir em sua casa. Apontava para o céu e dizia que a noite estava a chegar. A seu ver, era hora de recolher! Levámos mais de 10 minutos a agradecer-lhe e a recusar. Sabíamos que ali conseguiríamos apanhar uma boleia direta e tínhamos uma amiga de uma amiga à nossa espera! Por isso, só precisávamos de ficar sozinhos para o conseguirmos, e assim foi! Quando nos deixou, não demorou 1 minuto até que parasse um novo carro: conduzia-o uma jovem, e permanecemos juntos por 3 horas, até ao nosso destino.

Entre inglês e turco, contámos histórias e partilhámos hábitos. Comemos pão típico da Geórgia, comprado na estrada; e passámos também momentos de aperto! Não, a condução caótica não diz só respeito a homens. É cultural e para todos. Passadeira? O que é isso? Cruzamento? Rotunda? Ultrapassagens? Duas faixas? Traço contínuo? O que é isso? Tudo para enfeitar. Até mesmo os limites de velocidade e os radares. Se diz 30 com sinal de perigo em baixo, ou obras na estrada, vai-se a 80. Ou 120 se houver necessidade de ultrapassar uma fila de camiões. Portanto, e em suma, podemos dizer que nos mantivemos acordados e animados.

E estava já perto da 1 hora da manhã quando pusemos os pés em casa: rodeados de natureza, com duas amigas incansáveis, numa casa maravilhosa, e com petiscos típicos à nossa espera. Que bom que é quando assim é, quando tudo acaba em bem!

Por hoje, hoje esgotámos energias a percorrer a cidade. Tbilisi é muito diferente de Batumi. Com um calor duro durante o dia, descobrimos o seu lado lindo, o seu lado diferente. Até a língua, estranha de ouvir, fez os seus encantos. Com muitas igrejas ortodoxas, conhecemos também novas realidades. Embora envolta de muita precariedade e miséria, é uma cidade muito bonita.

Encantou-nos, de braço no ombro e caminhar junto.

Amanhã é dia de seguir viagem. De voltar a carregar as mochilas às costas. De abraçar novos mundos. Novos sorrisos – decerto. Amanhã é dia de mais uma fronteira, de mais umas borboletas na barriga.

É dia de entrar na Arménia.

E em breve, será dia de entrar no Irão.

Quem nos sabe de cor, sabe que transbordamos felicidade.

Saudades já também – mas por entre quem ama, quem não as sente?  ♡

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meio caminho em Mar Negro

Conhecemo-nos no limite. É por isso que às vezes é difícil viajar, viajar durante tanto tempo, viajar sempre com a mesma pessoa e, mais, viajar à boleia.

Descrevemos detalhadamente na apresentação desta nossa aventura (aqui no blogue) o porquê de termos escolhido deslocarmo-nos a dedo. Mas a verdade é que os momentos de espera tanto podem ser de reflexão e paz interior, calma e preserverança; ou brincadeira; como de tensão e desamor.

Não é fácil quando passamos um dia inteiro à boleia e ninguém nos leva. Ou quando chove e não resta nada mais seco em nós. Ou quando não conseguimos chegar ao nosso destino. Não é fácil. E quando o sol se põe e continuamos na estrada, sem rumo, não é fácil.

E é nos momentos em que não é fácil que nos conhecemos: que nos amamos. Que cuidamos.

Estar de mão dada na alegria – qualquer um.

Imaginem-nos insuportáveis. Com muito frio ou com muito calor. Com fome ou com sede. Rabugentos. Azedos. Irritadiços. Impertinentes.

Imaginem-nos embirrentos, cansados. No limite. E é aí mesmo que nos conhecemos.

Respeitar o espaço, saber ajudar, saber estar. Ouvir. Apregoar a paz, mesmo quando em nós próprios troveja.

Mas mesmo em casa, no conforto do lar, temos as nossas nuvens. Quem não as tem? Ninguém vive no sol. Há sempre por aí uma sombrinha. Faz parte e faz sentido. É assim que deve ser e o mais importante é saber fazer o vento soprar. E em viagem não é diferente.
Mas toda a esta conversa até aqui tem um foco muito interessante: as pessoas.

Até aqui, mesmo quando encoberto, não há dia que não se torne solarengo. Quente! Afável!

Parece contraditório, mas tão depressa em viagem pode não ser fácil; como é em viagem que tudo se torna simples. Porque é em viagem que nos pomos em contacto. Em contacto com as pessoas, com a mais bela gente do mundo. São aquelas que se cruzam em nós: as pessoas. As que nos abrem as portas de suas casas. As que nos levam. As que nos acenam. As que nos sorriem. As que nos abraçam.

E chegamos à Turquia. Sim, não é de hoje. Mas o hoje é sempre mais um dia aqui.

Quando chegámos a Samsun não fazíamos ideia do que estava para vir. Sabíamos que em Bolu, a cidade anterior – e posterior a Istambul – havíamos sido tratados com a maior das cortesias. No supermercado, que nem nos lembrássemos de querer pagar a conta; o nosso couchsurfer até levava a mal. Em casa, deu-nos o seu quarto e mudou-se para a sala. Lençóis lavados, toalhas limpas. O seu carro era o nosso carro. Os seus amigos, nossos amigos.

Mas em Samsun, sucedeu-se o mesmo. E aí, aí deixa de ser coincidência ou arte de bem receber.

Chama-se cultura.

De Bolu até Samsun, tal como partilhámos na crónica anterior, a viagem foi muito especial! Começámos por apanhar boleia de um carro para sair da cidade e, mais tarde, para muitas horas de viagem, levou-nos um camionista, no seu grande camião. Carregadíssimo, não permitia grandes velocidades. Mas estávamos em muito boa companhia. A comunicação era rudimentar, mas chegou na hora em que nos quis levar a almoçar fora. Almoçar fora significou oferecer-nos o almoço num belo e típico restaurante de borda de estrada. Pode parecer rude, mas foi do mais gentil que possam imaginar. E não, não foi tarefa difícil arranjar um prato vegetariano! Saboroso. Quis dar-nos o que no seu mundo de melhor tinha! E já depois da noite cair, entretivemo-nos a abrir e comer um grande saco de avelãs: ou tentar! E como muitas sobraram, ainda as ofereceu.

Um coração de ouro!

Já em Samsun, telefonou ao nosso novo couchsurfer e não nos deixou seguir (nem seguiu) sem que ele chegasse.

Sentirmo-nos amados e protegidos como aqui, só mesmo em casa.

Palmilhámos Samsun para a conhecer e encontrámos várias maravilhas. A melhor, a sua “rua Augusta”, em modo turco. Graciosa!

E ante-ontem, quando partimos para Bulancak, não havia preocupações que nos pertencessem.

Viajar na Turquia é uma verdadeira delícia.

Próprio de uma lua de mel. Aliás, é talvez aqui o primeiro lugar onde todos (sem exceção) nos perguntam se somos casados.

Enleações – só no final da viagem.

Mas sabe-nos muito bem dizer que sim: apaixonados!

De Samsun a Bulancak, levámos várias horas. Não que a distância fosse longa, mas voltámos a apanhar boleia de um camião. Aliás, começando pelo princípio: apanhámos para sair da cidade boleia de um carro. Quando começámos a contar a nossa história, acabou por nos explicar entre gestos e fotos que tinha um camião. Pouco depois levou-nos até um armazém e lá mesmo apontou para um pequeno camião. Vermelho. Mercedes. E disse: “Giresun!”. Percebemos que nos tinha então levado ali porque sabia que dali iria partir um camião na nossa direção. E assim foi.

O camionista, típico turco, tinha um tom de voz rouco e alto. Alto no timbre, fazia doer os ouvidos a cada expressão: mas muito entusiasmado. Sorridente, o único problema era mesmo a quantidade de cigarros que fumava a cada cinco minutos! Mas é assim, “quem anda à boleia, sujeita-se” – já dizia o pai José.

Mais uma vez, parou pelo caminho para nos oferecer chá num café de borda de estrada; e não nos deixou sem que o nosso couchsurfer nos fosse buscar (…a história repete-se!)!

A nossa estadia com este couchsurfer foi muito facilitada: professor de inglês, vivia com a mãe e, mais uma vez, fez-nos sentir em casa.

Aprendemos na sua casa que ajudar teria que ficar fora de questão: em Portugal, mesmo quando somos convidados, cabe-nos ajudar, nem que seja a levantar o nosso prato da mesa. Cabe-nos ser prestáveis. Mas aqui, cabe-nos o contrário: ficar sentados, à espera que nos sirvam. E sabe tão estranho! Pior, é que é uma ofensa querer ou tentar ajudar.

Experimentámos levar o nosso prato até à cozinha, e a primeira coisa que ouvimos foi um pedido: para não voltarmos a fazê-lo, pois significaria que a sua mãe não estava a saber receber-nos ou a dar conta do recado.

Aprendemos também que os convidados estão acima deles próprios. Aliás, têm mesmo um provérbio que o diz.

Entretanto, ainda em Istambul tínhamos conhecido uma amiga dos nossos amigos, cuja família vive perto de Giresun. Giresun é uma cidade a 20 quilómetros de Bulancak. Convidaram-nos a visitá-los, com um único senão: turco era a língua possível. Ninguém na aldeia, ou vila, no meio das montanhas e de muito verde, falava uma só palavra de inglês. Mas foi-nos impossível recusar. E ainda bem!

(Até porque entre nós há quem já tenha como sétima língua o turco)

Não sabemos como se explica o amor, como se explica a bondade. Não há explicação senão sentida, porque o que mais queremos é expressar-nos e faltam-nos as palavras.

Passeios pelas vinhas, pelas hortas. Montes e vales. Montanhas. Aldeias. Casas antigas!

Levaram-nos a conhecer cada canto das suas infâncias, por gestos e poucas palavras, cada recanto das suas vidas. Nos olhos carregavam a felicidade de nos receber. E em cada gesto também. Fluíam os abraços, os sorrisos. A gratidão. Prepararam receitas deliciosas. A casa, feita de madeira, encheu-se. Encheu-se de todos aqueles que nos quiseram receber e saudar.

E acendemos a salamandra, partimos avelãs. Torrámo-las. Apanhámos morangos. Lavámos cerejas. Pecados uns atrás dos outros – feitos de gula.

Com o cair da noite, nas nossas almas jazia que também numa casa de madeira nos conhecemos e apaixonámos, pela primeira vez.

Quando o sol ontem nasceu, era dia de voltarmos atrás, a Bulancak. Lá tínhamos deixado as nossas grandes mochilas e também um compromisso: o de irmos ao liceu, no horário da aula de inglês, conversar com os alunos e mostrar-lhes a importância da segunda língua. E por entre risinhos e muita vergonha, correu tudo muito bem!

De missão cumprida, e coração apertado apertadinho, seguimos caminho. Os nossos corações têm sido valentes; mas desgraçados, em cada despedida vêm-se aflitos.
Vales-lhe que se têm um ao outro.

E de Bulancak seguimos até Trabzon, que é de onde escrevemos hoje. Até aqui, apanhámos três boleias. Dois carros e um autocarro (dos pequeninos). Andar à boleia na Turquia é tão descomplicado e tão espontâneo, que é também um verdadeiro prazer: o primeiro carro nem nos deu tempo para pousar nada. Foi só esticar a placa. Curiosamente, era amigo do couchsurfer que nos hospedou em Samsun – pequenino este mundo! A segunda boleia foi então de um autocarro tipo shuttle bus: que até nos custou a crer que queria levar-nos sem pagarmos, mas que assim aconteceu! E a última boleia, não menos importante, foi já na cidade, mas fruto da preguiça de a atravessar por completo para chegar perto da casa do nosso novo couchsurfer.

Este, também médico, cirurgião plástico, acolheu-nos como por aqui tão bem o sabem fazer, e partilhámos o que de melhor em Portugal também nós sabemos fazer: longas e boas conversas, em torno de uma mesa recheada!

Hoje palmilhámos Trabzon e podem as nossas sapatilhas contar como foi: 15 quilómetros sempre a andar, por entre ruas estreitas e escadarias, prédios demolidos e crianças a brincar. Considerámos esta uma cidade suja e desarrumada, mas importa sempre conhecer.

Até porque a costa do Mar Negro tem sido uma verdadeira surpresa. Trazemos em nós admiração e encanto. Trazemo-nos pelo mundo fora com afeição – e sempre com respeito.

Entre nós e com o outro.

Porque o sentimento de bem-querer também se constrói. E só assim prevalece no mundo. Naquele que trazemos na mão e levamos na alma.

São já 5962 quilómetros, com 85 boleias.

São já muitas noites em muitos sofás, muitas camas. Muitas luzes. Muitos lençóis, cobertores e edredons. E dois saco-camas, que se unem num só.

São muitas partilhas. Muitas vivências. Muitas gentes. Muito crescer.

Amanhã caminharemos um pouco mais. Seremos um pouco mais também!

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viram-se gregos, na Grécia

S de Skopie. Skopie de sorriso. Skopie de soalheira. Skopie de sensível. Skopie de super. Skopie de sentido. Skopie de saudar.

Em Skopie passámos 6 noites, um novo record. Trocámos os euros pelos denares e a nossa cultura pela deles. Passeámos, deixámo-nos absorver por cada história, cada novidade, cada diferença. E quantas diferenças!

Por lá ficámos todo este tempo em casa de dois EVS – programa de voluntariado europeu, onde fomos tão bem acolhidos quanto recebidos.

Mas por lá o nosso coração batia descontrolado: era tempo ou receio, era ansiedade. Era o nosso visto para o Irão.

Quando contactámos pela primeira vez a embaixada do Irão, ainda em Belgrado, disseram-nos que lá seria impossível obtê-lo. Também em Skopie foi assim.

Mas desta tivemos sorte. O Cônsul aceitou receber-nos e até lá conhecemos uma amiga do Irão. E esta sim, foi luz. Foi a sorte! E a fonte dos nossos sorrisos. Ajudou-nos de tal forma, que em dois dias tínhamos os vistos colados nos nossos passaportes!

Foi por isso que logo na manhã de quarta-feira, dia 13, depois de saídos da embaixada, nos fizemos ao caminho.

Com vista à Grécia, queríamos ainda naquela tarde chegar a Thessaloniki, a poucos quilómetros da fronteira. Apanhámos por isso um autocarro urbano para nos tentarmos afastar o mais possível do centro da cidade e lá conseguimos a primeira boleia para abandonar a Macedónia.

A boleia não foi longa, como aliás todas as que caraterizaram esta viagem. Por isso foram tantas. Mas continuemos!

Este jovem que nos levou, falava inglês tanto quanto basta e havia estudado num escola Turca. Pudemos perceber que pelos Balcãs muitos o fazem – estudar numa escola turca!

Quando nos deixou, já numa cidade longínqua, conseguimos sem grande demora apanhar outra boleia.

Esta, com um senhor tão simpático quanto consigam imaginar: o inglês não era o seu forte, mas esforçava-se em cada palavra! Deu-nos comida, bebida. Deu-nos partilhas, histórias de vida. Deu-nos sorrisos! E a boleia. E deixou-nos a 10 quilómetros da fronteira com a Grécia! Já não faltava tudo.

Quase quase com os olhos postos em território grego. Em pulgas para lhe sentirmos o cheiro. Cheiro a mar!

E, com o entusiasmo guardado nas nossas mãos, esticámos os dedos.

Parecia magia.

Apareceu então um carro. Um grande carro. O jovem acenou-nos para que entrássemos e levou-nos até a fronteira. Percebemos que não ia para lá, mas que nos quis levar: e pelo caminho partilhou os seus negócios pouco explícitos e os seus gostos internacionais!

Até aqui, parecíamos bichinhos dentro das conchas, a ser levados pelo mar.

Umas boleias atrás de outras. Passavam por nós ondas e areias. E víamos tudo passar por nós, rápido. Velozmente.

E limitavamo-nos a sorrir. Felizes.

A felicidade é assim; vive-se nela. De corpo e alma. E quando se partilha, com amor, são dois corpos e uma alma a viver nela. Na felicidade!

Já na fronteira, fizemo-nos ao caminho; mas a pé. Sabíamos que a podíamos atravessar assim, e assim o fizemos. Passámos três guardas fronteiriços, em diferentes postos. Todos nos deram um sorriso; todos nos deram o seu lado bom! Não que seja estranho, mas atravessar uma fronteira é sempre um momento tenso; de poucas palavras e poucos sorrisos. Limitam-se habitualmente a dizer “passaport”, “bag”, “where are you going”, “why”. E pouco mais.

Mas a pé foi diferente. Pareciam entusiasmados! Talvez os nossos olhos falassem por nós. Mesmo com as mãos suadas entre-nós, do nervoso miudinho de mais uma etapa.

Concluída!

Estávamos pois na Grécia!

O sol já ameaçava pôr-se.

E, o pior – dizem!, o Benfica jogava dali a duas horas, contando já com o fuso horário. É que uma equipa portuguesa (na liga dos campeões), é concerteza, é concerteza uma equipa portuguesa. 🙂

Acabámos por nos deliciar com um crumble de maçã, que tínhamos feito em Skopie, e pouco esperámos pela nova boleia: dois rapazes mais destravados, com uma condução não tanto prudente, mas simpáticos e amáveis. Inglês não era o forte de nenhum dos dois, mas chegou bem para nos entendermos!

Do local em que nos deixaram, ainda que perto da fronteira, estávamos bem encaminhados para chegar a Thessaloniki. Embora até casa faltassem ainda cerca de 80 quilómetros, e a lua já estivesse luminosa céu adentro, não nos restava mais que esperar de dedo esticado. É assim o fizemos.

Até parar um novo carro. Percebemos pelas primeiras palavras trocadas que seria francês, mas deixámos que se apresentasse. Era realmente de Paris, produtor num canal televisivo nacional e estava ali para fotografar o campo de refugiados de Idomeni, por onde depois passámos.

Tendas. Fogueiras. Tendas. Mais tendas. Luzes perdidas.

Gente. Mais gente. Crianças. Histórias de vida. Professores. Médicos. Mães. Pais.

Mulheres grávidas. Recém-nascidos.

Mais gente. E uma dor na alma. E um campo de refugiados.

Chegámos a Thessaloniki ainda meio atordoados, mas chegámos bem. Já tarde, cansados e fora de horas. O peso das mochilas vincava já os nossos ombros, quando percebemos que tínhamos pela frente ainda uma caminhada de 3 quilómetros muito especiais: sempre a subir! Restava-nos pouco mais que apelar à nossa força interior. Não foi fácil, mas no fim soube bem. Soube bem chegar a casa; à casa do couchsurfer que nos hospedou!

Cozinhámos muito, descansámos e passeámos nos doís dias que lá passámos. Caminhámos também muito, sempre a subir e a descer; sempre a descer e a subir.

Acreditámos por estarmos numa cidade europeia, que estaríamos em casa. Mas essa é a que trazemos às costas! Não mais iremos reconhecer por aí uma cultura assim. Mais que não seja porque de mota não usam capacete, mesmo lado a lado com a polícia. E andam com as motas pelos passeios, como se de estrada de tratasse. E é este apenas um exemplo!

Mas é bom, é interessante caminhar assim: na imensidão da novidade e da diferença. Só saindo da nossa zona de conforto podemos e conseguimos dar valor ao que temos; e só quando nos confrontamos com realidades diferentes, conseguimos sair do nosso mundinho, tão pequeno quanto o nosso umbigo. Insignificante e irrisório. E só assim podemos crescer. Na verdadeira essência do ser.

E a nós, permite-nos crescer juntos; amantes. Por entre medos e conquistas. Sorrisos destemidos e abraços silenciosos, que por si falam. Por vezes no meio do nada, sem nada; sabemos que temos tudo. Porque nos temos.

Na manhã de sexta-feira, 15, apanhámos dois autocarros para chegar à periferia da cidade: e o dia estava cinzento.

Começámos por caminhar muito mais que o previsto. E, no fim, estivemos mais de 6 horas à boleia, no mesmo lugar, com o sol quente e o céu azul. Percebemos assim o verdadeiro sentido da expressão 《viram-se gregos para lá chegar》.

Não houve um só carro interessado em ajudar. E foi só quando o cansaço venceu a esperança, que um carro parou! Repleta de boas energias, apressou-se a levar-nos e a ajudar-nos. Partilhámos muitas coisas, ficámos a conhecer a sua família e a sua vida, os seus projetos e as suas conquistas. E tudo sem saírmos do carro.

Optou depois por nos tirar da autoestrada e por nos deixar na estada nacional, por ter paisagens lindas e apaixonantes. E acreditou que seria mais facil para nós, ali, conseguir uma nova boleia.

A verdade, a verdade é que ficámos cheios até cima de uma paz interior inexplicável. Mas ao mesmo tempo, olhámos em volta: um lugar paradisíaco! Montanhas, o mar, flores. Natureza pura. Silêncio. E uma bomba de gasolina ao fundo.

E depois de nos termos visto gregos para chegar ali, achámos que nos veríamos também gregos para dali sair.

Passaram por nós vários camiões, mas não demorou mais que 10 minutos até parar um para nós! Um camião do Irão.

O motorista, Iraniano, entre gestos e poucas palavras; apresentou-se e apressou-se a dar-nos tudo o que tinha: uma banana, frutos secos, chá, sumo. E pouco depois, quando percebemos que falava um bocadinho de Italiano, sentimo-nos completos e capazes para comunicar. É-nos difícil descrever tamanha hospitalidade; mas vamos tentar. Por todas as horas que passámos juntos, ofereceu tudo o que tinha e mais ainda. O seu sorriso e o seu olhar diziam tudo: era um homem bondoso. Generoso! Humilde. Ofereceu a cama para que pudéssemos descansar e dormir (assim foi!!!), ofereceu  alimentos, café e ofereceu até a sua casa no Irão! Quando nos deixou, deixou-nos também um papel com a sua morada Iraniana e telefone; restou-nos prometer que à chegada lhe ligaríamos e que o visitaríamos. A ele, e à sua família.

Até a escrever e a recordar nos sentimos arrepiados.

Naquele momento poderíamos ter seguido até ao Irão – teria sido uma boleia longa e direta. Mas não quisemos – a Turquia, a Geórgia e a Arménia têm ainda muito que ver.

E ficámos então em plena autoestrada. Novamente à boleia e desejosos de chegar a casa do nosso novo couchsurfer! Mas ali, ali não precisávamos de conseguir uma boleia: estávamos a poucos quilómetros de casa e a caminhar também lá chegaríamos.

Palmilhámos a entrada da cidade: Alexandroupoli. O cheiro a mar. O som do mar. As estrelas no céu. A luz da lua. Mais nada interessava! E o calor, o calor desta primavera enriquecida em nós… Embora tão tarde, caminhámos sem grande afogo. E mesmo a caminhar, mantínhamos o dedo esticado.

Já perto do centro da cidade parou uma carrinha. Só lhe vimos uma boina: a do condutor. Era jovem. Como nós talvez. E simples. E simpático. E amável. Contou-nos que já nos havia visto mais atrás, mas que tinha ido primeiro deixar a esposa a casa; porque com só dois lugares na carrinha comercial, era impossível ajudar. Assim, um no colo do outro e lá fomos mesmo até à porta de casa!

Lá, sentimo-nos mesmo em casa: passava das 2 horas da manhã e estávamos a cozinhar e a conversar. Fomos recebidos de braços abertos, com muita ternura e cavalheirismo. E a noite voou! Na manhã seguinte, tirámos o visto electrónico para entrar na Turquia e voltámos à estrada.

Chegar a Istambul não foi uma aventura menor; e por isso fica para a próxima partilha.

Vimo-nos gregos para atravessar a Grécia, mas vimo-nos também felizes e enamorados até aqui. E assim o pretendemos (mais que estar) ser!

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os hábitos, a Macedónia

Não sabemos se é o mundo que está cheio de diferentes culturas, se são as diferentes culturas um verdadeiro mundo. Talvez as duas, repletas de novidades, estranhezas, conhecimentos, crenças, artes, leis e costumes. A moral. Os hábitos. Sociedades tão diferentes, tão ricas; cada uma na sua essência.

Não, não estamos ainda do outro lado do mundo. Nem tão pouco longe assim. Mas estamos agora numa Europa de leste, e foi por aqui que começámos a sentir desentranhar de nós mesmos tudo aquilo a que estamos comumente habituados.

Lá está, hábitos.

E certos agora de que esta metade da Europa possui grande diversidade étnica, cultural e religiosa.

É por isso que chegar à Macedónia foi uma aventura. E estar em Skopie tambéum.

Não maior que todas as outras até então, mas foi muito rica em novas experiências.
Saímos de Belgrado, na Sérvia, bem cedo. Afastámo-nos do centro da cidade e, depois de uma pequena caminhada, estávamos à entrada da via rápida, que nos levaria à autoestrada na direção da Macedónia.

Skopie era o nosso objetivo, e portanto ali ficámos até parar o primeiro carro. Conduzia-o um senhor iluminado. Tão simpático, sorridente e prestável. Feliz por nos conhecer, partilhou que fez muitas viagens a boleia com a nossa idade. Deixou-nos depois nas portagens, onde se daria inicio a autoestrada.

Ali, fizemos várias apostas entre nós: por brincadeira ou para passar o tempo, vamos balbuciando de tudo! E ali desafiámos que 1.“a segunda boleia seria de um camião” e que 2.“a probabilidade de apanhar boleia de um carro italiano nesta travessia seria de 0%”. Também equacionámos como seria avistar um carro português, mas depressa nos esquecemos disso, de tão remoto!

Apostas feitas, passaram poucos minutos até parar um camionista. Ficou assim encerrada a primeira aposta, tão certeira! E com rumo direto para Skopie! Um de nós já estava a vencer.

No camião a comunicação era rudimentar. Umas palavras em croata, outras em polaco e mais umas em inglês. Com gestos e sorrisos, conseguíamos entender-nos. E o mais engraçado no momento, tínhamos wifi “a bordo”.

Pelo caminho, comprou-nos comida e ofereceu-nos água. Mas foi também pelo caminho que percebemos que não nos poderia levar exatamente até à cidade. Aliás, não poderia levar-nos até à Macedónia sequer. E o pior, foram 5 horas para fazer 200 quilómetros. Mas, valeu a pena. Porque conhecer pessoas assim vale sempre a pena!

Quando nos deixou em plena autoestrada, estávamos receosos. Na Europa, tanto quanto conhecemos, pedir boleia numa autoestrada não é permitido e é perigoso.

Olhámos em volta e avistámos uma tasca!

Sim, uma tasca na berma. Na berma da autoestrada, a seguir às portagens. Percebemos então que ali, ali valia tudo.

Mas mantivemo-nos atentos, apreensivos. Um tanto de preocupados. E na ansia de não encontrar alguém que nos repreende-se por estarmos ali.

Mas foi quando nos voltámos que praticamente esbarrámos num polícia. Estremecemos. Passou por nós, contornou-nos e seguiu.

E quando ainda respirávamos fundo, percebemos que o senhor agente estava mesmo à nossa frente, também à boleia. Jamais pudemos imaginar tal desfecho! E claro, com a sua bela farda – de vantagem, desenvencilhou-se primeiro que nós. Agora sim, valia mesmo de tudo.

Este primeiro contacto com as diferenças foi muito interessante.

Interessante porque à medida que nos afastamos de cidades ocidentais o choque não é grande, mas existe. Mais ainda para quem se afasta lentamente, à boleia e por terra.

No entanto, dali, conseguimos uma boleia de um outro carro. Nesse, o caminho decorreu com pouca comunicação. Não havia margem além do servo-croata e portanto a barreira era grande. Em pouco tempo, estávamos os dois quase a dormir – ou mesmo a dormir. Mas foi uma boleia rápida: e fomos novamente deixados (literalmente) em plena autoestrada. Em qualquer outra parte percorrida por nós até então, diríamos que era uma péssima ideia. Não havia ali nada que fizesse os carros abrandar. A velocidade a que passavam era tanta quanto a que podem imaginar.

Mas não foi nada assim de extraordinário. Mostrámos a nossa placa com “SKOPJE” escrito e o segundo carro que passou por nós, parou.

Acontece, contudo, que sem que pudéssemos imaginar, o carro tinha matrícula italiana! Sim, exatamente isso, uma boleia de um carro italiano. E sim, foi essa a segunda aposta, só que em 0%. Inacreditável!

Pois é, o mundo é uma graça de tão imprevisível. E, sem exageros, mesmo com a aposta perdida, foi uma boleia muito querida. Deu até tempo para bebermos um café pelo caminho e trocarmos fotografias das nossas famílias.

Pela fronteira sentimos, como sempre, a tensão que a guarda cria e tenta transparecer.

Mas sentíamo-nos tranquilos no carro de alguém com quem comunicávamos fluentemente em italiano, que também falava inglês, e que sabia falar servo-croata, e ainda russo. E mais espanhol. Enfim, um doutor! E portanto a comunicação entre nós era privilegiada. E tudo se deu sem qualquer constrangimento.

Com mais um carimbo no passaporte, apanhámos por fim a última boleia do dia, que foi já para o centro de Skopie. Essa, foi um casal macedónio que nos deu. Falavam inglês (o que começa a ser pouco comum e nos faz ficar mo momentaneamente verdadeiramente felizes!) e sorriam-nos e olhavam para trás sempre que nos faziam mais perguntas, e mais perguntas, curiosos e fascinados. E nós, gratos! De coração a transbordar.

E assim chegámos à Macedónia. Assim, caminhámos para um país muito diferente.

À chegada, pudemos avistar muitas crianças sozinhas pelas ruas.

Soubemos que por aqui um salário usual são 200 euros, o que mal permite suportar a alimentação. Encontrámos uma cidade suja, e cheia de contrastes.

Acreditamos ter começado a assistir às tais diferenças culturais. Mais que diferenças sociais.

Pela cidade encontrámos pessoas a vender no chão ou em cima de caixotes. Encontrámos crianças abandonadas, a pedir e completamente desmazeladas. Muita gente a mendigar.

Muito mais pobreza. Muito mais confusão.

E também em Skopie encontrámos dois lados dentro da mesma cidade: um mais europeu, chamemos-lhe chique e cuidado, ainda que sujo e confuso: outro mais mesclo, chamemos-lhe pobre e desleixado, com um profundo cruzamento de etnias e religiões.

Também o facto de tudo se encontrar em cirílico nos tenha feito sentir já longe das nossas origens. Por palavras é difícil descrever, mas mesmo por fotografias é difícil falar. Porque não há nada como sentir o cheiro das ruas.

A hospitalidade da gente. Pela rua, querem oferecer-nos ajuda. Mais uma vez, repetimos, a troco de um sorriso. E repetimos que talvez seja esta a melhor moeda de troca do mundo. A mais poderosa. E a mais bonita. O sorriso.

Aqui também encontrámos mercados, típicos e antigos, como retratos destas vidas.

Não vimos, até a data, ninguém de mota a usar capacete.

O centro comercial de rua é escuro e, embora com lojas comerciais às quais estamos acostumados, não é convidativo. Nas paredes, sente-se a falta de limpeza. No chão, a ausência de cuidado. O clima.

Mas se quisermos caminhar um pouco também encontramos um verdadeiro centro comercial ocidental, com preços incomportáveis para quem por aqui sobrevive.

E ontem, ontem depois de termos finalmente conseguido trocar os nossos Dinares Servos por Denares Macedónios, ficámos estupefactos: na hora de fechar o mercado, as ruas encheram-se de resíduos alimentares. Fruta que já não está bonita, legumes que já não atraem os clientes. Tudo no chão e pelo chão fora.

Não que a cidade seja habitualmente limpa, como já referimos, mas naquele momento estava um verdadeiro enjoo.

Mas a repugna não era só visual. Estávamos destroçados com a quantidade de alimentos desperdiçados ali. Olhávamos em volta e ninguém parecia querer saber. Queríamos apanhar do chão tudo quanto víamos ainda em condições. Mas será que podíamos? Seria aceite? Muitas vezes pensamos que, fora de casa, o lema é “faz como vires fazer”; mas naquele momento os nossos corações batiam acelerados.

E foi quando vimos aproximar-se o jovem com a vassoura de arame e o carrinho do lixo, que perguntámos se podíamos apanhar o que estava ali, mesmo à nossa frente, desprezado e largado no chão.

Acenou com a cabeça e gesticulou com os braços, como quem diz que sim, que poderíamos levar tudo quanto quiséssemos.

Arregaçámos as mangas. Só foi pena não termos sacos Pingo Doce por aqui.

Lá está, os hábitos. Sociedades tão diferentes, tão ricas; cada uma na sua essência.

Por aqui também não sabem o que é reciclar. Vá lá, não atiram o lixo para o chão. Mas o contentor ser verde, amarelo ou azul, não tem qualquer significado. Aliás, já na Sérvia tínhamos perguntado por ecopontos e nos tinham dito que não havia. Mas a menina a quem perguntámos (numa loja Bio!), exclamou indagando – Uma vez fui a um país diferente e eles separavam o lixo. Aqui ninguém faz isso! Mas já agora, sabe porque é que fazem isso noutros países?

E é assim o mundo. Não admira portanto que ainda fumem em qualquer local.

Mas o mais importante, os sorrisos e as almas recheadas que se encontram em todas as esquinas.

Por aqui, agora, esperamos por novidades do nosso visto para o Irão. Não temos partilhado muito a respeito, mas esta é a nossa dor de cabeça: vistos! Mas os nosso corações nunca nos enganam: vai correr tudo bem.

Até lá, ainda temos muita arte por conhecer. Muitos cantos por descobrir, por amar. Aqui, ou em qualquer parte do mundo, há sempre um costume que nos falta. Um olhar por trocar.

Espera-nos para tão breve a Grécia e a Turquia, que mal podemos esperar!

O mundo vai na mão: temos sede de apalpar tudo. Conhecer tudo. Ser felizes assim.

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Hvala, Croácia. Hvala, Servia.

Eslovénia. Croácia. Sérvia. Macedónia.

O mundo não pára. E nós também não!

Que rodopio. Nem demos por ela, mas num abrir e fechar de olhos temos milhentas partilhas por fazer, milhentas histórias por contar. Fomos avançando, destemidos e encantados. Agora, agora resta-nos começar pelo principio. Por onde havíamos ficado:

A 4 de abril estávamos nós em Liubliana, prontos para dar asas à nossa caminhada.

Da Eslovénia até à Croácia é um pulinho, e por isso achámos que seria um instantinho. Enganados. Estávamos tão enganados.

Levámos quase um dia inteiro, mas achamos também que estávamos relaxados. Sabíamos que tínhamos muitas horas e portanto não nos deixámos preocupar. Portanto, tipicamente à portuguesa, só quando começámos a ficar mais aflitos é que começámos a trabalhar.

Para sair de Liubliana caminhámos uma hora e meia, com um intervalo para irmos ao supermercado abastecer-nos: na Croácia não pretendíamos trocar dinheiro e ali na Eslovénia as coisas também eram baratas. Portanto, tratámos da merenda e continuámos caminho fora.

Parámos algumas vezes na tentativa de apanhar boleia na via que permite sair da cidade, mas sem sucesso. Fomos por isso caminhando até uma bomba de gasolina local e aí perguntámos a algumas pessoas se poderiam levar-nos até à entrada da autoestrada. Com pouco acolhimento, voltámos a pôr as mochilas às costas. Quando nos preparávamos para caminhar mais 30 minutos, chegou um verdadeiro doutor. Um carro vistoso. Fato e gravata. Sapatinho branco brilhantina. Cabelo penteado.

Sorriso no rosto, coração aberto. Aceitou levar-nos sem qualquer prejuízo e ainda nos deixou o seu cartão para que nos encontrássemos mais tarde – quem sabe em Belgrado para ver o Liverpool jogar, a sua equipa de eleição. Deixou-nos então numa estação de serviço já na autoestrada. Bastante concorrida, com uma boa afluência de carros.

Mas nós parecíamos anestesiados. Percebemos que tínhamos wifi e aquilo que fizemos foi deixar-nos estar, a enviar alguns pedidos no couchsurfing e a mostrar a placa com o nosso destino: Zagreb.

Sabemos de antemão que numa bomba não é boa ideia estar de dedo esticado ou de placa esticada. Sabemos de antemão que numa bomba a estratégia perfeita é abordar as pessoas.

Estávamos tão anestesiados que deixámos que passassem por nós tempos e tempos.

Horas.

Até que percebemos que nos tínhamos de por mexer; tínhamos de nós fazer à vida.
Porque andar à boleia é como sonhar. É bom de pensar. Mas se não fizermos para acontecer, também não nos vai cair aos pés. Sem esforço e sacrifício nada se consegue.

E sem amor também não!

Acabámos pois por conseguir uma boleia de um jovem informático, que nos levou ainda por vários quilómetros e até uma nova estação de serviço. Nesta, nem tempo tivemos para pousar as mochilas e os sacos. Sem sequer pensarmos muito, o primeiro senhor que abordámos, meio em croata, meio em inglês, aceitou levar-nos. Nele e no seu colega, vimos generosidade. Pelo caminho, descobrimos que um deles falava italiano, e assim a barreira se quebrou.

É tão bom quando conseguimos comunicar. Quando conseguimos fazer-nos entender! Compreender e ser compreendidos!

À entrada da Croácia enfrentámos a primeira fronteira. Passaportes. Pediram para nos ver a cara. E interrogaram: o que vêm fazer? Quanto tempo? Porquê? Onde vão ficar? Qual a morada? E só depois nos deixaram seguir. Teve tanto de intimidador, quanto de desconforto. Mas passou, e acabou – como tudo – em bem.

Já mesmo à entrada de Zagreb, deixaram-nos onde não podiam: ainda na autoestrada. Corremos tanto quando conseguimos pela berma. Passos acelerados e atrapalhados. Já ofegantes, atentos. E de sorrisos no rosto. Chegar é sempre uma alegria tão grande, que mesmo ali no meio do nada e meio fugitivos, estávamos satisfeitos.

E foi um verdadeiro instantinho até conseguirmos seguirmos a última boleia do dia. Não nos levou ao centro de Zagreb, mas levou-nos para a periferia onde pudemos apanhar o tram. Uma jovem com um doce discurso, mostrou-nos interessada pela vida e pelo mundo. Falava além de croata, também inglês e italiano.

Nessa noite cozinhámos um petisco vegetariano, jantámos e pernoitámos na casa de um amigo italiano, amigo de uma amiga croata, de uma amiga nossa portuguesa, que está por agora a fazer um programa de voluntariado europeu (EVS). Vêm como é o mundo pequeno e gracioso?

Na manhã seguinte acordámos com o sol forte e radioso a chamar pelo nosso olhar.

Sem estore, cortina ou persiana, passava pouco das 6 horas da manhã quando abrimos os olhos pela primeira vez, atraídos pela claridade. Deixámo-nos dormitar por mais um pouco e acabámos por nos despachar ainda cedo, mesmo depois de um pequeno-almoço em família (como carinhosamente apelidamos, quando o fazemos com quem nos hospeda e com toda a calma do mundo).

No site do hitchwiki (onde consultamos partilhas de outros viajantes à boleia, como cotações de lugares para estar à boleia ou conselhos de viagem), pudemos perceber que de Zagreb a Belgrado a dificuldade era mínima. O lugar onde deveríamos ficar de dedo esticado estava bem definido ena maioria os relatos definiam-no como maravilhoso , com um máximo de 5 a 10 minutos de espera para se conseguir seguir uma boleia direta entre os dois países, as duas cidades.

Optámos por isso por nos afastar do centro da cidade novamente de tram, e à entrada da via rápida pedimos boleia para o tal ponto estratégico.

Apanhou-nos então um jovem, calmo e com um tom de voz tranquilizante. A forma como o conduzia e conversava era tão transparente e bondosa, que era impossível não gostar. Mas foi quando passámos pelo exato local estratégico onde deveríamos ficar, que ele sugeriu levar-nos um pouco mais à frente. Sem que pudéssemos imaginar, achou que seria bom deixar-nos nas portagens da autoestrada. Mas ali, ali era completamente impossível. Proibido. E o pior, estava a fazer uma mão cheia de quilómetros por nossa causa, para nos deixar num lugar que, achava ele, seria melhor. Mas não.

Não era.

De mal a menos, avistámos uma estação de serviço e dissemos-lhe que ali estaria perfeito.
Quando nos deixou, queríamos tanto agradecer-lhe pela sua generosidade, como pedir-lhe para voltar atrás aqueles 10 quilómetros. Sim, a bomba estava deserta.

Nem um carro.

Nem uma pessoa.

Nem ninguém.

Nem nada.

E o nosso lugar extraordinário lá atrás. Aquele, onde em 10 minutos conseguiríamos uma boleia direta para a Sérvia. Sim, esse mesmo, já lá ia.

Rabujámos.

Questionamos como tínhamos deixado aquilo acontecer.

Refletimos. Pensámos. Contámos carneiros. Lanchámos. E rabujámos mais um pouco.

Mas refilar não adiantava de nada. E por isso, mãos à obra.

Cada escasso carro que parava, era potencial luz no nosso caminho, e portanto dávamos tudo por tudo. Sorriso no rosto.

E de sorriso no rosto íamos ensaiando como perguntar entre croata e inglês. Não podíamos correr o risco de perder uma boleia que fosse porque não nos fazíamos entender. E fizemos. E conseguimos boleia.

Simpático era. Conversador também, no seu fluente Inglês. Mas no seu carro não tinha sofagem. Nem ar condicionado. Nem possibilidade de levar vidros abertos (a 160km/h). Então, no auge do dia, com sol e temperaturas a rondar os 30 graus, permanecemos fechados no seu carro tanto tempo, quanto o tempo da boleia. Não ia para Belgrado, mas ia na nossa direção até certa parte. Pelo caminho, o suor escorria-lhe e escorria-nos pelo corpo. As t-shirts que trazíamos vestidas já não tinham manchas de suor; já eram uma só tonalidade, molhadas por completo. E o jovem lamentava, limpava a testa com a mão e seguia caminho.

Não queríamos nem acreditar quando nos deixou, já a pouco menos de 200km de Belgrado, numa grande estação de serviço. Deserta também, mas com ar. Ar puro.

Nós estávamos completamente destilados. Sentíamo-nos como saídos de uma sauna de mais de 2 horas. O bater dos nossos corações dizia tudo. Tínhamos decerto a tensão baixa. E o pior, restava-nos pouca água no cantil.

Mas respirávamos. Tão fundo quanto podíamos. Do passeio fizemos assento. E já não nos lembrávamos da última vez que havíamos dado tanto valor a uma brisa fresca. De 28 graus, mas fresca ainda assim, naquele momento.

Num ápice as temperaturas estavam a mudar. E sem repararmos bem, o resfriado deu lugar ao a abafado.

Ali esperámos uma infinidade. Vimos chegar e partir autocarros turísticos. Vimos chegar e partir carros cheios, com famílias e famílias. Vimos chegar e partir camionistas.

Tivemos até tempo para ter acesso à password da internet do restaurante e a encher o nosso cantil. No fundo, já estávamos por ali como prata da casa. Até mesmo o garçon, o rapaz da bomba e os camionistas nos diziam para ir falar com este e com aquele, para nos levarem.

Pelo meio pedimos boleia a um rapaz que aceitou levar-nos na primeira instância, mas que depois de falar com o companheiro, se recusou. Era uma carrinha, espaçosa. Mas não reconsiderou. E mesmo indo para Belgrado, não nos levou.

Talvez tenhamos esperado pouco menos de 3 horas nesta estação de serviço.

Não que estivéssemos ansiosos ou fartos. Não que estivéssemos entusiasmados ou energéticos. Se tivéssemos que nos descrever, estávamos assim-assim. Tínhamos latente no pensamento que bastava-nos ter ficado no lugar mágico inicial para ter dado certo à primeira. Mas depois, depois pensamos sempre que nada acontece por acaso. Que se assim foi, foi porque tinha de ser.

E aí, aí entrelaçamos os dedos e olhar. E sentimo-nos unidos. Em sintonia. E com fé. No mundo. No amor. E nesta nossa caminhada.

Foi então que conseguimos uma boleia encantadora. Fato e gravata, estavam ambos a esticar as pernas da longa viagem. Iam exatamente para Belgrado e conseguiam comunicar em inglês. Não fluente, mas o suficiente para nos querermos conhecer, mais, e mais um bocadinho. E assim foi, de tal forma, que antes de nós deixar, quis levar-nos a passear.

Levou-nos a um jardim junto ao rio e na periferia da cidade, onde sozinhos dificilmente iríamos. Passeou-nos e conversou tanto quanto conseguiu. Para a despedida um “obrigado” parecia pouco! Mas era tudo o que tínhamos. Isso e desejos: desejos de que o melhor se encarregue de a si voltar.

E estávamos então na Sérvia, com o primeiro carimbo no passaporte e 60 boleias apanhadas desde que saímos de casa. E na fronteira, vimos infelizmente o rapaz da carrinha que por fim não nos quis levar, com esta aberta e desoejada, a ser exaustivamente revistada. É, nada acontece por acaso.

Já em Belgrado não encontrámos amigos de outrora, mas fizemos novos. Recorremos ao couchsurfing, e sem esperarmos por isso, acabámos a jantar e pernoitar com a filha do ex-Primeiro Ministro da Bósnia. Com uma mão cheias de aventuras para partilhar, fizemos dos serões livros de histórias.

E pela cidade, encontrámos as primeiras diferenças culturais. A Europa já não estava tão empregnada como outrora. O alfabeto cirílico. Os vendedores de rua de tudo e alguma coisa. As lixeiras e contentores comuns. A ausência do inglês. A sujidade. O cheiro.

A confusão urbanística e a hospitalidade do povo.

Por duas vezes, parados, veio até nós gente. Procuravam perceber se precisávamos de ajuda. E apressavam-se a aconselhar-nos ou a propor visitar o que de melhor sabiam. A troco de um sorriso.

Talvez seja esta a melhor moeda de troca do mundo. A mais poderosa. E a mais bonita.

O sorriso.

E com um sorriso na alma, prometemos depois partilhar com foi então partir da Sérvia e chegar até aqui, à Macedónia.

Por agora temos de dormir, descansar as pernas, as costas, o corpo e a mente. Temos de descansar este olhar atento pelo mundo. E temos de nos preparar para amanhã conhecer Skopie de sorriso no rosto.

2016-04-08 02.45.482016-04-08 02.43.302016-04-08 02.43.102016-04-08 02.41.542016-04-08 02.40.58IMG_70482016-04-07 00.34.15IMG_70472016-04-07 00.31.572016-04-07 00.47.042016-04-08 02.44.232016-04-07 00.45.252016-04-07 00.31.27

Verona e dopo Venezia

Torino, una bella citta!

E não encontrámos só uma bela cidade, como uma bela casa, onde fomos acolhidos com tudo o que de melhor poderíamos desejar. Amigos de amigos, que magia! Fazia sol pela manhã, quando a deixámos, bela ainda.

Entusiasmados com a partida para Verona, mas receosos. Viajar à boleia por Itália parece um verdadeiro enigma: não sabemos o que leva cada condutor a virar a cara ou a ignorar a nossa presença, a nossa mão, a nossa placa. Mas sabemos que o fazem, melhor que ninguém.

Aliás, depois do primeiro contacto – onde estivemos 6 horas, que nem inergumes, a ser ignorados – percebemos como iriam ser estes próximos dias. Mas, se a paciência nos faz sábios; a tolerância faz-nos fortes. E tudo o que precisamos nesta viagem é de força: força para seguir, força para não esmorecer, força para lutar, força para ser mais e melhor. Força. E juntos, somos uma força muito especial!

Ainda no centro de Torino, e com alguma fraqueza no que respeita a fazer 4 quilómetros a pé para abandonar a cidade, de mochilas às costas e tralhas infindáveis, decidimos por-nos à boleia. Ali mesmo.

Olhavamo-nos, olhos nos olhos. E sabíamos perfeitamente que não é no meio de uma cidade que uma boleia aparece. Sabiamo-lo de cor. Mas parecíamos enraizados: os carros passavam e passavam, e continuávamos à espera da nossa sorte. E ainda bem, porque ela chegou. Chegou num carro, com um casal! Ela Romena, ele Italiano. Viram na nossa placa “TANGZ”, e perceberam que queríamos ir apenas até à entrada da tangencial, uma espécie de autoestrada. E assim – inesperadamente! – conseguimos o nosso bilhete de saída de Torino; a cidade do ‘Tourozinho’.

Mas a passagem não estava completa.

À entrada da tangencial, esperámos mais de 1 hora. Talvez quase 2! Minutos e mais minutos, com pouca esperança e muita certeza: avistava-se um longo dia.

Mas havia força. Corações fortes.

E quando menos esperávamos, escondemos a placa que tinha o nosso destino (porque às vezes é preciso mudar algo para dar certo), e parou uma carrinha. Um senhor Egípcio, levou-nos até à primeira estação de serviço, dentro já da autoestrada. Às vezes é assim, para avançar não interessa bem para onde vão, desde que nos ajudem a avançar para um lugar mais estratégico: uma bomba de gasolina, claro. E no fim, enquanto nos despedíamos, ainda nos ofereceu 4 das suas maçãs, como farnel para a nossa viagem. Porque quando menos esperamos, é assim, brota a bondade humana.

Confiantes e mais animados, depois destas duas boleias não tão morosas, abordámos todas as pessoas que víamos pelo restaurante da área. Uma por uma. Dezenas. Muitas. Carros cheios, carros de empresas, outras direções, medos; ouvimos de tudo. Mas sempre com o mesmo desfecho: não podiam levar-nos. E como sempre, ainda apareceu que oferecesse lugar para um: mas recusámos e recusaremos sempre.

Porque é juntos que somos a força.

O amor.

E mantivemo-nos atentos até aparecer um senhor que aceitou levar-nos, mesmo com duas cadeiras de bebé atrás e muitas coisas no carro. Parecia mais tímido que assustado, mais envergonhado que incomodado. Mas de sorriso acanhado, arrumou tudo de forma a que coubéssemos e ficássemos o mais confortáveis possível. E arrumou também todas as ideias durante a viagem, enquanto lhe explicámos esta nossa aventura.

Foram poucos quilómetros (ainda que tenha dado para um sono profundo!), e acabou por deixar-nos numa nova estação de serviço. Aqui por Itália todas as que temos encontrado têm restaurante, o que nos ajudou por ser hora de almoço.

Mas aí, cada tiro, seu melro. Difícil.

Arriscaríamos dizer que 70% foi dizendo que não ia na nossa direção. E 20% tinha o carro cheio. Mas, andar à boleia é assim.

Com calma, só temos de esperar. Porque cedo ou tarde, alguém nos leva. E como nesta viagem, trocámos o relógio pelo bater do nosso coração, tempo é tudo o que temos.

Acabámos assim por abordar um jovem, que sem grande pensar, assumiu ir na nossa direção. No entanto, enquanto decidia se nos levaria – ou não, falando com a sua esposa, fomos perguntando na mesma a quem passava. Sabíamos que, caso aceitassem dar-nos boleia, nos iriam deixar a 150 quilómetros de casa. Mas não deixava de ser uma boa ajuda! Por isso, continuávamos a perguntar, mas só os trocaríamos caso alguém fosse para perto de Verona.

E, nos entretantos, passou por nós um casal jovem e sorridente. Emanavam uma simpatia incomum por aqui! Emanavam uma energia doce e boa de sentir! E foi quando lhes falámos, que disseram ir mesmo para pertinho do nosso destino.

Pelo caminho conversámos em Inglês: uma zona de conforto para os 4. E foi bom, foi bom porque partilhámos 200 quilómetros de vivências, de histórias, de vida. E eles vão casar em breve. E vão em lua de mel também em breve. E vão viajar muito também em breve. E é então fácil perceber como nos ligámos.

Deixaram-nos depois a 15 quilómetros de casa; da casa da nossa segunda Couchsurfer. Uma jovem que, embora tenha rejeitado o nosso pedido, disse alojar-nos caso não tivéssemos outra alternativa ou resposta positiva, pois havia gostado da nossa mensagem. Pois a ela, só podemos estar gratos!

A ela e a todos os que se cruzam no nosso caminho; até mesmo aqueles que viram a cara e fingem não nos ouvir (quando lhes perguntamos se vão na nossa direção). Porque mesmo aos maus bocados estamos gratos. Gratos pela aprendizagem.

Quando nos deixaram na estação de serviço, pouco antes de Verona, o sol já estava baixo. No lusco-fusco. Percebemos que ali estávamos um pouco perdidos. Dificilmente alguém com o nosso destino pararia a tão poucos quilómetros de casa. Mas não nos restava outra opção senão perguntar a todos os que víamos, se nos poderiam levar. Bom, poderíamos sempre caminhar, claro está. 3 a 4 horas e chegaríamos. Mas na autoestrada não é possível. De todo.

Portanto, boca, para que te queremos?

Não, não foi nada fácil. É que, ali, nem nos olhavam. Faziam desvios infinitos só para nos contornarem. Se olhavam, era de esguelha. Outrora, até podíamos cheirar mal ou ter mau aspeto, mas não demos por isso. 🙂

Acabámos depois por receber uma mensagem da nossa couchsurfer dizendo que nos poderia ir buscar, se lhe explicássemos onde estávamos concretamente. Mas, mas só para que conseguisse chegar ao nosso lado, implicaria além de quilómetros, portagens.

Foi então que ao passar de mais um senhor, lhe perguntámos se iria na nossa direção. Disse que não. E posteriormente acrescentou que já estavam 4 num carro. Mas insistimos pedindo ajuda para explicar à nossa amiga onde nos poderia ir buscar. Conversa e explicações à parte, e no fim já estava a família ali reunida; esposa, filhas e cachorro. E no fim dos fins, o carro tinha 6 lugares, e quis levar-nos!

Pelo caminho, ouvimos as suas histórias além-fronteiras e falámos sobre ‘O mundo na mão’. Foi tudo tão espontâneo, que quando nos deixou, ainda nos ofereceu uma garrafa de vinho, dois abraços, uma foto e a promessa de um novo encontro, em Portugal!

Estávamos assim na cidade do amor, do Romeu e da Julieta. E com pouco mais de 30 minutos caminhando, estávamos em casa! Doce e acolhedora. Com um jantar vegan acabadinho de fazer e que nos consolou de quentinho e saboroso.

E quando o despertador tocou na manhã seguinte, estávamos novos e fresquinhos. Claro, aceitaríamos ficar na cama por mais um par de horas, mas estávamos prontos para conhecer a linda cidade de Verona, todos os seus encantos e ainda a casa de Romeu e Giulieta.

E assim foi, encantador; mas não mais que o que estava para vir.

A primeira boleia para Veneza foi difícil de obter. Não que tenhamos estado muito tempo à espera, mas fizemos vários quilómetros e mudámos várias vezes de sítio. Pedimos boleia, pelo menos, em 3 lugares diferentes. Nenhum nos parecia bem, em nenhum sentíamos que ia dar certo. Então mudámo-nos várias vezes. E já não era só os ombros que nos doíam: eram também as pernas. Era também o cansaço no pensamento, mais que no corpo, porque o desgaste não se faz só fisicamente. Às vezes, acreditar é a única solução para ter força. E a melhor.

Já várias horas depois entre caminhadas e esperas, chegámos ao limite (não nosso): estávamos à entrada da autoestrada que seguia para Milão e Veneza. E dali, não podíamos passar.

Ouvimos ainda que em Itália é proibido andar à boleia, como já antes havíamos ouvido. Mas essa proibição é estritamente relativa às vias rápidas, e isso é aqui na Itália e em todo o lado. E depois da polícia passar várias vezes por nós, deixámos-nos estar, tranquilos. Ou ansiosos, por sair dali.

Mas aí, a espera não foi morosa. Encostou um carro, e conduzia-o um senhor muito simpático. Percebemos depressa que pela sua pronúncia a falar inglês não seria Italiano, e não era. Era Estado Unidense e muito conversador!

Levou-nos pois até uma estação de serviço, ainda na autoestrada. E agora o suposto seria dizermos que por lá ficámos tempo infinito porque estávamos em terras italianas, e que como tal, pedir boleia é um verdadeiro martírio. Mas não foi.

Não foi nada disso. Para nossa grande surpresa, foi tudo num piscar de olhos. Talvez tenha sido a terceira ou quarta pessoa que abordámos. ‘Mi scusi , stai andando in direzione a Venezia?, e de pronto ouvimos ‘Andiamo, vine!’. E fomos! Era um jovem, e nem hesitou em ajudar-nos. Passou grande parte da viagem a tratar de negócios seus pelo telefone, mas pelos intervalos, pudemos conhecer-nos.

E sorrimos, incrédulos ainda e felizes, quando nos deixou. Deixou-nos a uma ponte de distância de Veneza. Sim, tínhamos somente que atravessar a grande ponte que permite chegar à ilha de Veneza. Tínhamos hipótese de apanhar o comboio ou apanhar uma nova boleia. Mas foi fácil decidir, tão fácil. O sol não raiava, mas permanecia lá em cima, escondido por entre as nuvens. Iluminava-nos ainda. Tanto quanto o nosso bem estar.

Decidimos por isso continuar como até então: de dedo esticado. Resolvemos colocar-nos entre o fim da estação de serviço e a entrada da autoestrada. E não demorou até conseguirmos uma nova, e a última, boleia. Estávamos perplexos. Boquiabertos.

Incrédulos. Do 8 ao 80.

Tinha 60 anos, e havia viajado muito à boleia em Itália pela sua juventude fora. Estava tão feliz por nos levar, quando nós por estarmos a chegar em tão boa companhia. A boa vontade deste senhor, o seu bem-querer perante nós; é inexplicável. Os seus olhos jubilosos, partilhavam entre nós a saudade que guardavam das suas aventuras. E até mesmo para nos despedimos foi demorado. Havia tanto para partilhar, tanto por dizer, que dava pena seguir em frente.

Mas não foi só nesta despedida que o sentimos.

Sentimos pesar em todas as despedidas que fizemos até hoje. E começaram até antes da partida. Mas neste caminho, deixar para trás aqueles que deixaram algo em nós, custa. Em cada adeus, ou até já, o nosso coração lateja. Lateja mais do que bate. Porque fica apertado, apertadinho.

É duro, mas ouvimos por aí dizer que faz parte. E faz: faz-nos mais fortes.

Hoje, não só palmilhámos Veneza (sim, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não é preciso andar de gôndola ou de barco para conhecer esta cidade!), como ainda reencontrámos um amigo de viagem e fizemos um grande e lindo jantar para os amigos que nos estão a hospedar.

Pela noite adentro, deixámo-nos apaixonar pelo mar por entre cada rua estreita, e por cada reflexo de luz nele feito.

Amanhã seguimos com rumo à fronteira, e pernoitaremos em Trieste. Depois, a seu tempo, chegaremos a Liubliana, na Eslovénia. Depois virá a Croácia, a Sérvia, a Macedónia e por aí fora. Virão mais quilómetros. Virão mais pessoas. Virá mais amor.

De 49 boleias até então, virão também mais, muitas mais. E virá o Mundo.

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Mamma mia!

Mamma mia! 

Faz já alguns dias que escrever tem ficado para segundo plano. Não que nos tenhamos esquecido, não que não tenhamos vontade de escrever. Mas porque os dias têm tido poucas horas para tudo o que temos vivido.

Dia 25, ainda no turno da manhã (e pela primeira vez!), saímos de Cannes, com o objetivo de chegar ao Mónaco. Este país, embora pequenino, é um verdadeiro mundo deslumbrante. E por isso decidimos ir até lá durante o dia e regrassar à noite para Nice, onde pela primeira vez nesta viagem utilizámos o couchsurfing.

Pouco passava das 9:00h e já o sol estava muito quente. Sentíamos os ombros quentes e desejosos de largar as mochilas, mas a primeira boleia do dia não tardou assim tanto. Era um senhor sorridente que, depois de ter estado a viver no Brasil, nos cumprimentou com um “Olá!”. A boleia foi curta, mas a conversa animada! Deixou-nos depois numa nova entrada para a autoestrada que seguia com direção ao nosso destino.

Lá,  conseguimos a segunda boleia e direta para o Mónaco. Um Mercedes, dos grandes. Confortável e alto, de onde se avistava o mar e toda a paisagem a que tínhamos direito. As partilhas foram tantas, que tivemos até pena de deixar o carro. Os assuntos comuns, os gotos, as histórias; foi gracioso.

O Mónaco, palmilhamo-lo de cima a baixo. Com mais ou menos cansaço, entre a beira-mar, o casino, o porto ou os jardins; conseguimos por 1 hora ter onde deixar as mochilas, o que nos aliviou e deixou mais à vontade. A verdade é que com toda a instabilidade deste mundo, não é fácil que aceitem guardar as nossas tralhas. Mas, no fundo, tivemos sorte.

Já ao final do dia, de depois de algumas aventuras juntos, tratámos de regrassar para Nice, onde queríamos pernoitar e onde nos esperava uma couchsurfer. Mas foi quando nos tentámos pôr ali à boleia, que percebemos que no Mónaco era proibido fazê-lo. Já nos tinham tentado avisar, mas nenhum de nós havia percebido!! Afinal, tinham-nos dito que deveríamos ir para depois da fronteira, mas até lá apenas tínhamos compreendido que um bom sítio para pedir boleia seria uma rua “…..border“. Que dois.

Caminhámos então, montanha acima, até que vimos uns caixotes do lixo com indicação francesa, podendo nós decerto a partir daí pedir boleia.

Bandeira de Portugal às costas, e enquanto esperavamos, percebemos que a sinalizar o trânsito estava um português! Saudou-nos, desejou-nos boa sorte. E pois que a tivemos! Não queremos mentir, mas foi muito rápido! Duas senhoras, meia idade. E iam mesmo para Nice e para a mesma zona da cidade!

À chegada, e assim que deixámos o carro, deparámo-nos com leões enjaulados. Cães. Animais. Era um  circo. Que triste. Ficámos triste com este primeiro impacto, que claro, poderia ter sido em qualquer outro lado, ou infelizmente, até mesmo em Portugal. Que infelicidade. Que mágoa. Como podem ainda algumas pessoas acreditar que os animais ali são bem tratados? Que são felizes no circo?

E seguimos. Seguimos com aquela imagem latente no pensamento. E na alma.

Demos uma pequena volta por Nice, já com as estrelas no céu e com o peso das mochilas insuportável. E terminámos numa casa acolhedora, com um manjar dos deuses português – alho francês à Brás e cogumelos grelhados, e uma companhia muito agradável!

Na manhã seguinte, o sol raiava pela janela do quarto. Pouco passava das 6 horas da manhã e já a luminosidade era forte, tão forte que nos despertava dos sonhos e nos fazia confirmar constantemente o relógio.

Pouco passava das 10 horas, e estávamos novamente à boleia. Caminhámos pouco para sair de Nice. Pouco porque em França encontrámos com muita facilidade ruas onde é proibido caminhar. Proibido para segurança das pessoas, mas não deixa de ser proibido. O que nos leva a ter de ir dar uma grande volta, ou a ter de esperar pacientemente no início da estrada, ou rua.

Neste caso, o lugar não era o melhor, mas não tínhamos para onde ir. Era naquela direção que estava a estrada que queríamos apanhar para seguir caminho, e por isso limitámo-nos a esticar o dedo.

E no imediato, parou um carro! Nem estávamos bem atentos ou prontos, ou à espera que acontecesse. E no carro, estava apenas uma senhora, com um hijab – espécie de véu que as muçulmanas usam, que lhes cobre o cabelo, orelhas e pescoço. Envergonhada, mas amável. As palavras não lhe fluíam, mas o olhar era ternurento. Ter parado, demonstrava a sua generosidade. Porque no fundo, não nos levou para longe; mas deixou-nos mesmo à entrada da autoestrada que seguia para Itália. E era mesmo em Itália que tínhamos a próxima casa. A próxima família. O próximo destino.

Da entrada da autoestrada, conseguimos outra boleia. Desta, era um jovem numa carrinha, que havia reconhecido a nossa bandeira por já ter estado no festival BOOM – e bom, nunca pensámos que este festival fosse tão internacional. Deixou-nos depois, numa estação de serviço,  já a poucos quilómetros da fronteira.

E lá pernacemos ainda uma hora, ou um pouco mais. Muitos dos que por ali passavam iam apenas a um mercado perto da fronteira e fora da nossa rota. Muitos eram já Italianos e não tanto acolhedores. Muitos iam com o carro cheio.

E decidimos deslocar-nos para o fim da estação, para petiscar alguma coisa e ao mesmo tempo esticar o dedo. Ali, não tínhamos placa. Não adiantava, porque se escevessemos uma cidade, a maior parte não conhecia. Se escrevessemos Itália, era desperdiçar cartao: por ali, não tinham hipótese, todos iam passar a fronteira.

Estavamos por isso, é literalmente, com o mundo na mão. Dependia do nosso dedinho, esticado, seguir mundo fora.

E dependia também do nosso estado de espírito. Da nossa vontade. Dos nossos desejos.

Sorrisos esperançados, ainda o dia ia a meio.

Pararam depois vários camiões. E estranhámos. Sabiam que éramos dois, e mesmo assim paravam – o que ocidentalmente não é comum. Mas como eram romenos, achámos possivel. Os dois primeiros, embora a comunicação fosse rudimentar, acabaram por dizer que não iam na nossa direção dentro de Itália , mas o último foi o que se fez entender melhor. Infelizmente, gesticulou que esperava favores sexuais ao levar-nos. Ou mesmo que não fosse a troco da boleia, achou que os incluiría.

E aí, sentimo-nos pequeninos, pequeninos. Agonizados. E consciencializados do motivo pelo qual todos estavam a parar…

Acabámos por nos deslocar para a a zona de abastecimento e abordámos as pessoas. Pode levar mais tempo, ou menos, nunca sabemos. Mas a crença é simples: cabe a nós escolher a quem perguntamos e alguém nos há-de levar. E assim foi! Conseguimos boleia para Savona, que ficava depois a pouco mais de 100km de Bra – uma pequena cidade antes de Torino, onde uma amiga nos esperava. Levaram-nos dois jovens da casa dos 40, e um deles estava a concluir a sua volta ao mundo: imaginam pois a quantas partilhas deu aso. Maravilhoso!

Já em Savona, acabámos por por ficar numa outra estação de serviço,  mesmo antes da nova autoestrada onde pretendíamos seguir. Aí, como sabíamos perfeitamente qual a direção, optámospor escever na placa “A6 TO” – autoestrada 6 com direção a Torino e colocar-nos no fim da estação; pois na bomba havia também restaurante, e quando abordavamos uma pessoas, perdíamos outras.

No fim da estação estivemos talvez 2 horas, até aparecer um viajante Eslovaco – como nós, que além de humilde, queria ajudar-nos. Entre Italiano, Francês e Espanhol, com um verdadeiro mix de línguas, conseguiu explicar-nos que havia um sitio um pouco melhor para estarmos; e acabou por levar-nos até lá!

Lá, eram as portagens. As portagens que davam  acesso à autoestrada e onde era permitido estarmos. Lá, os carros tinham espaço para parar. Lá, estávamos abrigados. Lá, tinha luzes (caso escurecesse). Era realmente melhor! Mas foi lá que permanecemos mais 4 horas.

Mamma mia!

Valia-nos que agora, com tamanha modernice, em todo lado encontrámos wifi. E ali, não era exceção. Conseguíamos por isso estar conectados, e a receber força. O que não deixou de ser engraçado, porque há uns anos era impensável. Recebemos até uma video-chamada de Portugal, onde alguns amigos se reuniram para nos deixar um abraço. Que amores!

Mas mesmo com essa força extra, começavamos a deixar-nos esmorecer. Eram centenas e centenas os carros que já tinham passado por nós. Eram mais de 6 horas no mesmo sítio. Eram estrelas no céu.

Mas parou, parou uma senhora iluminada. Podemos chamar-lhe até mãe galinha, porque estava mesmo preocupada connosco. Avisou-nos vezes sem conta que iria seguir apenas 20 quilómetros na nossa direção. E embora tenhamos aceitado, não estávamos de acordo. Havia de um lado o desejo de deixar para trás aquele lugar; do outro receio de ir para um sítio pior, sem trânsito e sem abrigo. Mas fomos.

Fomos e pelo caminho pediu-nos que apanhássemos um comboio para o nosso destino. É difícil explicar a uma senhora, a uma mãe ou alguém que nunca saiu da sua zona de conforto que a nossa viagem não é feita de autocarros,nem de comboios, nem de táxis. É dificil, e por vezes duro. Para todos.

Porque se alguém acha que é fácil estar à boleia, várias horas, com mochilas de 15 quilos às costas, com neve à volta, e de noite; desengane-se. Não é fácil. Não é (tudo) bonito.

Talvez a culpa seja também nossa, porque quando contamos as histórias, já está tudo tão bem, que o que foi mau fica para trás. Mas não é por isso que deixou de acontecer. Porque aconteceu.

É que no fim, acaba sempre tudo bem! Mas e até lá?

Pois é, quando a senhora nos deixou, numas novas portagens, o frio era implacável. Parecia que nos penetrava! Os narizes pingavam. Em poucos minutos tínhamos as capas das mochilas molhadas. A neve à nossa volta fazia-nos questionar em que país estávamos. Como é que 20 minutos de estrada faz o clima tão diferente?

Esperámos.  E continuámos a espera.

Mamma mia!

Quase gelados, já com meias extra por cima de meias, não percebiamos como é que com carros a passar apenas de 5 e 5 minutos, nenhum queria saber de nós. Até que parou um carro. Abençoado!

Abençoados jovens! Da nossa idade, genuinamente simpáticos. Iam mesmo na nossa direção por mais 60 quilómetros, para esquiar. E foi uma sensação indescritível entrar naquele carro, quentinho e repleto de boas energias.

Quando nos deixaram, despedimo-nos com beijinhos e abraços. Sentimo-los felizes por nos terem ajudado. E nós, uma vez mais, tão, mas tão gratos.

Mas no mesmo instante em que tiravamos as mochilas, parou um carro atrás. Percebeu que éramos viajantes e tentou oferecer-nos boleia a troco de combustível. Uma vez mais, recusámos. Mas por entre a conversa, acabámos por perceber que falávamos todos português e que o senhor era de Angola. Com tamanho patriotismo, quis então ajudar-nos e acabou por nos levar até Mareme, a 8 quilómetros do nosso destino; passava já  das 23:30h.

Foi uma boleia animada. Ia buscar um amigo a Torino, mas queria também muito ajudar-nos. Tanto, que em 5 minutos já queria arranjar-nos uma carta de chamada para visitarmos Luanda! O único senão, dos grandes, foi que nos deixou em plena autoestrada, junto à saída da cidade para onde íamos. E nós, carregados de tralha, e carregados de alegria por estarmos a chegar, caminhámos. Limitámo-nos a caminhar vigorosamente, depois de termos avisado a nossa amiga que estávamos a chegar. Combinámos pois um ponto de encontro numa rotunda que daria acesso à autoestrada, e caminhámos até lá.

Caminhávamos de formá acelerada, que agora que verbalizamos,não sabemos ao certo tudo o que nós movia. Se o desejo de chegar. Se o medo de sermos apanhados pela policía a andar ali. Se o cansaço. Se a alegria. Certo é que fizemos 3 ou mais quilómetros sem questionar um único passo.

Mas já mesmo com a rotunda ao fundo, avistámos luzes azuis. Mamma mia!

E aí corremos. Corremos como se não houvesse amanhã. Não sabemos onde estavam essas forças guardadas, mas o instinto e a sobrevivência são realmente uma força da natureza.

E quando os encontrámos, já os senhores agentes estavam a tentar autuar a nossa amiga por estar estacionada na rotunda. Só que quando ela lhes explicou que esperava por nós, acreditamos que ficaram sem saber o que dizer. Porque ela havia dito a verdade: esperava ali dois amigos vindos de Portugal, à boleia, e que estariam a chegar a pé. De tão milaborante, quando nos viram chegar perto, mesmo com um ar pouco amistoso, limitaram-se a dizer que era proibido caminhar na autoestrada e estar estacionado ali. E seguiram.

E seguimos nós também, felizes! Inacreditavelmente felizes.

Incrédulos com a dificuldade que é andar a boleia em Itália: porque para pouco mais 180 quilómetros, levámos horas infinitas. Um dia, do nascer ao pôr do sol e ao erguer da lua. 180 quilómetros em Portugal fazem-se num punhado de horas. E Portugal não é de todo o paraíso das caronas.

Por Bra ficámos uma noite e um dia. Deliciámo-nos com uma típica família italiana e com uma típica pasta ao almoço. E ao fim do dia de ontem, viemos até Torino. Uma cidade magestosa! Mas que hoje não conseguimos ainda conhecer. É que hoje tínhamos horas de sono, e muitas partilhas, em atraso. Aqui, estamos com um amigo de uma amiga, também couchsurfer e com um mundo de partilhas.

Em breve, seguimos na direção de Milão, de Verona, de Veneza e de Trieste. Com rumo a Liubliana, na Eslovénia – com a certeza de que, dia após dia, somos mais unidos e mais fortes.

Nos entretantos, desejamos uma Páscoa Feliz e vegana a todos os que nos seguem. ❤

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