Foi o Cambodja.

De sorriso fácil.

De essência simples. Genuíno. Doce. E simpático. De olhos de amêndoa. Pele escura. Sorriso no rosto. De boas gentes. De um verde infinito. De sabores. De cheiros. De calma e euforia, num misto. De história. De crenças. De budistas. De frutas tropicais. De flores. De aromas. De tuk tuks. De Khmers.

É o Cambodja.

(E adiantamos já que nos rendemos ao seu encanto.)

Chegámos a Phnom Penh, vindos de Ho Chi Minh, no Vietname. Na fronteira, mesmo com a chuva intensa que se fazia sentir, foi de boa vontade que nos receberam e a ajudaram a tratar do visto. Mas burocracias à parte, sentimo-nos em casa!

Descansados, seguimos. Seguimos a pé e sempre à boleia, até apanharmos a nossa primeira boleia, de um autocarro turístico. A zona, fronteiriça, embora pobre e pouco cuidada, ostentava em seu redor uma vasta panóplia de casinos – já velhos e pouco cuidados, mas aparentemente a funcionar!

No autocarro que nos levou seguiam pouco mais de 10 passageiros, vindos das Filipinas e com um inglês fluente. E muito embora não tenhamos partilhado o nosso tempo, tivemos a infelicidade de assistir a um atropelamento, que deu azo a conversação, de um senhor numa mota, e fuga. Ficou estendido e inconsciente. E nós alarmados. Mas segundo consta, não foi fuga, nem abandono, nem nada: foi o normal. Ups, bateu. Seguiu.

Continuámos viagem e chegámos a Phnom Penh já o sol se tinha posto. No autocarro, quem lá seguia deixou para trás várias embalagens ainda fechadas de comida, sandes ou folhados, ou coisas do género, que embora tivessem carne, recolhemos e entregámos a quem vimos a necessitado. Uma tristeza, este capitalismo exacerbado e o desperdício de comida a que assistimos diariamente.

Na cidade esperámos pelo couchsurfer com quem ficámos por duas noites: duas noites calmas, no encanto e no sossego desta nova cidade, duas noites de descobertas e muitas partilhas.

É tão bom ficar com um local, deixar que as tradições e o que são se nos entranhe na pele e no coração.

Loucos com a quantidade de tuk tuks por cada rua, visitámos a cidade, por entre sorrisos e o Khmer que íamos apreendendo com cada condutor que entusiasmado perguntava “do you want tuk tuk with me?”.

E com tudo em dólares, seja no mercado ou lojas, com esquecimento sobre os rials (moeda oficial), mandam preços para o ar de forma convidativa, sem noção do que queremos, esperando que queiramos o que todos os turistas querem!

Muitos templos, muitas pagodas, muito sol, muitos mercados, muitos monges, muitos turistas. Muita fruta, muitos legumes frescos. E muita coisa gira para ver. E fazer!

Muita história gravada na pele de todos aqueles que fomos conhecendo, nomeadamente nos templos que fomos visitando. Sentimos muita pobreza e encontrámos várias crianças/famílias sem abrigo, muitas delas a viver onde se reza e a ser educadas e instruídas por monges. Habituadas a pedir a todos aqueles que lhes pareçam estrangeiros, o contacto torna-se superficial e até mesmo estranho. Às crianças, fogem-lhes por entre os dedos as brincadeiras de rua, estendendo as mãos para pedir uma esmola sempre que a imaginam.

Já na última noite, fomos nós ajudados. Sem que pudéssemos prever (mas podendo imaginar), molhou-nos a chuva batida a vento e o cheiro a terra molhada, por ruas estreitinhas e ratinhos a passear. Mas foi aqui mesmo, nesta aventura, que uma mãe e o seu filhote de olhos em bico nos ofereceu um chapéu de chuva amarelinho – o nosso melhor amigo neste Sudeste Asiático, percebemo-lo então.

Na manhã seguinte, seguimos para o aeroporto. E não, não foi para voar! Lá, esperámos uma amiga de Portugal, a Iolinda, como lhe costumamos chamar. A aterrar vinda de Lisboa, ou das trinta mil escalas que fez!, e a caminho de Kampot: o nosso destino seguinte, lá em baixo, no sul do Cambodja.

Assim fomos, com uma boleia boa, pré-combinada, cheia de conversas, partilhas, risadas e mimos. Cheia de ananás aos cubos e em modo lento, como o trânsito exige! E à chegada, à chegada tínhamos uma equipa fantástica à nossa espera, pataniscas vegetarianas e o Tertúlia (o melhor restaurante português das bandas!) e muita saudade – que só nós, portugueses, sabemos o que é.

E gratos por tudo, por lá passámos três noites, e em nada mentimos se dissermos que nem demos por elas. Foi dias de descanso. De uma calma que só em Kampot. De sentir em casa. De estar em casa. De cozinhar. De conversar. De escrever. De sentir.

E só quase por entre as estrelas, visitámos a cidade pelo pedalar de duas bicicletas e o silêncio raro de uma cidade!

Voltámos então depois para Phnom Penh, entre gargalhadas e muito vento na cara, com uma boleia de uma pick-up! Lá atrás, vimos as nuvens passear no céu, as casas e palhotas à beira da estrada, as crianças em carrinhos de brincar e o sol, sempre, a brilhar.

Estávamos felizes.

Somos felizes!

Foi uma boleia que teve tanto de demorado, como de rápido, mas que abriu um precedente muito valioso: o de que estamos preparados para fazer curtas e longas distâncias lá atrás, naquela parte do carro que de confortável tem pouco, mas de belo e vivido tem tudo. Gostámos!

Desta segunda vez em Phnom Penh ficámos num hotel – You Khin House, uma vez mais a troco de uma parceria nossa. Este, por um motivo especial. Surgiu depois de criada uma escola com um sistema de ensino baseado no modelo montessoriano – que a nós nos diz muito, como fonte de sustento para a mesma.

Contudo, hoje em dia o lucro não cobre os gastos e por isso que está a decorrer um crowdfunding* por forma a permitir que a educação destas crianças seja garantida.

Assim, aproveitámos o dia para visitar a escola, o centro de lazer e atividades a ela associado e, de tarde, o museu S-21. Este, criado após o genocídio associado ao Khmer Rouge, permitiu-nos aprofundar a história do Cambodja, a dor por todos sentida, a tristeza e desgraça vivida. O Khmer Rouge saiu do poder em 1979, com o apoio dos vietnamitas, os mesmos que os ajudaram a subir até lá em 1975. Após este período, foi declarado genocídio associado a este mesmo mandato, durante o qual foram perseguidas, interrogadas, torturadas e mortas cerca de 2 milhões de pessoas, com especial enfoque naqueles que eram literados. Visitámos por isso o museu, mas decidimos não visitar os “killing fields”. Foi intenso e ainda bem que o fizemos juntos.

Mais à noite, e para terminar o dia no auge das experiências, jantámos no DID. E vale tanto a pena partilharmos isto, que temos até medo de não conseguir deixar transparecer o que vivemos!

O DID – Dine in the Dark, é um restaurante onde os nossos sentidos são deixados no limite. Embora não seja uma ideia inovadora, e embora exista já na Europa e redores, não deixará nunca de se original e desafiante. O conceito é inesquecível, a equipa também, e a comida não lhes fica atrás.

Criado num espaço “abandonado”, uma pequena galeria de arte, começa por ter tudo em tons baixos e fraca luminosidade. Lá, fomos convidados a escolher o menu surpresa: Menu Vegetariano. De seguida, fomos convidados a retirar o relógio (por ter ponteiros luminosos) e a arrumar o telefone e equipamentos electrónicos numa caixa ou na nossa mochila. E por fim, foi-nos atribuído um guia: um guia cego, o Fredo. O Fredo ficou responsável por nós, e encaminhou-nos, de mãos no ombro dos outros, até à sala escura. Não, não era uma sala com pouca luz. Não, não tinha velas. Era verdadeiramente escuro. Negro.

Nunca tínhamos visto nada assim.

Ouvíamos os risos, como nunca, daqueles que preenchiam também a sala.

Sentimos o fresco do ar condicionado. O arrepio do desconhecido.

Sensação de claustrofobia. E sentámo-nos, sob as indicações das mãos delicadas do Fredo.

Pouco depois, serviu-nos as entradas. Depois o prato principal. Depois a sobremesa.

Não vimos nenhum deles. Mas sentimo-los chiques e cuidados. Pratos arranjados. Sabores intensos. Apurados!

A descoberta tomou conta de nós. Primeiro com talheres, depois já com as mãos: queríamos tanto saber mais, sentir mais. Saborear mais. E estava tudo divinal!

Antes de deixarmos para trás este espaço, fomos por fim convidados a ver os pratos que havíamos recebido. E o mais engraçado, foi a surpresa que não tivemos. “Bom trabalho!”, pensámos, orgulhosos pela nossa perspicácia e desembaraço.

Fica assim agora o nosso convite para que visitem um espaço assim ou que façam do vosso espaço um espaço para está experiência sensitiva. Vale a pena!

E quanto ao DID, vale ainda mais a pena quando aliado à integração de todos. (❤ de psicomotricista!)

Partimos então para Siem Reap de coração cheio, de alma preenchida. Não era tarde quando nos pusemos à boleia, e sabíamos que tínhamos um autocarro urbano, muito embora só haja três linhas de há dois anos para cá, com pouquíssimos autocarros em cada.

Contudo, enquanto o esperávamos calmamente, fomos deixando ver aos carros que passavam a nossa placa, onde tínhamos escrito o nosso destino. E, por entre a azáfama de tuk tuks e motas – onde também as crianças as conduzem! –encostou um carro com dois coreanos, que sem que conseguíssemos comunicar na perfeição, nos levaram. Mas não, não levaram para onde pretendíamos ir com o autocarro, e no fim ainda nos pediram dinheiro. É verdade, foi tão triste e tão constrangedor em nós. Temos sempre o cuidado de antes de entrar num carro explicar que não pretendemos pagar pela boleia, e assim se acusam táxis ou aqueles que realmente nos querem ajudar. Mas com dois coreanos sentimos que não havia necessidade de qualquer explicação… e estávamos tão enganados.

Mas enfim, lá nos explicámos conforme conseguimos e lá aceitaram que não pagássemos: e verdade seja dita, nem sequer nos tinham levado para onde precisávamos, e sim para onde iam; portanto estávamos de consciência tranquila.

Seguimos então a pé, sem alternativa agora de autocarro. Não faltava assim tanto para a ponte, mas por poucos que fossem os quilómetros, com as mochilas, tudo parece imenso.

Durante a pequena jornada fomos parando para descansar e aproveitando para pedir boleia; e foi por entre um desses instantes que parou um outro senhor com a sua esposa. Decididos a ajudar-nos, levaram-nos até à tal ponte que tínhamos de atravessar de forma a encontrar o melhor lugar para nos pormos. Estoirados quando lá chegámos, abrigámo-nos no chapéu de chuva como sendo de sol, e pedimos boleia.

Muita boleia nós pedimos, e nada.

Vimos o sol rodar, girar lá em cima e derreter-nos o corpo. Mudámos as mochilas várias vezes de posição em função de uma pequena sombra. E destilámos: estava difícil de apanhar boleia.

E nos entretantos rimo-nos e muito com os locais que por ali andavam:
– O que fazem uma data de homens a correr atrás de um autocarro? São condutores de tuktuk.
– E o que são homens a correr à frente dos tuktuk? São condutores de autocarros (vans).
Todos, na busca de mais clientes!

Até que parou um jipe, por entre macacadas para chamar à atenção de todos os carros. Era um pai com o seu filho e iam diretos também para Siem Reap! Fizemos então uma viagem de sonho, prudente mas rápida, e chegámos já ao pôr-do-sol.

No lusco-fusco, visitámos o mercado local para comprar alguma comida. Por todo o lado há padarias, com influência francesa, sendo a baguette a mais famosa. Nos mercados reina ainda a confusão, embora com menos ratos. O arroz mantém-se como primordial na alimentação. Muitas mangas, papaias, maracujás, anonas, maçãs, bananas, ananáses, e outros tantos que nem lhes sabemos o nome!

Só depois seguimos para o primeiro hotel da cidade com quem havíamos feito parceria – New Riverside Hotel. Longe do centro, mas com uma paz inexplicável, ficámos duas noites num quarto de sonho, com uma piscina de sonho e pequeno-almoço também de sonho. Como nem nós algum dia pudéssemos pensar vir a viver!

No dia seguinte, descansámos, espreguiçámos, ronhámos (sim, de ronha!). E passeámos. No centro, no mercado local onde apetece comprar tudo pelas cores e beleza, pelos cheiros e simpatia. Vimos roupas, acessórios, bugigangas e hammocks lindos. E já ao anoitecer, fomos jantar ao Little Kroma, um restaurante pequenino e caseiro, com pratos típicos e vários vegetarianos, e muito familiar! Perdemo-nos ali com novos sabores.

Nas últimas duas noites no Cambodja, ficámos num outro hotel –Lemon&Gingergrass Hotel, com quem também trabalhámos e com quem vivemos a experiência de visitar os Templos de Angkor e aprender a cozinhar aquilo que dizem ser o mais tradicional que por lá vimos: os famosos spring rolls, a salada de manga e o amok de tofu. Inexplicável! E inesquecível. Trazemos agora guardadinho em nós a imensidão dos templos que pisámos por entre o silêncio da surpresa e as receitas de cada prato que fizemos.

Foram dias intensos, bem vividos e apaixonantes. Dias que dificilmente algum dia conseguiremos pôr por palavras, mas onde algumas das fotografias falam por si! Da loucura que é visitar os templos de Angkor Wat e Angkor Thom; à magia da noite do “night market” no centro da cidade: um misto de passado e presente que fica no coração.

Gostámos! Muito.

E gostámos também muito do lugar onde fomos convidados a provar vários pratos típicos Khmer, deliciosos e lindos, exóticos e saborosos, com um serviço de excelência – Khmer Touch Cuisine, mesmo no centrinho do centro.

E com tantas maravilhas, tantas experiências, tantas partilhas e tantos momentos, só podemos estar gratos pela passagem no Cambodja; onde nem tudo foi perfeito, nem tudo foi magnífico ou ideal, mas onde fomos abençoamos com uma viagem rodeada de boas pessoas, bons lugares e boas vivências!

Já no último dia, caminhámos tanto quanto pudemos para nos afastar da cidade, sempre de placa em punho, até conseguirmos boleia para uma cidade próxima. Lá sim, caminhámos vários quilómetros, subimos subimos e chegámos. De suor escorrido no corpo e respiração ofegante. Cansados. Mas chegámos. Chegámos à fronteira.

– Não sem antes pelo caminho termos sido inundados pelos habituais “tuk tuk?”. Faz parte!

E por fim, estávamos tão tão exaustos, mas quase quase do lado de lá. Carimbámos o passaporte à saída, sem percalços, e seguimos. Tínhamos à nossa espera o nordeste da Tailândia, uma rota não-turística até ao Laos e muitos locais à nossa espera.

Despedimo-nos assim de sorriso no rosto, ansiosos do mundo, de mão dada, com amor: até um dia Cambodja!

* Crowdfunding – https://www.generosity.com/education-fundraising/free-education-for-children-in-poverty-in-cambodia/x/1595936

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Hk & Macau (& restinhos de China)

Se sonhávamos que seria assim? Não.

Cheirava bem! As ruas eram limpas. O sol jazia no céu azul sem nuvens brancas. Os bancos de jardim cuidados. Os canteiros arranjados.

Muitos carros. Muitas pessoas. Estradas estreitas. Becos recônditos.

Mercados antigos escondidos.

Prédios altos. Muitas luzes. Grandes lojas. Grandes marcas. Gentes de dinheiro!

Casas pequenas. Apartamentos minúsculos. Vida cara.

Mas cheirava bem! A lavado, limpo. A cuidado.

Assim encontrámos Hong Kong! Longe dos nossos pensamentos, por certo afastado dos nossos sonhos: nós que nem fazíamos questão de visitar!

Dos cinco dias que lá passámos, a grande responsabilidade era a de tratar dos vistos: o que nos permitiria voltar à China, e visitar o próximo país, o Vietname. Mas o reboliço foi tamanho!

À chegada, saídos do metro, caminhámos ainda carregados até à embaixada da China. Na impossibilidade de subirmos com comida ou líquidos, dividimo-nos e conseguimos na mesma obter a informação de que tanto precisávamos: quais os documentos exigidos para a obtenção de novo visto. Um infinito de papelada, verdadeiramente de bradar aos céus! Copia de passaporte, formulário, reserva de hotéis, reserva de transporte.

Saímos de lá então ao encontro do nosso couchsurfer, um rapaz do Bangladesh, que sem qualquer problema e muito amavelmente se propôs a encontrar-se perto do centro para nos dar a chave de sua casa. Assim fizemos, e de no nosso encontro saímos com um pedaço de papel com um mapa desenhado e indicações para lá chegarmos. E chegámos!

Completamente estafados, suados e sedentos. E antes mesmo de começarmos a tratar da papelada, sentimo-nos bem melhor depois de um duche refrescante!

Os papéis, com a ajuda do booking e da TAP – face às suas facilidades de cancelamento, e de um amigo à distância, ficaram prontos num instante. As cópias estavam também feitas. Seguimos de volta para a Embaixada da China. E quando acabámos de preencher os formulários e obtivemos a nossa senha (indicando que tínhamos mais de 200 pessoas à nossa frente), voltámos a dividir-nos para apressar trabalho. 🙂

Ficou então um a aguardar e outro seguiu para a Embaixada do Vietname, novamente para saber da papelada, tempo de espera e preços. E correu bem! Deu tempo para ir, voltar e continuarmos juntos à espera da nossa vez. Aí, por entre a notável melodia da língua portuguesa, reconhecemos a presença de um casal português; sem que conseguíssemos ficar indiferentes, e como já tão bem sabemos fazer, metemos conversa.

Fluiu, e fluiu. Fluiu entre sorrisos e aquilo que veio a ser uma amizade!

No dia seguinte, numa manhã chuvosa, seguiu-se o visto do Vietname. Ficou pedido, mas a muito custo: queriam o passaporte (que havia ficado na Embaixada da China). Por entre propostas mirabolantes, como a de pagarmos quase duas vezes mais ou a de nos ser dado uma folha em forma de visto que poderia não nos permitir entrar por terra; lá chegámos ao consenso de deixar o visto pedido, com o compromisso de lhes entregarmos o passaporte passados 3 dias, quando o fossemos buscar à Embaixada da China, e de lá voltarmos para o levantar no dia seguinte. E confusões à parte, lá seguimos satisfeitos, com paz na alma e sossego na mente. Estava feito. Agora era cruzar os dedos e esperar!

Demos então uma pequena volta pelo centro de Hong Kong e, já de mochilas novamente às costas, seguimos de barco para a Ilha de Lamma. Lá, chegámos já de noite, mas ainda cedo. Por entre o balanço do ondular do mar, a disposição não era a melhor; mas o desejo de conhecer a casa tropical perto da praia, tratava qualquer mal!

– É como o amor.

Na ilha ficámos com um couchsurfer alemão, e por voltar tarde, sabíamos por cortesia sua onde estava a chave escondida; bastava procurar pela casa número 6.

Pena foi que não correu como previsto. Palmilhámos parte da ilha sem que o desejássemos. Carregados. À chuva. Por entre vegetação e com os mais diversos animais (também eles tropicais – demais!).

A cada pessoa que se cruzava no nosso caminho, perguntávamos pelas direções. Mas sem pudor, diziam aldrabadamente que nos dirigíssemos para a esquerda, direita, cima ou baixo; e seguiam. Só já exaustos percebemos que também elas não faziam ideia de onde ficava a casa que procurávamos!

Inclusive, já desgastados, encontrámos um casal que nos disse que ali, ali mesmo onde estávamos, era a casa deles, número 5. Mas que lá não era o bairro que procurávamos. Que lá não havia nenhuma casa número 6, nem mesmo a casa ao lado. E ainda nos cruzámos mais uma outra vez, mas foram sempre tão assertivos que nunca duvidámos.

Já cansados e ainda pouco intimidados com os avisos sobre as cobras (já que só depois de vermos a primeira nos convencemos), descarregámos as mochilas num ponto certo da vila e, pouco depois, apareceu o nosso couchsurfer, que de imediato nos reconheceu!

Suados que nem pintinhos molhados, seguimos juntos até casa: aquela que ficava exatamente ao lado da número 5. E até hoje não percebemos o porquê daquele casal nos ter enganado: ou não fossem eles saber o bairro em que vivem.

Mas como acaba sempre tudo em bem, terminámos a noite numa casa gira, com um jantar muito diferente e muito bom (com direito a creme de beterraba – imaginam as saudades que trazemos destes petiscos?), um banho e um quarto com uma caminha grande e lavada, refrescada com o ar condicionado. E, claro, com direito a bons sonhos só de pensar na praia do dia seguinte!

Assim foi, marcámos a nossa estadia na ilha pelos passeios, trilhas e mergulhos no mar! Coleccionámos conchinhas partidas e búzios incompletos, vimos aranhas maiores que as nossas mãos e turistas que nunca mais acabavam. E também uma cobra ainda a porta de casa!

Mas foi de lá que saímos de coração a transbordar.

De volta a Hong Kong, a primeira preocupação foi a de levantar o visto da China para entregar o passaporte na Embaixada do Vietname. Conforme combinado, lá ficaria até ao à manhã seguinte de forma a estamparem o visto – e por ser mais uma noite, decidimos ficar com os nossos mais recentes amigos portugueses, aproveitando assim para visitar e confraternizar o que nos faltava!

Mas na Embaixada da China quase nos trocaram as voltas. A tentativa foi a de não nos dar o visto; e por isso se seguiu uma entrevista/inquérito. Porque viajamos à tanto tempo, porque visitámos tantos países, porque temos tantos vistos? E, principalmente, porque temos um carimbo vermelho da Turquia?

A questão do terrorismo vive-se mesmo quando ausente. Mas a explicação era simples: era somente o carimbo de saída do país – tanto que em turco diz “çıkış”.

Foi então preciso algum esforço. Muita conversa. Muito paleio. Cair na graça. E lá veio o visto no passaporte!

De corrida, na Embaixada do Vietname os funcionários eram já outros. E com a comunicação fraca, ao invés de complicar, facilitaram: e o visto ficou pronto na hora!

Tínhamos então a hipótese de seguir na hora para Macau, mas acabámos por optar pelo programa já definido: passear, jantar e dormir com o Tiago e a Liliana. E assim fizemos: e ainda bem! Agora guardamos com carinho esses momentos, todas as partilhas e sorrisos!

Mas foi quando o sol raiou que os nossos corações bateram forte. Era hora de apanhar o barco e chegar a Macau! Sim, Macau!

No porto, conseguimos um bilhete a bom preço para a Taipa, a ilha adjacente e, depois de partilharmos algum tempo com uma amiga de Hong Kong que fizemos na Ásia Central, embarcámos. O nervoso miudinho era maior que nós dois. Era ansiedade! Então lá seguimos, de mãos dadas, por entre o balançar do ferry ainda parado.

Lá dentro, sentámo-nos nos lugares marcados, com uma televisão à frente: e foi nela que passou o vídeo de emergência, logo para começar, com legendas em português! Já estávamos em casa!

Os sorrisos começaram a rasgar-se de orelha a orelha. E mesmo depois de atracarmos, era português por todo o lado. Indicações, ruas, anúncios, placares, panfletos. Que delírio!

Em Macau temos família: um primo macaense (por definição, filho de um(a) chinês(a) e um(a) português(a)), e foi ele que nos acolheu à chegada e durante a nossa estadia.

Em Macau palmilhámos rua acima, rua abaixo. Deslumbrámo-nos com cada azuleijo, cada pedra de calçada; igreja ou farol: estávamos em casa. E essa era a melhor sensação de todas.

Mas Macau é caro – tão ou mais que Hong Kong. E longe das zonas tradicionais, vivem agora os casinos, luxuosos, imensos (e lindos!), com salas de jogo 24 horas por dia e centros comerciais de grandes marcas incorporados, com ShutleBus gratuitos entre Macau e a Taipa. Por lá também nos deixámos perder, pela imensidão e novidade.

Mas Macau é mais que isso. É uma fusão de culturas que se sente em cada beco. Em cada rua ou ruela. Macau é uma franca mistura entre Portugal e a China: porque a arquitetura é portuguesa, os largos e os passeios também o são! Mas o hábitos, esses não nos pertencem mais. Não há loja sem tradução do chinês para o português no seu letreiro, por norma dizendo “estabelecimento de comidas”; mas dentro é a China que vive, por entre os cheiros ou a desorganização.

Mas é mesmo deste contraste que vive Macau. Desta história dupla e cruzada.

Também nós sempre ouvimos dizer que Macau havia sido um presente. Já os chineses contestam a história.

Há muitos anos, Macau estava a ser invadido por piratas. Os portugueses, que haviam lá chegado, ajudaram o povo chinês a lutar e a proteger-se, e por isso
Macau lhes foi entregue por 500 anos como agradecimento.

Ouvida do lado de cá: os piratas eram portugueses. 🙂

A falar português já são poucos os locais, mas com a grande comunidade portuguesa, não foi difícil encontrar quem o falasse. Mas o mais surpreendente foi termos tido a sorte de assistir a um espetáculo do Grupo Folclórico! E foi ao som do “malhão malhão” que nos deixámos levar!

Abraçados. Em paz!

Também abraçados fomos pela televisão de Macau, com quem estivemos para uma entrevista muito simpática, realizada no Templo de A’ma.

Infelizmente, foi também em Macau que vivemos a primeira alergia dermatológica por picadas de insectos: eram tantas e tão incomodativas, as pintinhas, bolhas e borbulhas, que acabámos no médico: mas um médio especial, o Doutor Rui Furtado, colega e também amigo da querida avó “Oliveirinha” – como carinhosamente lhe chamava no bloco. Conseguiu dar-nos a sua opinião e marcar para posteriormente uma consulta de dermatologia, quem em tudo nos valeu, não só pelo atendimento como pelo tratamento. Com o Doutor Rui e a sua esposa, recordámos bons momentos e novos criámos, para um dia partilhar.

Hoje já passou.

Mas a todos os níveis Macau nos fez sentir em casa.

Até ao último minuto, quando vivemos um encontro muito desejado e especial. Por todas as suas competências pessoais, pela sua personalidade terra a terra, pela generosidade e simplicidade, simpatia e bondade. Por nos ter feito ser diferentes, por nos ter feito pensar. Por nos ter feito sorrir, ponderar crenças e valores e estudar. Por isto e mais ainda. Uma Professora, Celeste, que nos marcou em tempos universitários e que por circunstâncias da vida nos cruzou uma vez mais o caminho. E foi tão confortante receber um abraço sincero, apoio sentido e ter o prazer de partilhar um momento numa fase destas. Mais, com duas colegas maravilhosas, já “locais”, com quem dividimos o nosso tempo. Somos muito gratos!

Chegou então a hora de partir. Regressar à China e retomar o caminho, a rota rumo ao Vietname!

Atravessámos a fronteira a pé, aquela que muitos macaenses atravessam diariamente para comprar comida mais barata, nomeadamente vegetais e frutas – percebemos nós logo à chegada aquando a nossa busca incessante por coisas a preços acessíveis.

E foi perto da fronteira, numa estrada principal que nos pusemos à boleia. Mas depois de 10 dias parados, já nem o corpo estava habituado!

Tivemos uma tarde penosa, muitos carros e poucas boleias. Mas tivemos também a sorte de encontrar quem nos tenha querido ajudar, mesmo sem nos poder levar: foi o caso de um jovem, que de mota andava a distribuir pizzas. A nós, ofereceu-nos uma grande água (um bem tão precioso!) e uma pizza de fruta. Um amor!

Foi já ao final do dia que dali um senhor nos levou. Eram pouco mais de 100 quilómetros, mas chegámos depois do anoitecer. E não descansou enquanto na nos deixou com o nosso novo couchsurfer, tendo para isso que andar, verdadeiramente, às voltas na cidade.

À nossa espera estava também um casal de australianos, a viajar há já 3 anos. Rumavam agora a casa, sendo Guangzhou uma das suas últimas paragens.

Em casa, o ambiente era simpático mas não podemos dizer que nos tenhamos sentido conectados. Às vezes é mesmo assim, e sabemo-nos agradecidos pelo teto que temos. Pelo banho que podemos tomar. E, claro, por estarmos juntos.

Nenhum dos três criava grande empatia, mas principalmente o nosso couchsurfer. Reservado, foi pouca a comunicação que tivemos. Talvez sejamos nós com sede de conhecer as pessoas. Talvez sejamos nós e as nossas expectativas. Talvez. Certo é que nos recebeu e acolheu! E ajudou! Com ele, ficámos duas noites, sendo que na segunda encontrámos um amigo ligado ao futebol e a projetos profissionais passados, que nos havia trazido algumas coisas de Portugal e com quem tivemos o prazer de jantar!

E ao terceiro dia, véspera de feriado na China a 1 de outubro, saímos cedo para nos pormos à boleia para Guilin.

Chovia aquela chuva molha-parvos, que não impede mas incomoda. Mas estávamos decididos. O destino era muito turístico, mas igualmente muito bonito. E todo o esforço, tarde ou cedo, é recompensado.

Apanhámos um autocarro para sair da cidade, que não sabemos ainda hoje porquê, não nos levou ao destino esperado. Ficámos então a meio caminho daquilo que seria o sítio ideal.

Caminhámos então. E a chuva intensificou-se. Molhava a sério. Eram pingos grossos é daqueles que se fazem sentir no corpo. Mas estávamos tão absorvidos pela ânsia de partir, que nem isso nos fez mudar de ideias.

Abrigámo-nos então de início numa ponte e lá pedimos boleia. Sem sucesso, ao final de algumas horas e já com chuva miudinha novamente, caminhámos. Já não sabemos quanto, mas foram alguns quilómetros.

As mochilas pesavam, mas dávamo-nos gratos por não chover.

E uma vez mais, por estarmos juntos. E apaixonados!

Chegámos então às portagens da autoestrada, e o trânsito apresentava-se caótico. Na China, nesta semana festiva, com a duração de 7 dias posteriores ao tal feriado, não só tudo pára, como as portagens são gratuitas! A juntar a isso a quantidade de chineses por metro quadrado, dá para imaginar o caos.

Parecia o paraíso das boleias! Mil carros, que tão lentamente passavam por nós: era só esperar.

Fizemo-nos em paciência.

Com calma, foram mais de 9 horas de pé, a pedir boleia. Mais de 11 horas de estrada. E apenas dois carros nos abordaram: um casal sírio, que não ia na nossa direção, e um senhor que queria dinheiro pela boleia, mesmo indo na nossa direção. Em 9 horas não houve nem mais um carro preocupado connosco. Nem mais um ser a olhar por nós! Estávamos tão destroçado que não conseguíamos acreditar no que estava a acontecer.

E já de noite fizemos por apanhar o último metro para voltar para a cidade. Caminhámos sem que nos lembrássemos já das dores no corpo ou nos pés, no pesado das nossas pernas ou no dormente das nossas costas.

Estávamos anestesiados!

Não queríamos mais ir para Guilin. Só para casa. E nesse preciso momento – tendo nós a sorte de termos conhecido um novo couchsurfer mexicano – decidimos que era em Guangzhou que iríamos passar o fim-de-semana. Só queríamos descansar, dormir, recuperar.

E assim fizemos, com a certeza de que no dia seguinte o sol nasceu com uma nova força. E nós também, já em paz, resignado se convictos de que nada acontece por acaso. Mais tarde, veríamos o porquê de termos ficado ali retidos.

Desfrutámos então da cidade de Guangzhou até mais não. Visitámos os pontos turísticos, a torre de Cantão, os parques mais bonitos e também o rio. E subimos ainda ao centésimo andar de um maravilhoso hotel, de onde discretamente nos deixámos deslumbrar pela vista ao anoitecer.

Abraçados, sorrimos e vivemos unidos este momento. Numa tranquilidade indescritível. No silêncio das estrelas, lá no alto. Estávamos felizes!

E assim decidimos partir, na manhã seguinte, para a cidade seguinte: Nanning. Guilin haveria ficado a meio caminho com um pequeno desvio, mas agora seguiríamos diretos.

Confiantes de que o tempo de espera passado daria lugar a muitas e boas boleias, seguimos para uma avenida principal. Lá, de cartão esticado e corpos ao sol, pedimos boleia por pouco tempo até parar o primeiro carro. Era um casal, amoroso. Tinham à pouco tempo estado a viajar na Austrália e lá viveram a aventura de se perder; contudo, alguém os ajudou prontamente e por isso assim o decidiram fazer connosco, levando-nos até uma das entradas da autoestrada.

Lá, vimos gente chegar, gente partir. Vimos o sol dar lugar às nuvens, e as nuvens dar lugar à chuva. Vimos anoitecer e o nascer da lua. Mas boleia, nem uma.

E, sem querer, tínhamos passado mais 9 horas ali.

Parecíamos transparentes!

Mas já não nos deixámos abalar, destroçar ou sentir. No nosso limite, agarrámos nas coisas e voltámos para casa. Tínhamos também a hipótese de continuar noite fora ali mesmo. Todavia, seria uma noite em branco, e provavelmente uma noite perdida.

Riram-se os nossos amigos por nos ver chegar. Incrédulos.

Então das tripas fizemos coração, e na madrugada seguinte, fizemo-nos novamente ao caminho. O corpo dorido pedia por mais cama, mas não podia ser. Tínhamos de ver onde iria esta nossa desventura com as boleias chegar. Ainda assim, levámos connosco o horário e números dos autocarros para voltar para casa, não fosse o Diabo tecê-las novamente.

Escolhemos então um terceiro sítio diferente (que era o primeiro que havíamos escolhido quando queríamos ir para Guilin e o autocarro desviou a meio). Estava um sol tão ardente que tínhamos dificuldade em permanecer quietos com a placa. E fomos então fazendo turnos.

Até que parou um jipe! Eram dois senhores, já meia idade! Sorriram, disseram que iam na nossa direção e que seria grátis! Nem queríamos acreditar…

Mesmo indo para apenas 120 quilómetros, iam na nossa direção e estávamos excitadíssimos!

Fizemos do tradutor offline do telefone o nosso meio de comunicação e assim partilhámos a nossa história. Amorosos, estavam tão felizes quanto nós, e felizes com a ideia de alguém estar a viajar tanto tempo, por tantos lugares.

Quiseram depois antes de nos deixar, oferecer o almoço. E então juntos lá nós dividimos por entre os práticos típicos vegetarianos e aquilo que eles preferiram comer, sempre com a maior gentileza e generosidade de sempre! E na hora da despedida, quiseram ofereceu-nos dinheiro, o que prontamente recusámos. Sabíamos que não tínhamos feito qualquer conversa que os levasse a querer ajudar-nos, e percebemos que era claramente um apoio à nossa viagem, por a terem encontrado encantadora! Mas não podíamos aceitar: já tinham feito por nós tudo quanto poderíamos desejar! E agradecemos, sorrimos, levámos a nossa mão ao peito e desejámos tudo de bom.

Contudo, minutos depois logo descobrimos que haviam escondido o dinheiro nas nossas mochilas. E, sem que pudéssemos imaginar, eram 500¥ – o equivalente a 68€. Sim, muito dinheiro! Não sabíamos sequer o que fazer, como fazer. Estávamos tão envergonhados e ao mesmo tempo tão gratos! Já para não falar da boleia, do almoço e das várias águas e sumos que nos haviam comprado para o restante caminho.

Na estação de serviço onde ficámos, apressámo-nos depois para nos pôr novamente à boleia. Faltavam-nos ainda mais de 400 quilómetros e a manhã já lá ia. Caminhámos assim até ao fim da imensa área (que como dita a China, grande, com restaurantes, supermercado, casas de banho e bomba de gasolina – ao que já nos habituámos), e lá instalámos o nosso “estaminé”. Mas demorou pouco até que a polícia a nós se juntasse. Nunca sabemos bem se por graça ou precaução, gostam sempre de fazer a sua conversa e por fim avisar que não podemos ir para a autoestrada. Agradecemos sempre e deixamo-nos estar! Mas desta vez, quiseram também fotografias. E nos entretantos, apareceu um camionista dizendo que não ia para Nanning, mas passaria por lá.

Recusámos. Porque levaria muito tempo. Porque normalmente na China andam sempre 2 por camião e seríamos 4. Porque não queríamos chegar de noite.

Amoroso, insistiu. Sorriu e disse que não levaria assim tantas horas. E que nos deixaria apenas a 20 quilómetros do centro da cidade.

A polícia sorriu, e sugeriu-nos que fossemos. E acabámos por ir. Ao mesmo tempo, em nós, havia qualquer coisa que nos dizia que devíamos ir. E tudo à nossa volta nos convidava a ir.

Pelo caminho percebemos o quão certos estávamos! Porque mesmo sabendo que iríamos chegar de noite, o camionista estava sozinho. E era um doce de pessoa. Sabemos agora a companhia que lhe fizemos e o bem que nos fez! Sorriu o caminho todo! Foi generoso o caminho todo! Deu-nos a sua fruta, parou para nos comprar uma maçaroca de milho e dois sumos e não hesitou em fazer de tudo para que nos sentíssemos bem. E tivemos ainda direito a ver dois DVD’s durante o caminho, que embora em Chinês, nos entretiveram e bem!

Indescritível.

Quando nos deixou custou a todos a despedida. Sentimo-nos vazios ao deixá-lo seguir a sua jornada tão sozinho: faltavam-lhe ainda mais de 800 quilómetros. Mas foi bom, foi bom o que até ali partilhámos!

Era já noite, conforme temíamos. Ficámos numa portagem, e ali não nos restou mais senão mostrar a nossa placa e esperar! Mas não esperámos mais que 15 minutos até que parasse um jipe, com um jovem que prontamente se ofereceu para nos deixar à porta de casa.

Fomos assim abençoados com um dia recheado de encontros maravilhosos, que culminou com o conhecer da nossa couchsurfer: uma jovem simples, mas muito querida. Da sua sala, fez o nosso quarto; do seu gato felpudo, o nosso mimo. E quando nos deixámos cair na cama, nem queríamos acreditar!

Estávamos de volta. De volta à estrada. De volta à nossa desejada aventura. 🙂

Em Nanning ficámos apenas duas noites, um dia – que deu para descansar, passear e ainda pic-nicar! Caminhámos em torno do famoso lago, pela cidade e no mercado nocturno (de perder de vista com as mais estranhas iguarias).

Passámos também parte do tempo na tentativa de trocar os Yuans que tínhamos para dólares, mas foi a missão impossível: de banco em banco, as desculpas foram variando. “Tem de ser no Banco da China”, “Só trocamos para Euros”, “Só temos 100 dólares”, “Precisam do certificado de troca à chegada”, “O vosso certificado não é válido”, … Até que nos cansámos e todos os bancos fecharam.

Terminámos depois a noite a jantar num terraço no décimo nono andar e brindámos às luzes que iluminavam a cidade.

E seguimos!

O prazo do nosso visto do Vietname já estava a contar e por isso tinha de ser assim. Contudo, completámos os exactos dois meses de China: dois meses intensos, bem vividos e muito especiais.

Para a vida, levamos a certeza de que nunca mais veremos um chinês da mesma maneira. Que os caracteres chineses são giros e giros de desenhar, mas que o chinês e os seus quatro tons são o verdadeiro enigma. Levamos histórias e olhares infinitos, uma cultura nova dentro da nossa, hábitos maravilhosos e outros que nem tento, mas uma viagem e aprendizagens que ficarão para sempre.

Com a certeza também de que não é preciso conseguir comunicar para se conseguir ajudar.

Deixar Nanning para trás foi também um processo moroso, mas não tão difícil. Acordámos cedo, muito cedo para nós: quando os sonhos ainda vivem, o abraço ainda sabe a pouco e a almofada chama por nós. Mas teve de ser.

Apanhámos várias boleias, todas elas reflexo de uma generosidade imensa; entre a cidade e o aeroporto, com um táxi da UBER; do aeroporto para as portagens perto novamente da cidade, com um senhor. Mas a seguinte, até à fronteira, foi a mais engraçada. Arranjada pelo polícia que veio ao nosso encontro, foi num autocarro pequenito. Demorámos algum tempo até nos entendermos, mas chegámos por fim à conclusão de que íamos exatamente para o mesmo sítio. Inglês falava e depois de saber dizer boleia perfeito saímos da china

Chegámos então juntos ao fim da China: à entrada do Vietname. E estávamos a pequenos passos do alcançar.

O Sudeste Asiático parecia longe. Tão longe, há 7 meses atrás. E é tão bonito perceber que aqui chegámos juntos, comandados pelo bater do nosso coração e com uma mão cheia de coisas boas para sempre.

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por terras do Uzbequistão

Nos últimos tempos, os capítulos da nossa história terminam e recomeçam em fronteiras, com borboletas no estômago e muitas burocracias. Mas viramos página a página, com muita calma, com muitos sonhos na algibeira e cada vez mais ricos.

Na travessia finda do Turquemenistão, os militares mostraram-se simpáticos, tendo até fechado os olhos para uma troca de dinheiro oficiosa. Sabíamos já que neste novo país, o Uzbequistão, a troca de dinheiro se deve fazer no mercado negro, uma vez que nos bancos a taxa de câmbio chega a ser 2 vezes inferior.

Assim, conseguimos trocar o que nos restava na moeda do turquemena (manat) por notas uzebeques (sum), ainda em terras turquemenas: e o mais engraçado, a nota mais pequena vale 0,02€ (tendo em conta a taxa a que trocámos sempre o dinheiro, de 6500sum). E assim nos fizemos sempre acompanhar por um valente e vistoso molho de notas – como qualquer local.

Aliás, eles, os locais, chegam a trazer as notas no bolso, presas com um elástico, como se se tratasse de contrabando ou algo assim, enfiadas em sacos de plástico – o que vimos mesmo que na mala das senhoras.

Esperávamos que ali, na fronteira, nos revistassem de ponta a pavio. Tínhamos já lido vários relatos, vários blogues, conhecido vários viajantes; e a história repetia-se. Sabíamos ser obrigatório declarar valores e ser proibido, por entre muitas coisas, fotografias ou livros de caráter pornográfico ou religioso. Desta, estávamos preparados: tínhamos o nosso dinheiro contado, fotografias e livros controlados, tudo a postos.

Até as nossas mais lindas fotografias com beijinhos estavam apagadas.

Mas depois de preenchermos as declarações na fronteira, passámos as mochilas no RX, e tínhamos o coração a mil. Os relatos de revistas duradouras e minuciosas eram tantos, que não nos víamos sair dali nem em 3 horas, face à quantidade de tralha que sempre nos acompanha.

A primeira pergunta foi simples – medicines?

Dissemos que sim e indicou-nos que tirássemos tudo para fora. Não sabemos bem o que nos passou pela cabeça, mas tiramos só a embalagem metálica onde estão todos os medicamentos da tiroide e pilulas, que nos acompanham. A bolsa com tudo o que é comprimidos de emergência, continuou dentro da mochila. E, propositadamente, não tirámos a caixinha das vitaminas sem rótulo.

Depois de confirmar no computador o conteúdo do que lhe havíamos apresentado, balanceávamos o nosso espírito por entre o receio e a calma. Quando nos perguntou se tínhamos mais algum medicamento na mala, e decidimos dizer que não, não foi planeado, foi instintivo.

Podia ter corrido muito mal, mas correu muito bem. Mandou-nos guardar as declarações para apresentar à saída do país e autorizou-nos a seguir. Naquele momento, não estávamos crentes de que fosse aquela a verdadeira barreira. E até sairmos da zona fronteiriça, confessamos que estávamos sempre à espera do tal momento em que nos iriam separar e revistar e interrogar.

Mas não. Não aconteceu. Não sabemos porquê, mas sabemo-nos gratos por não nos terem feito desarrumar tudo e viver um momento tão tenso.

Sabemo-nos decerto abençoados, pelo nosso caminho até aqui e por cada dia que passa.

Seguimos então depois a pé. Os taxistas morrem de amores por nós, quando nos vêm a chegar por perto, carregados e suados, desejosos de uma sombra ou uma boleia; mas depressa se desencantam quando dizemos que não queremos táxi ou não temos dinheiro. É difícil de lhes explicar a eles, e a muitas pessoas até, que nós temos dinheiro sim, mas não para transportes. Ou seja, o dinheiro que temos é para nos alimentarmos, para situações de necessidade ou para burocracias.

Para transporte temos os pés e todos os carros que estejam a ir na nossa direção e nos queiram levar. Está completamente contra o nosso modo de vida ou principio de viagem apanhar um táxi: fazer um carro, singular, que não vai levar mais ninguém nesse sentido, deslocar-se, consumir e poluir – muito embora aqui na Ásia vejamos na maioria táxis partilhados, que só arrancam quando cheios. Uns prodígios. 

No nosso sentido, o da cidade mais próxima, seguiam camiões, mas também os taxistas se encarregavam de lhes dizer que lhes era proibido levarem-nos. Portanto, caminhámos até nos afastarmos da zona fronteiriça, da confusão. Caminhámos a custo, porque as temperaturas a rondar os 40 graus e o sol intenso, faziam-nos destilar e querer parar a cada 5 minutos.

Numa dessas mesmas paragens, acabámos por conhecer um ciclista alemão, também a recarregar forças numa sombra. Temos tido a oportunidade de conhecer muitos viajantes, mas nunca dois iguais, com o mesmo modo de viajar, destino ou rota, o que é sempre enriquecedor. Ainda assim, temos sempre em comum uma coisa: deixámos tudo para trás e decidimos fazer o que muitos querem e não têm coragem – viver!

E pouco depois, conseguimos boleia de um camionista até Buhkara, onde tínhamos uma couchsurfer à nossa espera. Delicada e doce, foi até ao nosso encontro para nos conduzir até sua casa. Lá, além da irmã, do filho e dos 3 sobrinhos, hospedava também um outro ciclista, alemão. Viajante de paixão e neurologista de profissão, partilhámos então o serão.

E no dia seguinte, juntos conhecemos a cidade, os seus recantos e encantos, sabores e cheiros. E à noite, cozinhámos em casa e partilhámos segredos por entre as paredes da cozinha. Velha, suja, mas muito acolhedora.

Por entre o terror que é dormir e descansar por entre os milhentos mosquitos existentes, picadas e zumbidos, mesmo depois de montada a rede mosquiteira; conseguimos levantar-nos cedo para seguir rumo a Samarqant. Mas depois de nos conectarmos para confirmar o couchsurfing, pudemos perceber que embora confirmada a estadia, não tínhamos qualquer informação sobre quem nos iria hospedar. Mesmo depois de lhe termos enviadas várias mensagens (lidas), não tínhamos resposta a nenhuma. Nem telefone, nem morada. Nada.

Perdemos assim a manhã a tentar contactar esta futura couchsurfer, mas sem sucesso. E já ao início da tarde, decidimos que não adiantava esperar mais, e fizemo-nos à estrada. Em última instância, a nossa tenda esperava a sua estreia. E com tão bom tempo, não nos poderíamos queixar.

Uma vez mais, atordoados com o calor, caminhámos até termos a certeza de que estaríamos longe de olhares militares ou policiais.

Aqui, no Uzebequistão, a cada 3 dias é obrigatório o registo de dormida, em hotel ou hostel, ou a mudança de região devidamente comprovada, como por exemplo com bilhete de autocarro ou comboio noturnos. E à saída do país devemos apresentar esses mesmos registos, sob pena de multa ou deportação.

Contudo, dado o país em questão, sabemos que a polícia faz como quer e exige o que quer e, nós, como só pretendemos apanhar um comboio noturno a cada 3 dias para não termos problemas, preferimos manter-nos longe. Até porque se for para serem corruptos, com um estrangeiro, calha ainda melhor. Mas no total de 13 dias, temos dois bilhetes e fotografias que comprovam que nos fomos movendo de região em região: esperemos que os deuses das boleias nos protejam!

Depois de muitos táxis recusados, pararam dois senhores. De sorriso genuíno, gesticularam para que entrássemos e seguíssemos juntos. Afinal, iam para Tashkent, a capital, a mais de 600 quilómetros e portanto passariam por Samarqant.

Já no carro, e com mais de 100 quilómetros feitos, começámos a ponderar seguir também para a capital. Não tínhamos ninguém à nossa espera em Samarqant, nem casa, nem amigos. E teríamos sempre de lá voltar perto para atravessar a fronteira. E em Tashkent, tínhamos uma amiga.

Pedimos então para lhe telefonar (vale-nos a destreza em russo também) e passado pouco tempo tínhamos no telefone o contacto de quem nos poderia hospedar.

Pelo caminho jantámos, com muita simpatia e muita dificuldade em fugir de carne. Chegámos então nessa noite, já perto da 00h00. E como em casa de quem nos ia hospedar estava um outro casal de ciclistas alemão já a dormir, montámos o arraial no chão da sala de jantar. E que bem dormimos!

Na manhã seguinte, tínhamos como objetivo conseguir comprar um bilhete de comboio para a próxima noite e assim fizemos. Conseguimos por 7,5€ uma viagem de 16 horas para o lado oposto do país. Na verdade, atravessámo-lo à boleia e agora regressaríamos para trás para o visitar.

Durante o resto do dia fizemos por passear e conseguimos ainda encontrar-nos com a nossa amiga. Francesa, viajada e a viver a cada ano num país diferente; outrora professora no Irão ou até Iraque, quis palmilhar connosco a cidade de lés a lés, até mesmo quando já estávamos estoirados. E já à noite, aproveitámos para lavar roupa e para nos deitar cedo. O dia seguinte iria decerto ser longo.

De malas praticamente aviadas, com já pouca coisa por secar, fomos até ao mais antigo mercado da cidade, Churus. O maior mercado que alguma vez vimos, numa dimensão gigantesca. Com roupa, cosméticos, calçado, comida, fruta, legumes, (…). Perdemo-nos por lá e por lá andámos por mais de 3 horas com a certeza de que não vimos nem metade.

Abastecemo-nos de fruta, pão e frutos secos, para a viagem. Comprámos um pastel típico de batata para o almoço e o tempo já estava contado para chegar ao comboio.

Mas fomos com calma, com a inocência típica quem ainda não viu acontecer. Para entrar na gare estivemos um bocado. Tal como à entrada do metro nos revistam (a nós e a todas as pessoas, uma por uma), ali não seria diferente. Revistaram-nos por duas vezes diferentes, mostrámos o passaporte outras tantas e os bilhetes umas três ou quatro.

E quando chegámos à nossa carruagem, o caus estava instalado. Como seria de esperar de uma cabine económica, zero de ar condicionado, zero de espaço. Portanto, 40 e vários graus infernais, lugares marcados no galheto e espaço para ficarmos juntos ainda menos.

Se por um lado dava vontade de rir, por outro dava vontade de chorar.

Pedimos ainda ajuda ao “comandante”, que aquilo que fez foi gritar pelo lado de fora do comboio que havia americanos a precisar de ajuda; e logo alguém veio, para fazer de uma mesa um assento.

Percebemos então como trabalhava. A primeira hora foi de tensão, calor e talvez desespero. Restava-nos observar as pessoas, mesmo em bancos separados. Aos poucos, foram-se conhecendo, movendo, e já tínhamos uma cama (por entre as muitas suspensas por entre os bancos e os porta-malas), um assento e uma mini-mesa para comer. Aos poucos, já nos queriam conhecer, oferecer comida e até um lenço típico! Aos poucos, já só o calor incomodava. E assim se passaram as horas, quase sem que dessemos por elas. E conseguimos os dois, dormir, deitadinhos. Um numa cama, outro no porta malas. Mas com direito a colchão e almofada e tudo!

O sol entrava já pelas janelas do comboio pouco passava das 5h00 da manhã. E o calor, que pela noite fora se tinha feito acalmar, voltava então em força.

Por entre o embalo do baloiçar dos carris, tomámos o pequeno-almoço, mas não ao mesmo tempo: ó-ó é bom em qualquer caminha do mundo, e enquanto um madruga ou outro sonha!

Dividimos assim a mesa com uma senhora já velhinha, que por entre os dentes que lhe restavam, só se via ouro no sorriso. E por entre os frutos que volta e meia lhe oferecíamos, dizia baixinho – Spasibo, obrigada.

Chegámos a Urgench com mais de 1 hora de atraso, e mal descemos pudemos avistar nas grades da estação o nosso couchsurfer. Esperava-nos desde a hora prevista (o que neste país não vale nada), com um sorriso largo no rosto e também na alma! E consigo, trazia dois couchsurfers da Rússia, também em sua casa hospedados. Com uma história parecida com a nossa, recém casados, a viajar à boleia pela Ásia, ela vegetariana e ambos sem beber álcool; tornaram-se a nossa companhia.

Em casa, depois de um banho fresco e de roupa lavada num grande alguidar, almoçámos juntos e passámos a tarde por entre histórias e longas partilhas. E já quase com o sol na linha do horizonte, depois de jantados, seguimos para um passeio pelo centro da cidade. A verdade é que se para muitos por aqui não alegra a hora do sol se pôr, a nós sabe-nos muito bem serem 21h30 e ainda haver luz.

E mais à noite, tristes por não conseguirmos ver a seleção a jogar, remediámo-nos nos braços um do outro, no sono que em nós jazia.

Madrugámos para ir até Khiva, a 30 quilómetros de Urgench: uma cidade histórica, incluída na antiga rota da seda. Indescritível, maravilhosa e imponente, com construções de fazer vibrar o olhar e sonhar. Por entre tons terra e azul turquesa, azulejos e artesanato. Um verdadeiro encanto, daqueles que se visita uma vez na vida e se guarda para sempre. No coração.

Regressámos mais tarde a casa, e depois de uma melancia para o almoço, fizemo-nos à cidade à procura de wifi. No Uzebequistão, a internet não é má: só praticamente não existe. São poucos os que a têm em casa, muito poucos. Porque é realmente cara. Da mesma forma que são muito poucos os cafés ou locais com wifi. Existem sim centros, com computadores e ligação, pagando-se à hora; mas lá não conseguimos conectar o telefone, onde temos o nosso parceiro WhatsApp, através do qual damos notícias à nossa querida família.

Neste sentido, temos feito algumas descobertas e, o mais fantástico, temo-nos desenvincilhado.

A primeira invenção, foi instalar aplicações, nos nossos equipamentos, que tentam descodificar passwords. Nem sempre funciona, mas às vezes faz a nossa sorte! Mais tarde, aprendemos a pedir às pessoas – aquelas que desconfiamos que saibam, para fazer hotspot com o seu telefone, partilhando assim wifi. É claro, é uma verdadeira modernice. Mas a verdade é que já nos tem desenrascado muitas vezes. Para um acesso curto e rápido, mesmo que não tenham muitos dados, ficam felizes por nos ajudar e nós muito gratos. E a terceira invenção, mas não pior, é procurar um hotel com o maior número de estrelas possíveis.

Porquê com muitas estrelas? Porque, vendo uma menina turista entrar, explicando que está de viagem no país e que precisaria de verificar o e-mail, gostam de mostrar que têm um excelente acesso à internet e cedem a chave sem qualquer constrangimento. Não sabemos bem, mas talvez pensem que num futuro próximo possamos escolhê-los para nos instalarmos. Ou talvez seja apenas cortesia, não interferindo com o bom funcionamento do hotel uma pessoa a mais a navegar. Em contrapartida, tentámos já hostels ou pequenos hotéis, mas sem sucesso. Exigem sempre o pagamento de alguma quantia, que sejamos seus hóspedes ou que consumamos algo no bar.

Já tarde, de barriga cheia de wifi, e muito satisfeitos com muitos miminhos da família, regressámos a casa. E lá, tínhamos trigo serraceno cozido à nossa espera! Muitos não conhecem as maravilhas deste cereal que adoramos, mas confessamos aqui que sabemos cozinhá-lo muito melhor – ou não fossemos nós uns verdadeiros chefs vegetarianos, eheh.

Levantámo-nos todos juntos depois na manhã seguinte para um grande pequeno-almoço. Embora com direções diferentes, íamos todos pôr-nos à boleia! O casal russo para para Bukahra, nós par Samarqant. E tivemos a sorte de podermos juntos apanhar a primeira boleia do dia ainda em casa, do pai do nosso querido couchsurfer. Há couchsurfers e couchsurfers, e embora gostemos de cada um à sua maneira, há sempre aqueles que nos marcam: e este foi um deles. Talvez pela sua humildade. Ou pela sua disponibilidade. Mas decerto por ser mesmo uma boa pessoa neste mundo.

Assim, quase sem darmos por isso, estávamos a 30 quilómetros da cidade e já na estrada principal para esperarmos pela nossa sorte.

Num instante conseguimos boleia, e em pouco mais de 1 horas, estávamos de novo de mochila às costas, já no nosso destino. Não tínhamos ninguém para nos hospedar na cidade, mas tínhamos um couchsurfer à nossa espera para nos conhecer. Não podia alojar-nos pois a família não concorda, mas quis ainda assim encontrar-nos e receber-nos na sua cidade.

Deslumbrado pelo mundo “lá fora”, apaixonado por cada viajante que conhece e pelo globo que sabe de cor; ajudou-nos tanto quanto pode, levando-nos até à bilheteira mais próxima, pois estávamos já em contagem decrescente para um novo comboio, um novo registo. E descobrimos então que o próximo duraria 20 horas, com um custo um bocadinho mais elevado, perto dos 12 euros.

Seguimos depois já sozinhos pela cidade. Tínhamos algumas luzes de onde poderíamos acampar e fizemos por segui-las. Perto do rio, ainda que dentro da cidade, junto a algumas vivendas novas e depois de algumas casas antigas. Por lá, encontrámos dezenas de crianças, curiosas pois com estes dois extraterrestres de grandes mochilas às costas e olhos sem ser em bico.

Seguiram-nos, e por entre risos falavam do Ronaldo, e do Figo também. Portugalia, diziam de ouvido em ouvido. E por entre os quintais víamos gente e gente a espreitar. Se a missão era secreta, deixou de o ser. Se o objetivo era passarmos despercebidos, também estava falhado. E restava o receio: receio de que alguém se sentisse intimidado e chamasse a polícia.

Decidimos então mudar de jogo: se perguntássemos a quem por ali nos olhava se o sítio era bom para acampar por uma noite, passaríamos a bola para o outro lado. Poderiam dizer-nos que sim, e chamar a polícia na mesma, claro. Mas era menos óbvio que o fizessem.

Contudo, as primeiras pessoas que abordámos, logo nos convidaram para sua casa. A princípio para por a tenda num quintal. Depois para dormir numa estrutura com cama de rede. E a única pergunta mais séria foi a se tínhamos os passaportes e visto, legais.

A família era grande, e por ser sábado, era dia de festa. E festa que é festa, pede vodka. Muita vodka. Mais vodka. E em resumo, estava o dono da casa bêbedo. Mas não foi por isso que nos recebeu pior ou com menos cuidado. Apresentou a gente da casa, a casa de banho, o chuveiro, os animais e mandou vir comida para a mesa com fartura. Só o tom de voz, esse, é que era pior. Intimidava, mesmo que por entre risos. Pensámos ainda que fosse do álcool ou até mesmo sem querer, pois berrava com entusiasmo cada frase que dizia. Mas pudemos mais tarde perceber que na presença de outras pessoas se continha. E, não bastasse já tamanha generosidade, ainda tinha wifi em casa – da boa!

Pudemos depois descansar e dormir, até no dia seguinte sermos acordados com um valente e sonoro “Tiaga!! Dawai” – pois em russo o “o” tem som de “a”, dizendo também eles “Cristiana Ronalda”! Tínhamos já o pequeno-almoço à nossa espera, típico e delicioso, sem margem para refutas – tal como no dia anterior, tendo-nos nós precavido com a alergia à carne.

Pelo dia fora passeámos com o seu filho e um sobrinho, tendo estes sido uma grande ajuda para voltar a trocar dinheiro no mercado negro e a comprar os bilhetes de comboio. E lá, mais uma vez impera a calma: quase 2 horas de espera com apenas 5 pessoas à nossa frente.

Acabámos depois a dormir a sesta e mais tarde, em casa, a conhecer uma amiga da família, professora de inglês.

Embora não tenhamos percebido o porquê, não fomos convidados a jantar com os amigos da família, tendo-nos eles preparado o jantar numa sala à parte. Mas moído o assunto, acreditamos ter sido por receio de denuncia à polícia – já que é pública a (infeliz) proibição de hospedar turistas…

Mas, desta, tivemos um jantar a dois, calmo e tranquilo.

Amoroso por entre o divagar do nosso namoro.

E na manhã seguinte, no nosso 10° dia no Uzebequistão, dissemos adeus a Nukus e aos seus encantos. Percorremos o bazar da cidade de mochilas às costas e tralhas nas mãos, regateamos, tirámos fotos com as senhoras que nos venderam alperces e fizemos o farnel das próximas 24 horas. E por fim, apanhámos um mashrutka por 5 quilómetros, até à estação.

Mashrutka não é um taxi, nem é uma van: fica-se pelo meio de ambos. Com um tamanho muito catita!

Esperámos pelo comboio, por mais de 3 horas, por entre a antecedência com que devemos chegar e o atraso que depois anunciaram. Só nos restou recordar que em outro qualquer lugar europeu, seria de esperar que todos se indignassem, que reclamassem pelo atraso, exigissem dinheiro ou uma sombra. Até a nós nos deu vontade! Mas aqui, até mesmo quando já nós nos comíamos por dentro, de indignação, as pessoas à nossa volta transpiravam calma. Acreditamos ser uma arte, esta a do saber esperar sem reclamar. E assim fizemos, por entre uma árvore que escolhemos para nos acolher.

Quando o comboio chegou, trazia espaço com fartura. Pudemos instalar as mochilas no sitio certo e tivemos direito a colchão e lençóis lavados para as camas de primeiro andar. E, como bónus, dois lugares com mesa livres para almoçarmos e passarmos parte da tarde. Só já mais à noite, numa nova paragem, a carruagem se encheu de gente. Mas aí, já descansados na cama, embora apanhados de sobressalto, pouco nos incomodou.

A tarde, noite e manhã passaram rápido e sem grande custo, o calor não era tanto assim (ou já nós nos fizemos habituar) e a maior parte do tempo aproveitámos para escrever e dormir! Mas, de nos tirar o sono foi o choque que tivemos relativamente ao lixo: seja nova ou velha, qualquer pessoa agarra no que tem e vai atirando pela janela do comboio em andamento. Seja garrafas ou sacos, embalagens ou restos de comida, vai tudo. E ensinam os avós aos netos como fazê-lo! E dão-se ainda ao luxo de nos olhar como porcos por guardarmos religiosamente o nosso lixo todo num saco de plástico até à chegada.

À chegada, a Samarqant, estávamos sem rumo. Novamente, não tínhamos ninguém para nos hospedar, ou pelo menos até termos saído de casa ninguém nos havia confirmado estadia no couchsurfing. Estávamos então preparados para erguer a nossa tenda pela primeira vez nesta viagem.

Passámos o dia com algum sacrifício por entre o calor, o peso das mochilas e a busca de wifi. A cidade, linda, exigia-nos que nos movêssemos, que a palmilhássemos. Que a quiséssemos visitar. Apanhou-nos de surpresa pela beldade das construções históricas, pela limpeza das ruas, pelo ornamento dos parques. Mas com a carga que trazíamos, a cada 10 minutos de caminhada só conseguíamos desejar por uma sombra e um recanto para parar.

Encontrámos depois, por entre uma zona verdadeiramente turística, um bazar. Uma vez mais, lindo em termos arquitectónicos, mas não tão recheado como outros que pudemos já encontrar. Decidimos visitá-lo à vez depois de encontrarmos um banco para descansar e largar as mochilas: e por entre o tempo de espera um do outro, surgiu conversa com uma vendedora ambulante de lenços e echarpes.

De repente, e sem nos apercebermos, tivemos das partilhas mais bonitas e intensas que pudemos alguma vez viver. Com um nível inglês muito além do que pudemos esperar, e por entre frases carregadas de emoção, descreveu-nos a sua história de vida, reflexa da te todas as mulheres no país. Com pesar e tristeza, não se coibiu de falar de tudo o que a amargura. E até talvez com leveza a mais, face ao que poderíamos imaginar, não teve rodeios. Casou-se jovem, aos 18 anos, tal como a família espera e impõe. As raparigas não estudam, nem devem: porque se forem boas raparigas, depressa se devem casar e de nada lhes serve os estudos para tratar da família. Seguiu então para casa dos sogros, onde passou a trabalhar do nascer ao pôr-do-sol: lava roupa, estende roupa, faz pequeno-almoço, deixa almoço preparado, faz jantar, limpa a casa, trata do quintal, lava a loiça e, rápido, tem muitos filhos e cuida deles. E durante o dia, vai ainda trabalhar – mas neste momento está muito mau, não há turistas e é deles que precisa.

Os sogros, sem trabalho e sempre em casa, exigem desde sempre que tudo seja feito com rapidez e rigor. E, por entre risos, contou até que por uma manhã de cansaço se deixou dormir por uma pouco mais, até por volta das 6 horas, tendo acordado com o cunhado aos gritos mandando-a ir tratar das suas lides. Com um sorriso ainda no rosto, explicou-nos que nesse momento esperou que o marido a defendesse, compreendendo-a cansada: mas não.

Com duas filhas para cuidar, partilhou também – e com rapidez, que são estas as sobreviventes de quatro. A primeira bebé morreu aos 6 meses de gestação e a última morreu também. Não falou de imediato porquê, mas mais à frente tivemos coragem de lhe perguntar. Da primeira gravidez a bebé não sobreviveu por excesso de trabalho, muita carga e falta de descanso. A ultima, foi obrigada a abortar – era mais uma menina e o marido agora quer rapazes. Pudemos mais tarde perceber que, de futuro, as meninas se vão, tal como a mãe, um dia para casa da família dos seus maridos. Já os rapazes, para sempre em casa ficam e sempre alguém trazem para cuidar deles. É a lei da vida por aqui.

E toda esta conversa sempre por entre sorrisos. E muita vontade de falar.

Os nossos corações estavam mais apertados que o dela – isso pudemos senti-lo.

Sonhava um dia poder ir viajar por outros países com o marido, passar tempo com ele longe da vida que traz. Confessou também que agora, por entre o seu dia-a-dia, não tem tempo: e que por isso sabe que o marido vai com outras mulheres. Não concorda, mas assume que nada pode fazer, porque não tem tempo nem para se arranjar pela manhã.

E em pouco mais de 30 minutos tínhamos um relato, para nós doloroso, de uma vida perfeitamente normal por aqui.

Despedimo-nos, gratos pela conversa, pela generosidade. Pela força.

De mochilas novamente as costas, comprámos algumas frutas e pão caseiro para o almoço e seguimos caminho. Os preços por ali muito elevados, mais do dobro face a outras cidades, por ser um local turístico e por não terem na cidade agricultores, importando tudo. Ainda assim, fizemo-nos ao negócio e conseguimos alguns preços mais baixos.

Pela cidade conhecemos dois viajantes, em separado. Um italiano e um francês. O último, praticamente com a mesma rota que nós, mas de bicicleta, ambos inspiradores à sua maneira.

E já mesmo ao final do dia, por entre a nossa busca, encontrámos uma rede wifi aberta! E lá tínhamos à nossa espera a confirmação de um couchsurfer em Samarqant para nos hospedar. Professor universitário,1 de economia, tinha-se registado no site à uma semana. Fomos por isso os seus primeiros hospedes, a sua primeira experiência. Levou-nos a jantar fora e a dormir no seu apartamento na cidade, e por entre o medo da polícia, pediu-nos que fossemos muito discretos em casa. Lá, deixou-nos sozinhos, tendo ir dormir à sua casa de família, onde teria a mulher e filhos à espera. E assim, percebemos que nos hospedou em segredo.

Na manhã seguinte, em pezinhos de lã, saímos do bairro e, com a maior das generosidades, quis dar-nos a provar tudo o que de típico encontrávamos pela cidade.

Começámos por uma pastelaria, onde provámos deliciosos salgados vegetarianos. E seguimos para o mercado. Mas sobre este temos tanto para dizer que é complicado escolher por onde começar! Numa palavra: badalhoquice. Cá vamos.

Pudemos encontrar em todos os mercados rulotes de bebidas. São carrinhos, cada um com a sua especialidade. Sempre que passeamos sozinhos, observamos de longe, mas por norma não chegamos perto. Temos sempre algum receio, nomeadamente no processo de produção da bebida em si, pois a água por aqui não é potável e trazemos alguns recados do nosso médico da consulta do viajante, que pretendemos cumprir. Mas, acompanhados por locais, nem sempre é fácil!

Assim, à chegada, foi-nos comprar uma bebida feita exclusivamente com gelo, onde acrescentam por cima caramelo. E é isto. Adoram por ser refrescante e doce ao mesmo tempo.

Embora em casa fujamos do açúcar, de viagem sabemo-nos muito flexíveis e claro, o que é doce nunca amargou! Mas, e aquele gelo? “Nunca consumam gelo nas ruas”, ouvimos nós no gabinete. O melhor que conseguimos foi um a dividir pelos dois!
Mais à frente, depois de compradas algumas frutas, sempre com a maior das generosidades, quis oferecer-nos uma bebida obtida exclusivamente de amoras. Um líquido preto e, à partida, saudável e saboroso. Mas o pior estava para vir! No fundo dos alguidares das amoras, acumulava-se esse líquido. Com um prato de plástico, tiravam as amoras para sacos de plástico colocados na balança. E em cima do carrinho, tinham 5 copos de vidro de diferentes volumes, desde o cálice ao copo alto: e era com esses copos, de diferentes preços, que apanhavam o líquido do fundo do alguidar, o tal que se bebia. Só que os copos, tal como dissemos, de vidro, nunca eram lavados. O senhor do bigode, chegava, escolhia, bebia, e siga: volta a encher o copo e a bebida está a venda de novo. A senhora dos dentes de ouro e lenço na cabeça, chegava, escolhia, bebia, e siga: a história repetia-se. Era tamanha a badalhoquice e, como que por instinto, conseguimos em segundos dizer que preferíamos provar as amoras inteiras.

Não é fácil. Não é nada fácil explicar que embora viajantes, pretendemos manter alguns cuidados de higiene – até mesmo muitas vezes perante outros viajantes.

Aliás, muitas vezes percebemos que há um desfasamento entre nós e os que nos rodeiam nestas aventuras. Porque sim, gostamos de ter a roupa lavada, de tomar banho todos os dias ou de lavar os dentes tantas vezes quantas consigamos. Gostamos de dormir com pijama lavado, de trocar de roupa interior diariamente ou ter um lençol nosso e lavado para por nos colchões ou nas camas que nos dão. E sabemo-nos olhados como mesquinhas, mas não faz mal!

Sabemo-nos bem assim. E ainda bem que nos temos um ao outro, em sintonia. ❤

Já depois de visitado o mercado, seguimos para as montanhas mais próximas, as 50 quilómetros da cidade, onde visitámos um campo férias onde este couchsurfer já havia trabalhado. Embora com cerca de 600 crianças, depois de conhecermos os monitores, não pudemos deixar de nos lembrar dos nossos tempos de trabalho na CAF da APEECV em Queijas, onde também fomos muito felizes!

E já de tarde regressámos a casa: tivemos depois tempo para reorganizar as nossas mochilas, descansar um pouco e só ao pôr-do-sol fomos sozinhos visitar mais um lindo parque na cidade.

Em casa, tentámos de tudo para ver Portugal jogar. Mas não foi fácil. Sem televisão e com uma internet emprestada por um vizinho, desistimos e ouvimos o relato do jogo pela rádio… mas adormecemos. Acordámos mais tarde com o golo do Nani e percebemos que estávamos então na final! Aconchegámo-nos, virámo-nos para o lado e seguimos sonhos fora.

Na manhã seguinte era dia de seguir para Termez, uma cidade a sul, com fronteira com o Afeganistão. E embora tenhamos tido esperança de que fosse fácil lá chegar, deparámo-nos com um dia à antiga, durante o qual apanhámos 7 boleias: e por cada uma esperámos mais de 1 hora.

Em todas as boleias encontrámos pessoas recheadas de simpatia, mas pelo dia fora houve duas situações que nos marcaram. A primeira que recordamos, marcou-nos porque acabámos a recusar uma boleia: 3 senhores, muito bem parecidos e com um belo carro, falavam connosco de modo exuberado e riam-se de tudo quanto lhes dizíamos. Calculamos pois que estivessem bêbedos. Depois de pararem e de gozarem o prato, seguiram. E mais tarde, ainda nós continuávamos à boleia no mesmo sítio, voltaram dizendo que nos levavam e que iam exatamente para Termez – e foi quando recusámos. As vezes não é fácil, quando estamos à muitas horas para fazer poucos quilómetros, quando vemos as sombras a mudar de posição e nós sempre no mesmo sitio. Mas trata-se de instinto e esse temos de o seguir. É preferível não chegar ao nosso destino, mas estar em segurança.

Já mais tarde, num outro local alguns quilómetros depois, algumas boleias depois, sentimo-nos em Itália. Vimos sol pôr-se. Estivemos várias horas no mesmo sítio, vimos a vida pela aldeia acontecer, e nós sem nos mexermos. Ponderávamos já inclusive onde poderíamos montar a tenda. Até que parou um carro, e de lá saiu um polícia, dizendo – problemas?

Estremecemos dos pés à cabeça. E num segundo, os nossos olhos puderam ver de tudo: passaportes, registos, dinheiro, chatices, corrupção, autocarros, táxis e hotéis.

Respondemos prontamente em russo – niet problema! Mas não convencido, depressa perguntou às pessoas que se começaram a juntar à nossa volta quem éramos e o que estávamos ali a fazer. Foram dizendo que éramos turistas de Portugal, e que estávamos a viajar a pé e ali à espera de um carro no nosso caminho, mas que não tínhamos dinheiro para pagar.

Sabemos bem que tudo na vida se rege pela sinceridade e verdade, mas ali não sabíamos se tinha sido boa opção.

Contudo, no mesmo instante, o trabalho do polícia foi começar a mandar parar carros. Um por um, gritava, gesticulava. Eles encostavam, falava e mandava-os seguir. Até que com uma carrinha das que só por aqui há – as Damas, nos gritou a nós para que entrássemos.

As Damas, são também as carrinhas utilizadas como mashrutkas, e por isso foi imediato pensarmos que talvez estivessem a contar que pagássemos, mas não tínhamos opção. Enfiados ali dentro pela polícia, agradecemos muito e seguimos.

A conversa não foi imediata, os primeiros quilómetros foram maioritariamente em silêncio, mas pouco a pouco, fomo-nos ligando. Eram dois senhores, e já não eram novos. Mas foi talvez o caminho que nos conectou: a estrada, só vendo se crê. Adoraríamos conseguir transpor em palavras a miséria, sem asfalto, sem luz e com dois sentidos, com buracos e montes de areia e pedras, com descidas e subidas, com gravilha e pó. Anti-amortecedores. Anti-carros. Anti-costas. Parecia até que tínhamos entrado no país vizinho! E a melhor forma de classificar: impossível de adormecer.

Foram mais de 2 horas assim, com a coadjuvante de que a cada 30 minutos tínhamos um posto de controlo da polícia (como por todo o Uzbequistão), onde verificam se a pessoa veio em excesso de velocidade (o que no caso era impossível) e se está tudo legalizado. Estes postos dividem regiões, como se em Portugal houvesse na A8 um controlo em Caldas da Rainha, em Torres Vedras, e por aí fora, com o objetivo de manter a segurança e ordem do país. No entanto, dada a proximidade com o Afeganistão, a conversa era mais séria e acrescia o controlo face a drogas.

Sempre pacientes, os nossos condutores, ajudaram-nos sempre que foi preciso declarar os nossos passaportes nesses mesmos postos, esperando com calma e de sorriso no rosto. E já no último posto de controlo, estavam os polícias a ver o jogo do dia anterior, de Portugal contra Wales. E uma vez mais graças ao futebol português se quebrou o gelo.

Já perto da 00h00 chegámos à cidade destino da nossa boleia, mas estávamos ainda a 30 quilómetros de Termez. Sabíamos que tínhamos um couchsurfer maravilhoso e acordado à nossa espera, e por isso fazíamos questão de chegar. Na cidade onde nos encontrávamos, foi a vez dos nossos condutores procurarem por uma boleia para nós, mas sem trânsito e apenas com táxis parados na praça central, depressa percebemos que a missão seria praticamente impossível.

Foi então que num gesto verdadeiramente abençoado decidiram fazer eles próprios de táxi, levar outra pessoa que desejava seguir e oferecer-nos a nós o caminho que restava. E quase sem que pudéssemos acreditar, estávamos a chegar a casa. Seguros, sãos e salvos.

Descansámos que nem anjos, sem que nada nos fizesse despertar. Ainda que o calor fosse muito. Dormimos tanto quanto precisámos, com a certeza de que não poderíamos ter escolhido uma melhor família para nos acolher! E já só à noite, quando as temperaturas eram mais suportáveis, fomos conhecer a cidade e os seus encantos. A verdade é que em Termez, não queríamos acreditar, mas pela localização geográfica, as temperaturas durante o dia variam entre os 50 e os 60 graus. Uma loucura que impede qualquer um de sair durante o dia, e faz com que todos saiam à noite. E à noite que vemos mercados, vendedores, lojas e supermercados, tudo a trabalhar.

Já tarde, cozinhámos à portuguesa, tão bem e com tanto amor quanto sabemos. E sabemos que assim fica de comer e chorar por mais!

Mas foi no dia seguinte que foi difícil de acordar. Era cedo, cedo demais. O calor não cansa, mas mói. E a luz do sol por entre as cortinas da sala não era nada benvinda. Mas teve de ser, e ao segundo despertador começámos o dia. E que dia!

Era pois dia de deixar o Uzbequistão. Era finalmente o dia de chegar à fronteira, de ver como ia desenrolar-se a história dos registos. Será que nos iam pedir os papéis? Será que iam tentar extorquir-nos dinheiro? Será que iam deportar-nos com um carimbo no passaporte?

Embora nenhuma das hipóteses fosse conveniente, só queríamos sentir-nos livres e despacharmo-nos o mais rapidamente possível. Tínhamos um papelinho verde escrito à mão com o nosso roteiro no país e dentro da lei: nunca mais de 72 horas numa região sem registo de hotel. E para evitar maiores confusões, pelo meio dois comboios noturnos. Era esperar para ver.

Passámos o dia à boleia, e se para chegar a Termez não foi fácil, para de lá sair também não.

No primeiro lugar onde nos pusemos à boleia, estivemos mais de 2 horas. Enganados pela sombra de uma árvore, vimos as águas que trazíamos congeladas derreterem. E aquecerem.

Foram vários os carros que pararam esperando de nós dinheiro, e podíamos ver muitos deles a passarem por nós e a voltar para trás na expectativa de que fossemos uma mina de ouro. Depressa se desencantavam e rápido nos deixavam para trás, voltando nós à estaca zero.

Percebíamos ser cada vez mais difícil atravessar as fronteiras no mesmo dia. Mais, não havia qualquer informação online sobre os seus horários, e por isso estávamos sem ideia de como o tudo iria acontecer.

Acabou por parar um carro que nos levou por muitos e bons quilómetros, com apenas um pequeno problema: quis levar-nos a almoçar fora com um amigo, e fez para durar a conversa à mesa. Claro está que temos sempre de contar com estes desvios, mas estávamos em pleno contra-relógio, coisa a que já não estamos habituados.

O nosso coração por norma bate calmo e sereno, e tem sido ele a comandar os nossos dias.

Quando nos deixou, estávamos a 40 quilómetros da fronteira, mas no meio de uma cidade. Caminhámos enquanto a força do corpo nos permitiu, suados e destilados pelo calor e pelas mochilas, até que um taxista – amoroso! nos quis ajudar e nos levou por 2 quilómetros, até à estrada principal.

Aí, caído do céu, parou um camionista Bielorrusso. Falava inglês e ia também para a fronteira. As manhas, sabia-as todas e por isso à chegada tínhamos a lição bem estudada. Era hora de enfrentar as feras.

O primeiro controlo do passaporte fizemos numa verdadeira rulote, com um militar e por entre dezenas de locais que pretendiam também atravessar a fronteira – eram já 18h00 mas estava tudo a funcionar como se cedo fosse.

Caminhámos depois até ao gradeamento e lá encontrámos um militar eximiamente fardado e equipado. Sem rodeios, pediu-nos os passaportes e, sem nos deixar respirar, pediu também os registos.

Baaaammmm.

Tínhamos muita coisa combinada, mas caiu tudo por terra. E a única coisa que conseguimos fazer, foi mantermo-nos firmes. Em cada frase, mostramo-nos tão confiantes quanto soubemos.

Mandaram-nos esperar por duas vezes, e por cada uma vinham 3 e 4 militares, polícias, chefes e chefinhas pedir explicações. Mantivemos sempre o nosso discurso e esperámos sempre descontraídos. Tínhamos mais uma carta no bolso: em última instância, pedir que ligassem para uma embaixada europeia. Mas não foi preciso. A espera foi longa, mas calculamos que unicamente para nos aborrecer.

Carregamos o material e seguimos, aliviados e felizes, com a sensação de missão cumprida!

Os seguintes controlos foram fáceis, nada mais que declarações, mochilas no rx e uma voltinha pelas fotografias do tablet. E o truque é deixar estar por aqui as do casamento: sorriem muito e mandam-nos seguir. Oxalá assim continue, agora que dissemos Olá ao Tajiquistão!

E relembrando-nos nós agora, não podemos deixar de partilhar a mais bela parte que guardamos dos sorrisos até aqui: os dentes de ouro! Lamentamos que arranquem os saudáveis para os pôr reluzentes, mas lá que é uma moda vistosa, é! E rica também.

Como todas as recordações que guardamos: ricas.
Como cada vez mais nos sentimos, dia após dia, com o mundo na mão.

E COM PORTUGAL CAMPEÃO! 🌏❤

2016-07-10 14.59.002016-07-10 15.42.262016-07-10 15.35.482016-07-10 15.18.122016-07-10 15.34.242016-07-10 15.34.562016-07-10 15.20.342016-07-10 15.22.102016-07-10 15.34.022016-07-10 15.44.012016-07-10 15.41.152016-07-10 15.43.152016-07-10 15.45.022016-07-10 15.00.492016-07-10 15.36.562016-07-10 15.23.432016-07-10 15.23.002016-07-10 15.37.502016-07-10 15.45.522016-07-10 15.26.522016-07-10 15.30.522016-07-10 15.27.382016-07-10 15.33.412016-07-10 15.42.072016-07-10 15.39.112016-07-10 15.02.07

diário pela antiga Pérsia

REPÚBLICA ISLÂMICA DO IRÃO

Visto 30 dias
Entrada 23 maio
Saída 21 junho

39 boleias
4128 quilómetros

Dia 1 – 23 maio

Partimos de Yerevan, na Arménia, com rumo ao Irão.
Saímos já mais tarde que cedo, e sabíamos ainda assim que tínhamos um longo dia pela frente. O objetivo era chegar a Tabriz – estávamos por isso a 500 de distância, longos, tendo em conta que por cada 100 quilómetros levávamos quase de 2 horas na estrada, montanha acima, montanha abaixo.
Apanhámos no total deste dia 5 boleias: A primeira, com uma família que ia para a sua quinta. De sorrisos fáceis, convidaram-nos para ir também. Logo depois, quase gerando um acidente e uma luta, parou um casal que nos levou muitos quilómetros. Pelo caminho, ofereceram-nos frutas, doces, bebidas e tudo do melhor. E já quase pelo final, ainda pararam para visitar um camarada do tempo do serviço militar. Falava francês e recebeu-nos de mesa cheia! A terceira boleia foi com um senhor com carro importado, como tantos, com o volante lado direito. Quando nos apanhou estávamos já estoirados, depois de atravessarmos uma pequena cidade a pé. Quando nos deixou, apanhou-nos uma Van, privada com serviço de autocarro. Ajudaram-nos a chegar a próxima cidade! Lá, um homem parou oferecendo-se como um táxi. Recusámos e explicámos porquê, mas logo depois ofereceu-se para nos levar a mesma. Foi estranho, mas aceitámos. Mas mais estranho foi pelo caminho. Sempre de olhos postos em nós, pouco falador e pouco comunicativo. Pelo caminho, apanhou outro homem, que sem dar tempo para trocas, se sentou no banco de trás. O caminho durou mais de 2 horas e as estrelas já brilhavam no céu. Sentíamos os nossos corações palpitar e queríamos só chegar ao local acordado. E chegámos. E foi lá que apanhámos a última boleia do dia, mesmo sem sabermos que assim seria. Um senhor dócil e simpático, que acabou por nos deixar na fronteira.
Estávamos muito tensos pela quarta boleia, tinha sido tudo muito estranho e sentíamo-nos desconectados do mundo. Mas na fronteira, embora já de noite, decidimos atravessar.
A travessia correu bem. Do lado da Arménia levaram 20 minutos a inspecionar os nossos passaportes. Vieram 3 guardas diferentes para os controlar, e no fim ainda tivemos direito a um micro-interrogatório (acreditamos que por brincadeira e só para chatear). As perguntas desnecessárias, feitas em separado e sem intuito, fizeram-nos perceber que de nada se tratava.
Do lado do Irão, atravessámos cada posto com um sorriso de volta – e tanto que precisávamos deles! Acabámos depois por ficar a dormir na fronteira, a convite do controlador que falava turco. Mas antes, conhecemos um casal de Chalus, do norte do Irão; doces e recém-casados, ofereceram-nos jantar, sobremesa, sumos, tâmaras e pistachos. Ajudaram-nos e trocámos contactos. No fundo, foram a lufada de ar fresco de que precisávamos! As horas anteriores não tinham sido fáceis. Não chegar ao destino, não é fácil. Chegar a um país com uma cultura tão diferente e com tantas restrições para as mulheres também não. No fundo, estávamos confusos. Trazíamos um turbilhão de emoções em nós.
Dormimos então na sala de reza feminina, juntos mas separados. Um sono de pouco mais de 4 horas. Reticente. Mas seguro. E mesmo sem nos tocarmos, os nossos olhares diziam tudo; felizes na certeza de nos termos um ao outro.

Dia 2 – 24 maio

Pela manhã acordámos em pés de lã. Não sabíamos ainda bem como trabalhava este mundo desconhecido, mas sentíamos algum desconforto por termos dormido os dois na sala de reza que pertence às mulheres e que é vedada ao olhar de qualquer homem. Ao mesmo tempo, sabíamo-nos mais tranquilos.
O controlador, dócil e amável, ofereceu-nos o pequeno-almoço e a primeira boleia do dia, até Julfa – a primeira cidade que pisámos. Mas ali, estivemos quase 30 minutos em negociações: depois de na fronteira termos explicado por várias vezes a forma como viajávamos, foi difícil que nos deixasse seguir. Quis por tudo enfiar-nos num táxi! Achou por fim que o problema seria dinheiro, e assim ofereceu-se também para o pagar. Foi árduo e penoso, não queríamos ser mal educados ou desprezar a sua boa vontade, mas acabámos por nos sentir cansados, e alegámos por fim não gostar de táxis. Começou depois o discurso em como os táxis são seguros no Irão e um role mais de argumentos, tudo para nos demover da ideia de andar à boleia. Mas não conseguiu. E nós conseguimos seguir viagem!
Contudo, foi um dia de perfeito de desespero. De angústia. No decorrer do dia, apanhámos 3 boleias: A primeira com um rapaz novo, que embora pouco conversador, se mostrou interessado em ajudar dois turistas, tendo-nos deixado à entrada da estrada que seguia no nosso sentido, mas não sem antes um role infindável de taxistas ter parado à nossa frente. Aqui, foi a loucura. Havia muito trânsito, e os carros buzinavam. E um por um, iam parando, oferecendo serviço de táxi. À medida que iam parando, formavam-se filas de carros, e instalava-se o caus. É difícil de descrever, mas a pressão era muito. Falavam rápido e em farsi, diziam repetidamente táxi e autobus, e não desarredavam pé até sentirem que nos tinham ajudado. Chegámos a ter 20 pessoas à nossa volta, a falar umas por cima das outras e nós sem conseguirmos explicar o nosso objetivo: apanhar uma boleia! Entretanto, também das lojas e minimercados, começaram a vir pessoas. Inacreditável. Até que sem percebermos como, conseguimos uma boleia de um senhor, amigo de um outro que estava no meio da rua. E seguimos, exaustos. A última boleia, já numa cidade perto de Tabriz, foi mais natural. Claro que voltámos a sentir-nos tensos com as pessoas à nossa volta a tentar – nos ajudar e nós sem nos conseguirmos explicar, mas decorreu com mais tranquilidade. Parou um senhor que, depois de lhe termos mostrado o nosso papel mágico (escrito em farsi e que diz, resumidamente, “Senhor condutor, se for na nossa direção e puder levar-nos sem cobrar dinheiro, ficaremos gratos”) andou connosco às voltas, e mais voltas, até encontrar a casa do nosso primeiro couchsurfer, que estava até ao final do dia a trabalhar.
Assim, já em casa, conhecemos os seus amigos durante a tarde, deram-nos chá e acesso à internet. A casa era um verdadeiro caus: cobertores, colchões, roupa suja, loiça, comida, tudo a monte. Não havia quartos, apenas um espaço. E a casa de banho ficava na rua. Não que nos tenhamos deixar impressionar, mas a sensação era a de chegada a um terceiro mundo. Quando o nosso couchsurfer finalmente chegou, foi muito estranho. Ficou desassossegado e aborrecido por termos tido acesso à internet e, mais inquietador ainda, quis levar-nos à polícia para que assinássemos um papel em como éramos seus hospedes. Ficámos desconfiados e muito desconfortáveis: tão desconfortáveis que não precisávamos de falar, os nossos olhares bastavam-nos para nos sabermos em sintonia. E por isso, questionámos o porquê. Mentiu-nos, sem hesitar, dizendo que a polícia tinha contactado todos os couchsurfers registados. Percebemos que não tinha qualquer fundamento, mas voltou a meter os pés pelas mãos dizendo que tinha o seu número no seu perfil. Decidimos ir embora. Não fazia sentido continuar assim, a partilhar o tempo assim.
Metemos as mochilas às costas e saímos. Não tínhamos um rumo definido, mas a primeira coisa que fizemos foi ir trocar dinheiro – no Irão não há possibilidade de acesso a contas estrangeiras, os cartões tão pura e simplesmente não funcionam. E portanto, prevenimo-nos trazendo euros e dólares. E decidimos seguir para a morada que um outro couchsurfer nos tinha dado, com o intuito de nos hospedar mais tarde. Estávamos cansados, desiludidos e nervosos: queríamos só um porto de abrigo.
No autocarro, que para nosso espanto nos custou 0,12€, conhecemos dois senhores, que nos ajudaram tanto quanto puderam. Um deles, foi buscar o seu carro para nos levar à porta de casa à chegada à paragem depois de 30 quilómetros. O outro, queria que fossemos para sua casa beber chá.
À chegada a casa do novo couchsurfer, o alívio instalou-se em nós. Os sorrisos sinceros, a humildade, a simpatia. A simplicidade. Dois irmãos, uma casa normal (rodeada de carpetes) e limpa. E sossegada. Prepararam-nos o jantar e pudemos respirar, enfim, em paz.

Dia 3 – 25 maio

Deixámo-nos dormir tanto quanto precisávamos, descansámos o corpo e a alma. Recarregámos energias e voltámos a apaixonar-nos pelos sonhos que trazemos. E saímos para passear. À boleia com um dos irmãos que nos hospedava, fomos até Kandovan: uma cidade construída nas montanhas, nas rochas. Casas, lojas, vida. Uma vida muito diferente, muito especial. E já ao final do dia, como a quarta das boleias, levou-nos uma família que viajava de férias. Uma delícia de gente: bem como nos ensinam, pararam pelo caminho, esticaram as mantas pelo chão, tiraram a botija e em cinco minutos tínhamos um banquete!
E assim fizemos do nosso dia, o primeiro verdadeiro dia de turistas: porque viajantes somos sempre!

Dia 4 – 26 maio

Após duas noites de conforto, partimos para Zanjan. Tomámos ainda o pequeno-almoço em casa, como pelo Irão se quer: lavash (um pão que mais parece um crepe gigante) e muito chá, e logo depois apanhámos um novo autocarro para sair da cidade.
Ainda pouco certos de como iria correr, levámos connosco uma placa já escrita em farsi e muitas borboletas no estômago. É tão duro quanto se possa imaginar, não conseguir comunicar. E mais ainda quando nos querem ajudar, mas não queremos aceitar o tipo de ajuda.
Por entre muita calma e perseverança, apanhámos até ao nosso destino 4 boleias: A primeira, acabou por ser de um taxista, que por entre gestos e teatros nos entendeu e nos quis ajudar a chegar mais adiante. Mas no lugar em que nos deixou, pararam vários carros e voltou a instalar-se o caus. Falavam uns por cima dos outros e foi trabalhoso desenvencilharmo-nos. Até encontrarmos um jovem, acompanhado pela sua mãe, falando ambos inglês. Vestidos de preto dos pés à cabeça, explicaram-nos já dentro do carro que estavam de luto pelo pai e marido, pelo irmão e respetivo filho. Ainda assim, com um coração de ouro, ajudaram-nos a seguir caminho, levando-nos até à autoestrada. Lá, quis-nos levar um senhor que não nos levou a lado nenhum, acabando por nos deixar praticamente no mesmo sitio, mas muito feliz por nos conhecer. Por fim, entusiasmados e radiantes, pararam dois senhores de Teerão, e que portanto iam na nossa direção. Pelo caminho, pararam para nos mostrar as montanhas coloridas e também para beber chá. Levaram-nos depois até casa da nossa nova couchsurfer – e para isso, andaram mais de 20 minutos às voltas com o carro, sabendo nós que a pé não demoraríamos mais de 5 minutos. Mas no Irão é assim, a hospitalidade é tanta que só quando nos sabem bem, e em casa, é que descansam!
E já no nosso novo lar, tivemos uma casa só para nós: embora fora em trabalho, a nossa couchsurfer deixou as chaves, e a família encarregou-se de nos abrir a porta e de nos receber. Gratidão transbordava em nós, felizes depois de chegados.

Dia 5 – 27 maio

Com a casa para nós, aproveitámos para gerir o dia como gostamos, entre cozinhados improvisados e música durante o duche! E pelo meio, encontrámos o sobrinho da nossa couchsurfer, com quem palmilhámos a pequena cidade. Era sexta-feira, o que equivale a um domingo pelo Irão: dia de ir rezar, dia de descanso. E, por isso, praticamente tudo fechado. Professor de inglês, permitiu-nos aprender muito sobre o país e a sua cultura.

Dia 6 – 28 maio

Com já tudo aberto pelas ruas foras, decidimos sair pouco depois da hora de almoço para visitar o mercado tradicional da cidade. Mas não sem antes darmos as boas vindas a um viajante de Itália, que ainda mesmo de nós sabermos, se iria instalar connosco! Mundo curioso este!
Já ao final do dia, fomos assistir e participar na aula de inglês do sobrinho da nossa couchsurfer a seu convite. E mais à noite, por entre o jantar e o arrumar das mochilas, conhecemos a dona da casa, que havia acabado de chegar. De tom de voz dócil, pequenina e já mais velhinha, deixou-nos admirar como é sempre tempo para conhecer e para partilhar.

Dia 7 – 29 maio

Antes de nos fazermos à estrada de novo, com rumo a Teerão, fizemos um verdadeiro banquete para o pequeno-almoço. E na hora da despedida, recebemos uma prenda: uma caneta especial, para futuro registo de emoções em viagem, pela nossa generosidade. E aí, caiu-nos tudo: como é possível que nos tenham hospedado, recebido e ainda agradecido?
Mochilas às costas e fizemo-nos ao caminho. O calor sentia-se por entre o suor que se acumulava nos nossos pescoços. E no cansaço que tão facilmente se fazia sentir no nosso corpo.
Por entre recusas de táxis, parou um ciclista, vibrante e caloroso! Conversámos por 5 minutos, registámos o momento numa fotografia e seguimos!
Até Teerão acabámos por apanhar 4 boleias: A primeira foi de um senhor que nos deixou na entrada da autoestrada, exatamente onde precisávamos, muito feliz por nos conhecer – o que percebemos claramente quando disse por repetidas vezes ‘Cristiano Ronaldo, Carlos Queiroz’! E assim nos despedimos. Ali, não levamos mais de 5 minutos até para um camião, com um jovem que chamava por ‘Mr.Tiago’ sempre que a nós se queria dirigir. Não entendeu bem o conceito da nossa viagem, por mais que lho tentássemos explicar. Mostrámos-lhe o papel mágico e até encontrámos num dicionário que por lá tinha, com a tradução de “hitchhiking” para farsi, e já quando estávamos crentes de que havia percebido, perguntou-nos se era para nos deixar na estação de autocarros da cidade para onde seguia. Sorrimos e descemos ainda na autoestrada. Lá apanhámos uma boleia de mais um senhor de meia idade, pouco conversador, mas atencioso, tendo-nos deixado uns quilómetros mais à frente. E aí sim, entrámos no último carro do dia: já mais que meio desejosos de chegar a casa, de largar mochilas e sacos, tirar roupa e hijab. Com ar de fanfarrão, contou-nos que tinha loja em Bangkok e que teria gosto em encontrar-nos lá um dia. E chegámos a Teerão – no ar, além do calor, sentia-se a poluição e o ar pesado, digno de uma capital.
Já em casa da nossa nova couchsurfer, jantámos, rimos, conversámos e partilhámos hábitos entre as nossas culturas. Foi ela, a primeira a deixar-nos entrar na sua cultura, sem constrangimentos. Tivemos direito a perguntar tudo sobre tudo: por entre a curiosidade e a ânsia que trazíamos em nós (partilhado no post anterior). E quando nos fomos deitar, era já tarde. Tarde demais para quem no dia seguinte tinha tanto para palmilhar.

Dia 8 – 30 maio

Às 6h50 soou o despertador. Os raios de sol rompiam já altos pela janela da sala. E as nossas costas estalavam: dormir no chão com um colchão feito à mão e envolto de tecido tornou-se um hábito, mas acordar cedo jamais poderá tornar-se.
A primeira embaixada a que fomos foi a do Turquemenistão: a do país que se segue na nossa rota. Lá, conhecemos vários viajantes! E entre nós , ajudamo-nos tanto quanto pudemos, ou a causa não fosse a mesma. Primeiro, um casal da Austrália e, depois, um rapariga francesa. E até pela janela da embaixada aceitarem todos os nossos papéis e formulários, os nossos corações vivem momentos de aperto. Mas no fim, aprendemos, corre sempre tudo bem, acabada sempre tudo em bem. (E se ainda não está bem, é porque ainda não terminou).
Pela tarde fora, passeámos com a nova amiga de França e cruzámos o centro da cidade, ruas movimentadas e o mercado moderno. E visitámos ainda, com alegria e amor à camisola, a nossa embaixada – a embaixada de Portugal. Confessamos ter sido uma delícia falar português, ter sido uma delícia ser tão bem recebidos. E de lá, trouxemos duas cartas de recomendação e suporte, um para a embaixada da China e outra para o Tajiquistão. E ainda o número de telefone da nossa embaixadora, que amorosa e delicadamente, nos deixou à vontade para a contactarmos a qualquer hora do dia, ou da noite, em caso de necessidade.
De regresso a casa, sentimo-nos impotentes – o corpo exigia-nos uma sesta. Só mais tarde, recuperados, preparámos o jantar. E para nossa surpresa, tínhamos mais uma prima à mesa: surpresa pela pessoa que pudemos conhecer. De sorriso na alma, de bem com a vida, partilhou a sua história sem receios, a sua vida outrora estritamente religiosa e o seu dia-a-dia hoje, longe e discente. Uma vez mais, perguntas atrás de perguntas, não a deixámos descansar enquanto não nos vimos esclarecidos. Foi um mundo posto em cima da mesa, uma vida sem medos, uma partilha intensa.
E o relógio marcava 2h00, quando sabíamos que tínhamos os formulários das próximas embaixadas para preencher. Mas desistimos: o sono venceu-nos, e por ente quatro paredes e o nosso lençol verde alface, abraçámo-nos e não resistimos aos sonhos.

Dia 9 – 31 maio

Quando nos tivemos de levantar as 8h00 parecia ser mentira. Mas tinha de ser. Primeiro, porque tivemos oportunidade ir a casa da prima da nossa couchsurfer lavar roupa; e não menos importante, em segundo lugar, tínhamos por preencher os papéis para embaixada da China. Pela internet, encontrámos relatos de quão difícil é o pedido deste visto: exigem bilhetes de avião, marcações de hotel, carta de emprego, carta de recomendação, …. Enfim, um mundo de papelada. Tratámos de tudo durante a manhã, e já meio a correr, chegámos a tempo. Mas nada do que havíamos lido se aplicou: fomos recebidos com sorrisos, e depois de dizermos o nosso país de origem, limitaram-se a pedir-nos os formulários, os passaportes e a carta de recomendação da embaixada portuguesa. De espanto, quem sabe, ainda nos questionaram se ao invés de um visto de 30 dias, não gostaríamos de 60. E assim foi: fácil e sem problemas, como nunca pudemos imaginar. Combinámos pois levantar o visto em 10 dias, mas dali trazíamos já a confirmação de que tínhamos sido aceites – e leveza foi tudo o que pudemos sentir.
De mão dada, ficámos frescos que nem alfaces, prontos para o que havia ainda de vir!
Acabámos ainda por ir até à embaixada do Tajiquistão saber como trabalhavam, e com todas as informações recolhidas, rumámos a casa. Mais que exaustos. E para não falharmos em nada (quem nem trabalhadores), conhecemos o caus do metro de Teerão na hora de ponta.
Acabámos mais tarde a nossa noite, com um amigo da nossa couchsurfer, todos juntos, no Roof of Tehran: um miradouro, a norte da cidade, de onde se pode ter noção da sua imensidão (é de sublinhar que apenas e só na cidade de Teerão vivem 10 milhões de pessoas, o equivalente a Portugal continental! Dá para imaginar?).

Dia 10 – 1 junho

Teve tanto de doloroso acordar cedo, como ir à embaixada do Tajiquistão pela manhã, com tanto calor e sem autocarros, com mais de 3 quilómetros sempre sempre a subir. Lá, acabou por correr tudo bem, sendo que ficámos de levantar os vistos em 10 dias. Posto isto, e sempre a pé por entre embaixadas, seguimos para a da China, de forma a pagar os vistos, uma vez que não o tínhamos conseguido fazer aquando o pedido dada a hora já tardia.
Acabámos por fazer de tomate e pepino o nosso almoço e continuámos a nossa linda saga, desta rumo à embaixada do Cazaquistão. Também lá correu tudo muito bem, com a diferença de que fomos muito bem recebidos!
Exaustos. Já fartos de Teerão e da sua confusão. Cansados. Com o corpo e a mente a pedir descanso. Mas o dia ainda não tinha chegado ao fim: havia aqui pelo meio da história deste dia, um dente molar partido, e foi por isso ainda tempo de ir procurar a clínica dentária que nos aconselharam. E agora, é só dar asas à imaginação para prever como correu: primeiro, o dentista não falavam inglês; depois, era o dentista o único médico da clinica; por fim conseguimos uma assistente para fazer de tradutora – e diga-se de verdade que era amorosa e delicada. Não foi fácil explicar a situação, mas por entre uma sala cheia de marquesas e várias senhoras de boca aberta à espera da intervenção, conseguimos agendar para o dia seguinte o tratamento, e ouve ainda espaço para negoceio do valor, que acabou por ficar nos 25 euros. E aí sim, mortos.
Mas o dia ainda não tinha acabado. Por ser fim-de-semana, a nossa couchsurfer ia visitar a família. E nós, tendo de ficar mais um dia na cidade, decidimos mudar-nos: já tarde, voltámos a fechar as mochilas. É era já perto da 00h00 quando começámos a jantar com a nossa “nova família”: uma família tão, mas tão querida. Daquelas famílias que são como as famílias – que ficam no coração.

Dia 11 – 2 junho

Embora muito mais tarde que em todos os outros dias, voltou a ser penoso sair da cama. Mais, quando sabíamos que íamos para o dentista. Tal como acontece sempre no fim, correu tudo bem. Mas até lá, doloroso. Por entre o nervoso que trazíamos e todas as borboletas no estômago que nos assolavam, primeiro queriam fazer uma intervenção, mas acabaram a fazer outra. E doeu, doeu muito. Materiais sabe-se lá se desinfetados ou não, nunca havemos de descobrir. Mesmo a chorar, o dentista continuava. Mas agora visto de fora, há que entender: com tanto trabalho a fazer, não se pode parar só porque está a doer. E com a certeza de que o serviço não ficou uma beleza, mas na esperança que se aguente até ao regresso a Portugal, voltámos para casa. Decidimos dar um descanso a nós próprios, almoçámos com calma, escrevemos para o jornal que nos acompanha e atualizámos este nosso diário. Fugimos assim ao calor e à azáfama que se vive por cada ruela da cidade, por cada avenida repleta de trânsito e cada esquina caótica.
Já só quando o sol se preparava para pôr, fomos passear até à ponte de Teerão e voltámos ao miradouro. E assim, neste dia, completámos três meses de viagem!

Dia 12 – 3 junho

Tentámos começar o dia cedo, mas o cansaço venceu-nos. E por entre um sono abraçado, amoroso e delicado, deixámo-nos dormir mais do que devíamos. Então, mais a correr que ponderados, arrumamos as mochilas: de duas grandes fizemos duas mais pequenas, para viajar pelo sul durante os quinze dias seguintes. E num piscar de olhos, tomámos o pequeno-almoço e afastámo-nos da cidade tanto quanto pudemos com o metro.
A autoestrada onde nos pusemos à boleia ficava ainda distante, mas caminhámos até lá, por entre um festival religioso a que se assistia. E lá, por entre a confusão, apanhámos uma boleia até Kashan, exatamente onde pretendíamos chegar! O senhor, com um carro bem bom – pouco ao estilo iraniano – pelo caminho parou para nos comprar sumos e águas, e acabou por nos deixar já dentro da cidade, a pouco do centro. Por lá, caminhámos à procura de internet… mas foi mais difícil que água no deserto. O calor consumia-nos, era tanto e tão seco. Mas estávamos felizes, mesmo que sem destino: porque pela primeira vez no Irão, não tínhamos ainda encontrado um couchsurfer para nos hospedar. E a tenda, essa, tinha ficado em Teerão.
Pelo passeio, conhecemos um rapaz numa mesquita e, mesmo sem que seja permitido às mulheres assistir a jogos de futebol, acabámos a tarde a ver o seu treino (depois de concedida a devida autorização). Mas continuávamos sem poiso certo.
Só mais tarde, encontrámos a amiga de um rapaz que conhecemos no metro em Teerão. Confessou-nos que a mãe nos podia hospedar, mas que ela não achava por bem hospedar casais. E por isso, levou-nos até ao hostel de um amigo, para que pudéssemos ter internet, e verificar o nosso perfil do couchsurfing. Por entre um chá e dois dedos de conversa, com vários sorrisos e muita amabilidade, quis hospedar-nos: e assim passámos a nossa primeira noite num Hostel. Muito acolhedor, muito limpo e muito tradicional. E nós muito agradecidos, por mais um soninho descansado!

Dia 13 – 4 de junho

O horário do pequeno-almoço era fixo, e portanto o de acordar também! Banhinho tomado, barriguinha cheia, e seguimos. Queríamos conhecer a cidade de Kashan mesmo antes de seguirmos para sul, para Esfahan. E assim fizemos, e por entre duas ruas do bazar, conhecemos um senhor – já mais para o velhote, e de bicicleta, que nos levou a conhecer os locais mais turísticos da cidade. Sempre, falando em inglês! E com um sentido de hospitalidade indescritível, com um tom de voz e modo de falar tão carinhoso quanto possam imaginar.
Comprámos alguns frutos para o almoço, e seguimos depois de autocarro até ao Fin Garder, um jardim que todos nos aconselharam a conhecer, mas onde não entrámos pelo preço exuberante exigido a turistas. Assim, continuámos, a pé até à autoestrada onde pedimos boleia. Mas o sol, esse, fazia-nos derreter. Não de amor, de calor!
Apanhámos então boleia de um casal, direta para Esfahan. Depois de falarem com a família que nos ia hospedar – e que conhecemos por sorte em Istambul, deixaram-nos na autoestrada, no posto de polícia. Faltavam-nos ainda 60 quilómetros até à vila para onde íamos, chamada Mobahrek.
Conseguimos então boleia de um senhor, que nos levou a ver um rio muito bonito e ainda a sua casa – para nos oferecer duas latas de wishkey (um dos frutos proibidos no Irão). E depois, depois andou às voltas até entender onde nos devia deixar para chegarmos à família que nos ia hospedar. Por meio de muitos desentendimentos e alguma tensão, deixou-nos numa rotunda onde um táxi amigo da família nos havia de apanhar. Não estávamos bem em sintonia, mas chegámos bem a casa da família: com quatro filhos. E irmãos, sobrinhos, pais. E uma grande casa, e um grande jantar no chão. E muita paz no coração!

Dia 14 – 5 junho

Esperávamos que o ramadão tivesse já começado, mas não: aprendemos que depende da lua. Ainda assim acordámos mais cedo para ir para a cidade, tomámos um típico e delicioso pequeno-almoço e, já mais que despachados, acabámos por decidir com a família ir só no dia seguinte para a cidade. Na verdade, este tipo de situações foram recorrentes: um desfasamento cultural acentuado, tão acentuado que muitas vezes não percebíamos o que se passava em nosso redor. Mas lá fora, muito calor, sol intenso.
Ficámos assim a manhã em casa, a escrever, e os miúdos também. Gritaria, choros e risos constantes. E o melhor, dormimos a sesta. Já ao final do dia, fomos a uma fazenda, recheada de árvores de ginja e de cerejas, de amoras e pêssegos. Apanhámos de tudo um pouco, comemos de tudo um pouco, por entre o pó acumulado nas árvores e os jarros de água que o permitiam lavar. Bebemos chá já ao anoitecer, sentados numa carpete por entre a terra batida da fazenda e terminámos a noite em casa dos pais do pai de família que nos está a hospedar. Jantámos já depois das 23h00, como foi sempre comum. Em carpetes e no chão, com mesas que dependem só do comprimento do plástico que se corta para fazer de toalha. Panquecas de espinafres, caldeirada de beringela frita. Muito arroz. Muita salada. Muito iogurte. Muita carne na mesa. Muita água fresquinha e pão daquele que só por estes lados conhecemos (e ao qual já nos habituámos). Muita conversa, muita hospitalidade. Muitas cerejas! Muito chá! Muitos cubos de açúcar. E como não podia faltar, muita brincadeira por entre as dezenas de crianças que se juntam, quando a família se junta!

Dia 15 – 6 junho

Voltámos então a acordar bem cedo, com o intuito de ir conhecer a cidade com a família. Mas por entre 4 filhos, não é fácil. Tomámos o pequeno-almoço e seguimos. Por entre os familiares fomos deixando as crianças , uma a uma. Mas com a mais pequena, na casa dos tios, acabámos por entrar e ficar para beber um chá. Depois o tempo passou, e almoçámos também. E entretanto, eram já 16h00. Mais uma vez, não entendemos como tudo se processou, por entre a pressa de sair e a hora tardia a que finalmente chegámos à cidade, ao centro de Esfahan. Visitámos alguns museus, palmilhámos algumas ruas típicas, conhecemos o grande e maravilhoso bazar e a sua mesquita. E deixámo-nos apaixonar. E terminámos o dia com um gelado, mais um passeio, um jantar numa pizaria local, e mais um chá, já tarde, novamente em casa de familiares aquando o recolher das crianças. Um dia cheio, mas cheio também de novidades e convivência.

Dia 16 – 7 junho

Não resistimos, e deixámo-nos dormir até tarde. Passámos o dia meio relaxados – e que bem nos soube. Só ao final do dia, fomos para a cidade para visitar o que nos faltavam. E pelo meio, vivemos o verdadeiro pânico com a condução e o trânsito iraniano. Passámos um dia calmo, e terminámos a jantar em casa da família da família que nos estava a hospedar (novamente, longe da nossa própria cultura, comemos primeiro os doces, depois o prato principal, e tudo isto já depois das 23h00).

Dia 17 – 8 junho

Chegou o dia de deixar Mobarakeh, em Esfahan e seguir para Shiraz. Assim, a família ofereceu-se para nos levar ao local certo para apanhar boleia, mas depois de tantos dias juntos, não haviam percebido completamente o conceito, e por isso, não se foram embora enquanto não nos arranjaram um carro. Euforicamente, pararam praticamente todos os carros que por nós passavam – o que para nós foi duro, uma vez que só nos faz sentido apanhar boleia com aqueles que param por nos quererem ajudar.
Até ao destino não demorou, e conseguimos chegar com 3 boleias. A primeira, com um senhor muito simpático, com o jipe muito confortável, por entre conversa fluída e muitos frutos secos. Logo depois, um outro senhor. Mas desta, um pouco estranho. Ou talvez não e só pouco falador. Por fim, levou-nos um casal delicioso: tinham vivido no Canadá e traziam escondido no carro o seu cãozinho (por ser no Irão proibido ter animais domésticos). Partilhámos assim um longo caminho, mas sempre repleto de histórias e partilhas, para nós muito enriquecedoras.
Em Shiraz, ficámos com um couchsurfer, numa casa por ele construída. Também ele com um cachorro (de guarda! Para que não haja confusões com a polícia) e até piscina. No entanto, não conseguimos sentir-nos ali confortáveis, muito embora não saibamos explicar o porquê. Talvez pela forma como falava, pelo seu tom monocórdico entre nós e agressivo com o animal e com o seu servo. Também este, já velhinho, fazia tudo quanto lhe era ordenado, até mesmo levar-nos a passear já à noite pela cidade. Mas os nosso corações batiam descontrolados: não nos sentíamos em casa. E talvez o pior de tudo, tenha sido percebermos que não havia lido sequer o nosso pedido no couchsurfing, pois não sabia que éramos vegetarianos. Claro que no fundo se traduziu em dois hambúrgueres a mais; mas não encontrámos a paz desejada.

Dia 18 – 9 junho

Uma vez mais, a noite foi curta. E embora nos tenha sido pedido para acordarmos cedo, levámos muito até sairmos de casa. Chegados a cidade, o primeiro passeio deu-se por um dos mais maravilhosos edifícios que alguma vez pudemos visitar: uma mesquita grandiosa, lustrosa. De cortar a respiração! E ainda com guia internacional feminino e masculino, gratuitos.
Mais tarde, encontrámos o primo de uma amiga da família com quem ficámos em Esfahan. Acabámos então a passear e a jantar com ele e com a sua namorada (ilegal!) e, quase que por magia, que nem desejos tornados realidade, fomos convidados para pernoitar na casa da sua família.

Dia 19 – 10 junho

Mesmo com um bebé ainda muito pequenino, esta família soube acolher-nos com o maior dos cuidados, tendo preparado um pequeno-almoço delicioso, uma marmita para o almoço, e ainda convidado para um jantar todos juntos.
Durante o dia, com o primo, fomos até Persépolis e já na volta fomos também a um parque deslumbrante na cidade, onde se praticavam todos os tipos de desportos. Houve então oportunidade para um jogo de futebol e uma partida de ping-pong! E tal como combinado, acabámos a jantar em família.

Dia 20 – 11 junho

A manhã foi longa, sendo que estivemos até as 14h00 para convencer a família de que queríamos deslocar-nos para Yazd à boleia. Queriam oferecer-nos o autocarro, e juravam não haver carros a viajar com tanto calor. Aconteceu-nos já isto um pouco por todo o lado, mas principalmente com famílias sabemos que a história se repete: acham muita graça quando nos conhecem, mas quando se trata de nos deixar seguir, têm sempre muita dificuldade. E embora saibamos que é este um indicador de carinho, cuidado e amor, temos também nós dificuldade em lidar com a situação: não queremos parecer mal-educados ou arrogantes, mas não podemos ao mesmo tempo ceder.
Partimos então já muitíssimo fora de horas e apanhámos a primeira boleia por 50 quilómetros. Quando o senhor nos deixou levámos apenas mais 5 minutos até parar um novo carro. Dois iranianos de gema, castiços e muito, muito, simpáticos. De sorriso na alma! Fizemos juntos mais de 400 quilómetros, com muita música, muita conversa (tanto quanto o farsi nos permitia), muitas partilhas, muitas fotos. E muito respeito!
Deixaram-nos por fim com o nosso novo couchsurfer. Embora nos tenha recusado hospedar, ofereceu-se para nos deixar pernoitar no seu estúdio de fotografia, onde tinha ar condicionado, casa de banho e uma mini cozinha. Estávamos por isso super encaminhados. Mas depois de petiscarmos o que trazíamos nas mochilas, juntou-se a nós mais um amigo, que por entre algumas partidas de Fifa na PS, nos convidou a ficar em casa da sua família. E assim foi!

Dia 21 – 12 junho

Embora não tenhamos partilhado tempo com a família, este nosso amigo levou-nos a passear pela cidade de carro: as temperaturas elevadas não permitiam um passeio a pé, sem cortar a respiração. Mais tarde, resolvemos comprar uma meloa e uma melancia, e fomos até às montanhas, na esperança de que uma sombra nos permitisse apanhar um pouco de ar puro. E assim foi, embora para nosso espanto as montanhas fossem também um lugar seco e árido, com uma paisagem totalmente bege. Mas pudemos desfrutar de uma tarde tipicamente iraniana, estendidos numa carpete à sombra de uma árvore. E assim nos deixámos ficar.
À noite, quis levar-nos a um restaurante para jantar: e nem sempre é fácil explicar que restaurantes e planos dispendiosos não fazem parte do nosso modo de viagem. Embora não totalmente bem sucedidos, conseguimos (quase) fazer uma adaptação entre o desejado e o pretendido, mas uma vez mais pudemos concluir que a distância cultural existe e é significativa.

Dia 22 – 13 junho

A noite foi difícil: embora na rua se façam sentir 38 graus à noite, em casa chegam a passar frio por deixarem o ar condicionado ligado dia e noite a 17 graus. E se não passam eles frio, passámos nós. Acordámos por isso com a garganta sentida, mas pouco havia a fazer. Tínhamos mais de 600 quilómetros pela frente e decerto várias boleias para apanhar até Teerão – onde tínhamos de regressar para recolher os vistos pedidos.
No decorrer do dia apanhámos 3 boleias, mas a primeira foi sem duvida inesquecível! Um casal, ela de burca (sempre sonhamos com a oportunidade de falar com alguém coberto da cena aos pés só com os olhinhos de fora!), e o marido com pelo menos mais 20 anos. Foi um quebrar de preconceitos; ela tinha uma voz doce e afável, simpática e comunicativa, por entre o seu correto inglês. Não nos permitiu que nos alongássemos tanto quanto desejaríamos, mas serviu ao encanto. Também a segunda boleia foi maravilhosa, com um senhor doutor, que nos levou por mais de 400 quilómetros, sempre interessado. Sabia falar inglês, tinha dois filhos e já tinha vivido na Alemanha. Ofereceu-nos um doce lanche e muitos sorrisos. E por fim, um outro casal, engraçado só por si, com música bem alta no carro. Despediram-se com um I love you e deixaram-nos mesmo à porta do metro. Não sabemos se sentimos ou não falta de Teerão, mas da temperatura menos quentes sentimos de certeza.

Dia 23 – 14 junho

Retornámos às embaixadas para levantar os vistos: voltar a acordar antes das 7h00 era algo de que não sentíamos de todo saudade. Mas tínhamos um plano perfeito, de forma a ficarmos despachados num só dia, muito embora para isso tivéssemos de fazer vários quilómetros a pé de um lado para o outro: iríamos primeiro levantar o visto da China às 9h00, seguíamos para a embaixada do Tajiquistão às 10h00, por ficar perto, e logo corríamos até à embaixada do Turquemenistão de forma a chegarmos antes das 11h00. Depois com mais calma, tínhamos só de apanhar o metro e às 14h00 levantaríamos o visto do Cazaquistão. Posto isto, mais tardar às 15:00h estaríamos de volta a casa, prontos para refazer as mochilas e para no dia seguinte seguir rumo ao norte, Chalus e encontrar os amigos que havíamos feito na fronteira à chegada ao Irão.
Mas não há nada como trocarem-nos as voltas todas! Na embaixada do Tajiquistão informaram-nos de que o visto só estaria pronto no dia seguinte, pelas 11h00, portanto nada mais nos restava senão ficar mais um dia em Teerão. Aproveitámos a tarde então para passear e encontrar uma amiga. Mas estávamos tão cansados que até passear custava. Conseguimos ainda palmilhar e conhecer o mercado tradicional – o bazar de Tajrish: um verdadeiro mundo; onde pudemos perceber que em Teerão os preços são brutalmente incrementados.

Dia 24 – 15 junho

Às 11h00 lá estávamos nós, com um olho aberto e outro fechado, à janela da embaixada do Tajiquistão. Voltou a ser-nos pedido que aguardássemos, cerca 30 minutos. De exaustos, caminhámos até ao parque mais próximo para dormitar num banco de jardim. Mas quando regressámos, foi-nos então pedido que esperássemos mais 1 hora. E ai, vimos os nossos planos arruinados: estava novamente cada vez mais longínqua a hipótese de seguir para o norte. E faltava-nos ainda levantar o visto do Cazaquistão. Se por um lado estávamos felizes por nos tem sido concedidos todos os vistos – porque infelizmente partilhámos a angústia de muitos viajantes ao serem recusados, por outro lado sentíamo-nos gozados e impotentes. Mas esperámos pacificamente. E quase 3 horas depois, tínhamos os nossos passaportes de volta. O mais engraçado de tudo, com o visto do Tajiquistão em manuscrito.
Conseguimos então ao final do dia dar por finda esta nossa busca incessante por vistos! E regressámos a casa aliviados, decididos a seguir para Chalus no dia seguinte.

Dia 25 – 16 junho

Deixámo-nos dormir mais do que devíamos e acabamos por ter de ir até ao escritório do nosso couchsurfer, e da sua família, para nos despedirmos. Foi uma despedida que nos apertou o coração: com eles sentimo-nos conectados e felizes, e quando assim o é, é duro de pensar que os nossos caminhos podem nunca mais cruzar-se.
Seguimos depois rumo a norte, e até lá apanhámos 3 boleias, mas de registar foi o facto de pela primeira vez termos abandonado um carro. Sabemos que pelo Irão a condução deixa muito a desejar: o estilo caótico e grotesco, a velocidade desmedida e a data de regras metem medo; mas quando a acrescentar a tudo isto se junta a loucura de alguém, então temos medo de morrer. E depois de vermos quase acontecer vários acidentes, pedimos delicadamente que parasse e afirmamos que ali ficaríamos melhor – sem dúvida!
E com a última boleia chegámos ao encontro da família com quem ficámos, perto de um delicioso rio no meio da selva, como lhe chamavam. E à chegada, para grande surpresa, recebeu-nos chuva e muita trovoada. E por entre tanto calor, cada pingo molhado sabia a pouco.

Dia 26 – 17 junho

Embora com horários fixos para as refeições em família, e embora tenhamos por isso acordado cedo para o pequeno-almoço, aproveitámos o dia de descanso em casa e pelo campo. E só ao final do dia, fizemos uma caminhada por entre a natureza que nos envolvia.

Dia 27 – 18 junho

O despertador voltou a cantar cedo, cedo demais para os sonhos que tínhamos ainda por sonhar: mas tínhamos uma família e um pequeno-almoço à nossa espera.
Pelo dia fora, decidimos prescindir da cidade para conhecer a costa e a praia mais próxima. Estávamos entusiasmados: fazia tempo que não víamos o mar, água sobre a terra ou areia. Queríamos sentir-lhe o cheiro e a sua temperatura. Mas, no Irão, nada é simples de viver. Sim, passeámos na praia. Mas homens e mulheres, têm zonas fechadas e privadas, completamente separadas, para fazer praia e tomar banho. A areia e água sujas também não fizeram as nossas delícias. Mas a verdade é que o calor tórrido convidava a um mergulho – que não aconteceu.

Dia 28 – 19 junho

A validade do nosso visto do Irão começava a esgotar-se. Muita gente nos perguntou ao longo destes dias se estava tudo bem e o porquê de ainda não termos trocado de país. Tivemos alguma dificuldade em compreender a questão, é embora saibamos que foi em virtude de preocupação, o nosso desejo seria até o de pedir a extensão do visto. Na verdade, o Irão é um país de mil encantos; e embora não trocássemos a nossa liberdade por nada, temos sempre muito a aprender com novas e diferentes realidades. E o Irão é um país recheado de gente boa, de lugares lindos e cheios de história. E para ajudar, extremamente barato.
Mas tivemos de seguir e seguimos para Gorgan, na direção da fronteira que iriamos cruzar. Apanhámos apenas uma boleia direta de uma carrinha velhota, sem ar condicionado, mas com um senhor muito simpático. Apetrechado com uma bela telefonia, conseguimos conectar o ipod e por mais de 4 horas partilhámos música portuguesa.
À chegada, tínhamos 3 diferentes casas à nossa espera: se na Europa mandamos 50 pedidos de couchsurfing para 1 resposta positiva, aqui mandámos 3 pedidos e nos 3 fomos aceites. Assim, resolvemos pernoitar com primeiro que nos aceitou; mas antes, passámos a tarde com um couchsurfer, e o final do dia com outro. Um verdadeiro 3 em 1, em apenas um dia, o que nos deixou de coração a transbordar.

Dia 29 – 20 junho

Com apenas mais um dia de visto, rumámos cedo até à estrada com o objetivo de chegar perto da fronteira. Com os horários estritos das zonas fronteiriças, o melhor seria montar a tenda (pela primeira vez!) já perto e assim estaríamos descansados.
Apanhámos 5 boleias no decorrer do dia, mas uma vez mais os nossos planos fugiram-nos por entre os pensamentos. A primeira, e grande, boleia do dia foi de um camionista amoroso: pagou-nos de tudo, procurou até um restaurante com hipótese vegetariana, comprou-nos fruta, pistachos, bolachas e chás para o caminho, e só quando nos deixou percebemos que havíamos perdido um par de ténis: a 25 quilómetros do local onde nos deixou, parámos o camião para ir à casa de banho de uma mesquita. Na volta, deixámos os ténis na escadas do camião, como sempre fazemos. Estas, por norma, ficam fechadas com a porta, e assim evitam-se maus cheiros na cabine. Mas este camião era diferente, e só o terceiro degrau estava fechado, ficando os outros dois descobertos. Assim sendo, voaram os ténis.
Pouca gente por aqui entende a importância de uns sapatos: basta ir até ao mercado e por menos de 5 euros há muita escolha. Mas o ar de pânico instalado nas nossas caras e transparente no nosso olhar, fez o camionista nem hesitar, e voltou atrás para os procurar. Mas nada. Também nós apanhámos duas boleias e ainda até um táxi (pois já o sol se punha no horizonte) e nada. Doeu-nos no coração, por várias razões. Emocionais e económicas. Levámos mais de 3 meses para escolher aquele par de ténis: foi pensado a dedo, entre o valor é a necessidade, prontos para caminhar quilómetros sem fim, com durabilidade garantida e… lindos! Mas um piscar de olhos bastou para os perdermos. E assim virámos uns pés descalços.
Eram então 22h00 e tínhamos ainda com 80 quilómetros por fazer, já pelo escuro da noite. Estávamos pouco crentes, era pouco o trânsito e rara a luz. Exterior e interior. Estávamos mesmo tristes. Mas acabámos por conseguimos boleia de um senhor com uma menina pequenina, de olhar envergonhado e sorriso maroto. Deixou-nos mais à frente uma mão cheia de quilómetros e logo depois conseguimos boleia com um camionista turco. Ia também para a fronteira, mas entre o Irão e o Turquemenistão as fronteiras para ligeiros e pesados são diferentes, pelo que parou o camião perto da bifurcação e nos convidou a dormir no camião. Ele na cama de cima, nós na de baixo. Não nos sentimos propriamente à vontade, mas serviu de descanso. E bem que precisávamos de conversar com a almofada.

Dia 30 – 21 junho

Eram então 5h50 da manhã quando voltámos a carregar as mochilas e a fazer-nos à estrada. Estávamos a apenas 50 quilómetros da fronteira e sabíamos que as portas do controlo fronteiriço abriria perto das 9h00.
Conseguimos boleia até à fronteira com 3 homens que iam no caminho, e um deles trabalhava na fronteira Iraniana. Ajudou-nos a chegar até lá e também a trocar dinheiro. E às 9h00, despedimo-nos do Irão e conseguimos passar para a fronteira do Turquemenistão. Lá, estivemos mais de duas horas, com a polícia de volta dos nossos passaportes e nós de um lado para outro. Até médico têm para confirmar que não estamos doentes (mas o termómetro, decerto avariado, indicou em ambos 35°C). No fim, para nosso espanto, e sem quererem remexer as nossas mochilas, ou revistar-nos, deixaram-nos seguir. Estávamos então num novo canto do mundo: bem-vindos!

E assim deixámos para trás um país que nos impressionou, que nos fez questionar de muitas coisas e sonhar com outras tantas. Que nos ensinou a ser mais gratos ainda pela vida que levamos (juntos) e pela liberdade que trazemos. Um país, que por entre tantas regras, tanta opressão e tanta religião, nos fez ver que ser boa pessoa, praticar o bem e ajudar o outro, vai muito além do que vimos até hoje. Aprendemos no ocidente, e nomeadamente pela europa, que somos boa gente, vivemos em paz, mas que ninguém da nada a ninguém, sem algo em troca; no Irão, questionam-se estes valores, com a certeza de que não há nada em troca daquilo que damos. E não há que temer pela partilha.

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até já Arménia, olá Irão?

Pelas ruas, sente-se a união soviética. Continua a morar aqui, por entre edifícios, ruas e jardins abandonados, outrora cuidados e com vida.

Por entre as montanhas onde dormimos, em kojori, a primeira opção para apanhar boleia foi caminhar até à estrada nacional, por um atalho e por 7 quilómetros. As mochilas pesavam, o sono e os sacos nas mãos (cheios de tralha), também.

Pelo caminho, em tão mau estado quanto possam imaginar, com alcatrão desfeito, buracos infindáveis, com lixo e até ossadas de animais, verde sem fim e silêncio absoluto. E uma paisagem incrível no meio do nada.

A primeira boleia foi de um padre: levou-nos por cerca de 1 quilómetro. Depois, continuámos a caminhar: pausadamente. Era cedo e tínhamos tempo. Mas por entre uma das nossas pausas, avistámos um camião. Já nos sentíamos a chegar ao fim e, embora fosse o segundo carro a passar em várias horas, decidimos não lhe pedir boleia. Ao contrário do que esperaríamos, parou, e convidou-nos a subir. Uma vez mais, por entre uma comunicação muito rudimentar, conseguimos entender-nos e ficámos precisamente na estrada que pretendíamos.

Já com rumo certo, esperamos muito pouco até conseguirmos a segunda boleia, direta até à fronteira com a Macedónia. Falava inglês e tinha um filho a estudar na Europa. Sabia bem onde ficava Portugal e a conversa fluiu até ao destino!

Na fronteira, as borboletas comiam-nós a barriga. É sempre aquele miudinho até pormos os pés do lado de lá. É sempre o desejo de sermos bem recebidos, de não termos de abrir as mochilas ou responder a grandes questões. É sempre o desejo simples de ser tudo simples.

E foi! À saída da Geórgia carimbaram-nos o passaporte e sorriram. À entrada da Arménia, revistaram o passaporte de ponta a ponta, folha por folha – procuravam qualquer carimbo do Azerbaijão, onde não estivemos. E posto isso, olharam-nos nos olhos, compararam as fotografias dos passaportes, carimbaram-nos e devolveram-nos.

Demos mais um passo em frente: e olá Arménia!

Chovia. Choviam pingos grossos por entre o calor que se fazia sentir. Ofereceram-nos na Turquia um chapéu de chuva, e abrigámo-nos nele até nós conseguirmos abrigar num telhado improvisado.

Aí, ainda juntinhos à fronteira, fomos abordados por vários taxistas. É difícil explicar em russo – quanto mais em arménio! – que temos dinheiro, mas não queremos apanhar um táxi. Primeiro porque se temos dinheiro, porque não haveríamos de querer? E segundo, para os turistas é tudo barato. Esta é a lógica e portanto, limitamo-nos a dizer “Niet denhek”, ou seja, não temos dinheiro.

Na verdade, por 20 quilómetros são em média 3€. E um bilhete de autocarro urbano, aqui, são 0,20€. É realmente barato, mas não é a nossa opção. Não significa que não optemos em caso de necessidade, mas não era o caso.

Fomos explicando que pretendíamos ir para Vanadzor de “autostop”. Fomo-nos sentindo comentados. Mas fomos também mantendo o sorriso e o olhar atento sobre a chuva. Só precisávamos que ela abrandasse para nos distanciarmos um pouco da zona fronteiriça. Mas não foi necessário.

Aproximou-se de nós um senhor. Olhar humilde. Sorriso humilde. Pose humilde. De simpatia no rosto, perguntou se queríamos ir para Vanadzor e se estávamos à boleia. E convidou-nos a ir também. Com uma carrinha de distribuição de frutas, variadas, instalou-nos e ofereceu-nos duas tangerinas e duas maçãs.

No caminho, ele e o seu colega, em detrimento da estrada mais curta e em pior estado, optaram pela mais longa e mais perigosa. Mais perigosa porque passa a poucos quilómetros do Azerbaijão, e por entre montanhas avistam-se os dois lados. Perante as tensões com a Arménia, estão ambos os lados avisados: quem chegar perto, não importa quem, é alvejado. E portanto, embora sem chegar perto, não é de todo confortável passar por perto. Mas percebemos que há muitos que preferem fazê-lo, tendo em conta as condições dos pavimentos. E mesmo assim, na “melhor” estrada, levámos um pouco mais de 3 horas para fazer 120 quilómetros.

Prometemos não nos voltar a queixar das estradas em Portugal. 🙂

Pelo caminho, avista-se verde. E mais verde. Montanhas e montanhas verdes e lindas. Flores, campos, árvores e verde. E estradas infinitas, num sobe e desce.

Mas por entre tudo isto, muitas ruínas. Pouco antigas: sinais apenas de abandono.

Até que chegámos ao nosso destino. Ajudou-nos a contactar quem nos ia hospedar (uma espécie de couchsurfer, mas vinda de uma nova plataforma – trustrouts, feita para viajantes à boleia) e encontrarmo-nos foi muito fácil.

Em casa, encontrámos também outra hóspede nas mesmas andanças e foi delicioso partilhar experiências e vivências, viagens e aprendizagens.

Juntos, palmilhámos parte da cidade.

Não sabemos se feitos de admiração ou tristeza. Se de desconsolo ou frustração.

A Arménia, depois de ver conquistada a sua independência, deixou para trás a União Soviética. Mas não só.

Encontrámos um país desolado e escuro. Feito de antiguidades.

Encontrámos, abraçados, um passado muito presente.

Encontram-se pela rua, à medida que vamos andando e conhecendo, vestígios do que outrora foi vida. Não há rua sem ruína. Não há rua sem abandono.

É um país fantasma. Ou, como lhe chamam, um país com história. E podia até sê-lo, e é, mas podia também haver o preservar dessa história. O conservar.

Os nossos corações ficaram alerta. Ficaram emocionados e tocados: pelas ruas vêem-se edifícios desprezados, abandonados. Fábricas vazias. Vidros partidos. Pedras soltas. Escombros. Vêem-se estátuas de outrora. Vêem-se ruínas de hotéis, saunas e luxurias do passado. Tudo a cinzento e branco. Destruído e apagado do presente.

Nos parques, bancos tortos, desfeitos dos anos e sem manutenção.

Sentem-se nas pernas as ervas altas, a relva por cortar, os canteiros e jardins por arranjar.

Nos parques, os baloiços que já não baloiçam. As brincadeiras enferrujadas e deixadas ao acaso.

Fechamos os olhos e imaginamos tudo 40 anos atrás. Cheio de cor e gente. Balanço e harmonia.

Mas abrimos os olhos e sabemo-nos no presente.

Também nos parques comboios infantis deixados para trás. Lindos, mesmo que já sem cor ou movimento.

Traços de uma história passada.

Percebemo-nos num país pobre, com uma taxa de desemprego elevadíssima é um ordenado mínimo baixíssimo. Percebemo-nos por entre miséria – é claro, também alguns opostos.

Percebemo-nos por entre uma maioria de carros (muito) antigos e uma juventude satisfeita, que pouco ou nada se questiona.

Um pão caseiro custa 0,28€. Um gelado 0,18€. Um bilhete de autocarro 0,20€.

E assim se (sobre)vive.

E no meio de tanta pobreza, carregam orgulhosamente dentes de ouro.

Quando deixámos Vanadzor para trás, era muito cedo (para nós) e achávamos que tínhamos o dia pela frente para conhecer Yerevan – a capital.

Pusemo-nos à boleia com uma placa; mas depressa percebemos que eram raros aqueles que percebiam o alfabeto latino. Mas, claro, era para nós impossível escrever em arménio hayeren. Mesrop Mashtots.

A primeira espera foi morosa. Pararam vários carros que não iam propriamente na nossa direção. Outros tantos a oferecer serviço de táxi. E muitos outros que passavam, acenavam. Estivemos mais de 1 hora para apanhar a primeira boleia.

Era um jipe, três homens, pouca conversa, mas ajudaram-nos a mudar para um sítio melhor para apanhar boleia. Não muito longe, mas foi uma mudança importante.

A segunda boleia foi de um camião pequenito. Ou uma carrinha muito grande! Um senhor muito doce, daqueles que sabemos que é mesmo boa pessoa – mas que nunca lho vamos poder dizer. Levou-nos por mais uns 10 quilómetros.

E a terceira boleia, por mais outros tantos quilómetros, foi de dois senhores. Aliás, Senhores. Com postura e muito educados. Um deles, até inglês falava. Descobrimos pelo caminho que se tratavam de militares e estavam tão encantados com a nossa viagem, que quando nos deixaram pediram para tirar uma selfie todos juntos!

Lá, voltámos a esperar um pouco. Mas não muito! Um dos carros que por nós passou, voltou atrás, e de sorriso no rosto, ofereceu-se para nos levar! À frente, levava a sua esposa, vinda do Turquemenistão. Amorosos. Grande parte da viagem deu para um o-o e dois dedos de conversa. Sorriam-lhes os olhos e o coração também.

E quase 5 horas depois, com 5 boleias e 120 quilómetros feitos, chegámos à cidade. Sim, ainda apanhamos mais uma boleia, só até ao centro. Trabalhava na embaixada de França e por isso foi em francês que nos fizemos entender. Desta, fácil! Muito fácil. Mais, trazia no carro o seu filho, cujo inglês fluía.

Pelo caminho, tudo na paisagem se repetiu. Mas a verdade é que a capital se encontra mais cuidada. Esconde bem o que os subúrbios contam.

Mas em cada esquina, alguém a pedir.

Ainda assim, a capital surpreendeu-nos. Pela beleza dos edifícios que conserva, pela beleza da natureza. Pelos museus que tivemos oportunidade de visitar. Pelos locais históricos.

Um país diferente, que nos fez questionar muita coisa. Mas onde encontrámos novamente muita gente boa. Gente que defende a causa, que defende a pátria. Gente que tem entranhada a arte de bem receber, de cuidar. Gente que nos hospedou com amor. Com gentileza. Com tudo o que tinham. Gente boa. Nós continuamos a acreditar que vale a pena acreditar. Em gente boa. Estão por toda a parte, e temos tido a sorte de nos cruzar a cada dia.

Há famílias iluminadas.

E nós dois, também família, sabemo-nos e sentimo-nos abençoados.

Amanhã bem cedo, as borboletas voltam ao estômago, à barriga e à cabeça: olá Irão.

 

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olá, Geórgia.

Um adeus à Turquia: é aquele que entregámos ante-ontem por entre sorrisos e corações cheios. Os nossos! E de todos aqueles que conhecemos.

Ainda em Trabzon, no dia da partida tivemos a sorte e o prazer de conhecer um couchsurfer que não nos pode hospedar, mas que fez questão de nos encontrar.

Levou-nos a um miradouro no topo da cidade. Encantador para a vista! E lá, bebemos chá e comemos pevides – como por aqui se faz. Partilhámos histórias e improvisámos turco; enquanto lhe permitíamos improvisar o seu inglês.

E por entre conversas percebemos que iria em trabalho, da parte da tarde, até Rize: a cidade para onde nós também pretendíamos seguir depois. E assim, juntámos o útil ao agradável, e fomos juntos.

E a hospitalidade é tanta e tamanha, que pelo caminho nos ofereceu um almoço maravilhoso (e bem ao nosso gosto!).

Desta, do tempo que passámos juntos restou gratidão.

Em Rize ficámos em casa de um amigo de um outro amigo, de tempos de Erasmus Universitários. Cedeu-nos um seu tio a casa de férias, por entre montanhas e muita natureza. Forrada de madeira, sem água quente nem internet, fizemos das noites momentos inesquecíveis, por entre banhos de caneco com água aquecida ao lume e cozinhados sem fim.

Da cidade, também encantadora, guardamos a deslumbrante vista do castelo e a simpatia de todos os que por nós se cruzavam e tentavam perceber de onde vínhamos.
E na manhã de sexta-feira, 13, deixámos Rize sem ponta de azar. 🙂

Esticámos os nossos dedinhos na estrada principal, pertinho do centro e pertinho do mar (uma delícia!), deixámo-nos refrescar pelos leves pingos de chuva que se faziam sentir em nós, e demorou muito pouco até parar um carro. Trazia nele dois senhores, pouco faladores – mas muito amáveis. Por entre o que a língua turca nos permite, partilhámos a nossa história, e apenas a seu troco, recebemos dois sorrisos e muita o bondade: deixaram-nos pois exatamente à frente do Hospital de Pazar.

Não, não estamos nem estivemos doentes. Mas foi lá que encontrámos a nossa nova couchsurfer. Neurologista de profissão e paixão, recebeu-nos e cuidou de nós com verdadeiro sangue turco.

Passámos dois dias por entre maravilhas da culinária e maravilhas da natureza. Conseguem imaginar?

É por isso também muito fácil imaginar como nos sentimos. Conectados. Amados.

Ligados.

Entre nós. Com o outro. Com o mundo.

Também nesta passagem tivemos oportunidade conhecer mais amigos. Amigos desta nossa couchsurfer, que nos receberam na sua casa para jantar. Mas gente muito especial, tão especial que nos sentimos em casa. Viajantes, também eles mochileiros de outrora, médicos psiquiatras de profissão e apaixonados pelo mundo. Pudemos trocar muitas ideias sobre doenças mentais e psicomotricidade; sobre viagens e rotas! E a madrugada já ia noite dentro quando nos obrigámos a despedirmo-nos. E mais uma vez, em mais uma cidade, e ainda na Turquia, não só nos abriram as portas de sua casa, como a janela das suas vidas. Marcante.

Temos sempre tanto a aprender com o que nos rodeia. Com quem nos rodeia.

E chegou então o momento, o momento do adeus à Turquia: aquele que entregámos ontem por entre sorrisos e corações cheios. Os nossos! E de todos aqueles que conhecemos.

E por entre a melancolia, a excitação: não há partida sem chegada, e dissemos assim Olá à Geórgia.

Abraçámo-nos na despedida, ainda em Pazar. O mar, mesmo à nossa frente, num tom entre o azul e o verde, paradisíaco e inesquecível. Esticámos os dedos. Esticámos a placa. Um minuto. Um minuto para parar um carro. Um minuto para chegar o nosso bilhete de partida.

Seguimos até à fronteira. No carro, 3 pessoas genuinamente boas, daqueles a quem o olhar faz jus. E entre um o-o (dispensável mas não evitável) e muitas partilhas por entre gestos, turco e inglês, a viagem fez-nos num verdadeiro ápice.

Na fronteira, parecíamos acabados de chegar ao texas. Gente e mais gente, confuso, sujo e barulhento. Filas, gente a vender, gente cheia de malas, sacos e malinhas. Autocarros, camiões. E fizemo-nos ao caminho.

Atravessar até à Geórgia foi mais fácil do que parecia: receberam-nos com sorrisos e descomplicações, sem grandes conversas ou revistas. E um “good trip”, que já sabemos ser os votos de uma boa viagem!

Já do lado de cá, em território e chão Georgio, sentimo-nos num mundo diferente.

A verdade é que os transportes públicos da Turquia não podem passar. Nem os táxis. Nem os carros alugados. As pessoas têm de os abandonar, passar a fronteira a pé e apanhar um novo transporte do lado de cá. Portanto, é muito fácil de imaginar o caus instalado. Todos tentam “vender” o seu transporte, ao melhor preço. Ganham a vida assim. Bem como os vendedores de rua: é comida, é água, é cigarros, é táxis, é casas de câmbio… e muita gente misturada. Muitas malas e bagagem. E muitos olhares curiosos. E, ao fundo, a bandeira da Geórgia.

Sentimo-nos verdadeiramente acabados de chegar.

Não caminhámos muito até recomeçarmos a pedir boleia. Claro está que muitos nos tentaram ajudar a troco de dinheiro, mas conseguimos recusar com facilidade e sem constrangimentos, até que em poucos minutos parou um carro. Levou-nos até Batumi a uma velocidade estonteante – se a condução na Turquia tinha muito que se lhe dissesse, aqui não há palavras. Mete medo! Pé no acelerador, mão na buzina: saiam da frente. Não, a buzina não serve para alertar em caso de perigo, serve literalmente para chamar à atenção no sentido oposto, “Cuidado, eu vou passar!”. Ficamos sem ponta de sangue e colados aos bancos, e não há mais nada que possamos fazer.

Mas por de trás da sua condução, estava um homem maravilhoso, disposto a tudo para nos ajudar. Quis levar-nos exatamente até casa de quem nos ia hospedar. E para isso, perguntou pela rua tantas vezes quantas necessárias, onde ficava a morada. Incansável, os olhos sorriam de bondade.

Também assim sorriam os olhos de quem nos hospedou. Uma verdadeira lição de vida, ainda só estamos nós a viajar à pouco mais de dois meses. Quatro amigos, turcos, recém chegados a Batumi, publicitam num grupo de facebook que se mudaram, e que podem receber quem os queira visitar. Nós! Um couchsurfing informal, mas muito gratificante.

Não há referências, não temos como expressar publicamente como fomos recebidos: mas mais uma vez, cederam-nos a cama e parte do seu tempo. Entre jantar e pequeno-almoço, entre gestos e turco, partilhámos o que pudemos.

Mas sabemo-nos mal habituados. No ocidente ouvimos sempre dizer que “ninguém dá nada a ninguém”. Aprendemos, intuitivamente, a ser desconfiados. Vivemos assim sem nos questionarmos; mas questionamos todos os que nos rodeiam e as suas ações. E chamamo-nos cuidadosos.

Aqui não mudamos aquilo que somos, mas aprendemos a ser mais alguma coisa.

Mais que não seja, generosos.

E ontem, pela manhã , partimos rumo a Tbilisi, onde estamos agora. Sabemos que prometemos atualizar o blogue, mas a viajar, nunca nada é previsível.

O tempo estava incerto, mas seguimos à aventura. Por entre nuvens e ameaças de chuva, sentíamo-nos num dia de inverno. Há dias assim.

Também os nossos corações estavam incertos. Resmungões e insatisfeitos. Que nem nuvens a estragar um dia de sol. Há dias assim.

O peso das mochilas incomodava-nos; doíam-nos os ombros, as costas, o pescoço. E o peso dd Batumi também nos incomodava. Ruas e ruas sem alcatrão, esburacadas e sujas. Prédios e prédios, metade betão, metade chapas de zinco. Prédios e prédios com andares construídos e habitados, e tantos outros completamente abertos e por construir. Uma pobreza escondida em cada esquina. Visível na forma de estar, de andar, de vestir, de ser. Muito difícil de descrever e muito fácil de sentir. Mas, junto ao mar, uma riqueza de fachada: mesmo por entre a descrição acima, grandes hotéis e um casino. Para quem? Perguntamos nós.

E cabe-nos relembrar que por aqui, o ordenado mínimo é de 150 euros. Isto quando há trabalho. Porque cabe-nos também relembrar que a taxa de desemprego aqui é superior a 30%. E não, as coisas não são mais baratas que na europa – só mesmo o tabaco. É por isso impossível não nos questionarmos sobre como vivem.

E numa pequena casa, onde se vendiam hambúrgueres e trocavam também dinheiro, aproveitámos para trocar alguns euros e fizemo-nos ao caminho. Depois, depois de quase 1 hora à espera da primeira boleia do dia, São Pedro fez das suas, e desabou a chover. Cupiosamente.

Corremos para nos abrigar, por entre chapas e telhas, chapéu de chuva e capa, e lá nos desenrascámos. Mas o dia não estava de todo a correr bem! E já não bastava estar a ficar tarde, como aqui temos 1 hora a mais no fuso horário, e sabíamos ainda ter pelo menos 6 horas de viagem. Sim, estávamos a 380 quilómetros de Tbilisi, mas conseguem imaginar o estado das estradas até lá.

(In)Resignados, esperámos que a chuva abrandasse.

E quase duas horas depois, voltámos à estrada. Mais calmos e confiantes, erguemos a nossa placa com convicção. E por entre o trânsito que se fazia sentir, encostou um carro tipo carrinha, e seguimos juntos por 50 quilómetros. Valeu-nos o turco aprendido (que especialista!) e foi fácil a comunicação!

Quando nos deixou, a chuva estava longe. Avistávamos as negras nuvens ao fundo, mas nada que nos intimidásse. E lá, foi muito rápido de apanhar a segunda boleia: um senhor ucraniano que ia até meio caminho. Fraca comunicação, mas com muita simpatia à mistura, deixou-nos já quase de noite a 180 quilómetros do nosso destino.

Ali, um senhor que nos avistou, insistiu para que fossemos para um hostel descansar. E poucos minutos depois, já nos havia oferecido o seu colar e convidado a comer e dormir em sua casa. Apontava para o céu e dizia que a noite estava a chegar. A seu ver, era hora de recolher! Levámos mais de 10 minutos a agradecer-lhe e a recusar. Sabíamos que ali conseguiríamos apanhar uma boleia direta e tínhamos uma amiga de uma amiga à nossa espera! Por isso, só precisávamos de ficar sozinhos para o conseguirmos, e assim foi! Quando nos deixou, não demorou 1 minuto até que parasse um novo carro: conduzia-o uma jovem, e permanecemos juntos por 3 horas, até ao nosso destino.

Entre inglês e turco, contámos histórias e partilhámos hábitos. Comemos pão típico da Geórgia, comprado na estrada; e passámos também momentos de aperto! Não, a condução caótica não diz só respeito a homens. É cultural e para todos. Passadeira? O que é isso? Cruzamento? Rotunda? Ultrapassagens? Duas faixas? Traço contínuo? O que é isso? Tudo para enfeitar. Até mesmo os limites de velocidade e os radares. Se diz 30 com sinal de perigo em baixo, ou obras na estrada, vai-se a 80. Ou 120 se houver necessidade de ultrapassar uma fila de camiões. Portanto, e em suma, podemos dizer que nos mantivemos acordados e animados.

E estava já perto da 1 hora da manhã quando pusemos os pés em casa: rodeados de natureza, com duas amigas incansáveis, numa casa maravilhosa, e com petiscos típicos à nossa espera. Que bom que é quando assim é, quando tudo acaba em bem!

Por hoje, hoje esgotámos energias a percorrer a cidade. Tbilisi é muito diferente de Batumi. Com um calor duro durante o dia, descobrimos o seu lado lindo, o seu lado diferente. Até a língua, estranha de ouvir, fez os seus encantos. Com muitas igrejas ortodoxas, conhecemos também novas realidades. Embora envolta de muita precariedade e miséria, é uma cidade muito bonita.

Encantou-nos, de braço no ombro e caminhar junto.

Amanhã é dia de seguir viagem. De voltar a carregar as mochilas às costas. De abraçar novos mundos. Novos sorrisos – decerto. Amanhã é dia de mais uma fronteira, de mais umas borboletas na barriga.

É dia de entrar na Arménia.

E em breve, será dia de entrar no Irão.

Quem nos sabe de cor, sabe que transbordamos felicidade.

Saudades já também – mas por entre quem ama, quem não as sente?  ♡

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meio caminho em Mar Negro

Conhecemo-nos no limite. É por isso que às vezes é difícil viajar, viajar durante tanto tempo, viajar sempre com a mesma pessoa e, mais, viajar à boleia.

Descrevemos detalhadamente na apresentação desta nossa aventura (aqui no blogue) o porquê de termos escolhido deslocarmo-nos a dedo. Mas a verdade é que os momentos de espera tanto podem ser de reflexão e paz interior, calma e preserverança; ou brincadeira; como de tensão e desamor.

Não é fácil quando passamos um dia inteiro à boleia e ninguém nos leva. Ou quando chove e não resta nada mais seco em nós. Ou quando não conseguimos chegar ao nosso destino. Não é fácil. E quando o sol se põe e continuamos na estrada, sem rumo, não é fácil.

E é nos momentos em que não é fácil que nos conhecemos: que nos amamos. Que cuidamos.

Estar de mão dada na alegria – qualquer um.

Imaginem-nos insuportáveis. Com muito frio ou com muito calor. Com fome ou com sede. Rabugentos. Azedos. Irritadiços. Impertinentes.

Imaginem-nos embirrentos, cansados. No limite. E é aí mesmo que nos conhecemos.

Respeitar o espaço, saber ajudar, saber estar. Ouvir. Apregoar a paz, mesmo quando em nós próprios troveja.

Mas mesmo em casa, no conforto do lar, temos as nossas nuvens. Quem não as tem? Ninguém vive no sol. Há sempre por aí uma sombrinha. Faz parte e faz sentido. É assim que deve ser e o mais importante é saber fazer o vento soprar. E em viagem não é diferente.
Mas toda a esta conversa até aqui tem um foco muito interessante: as pessoas.

Até aqui, mesmo quando encoberto, não há dia que não se torne solarengo. Quente! Afável!

Parece contraditório, mas tão depressa em viagem pode não ser fácil; como é em viagem que tudo se torna simples. Porque é em viagem que nos pomos em contacto. Em contacto com as pessoas, com a mais bela gente do mundo. São aquelas que se cruzam em nós: as pessoas. As que nos abrem as portas de suas casas. As que nos levam. As que nos acenam. As que nos sorriem. As que nos abraçam.

E chegamos à Turquia. Sim, não é de hoje. Mas o hoje é sempre mais um dia aqui.

Quando chegámos a Samsun não fazíamos ideia do que estava para vir. Sabíamos que em Bolu, a cidade anterior – e posterior a Istambul – havíamos sido tratados com a maior das cortesias. No supermercado, que nem nos lembrássemos de querer pagar a conta; o nosso couchsurfer até levava a mal. Em casa, deu-nos o seu quarto e mudou-se para a sala. Lençóis lavados, toalhas limpas. O seu carro era o nosso carro. Os seus amigos, nossos amigos.

Mas em Samsun, sucedeu-se o mesmo. E aí, aí deixa de ser coincidência ou arte de bem receber.

Chama-se cultura.

De Bolu até Samsun, tal como partilhámos na crónica anterior, a viagem foi muito especial! Começámos por apanhar boleia de um carro para sair da cidade e, mais tarde, para muitas horas de viagem, levou-nos um camionista, no seu grande camião. Carregadíssimo, não permitia grandes velocidades. Mas estávamos em muito boa companhia. A comunicação era rudimentar, mas chegou na hora em que nos quis levar a almoçar fora. Almoçar fora significou oferecer-nos o almoço num belo e típico restaurante de borda de estrada. Pode parecer rude, mas foi do mais gentil que possam imaginar. E não, não foi tarefa difícil arranjar um prato vegetariano! Saboroso. Quis dar-nos o que no seu mundo de melhor tinha! E já depois da noite cair, entretivemo-nos a abrir e comer um grande saco de avelãs: ou tentar! E como muitas sobraram, ainda as ofereceu.

Um coração de ouro!

Já em Samsun, telefonou ao nosso novo couchsurfer e não nos deixou seguir (nem seguiu) sem que ele chegasse.

Sentirmo-nos amados e protegidos como aqui, só mesmo em casa.

Palmilhámos Samsun para a conhecer e encontrámos várias maravilhas. A melhor, a sua “rua Augusta”, em modo turco. Graciosa!

E ante-ontem, quando partimos para Bulancak, não havia preocupações que nos pertencessem.

Viajar na Turquia é uma verdadeira delícia.

Próprio de uma lua de mel. Aliás, é talvez aqui o primeiro lugar onde todos (sem exceção) nos perguntam se somos casados.

Enleações – só no final da viagem.

Mas sabe-nos muito bem dizer que sim: apaixonados!

De Samsun a Bulancak, levámos várias horas. Não que a distância fosse longa, mas voltámos a apanhar boleia de um camião. Aliás, começando pelo princípio: apanhámos para sair da cidade boleia de um carro. Quando começámos a contar a nossa história, acabou por nos explicar entre gestos e fotos que tinha um camião. Pouco depois levou-nos até um armazém e lá mesmo apontou para um pequeno camião. Vermelho. Mercedes. E disse: “Giresun!”. Percebemos que nos tinha então levado ali porque sabia que dali iria partir um camião na nossa direção. E assim foi.

O camionista, típico turco, tinha um tom de voz rouco e alto. Alto no timbre, fazia doer os ouvidos a cada expressão: mas muito entusiasmado. Sorridente, o único problema era mesmo a quantidade de cigarros que fumava a cada cinco minutos! Mas é assim, “quem anda à boleia, sujeita-se” – já dizia o pai José.

Mais uma vez, parou pelo caminho para nos oferecer chá num café de borda de estrada; e não nos deixou sem que o nosso couchsurfer nos fosse buscar (…a história repete-se!)!

A nossa estadia com este couchsurfer foi muito facilitada: professor de inglês, vivia com a mãe e, mais uma vez, fez-nos sentir em casa.

Aprendemos na sua casa que ajudar teria que ficar fora de questão: em Portugal, mesmo quando somos convidados, cabe-nos ajudar, nem que seja a levantar o nosso prato da mesa. Cabe-nos ser prestáveis. Mas aqui, cabe-nos o contrário: ficar sentados, à espera que nos sirvam. E sabe tão estranho! Pior, é que é uma ofensa querer ou tentar ajudar.

Experimentámos levar o nosso prato até à cozinha, e a primeira coisa que ouvimos foi um pedido: para não voltarmos a fazê-lo, pois significaria que a sua mãe não estava a saber receber-nos ou a dar conta do recado.

Aprendemos também que os convidados estão acima deles próprios. Aliás, têm mesmo um provérbio que o diz.

Entretanto, ainda em Istambul tínhamos conhecido uma amiga dos nossos amigos, cuja família vive perto de Giresun. Giresun é uma cidade a 20 quilómetros de Bulancak. Convidaram-nos a visitá-los, com um único senão: turco era a língua possível. Ninguém na aldeia, ou vila, no meio das montanhas e de muito verde, falava uma só palavra de inglês. Mas foi-nos impossível recusar. E ainda bem!

(Até porque entre nós há quem já tenha como sétima língua o turco)

Não sabemos como se explica o amor, como se explica a bondade. Não há explicação senão sentida, porque o que mais queremos é expressar-nos e faltam-nos as palavras.

Passeios pelas vinhas, pelas hortas. Montes e vales. Montanhas. Aldeias. Casas antigas!

Levaram-nos a conhecer cada canto das suas infâncias, por gestos e poucas palavras, cada recanto das suas vidas. Nos olhos carregavam a felicidade de nos receber. E em cada gesto também. Fluíam os abraços, os sorrisos. A gratidão. Prepararam receitas deliciosas. A casa, feita de madeira, encheu-se. Encheu-se de todos aqueles que nos quiseram receber e saudar.

E acendemos a salamandra, partimos avelãs. Torrámo-las. Apanhámos morangos. Lavámos cerejas. Pecados uns atrás dos outros – feitos de gula.

Com o cair da noite, nas nossas almas jazia que também numa casa de madeira nos conhecemos e apaixonámos, pela primeira vez.

Quando o sol ontem nasceu, era dia de voltarmos atrás, a Bulancak. Lá tínhamos deixado as nossas grandes mochilas e também um compromisso: o de irmos ao liceu, no horário da aula de inglês, conversar com os alunos e mostrar-lhes a importância da segunda língua. E por entre risinhos e muita vergonha, correu tudo muito bem!

De missão cumprida, e coração apertado apertadinho, seguimos caminho. Os nossos corações têm sido valentes; mas desgraçados, em cada despedida vêm-se aflitos.
Vales-lhe que se têm um ao outro.

E de Bulancak seguimos até Trabzon, que é de onde escrevemos hoje. Até aqui, apanhámos três boleias. Dois carros e um autocarro (dos pequeninos). Andar à boleia na Turquia é tão descomplicado e tão espontâneo, que é também um verdadeiro prazer: o primeiro carro nem nos deu tempo para pousar nada. Foi só esticar a placa. Curiosamente, era amigo do couchsurfer que nos hospedou em Samsun – pequenino este mundo! A segunda boleia foi então de um autocarro tipo shuttle bus: que até nos custou a crer que queria levar-nos sem pagarmos, mas que assim aconteceu! E a última boleia, não menos importante, foi já na cidade, mas fruto da preguiça de a atravessar por completo para chegar perto da casa do nosso novo couchsurfer.

Este, também médico, cirurgião plástico, acolheu-nos como por aqui tão bem o sabem fazer, e partilhámos o que de melhor em Portugal também nós sabemos fazer: longas e boas conversas, em torno de uma mesa recheada!

Hoje palmilhámos Trabzon e podem as nossas sapatilhas contar como foi: 15 quilómetros sempre a andar, por entre ruas estreitas e escadarias, prédios demolidos e crianças a brincar. Considerámos esta uma cidade suja e desarrumada, mas importa sempre conhecer.

Até porque a costa do Mar Negro tem sido uma verdadeira surpresa. Trazemos em nós admiração e encanto. Trazemo-nos pelo mundo fora com afeição – e sempre com respeito.

Entre nós e com o outro.

Porque o sentimento de bem-querer também se constrói. E só assim prevalece no mundo. Naquele que trazemos na mão e levamos na alma.

São já 5962 quilómetros, com 85 boleias.

São já muitas noites em muitos sofás, muitas camas. Muitas luzes. Muitos lençóis, cobertores e edredons. E dois saco-camas, que se unem num só.

São muitas partilhas. Muitas vivências. Muitas gentes. Muito crescer.

Amanhã caminharemos um pouco mais. Seremos um pouco mais também!

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e depois de Istambul

“Gosta de futebol? Fenerbahçe? Besiktas? Galatarasaray? Portugal, Benfica! Cristiano Ronaldo. Figo. Nani. Çok güzel!”

E assim se começam as mais longas (ou curtas) viagens, as mais longas (ou curtas) conversas. Assim se trocam os primeiros sorrisos. As primeiras gargalhadas!

A espera pelo visto do Uzbequistão em Istambul levou-nos a por lá ficar durante 15 dias; 15 dias que voaram numa cidade assim.

Abraçámos a Turquia e a cultura que por ali aprendemos e começámos a conhecer.

Faz como vires fazer – tornou-se o nosso maior lema. Nem sempre é fácil ou intuitivo, mas corre sempre bem.

Vive-se de leve o receio do terrorismo; esconde-se entre quatro paredes, frases meio faladas e olhares escondidos. Partilha-se que ali é mais perigoso, acolá mais calmo. Mas que nunca se sabe. Evita-se passar por aqui, passear por ali. Aos fins-de-semana deixa-se a cidade e durante a semana finge-se que não se sente. O receio.

Mas ele existe.

Mas a vida continua, lá em Istambul. Não há remédio, nem solução. Há vida para ser vivida.

Foi já na última sexta-feira que optámos por visitar os lugares mais turísticos; as mais belas mesquitas e os mais belos recantos (as fotografias encontram-se no post anterior).

Quando a deixámos para trás, seguimos rumo ao Mar Negro, sem paragem em Ankara. Não foi uma decisão fácil, ponderámos dia após dia. Os maiores conflitos acontecem no Sudeste da Turquia, mas a capital não é agora altura de a visitar: nunca se sabe.

Seguimos então para Bolu, meio caminho para a costa de forma a não fazermos tantos quilómetros num só dia.

O plano seria pernoitar e seguir viagem. Não que estejamos “atrasados”, mas há sede de andar! E chegar a Bolu foi fácil. Não, fácil não é de todo a palavra certa; foi…

Saímos de casa completamente fora de horas. Preparar lanche. Almoço. Trocar roupa; de inverno no fundo, verão por cima. Fechar mochilas. Água. Saco das tralhas. (…) O turno da manhã já lá ia, e quem nos conhece bem consegue imaginar como foi! Um corre corre para despachar e um soninho descansado para acalmar. Os opostos atraem-se, não é?

Caminhámos de casa até onde sabíamos que nos iríamos por à boleia. Lá, esticámos os dedos e a nossa placa. E do alto de uma via que passava mais à frente, pudemos avistar um taxista a acenar.

Os táxis levam os seus dias a buzinar-nos. A ideia é transmitir-nos que estão livres e que nos podem levar. Mas longe de nós apanhar um. Tentámos por gestos recusar. Mostrámos a placa. Gritámos “autostop”. Mas nada. Continuava ali, a acenar-nos.

Agarrámos nas mochilas e subimos. Não tínhamos alternativa, com tamanha insistência.

Era realmente um táxi e um taxista; mas não queria dinheiro. Queria ajudar-nos! Queria levar-nos! Dar-nos boleia. E deu! E a primeira boleia do dia foi então de um taxista, que recheado de bondade e simpatia nos levou até à autoestrada. Tendo em conta que de diâmetro Istambul tem (imaginemos) 200 quilómetros, estávamos ainda no centro, mas estávamos totalmente encaminhados.

Não que tivéssemos tido tempo para conversar, mas sabíamo-nos felizes. O silêncio entre nós é cúmplice e denuncia-se. Tal como nós dois.

A primeira coisa que avistámos, foi um carro da polícia. E a primeira coisa que o senhor agente fez quando nos viu, foi saudar-nos! Sim. Saber de onde éramos, para onde íamos. Sorrir-nos e oferecer-se para nos levar a passear. Acenar-nos e desejar-nos boa sorte e boa viagem! Sim, em pela autoestrada. Turkish style!

Ali a pedir boleia não estávamos nada seguros. Também ao Turkish style pertence o caus no trânsito. Qualquer berma serve de faixa. Todo o carro lento leva uma buzinadela. Ultrapassagem que é ultrapassagem tanto se faz pela esquerda como pela direita. E acelerar mesmo quando está tudo parado é o melhor truque para se arranjar um espacinho a mais lá à frente. Portanto, volta e meia, e tínhamos que nos encolher porque (na berma) lá vinha alguém disparado.

Ainda assim, foi graças a este belo estilo que um camião atravessou duas faixas para parar e nos levar. Se achávamos que era possível? Não! Se aconteceu? Sim!

E ainda bem, porque nos levou por várias horas e praticamente até à porta de casa. Pelo caminho, ainda parou para nos oferecer um chá, o que por aqui é mais comum que o café em Portugal.

Já em Bolu sabemos bem o que parecíamos: cheios de tralha e sacos e saquinhos e mochilas e mochilinhas! Mas estávamos muito muito perto da morada que tínhamos. Ainda assim, não foi fácil encontrar o nosso couchsurfer, mas na rua um senhor ajudou-nos de bom grado. E embora seja muito difícil (e raro) encontrar alguém que fale ou perceba inglês, aqui o mestre das línguas já se inteirou do turco também, e por isso conseguimos desenrascar-nos sem grande esforço. Mas, claro, a grande questão prende-se com a hospitalidade das pessoas!

E a noite que íamos passar em Bolu, transformou-se. Acabámos por ficar 3 noites e mais ainda se estenderia se assim o quiséssemos.

Médico, o nosso couchsurfer trabalhava durante o dia; mas garantiu que uma amiga (que falava inglês!) nos guiaria e levaria a conhecer a cidade e redondezas. Com algum constrangimento no início, sabemos que desta estadia resultou uma grande amizade. Há pessoas que têm o coração no lugar certo é sempre com espaço para mais agúem. Há pessoas que dão o que têm e não têm e ainda arranjam mais para dar. Assim foi.

Passeámos. Cozinhámos. Vimos futebol. Respirámos natureza. Cantámos. Aprendemos. Partilhámos. Que difícil é descrever! E que bom foi viver.

Aproveitámos ainda a ajuda imensa hospitalar e fizemos análises; que isto de ser vegetariano é muito mais que uma seita (como a mãezinha Alexandra gosta de chamar!). É cuidar e saber cuidar!

E no fim ainda fomos a casa de amigos, com amigos e família, para um serão verdadeiramente turco. Para nós, é mesmo isto que nos preenche. Fazer parte. Penetrar esta gente. Viver na cultura, pertencer-lhes e fazer como fazem. Descalçar os sapatos a porta. Ir à casa de banho numa latrina. Beber muito chá turco. Numa tulipa. Comer salgados, doces típicos. Batatas cozidas. Café turco, com um copo de água. Bolas de amendoins. Pevides. E no fim, receber um lenço para cobrir o cabelo; porque querem que nos relembremos deles no futuro e durante a nossa jornada. É ou não é isto o mais lindo lado da vida? Deixarmo-nos viver no outro. Nos sonhos do outro!

Mas de avião e em hotéis nada disto seria possível. Podíamos conhecer muito, mas não podíamos viver tanto! E em tom de brincadeira, os nossos amigos agradeceram por não sermos ricos e termos optado por conhecê-los. Mas a verdade é que nunca nenhuma quantia pagaria o que vivemos. E às vezes o mais estranho está no facto de as pessoas nos agradecerem por as termos vindo visitar. Como se não fosse o contrário: nós gratos por nos abrirem as portas de suas casas e as janelas das suas vidas!

E assim nos despedimos de Bolu hoje. Com um pequeno pormenor: aqui é ainda inverno. 16 graus voltam a ser a máxima. Chuva. Granizo. Muita chuva. Trovoada. E fresquinho! Valeu a pena despejar as mochilas e reorganizar para o calor. 🙂 Ai mundo mundo.

E hoje já com as estrelas no céu chegámos a Samsun: e se nos puséssemos agora a contar como foi, nem amanhã terminaríamos. Mais tarde o faremos. Mas uma coisa é certa, estamos hoje mais ricos que ontem. Muito mais.

E mais felizes (somos) também!

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a magia de ISTAMBUL

Há tanto sobre Istambul para contar, que o mínimo é mesmo a forma como aqui chegámos. Mas como as histórias se começam pelo princípio, não podemos fazê-lo diferente.

(Mas apetece-nos muito)

Fez no sábado uma semana que chegámos: partimos de Alexandroupoli, na Grécia, já tarde. Tarde, não. De tarde. Não era suposto, mas descobrimos pela manhã que não poderíamos tirar o visto da Turquia na fronteira – hoje em dia é online e chama-se e-visa. Lá está, o mundo gira, não pára, e nós andamos com ele. Acabámos por nos defrontar com alguns problemas logísticos, como o pagamento do mesmo atraves da Internet, sem MBnet feito… pensamos que conseguirão imaginar.

Bom, quando nos fizemos à estrada, era já hora de estarmos a chegar a Istambul – no nosso pensamento!

Ainda no centro da cidade, e mesmo em jeito de brincadeira, iamos andando de costas e de dedo esticado. Entre nós, trocavamos sorrisos e malandrices, gritávamos aos ventos que sabíamos que se na Grécia nos viamos gregos para andar à boleia; na cidade nem valia a pena tentar. Mas brincar também faz parte! Testar também faz parte.

E supresa das supresas: encostou uma senhora que nos levou até à entrada da autoestrada.

Não adianta dizer que era simpática, que foi um anjo ou que tudo o que nos partilhou nos foi gratificante. Não adianta porque naquele momento estávamos vidrados: vidrados no que tinha acabado de acontecer. E quando nos deixou, rimo-nos. De nos próprios. Um do outro! Rimo-nos por entre sorrisos e gargalhadas soltas.

Afinal, moral da história. Podemos achar que nos vemos gregos na Grécia e na Itália; mas também pode ser um verdadeiro mar de rosas. Aqui, ali, ou em qualquer parte do mundo: depende apenas (e só) daqueles que se cruzam no nosso caminho.

À entrada da autoesta acabámos por esperar algum tempo. Mais de uma hora decerto.

Não havia muito trânsito; e os carros que por nós passavam, nem para nós olhavam. Mas a nossa aura era verdadeiramente positiva, estávamos confiantes. Limitámo-nos a esperar. Como sempre. E como sempre também, acabou por parar um carro.

Trazia o sonho de viajar pela Europa a pedalar. Ciclista de coração, pesavam-lhe agora os seus mais de 50 anos e a frustração associada à idade. Lembrámo-lo que a idade só traz experiência; não nos impede de nada.

E como muıtas vezes por aí lemos (e sentimos – como sendo prova disso): quem quer realizar um sonho, arranja uma maneira de o fazer. Quem não quer, arranja várias desculpas.

Deixou-nos em plena autoestrada, antes mesmo de sair desta com rumo ao seu destino.

Lá, ficámos de pé atrás. A Grécia pertence à União Europeia, é suposto que as regras não sejam assim tão divergentes daquelas a que estamos habituados. E por isso, estar à boleia em plena autoestrada não parecia grande ideia. Mas não demorou muito até que passassem por nós dois carros de polícia. E nada.

Estávamos portanto a nosso belo prazer.

Ali ficámos por várias horas e por ali assistimos a tudo. Na autoestrada, vimos carros parar, carros em marcha-atrás e até pessoas a encostar, sair e pedir informações (a nós dois, com certeza).

Uma panóplia infindável de contraordenações. Pérolas – ainda na Grécia.

Ali mesmo conseguimos a terceira boleia do dia. E última! Um jovem da Geórgia parou. Apressamo-nos a entrar e foram precisos apenas 2 minutos para nos sentirmos confortáveis. E descansados.

Falava com alguma dificuldade, mas não por falta de competências linguísticas: tinha uma cicatriz indicativa de fenda do palato, já sarada, mas que influenciava a dicção. Mas nem por isso nos entendemos menos bem.

Caminhámos juntos até ao centro de Istambul. Mas até lá, foram 250 quilómetros de muitas aventuras.

A maior, na fronteira. Ultrapassámos juntos cinco postos de controle, todos eles exigentes e minuciosos. E revistaram tudo, até mesmo as nossas mochilas. É por isso que atravessar uma fronteira não tem como não ser um momento tenso. Mais, quando a comunicação se faz rudimentar e onde o inglês deixa de ser um porto de abrigo. No fim, respiramos sempre de alívio – mesmo quando não há por que temer.

Foi com pena que nos deixou na via rápida que atravessa Istambul e segue com destino a Geórgia. Sim, naquele dia (ou naquela noite), tinha ainda mais de 1500 quilómetros para fazer. Parece surreal, mas é assim mesmo. E por isso, nós dois, éramos companhia e conversa e partilha para cada hora da longa viagem que estava ainda por vir.

Mas a nossa caminhada é assim; e a pior parte dela é mesmo termos de dizer adeus. Controverso: são as pessoas que fazem valer a pena e são as pessoas quem deixamos para trás.

Mas menos controverso é o facto de rechearmos assim os nossos corações: só se sente saudade e aperto quando se gosta. Gostamo-nos muito e trazemo-nos sempre por perto; mas temos também gostado muito de todos os que se têm cruzado em nós!

Esta jornada não é só a do mundo na mão. É também a do amor no mundo e entre as nossas mãos.

E aqui em Istambul não tem sido diferente.

Se tivermos de descrever até aqui a nossa estadia, há uma palavra que lhe assenta: luxo. Temos sido afortunados.

Estamos há mais de 10 dias a viver com uma família turca, nascida e criada em
Istambul; numa casa linda e recheados de amor. Nao há forma mais bonita e completa de conhecer uma cultura e de viver uma cidade. Um verdadeiro luxo.

E não é cliché quando dizemos que nos têm dado tudo. Porque têm mesmo! E ainda mais um bocadinho. Desde passeios, jantares, encontros de família, almoços, viagens, partilhas… “Auuff” – como por aqui se diz.

Quando pensamos que falta já pouco para termos o nosso visto para o Uzebequistao (sim, é à ele que devemos esta longa estadia), ficamos até divididos: queremos muito partir, mas estava a ser tão bom ficar.. 😊

A magia que aqui presenciamos não percebemos ainda a que se deve. Talvez aos nossos arkadaslar (amigos). Talvez à cidade em si. Talvez à mistura, à diferença. À magia! Há tantas característica que valem a pena ser partilhadas, que é difícil sintetizar. Melhor, vivendo.

Os sapatos não entram em casa. Ficam à porta. Há chinelos para todos, ninguém tem de se preocupar! E por isso, andar descalço é decerto como pisar nuvens no céu.

Despedem-se com um abraço e muitos sorrisos. E güle güle!

Andar pelas ruas mais movimentadas é uma aventura. Não param quando alguém está parado para atravessar a passadeira. A única solução é tentar a sorte e pisar a estrada. E hão-de parar – esperamos nós e esperam todos! E Istambul é uma cidade tão grande que equivale a 50 Lisboas. Sim. 50.

É tanta gente, tanto trânsito, que da periferia ao centro, um percurso de 15 minutos leva 2 horas. Sempre!

Istambul, cidade, permite-nos ir da Europa à Ásia. Literalmente. Divide-se por uma ponte. E as diferenças sentem-se!

Entretanto, vive-se e sente-se o medo dos atentados, mesmo que ninguém fale abertamente sobre o assunto (ainda assim os mais próximos confirmam-no por entre os conselhos mais sábios).

Embora a maioria da população seja muçulmana, percebe-se que a prática do Islamismo é bastante peculiar. A religião adaptou-se aos tempos modernos e as demais religiões são respeitadas.

Cinco vezes por dia é cantanda nas mesquitas e para toda a cidade uma reza em árabe; nesse momento cabe a todos respeitar o som. Quem está deitado, senta-se. Quem está refastelado, endireita-se. Quem está a ouvir música, desliga-a. Para os mais religiosos, é um momento de reza. Para todos os outros é um momento de respeito.

De qualquer forma é tão comum ver alguém de alças, como coberta da cabeça aos pés. Mas mais comum é o lenço na cabeça ou o hijab. Até à pouco, era proíbido entrar na escola, ou na faculdade, assim. Hoje em dia foi liberado.

Por aqui, o vegetarianismo é difícil de entender: explicaram-nos que o Corão diz que os animais são o alimento do homem. Têm uma vasta cozinha tradicional (e são várias as iguarias vegan, sem que pensem nisso!). Deixámo-nos apaixonar pelas receitas com bulgur, lentilhas ou leguminosas. Uma típica e deliciosa é o Çiğ köfte, é amassado à mão, come-se frio, embrulhado num wrapp ou numa folha de alface, com umas gotas de limão. Também sobre o assunto e a título de curiosidade: o tofu custa 24tl por 200g, o que equivale a perto de 7€.

No que toca a dinheiro, moeda é a lira turca (tl) e as moedas fazem lembrar euros. A economia embora também baseada em mercados de rua, sustenta-se claramente em superfícies comerciais. Nos supermercados, é possível e normal encontrar pessoas com os seus próprios negócios pessoais; e gritam como se numa feira estivessem, incentivando a compra dos seus produtos.

Mas entretanto, é difícil encontrar alguém que fale inglês, mesmo que se trate de gente jovem. Pedir indicações, ajuda numa loja ou fazer compras é uma aventura.

Por fim, existem ainda duas tradições que nos marc(ar)am:

Por cortesia, cabe aos homens cumprimentar as senhoras mais idosas com um beijo na mão; depois a mão deve ser levada à testa e pode então dar-se os dois beijinhos habituais.

Por bem-estar, bebem chá preto pelo menos 3 vezes ao dia. É fervido puro e só no copo diluído em água. É servido num copo em forma de túlipa. Sempre que alguém termina, é de imediato oferecido outro.

E por entre fantasias, assim se vive em Istambul.

Fascinante. Encantadora. Sedutora.

Misteriosa.

Mais uma, pelo mundo, que marca a nossa (linda) história. E que fica na história da gente.

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živijo Eslovénia

De Veneza até Trieste são 180 quilómetros: uma distância curta para uma tarde inteira, pensámos.

Pela manhã de sexta-feira não deixámos que nenhum raio de sol nos despertasse por entre as portadas de madeira. Fechámo-las bem na noite anterior. E só o som das gaivotas se fazia ouvir por entre cada canal de mar, que avistávamos pela janela do quarto.

Amoroso!

Deixámos Veneza e os amigos que por lá fizemos e encontrámos. Mais uma vez, é o momento da despedida o que mais custa. O adeus. O até já. A saudade que tão bem nos carateriza: a nós, gente da nossa terra, portuguesa.

Para sair da ilha não foi fácil. Do primeiro lugar que escolhemos, fomos expulsos. A senhora agente que por lá tentava controlar o trânsito (sem grande congruência, já que por Itália vimos de tudo acontecer), apressou-se a despachar-nos da sua área. E sem grande entendimento, lá nos mudámos para longe da sua vista.

Na verdade, para um lugar bem melhor. Mas nem por isso mais célere para apanhar boleia. Esperámos mais de 3 horas. Já nos doíam as pernas de estar de pé e parados.

E já nos doía o pensamento, de moído.

Ofereceu-nos boleia um senhor que ia para perto, mas que tinha um amigo que nos levaria ao destino por 10 euros. Uma história um tanto estranha. Não que duvidássemos da sua vontade de nos ajudar, mas achámos que ali à espera continuaríamos melhor.

Dos autocarros urbanos que iam passando por nós, já os condutores se riam. Viagens para a frente, viagens para trás, nós no mesmo sítio!

E a boleia que acabámos por conseguir foi pedida delicadamente. O senhor parou (não por nós), mas aproveitámos a deixa. Não ia para Trieste, mas ia na direção. Partilhou-nos histórias e mais histórias das suas viagens pelo mundo, também por vezes à boleia. Talvez com pensamento tresloucado, achámos graça à forma como nos apoiou e aconselhou a estar sempre atentos.

E quando nos deixou numa estação de serviço da autoestrada, estávamos-lhe agradecidos e finalmente encaminhados. Aí não demorou tanto até encontrarmos alguém que nos levasse por mais uns quilómetros. Para um, de partilhas. Para outro, de profundo sono! Era militar e havia estado no Afeganistão em missão de paz, supostamente – disse. De conversa fácil, e pé pesado, foi num abrir e fechar de olhos que nos deixou numa nova estação de serviço.

Desta, nem tivemos tempo de tirar as medidas! Os primeiros jovens que vimos, a quem perguntámos se nos levariam, foram certeiros. Franceses, cada um de sua cidade, iam ainda até à Croácia nessa mesma noite.

O sol estava já a deixar-se desaparecer no horizonte, quando arrancámos; e quando nos deixaram em Trieste, já brilhava no céu a lua. Sem estrelas. E foi esta uma boleia com direito a tudo: oferta de comida, oferta de casa, troca de contactos e entrega à porta de casa. Sim, uns verdadeiros gentlemans, sim. Simpáticos, cordeais, disponíveis. E muito amáveis!

Estávamos então à porta da nossa terceira couchsurfer desta aventura. De sorriso estampado no olhar, recebeu-nos de braços abertos! Com ela cozinhámos, aprendemos italiano, ensinámos português, saímos à noite, conhecemos mais amigos e ainda partilhámos o pequeno almoço e um passeio matinal. Não sabemos se doce é o adjetivo certo, mas assenta-lhe na perfeição!

Preparados para seguir viagem, voltámos a fechar as nossas mochilas.

Sábado é um bom dia. É dia de passeio para muitos.

E enquanto descortinávamos qual o melhor lugar para nos pormos à boleia para sair de Trieste, um amigo do namorado de uma amiga (que mundo!), ofereceu-se para nos levar de carro até à fronteira com a Eslovénia por estar a ir para lá. Que gentil! Adorámos conhecê-lo e foi uma ajuda enorme. Porque Trieste é uma cidade rodeada de montanhas e pelo mar. E é bem lá em cima que aparece a autoestrada – era por isso um verdadeiro tormento subir tanto e tanto com as mochilas.

Foi ouro sobre azul!

Já na fronteira, com o tempo nublado, mas nem tanto quente, nem tanto frio, estivemos várias horas. Não mais de 3, mas pareceram intermináveis. Passavam por nós carros de todos os lados. França, Áustria, Alemanha, Espanha, Itália, Eslovénia, Bulgária, Roménia. (…) Camiões. Carrinhas. Motas. Autocarros.

O nosso petisco vegetariano já lá ia.

A esperança de que apanhar boleia seria num instante, também!

Mas foi num momento inesperado que nos apercebemos que um autocarro parou para nós! Um autocarro daqueles enormes e lindíssimo. Tinha um ar tão chique que esfregámos os olhos. Com uma comunicação rudimentar e muito rapidamente, perguntámos apenas se ia na nossa direção efetivamente e se nos levaria de graça. E lá fomos nós! Pelos cumprimentos e apresentações, percebemos que se tratava de um senhor polaco. E aí era ver os nossos olhos a sorrir! É que polaco não é de todo uma barreira, porque um de nós domina a língua (quem será? 🙂 ) e ainda vai traduzindo para que possamos sempre perceber os dois do que se está a falar.

Descobrimos por isso que o autocarro era novo, a estrear, e que o senhor estava apenas a fazer o seu transporte de Itália para Bélgica. E de tão simpático que era, tivemos mesmo pena de o ver partir depois de nos deixar. É que contado talvez não dê para acreditar, mas mesmo de autocarro fez questão de nos vir trazer à porta de casa.

O lado bom do mundo está ao virar da esquina.

Por baixo do nosso sorriso.

O lado bom do mundo não tem limites.

Já em Liubliana, levámos algum tempo até descobrir uma amiga de um amigo, que é quem por aqui nos está a hospedar. Uma pessoa iluminada e cheia de energia! Acabámos por contactar para Portugal a pedir o seu número e no fim terminámos a cozinhar e a ver el clasico com entusiasmo.

Hoje palmilhámos a cidade. Linda. Encantadora de verdade! Da Eslovénia guardamos boas recordações e amanhã partimos já rumo à Croácia.

É que o mundo gira e não espera por nós!

 

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