linda Tailândia

Vindos do Laos, no êxtase da chegada à Tailândia, desejávamos o cruzar da fronteira tão depressa quanto possível! O Laos, na sua essência, tinha sim sido uma verdadeira caixinha de surpresas: pelas pessoas, pelas paisagens, pela vida. E também pelas estradas e boleias. Não que não estivéssemos à espera; mas o sobe e desce das montanhas, as curvas e contracurvas… faziam-nos desejar por fim algum descanso!

16 de novembro de 2016: preenchemos os papéis no limite do tempo, enchemos as garrafas de água num dispensador potável, recolhemos os passaportes, trocámos o lado da estrada e seguimos. Estávamos cansados do que já havíamos caminhado até ali, mas caminhámos alguns metros. Queríamos alcançar uma estrada mais à frente, mais movimentada; mas o carro preto que vimos parado na fronteira não nos deu tempo. Era uma jovem, vestida de preto e muito, muito sorridente. Esticou-nos o telefone: era um amigo para traduzir. Queria dar-nos boleia por ir exatamente para a mesma cidade que nós, Nam. Nem queríamos acreditar, não tínhamos sequer chegado a pedir boleia. Trazíamos só a placa com o nome na mão, com o objetivo de a esticar depois.

Foram várias horas. Seguimos juntos, sem que conseguíssemos conversar. A barreira linguística era grande. Mas sempre com o suporte do amigo tradutor, via telefone, fomos conseguindo conhecer-nos. Eram ambos professores – daí vestida de preto – e a sede de nos ajudar foi maior que qualquer vergonha.

Em Nam ficámos uma noite, com um grupo de professoras de inglês vindas dos Estados Unidos. Uma casa grande, de madeira, numa cidade que dizem ser lindíssima. Mas a nós faltaram-nos as forças para a visitar. O cansaço era extremo, e ainda cedo a cama chamou por nós. O corpo dorido, as horas de sono em atraso. E descansámos por quase 12 horas sem que dessemos por elas.

Mas na manhã seguinte, depois de um batido de banana e manga e umas torradas (as saudades que trazemos de pequenos-almoços ocidentais caseiros fazem-nos ser felizes sempre que os temos!), e depois de pintada a nova placa, estávamos prontos para seguir novamente.

Não sem antes à casa onde estávamos ter chegado uma nova couchsurfer, com quem acabámos por trocar muitas e bonitas histórias de viagem e com quem fomos também ao mercado mais próximo comprar bananas para o caminho!

Desta, rumo a Lampang, seguimos com um casal. Demorou pouco, muito pouco, até que conseguíssemos uma boleia direta. Era uma carrinha de mercadorias, e fomos nós dois, lá atrás, com a porta semiaberta e ao sabor do vento. À chegada, deixaram-nos exatamente onde precisávamos e foi com selfies que nos despedimos.

Em Lampang ficámos com um couchsurfer do Azerbaijão. Com ar de iraniano, e também de turco, tinha uma festa marcada para a noite e por isso deixou-nos completamente à vontade naquela que é a sua casa, num condomínio fechado e um tanto ou quanto afastado de toda a cidade. Antes de sair, indicou-nos aquele que seria o único restaurante da zona e, depois de termos só tomado o pequeno-almoço já cedo, agradecemos sobre onde ir procurar jantar. Não gostamos de recorrer a restaurantes, mesmo que se tratem de tascas locais ou street food, mas não nos restava opção. Nem água tínhamos. Tomámos um duche e saímos. Mas, embora não fosse tarde, quando lá chegámos, estava fechado.

Não havia, portanto, onde encontrar comida ou água nas redondezas.

Tudo fechado. Um silêncio absoluto.

Restavam-nos então duas opções: ir dormir, assim mesmo, ou ir bater à porta das pessoas, mostrando a fotografia de uma garrafa de água e comida. E nestas situações não há, nem pode haver, vergonha. Não há, nem pode haver, constrangimentos. É ir e pronto.

E o mais engraçado desta aventura foi que nos bastou bater à primeira porta. Não perceberam de imediato o que procurávamos, mas começámos por perguntar onde encontrar o que lhes mostrávamos nas fotografias. Depois então de, por gestos!, dizerem que em lado nenhum conseguiríamos comprar água ou comida, apressaram-se a ir à cozinha. Preparam noodles, uma garrafa de água, umas bolachas e um sumo. E não aceitaram dinheiro. Só sorrisos.

A generosidade humana não tem limites. E temos vindo a experienciá-lo das mais diversas formas. E das mais bonitas também!

Juntos.

Dormimos depois descansados, mesmo que com os nossos colchões de meio metro no chão e a nossa rede mosquiteira presa por entre fios espalhados e seguros num varão do cortinado.

Ainda ensonados, na manhã seguinte saímos cedo, rumo a Chiang Mai – a cidade dos templos. Não estava longe e foi fácil de lá chegar com uma só boleia. Numa pick-up, a família convidou-nos a ir lá dentro! A comunicação, rudimentar à falta do inglês, fez-se mais por olhares e gestos que por palavras. E à chegada, no culminar da nossa gratidão, ligaram ao nosso couchsurfer, que acabou por nos encontrar na bomba de gasolina onde nos deixaram.

Não esperámos assim tanto, ainda que estivéssemos estado o tempo todo na dúvida da nossa combinação. Até que então apareceu, com os seus óculos redondos, já de uma certa idade, calça vincada e a falar inglês – o nosso couchsurfer. Com uma simpatia desmedida, estava com muita pena por não nos poder hospedar em sua casa, pois tinha também lá dois hóspedes vindos através do Airbnb (uma plataforma para aluguer de quartos ou casas, de curtas ou longas estadias).

Contudo, nada atrapalhado, foi em casa da sua mãe que nos recebeu e alojou. Já vazia de gente, mas ainda equipada, instalou-nos e deixou-nos à vontade, com chaves na mão e total liberdade, naquela que foi a nossa casa por três dias e duas noites. Mas com um pequeno detalhe, comum na zona: não havia cozinha.

Na Ásia a street food tem um impacto e uma procura tão grande que há quem simplesmente não cozinhe. Não encontram vantagens e vivem felizes assim, chegando até por vezes a confessar-nos que acreditam sair mais barato.

(In)Felizmente, olhando para nós dois, é incompatível viver sem uma cozinha! Desta forma, só nos ocorreu começar a pensar em como é que nos haveríamos de desenrascar. Procurámos então pelo mercado ou supermercado mais próximo e foi lá que percebemos haver sempre ao final do dia comida feita, legumes e frutas em promoção. E quando dizemos promoção, é mesmo das valentes, a ponto de termos conseguido uma embalagem de arroz cozido por 1,50BAT (0,03€) ou um quilo de mangas por 1BAT (0,02€)! E por entre as promoções diárias havia de tudo! Noodles, legumes, pão, biscoitos… enfim, à dimensão da imaginação. Com o único (e enorme) problema associado ao desperdício de plástico e embalagens, tão famoso pela Tailândia.

E foi enquanto andávamos perdidos pela escolhas que fazíamos, que conhecemos um casal, ela russa e ele bielorusso, também eles viajantes à boleia. Conversa puxa conversa e, estávamos já sentados numa mesa do centro comercial a petiscar parte do que havíamos comprado, percebemos que era na tenda que estavam a pernoitar.

Sem problemas em dividir a enorme cama que tínhamos, tentámos perceber junto do nosso couchsurfer se haveria a hipótese de hospedá-los também. E tal como imaginávamos, acabámos a partilhar tudo quanto tínhamos. O mais importante, histórias e aprendizagens!

Descobrimos então a cidade juntos, as promoções de final do dia juntos também e tudo o que mais fizemos. Até mesmo quando procurámos um hospital para fazer análises de rotina, o fizemos juntos! E foi com eles que aprendemos algo que agora trazemos connosco:

— de forma a gerarem algum dinheiro em viagem, imprimiram algumas das fotografias que foram tirando pelo caminho e, em tempos mais mortos pelas cidades por onde passam, vendem as mesmas: as pessoas escolhem e levam a que mais gostam e deixam um donativo do valor que entenderem.

Posto isto, da ideia deles fizemos a nossa e guardamo-la em nós! E na pior das hipóteses, ficaríamos apenas com lindas fotografias do nosso caminho já impressas; com a certeza de que não mudaríamos, nem mudaremos, em nada o nosso modo de viajar com dinheiro extra. Mas certo é que com os voos que temos para comprar, é sempre uma grande e boa ajuda! E o mais bonito desta ideia, é que a cada pessoa é dada a possibilidade de nos dar o que puder por querer apoiar esta nossa caminhada.

E depois de por Chiang Mai nos deixarmos apaixonar por cada templo budista banhado a ouro, de sermos seduzidos pelo mercado local e tão turístico e fascinados por cada balão de papel, partimos para Bangkok.

A viagem era longa, muitos quilómetros e um longo desafio – mais que por nós aceite.

E fica tão mais fácil quando o coração bate forte. Pela aventura. E por nós! No conforto que é saber que somos um (só).

Posto isto, conseguimos então a primeira boleia, enquanto caminhávamos debaixo de sol, com um novo chapéu de palha lilás que encontrámos perdido. Era uma senhora, numa pick-up, excitada e entusiasmada para nos ajudar. Queria por força convencer-nos a apanhar um comboio para Bangkok, daqueles que para os locais são gratuitos e levam horas infinitas. Mas como falava sem se atrapalhar inglês, conseguimos explicar-lhe este sonho que trazemos.

E encantada com a ideia, acabou por nos levar mais à frente, naquele que seria o nosso caminho.

Lá, voltamos a ter que caminhar. Mas desta, com fé no caminho! Os nossos corações, fortes num corpo já mais fraco, sabiam que dali sairia uma boleia até Lampang. De lá seria já mais fácil descer no sentido de Bangkok. Com sorte, seria até uma boleia direta.

E assim foi!

Um jovem, com tanto de envergonhado como de extrovertido. Simples. Simpático. Queria muito praticar o seu inglês recém-aprendido e viu em nós a oportunidade perfeita. Desta, o caminho foi de pouco mais que uma hora, mas feito de curtos e longos diálogos, profundas partilhas e muitas histórias.

Quando nos despedimos, em Lampang, a tal cidade, ficámos numa estação de serviço. A única da zona, localizada na estrada principal rumo a sul. Então foi ali mesmo que largámos as mochilas, que almoçámos (o que havíamos trazido do Tesco da noite anterior – os belos petiscos vegetarianos, com sabores locais caraterísticos e tão especiais) e que nos deixámos ficar, de placa de cartão erguida e cheios de esperança.

E é nestes momentos que ter fé é importante; porque mesmo que corra tudo ao contrário, sabemo-nos a sorrir na imensidão das nossas crenças!

E amor. Muito amor.

Era um carro vermelho. Pequenino. Modesto. Encostou. Fez marcha atrás. E parou junto a nós. Era um pai. E um filho. E por entre tantos outros que vimos passar, iam para a capital tailandesa, tal como nós! Demoraram mais que muitos a esboçar sorrisos, mas sempre muito educados e prestáveis, fizeram das quase 8 horas de caminho um momento muito tranquilo. As estradas boas também ajudaram. E no fim, já de noite, ao contrário do que esperávamos, alteraram ligeiramente a sua rota e deixaram-nos à porta de casa – o que foi um alívio para nós, tendo em conta o tardio do tempo, a imensidão da cidade e o cansaço que trazíamos.

Em casa, esperavam-nos dois amigos de amigos, chineses, a trabalhar em Bangkok. Foi um pedido de ultima da hora feito a amigos que temos pela Ásia, depois de percebermos que embora com muitos conhecidos por perto e um couchsurfing apalavrado, naquela noite ninguém nos poderia hospedar. Mas foi ali que fomos muito bem recebidos, com sorrisos no rosto e na alma. O serão fez-se então de partilhas e até algum mandarim já quase esquecido; e a noite fez-se no sofá, no descanso da ausência de mosquitos, numa metrópole tão imensa.

Na manhã seguinte, depois de partilhado um pequeno-almoço daqueles que tão bem conhecemos, conseguimos uma boleia da casa até perto do condômino da nossa couchsurfer. Local, jovem e, contrariando as tendências locais e a cultura do seu país, a viver com o seu namorado da Lituânia. A Smuk. Sorridente, com uma energia infinita, em êxtase por nos receber como primeiros surfers, deixou-nos à vontade e fez da nossa estadia, uma passagem muito simpática. Das 2 noites que partilhámos juntos, cozinhámos, rimos, nadámos, conversámos, sorrimos, vivemos. Fomos, no sentido do quão bom é ser. Ser. Saber ser, saber estar. Saber conviver.
E deixámo-nos lá deslumbrar pela vida que é Bangkok. Um outro mundo, não à parte, mas muito diferente daquilo que é o Sudeste Asiático. Pela piscina soberba no topo do vigésimo terceiro andar do condomínio onde dormimos. Pela multiculturalidade das ruas. Pelo comércio. Pelos transportes. Pela grandeza. Pelos mercados. Por tudo. E chegámos ao fim com a certeza de que outros três dias não seriam também suficientes para tudo quanto queríamos ter ali vivido.

E foi também em Bangkok que, pela primeira vez, experimentámos “vender” as nossas fotografias. Mas sem sucesso. Foram poucos os curiosos e nenhuns os generosos; o que em nós não teve grande impacto. Se por um lado nos entristeceu a experiência, por outro não era nada que não estivéssemos à espera. E por isso, sem rancor ou vergonha, guardámos aquelas que são joias de recordações de uma vida bem vivida, e seguimos.

Seguimos para perto de Prachuap Khirikhan, uma pequena aldeia, ou cidade, distante de tudo e de todos, rodeada de verde vivo. Até lá, chegámos com três boleias, duas pick-up e um camião. Todos especiais, mas o último com um grande constrangimento. Nem sempre nos damos a conhecer ao primeiro minuto, e nem sempre é fácil lidar com a generosidade daqueles que nos rodeiam – o senhor, camionista, numa das suas breves paragens, fez questão de nos comprar comida, mas não foi uma comida qualquer. Foram dois hambúrgueres. De vaca: aquilo que aos olhos de todos é um animal, inocente, morto. (Mas nem todos querem ver.) Deparámo-nos assim com um momento embaraçoso já que nem em última instancia queremos magoar alguém. Mas, se há quem diga que para um coração generoso, coração e meio, a verdade é que mesmo separados por uma barreira linguística, nos conseguimos explicar e fazer entender.

Em Prachuap ficámos uma noite. Era professora e mãe solteira, a nossa couchsurfer. Doce, empática e meiga. Preparou-nos o quarto, ligou o ar condicionado, deu-nos a chave, e saiu. A dar aulas numa pequena aldeia distante, utilizava aquela que era a sua casa apenas aos fins-de-semana ou quando hospedava alguém – que era o caso, mas ainda assim não conseguia lá ficar.

Um anjo na terra, não é? Se aprofundarmos isto em nós, chegamos sempre à conclusão de que somos abençoados. E que não temos alternativa senão ser gratos! Ora, quem é que inserido na nossa cultura iria fazer quilómetros para abrir as portas de sua casa e deixar dois estranhos lá dentro, mesmo na nossa ausência? Sem sequer ter tempo efetivo para os conhecer? Não sabemos.

Mas sabemos que é na generosidade dos que nos rodeiam que os nossos sonhos vivem.

E foi então na tranquilidade da noite, mesmo que com algumas baratas à mistura e muitos mosquitos do lado de fora da nossa rede mosquiteira, que demos asas a cada sonho nosso, abraçados naquele que é o nosso ninho em cada cama que fazemos.

E na manhã seguinte, ainda o sol subia lentamente sobre a linha do horizonte, já nós estávamos quase prontos para partir. A viagem ia ser longa, mas o destino prometia: Ilha de Koh Samui!

Chave escondida, conforme combinado, e seguimos com vontade de chegar. E chegámos, depois de longas e variadas boleias, onde quase nos imaginámos a morrer na praia. Foram 5 os diferentes carros, que pouco a pouco, nos ajudaram a lá chegar. E um ferry. E por entre todos esses carros, todas essas boleias, vivemos histórias muito diferentes. Um camionista, amoroso, depois de insistir para nos levar mais longe, já fora da sua rota, e depois de nós insistirmos de volta para que não o fizesse, encheu-nos um saco de mangas e fez questão que o levássemos. Apanhámos também uma pequena boleia de uma jovem, que trazia no banco pendura um transexual. De lábios azuis, unhas coloridas e sorriso no rosto, estava ali para ajudar a traduzir aquilo que dizíamos por falar muito bem inglês. E por entre toda a ajuda, ofereceu-nos também a sua casa na Austrália. Corações sem limite! E por fim, já quando nos vimos perto do porto, mas não o suficiente para caminharmos, foi um senhor, já velhinho, a quem no principio achámos que não conseguiríamos entender, que nos levou até ao ferry. E foi “ferry” a palavra que nos uniu, por ser a mesma nas nossas línguas!

Já no porto, conseguimos apanhar o mais bonito dos barcos: aquele que nos permitiu comtemplar o pôr-do-sol em plena travessia. Mágico, deu tons de rosa ao céu. E laranjas. Até que nele nasceram as estrelas. E a lua. E assim chegámos a Koh Samui, uma ilha grande, abençoada por praias de areia branca e águas quentes e transparentes. E foi ali mesmo, ainda no porto, que apanhámos a última boleia do dia, com um casal que nos deixou à porta de casa. Não sem antes nos avisar de que na ilha havia uma grande máfia: a máfia dos taxistas, que por maldade tendem a vandalizar os carros que vêem dar boleia ou “roubar” clientes. Mas já habituados a esquemas andamos sempre nós, pelo que agradecemos o conselho e sorrimos, ansiosos por ver no que o futuro nos reservaria.

Uma casa. Numa espécie de quinta sem animais. Por entre outras casas. E um silêncio absoluto. Um casal da Rússia. Dois couchsurfers. E dois colchões no chão. Uma rede mosquiteira por entre fios cruzados no ar. E calor. Mosquitos. Uma extra-aranha gigantérrima e veloz. E cozinhados. Batidos. E mergulhos. Praia. 3 noites e 6 boleias a passeio. E paz.

Guardámos tudo isto que vivemos, e chegou o dia de seguir. Como sempre chega!

Mesmo com uma boleia direta desde a vila onde estavámos, até ao porto, o ferry que apanhámos de volta foi já fora de horas. Mas não conseguimos despachar-nos antes. Ainda assim, já no continente, os deuses das boleias foram-nos fieis e o destino não estava longe. Fizemo-nos à estrada, de placa erguida e mochilas às costas. E conseguimos, com 2 boleias de gente boa, chegar a Nakhon Si Thammarat, cada vez mais a sul.

Lá, no centro comercial da cidade, esperámos a nossa couchsurfer e logo depois a sua prima, para que esta nos desse boleia até casa. Longe, numa aldeia pequenina, muito pequenina e remota, encontrámos a sua casa e a sua família. E lá nos receberam, de alma aberta, atentos a cada passo, disponíveis em cada olhar. No chão fizemos a cama, nas cadeiras prendemos a rede. E mais um ninho se instalava até que o sol raiasse. Mas antes, muito antes, cantaram as galinhas e os galos, e o sono de profundo a leve passou. Ainda assim, fizemos da manhã descanso e recuperámos energias, até que a nós se juntou um novo casal de viajantes australianos.

Com eles, e com a nossa couchsurfer, andámos à boleia de uma mota com atrelado e visitámos a cidade próxima. Templos budistas, mercados locais e até um café europeu. E ao final do dia, despedimo-nos por entre abraços e conhecemos o nosso novo couchsurfer.

Um jovem, acompanhado pela sua esposa, sobrinha e filho. A viver na cidade, considerámos a nosso favor a mudança tendo em conta que no dia seguinte teríamos de estar mais perto da estrada nacional, aquela que nos levaria mais a sul. Assim, foi com todos eles que jantámos (por sua insistência, num restaurante Malaio, onde as opções vegetarianas eram poucas, mas onde estavam felizes) e foi perto deles que dormimos! Pela primeira vez nesta viagem, hospedados numa oficina de carros no rés-do-chão de onde viviam, fizemos do sofá da sala de espera uma cama e da casa de banho uma banheira. E que bem que ficámos!

Pela manhã, muito cedo, ouvimos os portões abrir e a vida lá for a começar. Depressa nos apressámos e num ápice estávamos prontos. Dali, fez a família questão de nos levar a tomar o pequeno-almoço a um restaurante chinês e vegetariano, onde logo pela manhã os pratos servidos são um verdadeiro almoço ou jantar, com a agravante de que tudo é uma imitação de peixe ou carne. E, sem que pudéssemos esperar, ofereceram-nos também uma verdadeira marmita para que pelo caminho estivéssemos munidos, e levaram-nos até à bomba de gasolina da estrada principal na direção sul, com destino a Hat Yai.

Ali pousámos as mochilas e escolhemos uma sombra. Tínhamos sono, muito sono! Muita vontade de adormecer pelo caminho e pouca força para estar ali, de pé, a mostrar o pedaço de cartão onde escrevemos o nome da cidade. Mas não tínhamos outra hipótese, até que parasse o primeiro carro.

Nos entretantos, vieram os locais, as pessoas das redondezas, de telefone em punho, com alguém do lado de lá para traduzir: “Aqui não há carros a ir para Hat Yai. É longe.” “Grátis? Isso não existe aqui!” “Têm de ir para o centro da cidade e apanhar um autocarro ou um táxi.”. Mas esta conversa já nós conhecemos. De cor. Porque para os locais, nunca dá para andar à boleia. Nunca há carros a ir na nossa direção. Nunca. Mas depois, na ponta da língua temos pronta a nossa salvação: “Nós temos tempo, queremos esperar”. E assim se despedem, ora a rir em ar de troça, ora a sorrir com esperança e compaixão. E não, não adianta contar que viemos de Portugal até aqui à boleia, porque não há quem entenda. Embora às vezes tentemos essa sorte!

Até que então parou um carro. Abriu as janelas. E lá dentro vimos dois cavalheiros, que se apressaram a dizer-nos que iam para a mesma cidade. E fomos juntos, por entre paisagens magníficas e sonos profundos.

Em Hat Yai, já perto da fronteira com a Malásia, deixaram-nos num grande centro comercial, deslocado da cidade, perto da casa do nosso novo couchsurfer. Mas era cedo, tão cedo que nem nós próprios queríamos acreditar que já tínhamos estado à boleia, feito tantos quilómetros e chegado. Eram 13 horas. Decidimos então entrar: sem tão poucos nos lembrarmos que devido à instabilidade do país na zona em questão, as revistas são obrigatórias em qualquer lugar. Assim, toca de abrir as mochilas todas, embora sem grande vontade de as desarrumar. E uma vez dentro do centro comercial, procurámos a zona de refeições e foi lá que nos deixámos estar por várias horas.

Acabámos depois por conseguir que no balcão de informações nos guardassem as mochilas para que conseguíssemos dar uma volta pelas redondezas, mas por pouco tempo. Depressa chegou a hora de nos encontrarmos com o nosso couchsurfer e de juntos seguirmos para sua casa.

Uma casa de família, grande, bonita e cheia de gente (que na sua maioria falava chinês). Dois cães, primos, sobrinhos, pais, irmãos, babysitter e amigos dos mais pequenos. Todos juntos. Uma grande cozinha e, embora com poucos quartos, em cada um havia grande camas de casal, várias. E foi num deles que partilhámos uma com o nosso couchsurfer e mais espaço havia.

Ele era jovem, de origem chinesa, nascido na Malásia e pouco conversador, mas recebeu-nos de braços abertos e também ali degustámos diferentes iguarias, com a especial e habitual presença do arroz – a todas as refeições.

E na manhã seguinte, ao raiar do sol, seguiu-se a chuva. Intensa e forte, com pingos grossos, daqueles que molham: e juntos faziam um ruído monocórdico e impossível de ignorar. A cama chamou então por nós por mais uma hora, mas havia em nós o sentimento impaciente do que se avizinhava: a Malásia. Já ali ao lado, distante por tão pouco.

Despachámo-nos então e quando prontos um dos membros da família ofereceu-se para nos ajudar com uma curta boleia até à estrada onde tínhamos de pedir boleia. Pelo caminho, atrapalhados entre capas da chuva e mochilas, conseguimos escrever uma placa e foi com ela que conseguimos a boleia seguinte.

Demorou até chegar, não falava inglês, mas quis de coração ajudar-nos. Era já mais velhote e tinha um jipe. Não conseguimos perceber exatamente para onde ia, mas deu-nos a alegria de nos deixar exatamente na fronteira. E era cedo, estava tudo a correr bem, apesar da chuva, tinha tudo para dar certo.

Caminhámos de cabeça erguida, curiosos. E de mão dada, juntos.

Carimbámos o passaporte e seguimos por caminhos da terra de ninguém, até à próxima fronteira.

Da Tailândia, guardamos muita coisa. Mas o mais bonito de tudo, são as pessoas que trazemos. Os momentos que vivemos. As amizades que fizemos. Aqueles que fomos. O que sentimos. O que agora somos. E somos muito mais, por toda a generosidade, por todos os sorrisos, por todos os abraços, por todos os olhares, todas as chegadas e todas as partidas, todas as despedidas. Pelos mergulhos, pelas paisagens, pelos pôr do sol, pelas ruas, pelos mercados, pelos templos, pelas culturas, pelas comidas. No fundo, por tudo.

Porque nós somos feitos de tudo o que absorvemos e nos envolve.

Somos feitos do mundo!

E de amor também.

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