do nordeste da Tailândia: ao Laos

Se nos faltarem as palavras para descrever como foi, não faz mal. Basta escutar o bater dos nossos corações. O sorriso do nosso olhar. O palpitar. A alma recheada. Os sentidos apurados. O amor.

A 6 de novembro entrámos em Surin, depois de atravessada a fronteira do Cambodja. O objetivo era simples: atravessar o nordeste da Tailândia para chegar ao Laos. E assim fizemos, superando todas e quaisquer expetativas sobre como seria, por lá, andar à boleia.

Levámos cinco dias, mas só porque quisemos: não sabíamos a princípio se seria fácil ou não, então previmos curtas distâncias; mas descobrimos depois que estas haviam sido desnecessárias. Ou não! Se por um lado a Tailândia é o paraíso das boleias e poderíamos ter chegado ao Laos num pequeno abrir e fechar de olhos, por outro, permitiu-nos viver a vida de uma rota não turística, ficando sempre com locais. Uma experiência daquelas que desejamos sempre. Estar em contacto. Ficar mais perto. Saber como vivem, o que fazem, como pensam. O que comem, como comem.

Da fronteira do Cambodja a Surin, a tal primeira cidade tailandesa, foi um respirar. Caminhámos apenas o suficiente para nos afastar dos olhares militares e logo parou uma pick-up, com uma senhora a falar inglês. E aí, mergulhámos numa estranha sensação de espanto e alegria. Deixou-nos na estrada pouco mais à frente, onde posteriormente desviaria o seu caminho; e logo aí parou uma nova pick-up com uma família. Lá fora e dentro. Várias crianças. Jovens. E uma senhora bem velhinha.

Andar à boleia estava a ser (e é) indescritível!

Desviaram-se então até nos deixar na cidade perto da localização que tínhamos como referência para encontrar o nosso couchsurfer: um mercado local, onde à chegada não ficámos propriamente animados: primeiro por ser tudo vendido em pequenas em embalagens, sacos e saquinhos, fechados com elásticos (i.e., um desperdício de plástico e futuro lixo exorbitante), e segundo, embora tudo muito lindo, com frutas delicadamente recortadas, com cores e cheiros deslumbrantes, muito caro também.

Ali, tentámos telefonar para avisar que havíamos chegado, pedido a uma pessoa aleatória na rua esse favor, mas o número ia parar a outra pessoa. Procurámos internet, mas não estava a ser fácil. Mais de uma hora de espera sem saber o que fazer e a noite cresceu no céu. Começámos então a ficar preocupados e aí sim, à boa portuguesa, última da hora, agimos. Acabámos então numa pequenina loja a pedir wi-fi e lá conseguimos assim, pelo wechat (whatsapp chinês), contactá-lo. Num piscar de olhos, tínhamos a sua tia, de bicicleta, à nossa frente, pronta para nos mostrar o caminho até casa.

A família, amorosa, levou-nos a comprar comida a um mercado de rua, típico e afamado como tantos outros pela Tailândia, onde se encontram as mais variadas iguarias. Nós, deixámo-nos render por tudo aquilo que era cozinhado com legumes e leite de côco – uma verdadeira perdição! Jantámos depois em casa, sentados no chão com perninhas à chinês, como percebemos ser uma tradição longínqua e já antiga tailandesa. Com um garfo e uma colher, e a mão de auxílio, tivemos assim um jantar em família!

Mas foi no passeio que fizemos entre o mercado e casa, que conhecemos por alto a famosa cidade dos elefantes. E foi lá também que percebemos que nunca tínhamos visto tantos mosquitos juntos na vida! Mesmo de noite, e com a rede mosquiteira por nós pendurada, parecia a verdadeira selva.

Na manhã seguinte, cozinharam para nós um pequeno-almoço que em nada se distinguiria de um almoço! E logo depois seguimos para Khon Kaen, a 250 quilómetros e lá chegámos com quatro boleias. A primeira, quase ainda dentro da cidade, a segunda de um autocarro e as últimas duas de pick-up, numa delas fomos lá atrás. A outra, foi de uma família amorosa pelos últimos 10 quilómetros, sendo que fizeram questão de nos deixar exatamente no ponto de encontro com a nossa couchsurfer. Estudante na cidade, apanhou-nos de carro e em sua casa sentimo-nos também nós em casa. Pudemos cozinhar (como adoramos e já tão raramente fazemos, como consequência da abundância de “street food”, que leva a que muitas pessoas nem cozinha tenham em casa!) e trabalhar e escrever enquanto também ela estudava, com parceria da internet emprestadada pelos seus vizinhos.

Na manhã seguinte, continuámos a nossa doce romaria, em direção Udon Thani. Até lá, conseguimos uma boleia direta de dois senhores, ou jovens, com uma banda, cabeludos e engraçados, muito muito prestáveis e disponíveis. À chegada, ao ponto de encontro, foi a Nikki que nos foi buscar. A Nikki é mulher do Michael. O Michael é alemão, tem uma doença degenerativa e quando começou a piorar decidiu mudar-se para a Tailândia. Não consegue falar de forma percetível, mas adora ter gente por perto, conhecer pessoas e estar rodeado delas: e é por isso que aceita todos os pedidos que recebe através do couchsurfing! A Nikki, local e amorosa, cuida dele e dos netos que tem de um casamento anterior e dos couchsurfers que recebem. A nós, fez-nos uma visita guiada pela cidade! Pelo lago, pelos museus, pelos mercados. Comprou-nos bananas, mangas, jackfruit, côcos e tantas outras frutas tropicais. Preparou-nos um quarto, lençóis frescos e ar condicionado. Ensinou-nos a preparar uma “papaia salad” (que mal conseguimos comer de tão picante!) e fez-nos o jantar. E já depois das estrelas estarem a brilhar no céu, levou-nos ainda a visitar o street market, onde nos fez provar várias sobremesas tipicamente locais, feitas de folhas ou de côco.

Incansável. Com um coraçãozinho do tamanho do mundo.

E na manhã seguinte, além do pequeno almoço (com muesly! que saudades!), ainda nos fez uma super-hiper-marmita com comida. Escusado será dizer que nesse dia viajámos com quatro mochilas e um grande saco de ciganadas, como entre risos lhe chamamos.

Avançámos depois para a cidade fronteiriça com o Laos, Nong Khai, com mais uma boleia direta. Era polícia, simpático e tinha uma carrinha mais que confortável, onde nem demos pela viagem! À chegada, atravessámos a grande avenida onde nos deixou e percorremos todas as ruazinhas pequenas que vimos em busca da escola de inglês da nossa próxima couchsurfer. Local, dava aulas privadas depois de perceber que nas escolas públicas os métodos de ensino contrariavam tudo aquilo em que acreditava.

Fardados de saia/calção azul, camisa branca e gravata, sapato preto e meias altas brancas. Durante a tarde, conhecemos os seus alunos vindos da escola e terminámos o dia a dar nós uma aula de português, perante olhares atentos e curiosos e mentes frescas. Riam-se a cada tentativa de repetição e perguntavam destemidos por mais e mais.

Já à noite, depois de um pequeno passeio pela cidade, dormimos ali mesmo, no sofá tripartido de uma das salas de explicações. No candeeiro, daqueles de teto que se vêem por todas as escolas portuguesas, fizemos passar a linha para segurar a nossa rede mosquiteira e assim construímos o nosso ninho.

Ao despertar, voltámos a colocar tudo no lugar, fechámos as nossas mochilas e estávamos prontos para seguir. Tinha chegado o dia de, com ansiedade, cruzar a fronteira para o Laos. Não sem antes, contudo, visitarmos a convite da nossa couchsurfer um restaurante tailandês vegetariano, onde com alguma estranheza tudo era imitação de carne ou peixe. Duvidámos, a medo, mas a verdade é que era tudo feito com tofu, seitan, algas ou afins, cem por cento vegetal.

Seguimos então, ainda juntos, até ao café mais próximo, onde vimos que até as bebidas as metem num saco de plástico, ao invés de um copo, que atam com um elástico colorido e onde num dos cantos enfiam uma palhinha para beber. Já perto da ponte que ali divide a Tailândia do Laos, com um abraço despedimo-nos e pelo nosso próprio pé seguimos! Carimbámos o passaporte à saída e, sem autorização para pedir boleia na ponte, conseguimos autorização para nela caminhar. Então assim fizemos, caminhámos. E caminhámos até que a primeira curva impedisse que da fronteira nos vissem, e pedimos boleia: abanámos a mão e sem grandes demoras parou um jipe. Vinham da Tailândia, mas eram do Laos e para lá seguiam, partilhando que tinham cruzado para fazer algumas compras, por lá ser mais barato.

Na fronteira, já do lado de lá, para entrar no Laos, preenchemos os devidos papeis para o visto, pagámos e esperámos que este nos fosse entregue, já colado no passaporte. Foi rápido, simples, sem complicações ou tentativa de corrupção, e estávamos felizes por isso.

Mochilas de novo as costas, e seguimos, a pé, até à estrada principal, já distante da fronteira. Ali, pousámos tudo de novo no chão e pedimos boleia. De novo, de mão esticada, por entre abanicos.

Não foi assim tão fácil, nem foi assim tão rápido: o que nos permitiu imaginar o que se avizinhava nos próximos dias e quilómetros… Mas sem mais demora, parou um senhor já velhote, que nos convidou a subir para a sua pick-up, e foi lá atrás que seguimos até chegarmos à periferia de Vientiane, a capital do país.

Estávamos a viajar no Laos!

Esperámos no local combinado a nossa couchsurfer: Arefina, natural da Indonésia e ali a viver ainda há muito pouco tempo. De hijab, de sorriso no rosto, tom de voz doce e moderado, levou-nos até sua casa, onde vive com os sogros, marido e pequeno filhote. Uma casa grande, simpática e muito acolhedora, onde encontrámos um quarto só para nós, deliciosos petiscos indianos (entre eles a maravilhosa banana frita!!) e gente de bom coração. E às refeições, foi onde o choque cultural mais se fez notar: o comer com as mãos, o arrotar sem descrição, o começar a comer sem esperar pelos outros. E tudo isto faz das nossas experiências as mais ricas de sempre.

E intensas!

Assim passámos duas noites, neste conforto e descoberta, com um passeio maravilhoso pela cidade, onde visitámos templos sem fim, todos eles budistas. Onde nos deixámos andar à beira rio, o Rio Mekong. Fizemos também algumas compras para a viagem do dia seguinte no mercado local (sujo, pobre, não com tantas cores e realmente muito mais caro!), onde os sorrisos dos vendedores fizeram o seu encanto. Conhecemos também um couchsurfer que, embora não nos tenha podido hospedar, teve interesse em ouvir parte das nossas histórias e, já de regresso a casa, visitámos o COPE Visitor Centre, um museu, espaço, dedicado ao trabalho feito com pessoas amputadas, vítimas de minas, problema este ainda muito atual. A casa, chegámos com uma boleia que apanhámos à saída da cidade, já pouco crentes depois do sol se ter posto, com dois jovens , ambos a estudar no estrangeiro – que com enorme doçura desviaram caminho para nos deixar exatamente onde precisávamos.

Cedo, na manhã do dia seguinte, era hora de seguir para Vang Vieng, a nossa próxima cidade. Muito turística e cara, diziam todos quantos se cruzavam connosco!

Até onde começámos a pedir boleia, fomos com a Arefina e o seu marido. Lá, já na estrada que dava caminho ao nosso destino, esperámos não tanto quanto imaginámos, até um senhor com a sua pequena filhota pararem e nos deixarem mais à frente.

De baixo de uma pequena árvore, pousámos as mochilas e, na berma da pequena estrada nacional, esticámos a placa e a nossa mão. E ali esperámos várias horas, sem que nenhum carro parasse. Contudo, parou um jovem, de bicicleta, entusiasmado com o que estaríamos nós ali a fazer, e que mais tarde voltou com duas águas fresquinhas e uma embalagem de bolachas. Imaginam o que significou isto?

Tanto! Significou tanto que nem sabíamos como expressar a nossa gratidão. De tal forma que nos animou e deu força para continuar, debaixo de um sol intenso e quente, a pedir boleia. Até parar um carro. Um carro que já havíamos visto, e que nos chamou à atenção por lá dentro trazer várias crianças loirinhas e, ao volante, alguém com um ar muito familiarmente europeu.

Eram franceses. E canadianos. E embora fechados ao início, revelaram ser uma boa companhia por todo o trajeto que ficámos juntos.

Deixaram-nos a poucos quilómetros de Vang Vieng, depois de varias horas de caminho em estradas pouco desenvolvidas; e o sol descia já no horizonte, galopante, dando lugar às cores da noite, por entre um céu azulado, escuro, avermelhado ou alaranjado, envolto por montanhas. Mas, aí fomos donos da sorte! De entre as várias pick-up que foram passando, parou uma, com um inglês dentro, acompanhado de um local, indo exatamente para o mesmo lugar que nós. E assim seguimos, rumo à tal cidade turística, onde nos esperava um hostel com quem havíamos feito parceria, o Real Vang Vieng Backpackers Hostel, novo, a estrear. Muito simples, com gente simpática, cheio de viajantes e com um pequeno almoço buffet!

Na cidade, realmente muuuuuiiiito turistica (com até grave dificuldade em encontrar locais!), perdemo-nos pela beleza do rio, pelas vistas de balões de ar pelas montanhas e pelo pequenino de cada rua ou imensidão de cada buda gigante. Percebemos que muitos dos que visitam a zona é para praticar desportos na água ou para visitar as cascatas mais próximas, coisa que não fizemos. E ainda assim, trouxemos boas recordações!

Duas noites depois, seguimos para Luang Prabang. A pouco mais de 150 quilómetros, pensámos ser coisa rápida. Embora as estradas sejam de brandar aos céus e a boleia não funcione com facilidade, estávamos confiantes. Contudo, malandreca, esta vida troca-nos as voltas.

Vimos o sol subir. Vimos o sol rodar.

Vimos crianças a sair da escola, na casa das centenas, cada uma com a sua bicicleta. E outras tantas voltar, para o turno da tarde.

Até que finalmente, já finda a hora de almoço, conseguimos uma boleia, direta. Era um jovem, vietnamita, com o seu novo carro e, a avaliar pelo nervosismo, de carta recém tirada. Simpático, percebemos mais tarde que fomos nós também luz no seu caminho, de todas as vezes que deixou o carro ir a baixo ou se sentiu amedrontado. A estrada, é verdade, em nada ajudou. Com uma inclinação de 12% em várias subidas, cheia de buracos ou falta de asfalto, levou a que demorássemos quase 6 horas de caminho. Intensas. Cheias de curvas e contra-curvas. Mas lá chegámos! E sempre, sempre, presentados com vistas lindíssimas, do topo do céu, por entre o verde indescritível que é o Laos.

Na primeira noite, em Luang Prabang, ficámos num Hotel, o Villa Maydou. Lindo, com casas típicas feitas de madeira, quartos magníficos, uma piscina amorosa e um espaço esplêndido. Com serviço de massagens, bicicletas gratuitas para passeios e muito mais. Contudo, com o senão da parceria ser apenas de uma noite.

Aproveitámos assim o dia seguinte para descobrir a cidade, pedalar por ruas estreitas e descobrir os seus encantos. E pelo meio, por entre a jinga de última hora caraterística a um bom português, lá arranjámos mais uma parceria para a segunda noite, mesmo em cima do joelho.

A dificuldade em encontrar couchsurfers em cidades pequenas e muito turísticas é grande e dramática. E a quantidade de mosquitos de noite para dormir na tenda, também. Assim sendo, demos graças a esta noite parceria e foi no LPQ Hostel que ficámos a última noite. Com um ambiente jovem e descontraído, acabámos por conhecer outros viajantes e também turistas!

Ainda assim, antes do sol se pôr e de ser hora de dormir, desfrutámos de um dos mais bonitos jantares de sempre, pela magia do local. Em parceria com o Belle Rive Terrace, jantámos à beira rio, sobre a vista magestosa das montanhas. Ali pudemos provar vários pratos vegetarianos e várias especialidades do país, com o acompanhar de um sumo de banana e um côco. Terminando com um manjar de arroz com manga e creme de côco. Que bom, só de pensar!

Felizes desta passagem por Luang Prabang, seguimos para Pakbeng, a pouco mais de 300 quilómetros de onde estávamos.

Esta, de madrugada, fez-se com a consciência prévia de que o dia seria longo e duro, e também difícil. Chegar ao destino parecia a missão impossível dos nossos dias, mas andar à boleia é um mistério tão grande, que nunca sabemos o verdadeiro desfecho.

É mágico!

Caminhámos mais de uma hora para sair da cidade, suados, transpirados e escorridos, com o peso das mochilas a latejar nos ombros. Mas não havia outra hipótese. Atravessámos a ponte que cobre o rio Mekong e lá ao fundo, foi de baixo de uma árvore, na sua sombra, que nos deixámos estar.

A força de eficiência com que pedíamos boleia ia-se desvanecendo com o passar do tempo. Mas ia também sendo fortalecida com as pessoas que, de mota, iam parando para tentar ajudar-nos. Tivemos até duas senhoras, empenhadíssimas em convencer-nos a aceitar uma boleia de mota para um lugar melhor: mas recusámos. Se andar de mota já tem o seu quê, com quatro mochilas tem muito mais.

Deixámo-nos então ficar até parar um senhor, com a sua bela carrinha. Deixou-nos seguir junto, na parte de trás e a céu aberto, por todos os quilómetros que fez, até nos deixar numa pequena aldeia, depois de 100 quilómetros e mais de 2 horas de caminho.

Ali esperámos, noutra sombra, até parar uma pick-up. Era um casal, com a sua filha. A senhora, dos seus 50 anos, era a única a falar inglês e muito bem nos recebeu! Iam na nossa direção por mais uns quilómetros e pelo meio até almoço nos ofereceram.

No destino, deixaram-nos, com o compromisso de que ali iriam ficar por uma hora. Se conseguíssemos uma nova boleia, muito bem. Se não, iriam novamente por mais alguns quilómetros na nossa direção e voltariam a dar-nos boleia.

Assim fizemos. Assim esperámos. E mais ninguém nos levou, até que eles novamente aparecessem. Então juntos, fizemos vários quilómetros, por horas infinitas, até ficarmos a 30 quilómetros do nosso destino e eles na pensão onde iriam ficar a dormir.

Era noite. Caiu depressa e quase sem que dessemos por isso, mas estávamos felizes. E entusiasmados! Estávamos a 30 quilómetros, quase quase a chegar. E não colocávamos sequer em nós a hipótese de ali morrer na praia.

Pedimos boleia. Muito. Com muita força. Veio a chuva. Vieram monges. Vieram depois locais. E a conversa era sempre a mesma, a de que aquela hora já ninguém iria fazer tantos quilómetros. E, pouco a pouco, fomos esmorecendo.

Veio mais tarde, o casal que nos havia trazido até ali, convidar a dormir na pensão. E, mais tarde ainda, trazer-nos o jantar. Amorosos!

Mas estávamos tão desolados e compenetrados, tão exigentes connosco próprios, que nem comemos, nem nos movemos. Dalı não saíamos, dali ninguém nos tirava. Queríamos uma boleia e recusavamo-nos a todo o custo a tudo.

Falámos decerto com metade da população da aldeia. Já todos sabíamos o que estávamos ali a fazer. Já os estudantes de inglês vinham ter connosco para falar e praticar. Já as velhotas vinham a porta, de pés descalços e olhar apreensivo no rosto.

Mas sempre sorridentes.

Estávamos no meio do nada, quase quase quase, literalmente quase no nosso destino. E lá, tínhamos um hotel e a sua gerência à nossa espera. E ali, tínhamos um coração tão apertadinho em nós.

E, achámos agora, foi no momento em que começámos a ponderar a hipótese de pernoitar com um jovem local que nos havia aberto as portas de sua casa, que apareceu a luz no fundo do tunel! Uns chineses, com quem acabámos a conversar por por tantas vezes por nós passarem a caminho das suas plantações de bananas, pegaram no seu carro e pararam ao nosso lado.

“Vamos!”, disse um deles, em inglês, acenando com a mão para que entrássemos no carro! Era já perto das 21h, nem queríamos acreditar. Agradecemos de coração e seguimos! Mas acreditamos que, se não fosse a parceria feita com o hotel teríamos, de bom agrado e muito felizes, ficado com a família local.

Acabámos então por chegar, já perto das 22h a Pakbeng; uma vila com poucos quilómetros, acompanhada pelo rio Mekong. Era escuro, não havia sinal de nada. Fraca luz, fornecida pelos candeeiros que vimos e pudemos contar pelos dedos das mãos. E umas pessoas, lá bem ao fundo, no passeio sentadas.

Estávamos tranquilos, tínhamos ficado a poucos metros do grande Sanctuary Pakbeng Lodge e caminhámos no seu sentido segundo as indicações do mapa offline…. até que nada. Nada de nada. Vazio. Silêncio. Casas.

Não tínhamos nenhuma indicação extra, nem contacto telefónico, nem morada. Nada.

Só a noite vazia, e nós dois, carregados. Cansados. Exaustos. Petrificados a olhar para o relógio e para a lua. Quase 23h e nós pela rua. Voltámos para trás e caminhámos então para aquelas pessoas que vimos sentadas ao fundo. E pelo meio encontrámos ainda um viajante. Não sabiam onde ficava o hotel que procurávamos, mas disseram-nos que a zona dos hotéis, guesthouses e hostéis ficava a 2 quilómetros, na continuação daquela rua. E sem opções, caminhámos. A custo. Estávamos tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe.

Encontrámos depois o mesmo jovem, que por entre uma conversa de dois dedos, acabou por realizar que havia passado pelo hotel que procurávamos e que nos levaria lá: e foi nesse momento que respirámos de alívio! Mesmo sendo longe. Mesmo havendo aí uma grande subida por subir.

Sabíamos o nosso rumo. E é tão bom quando assim o é! Mais, quando imaginámos já o banho que vamos tomar. O jantar que vamos ter. A cama que nos espera. Enroscados. Aninhados. ❤

Ainda que nenhum dos seguranças do hotel falasse inglês e que já ninguém nos esperasse naquele momento, conseguimos encontrar nas folhas espalhadas na mesa da receção o número do quarto para nós reservado e a chave do mesmo. E aí sim, os nossos olhos sorriram!

A noite passou rápido, tão rápido que nem demos por ela. Não acordámos nas mesmas posições, mas doía-nos ainda o corpo. As costas. As pernas. Valeu-nos o pequeno–almoço, à lá carte sem restrições, com panquecas e muita fruta, café fresco e uma vista indescritível.

E foi nesse momento que percebemos o quão felizes foram os nossos dias no Laos: rodeados por uma natureza incrível, incomparável. Verde. Infinita. E pura. Tal como as pessoas que se cruzaram no nosso caminho. Tão genuínas.

Mas chegou então o momento de partir, seguir para aquele que veio a ser um dos nossos países favoritos. A Tailândia.

Até à fronteira, tivemos que apanhar 3 boleias. E por todas elas esperámos mais que curtos períodos e caminhámos mais que longas distâncias, principalmente depois de deixarmos o hotel e mais tarde quando nos vimos a 4 quilómetros da fronteira. Na certeza de que a última boleia caiu do céu, num limite extremo de cansaço, enquanto recuperávamos numa pequena sombra.

Conseguimos então chegar a tempo, antes que o controlo de emigração encerrasse. Preenchemos os papéis e descansámos um pouco. Aproveitámos a água fresca potável à descrição e acalmámos a ânsia que trazíamos em nós. Estava tudo bem. Chegámos bem.

Somos tão fortes juntos!

E do lado de lá, dizia-nos o coração, iria correr tudo bem.
(E assim foi, para grande alegria nossa; mas isso fica para a próxima crónica!)

2016-12-08-20-27-462016-12-08-20-26-052016-12-08-20-25-202016-12-08-20-24-402016-12-08-20-22-522016-12-08-20-22-012016-12-08-20-20-572016-12-08-20-20-022016-12-08-21-27-562016-12-08-21-27-262016-12-08-21-26-512016-12-08-21-25-532016-12-08-21-25-132016-12-08-21-24-332016-12-08-21-23-542016-12-08-21-22-402016-12-08-21-21-372016-12-08-21-20-462016-12-08-21-19-492016-12-08-21-19-172016-12-08-21-18-302016-12-08-21-17-382016-12-08-20-27-462016-12-07-01-39-352016-12-07-01-38-552016-12-07-01-38-122016-12-07-01-37-212016-12-07-01-36-112016-12-07-01-33-232016-12-07-01-32-462016-12-07-01-32-082016-12-07-01-31-222016-12-07-01-30-552016-12-07-01-30-162016-12-07-01-28-342016-12-07-01-27-532016-12-07-01-26-522016-12-07-01-26-122016-12-07-01-25-24

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s