vietnam(itas)

Nem sempre as mudanças de fuso horário nos importam, mas esta era em nosso benefício. Com menos uma hora que na China, depois de cruzada a fronteira, tínhamos assim uma hora a mais para estar à boleia e para chegar a Hanói.

Foi a 6 de outubro – já! – passava pouco das 15h00, tinha corrido tudo bem até ali e estávamos entusiasmados por estar a pisar o nosso vigésimo primeiro país desta nossa volta ao mundo.
Contudo, mal pisado o lado vietnamita, o choque foi imediato.

Não sabemos se era a pobreza, as barracas, as galinhas ou o lixo. Se os descampados, terrenos vazios, sem prédios, ou cafés feitos em casinhas de madeira ou chapas de zinco, palhotas ou caixas.

Era tudo, com certeza.

Caminhámos enquanto o corpo nos permitiu o peso das mochilas, enquanto as costas não vergaram e a estrada não chegou. Os carros iam passando, poucos, pouco a pouco. Já as motas, essas eram muitas, confusas, sem regras ou direção. E só mais tarde percebemos que todos quanto passavam, eram táxis. Mesmo que de jipe.

Pelas ruas olhavam-nos as crianças. Curiosas. Pelas areias avermelhadas a jogar futebol, pelos caminhos que traziam ou as motas que montavam.

E a noite começava a dar luzes da sua graça, no lusco-fusco que se fazia sentir. Não só no céu, mas também em nós, amargurados pela incerteza do que se avizinhava, depois de tantas horas ali, na dificuldade da chegada a uma nova cultura, uma nova língua, um novo país.

Não sabíamos dizer nada, mas trazíamos um papelinho escrito em vietnamita, com os nossos maiores segredos: “nós vamos para Hanói, estamos à espera de um carro; é grátis?”; e assim esperámos, até parar um grande autocarro. Nele seguia um grupo de chineses, turistas, que depressa aceitaram dar-nos boleia e levar-nos por 170 quilómetros.

– e assim apanhámos a primeira de muitas e várias boleias de autocarro no Vietname.
Pouco depois, era então noite escura. Escura mesmo, e disso não estávamos à espera: 17:30h e nada de luz. Só uma estrada péssima, sem tracejado ou bermas, sem largura ou muito estreita e sem luzes. Com muito, muito trânsito (de motas) (e de camiões). E muitos condutores, tresloucados e destemidos.

Levámos mais de 3 horas para este, que em qualquer parte, seria um pequeno trajeto da nossa viagem. Estávamos exaustos! Pelo caminho, parámos ainda para que fossem jantar, mas por pouco tempo.

No autocarro, fizemos dois amigos chineses (já lhes sentíamos tanta falta – ainda nem sabíamos nós que tínhamos ficado tão apaixonados pela China, quando na verdade se tornou um país de eleição). Percebemos depois que iam para perto da casa da nossa amiga e, tendo o autocarro parado ainda longe, chamaram um táxi e convidaram-nos para irmos juntos, dando-nos boleia. Uma boleia de ouro, numa cidade frenética.

A nossa amiga, coreana, a viver com o seu namorado francês, deslumbrou-nos com a sua casa linda, numa zona muito calma da cidade, perto de um lago mais a norte. Uma zona onde vivem mais estrangeiros, mas à qual demos graças pela tranquilidade que nos acedeu.

Descobrimos Hanói com muito barulho, muita poluição ambiental e sonora, muitas motas, muita confusão, muitas buzinas, muitos cheiros, muita gente, muitos turistas, muitos locais desejosos de negócio, muito lixo, muitos ratos!, muitas baratas, muitas luzes, muitos mercados. Uma cidade louca, onde reina a confusão.

Passámos quatro noites, um aniversário muito especial e cinco dias de ambientação. Visitámos os locais habituais e demos primazia à nossa sanidade mental com algum resguardo e descanso por casa. Reencontrámos uma amiga de Hong Kong que fizemos em Almaty (no Cazaquistão) e com ela partilhámos a nossa tensão associada ao preço das coisas, extremamente inflacionado a pensar no famoso turista. Sofremos pela falta de domínio linguístico e foi duro, muito duro, na primeira vez que fomos ao mercado. Os legumes, vegetais e frutas ao preço (ou mais caro) que em Portugal, fazia-nos depressa perceber que estávamos longe da realidade vivida pelos locais – aquela que tanto ambicionamos. Pior, estávamos habituados a comprar dos cestos de frutas maduras na China, a por vezes 3 vezes menos que o preço a que conseguimos em Hanói comprar, depois de muita luta. Aliás, nem só Hanói foi assim: por todo o norte e centro do país ir às compras foi uma verdadeira lástima e tortura, levou sempre horas e muita paciência. Dificilmente comprámos alguma coisa à primeira, com a agravante de que fomos descobrindo o mínimo a que íamos conseguindo comprar. O grande mal foi a expectativa que trazíamos, porque não há quem visite o Vietname que não diga que lá é que é bom e barato!

Deixámo-nos contudo apaixonar pelas senhoras já velhinhas e cobertas de rugas, sem dentes por vezes e feitas de força, de corpo jovem, nas suas bicicletas a vender as suas frutas equilibradas num cesto de verga. Ou por todas aquelas que carregam as suas frutas em pratos de verga equilibrados nos ombros como se de uma balança se tratasse. Só é pena o facto de nos olharem como se fossemos caixinhas ATM ambulantes: mas faz parte de uma rota turística.

Achámos graça também à forma como vivem o dia-a-dia. Tapam-se do sol com roupas pelo corpo todo, faça sol ou faça chuva, por entre o calor sempre existente e sufocante. Usam casacos com mangas compridas e que tapam as mãos, para quando andam de mota. Têm sempre uma capa para a chuva escondida (não fazemos ideia onde): e é quando começa a chover que o fenómeno tem início! Encostam-se as motas nas bermas em massa, param o que estão a fazer e vestem os seus plásticos. Usam todos capacete (pelo menos na grande maioria e nas zonas provavelmente controladas pela polícia).

E quanto à história das suas histórias, têm muito orgulho da fruta que produzem e vendem, e sempre que perguntámos quanto custa, a primeira informação era de que é fruta do Vietname. Mas os mercados locais, na sua generalidade, são uma verdadeira alucinação: pela falta de limpeza, pela falta de cuidado, higiene ou organização. Do chão se fazem bancas, das bancas se faz o chão. Há ratos por todo o lado, e ratazanas também! Moscas não faltam, e é de brandar aos céus! Em nós, tem encanto, mas seriam com certeza os nossos pais incapazes de comprar aquela carne e peixe “frescos” que por lá se corta e se vende!

Também ainda em Hanói investimos muito na procura de couchsurfing para as próximas cidades, mas com pouco êxito. Não tanta oferta e muita oferta de perfis que na verdade seriam hostéis. Começámos então a tentar a investir numa nova possibilidade: trocar trabalho por estadia em hotéis, pousadas ou alojamentos do género, investindo também parte do nosso tempo nessa pesquisa e contactos.

Seguiu-se depois Vinh, uma cidade mais a sul. Do nosso trajeto à boleia, foram dois os autocarros que nos levaram e nós, estupefactos. Nomeadamente no primeiro, quando nos apercebemos que ao invés de bancos, tinha camas. E que à entrada, se descalçam os sapatos. Na ausência de carros, foram uma verdadeira tábua de salvação e estávamos felizes pela generosidade.

À chegada, a chuva ameaçava e o calor era muito. A noite estava a cair e caminhámos até ao hospital onde a nossa couchsurfer trabalhava como enfermeira. Por entre um encontro rápido e fugaz, informou-nos que afinal estaria de turno durante a noite e pediu-nos que seguíssemos um colega que teria a chave de sua casa e que lá nos levaria. Deveríamos a seu pedido deixar tudo arrumado e limpo, conforme iríamos encontrar.

Agradecemos tamanha hospitalidade e descontração, até porque não é qualquer pessoa que hospeda mesmo sem estar em casa! (E a descrição que se segue é isso mesmo, descritiva, não querendo nós que seja confundida com uma reclamação). Vivia numa casa que era um quarto, onde tinha sem divisória uma bancada para cozinhar e uma latrina. Sem água quente ou chuveiro. Sem vidro na janela. Muitos bicharocos e algumas baratas. Uma chapa de zinco e paredes muito sujas. Uma cama de estrado. Sem colchão. Um ferve dor de água emprestado e uma ventoinha. E confessamos que embora a pobreza ou a falta de condições não nos faça confusão, a falta de higiene ou limpeza, essa sim, faz. Mas por entre a nossa estadia, a nossa única preocupação era com os mosquitos. É que embora as pessoas tenham consciência da existência de doenças como a malária dengue ou encefalite japonesa, não parecem preocupar-se assim tanto com isso. Mas nós, desenrascados, lá conseguimos por a rede mosquiteira meio improvisada num prego de parede, tomámos banho de caneco, e decidimos não ficar a segunda noite: seria embaraçoso montar este arraial com a nossa couchsurfer presente!

Partimos depois para Dong Hoi, e uma vez mais, desta sem estranheza, foram dois autocarros a dar-nos boleia.

À chegada, chovia. Chovia muito, copiosamente e sem parar. Pingos grossos repetidos, com uma for a imensa e um vento descontrolado.

Em Dong Hoi, tínhamos a nossa primeira parceria com um hotel: Geminai Hotel & Cafe. Fomos bem recebidos e tivemos uma estadia que nos permitiu recuperar. Este, era um mundo novo para nós, com menos interação e mais tempo para nós próprios, nós dois e os nossos pensamentos. E foi uma primeira experiência agradável, que nos permite viver num outro prisma esta aventura, onde o contacto com a população é outro, mas a riqueza é também intensa.

Pena foi a chuva, constante e arrepiante, ininterrupta e forte. Foram dias de verdadeira tempestade, sendo que quando nos armámos em fortes pelo pequeno passeio pela cidade, o desfecho foi o esperado: parecia que tínhamos ido a banhos!

E nem no dia de partir foi diferente. Por mais que esperássemos por uma aberta e uma pausa da chuva, nunca conseguíamos ficar à boleia mais de um minuto.

Na estrada principal, abrigámo-nos numa varanda. E lá passámos o dia, nesta ânsia de conseguir pedir boleia. Até que já a meio da tarde, à chuva misturou-se o vento e a trovoada. Era chuva batida a uma força inexplicável, nós exaustos do peso das mochilas e de corpos e roupas já molhados. Um desespero, em forma de cansaço. E por entre a sombra de cada varanda, entrámos numa loja de produtos de bebé, onde nos permitiram que nos abrigássemos.

Se o dia parecia não ter fim, a chuva também não.

No nosso destino tínhamos mais um hotel à nossa espera, com quem tínhamos feito mais uma parceria: Thien Duong Hotel, e não queríamos nem por nada não chegar ou chegar fora de horas. Mas tudo isto parecia inalcançável.

Na loja, perante a força da chuva e todo o tempo que ali estivemos, coube às meninas do atendimento sugerir que apanhássemos um autocarro até Hue. E embora o valor fosse simbólico, não estávamos felizes.

Entrámos-lhe a custo, por entre entre a frustração de quem quer andar à boleia e se vê empurrado para um autocarro. E por mais que um se sentisse devastado e outro até aliviado, nenhum de nós dois estava satisfeito.

Sem saber como se processava ou como agir, deixámos as mochilas lá à frente e sentámo-nos lá atrás, no silêncio dos nossos corações, no barulho da tempestade, no ruído das nossas mentes. E no desmembrar de um sonho – o de chegar lá longe à boleia – deixámos que as lágrimas tomassem conta do momento.

Era ambíguo: o sentimento, a crença, o valor, o momento, a decisão. Era tudo ambíguo. Até nós, que queríamos e precisávamos tanto de lá chegar; e o que sentíamos a fervilhar em nós. E mesmo abrigados então da chuva, sentimo-nos nesse preciso momento debaixo da maior tempestade.

E foi no momento em que deixámos de ver as nossas mochilas lá à frente, e no momento em que percebemos que estariam lá atrás na bagageira inundada fruto de uma van tipicamente mal acondicionada, que a força deu lugar à inércia : e deixem passar! Eram sacos, malas e tralhas por entre os bancos, mas por detrás de uma mulher enfurecida, há um marido curioso que, escondido, lá cruza os dedos.

A carrinha, van, espécie de autocarro, parou. Numa bomba de gasolina já mais à frente, mas parou. E embora tenham olhos nos olhos prometido que as mochilas estariam secas, foi ao abrir o compartimento traseiro que as vimos a boiar – literalmente.

Já não era só angústia pela fraqueza que tínhamos tido em apanhar um autocarro. Era raiva. Era dor, era indignação. Tínhamos passado 6 horas com 40 quilos às costas, só para não pousar autocarros mochilas em chão húmido. Tínhamos feito das tripas, coração, para nos aguentarmos: pela nossa roupa, pelos equipamentos, pelos livros e escrituras. Por tudo. Porque lavar uma mochila é difícil e vale mais evitar sequer que fique a cheirar mal. Mas naqueles 5 minutos, vimos tudo andar para trás.

Num segundo tirámos as mochilas daquela água acastanhada onde boiavam. Num segundo, jurámos não voltar a entrar no autocarro. E no segundo seguinte, vimo-nos novamente no meio do nada mas decerto no centro de uma chuva batida, abrigados pela zona de abastecimento de combustível.

Falta pouco para o sol se pôr. Não havia tempo para pensar, só tempo para agir. Os ténis deram lugar aos chinelos. A capa da chuva deu lugar à vestimenta principal. Era o nosso corpo, a chuva quente, uma mica para cobrir a placa, as mochilas lá longe abrigadas, e nós à boleia.

Não sabemos já se nos molhava mais a chuva ou as ondas provocadas pelos carros ou autocarros que passavam. E na rua em frente, perpendicular à “autoestrada” em que nos encontrávamos, víamos um por um, os moradores passar. Descalços. Despidos. Como calhava. Mas na maioria, já com barco. E aí sim, percebemos que a altura da água chegava já aos joelhos. São a alturas monções, o final das monções, diziam os entendidos.

Olhávamo-nos nos olhos. Cansados. Mas crentes de que nenhum dos dois teria força para carregar o peso de um sonho por cumprir.

E certos de que tínhamos tomado a melhor decisão, na crença de que não poderíamos desistir ou vacilar à primeira dificuldade.

A chuva não parou. Nunca. Não abrandou. Nunca. E o tempo não parou, percebemos nós, quando começámos a perceber que os carros traziam já as luzes ligadas. Mas a esperança estava lá escondia, em nós. Mesmo sem que conseguíssemos já acreditar nela. E quando menos esperávamos, voltou para trás um autocarro, dos pequeninos, cheio de turistas. Recusámos, dificilmente acreditaríamos que nos quisessem dar boleia. Mas o condutor, vietnamita, não hesitou. E mesmo sem que nenhum dos passageiros nos tivesse sorrido, ou sequer cumprimentado, estávamos felizes. Tão felizes. Tão descansados! Não interessava quanto tempo ia levar, quanto mais ia chover. Estávamos a caminho! Íamos lá chegar.

Em Hue ficámos duas noites: uma cidade mais bonita, encantadora e mais turística junto ao rio; onde conhecemos uma doce couchsurfer, que embora não nos tenha podido hospedar, nos convidou para um café e para jantar. E a nós se juntaram mais dois viajantes, dos Estados Unidos, com quem dividimos as compras para o jantar pelos mercados locais. Esses, embora recheados de frutas tropicais e apetitosas, ainda muito sujos e novamente cheios de ratos – que a pouco e pouco deixam de nos intimidar.

Partimos depois para Danang, onde encontrámos o nosso primeiro couchsurfer e com quem ficámos por uma noite. Lá chegámos à boleia de mais um autocarro, local e nada turístico. Na cidade, perdemo-nos pela praia infinita e maravilhosa, deslumbrante no seu areal branco e mar aquecido, ornamentada por coqueiros e estrelas no céu!
Palmilhámos também a ponte do dragão, de onde vimos sair fogo e água, num espetáculo pouco amigo do ambiente, ainda que admirado por todos aqueles que por ali vivem.

Encontrámos também um restaurante vegetariano, onde jantámos por 80 cêntimos e descansámos já mais tarde, na casa que era também uma pizaria “home made”, daquele que nos estava a hospedar.

Na manhã seguinte, rejuvenescidos com a experiência de ficar com um local – finalmente!, seguimos para Hoi Na, a apenas 30 quilómetros, com a primeira boleia de um carro (que era afinal um táxi). Amoroso, levou-nos primeiro a beber um chá e água e só depois nos levou. À chegada, deixou-nos à porta daquele que foi um dos melhores hotéis em que alguma vez havíamos estado, o Pham Gia Boutique Hotel (com quem fizemos também parceria). Uma casa longe de casa, com pequenos almoços de perder a cabeça e de ganhar barriga!

Por lá, visitámos a cidade antiga, por entre ruas estreitas e marginais largas, com luzes e vistas de encantar. Mercados de apaixonar, zonas ilustres e muitos turistas. Um verdadeiro “must see”, onde enfrentámos uma louca questão: a de nos quererem fazer pagar para andar na rua!

Visitámos também a praia, no dia seguinte. Reencontrámos aquela amiga de Hong Kong novamente, na presença de um mar muito revolto, chapéus de canas e palhas secas, e areia mais para o escura. Para lá chegar, conseguimos boleia. E para de lá voltar, também! Com dois carros diferentes, os primeiros particulares desta aventura pelo Vietname.

Já à noite, e fruto de mais uma das nossas parcerias, tivemos a oportunidade de ir jantar ao Karma Waters, um restaurante vegano, com caráter de caridade social. Tivemos assim o prazer e a sorte de provar comida local e vegetariana, por entre a simpatia de uma cozinha local, com sabores indescritíveis e pormenorizados.

Felizes e reestabelecidos, em paz e com muita energia, o dia seguinte foi dia de partida para uma longa jornada. Com boleia de um jipe, depois de uma longa caminhada, chegámos à autoestrada, já afastada de Hoi An. Lá, esticámos a nossa placa, Nha Trang, e tínhamos pela frente 500 quilómetros, mais de 10 horas por certo por entre estradas dolorosas e um infinito de motas. Mas os deuses das boleias não se esqueceram de nós, e mais rápido do que pudemos sequer imaginar, estávamos sentados num jipe e com uma boleia direta.

Foram 11 horas, com almoço antes do meio dia e jantar pelas 18:00h, duras por entre a posição que o nosso corpo já não tolerava, mas tranquilas por nos sabermos a chegar a cada quilometro que passava.

A chegada a Nha Trang foi a sensação de chegada ao Algarve, com o extra de coqueiros e calor nunca sentido. Uma praia paradisíaca, uma avenida de bares, discotecas e restaurantes animados. E nós, com parceria no Beachfront Hotel, com vista para tudo isto e muito mais, num vigésimo oitavo andar, o mais alto da cidade.

Mesmo na linha da praia. Era com certeza um cidade muito mais paradisíaca. E linda. Mesmo cheia de gente como nós e muitos russos, era linda!

No mercado local conseguimos não ser enganados e fizemos as nossas compras, pela primeira vez, com alguma tranquilidade. Os preços mesmo que incrementados pareceram-nos justos e trouxemos connosco vários frutos tropicais – que tanto gostamos. Demos primazia a uma estadia calma e apaixonante, e de lá guardamos boas recordações.

Mas dois dias depois, na hora da partida, andámos que nos fartámos, e sempre debaixo de sol! Sair de uma cidade sem apanhar autocarros urbanos é um verdadeiro delírio, e ali não foi exceção. E foi só quando já não aguentávamos mais e avistámos uma sombra, que nos rendemos. Pedimos boleia ainda por algum tempo, mas eram só as motas, com gentes sempre de máscara no rosto como manda a tradição, que paravam para nos dizer que ali não íamos conseguir chegar a Ho Chi Minh. Nós sabíamos cá dentro que íamos, só não sabíamos como, nem quando. Até aparecer um taxista, que no auge da sua bondade nos deu boleia até aquela que é por aqui a autoestrada. Pelo caminho, mantivemos conversa animada sempre pelo seu tradutor; e na despedida, um abraço caloroso quase que não chegou. Logo a seguir, ali mesmo, onde nos havia deixado, parou um camião. Mas recusámos. 400 quilómetros iam ser pelo menos 8 horas de carro. Mais devagar, não conseguíamos sequer imaginar. Mas parou logo depois uma carrinha de 9 lugares, com uma família que ali tinha vindo de férias e agora a voltar para Ho Chi Minh (ou como se diria em tempos passados, Saigon).

Abençoados!

À chegada, a chuva não nos deu tréguas, mas também não nos ensopou. Em Ho Chi Minh, ficámos com um casal a quem agora chamamos de amigos. Que ficaram e ficarão guardados no coração. Com quem partilhámos 5 dias, histórias, cozinhados, emoções, vivências, passeios, jantares, pequenos e almoços, séries, aventuras e uma casa. Uma casa onde nos sentimos em casa – na sua verdadeira essência. Não adianta alongarmo-nos, porque eles sabem, só nós sabemos, o que significou. E foi bom, tão bom, que nos custou (como há já muito não acontecia assim) seguir.

Os mergulhos na piscina, a vista ao amanhecer, o som do vento nas palmeiras, a chuva na varanda. Uma cidade também ela frenética, o cheiro da gasolina e a poeira no ar. As descobertas na cozinha, as partilhas de sites, as inundações e a troca de histórias e um jantar especial!

Trazemos tudo connosco! Gratos até mais não, e felizes – muito felizes! – por a vida nos ter proporcionado algo assim.

E partimos, a custo, para o Cambodja. Com muito de bom, decerto, por acontecer também… mas sentidos por este adeus. Apanhámos assim um autocarro urbano para sair da cidade e chegar à estrada onde poderíamos começar a pedir boleia. Lá, com o trânsito na ordem do costume, caminhámos. Caminhámos debaixo de sol quente e suor escorrido, sempre com a nossa placa erguida. Dizia “Xinxe Ma Coc”, i.e., o pedido de um carro para ir até à fronteira.

E pouco depois, por entre todas as motas e carros e camiões e autocarros, encostou um jipe! Não houve tempo para perguntas, subimos e seguimos. Não iam para longe, mas foi uma grande ajuda para deixar a confusão para trás! E no novo sítio em que nos deixaram, levou pouco tempo até parar uma espécie de autocarro pequenino, mas carrinha ou van, que nos deixou precisamente na fronteira!

Lá, estávamos nervosos.

Os sentimentos que trazíamos já lá iam, reinavam as borboletas na barriga em forma de emoções. Demos a mão, e seguimos: juntos! Ia correr tudo bem.

Foi caótico descobrir o sentido e ordem da zona fronteiriça, mas lá nos encaminhámos na fila certa, e sem que fossem corruptos connosco, lá nos carimbaram o passaporte. E seguimos! Estávamos na terra de ninguém, e restava-nos agora caminhar até à fronteira do Cambodja e rezar. Apregoar para que não nos tentassem roubar ou extorquir, como a tão boa gente por vezes acontece.

E assim concluímos a nossa passagem pelo Vietname – alcançando um total 274 boleias!, onde demos início à nossa rota do Sudeste Asiático. Teve o seu lado doce, decerto, mas ficou aquém das expetativas que trazíamos – confessamos. Veremos como nos alcançará o coração os países que se seguem, na certeza de que mesmo as experiências menos entusiasmantes fazem da nossa história o que de mais bonito podia ser: um história de amor. Companheirismo e perseverança.

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7 thoughts on “vietnam(itas)

  1. Adoro as vossas histórias e admiro tanto esse espírito de aventura, cumplicidade e companheirismo que é também a vossa história de amor. Parabéns! Obrigada por partilharem. Bem hajam!

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  2. Admiro o que estão a fazer. No entanto, ao ver as fotos do mercado, por exemplo aquela em que se vê marisco de concha de vários tipos, sinto que os dois, por se manterem veganos, passam ao lado do que seria a experiência total de “viver como um local”.

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