Hk & Macau (& restinhos de China)

Se sonhávamos que seria assim? Não.

Cheirava bem! As ruas eram limpas. O sol jazia no céu azul sem nuvens brancas. Os bancos de jardim cuidados. Os canteiros arranjados.

Muitos carros. Muitas pessoas. Estradas estreitas. Becos recônditos.

Mercados antigos escondidos.

Prédios altos. Muitas luzes. Grandes lojas. Grandes marcas. Gentes de dinheiro!

Casas pequenas. Apartamentos minúsculos. Vida cara.

Mas cheirava bem! A lavado, limpo. A cuidado.

Assim encontrámos Hong Kong! Longe dos nossos pensamentos, por certo afastado dos nossos sonhos: nós que nem fazíamos questão de visitar!

Dos cinco dias que lá passámos, a grande responsabilidade era a de tratar dos vistos: o que nos permitiria voltar à China, e visitar o próximo país, o Vietname. Mas o reboliço foi tamanho!

À chegada, saídos do metro, caminhámos ainda carregados até à embaixada da China. Na impossibilidade de subirmos com comida ou líquidos, dividimo-nos e conseguimos na mesma obter a informação de que tanto precisávamos: quais os documentos exigidos para a obtenção de novo visto. Um infinito de papelada, verdadeiramente de bradar aos céus! Copia de passaporte, formulário, reserva de hotéis, reserva de transporte.

Saímos de lá então ao encontro do nosso couchsurfer, um rapaz do Bangladesh, que sem qualquer problema e muito amavelmente se propôs a encontrar-se perto do centro para nos dar a chave de sua casa. Assim fizemos, e de no nosso encontro saímos com um pedaço de papel com um mapa desenhado e indicações para lá chegarmos. E chegámos!

Completamente estafados, suados e sedentos. E antes mesmo de começarmos a tratar da papelada, sentimo-nos bem melhor depois de um duche refrescante!

Os papéis, com a ajuda do booking e da TAP – face às suas facilidades de cancelamento, e de um amigo à distância, ficaram prontos num instante. As cópias estavam também feitas. Seguimos de volta para a Embaixada da China. E quando acabámos de preencher os formulários e obtivemos a nossa senha (indicando que tínhamos mais de 200 pessoas à nossa frente), voltámos a dividir-nos para apressar trabalho. 🙂

Ficou então um a aguardar e outro seguiu para a Embaixada do Vietname, novamente para saber da papelada, tempo de espera e preços. E correu bem! Deu tempo para ir, voltar e continuarmos juntos à espera da nossa vez. Aí, por entre a notável melodia da língua portuguesa, reconhecemos a presença de um casal português; sem que conseguíssemos ficar indiferentes, e como já tão bem sabemos fazer, metemos conversa.

Fluiu, e fluiu. Fluiu entre sorrisos e aquilo que veio a ser uma amizade!

No dia seguinte, numa manhã chuvosa, seguiu-se o visto do Vietname. Ficou pedido, mas a muito custo: queriam o passaporte (que havia ficado na Embaixada da China). Por entre propostas mirabolantes, como a de pagarmos quase duas vezes mais ou a de nos ser dado uma folha em forma de visto que poderia não nos permitir entrar por terra; lá chegámos ao consenso de deixar o visto pedido, com o compromisso de lhes entregarmos o passaporte passados 3 dias, quando o fossemos buscar à Embaixada da China, e de lá voltarmos para o levantar no dia seguinte. E confusões à parte, lá seguimos satisfeitos, com paz na alma e sossego na mente. Estava feito. Agora era cruzar os dedos e esperar!

Demos então uma pequena volta pelo centro de Hong Kong e, já de mochilas novamente às costas, seguimos de barco para a Ilha de Lamma. Lá, chegámos já de noite, mas ainda cedo. Por entre o balanço do ondular do mar, a disposição não era a melhor; mas o desejo de conhecer a casa tropical perto da praia, tratava qualquer mal!

– É como o amor.

Na ilha ficámos com um couchsurfer alemão, e por voltar tarde, sabíamos por cortesia sua onde estava a chave escondida; bastava procurar pela casa número 6.

Pena foi que não correu como previsto. Palmilhámos parte da ilha sem que o desejássemos. Carregados. À chuva. Por entre vegetação e com os mais diversos animais (também eles tropicais – demais!).

A cada pessoa que se cruzava no nosso caminho, perguntávamos pelas direções. Mas sem pudor, diziam aldrabadamente que nos dirigíssemos para a esquerda, direita, cima ou baixo; e seguiam. Só já exaustos percebemos que também elas não faziam ideia de onde ficava a casa que procurávamos!

Inclusive, já desgastados, encontrámos um casal que nos disse que ali, ali mesmo onde estávamos, era a casa deles, número 5. Mas que lá não era o bairro que procurávamos. Que lá não havia nenhuma casa número 6, nem mesmo a casa ao lado. E ainda nos cruzámos mais uma outra vez, mas foram sempre tão assertivos que nunca duvidámos.

Já cansados e ainda pouco intimidados com os avisos sobre as cobras (já que só depois de vermos a primeira nos convencemos), descarregámos as mochilas num ponto certo da vila e, pouco depois, apareceu o nosso couchsurfer, que de imediato nos reconheceu!

Suados que nem pintinhos molhados, seguimos juntos até casa: aquela que ficava exatamente ao lado da número 5. E até hoje não percebemos o porquê daquele casal nos ter enganado: ou não fossem eles saber o bairro em que vivem.

Mas como acaba sempre tudo em bem, terminámos a noite numa casa gira, com um jantar muito diferente e muito bom (com direito a creme de beterraba – imaginam as saudades que trazemos destes petiscos?), um banho e um quarto com uma caminha grande e lavada, refrescada com o ar condicionado. E, claro, com direito a bons sonhos só de pensar na praia do dia seguinte!

Assim foi, marcámos a nossa estadia na ilha pelos passeios, trilhas e mergulhos no mar! Coleccionámos conchinhas partidas e búzios incompletos, vimos aranhas maiores que as nossas mãos e turistas que nunca mais acabavam. E também uma cobra ainda a porta de casa!

Mas foi de lá que saímos de coração a transbordar.

De volta a Hong Kong, a primeira preocupação foi a de levantar o visto da China para entregar o passaporte na Embaixada do Vietname. Conforme combinado, lá ficaria até ao à manhã seguinte de forma a estamparem o visto – e por ser mais uma noite, decidimos ficar com os nossos mais recentes amigos portugueses, aproveitando assim para visitar e confraternizar o que nos faltava!

Mas na Embaixada da China quase nos trocaram as voltas. A tentativa foi a de não nos dar o visto; e por isso se seguiu uma entrevista/inquérito. Porque viajamos à tanto tempo, porque visitámos tantos países, porque temos tantos vistos? E, principalmente, porque temos um carimbo vermelho da Turquia?

A questão do terrorismo vive-se mesmo quando ausente. Mas a explicação era simples: era somente o carimbo de saída do país – tanto que em turco diz “çıkış”.

Foi então preciso algum esforço. Muita conversa. Muito paleio. Cair na graça. E lá veio o visto no passaporte!

De corrida, na Embaixada do Vietname os funcionários eram já outros. E com a comunicação fraca, ao invés de complicar, facilitaram: e o visto ficou pronto na hora!

Tínhamos então a hipótese de seguir na hora para Macau, mas acabámos por optar pelo programa já definido: passear, jantar e dormir com o Tiago e a Liliana. E assim fizemos: e ainda bem! Agora guardamos com carinho esses momentos, todas as partilhas e sorrisos!

Mas foi quando o sol raiou que os nossos corações bateram forte. Era hora de apanhar o barco e chegar a Macau! Sim, Macau!

No porto, conseguimos um bilhete a bom preço para a Taipa, a ilha adjacente e, depois de partilharmos algum tempo com uma amiga de Hong Kong que fizemos na Ásia Central, embarcámos. O nervoso miudinho era maior que nós dois. Era ansiedade! Então lá seguimos, de mãos dadas, por entre o balançar do ferry ainda parado.

Lá dentro, sentámo-nos nos lugares marcados, com uma televisão à frente: e foi nela que passou o vídeo de emergência, logo para começar, com legendas em português! Já estávamos em casa!

Os sorrisos começaram a rasgar-se de orelha a orelha. E mesmo depois de atracarmos, era português por todo o lado. Indicações, ruas, anúncios, placares, panfletos. Que delírio!

Em Macau temos família: um primo macaense (por definição, filho de um(a) chinês(a) e um(a) português(a)), e foi ele que nos acolheu à chegada e durante a nossa estadia.

Em Macau palmilhámos rua acima, rua abaixo. Deslumbrámo-nos com cada azuleijo, cada pedra de calçada; igreja ou farol: estávamos em casa. E essa era a melhor sensação de todas.

Mas Macau é caro – tão ou mais que Hong Kong. E longe das zonas tradicionais, vivem agora os casinos, luxuosos, imensos (e lindos!), com salas de jogo 24 horas por dia e centros comerciais de grandes marcas incorporados, com ShutleBus gratuitos entre Macau e a Taipa. Por lá também nos deixámos perder, pela imensidão e novidade.

Mas Macau é mais que isso. É uma fusão de culturas que se sente em cada beco. Em cada rua ou ruela. Macau é uma franca mistura entre Portugal e a China: porque a arquitetura é portuguesa, os largos e os passeios também o são! Mas o hábitos, esses não nos pertencem mais. Não há loja sem tradução do chinês para o português no seu letreiro, por norma dizendo “estabelecimento de comidas”; mas dentro é a China que vive, por entre os cheiros ou a desorganização.

Mas é mesmo deste contraste que vive Macau. Desta história dupla e cruzada.

Também nós sempre ouvimos dizer que Macau havia sido um presente. Já os chineses contestam a história.

Há muitos anos, Macau estava a ser invadido por piratas. Os portugueses, que haviam lá chegado, ajudaram o povo chinês a lutar e a proteger-se, e por isso
Macau lhes foi entregue por 500 anos como agradecimento.

Ouvida do lado de cá: os piratas eram portugueses. 🙂

A falar português já são poucos os locais, mas com a grande comunidade portuguesa, não foi difícil encontrar quem o falasse. Mas o mais surpreendente foi termos tido a sorte de assistir a um espetáculo do Grupo Folclórico! E foi ao som do “malhão malhão” que nos deixámos levar!

Abraçados. Em paz!

Também abraçados fomos pela televisão de Macau, com quem estivemos para uma entrevista muito simpática, realizada no Templo de A’ma.

Infelizmente, foi também em Macau que vivemos a primeira alergia dermatológica por picadas de insectos: eram tantas e tão incomodativas, as pintinhas, bolhas e borbulhas, que acabámos no médico: mas um médio especial, o Doutor Rui Furtado, colega e também amigo da querida avó “Oliveirinha” – como carinhosamente lhe chamava no bloco. Conseguiu dar-nos a sua opinião e marcar para posteriormente uma consulta de dermatologia, quem em tudo nos valeu, não só pelo atendimento como pelo tratamento. Com o Doutor Rui e a sua esposa, recordámos bons momentos e novos criámos, para um dia partilhar.

Hoje já passou.

Mas a todos os níveis Macau nos fez sentir em casa.

Até ao último minuto, quando vivemos um encontro muito desejado e especial. Por todas as suas competências pessoais, pela sua personalidade terra a terra, pela generosidade e simplicidade, simpatia e bondade. Por nos ter feito ser diferentes, por nos ter feito pensar. Por nos ter feito sorrir, ponderar crenças e valores e estudar. Por isto e mais ainda. Uma Professora, Celeste, que nos marcou em tempos universitários e que por circunstâncias da vida nos cruzou uma vez mais o caminho. E foi tão confortante receber um abraço sincero, apoio sentido e ter o prazer de partilhar um momento numa fase destas. Mais, com duas colegas maravilhosas, já “locais”, com quem dividimos o nosso tempo. Somos muito gratos!

Chegou então a hora de partir. Regressar à China e retomar o caminho, a rota rumo ao Vietname!

Atravessámos a fronteira a pé, aquela que muitos macaenses atravessam diariamente para comprar comida mais barata, nomeadamente vegetais e frutas – percebemos nós logo à chegada aquando a nossa busca incessante por coisas a preços acessíveis.

E foi perto da fronteira, numa estrada principal que nos pusemos à boleia. Mas depois de 10 dias parados, já nem o corpo estava habituado!

Tivemos uma tarde penosa, muitos carros e poucas boleias. Mas tivemos também a sorte de encontrar quem nos tenha querido ajudar, mesmo sem nos poder levar: foi o caso de um jovem, que de mota andava a distribuir pizzas. A nós, ofereceu-nos uma grande água (um bem tão precioso!) e uma pizza de fruta. Um amor!

Foi já ao final do dia que dali um senhor nos levou. Eram pouco mais de 100 quilómetros, mas chegámos depois do anoitecer. E não descansou enquanto na nos deixou com o nosso novo couchsurfer, tendo para isso que andar, verdadeiramente, às voltas na cidade.

À nossa espera estava também um casal de australianos, a viajar há já 3 anos. Rumavam agora a casa, sendo Guangzhou uma das suas últimas paragens.

Em casa, o ambiente era simpático mas não podemos dizer que nos tenhamos sentido conectados. Às vezes é mesmo assim, e sabemo-nos agradecidos pelo teto que temos. Pelo banho que podemos tomar. E, claro, por estarmos juntos.

Nenhum dos três criava grande empatia, mas principalmente o nosso couchsurfer. Reservado, foi pouca a comunicação que tivemos. Talvez sejamos nós com sede de conhecer as pessoas. Talvez sejamos nós e as nossas expectativas. Talvez. Certo é que nos recebeu e acolheu! E ajudou! Com ele, ficámos duas noites, sendo que na segunda encontrámos um amigo ligado ao futebol e a projetos profissionais passados, que nos havia trazido algumas coisas de Portugal e com quem tivemos o prazer de jantar!

E ao terceiro dia, véspera de feriado na China a 1 de outubro, saímos cedo para nos pormos à boleia para Guilin.

Chovia aquela chuva molha-parvos, que não impede mas incomoda. Mas estávamos decididos. O destino era muito turístico, mas igualmente muito bonito. E todo o esforço, tarde ou cedo, é recompensado.

Apanhámos um autocarro para sair da cidade, que não sabemos ainda hoje porquê, não nos levou ao destino esperado. Ficámos então a meio caminho daquilo que seria o sítio ideal.

Caminhámos então. E a chuva intensificou-se. Molhava a sério. Eram pingos grossos é daqueles que se fazem sentir no corpo. Mas estávamos tão absorvidos pela ânsia de partir, que nem isso nos fez mudar de ideias.

Abrigámo-nos então de início numa ponte e lá pedimos boleia. Sem sucesso, ao final de algumas horas e já com chuva miudinha novamente, caminhámos. Já não sabemos quanto, mas foram alguns quilómetros.

As mochilas pesavam, mas dávamo-nos gratos por não chover.

E uma vez mais, por estarmos juntos. E apaixonados!

Chegámos então às portagens da autoestrada, e o trânsito apresentava-se caótico. Na China, nesta semana festiva, com a duração de 7 dias posteriores ao tal feriado, não só tudo pára, como as portagens são gratuitas! A juntar a isso a quantidade de chineses por metro quadrado, dá para imaginar o caos.

Parecia o paraíso das boleias! Mil carros, que tão lentamente passavam por nós: era só esperar.

Fizemo-nos em paciência.

Com calma, foram mais de 9 horas de pé, a pedir boleia. Mais de 11 horas de estrada. E apenas dois carros nos abordaram: um casal sírio, que não ia na nossa direção, e um senhor que queria dinheiro pela boleia, mesmo indo na nossa direção. Em 9 horas não houve nem mais um carro preocupado connosco. Nem mais um ser a olhar por nós! Estávamos tão destroçado que não conseguíamos acreditar no que estava a acontecer.

E já de noite fizemos por apanhar o último metro para voltar para a cidade. Caminhámos sem que nos lembrássemos já das dores no corpo ou nos pés, no pesado das nossas pernas ou no dormente das nossas costas.

Estávamos anestesiados!

Não queríamos mais ir para Guilin. Só para casa. E nesse preciso momento – tendo nós a sorte de termos conhecido um novo couchsurfer mexicano – decidimos que era em Guangzhou que iríamos passar o fim-de-semana. Só queríamos descansar, dormir, recuperar.

E assim fizemos, com a certeza de que no dia seguinte o sol nasceu com uma nova força. E nós também, já em paz, resignado se convictos de que nada acontece por acaso. Mais tarde, veríamos o porquê de termos ficado ali retidos.

Desfrutámos então da cidade de Guangzhou até mais não. Visitámos os pontos turísticos, a torre de Cantão, os parques mais bonitos e também o rio. E subimos ainda ao centésimo andar de um maravilhoso hotel, de onde discretamente nos deixámos deslumbrar pela vista ao anoitecer.

Abraçados, sorrimos e vivemos unidos este momento. Numa tranquilidade indescritível. No silêncio das estrelas, lá no alto. Estávamos felizes!

E assim decidimos partir, na manhã seguinte, para a cidade seguinte: Nanning. Guilin haveria ficado a meio caminho com um pequeno desvio, mas agora seguiríamos diretos.

Confiantes de que o tempo de espera passado daria lugar a muitas e boas boleias, seguimos para uma avenida principal. Lá, de cartão esticado e corpos ao sol, pedimos boleia por pouco tempo até parar o primeiro carro. Era um casal, amoroso. Tinham à pouco tempo estado a viajar na Austrália e lá viveram a aventura de se perder; contudo, alguém os ajudou prontamente e por isso assim o decidiram fazer connosco, levando-nos até uma das entradas da autoestrada.

Lá, vimos gente chegar, gente partir. Vimos o sol dar lugar às nuvens, e as nuvens dar lugar à chuva. Vimos anoitecer e o nascer da lua. Mas boleia, nem uma.

E, sem querer, tínhamos passado mais 9 horas ali.

Parecíamos transparentes!

Mas já não nos deixámos abalar, destroçar ou sentir. No nosso limite, agarrámos nas coisas e voltámos para casa. Tínhamos também a hipótese de continuar noite fora ali mesmo. Todavia, seria uma noite em branco, e provavelmente uma noite perdida.

Riram-se os nossos amigos por nos ver chegar. Incrédulos.

Então das tripas fizemos coração, e na madrugada seguinte, fizemo-nos novamente ao caminho. O corpo dorido pedia por mais cama, mas não podia ser. Tínhamos de ver onde iria esta nossa desventura com as boleias chegar. Ainda assim, levámos connosco o horário e números dos autocarros para voltar para casa, não fosse o Diabo tecê-las novamente.

Escolhemos então um terceiro sítio diferente (que era o primeiro que havíamos escolhido quando queríamos ir para Guilin e o autocarro desviou a meio). Estava um sol tão ardente que tínhamos dificuldade em permanecer quietos com a placa. E fomos então fazendo turnos.

Até que parou um jipe! Eram dois senhores, já meia idade! Sorriram, disseram que iam na nossa direção e que seria grátis! Nem queríamos acreditar…

Mesmo indo para apenas 120 quilómetros, iam na nossa direção e estávamos excitadíssimos!

Fizemos do tradutor offline do telefone o nosso meio de comunicação e assim partilhámos a nossa história. Amorosos, estavam tão felizes quanto nós, e felizes com a ideia de alguém estar a viajar tanto tempo, por tantos lugares.

Quiseram depois antes de nos deixar, oferecer o almoço. E então juntos lá nós dividimos por entre os práticos típicos vegetarianos e aquilo que eles preferiram comer, sempre com a maior gentileza e generosidade de sempre! E na hora da despedida, quiseram ofereceu-nos dinheiro, o que prontamente recusámos. Sabíamos que não tínhamos feito qualquer conversa que os levasse a querer ajudar-nos, e percebemos que era claramente um apoio à nossa viagem, por a terem encontrado encantadora! Mas não podíamos aceitar: já tinham feito por nós tudo quanto poderíamos desejar! E agradecemos, sorrimos, levámos a nossa mão ao peito e desejámos tudo de bom.

Contudo, minutos depois logo descobrimos que haviam escondido o dinheiro nas nossas mochilas. E, sem que pudéssemos imaginar, eram 500¥ – o equivalente a 68€. Sim, muito dinheiro! Não sabíamos sequer o que fazer, como fazer. Estávamos tão envergonhados e ao mesmo tempo tão gratos! Já para não falar da boleia, do almoço e das várias águas e sumos que nos haviam comprado para o restante caminho.

Na estação de serviço onde ficámos, apressámo-nos depois para nos pôr novamente à boleia. Faltavam-nos ainda mais de 400 quilómetros e a manhã já lá ia. Caminhámos assim até ao fim da imensa área (que como dita a China, grande, com restaurantes, supermercado, casas de banho e bomba de gasolina – ao que já nos habituámos), e lá instalámos o nosso “estaminé”. Mas demorou pouco até que a polícia a nós se juntasse. Nunca sabemos bem se por graça ou precaução, gostam sempre de fazer a sua conversa e por fim avisar que não podemos ir para a autoestrada. Agradecemos sempre e deixamo-nos estar! Mas desta vez, quiseram também fotografias. E nos entretantos, apareceu um camionista dizendo que não ia para Nanning, mas passaria por lá.

Recusámos. Porque levaria muito tempo. Porque normalmente na China andam sempre 2 por camião e seríamos 4. Porque não queríamos chegar de noite.

Amoroso, insistiu. Sorriu e disse que não levaria assim tantas horas. E que nos deixaria apenas a 20 quilómetros do centro da cidade.

A polícia sorriu, e sugeriu-nos que fossemos. E acabámos por ir. Ao mesmo tempo, em nós, havia qualquer coisa que nos dizia que devíamos ir. E tudo à nossa volta nos convidava a ir.

Pelo caminho percebemos o quão certos estávamos! Porque mesmo sabendo que iríamos chegar de noite, o camionista estava sozinho. E era um doce de pessoa. Sabemos agora a companhia que lhe fizemos e o bem que nos fez! Sorriu o caminho todo! Foi generoso o caminho todo! Deu-nos a sua fruta, parou para nos comprar uma maçaroca de milho e dois sumos e não hesitou em fazer de tudo para que nos sentíssemos bem. E tivemos ainda direito a ver dois DVD’s durante o caminho, que embora em Chinês, nos entretiveram e bem!

Indescritível.

Quando nos deixou custou a todos a despedida. Sentimo-nos vazios ao deixá-lo seguir a sua jornada tão sozinho: faltavam-lhe ainda mais de 800 quilómetros. Mas foi bom, foi bom o que até ali partilhámos!

Era já noite, conforme temíamos. Ficámos numa portagem, e ali não nos restou mais senão mostrar a nossa placa e esperar! Mas não esperámos mais que 15 minutos até que parasse um jipe, com um jovem que prontamente se ofereceu para nos deixar à porta de casa.

Fomos assim abençoados com um dia recheado de encontros maravilhosos, que culminou com o conhecer da nossa couchsurfer: uma jovem simples, mas muito querida. Da sua sala, fez o nosso quarto; do seu gato felpudo, o nosso mimo. E quando nos deixámos cair na cama, nem queríamos acreditar!

Estávamos de volta. De volta à estrada. De volta à nossa desejada aventura. 🙂

Em Nanning ficámos apenas duas noites, um dia – que deu para descansar, passear e ainda pic-nicar! Caminhámos em torno do famoso lago, pela cidade e no mercado nocturno (de perder de vista com as mais estranhas iguarias).

Passámos também parte do tempo na tentativa de trocar os Yuans que tínhamos para dólares, mas foi a missão impossível: de banco em banco, as desculpas foram variando. “Tem de ser no Banco da China”, “Só trocamos para Euros”, “Só temos 100 dólares”, “Precisam do certificado de troca à chegada”, “O vosso certificado não é válido”, … Até que nos cansámos e todos os bancos fecharam.

Terminámos depois a noite a jantar num terraço no décimo nono andar e brindámos às luzes que iluminavam a cidade.

E seguimos!

O prazo do nosso visto do Vietname já estava a contar e por isso tinha de ser assim. Contudo, completámos os exactos dois meses de China: dois meses intensos, bem vividos e muito especiais.

Para a vida, levamos a certeza de que nunca mais veremos um chinês da mesma maneira. Que os caracteres chineses são giros e giros de desenhar, mas que o chinês e os seus quatro tons são o verdadeiro enigma. Levamos histórias e olhares infinitos, uma cultura nova dentro da nossa, hábitos maravilhosos e outros que nem tento, mas uma viagem e aprendizagens que ficarão para sempre.

Com a certeza também de que não é preciso conseguir comunicar para se conseguir ajudar.

Deixar Nanning para trás foi também um processo moroso, mas não tão difícil. Acordámos cedo, muito cedo para nós: quando os sonhos ainda vivem, o abraço ainda sabe a pouco e a almofada chama por nós. Mas teve de ser.

Apanhámos várias boleias, todas elas reflexo de uma generosidade imensa; entre a cidade e o aeroporto, com um táxi da UBER; do aeroporto para as portagens perto novamente da cidade, com um senhor. Mas a seguinte, até à fronteira, foi a mais engraçada. Arranjada pelo polícia que veio ao nosso encontro, foi num autocarro pequenito. Demorámos algum tempo até nos entendermos, mas chegámos por fim à conclusão de que íamos exatamente para o mesmo sítio. Inglês falava e depois de saber dizer boleia perfeito saímos da china

Chegámos então juntos ao fim da China: à entrada do Vietname. E estávamos a pequenos passos do alcançar.

O Sudeste Asiático parecia longe. Tão longe, há 7 meses atrás. E é tão bonito perceber que aqui chegámos juntos, comandados pelo bater do nosso coração e com uma mão cheia de coisas boas para sempre.

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3 thoughts on “Hk & Macau (& restinhos de China)

  1. Olá!
    Engraçado que reconheci de imediato a experiência de ser “enganada”, ou mal infomada quando precisava de direcções! Por acaso a mim aconteceu em Macau, queria encontrar uma rua bem no centro da qual só sabia o nome português e toda a gente dava uma resposta firme, uma direcção qualquer, e andei ás voltas tal como vocês. Uns dias depois uma amiga lá explicou que os chineses se sentem obrigados a ajudar mesmo quando na verdade não sabem como! Enfim, ainda bem que acou tudo bem! 🙂
    Continuação de boas experiências, beijinhos!

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  2. «…quando os sonhos ainda vivem, o abraço ainda sabe a pouco e a almofada chama por nós. Mas teve de ser.»

    As palavras têm quase sempre uma particularidade capaz de transformar a distância numa coisa inexistente. Através delas, foi como se andasse convosco a percorrer os caminhos de que nunca ouvi falar. E, mesmo sem dar por isso, a tentar encontrar soluções que permitissem dar a volta aos obstáculos.
    E cá de longe – do outro lado do mundo – chega a ser cansativo, mas compensador, andar um pouco aos tombos entre as embaixadas da China e do Vietname, quanto mais não seja para concluir que a burocracia não se detém numa qualquer fronteira. Ou no esboço de um sorriso!…
    Mais tarde, vá lá daqui a meia-dúzia de anos, é bem capaz de vos saber bem voltar a estas palavras que, no fundo, acabam por ser o reflexo de um tempo de que, certamente, irão ter saudades.
    Talvez vos apeteça descansar naquele banco da Rua do Lilau e, por acaso, reencontrar aquele jipe e os dois senhores de meia-idade para quem a solidariedade é bem mais do que um conceito vagamente abstracto. Nessa altura saberão que, apesar de tudo, o mundo é um lugar onde apetece viver.

    Mesmo quando os sonhos ainda vivem. Mesmo que não existam almofadas.

    Boa viagem!…

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    1. Se há palavras que nos enchem o coração… Estamos muito gratos!
      O mundo é um lugar maravilhoso, onde quem nele sabe viver só pode ser feliz. Nós, fazemos o que podemos, dando vida aos sonhos que sempre trazemos.
      Bem haja a si, que aí desse lado, nos lê.
      Um beijinho e um grande abraço.

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