6 meses: FAQ

São 6:
6 meses de viagem
6 meses de aventura
6 meses de amor

E por estes, e por todos os que virão ainda, pelo mundo, estamos muito felizes!

Partilhamos assim as respostas a todas as questões que nos fizeram chegar, na esperança de que satisfaça a curiosidade de cada um, e faça sorrir, faça viver, faça sonhar!

É muito amor não é? E loucura também?

Tiago – Um pouco dos dois, mas mais gosto por conhecer e aprender.
Joana – Amor decerto! Quanto à loucura… pobres dos sãos!

Qual foi, até à data, a melhor e pior experiência?

Tiago – A melhor experiência foi termos sido hospedados por locais em aldeias remotas. A pior foi andar à boleia com quem não confiávamos, no final correu tudo bem, mas foi uma viagem muito tensa.
Joana – Partilhamos a pior, quanto à melhor, não consigo escolher. Esta viagem é feita de boas experiências! Talvez guarde com carinho a chegada ao Irão: não estava à espera de tamanha hospitalidade. Não há reflexo da realidade do país fora deste, o que é uma pena!

Nunca tiveram medo?

Tiago – Nunca tive medo, mas senti alguma tensão quando um condutor se desviou do caminho: afinal ia só visitar uns amigos.
Joana – Já senti sim, e uma das vezes foi exatamente nessa situação. Queria sair do carro, não queria esperar para ver. Sou mais medrosa! Mas há uma linha muito tênue que separa o medo da tranquilidade; quero com isto dizer que sempre que tive receio de alguma coisa, foi num segundo que me acalmei e vi que estava tudo bem.

Do que mais sentem falta?

Tiago – De azeite, da minha família e amigos. E da minha bicicleta! E embora só tenha descoberto há três dias, também tinha saudades de bolachas Maria.
Mas nesta viagem estamos sempre ocupados e por isso não temos muito tempo para sentir saudades. O nosso dia é conhecer pessoas, caminhar, apanhar boleia, conhecer pessoas outra vez e dormir.
Joana – Da minha família e amigos, embora estejamos sempre em contacto. Também sinto muita falta do meu espaço (coisa que nunca tinha pensado gostar tanto), da minha cozinha e dos meus lápis-de-cor. Tenho saudades de conduzir, e de passear na baixa em Lisboa.

Acham que vão conseguir voltar e ficar?

Tiago – Encaramos esta fase como uma experiência que queríamos ter e por isso sabemos que a vida terá outras fases pelas quais também queremos passar. É como perguntar a um estudante universitário se vai conseguir adaptar-se à vida de trabalhador… O que tem de ser tem muita força.
Joana – Não tenho a menor dúvida!

Dão-se bem a tempo inteiro?

Tiago – Temos algumas desavenças, claro. Não somos perfeitos e é assim que nos tornamos mais fortes. Mas especialmente quando nos faltam boleias ou passa do meio dia e ainda não temos poiso certo, há maior tensão. Mas sei que quando por qualquer momento não estamos juntos, nos sentimos vazios.
Joana – Importa que no fim fique tudo bem, que não nos deixemos adormecer de costas voltadas. Acredito que, mais que tudo, somos pessoas. Como tal, temos os nossos momentos: e melhores ou piores, e especialmente neste tipo de viagem nem sempre é fácil gerir sentimentos. Só nos temos a nós e sabemos bem disso. Sabemos que somos a nossa companhia a cem por cento, mesmo quando estamos insuportáveis.

Quanto dinheiro já gastaram? Têm conseguido manter a vossa proposta de orçamento?

Tiago – Gastámos à volta de 1300€ em 6 meses. Significa que estamos completamente dentro do nosso orçamento inicial de 10€ diários para os dois.
Joana – Só em vistos fizemos um investimento de 700€, quase tanto quanto o que gastámos até agora em bens (alimentares ou de cosmética). É uma pena não termos passaportes diplomáticos!!

Têm conseguido manter o vosso estilo de vida alimentar, o veganismo?

Joana – Esse começou por ser um grande desafio e aprendemos, com o tempo, a levar os dias sem culpa. Depois da Turquia, a comunicação começou a ser uma barreira cada vez mais acentuada. Pensávamos que conseguíamos explicar sempre que éramos vegetarianos, mas por muitas vezes as pessoas recebiam-nos em suas casas com grandes banquetes, recheados de carne, laticínios e ovos. Até mesmo do pão não lhe sabíamos a origem. Foi uma gestão pessoal muito complicada, porque saímos de Portugal veganos e sem consumir produtos processados. Açúcar estava fora da lista, por exemplo. Hoje sem comprometimentos sabemos que nos limitámos a adaptar a este momento da nossa vida, do qual não nos orgulhamos a nível alimentar. Não compramos produtos de origem animal e ovos sabemo-los caseiros. Não podemos dizer que vivemos felizes no que respeita a esta opção, mas sabemos ser a mais sensata face à viagem que estamos a fazer. Carne, peixe e leite continua absolutamente fora do nosso cardápio. E sabemos que aquando o nosso regresso continuaremos a ser o que já um dia fomos: amigos e respeitadores da vida. Pelo mundo, a nossa atitude não é diferente; mas impõe-se respeitar os que nos estão a receber e que, por muitas vezes, nos partilham aquilo que têm no prato. Em casa as coisas são diferentes, aqui estamos completamente fora da nossa zona de conforto.
Tiago – É possível dar a volta ao mundo como veganos, mas com o nosso molde de viagem é que é mais difícil. Quando estamos numa aldeia remota e as pessoas nos acolhem nas suas casas e nos dão aquilo que têm, não podemos recusar tudo. Quanto mais quando existem barreiras linguísticas e culturais que dificultam qualquer explicação. Em relação à carne e ao peixe não somos flexíveis, cada vez nos custa mais entender que continuemos (sociedade) a comer carne sem pensar no que estamos a fazer. Já quanto aos ovos temos sido bastantes flexíveis, leite não bebemos, mas de vez em quando não existem outras opções além de derivados do leite e esporadicamente consumimo-los. Por favor, revoltem-se com esta flexibilidade e espetem-nos as vossas farpas de todos os lados.

Têm algum cuidado especial?

Joana – Na viagem em geral, tentamos ter algum cuidado com aquilo que comemos e a forma como o fazemos. Normalmente, se é algo cru, não temos água potável para lavar e não dá para descascar, não comemos. Outro tipo de cuidado especial, só no que respeita a atitudes. Eu sei que sou mais impulsiva e explosiva que o Tiago, o que por vezes lhe dá trabalho! Tenho dificuldade em conter-me perante uma injustiça, por exemplo; mas tenho-me tornado cada vez mais cuidadosa, muito embora nem sempre saiba reagir da melhor forma, o que é importante perante um mundo desconhecido.
Tiago – Uma regra importante: faz como vires fazer, até ao teu limite. Por exemplo, eu não consigo atirar lixo para o chão, mas consigo sentar-me no chão e comer com as mãos, todos do mesmo prato. Outra regra de ouro é fugir dos problemas: se alguém nos quer arranjar problemas, primamos por sair dessa situação sem repostar ou sequer tentar dar uma chapinha de luva branca, como tanto gostamos noutros contextos. Acreditamos que esta atitude a longo prazo nos é retribuída em forma de energia positiva, o que não só nos influência a nós próprios, como a todos os que cruzam o nosso caminho. “Be ALWAYS polite”, se bem que para um de nós isso é um desafio muito grande.

Conseguem descrever um momento caricato ou embaraçoso?

Tiago – Numa boleia no Quirguistão, o senhor levou alguma tempo a dizer-me em russo que ia ao hospital visitar um familiar com cancro e eu sem perceber muito bem, seguia dizendo: “sim, muito bom”. Quando percebi, já era tarde; mas no final da viagem disse-lhe que esperava que tudo corresse pelo melhor.

O que trazem nas mochilas?

Tiago – Uma tenda, um marcador (para escrever num pedaço de cartão para onde vamos), meia dúzia de trapos para vestir e para durante a noite nos aquecer, uns electrónicos para manter o contacto e tirar fotografias e muitos sorrisos. Também temos uma mochila mais pequena com comida e água. E a bandeira de Portugal!
Joana – Além da roupa e calçado (que inicialmente era de verão e inverno, mas que agora se resumiu à primeira), uma rede mosquiteira de casal, repelentes, cosméticos (shampo e sabonete sólidos, cremes, desodorizante e coisas de menina!), bijuterias, e alguns medicamentos de rotina e outros de emergência. Tenho também música e um caderno.

Há recomendações específicas para andar à boleia?

Joana – Paciência, é o mais importante. Mas eu diria que não há nada específico, a não ser o bom senso. Primeiro, há que confiar na pessoa que parou, pelo menos à primeira vista. É preferível não chegar ao destino, e estar bem, que o contrário. Depois, há que partilhar a nossa história com quem nos está a ajudar, que é a única coisa que podemos dar em troca (a não ser que a barreira linguística não o permita, mas é por isso também que o Tiago se empenha tanto na aprendizagem da língua de cada país por onde passamos). E por fim, deixar bem claro sempre que estamos à boleia, que não pretendemos que a pessoa altere a sua rota e nos leve apenas para onde já está a ir, sem que paguemos por isso. Cabe-nos também no carro respeitar as pessoas e, por exemplo, não começar a mexer nas mochilas ou a falar Português entre nós – por vezes quem nos leva também tem algum receio. Ainda assim, no que toca a viajar por países por culturas distintas é que encontro uma recomendação/regra fundamental: não julgar. Às vezes é difícil, às vezes não percebemos nada, mas é mesmo assim.
Tiago – “Quem está à boleia, sujeita-se”. Ter sempre isto em mente, e depois tentar criar confiança com o condutor: partilhar o mais que consigamos e o mais que ele queira saber.

À data, qual o maior impacto da viagem na vossa vida? E em vocês próprios?

Joana – Acredito que só teremos resposta para estas perguntas aquando o nosso regresso, contudo acredito também que a cada dia que passa nos conhecemos melhor.
Tiago – Com esta viagem aprendemos a dar valor a uma simples cama ou garrafa de água. Cada barreira que ultrapassamos faz-nos enfrentar as próximas barreiras com mais confiança e isso é algo que levamos para a vida. Ao nível dos valores, creio que nos tornámos já mais tolerantes, pacientes e reflexivos.

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2 thoughts on “6 meses: FAQ

  1. Após a leitura de milhares de palavras e afins, concluo que me perdi pelas aventuras mirabolantes mas com sentido de orientação de vida comum. Por vezes, nesta vida que todos nós temos, há que existir um desvio para caminhos sem destino, pois o fim do percurso leva-nos a concluir, o que de sagrado e saboroso encontramos no viver. Senti interesse, tensão, alegria, harmonia e paz interior depois de viajar convosco por esses trilhos fora.
    Continuem com a vossa descrição envolvente e que, no fim possam desfrutar de cada momento outrora escrito, como se de um best-seller se tratasse.
    Cumprimentos

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    1. Edgar, o que nos move na escrita é a crença de que há mais quem possa assim viajar connosco, sentindo esse interesse, tensão, alegria, hamonia e paz interior que descreve. Ficámos não só gratos mas também muito felizes com a sua mensagem. Bem haja! ☺ Um abraço do mundo.

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