por terras do Uzbequistão

Nos últimos tempos, os capítulos da nossa história terminam e recomeçam em fronteiras, com borboletas no estômago e muitas burocracias. Mas viramos página a página, com muita calma, com muitos sonhos na algibeira e cada vez mais ricos.

Na travessia finda do Turquemenistão, os militares mostraram-se simpáticos, tendo até fechado os olhos para uma troca de dinheiro oficiosa. Sabíamos já que neste novo país, o Uzbequistão, a troca de dinheiro se deve fazer no mercado negro, uma vez que nos bancos a taxa de câmbio chega a ser 2 vezes inferior.

Assim, conseguimos trocar o que nos restava na moeda do turquemena (manat) por notas uzebeques (sum), ainda em terras turquemenas: e o mais engraçado, a nota mais pequena vale 0,02€ (tendo em conta a taxa a que trocámos sempre o dinheiro, de 6500sum). E assim nos fizemos sempre acompanhar por um valente e vistoso molho de notas – como qualquer local.

Aliás, eles, os locais, chegam a trazer as notas no bolso, presas com um elástico, como se se tratasse de contrabando ou algo assim, enfiadas em sacos de plástico – o que vimos mesmo que na mala das senhoras.

Esperávamos que ali, na fronteira, nos revistassem de ponta a pavio. Tínhamos já lido vários relatos, vários blogues, conhecido vários viajantes; e a história repetia-se. Sabíamos ser obrigatório declarar valores e ser proibido, por entre muitas coisas, fotografias ou livros de caráter pornográfico ou religioso. Desta, estávamos preparados: tínhamos o nosso dinheiro contado, fotografias e livros controlados, tudo a postos.

Até as nossas mais lindas fotografias com beijinhos estavam apagadas.

Mas depois de preenchermos as declarações na fronteira, passámos as mochilas no RX, e tínhamos o coração a mil. Os relatos de revistas duradouras e minuciosas eram tantos, que não nos víamos sair dali nem em 3 horas, face à quantidade de tralha que sempre nos acompanha.

A primeira pergunta foi simples – medicines?

Dissemos que sim e indicou-nos que tirássemos tudo para fora. Não sabemos bem o que nos passou pela cabeça, mas tiramos só a embalagem metálica onde estão todos os medicamentos da tiroide e pilulas, que nos acompanham. A bolsa com tudo o que é comprimidos de emergência, continuou dentro da mochila. E, propositadamente, não tirámos a caixinha das vitaminas sem rótulo.

Depois de confirmar no computador o conteúdo do que lhe havíamos apresentado, balanceávamos o nosso espírito por entre o receio e a calma. Quando nos perguntou se tínhamos mais algum medicamento na mala, e decidimos dizer que não, não foi planeado, foi instintivo.

Podia ter corrido muito mal, mas correu muito bem. Mandou-nos guardar as declarações para apresentar à saída do país e autorizou-nos a seguir. Naquele momento, não estávamos crentes de que fosse aquela a verdadeira barreira. E até sairmos da zona fronteiriça, confessamos que estávamos sempre à espera do tal momento em que nos iriam separar e revistar e interrogar.

Mas não. Não aconteceu. Não sabemos porquê, mas sabemo-nos gratos por não nos terem feito desarrumar tudo e viver um momento tão tenso.

Sabemo-nos decerto abençoados, pelo nosso caminho até aqui e por cada dia que passa.

Seguimos então depois a pé. Os taxistas morrem de amores por nós, quando nos vêm a chegar por perto, carregados e suados, desejosos de uma sombra ou uma boleia; mas depressa se desencantam quando dizemos que não queremos táxi ou não temos dinheiro. É difícil de lhes explicar a eles, e a muitas pessoas até, que nós temos dinheiro sim, mas não para transportes. Ou seja, o dinheiro que temos é para nos alimentarmos, para situações de necessidade ou para burocracias.

Para transporte temos os pés e todos os carros que estejam a ir na nossa direção e nos queiram levar. Está completamente contra o nosso modo de vida ou principio de viagem apanhar um táxi: fazer um carro, singular, que não vai levar mais ninguém nesse sentido, deslocar-se, consumir e poluir – muito embora aqui na Ásia vejamos na maioria táxis partilhados, que só arrancam quando cheios. Uns prodígios. 

No nosso sentido, o da cidade mais próxima, seguiam camiões, mas também os taxistas se encarregavam de lhes dizer que lhes era proibido levarem-nos. Portanto, caminhámos até nos afastarmos da zona fronteiriça, da confusão. Caminhámos a custo, porque as temperaturas a rondar os 40 graus e o sol intenso, faziam-nos destilar e querer parar a cada 5 minutos.

Numa dessas mesmas paragens, acabámos por conhecer um ciclista alemão, também a recarregar forças numa sombra. Temos tido a oportunidade de conhecer muitos viajantes, mas nunca dois iguais, com o mesmo modo de viajar, destino ou rota, o que é sempre enriquecedor. Ainda assim, temos sempre em comum uma coisa: deixámos tudo para trás e decidimos fazer o que muitos querem e não têm coragem – viver!

E pouco depois, conseguimos boleia de um camionista até Buhkara, onde tínhamos uma couchsurfer à nossa espera. Delicada e doce, foi até ao nosso encontro para nos conduzir até sua casa. Lá, além da irmã, do filho e dos 3 sobrinhos, hospedava também um outro ciclista, alemão. Viajante de paixão e neurologista de profissão, partilhámos então o serão.

E no dia seguinte, juntos conhecemos a cidade, os seus recantos e encantos, sabores e cheiros. E à noite, cozinhámos em casa e partilhámos segredos por entre as paredes da cozinha. Velha, suja, mas muito acolhedora.

Por entre o terror que é dormir e descansar por entre os milhentos mosquitos existentes, picadas e zumbidos, mesmo depois de montada a rede mosquiteira; conseguimos levantar-nos cedo para seguir rumo a Samarqant. Mas depois de nos conectarmos para confirmar o couchsurfing, pudemos perceber que embora confirmada a estadia, não tínhamos qualquer informação sobre quem nos iria hospedar. Mesmo depois de lhe termos enviadas várias mensagens (lidas), não tínhamos resposta a nenhuma. Nem telefone, nem morada. Nada.

Perdemos assim a manhã a tentar contactar esta futura couchsurfer, mas sem sucesso. E já ao início da tarde, decidimos que não adiantava esperar mais, e fizemo-nos à estrada. Em última instância, a nossa tenda esperava a sua estreia. E com tão bom tempo, não nos poderíamos queixar.

Uma vez mais, atordoados com o calor, caminhámos até termos a certeza de que estaríamos longe de olhares militares ou policiais.

Aqui, no Uzebequistão, a cada 3 dias é obrigatório o registo de dormida, em hotel ou hostel, ou a mudança de região devidamente comprovada, como por exemplo com bilhete de autocarro ou comboio noturnos. E à saída do país devemos apresentar esses mesmos registos, sob pena de multa ou deportação.

Contudo, dado o país em questão, sabemos que a polícia faz como quer e exige o que quer e, nós, como só pretendemos apanhar um comboio noturno a cada 3 dias para não termos problemas, preferimos manter-nos longe. Até porque se for para serem corruptos, com um estrangeiro, calha ainda melhor. Mas no total de 13 dias, temos dois bilhetes e fotografias que comprovam que nos fomos movendo de região em região: esperemos que os deuses das boleias nos protejam!

Depois de muitos táxis recusados, pararam dois senhores. De sorriso genuíno, gesticularam para que entrássemos e seguíssemos juntos. Afinal, iam para Tashkent, a capital, a mais de 600 quilómetros e portanto passariam por Samarqant.

Já no carro, e com mais de 100 quilómetros feitos, começámos a ponderar seguir também para a capital. Não tínhamos ninguém à nossa espera em Samarqant, nem casa, nem amigos. E teríamos sempre de lá voltar perto para atravessar a fronteira. E em Tashkent, tínhamos uma amiga.

Pedimos então para lhe telefonar (vale-nos a destreza em russo também) e passado pouco tempo tínhamos no telefone o contacto de quem nos poderia hospedar.

Pelo caminho jantámos, com muita simpatia e muita dificuldade em fugir de carne. Chegámos então nessa noite, já perto da 00h00. E como em casa de quem nos ia hospedar estava um outro casal de ciclistas alemão já a dormir, montámos o arraial no chão da sala de jantar. E que bem dormimos!

Na manhã seguinte, tínhamos como objetivo conseguir comprar um bilhete de comboio para a próxima noite e assim fizemos. Conseguimos por 7,5€ uma viagem de 16 horas para o lado oposto do país. Na verdade, atravessámo-lo à boleia e agora regressaríamos para trás para o visitar.

Durante o resto do dia fizemos por passear e conseguimos ainda encontrar-nos com a nossa amiga. Francesa, viajada e a viver a cada ano num país diferente; outrora professora no Irão ou até Iraque, quis palmilhar connosco a cidade de lés a lés, até mesmo quando já estávamos estoirados. E já à noite, aproveitámos para lavar roupa e para nos deitar cedo. O dia seguinte iria decerto ser longo.

De malas praticamente aviadas, com já pouca coisa por secar, fomos até ao mais antigo mercado da cidade, Churus. O maior mercado que alguma vez vimos, numa dimensão gigantesca. Com roupa, cosméticos, calçado, comida, fruta, legumes, (…). Perdemo-nos por lá e por lá andámos por mais de 3 horas com a certeza de que não vimos nem metade.

Abastecemo-nos de fruta, pão e frutos secos, para a viagem. Comprámos um pastel típico de batata para o almoço e o tempo já estava contado para chegar ao comboio.

Mas fomos com calma, com a inocência típica quem ainda não viu acontecer. Para entrar na gare estivemos um bocado. Tal como à entrada do metro nos revistam (a nós e a todas as pessoas, uma por uma), ali não seria diferente. Revistaram-nos por duas vezes diferentes, mostrámos o passaporte outras tantas e os bilhetes umas três ou quatro.

E quando chegámos à nossa carruagem, o caus estava instalado. Como seria de esperar de uma cabine económica, zero de ar condicionado, zero de espaço. Portanto, 40 e vários graus infernais, lugares marcados no galheto e espaço para ficarmos juntos ainda menos.

Se por um lado dava vontade de rir, por outro dava vontade de chorar.

Pedimos ainda ajuda ao “comandante”, que aquilo que fez foi gritar pelo lado de fora do comboio que havia americanos a precisar de ajuda; e logo alguém veio, para fazer de uma mesa um assento.

Percebemos então como trabalhava. A primeira hora foi de tensão, calor e talvez desespero. Restava-nos observar as pessoas, mesmo em bancos separados. Aos poucos, foram-se conhecendo, movendo, e já tínhamos uma cama (por entre as muitas suspensas por entre os bancos e os porta-malas), um assento e uma mini-mesa para comer. Aos poucos, já nos queriam conhecer, oferecer comida e até um lenço típico! Aos poucos, já só o calor incomodava. E assim se passaram as horas, quase sem que dessemos por elas. E conseguimos os dois, dormir, deitadinhos. Um numa cama, outro no porta malas. Mas com direito a colchão e almofada e tudo!

O sol entrava já pelas janelas do comboio pouco passava das 5h00 da manhã. E o calor, que pela noite fora se tinha feito acalmar, voltava então em força.

Por entre o embalo do baloiçar dos carris, tomámos o pequeno-almoço, mas não ao mesmo tempo: ó-ó é bom em qualquer caminha do mundo, e enquanto um madruga ou outro sonha!

Dividimos assim a mesa com uma senhora já velhinha, que por entre os dentes que lhe restavam, só se via ouro no sorriso. E por entre os frutos que volta e meia lhe oferecíamos, dizia baixinho – Spasibo, obrigada.

Chegámos a Urgench com mais de 1 hora de atraso, e mal descemos pudemos avistar nas grades da estação o nosso couchsurfer. Esperava-nos desde a hora prevista (o que neste país não vale nada), com um sorriso largo no rosto e também na alma! E consigo, trazia dois couchsurfers da Rússia, também em sua casa hospedados. Com uma história parecida com a nossa, recém casados, a viajar à boleia pela Ásia, ela vegetariana e ambos sem beber álcool; tornaram-se a nossa companhia.

Em casa, depois de um banho fresco e de roupa lavada num grande alguidar, almoçámos juntos e passámos a tarde por entre histórias e longas partilhas. E já quase com o sol na linha do horizonte, depois de jantados, seguimos para um passeio pelo centro da cidade. A verdade é que se para muitos por aqui não alegra a hora do sol se pôr, a nós sabe-nos muito bem serem 21h30 e ainda haver luz.

E mais à noite, tristes por não conseguirmos ver a seleção a jogar, remediámo-nos nos braços um do outro, no sono que em nós jazia.

Madrugámos para ir até Khiva, a 30 quilómetros de Urgench: uma cidade histórica, incluída na antiga rota da seda. Indescritível, maravilhosa e imponente, com construções de fazer vibrar o olhar e sonhar. Por entre tons terra e azul turquesa, azulejos e artesanato. Um verdadeiro encanto, daqueles que se visita uma vez na vida e se guarda para sempre. No coração.

Regressámos mais tarde a casa, e depois de uma melancia para o almoço, fizemo-nos à cidade à procura de wifi. No Uzebequistão, a internet não é má: só praticamente não existe. São poucos os que a têm em casa, muito poucos. Porque é realmente cara. Da mesma forma que são muito poucos os cafés ou locais com wifi. Existem sim centros, com computadores e ligação, pagando-se à hora; mas lá não conseguimos conectar o telefone, onde temos o nosso parceiro WhatsApp, através do qual damos notícias à nossa querida família.

Neste sentido, temos feito algumas descobertas e, o mais fantástico, temo-nos desenvincilhado.

A primeira invenção, foi instalar aplicações, nos nossos equipamentos, que tentam descodificar passwords. Nem sempre funciona, mas às vezes faz a nossa sorte! Mais tarde, aprendemos a pedir às pessoas – aquelas que desconfiamos que saibam, para fazer hotspot com o seu telefone, partilhando assim wifi. É claro, é uma verdadeira modernice. Mas a verdade é que já nos tem desenrascado muitas vezes. Para um acesso curto e rápido, mesmo que não tenham muitos dados, ficam felizes por nos ajudar e nós muito gratos. E a terceira invenção, mas não pior, é procurar um hotel com o maior número de estrelas possíveis.

Porquê com muitas estrelas? Porque, vendo uma menina turista entrar, explicando que está de viagem no país e que precisaria de verificar o e-mail, gostam de mostrar que têm um excelente acesso à internet e cedem a chave sem qualquer constrangimento. Não sabemos bem, mas talvez pensem que num futuro próximo possamos escolhê-los para nos instalarmos. Ou talvez seja apenas cortesia, não interferindo com o bom funcionamento do hotel uma pessoa a mais a navegar. Em contrapartida, tentámos já hostels ou pequenos hotéis, mas sem sucesso. Exigem sempre o pagamento de alguma quantia, que sejamos seus hóspedes ou que consumamos algo no bar.

Já tarde, de barriga cheia de wifi, e muito satisfeitos com muitos miminhos da família, regressámos a casa. E lá, tínhamos trigo serraceno cozido à nossa espera! Muitos não conhecem as maravilhas deste cereal que adoramos, mas confessamos aqui que sabemos cozinhá-lo muito melhor – ou não fossemos nós uns verdadeiros chefs vegetarianos, eheh.

Levantámo-nos todos juntos depois na manhã seguinte para um grande pequeno-almoço. Embora com direções diferentes, íamos todos pôr-nos à boleia! O casal russo para para Bukahra, nós par Samarqant. E tivemos a sorte de podermos juntos apanhar a primeira boleia do dia ainda em casa, do pai do nosso querido couchsurfer. Há couchsurfers e couchsurfers, e embora gostemos de cada um à sua maneira, há sempre aqueles que nos marcam: e este foi um deles. Talvez pela sua humildade. Ou pela sua disponibilidade. Mas decerto por ser mesmo uma boa pessoa neste mundo.

Assim, quase sem darmos por isso, estávamos a 30 quilómetros da cidade e já na estrada principal para esperarmos pela nossa sorte.

Num instante conseguimos boleia, e em pouco mais de 1 horas, estávamos de novo de mochila às costas, já no nosso destino. Não tínhamos ninguém para nos hospedar na cidade, mas tínhamos um couchsurfer à nossa espera para nos conhecer. Não podia alojar-nos pois a família não concorda, mas quis ainda assim encontrar-nos e receber-nos na sua cidade.

Deslumbrado pelo mundo “lá fora”, apaixonado por cada viajante que conhece e pelo globo que sabe de cor; ajudou-nos tanto quanto pode, levando-nos até à bilheteira mais próxima, pois estávamos já em contagem decrescente para um novo comboio, um novo registo. E descobrimos então que o próximo duraria 20 horas, com um custo um bocadinho mais elevado, perto dos 12 euros.

Seguimos depois já sozinhos pela cidade. Tínhamos algumas luzes de onde poderíamos acampar e fizemos por segui-las. Perto do rio, ainda que dentro da cidade, junto a algumas vivendas novas e depois de algumas casas antigas. Por lá, encontrámos dezenas de crianças, curiosas pois com estes dois extraterrestres de grandes mochilas às costas e olhos sem ser em bico.

Seguiram-nos, e por entre risos falavam do Ronaldo, e do Figo também. Portugalia, diziam de ouvido em ouvido. E por entre os quintais víamos gente e gente a espreitar. Se a missão era secreta, deixou de o ser. Se o objetivo era passarmos despercebidos, também estava falhado. E restava o receio: receio de que alguém se sentisse intimidado e chamasse a polícia.

Decidimos então mudar de jogo: se perguntássemos a quem por ali nos olhava se o sítio era bom para acampar por uma noite, passaríamos a bola para o outro lado. Poderiam dizer-nos que sim, e chamar a polícia na mesma, claro. Mas era menos óbvio que o fizessem.

Contudo, as primeiras pessoas que abordámos, logo nos convidaram para sua casa. A princípio para por a tenda num quintal. Depois para dormir numa estrutura com cama de rede. E a única pergunta mais séria foi a se tínhamos os passaportes e visto, legais.

A família era grande, e por ser sábado, era dia de festa. E festa que é festa, pede vodka. Muita vodka. Mais vodka. E em resumo, estava o dono da casa bêbedo. Mas não foi por isso que nos recebeu pior ou com menos cuidado. Apresentou a gente da casa, a casa de banho, o chuveiro, os animais e mandou vir comida para a mesa com fartura. Só o tom de voz, esse, é que era pior. Intimidava, mesmo que por entre risos. Pensámos ainda que fosse do álcool ou até mesmo sem querer, pois berrava com entusiasmo cada frase que dizia. Mas pudemos mais tarde perceber que na presença de outras pessoas se continha. E, não bastasse já tamanha generosidade, ainda tinha wifi em casa – da boa!

Pudemos depois descansar e dormir, até no dia seguinte sermos acordados com um valente e sonoro “Tiaga!! Dawai” – pois em russo o “o” tem som de “a”, dizendo também eles “Cristiana Ronalda”! Tínhamos já o pequeno-almoço à nossa espera, típico e delicioso, sem margem para refutas – tal como no dia anterior, tendo-nos nós precavido com a alergia à carne.

Pelo dia fora passeámos com o seu filho e um sobrinho, tendo estes sido uma grande ajuda para voltar a trocar dinheiro no mercado negro e a comprar os bilhetes de comboio. E lá, mais uma vez impera a calma: quase 2 horas de espera com apenas 5 pessoas à nossa frente.

Acabámos depois a dormir a sesta e mais tarde, em casa, a conhecer uma amiga da família, professora de inglês.

Embora não tenhamos percebido o porquê, não fomos convidados a jantar com os amigos da família, tendo-nos eles preparado o jantar numa sala à parte. Mas moído o assunto, acreditamos ter sido por receio de denuncia à polícia – já que é pública a (infeliz) proibição de hospedar turistas…

Mas, desta, tivemos um jantar a dois, calmo e tranquilo.

Amoroso por entre o divagar do nosso namoro.

E na manhã seguinte, no nosso 10° dia no Uzebequistão, dissemos adeus a Nukus e aos seus encantos. Percorremos o bazar da cidade de mochilas às costas e tralhas nas mãos, regateamos, tirámos fotos com as senhoras que nos venderam alperces e fizemos o farnel das próximas 24 horas. E por fim, apanhámos um mashrutka por 5 quilómetros, até à estação.

Mashrutka não é um taxi, nem é uma van: fica-se pelo meio de ambos. Com um tamanho muito catita!

Esperámos pelo comboio, por mais de 3 horas, por entre a antecedência com que devemos chegar e o atraso que depois anunciaram. Só nos restou recordar que em outro qualquer lugar europeu, seria de esperar que todos se indignassem, que reclamassem pelo atraso, exigissem dinheiro ou uma sombra. Até a nós nos deu vontade! Mas aqui, até mesmo quando já nós nos comíamos por dentro, de indignação, as pessoas à nossa volta transpiravam calma. Acreditamos ser uma arte, esta a do saber esperar sem reclamar. E assim fizemos, por entre uma árvore que escolhemos para nos acolher.

Quando o comboio chegou, trazia espaço com fartura. Pudemos instalar as mochilas no sitio certo e tivemos direito a colchão e lençóis lavados para as camas de primeiro andar. E, como bónus, dois lugares com mesa livres para almoçarmos e passarmos parte da tarde. Só já mais à noite, numa nova paragem, a carruagem se encheu de gente. Mas aí, já descansados na cama, embora apanhados de sobressalto, pouco nos incomodou.

A tarde, noite e manhã passaram rápido e sem grande custo, o calor não era tanto assim (ou já nós nos fizemos habituar) e a maior parte do tempo aproveitámos para escrever e dormir! Mas, de nos tirar o sono foi o choque que tivemos relativamente ao lixo: seja nova ou velha, qualquer pessoa agarra no que tem e vai atirando pela janela do comboio em andamento. Seja garrafas ou sacos, embalagens ou restos de comida, vai tudo. E ensinam os avós aos netos como fazê-lo! E dão-se ainda ao luxo de nos olhar como porcos por guardarmos religiosamente o nosso lixo todo num saco de plástico até à chegada.

À chegada, a Samarqant, estávamos sem rumo. Novamente, não tínhamos ninguém para nos hospedar, ou pelo menos até termos saído de casa ninguém nos havia confirmado estadia no couchsurfing. Estávamos então preparados para erguer a nossa tenda pela primeira vez nesta viagem.

Passámos o dia com algum sacrifício por entre o calor, o peso das mochilas e a busca de wifi. A cidade, linda, exigia-nos que nos movêssemos, que a palmilhássemos. Que a quiséssemos visitar. Apanhou-nos de surpresa pela beldade das construções históricas, pela limpeza das ruas, pelo ornamento dos parques. Mas com a carga que trazíamos, a cada 10 minutos de caminhada só conseguíamos desejar por uma sombra e um recanto para parar.

Encontrámos depois, por entre uma zona verdadeiramente turística, um bazar. Uma vez mais, lindo em termos arquitectónicos, mas não tão recheado como outros que pudemos já encontrar. Decidimos visitá-lo à vez depois de encontrarmos um banco para descansar e largar as mochilas: e por entre o tempo de espera um do outro, surgiu conversa com uma vendedora ambulante de lenços e echarpes.

De repente, e sem nos apercebermos, tivemos das partilhas mais bonitas e intensas que pudemos alguma vez viver. Com um nível inglês muito além do que pudemos esperar, e por entre frases carregadas de emoção, descreveu-nos a sua história de vida, reflexa da te todas as mulheres no país. Com pesar e tristeza, não se coibiu de falar de tudo o que a amargura. E até talvez com leveza a mais, face ao que poderíamos imaginar, não teve rodeios. Casou-se jovem, aos 18 anos, tal como a família espera e impõe. As raparigas não estudam, nem devem: porque se forem boas raparigas, depressa se devem casar e de nada lhes serve os estudos para tratar da família. Seguiu então para casa dos sogros, onde passou a trabalhar do nascer ao pôr-do-sol: lava roupa, estende roupa, faz pequeno-almoço, deixa almoço preparado, faz jantar, limpa a casa, trata do quintal, lava a loiça e, rápido, tem muitos filhos e cuida deles. E durante o dia, vai ainda trabalhar – mas neste momento está muito mau, não há turistas e é deles que precisa.

Os sogros, sem trabalho e sempre em casa, exigem desde sempre que tudo seja feito com rapidez e rigor. E, por entre risos, contou até que por uma manhã de cansaço se deixou dormir por uma pouco mais, até por volta das 6 horas, tendo acordado com o cunhado aos gritos mandando-a ir tratar das suas lides. Com um sorriso ainda no rosto, explicou-nos que nesse momento esperou que o marido a defendesse, compreendendo-a cansada: mas não.

Com duas filhas para cuidar, partilhou também – e com rapidez, que são estas as sobreviventes de quatro. A primeira bebé morreu aos 6 meses de gestação e a última morreu também. Não falou de imediato porquê, mas mais à frente tivemos coragem de lhe perguntar. Da primeira gravidez a bebé não sobreviveu por excesso de trabalho, muita carga e falta de descanso. A ultima, foi obrigada a abortar – era mais uma menina e o marido agora quer rapazes. Pudemos mais tarde perceber que, de futuro, as meninas se vão, tal como a mãe, um dia para casa da família dos seus maridos. Já os rapazes, para sempre em casa ficam e sempre alguém trazem para cuidar deles. É a lei da vida por aqui.

E toda esta conversa sempre por entre sorrisos. E muita vontade de falar.

Os nossos corações estavam mais apertados que o dela – isso pudemos senti-lo.

Sonhava um dia poder ir viajar por outros países com o marido, passar tempo com ele longe da vida que traz. Confessou também que agora, por entre o seu dia-a-dia, não tem tempo: e que por isso sabe que o marido vai com outras mulheres. Não concorda, mas assume que nada pode fazer, porque não tem tempo nem para se arranjar pela manhã.

E em pouco mais de 30 minutos tínhamos um relato, para nós doloroso, de uma vida perfeitamente normal por aqui.

Despedimo-nos, gratos pela conversa, pela generosidade. Pela força.

De mochilas novamente as costas, comprámos algumas frutas e pão caseiro para o almoço e seguimos caminho. Os preços por ali muito elevados, mais do dobro face a outras cidades, por ser um local turístico e por não terem na cidade agricultores, importando tudo. Ainda assim, fizemo-nos ao negócio e conseguimos alguns preços mais baixos.

Pela cidade conhecemos dois viajantes, em separado. Um italiano e um francês. O último, praticamente com a mesma rota que nós, mas de bicicleta, ambos inspiradores à sua maneira.

E já mesmo ao final do dia, por entre a nossa busca, encontrámos uma rede wifi aberta! E lá tínhamos à nossa espera a confirmação de um couchsurfer em Samarqant para nos hospedar. Professor universitário,1 de economia, tinha-se registado no site à uma semana. Fomos por isso os seus primeiros hospedes, a sua primeira experiência. Levou-nos a jantar fora e a dormir no seu apartamento na cidade, e por entre o medo da polícia, pediu-nos que fossemos muito discretos em casa. Lá, deixou-nos sozinhos, tendo ir dormir à sua casa de família, onde teria a mulher e filhos à espera. E assim, percebemos que nos hospedou em segredo.

Na manhã seguinte, em pezinhos de lã, saímos do bairro e, com a maior das generosidades, quis dar-nos a provar tudo o que de típico encontrávamos pela cidade.

Começámos por uma pastelaria, onde provámos deliciosos salgados vegetarianos. E seguimos para o mercado. Mas sobre este temos tanto para dizer que é complicado escolher por onde começar! Numa palavra: badalhoquice. Cá vamos.

Pudemos encontrar em todos os mercados rulotes de bebidas. São carrinhos, cada um com a sua especialidade. Sempre que passeamos sozinhos, observamos de longe, mas por norma não chegamos perto. Temos sempre algum receio, nomeadamente no processo de produção da bebida em si, pois a água por aqui não é potável e trazemos alguns recados do nosso médico da consulta do viajante, que pretendemos cumprir. Mas, acompanhados por locais, nem sempre é fácil!

Assim, à chegada, foi-nos comprar uma bebida feita exclusivamente com gelo, onde acrescentam por cima caramelo. E é isto. Adoram por ser refrescante e doce ao mesmo tempo.

Embora em casa fujamos do açúcar, de viagem sabemo-nos muito flexíveis e claro, o que é doce nunca amargou! Mas, e aquele gelo? “Nunca consumam gelo nas ruas”, ouvimos nós no gabinete. O melhor que conseguimos foi um a dividir pelos dois!
Mais à frente, depois de compradas algumas frutas, sempre com a maior das generosidades, quis oferecer-nos uma bebida obtida exclusivamente de amoras. Um líquido preto e, à partida, saudável e saboroso. Mas o pior estava para vir! No fundo dos alguidares das amoras, acumulava-se esse líquido. Com um prato de plástico, tiravam as amoras para sacos de plástico colocados na balança. E em cima do carrinho, tinham 5 copos de vidro de diferentes volumes, desde o cálice ao copo alto: e era com esses copos, de diferentes preços, que apanhavam o líquido do fundo do alguidar, o tal que se bebia. Só que os copos, tal como dissemos, de vidro, nunca eram lavados. O senhor do bigode, chegava, escolhia, bebia, e siga: volta a encher o copo e a bebida está a venda de novo. A senhora dos dentes de ouro e lenço na cabeça, chegava, escolhia, bebia, e siga: a história repetia-se. Era tamanha a badalhoquice e, como que por instinto, conseguimos em segundos dizer que preferíamos provar as amoras inteiras.

Não é fácil. Não é nada fácil explicar que embora viajantes, pretendemos manter alguns cuidados de higiene – até mesmo muitas vezes perante outros viajantes.

Aliás, muitas vezes percebemos que há um desfasamento entre nós e os que nos rodeiam nestas aventuras. Porque sim, gostamos de ter a roupa lavada, de tomar banho todos os dias ou de lavar os dentes tantas vezes quantas consigamos. Gostamos de dormir com pijama lavado, de trocar de roupa interior diariamente ou ter um lençol nosso e lavado para por nos colchões ou nas camas que nos dão. E sabemo-nos olhados como mesquinhas, mas não faz mal!

Sabemo-nos bem assim. E ainda bem que nos temos um ao outro, em sintonia. ❤

Já depois de visitado o mercado, seguimos para as montanhas mais próximas, as 50 quilómetros da cidade, onde visitámos um campo férias onde este couchsurfer já havia trabalhado. Embora com cerca de 600 crianças, depois de conhecermos os monitores, não pudemos deixar de nos lembrar dos nossos tempos de trabalho na CAF da APEECV em Queijas, onde também fomos muito felizes!

E já de tarde regressámos a casa: tivemos depois tempo para reorganizar as nossas mochilas, descansar um pouco e só ao pôr-do-sol fomos sozinhos visitar mais um lindo parque na cidade.

Em casa, tentámos de tudo para ver Portugal jogar. Mas não foi fácil. Sem televisão e com uma internet emprestada por um vizinho, desistimos e ouvimos o relato do jogo pela rádio… mas adormecemos. Acordámos mais tarde com o golo do Nani e percebemos que estávamos então na final! Aconchegámo-nos, virámo-nos para o lado e seguimos sonhos fora.

Na manhã seguinte era dia de seguir para Termez, uma cidade a sul, com fronteira com o Afeganistão. E embora tenhamos tido esperança de que fosse fácil lá chegar, deparámo-nos com um dia à antiga, durante o qual apanhámos 7 boleias: e por cada uma esperámos mais de 1 hora.

Em todas as boleias encontrámos pessoas recheadas de simpatia, mas pelo dia fora houve duas situações que nos marcaram. A primeira que recordamos, marcou-nos porque acabámos a recusar uma boleia: 3 senhores, muito bem parecidos e com um belo carro, falavam connosco de modo exuberado e riam-se de tudo quanto lhes dizíamos. Calculamos pois que estivessem bêbedos. Depois de pararem e de gozarem o prato, seguiram. E mais tarde, ainda nós continuávamos à boleia no mesmo sítio, voltaram dizendo que nos levavam e que iam exatamente para Termez – e foi quando recusámos. As vezes não é fácil, quando estamos à muitas horas para fazer poucos quilómetros, quando vemos as sombras a mudar de posição e nós sempre no mesmo sitio. Mas trata-se de instinto e esse temos de o seguir. É preferível não chegar ao nosso destino, mas estar em segurança.

Já mais tarde, num outro local alguns quilómetros depois, algumas boleias depois, sentimo-nos em Itália. Vimos sol pôr-se. Estivemos várias horas no mesmo sítio, vimos a vida pela aldeia acontecer, e nós sem nos mexermos. Ponderávamos já inclusive onde poderíamos montar a tenda. Até que parou um carro, e de lá saiu um polícia, dizendo – problemas?

Estremecemos dos pés à cabeça. E num segundo, os nossos olhos puderam ver de tudo: passaportes, registos, dinheiro, chatices, corrupção, autocarros, táxis e hotéis.

Respondemos prontamente em russo – niet problema! Mas não convencido, depressa perguntou às pessoas que se começaram a juntar à nossa volta quem éramos e o que estávamos ali a fazer. Foram dizendo que éramos turistas de Portugal, e que estávamos a viajar a pé e ali à espera de um carro no nosso caminho, mas que não tínhamos dinheiro para pagar.

Sabemos bem que tudo na vida se rege pela sinceridade e verdade, mas ali não sabíamos se tinha sido boa opção.

Contudo, no mesmo instante, o trabalho do polícia foi começar a mandar parar carros. Um por um, gritava, gesticulava. Eles encostavam, falava e mandava-os seguir. Até que com uma carrinha das que só por aqui há – as Damas, nos gritou a nós para que entrássemos.

As Damas, são também as carrinhas utilizadas como mashrutkas, e por isso foi imediato pensarmos que talvez estivessem a contar que pagássemos, mas não tínhamos opção. Enfiados ali dentro pela polícia, agradecemos muito e seguimos.

A conversa não foi imediata, os primeiros quilómetros foram maioritariamente em silêncio, mas pouco a pouco, fomo-nos ligando. Eram dois senhores, e já não eram novos. Mas foi talvez o caminho que nos conectou: a estrada, só vendo se crê. Adoraríamos conseguir transpor em palavras a miséria, sem asfalto, sem luz e com dois sentidos, com buracos e montes de areia e pedras, com descidas e subidas, com gravilha e pó. Anti-amortecedores. Anti-carros. Anti-costas. Parecia até que tínhamos entrado no país vizinho! E a melhor forma de classificar: impossível de adormecer.

Foram mais de 2 horas assim, com a coadjuvante de que a cada 30 minutos tínhamos um posto de controlo da polícia (como por todo o Uzbequistão), onde verificam se a pessoa veio em excesso de velocidade (o que no caso era impossível) e se está tudo legalizado. Estes postos dividem regiões, como se em Portugal houvesse na A8 um controlo em Caldas da Rainha, em Torres Vedras, e por aí fora, com o objetivo de manter a segurança e ordem do país. No entanto, dada a proximidade com o Afeganistão, a conversa era mais séria e acrescia o controlo face a drogas.

Sempre pacientes, os nossos condutores, ajudaram-nos sempre que foi preciso declarar os nossos passaportes nesses mesmos postos, esperando com calma e de sorriso no rosto. E já no último posto de controlo, estavam os polícias a ver o jogo do dia anterior, de Portugal contra Wales. E uma vez mais graças ao futebol português se quebrou o gelo.

Já perto da 00h00 chegámos à cidade destino da nossa boleia, mas estávamos ainda a 30 quilómetros de Termez. Sabíamos que tínhamos um couchsurfer maravilhoso e acordado à nossa espera, e por isso fazíamos questão de chegar. Na cidade onde nos encontrávamos, foi a vez dos nossos condutores procurarem por uma boleia para nós, mas sem trânsito e apenas com táxis parados na praça central, depressa percebemos que a missão seria praticamente impossível.

Foi então que num gesto verdadeiramente abençoado decidiram fazer eles próprios de táxi, levar outra pessoa que desejava seguir e oferecer-nos a nós o caminho que restava. E quase sem que pudéssemos acreditar, estávamos a chegar a casa. Seguros, sãos e salvos.

Descansámos que nem anjos, sem que nada nos fizesse despertar. Ainda que o calor fosse muito. Dormimos tanto quanto precisámos, com a certeza de que não poderíamos ter escolhido uma melhor família para nos acolher! E já só à noite, quando as temperaturas eram mais suportáveis, fomos conhecer a cidade e os seus encantos. A verdade é que em Termez, não queríamos acreditar, mas pela localização geográfica, as temperaturas durante o dia variam entre os 50 e os 60 graus. Uma loucura que impede qualquer um de sair durante o dia, e faz com que todos saiam à noite. E à noite que vemos mercados, vendedores, lojas e supermercados, tudo a trabalhar.

Já tarde, cozinhámos à portuguesa, tão bem e com tanto amor quanto sabemos. E sabemos que assim fica de comer e chorar por mais!

Mas foi no dia seguinte que foi difícil de acordar. Era cedo, cedo demais. O calor não cansa, mas mói. E a luz do sol por entre as cortinas da sala não era nada benvinda. Mas teve de ser, e ao segundo despertador começámos o dia. E que dia!

Era pois dia de deixar o Uzbequistão. Era finalmente o dia de chegar à fronteira, de ver como ia desenrolar-se a história dos registos. Será que nos iam pedir os papéis? Será que iam tentar extorquir-nos dinheiro? Será que iam deportar-nos com um carimbo no passaporte?

Embora nenhuma das hipóteses fosse conveniente, só queríamos sentir-nos livres e despacharmo-nos o mais rapidamente possível. Tínhamos um papelinho verde escrito à mão com o nosso roteiro no país e dentro da lei: nunca mais de 72 horas numa região sem registo de hotel. E para evitar maiores confusões, pelo meio dois comboios noturnos. Era esperar para ver.

Passámos o dia à boleia, e se para chegar a Termez não foi fácil, para de lá sair também não.

No primeiro lugar onde nos pusemos à boleia, estivemos mais de 2 horas. Enganados pela sombra de uma árvore, vimos as águas que trazíamos congeladas derreterem. E aquecerem.

Foram vários os carros que pararam esperando de nós dinheiro, e podíamos ver muitos deles a passarem por nós e a voltar para trás na expectativa de que fossemos uma mina de ouro. Depressa se desencantavam e rápido nos deixavam para trás, voltando nós à estaca zero.

Percebíamos ser cada vez mais difícil atravessar as fronteiras no mesmo dia. Mais, não havia qualquer informação online sobre os seus horários, e por isso estávamos sem ideia de como o tudo iria acontecer.

Acabou por parar um carro que nos levou por muitos e bons quilómetros, com apenas um pequeno problema: quis levar-nos a almoçar fora com um amigo, e fez para durar a conversa à mesa. Claro está que temos sempre de contar com estes desvios, mas estávamos em pleno contra-relógio, coisa a que já não estamos habituados.

O nosso coração por norma bate calmo e sereno, e tem sido ele a comandar os nossos dias.

Quando nos deixou, estávamos a 40 quilómetros da fronteira, mas no meio de uma cidade. Caminhámos enquanto a força do corpo nos permitiu, suados e destilados pelo calor e pelas mochilas, até que um taxista – amoroso! nos quis ajudar e nos levou por 2 quilómetros, até à estrada principal.

Aí, caído do céu, parou um camionista Bielorrusso. Falava inglês e ia também para a fronteira. As manhas, sabia-as todas e por isso à chegada tínhamos a lição bem estudada. Era hora de enfrentar as feras.

O primeiro controlo do passaporte fizemos numa verdadeira rulote, com um militar e por entre dezenas de locais que pretendiam também atravessar a fronteira – eram já 18h00 mas estava tudo a funcionar como se cedo fosse.

Caminhámos depois até ao gradeamento e lá encontrámos um militar eximiamente fardado e equipado. Sem rodeios, pediu-nos os passaportes e, sem nos deixar respirar, pediu também os registos.

Baaaammmm.

Tínhamos muita coisa combinada, mas caiu tudo por terra. E a única coisa que conseguimos fazer, foi mantermo-nos firmes. Em cada frase, mostramo-nos tão confiantes quanto soubemos.

Mandaram-nos esperar por duas vezes, e por cada uma vinham 3 e 4 militares, polícias, chefes e chefinhas pedir explicações. Mantivemos sempre o nosso discurso e esperámos sempre descontraídos. Tínhamos mais uma carta no bolso: em última instância, pedir que ligassem para uma embaixada europeia. Mas não foi preciso. A espera foi longa, mas calculamos que unicamente para nos aborrecer.

Carregamos o material e seguimos, aliviados e felizes, com a sensação de missão cumprida!

Os seguintes controlos foram fáceis, nada mais que declarações, mochilas no rx e uma voltinha pelas fotografias do tablet. E o truque é deixar estar por aqui as do casamento: sorriem muito e mandam-nos seguir. Oxalá assim continue, agora que dissemos Olá ao Tajiquistão!

E relembrando-nos nós agora, não podemos deixar de partilhar a mais bela parte que guardamos dos sorrisos até aqui: os dentes de ouro! Lamentamos que arranquem os saudáveis para os pôr reluzentes, mas lá que é uma moda vistosa, é! E rica também.

Como todas as recordações que guardamos: ricas.
Como cada vez mais nos sentimos, dia após dia, com o mundo na mão.

E COM PORTUGAL CAMPEÃO! 🌏❤

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