lado secreto: Turquemenistão

Por entre a vantagem que é saber que temos sempre um novo país à nossa espera, depois de 30 dias no Irão, foi difícil sair do país sem que este deixasse saudade: na verdade, habituámo-nos às pessoas e aos seus costumes, como sempre, mas era hora de seguir.

E deixamo-nos levar: sabemos sempre que há algo de bom do outro lado.

Conseguimos um visto de cinco dias para o Turquemenistão, com obrigatoriedade de cruzar a fronteira em Bajgiran. Um visto caríssimo e difícil de obter, mas tivemos a sorte do nosso lado. Tínhamos por isso de 21 a 25 de junho, datas definidas.

Atravessámos do Irão para o Turquemenistão e, depois de passarmos a fronteira, fomos obrigados a apanhar um autocarro até ao final da fronteira militar. Não fomos sujeitos a nenhum tipo de revista, mas levaram pelo menos 3 horas para nos deixarem passar. E os nossos passaportes passaram pela mão de pelo menos 5 policias .

Depois, saturados mas felizes, andámos 5 dolorosos quilómetros até à primeira paragem de autocarro urbano (que custou a módica quantia de 0,07€ por 15 quilómetros). Muito sol, um calor soberbo. E pelo caminho ainda tentámos apanhar boleia, mas só havia táxis neste percurso.

Então fizemo-nos fortes. E seguimos.

Com muito cansaço e pouca informação concreta sobre o país, quando chegámos a Ashgabat – a capital, a surpresa foi imediata. Tudo minuciosamente desenhado, edifícios enormes e imponentes, estradas maravilhosamente arranjadas. Tudo limpo, detalhadamente arranjado. Canteiros, flores, árvores. Candeeiros indescritíveis, paralelamente organizados. Uma cidade branca. E assim, recém chegados, parecia que tínhamos dado a volta ao mundo e aterrado bem longe, num poço de riqueza.

Estávamos incrédulos.

Os prédios, forrados a mármore. As estátuas, em ouro. Pelas ruas, polícias em cada esquina, paragens de autocarro com ar condicionado e televisão. E pessoas por todo o lado a limpar: vimos de tudo um pouco, desde a retocar os bancos de jardim a pincel, a limpar as fontes ou quaisquer resíduos de partilha elástica dos passeios. E uma vez mais, tudo branquinho, com pormenores em ouro.

Até os autocarros eram lindos.

Mas turistas, nem por sombras.

Encontrámos por entre as ruas desenhadas e os parques majestosos o nosso couchsurfer e deixámos as mochilas no seu carro. Fomos passear pela cidade, deslumbrados e acabámos a dormitar, à vez, num banco de jardim. E mesmo à sombra, sempre a suar.

Já de noite, fomos para casa. Lá, ficámos chocados: os filhos pareciam criados, a trabalhar exaustivamente. Limparam o jardim, lavaram as escadas, prepararam a mesa, trouxeram o jantar, levantaram a loiça e não pararam enquanto não tiveram autorização. E no fim, nem eles nem a mulher puderam jantar connosco, tendo jantado numa divisão à parte.

Com alguma estranheza, pudemos mais tarde vir a perceber que culturalmente nunca a mulher deve fazer as refeições junto do marido quando há convidados. E que nada de anormal aconteceu com as crianças, sendo socialmente expectável que ajudem os pais em tudo.

À noite, dormimos no jardim. Tínhamos combinado que montaríamos a tenda, mas tendo em conta a estrutura de madeira que todos têm nos seus jardins para beber chá, coberta com carpetes, decidimos apenas pendurar a rede mosquiteira.

Embora a família nos tivesse acolhido de uma forma muito querida, foi ao mesmo tempo muito estranho e constrangedor terem uma casa tão grande, com uma sala espaçosa e por ocupar, e terem-nos deixado a dormir na rua; mas o calor era tanto que não houve problema. E decerto aqui nada mais se trata senão de um desfasamento cultural.

Na manhã seguinte, pelas 7h00 tocou o despertador. O cansaço era tanto que nem a luz do dia nos despertou mais cedo. Tínhamos de nos despachar para ir para a cidade, de boleia com a família, pois estávamos distantes do centro.

Embora exaustos, visitámos os bazares da cidade. Pelas ruas, não se via comércio: há locais específicos para isso. E num deles, fomos até obrigados a apagar as fotografias que havíamos tirado.

Absorvidos pela ditadura, vivem o medo dos comentários e também das fotografias. Porque não nos podemos nunca esquecer de que o Turquemenistão é o segundo país do mundo com uma ditadura mais repressiva, depois da Coreia do Norte.

Neste lustre país, o antigo presidente deu-se até ao luxo de erguer a sua própria estátua em vida, e não só. Mudou também o nome das ruas e os meses do ano, para nomes dos seus familiares e de si próprio. Contudo, hoje em dia, depois de ter já falecido, os nomes dos meses estão restabelecidos.

Mais à tarde, ligámos a outro couchsurfer que se mostrou interessado em mostrar-nos a cidade, mesmo não tido oportunidade de nos hospedar! De carro, levou-nos a visitar todos os edifícios famosos e um miradouro; e partilhou ainda algumas das tradições mais comuns no país. Entre dentes, comentou a política, as vestes, atitudes e hábitos, o policiamento e algumas regras.

Já de noite, voltámos a casa para jantar e dormir (no jardim), e embora mais fresco de noite, ficámos bem!

Aliás, quem é que no abraço quente de quem ama, não fica bem?

E na manhã seguinte, partimos. Partimos de Ashgabat para Mary.

Era a primeira vez, oficialmente, que estávamos a boleia no país. E as borboletas no estômago eram mais que muitas. Não éramos fugitivos, nem estávamos a fazer nada de ilegal, mas a verdade é que tivemos de andar a fugir da polícia – apenas e só com receio de que nos fossem pedir dinheiro por andarmos à boleia. A corrupção é elevada e de conhecimento publico, e sabíamo-nos alvos fáceis. Mas o único polícia que nos abordou, quis apenas aconselhar-nos de algo. Só não percebemos o quê, dada a barreira linguística. Mas demos cordas aos pés, e pusemo-nos a andar.

Estivemos mais de 2 horas à boleia, por entre o sol e um calor insuportável, logo pela manhã. Um suplício. O suor marcava as nossas t-shirts, como se já do final do dia se tratasse.

Até que conseguimos boleia. Boleia de um ministro! Levou-nos mesmo até à entrada da cidade onde o nosso couchsurfer vivia, mas não sem antes ter sido mandado parar pela polícia por alegado excesso de velocidade e ter tentado pagar por fora. E assim vive e sobrevive a história do suborno-feliz.

Já perto das 16h00 chegámos e tínhamos um típico almoço à nossa espera. Que embora numa casa antiga, com uma casa de banho apetrechada com um buraco no chão; recheada de pessoas muito carinhosas.

Ao final do dia, já com temperaturas respiráveis, fomos passear. Este nosso novo amigo, com um jeito especial de pensar (que nos fez a nós questionar), levou-nos aos mais belos recantos da antiguidade de Merv, em Mary. E juntos, no topo de uma montanha no deserto, assistimos ao mais divino pôr-do-sol dos últimos tempos!

Com tanto de romântico.

De volta a casa, por segundos, cruzámo-nos com um ciclista carregado de malas: um viajante, portanto! E de tão raro, voltámos a trás. Vindo da Alemanha, procurava um local para a acampar de noite. E foi então que o nosso couchsurfer, de coração grande, o convidou para ficar connosco também. Acabámos então o serão com um jantar delicioso, com iguarias locais vegetarianas: de comer e chorar por mais!

Mas no dia seguinte, era hora de partir. Tomámos o pequeno-almoço juntos, e seguimos rumo a Turkmenabat, perto já da fronteira. A realidade é que 5 dias para conhecer e atravessar um país é uma verdadeira loucura. Ainda assim, temos de estar gratos aos anjos e aos astros. E a todos os que torcem por nós: porque são poucos aqueles que vêm concedida esta oportunidade, este visto.

Depois de mais uma pequena longa caminhada debaixo de sol intenso, conseguimos uma boleia até ao início da autoestrada, com dois senhores locais e muito castiços, com um carro mais que velhote – daqueles que depressa dizemos que não chega nem ao Painho ; e logo outra mesmo até ao destino. Esta última, com um senhor generoso e calmo, que nos quis até oferecer leite de camelo, mas que com respeito aceitou a nossa recusa, por entre o deserto, muito calor, sem ar condicionado no carro e muitos, muitos camelos pelo caminho.

O nosso couchsurfer foi-nos buscar à chegada. E depois de um banho, levou-nos a almoçar fora, a um delicioso buffet. Eram 17h00, e do restaurante seguimos para casa da sogra, que nos havia preparado um lanche. Eram então 18h00. E depois, mal chegámos a casa, pouco depois das 19h00, tínhamos o jantar na mesa. Tudo vegetariano, mas uma loucura de tanta comida! Se por um lado, o verdadeiro acolhimento à portuguesa, por outra, estávamos que já nem podíamos!

Mas para desmoer, ficaram os homens em casa e foram as meninas passear. Por entre-paredes, o serão fez-se por entre conversas, partilhas e vídeo jogos. Pela rua, palmilhou-se o bairro. Conheceram-se as amigas, as amigas das amigas, a modista, a senhora do mini-mercado e quem mais passasse. E já depois do anoitecer, fez-se um passeio pelo mais bonito parque da cidade: uma volta na roda gigante, uma viagem de gaivota pelo lago iluminado. Muitos sorrisos. E muita partilha cultural.

Pelo parque, mulheres nos seus trajes típicos: longos vestidos, de tecidos variados e lindíssimos. Floridos ou com diferentes padrões, praticamente até ao chão. Pudemos aprender que mulheres com lenço na cabeça, são casadas. Também segundo as tradições do país, por baixo do lenço da cabeça, põe uma estrutura de esponja para fazer altura e tornar o casamento vistoso. Gostam pois de dar nas vistas, e se possível, utilizar também grandes brincos e anéis de ouro. E dentes também de ouro: não só um, mas vários ou todos na boca (como por toda a Ásia Central, talvez).

Mas as tradições relativas à virilidade masculina foram as mais espantosas (mas nada inesperados): a homossexualidade é proibida. Quantos aos casais heterossexuais, depois do casamento, devem ir viver para casa dos pais do marido até que o irmão mais novo se case, e assim substitua os serviços da cunhada. Até lá, à mulher, cabe-lhe cuidar da casa, dos sogros, dos vários filhos que deve ter e ainda trabalhar onde o marido achar por bem. E vivem felizes assim, reconhecendo que o trabalho é muito e desgastante; mas que a vida é assim.

E no dia seguinte, na hora da despedida, tínhamos mais um quilos extra nas mochilas, por entre prendas e souvenirs. Nem sempre é fácil explicarmos que tudo o que nos dão, teremos de carregar às costas. Principalmente quando a comunicação é básica e o carinho enorme.

Até à fronteira, levou-nos o couchsurfer que nos hospedou. E já lá, voltámos a ser forçados a apanhar um autocarro, ainda em terra turquemena. Quando chegados ao edifício fronteiriço, onde só queremos receber o carimbo de saída do país no passaporte, fizeram-nos preencher um formulário e quiseram revistar-nos. Não foi uma revista exaustiva, mas aperta sempre o coração. As mochilas grandes bastou-lhes um olhar superficial, depois de perguntaram várias vezes se por baixo era só roupa. Já o nosso saco das ciganadas, o que habitualmente trazemos na mão com comida ou outras tralhas, esse foi despejado. E depois: fotografias. Começámos por mostrar a gopro e fazê-los ver que eram só vídeos e nenhum do país. Mas não satisfeitos, pediram por mais. Embaraçados, entregámos o telefone com a pasta das imagens aberta. Lá, tudo o que tínhamos eram parques e selfies. E com tanta coisa, esqueceram-se de revistar uma das mochilas pequenas, onde estava a verdadeira câmara fotográfica.

Ufff.

Gostaríamos de dizer que não tínhamos lá nada de ilegal, mas tirámos algumas fotos de locais públicos e poderiam fazer-nos apagá-las. Passar fronteiras é sempre um momento de tensão: mas passar fronteiras na Ásia Central é também um verdadeiro jogo de paciência. É de brandar aos céus.

E até à linha final da área delimitada militarmente, tivemos novamente de apanhar um autocarro. Não que sejam dispendiosos, mas o caráter de obrigatoriedade tira qualquer um do serio, até porque as distâncias eram curtas e caminhar estaria ao alcance de qualquer um.

E chegámos então à fronteira do Uzebequistão!

Da nossa estadia no Turquemenistão registámos muitos momentos, muitas aprendizagens. Mas a primeira coisa que nos ocorre dizer, é que é um país louco. E, sejamos sinceros, lindo.

Ainda assim, no que respeita à vida e ao dia-a-dia, guardamos que têm horários parecidos com os nossos e, tal como nós, cozinham com muito tomate e arroz. Descobrimos que uma bebida típica é o sumo obtido quando se cozem maçãs, e a fruta de eleição no verão é o melão. Bebem chá verde várias vezes ao dia, mesmo quando estão quase quarenta graus – o que já nem estranhamos! O pão é muito diferente e as compotas também. Mas o mais invulgar mesmo foi ver o leite de camelo.

Quanto a fumar, é proibido! E por isso vimos fazerem-no às escondidas. Às 22h00 ouvimos e vimos a polícia pelas ruas, exigindo o recolher. Talvez tenha sido esta uma das vivências mais impressionantes e claras da ditadura existente, não esquecendo nunca de que durante o dia e em cada esquina encontrámos sempre policias.

Mas é assim, de estranhezas, curiosidades, questionamentos e graças que se faz uma viagem pelo mundo. E quase de repente, e num piscar de olhos, deixamos todas as novidades às quais já nos habituámos, e recomeçamos do zero.

E levamos o que podemos levar: um ao outro, e o mundo na mão. Por entre sorrisos. E memórias cravadas no coração. Para sempre.

 

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