Salam!

Olá, Irão!

De sorriso no rosto. De sorriso na alma. De sorriso no pensamento. E com o sorriso entre as nossas mãos.

Trazemos quase um mês por aqui; tantas histórias para partilhar, tantas descobertas, tantos encantos. Mas com o acesso à internet muito muito limitado, torna-se difícil fazer atualizações, ou tantas quantas gostaríamos.

Vamos por isso partilhar aqui no blogue o que partilhámos já com o Jornal das Caldas, para onde escrevemos periodicamente; com a promessa de que nos últimos dias deste percurso partilharemos aqui também um diário de bordo. Isto, principalmente, porque para muitos o Irão é um mundo desconhecido e envolto numa névoa de perigo e risco, de pobreza ou fraqueza.

Para muitos, é este um país a evitar, um país excluído, demasiado fechado ou religioso. Só o nome, República Islâmica do Irão, traz ao pensamento dos mais sensíveis imagens menos agradáveis. Mas às vezes, é preciso pesquisar um bocadinho mais, é preciso sair da caixa e procurar ver para lá da sombra.

Na verdade, o Irão tem uma cultura vincada, uma política de mãos dadas com a religião e hábitos distintos. Temos aprendido muitas coisas, descoberto outras tantas. Claro que não trocaríamos a nossa liberdade por nada, mas faz-nos bem saber a diferença. Faz-nos bem, ensina-nos a valorizar o que trazemos de origem. E mais ainda, a ser generosos.

Os homens têm uma vida santa!

Sem grandes restrições, a única obrigação prende-se com a obrigatoriedade do serviço militar (religioso) por dois anos. As mulheres, por lei, devem cobrir as curvas dos seus corpos. Têm de ter sempre o tapado e usar um véu que cubra o cabelo. Os braços também não podem estar expostos.

Fazem o ramadão pela primeira vez aos 9 anos, idade a partir da qual começam também a vestir-se assim e a rezar. Já os homens, têm de o fazer pela primeira vez aos 18 anos. Agora, vive-se o ramadão: mas não conhecemos ainda ninguém que o faça. Conhecemos sim, já, quem coma às escondidas e nos ensine a fazê-lo da melhor maneira!

Vive-se nas ruas a religião com caráter de obrigatoriedade, mas é dentro de casa que se vive a realidade. Até agora, também não experienciámos viver com uma família religiosa. Dentro de quatro paredes estamos à vontade, desde que os vizinhos ou a polícia não o vejam: de calções ou cabelo ao vento, sabe bem.

Nas ruas, sentem-se os elevados graus, o calor e o bafo quente. Ontem quando chegámos a Yazd, passava já das 20h00 e os termómetros anunciavam 37°. De cortar a respiração, neste deserto.

Ainda nas ruas, os transportes são separados, mulheres numa área, homens noutra. Também nas escolas, nas mesquitas, na praia, assim o é. Aos estádios de futebol, só os homens podem ir. Por lei, as mulheres não tocam nos homens; nós como somos casados, podemos andar de mão dada. Mas até para tirar fotografias tem de ser uma mulher a fazê-lo a outra mulher.

Em casa, sentam-se no chão, dormem no chão. Andam sempre descalços, têm grandes e longos tapetes, lindos, e carpetes. À porta da casa de banho e da cozinha, têm chinelos para lá usar. Não têm sanita (bem-vindos à Ásia), não têm banheira: há a latrina e o chuveiro.

Comem ao pequeno-almoço um pão diferente com queijo branco duro. Bebem chá no fim de todas as refeições, mas ao invés de colocarem o cubo de açúcar no chá, colocam-no na boca. E o açúcar que usam para o chá é de beterraba e não de cana. Doce na mesma!

As casas têm um aspeto particular e, por norma, parecem sujas. Têm janelas e portas, eletricidade e água; as estradas e ruas também têm todas asfalto. As autoestradas são boas e as vistas também (por onde andámos até agora, sempre com aspeto árido e montanhoso). Verdadeiramente diferente e grandioso!

As casas por fora têm todas cor castanho ou beje; não há supermercados, só minimercados e “bazares”. É o paraíso das tâmaras e dos pistachos; e é tudo muito barato. Por exemplo, um autocarro para 30 quilómetros custa em média 0,12€ e alugar um T2 são 25€ por mês. A moeda é o real, mas os preços estão sempre em tuman.

A água por aqui é boa, potável e bebem-na da torneira e de torneiras públicas que se encontram pela rua. Já a internet (conforme temos dito) é terrível, lenta e condicionada. Poucos têm wifi. O facebook é proíbido (mas todos têm instaladas as melhores aplicações para encontrar um vpn aberto). E também o nosso blogue aqui é proíbido!

Nos telemóveis, usam o telegram ao invés do whatsapp. E só nestes dias, temos mais contactos de iranianos no telefone, que de portugueses! As pessoas são tão altruístas e bondosas que a princípio até desconfiamos. Todos querem ajudar-nos, todos querem falar-nos!

Mas não sabem o que é andar a boleia, desconhecem o conceito. E mesmo depois de 30 minutos de tentativas (falhadas) do que estamos a fazer, dizem sempre que sim, que entenderam, mas logo no segundo seguinte tentam levar-nos à estação de autocarros ou parar um táxi. Aliás, por aqui, até já dinheiro nos quiseram oferecer para viajarmos, quando dizemos que o fazemos sem pagar. E pelo meio da confusão, enquanto estamos a pedir boleia, param três táxis, vários carros particulares e vêm pessoas das suas casas ver como nos podem ajudar. Instala-se facilmente o caus só para nós “servir”. E no fim, quando as buzinas do trânsito parado são mais que muitas, desistem e querem levar-nos a beber um chá. E por fim, muitas vezes, vemo-nos obrigados a concluir que estamos a viajar a pé. Uma graça.

Entre nós, vivemos o stress e a calma. O nervosismo da comunicação e o encanto das línguas. A paixão e o desafogo!

Pelas cidades, os carros parecem muito antigos, mas afinal por aqui fabricam ainda os antigos modelos. São carros novos com look vintage! Se são modernos, foram importados, e encontram-se na sua maioria em Teerão, na capital.

Também na capital as coisas, por norma, são menos lineares, menos estritas. Mais novidades, mais pessoas, menos religiosidade, menos pressão. Casar, por aqui, é também uma aventura, recheada de estranheza dentro dos hábitos que carregamos. São arranjados pelas famílias: exclui-se a fase do namoro. E mais estranho ainda, são os casamentos entre primos, familiares diretos.

Um infinito de vivências! Um infinito de crenças. A viagem pelo Irão vai já a mais de meio. Mas pela Ásia, vai ainda no início. Mas a cada dia que passa, somos cada vez mais encantados com os contrastes, apaixonados pelas pessoas. E cada vez mais gratos pela vida que temos, pela família que nos criou e pela união que trazemos.

Quanto às fotografias, são muitas e enchem-no coração de recordações; mas não conseguimos fazer upload das mesmas aqui. Vamos por isso tentando partilhar através da nossa página no facebook, http://www.facebook.com/blog.omundonamao.

Khodâfez – خدافظ!

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2 thoughts on “Salam!

  1. Salam! Vou ao Irão este ano e queria agradecer a partilha da vossa experiência.Aprendi coisas que não sabia e reforcei algumas ideias. Adorei ler. Parabéns!

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    1. Olá Cristina! Que bom, ficamos tão felizes 🙂 O Irão é um país fantático, onde vivemos aventuras muito peculiares e intensas. Já espreitou o nosso diário persa? É mais longo, mas reune dias muito bonitos. Esperamos que aproveite bem essa viagem e que traga de lá tantas boas recordações quanto nós! Mil beijinhos 🙂

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