olá, Geórgia.

Um adeus à Turquia: é aquele que entregámos ante-ontem por entre sorrisos e corações cheios. Os nossos! E de todos aqueles que conhecemos.

Ainda em Trabzon, no dia da partida tivemos a sorte e o prazer de conhecer um couchsurfer que não nos pode hospedar, mas que fez questão de nos encontrar.

Levou-nos a um miradouro no topo da cidade. Encantador para a vista! E lá, bebemos chá e comemos pevides – como por aqui se faz. Partilhámos histórias e improvisámos turco; enquanto lhe permitíamos improvisar o seu inglês.

E por entre conversas percebemos que iria em trabalho, da parte da tarde, até Rize: a cidade para onde nós também pretendíamos seguir depois. E assim, juntámos o útil ao agradável, e fomos juntos.

E a hospitalidade é tanta e tamanha, que pelo caminho nos ofereceu um almoço maravilhoso (e bem ao nosso gosto!).

Desta, do tempo que passámos juntos restou gratidão.

Em Rize ficámos em casa de um amigo de um outro amigo, de tempos de Erasmus Universitários. Cedeu-nos um seu tio a casa de férias, por entre montanhas e muita natureza. Forrada de madeira, sem água quente nem internet, fizemos das noites momentos inesquecíveis, por entre banhos de caneco com água aquecida ao lume e cozinhados sem fim.

Da cidade, também encantadora, guardamos a deslumbrante vista do castelo e a simpatia de todos os que por nós se cruzavam e tentavam perceber de onde vínhamos.
E na manhã de sexta-feira, 13, deixámos Rize sem ponta de azar. 🙂

Esticámos os nossos dedinhos na estrada principal, pertinho do centro e pertinho do mar (uma delícia!), deixámo-nos refrescar pelos leves pingos de chuva que se faziam sentir em nós, e demorou muito pouco até parar um carro. Trazia nele dois senhores, pouco faladores – mas muito amáveis. Por entre o que a língua turca nos permite, partilhámos a nossa história, e apenas a seu troco, recebemos dois sorrisos e muita o bondade: deixaram-nos pois exatamente à frente do Hospital de Pazar.

Não, não estamos nem estivemos doentes. Mas foi lá que encontrámos a nossa nova couchsurfer. Neurologista de profissão e paixão, recebeu-nos e cuidou de nós com verdadeiro sangue turco.

Passámos dois dias por entre maravilhas da culinária e maravilhas da natureza. Conseguem imaginar?

É por isso também muito fácil imaginar como nos sentimos. Conectados. Amados.

Ligados.

Entre nós. Com o outro. Com o mundo.

Também nesta passagem tivemos oportunidade conhecer mais amigos. Amigos desta nossa couchsurfer, que nos receberam na sua casa para jantar. Mas gente muito especial, tão especial que nos sentimos em casa. Viajantes, também eles mochileiros de outrora, médicos psiquiatras de profissão e apaixonados pelo mundo. Pudemos trocar muitas ideias sobre doenças mentais e psicomotricidade; sobre viagens e rotas! E a madrugada já ia noite dentro quando nos obrigámos a despedirmo-nos. E mais uma vez, em mais uma cidade, e ainda na Turquia, não só nos abriram as portas de sua casa, como a janela das suas vidas. Marcante.

Temos sempre tanto a aprender com o que nos rodeia. Com quem nos rodeia.

E chegou então o momento, o momento do adeus à Turquia: aquele que entregámos ontem por entre sorrisos e corações cheios. Os nossos! E de todos aqueles que conhecemos.

E por entre a melancolia, a excitação: não há partida sem chegada, e dissemos assim Olá à Geórgia.

Abraçámo-nos na despedida, ainda em Pazar. O mar, mesmo à nossa frente, num tom entre o azul e o verde, paradisíaco e inesquecível. Esticámos os dedos. Esticámos a placa. Um minuto. Um minuto para parar um carro. Um minuto para chegar o nosso bilhete de partida.

Seguimos até à fronteira. No carro, 3 pessoas genuinamente boas, daqueles a quem o olhar faz jus. E entre um o-o (dispensável mas não evitável) e muitas partilhas por entre gestos, turco e inglês, a viagem fez-nos num verdadeiro ápice.

Na fronteira, parecíamos acabados de chegar ao texas. Gente e mais gente, confuso, sujo e barulhento. Filas, gente a vender, gente cheia de malas, sacos e malinhas. Autocarros, camiões. E fizemo-nos ao caminho.

Atravessar até à Geórgia foi mais fácil do que parecia: receberam-nos com sorrisos e descomplicações, sem grandes conversas ou revistas. E um “good trip”, que já sabemos ser os votos de uma boa viagem!

Já do lado de cá, em território e chão Georgio, sentimo-nos num mundo diferente.

A verdade é que os transportes públicos da Turquia não podem passar. Nem os táxis. Nem os carros alugados. As pessoas têm de os abandonar, passar a fronteira a pé e apanhar um novo transporte do lado de cá. Portanto, é muito fácil de imaginar o caus instalado. Todos tentam “vender” o seu transporte, ao melhor preço. Ganham a vida assim. Bem como os vendedores de rua: é comida, é água, é cigarros, é táxis, é casas de câmbio… e muita gente misturada. Muitas malas e bagagem. E muitos olhares curiosos. E, ao fundo, a bandeira da Geórgia.

Sentimo-nos verdadeiramente acabados de chegar.

Não caminhámos muito até recomeçarmos a pedir boleia. Claro está que muitos nos tentaram ajudar a troco de dinheiro, mas conseguimos recusar com facilidade e sem constrangimentos, até que em poucos minutos parou um carro. Levou-nos até Batumi a uma velocidade estonteante – se a condução na Turquia tinha muito que se lhe dissesse, aqui não há palavras. Mete medo! Pé no acelerador, mão na buzina: saiam da frente. Não, a buzina não serve para alertar em caso de perigo, serve literalmente para chamar à atenção no sentido oposto, “Cuidado, eu vou passar!”. Ficamos sem ponta de sangue e colados aos bancos, e não há mais nada que possamos fazer.

Mas por de trás da sua condução, estava um homem maravilhoso, disposto a tudo para nos ajudar. Quis levar-nos exatamente até casa de quem nos ia hospedar. E para isso, perguntou pela rua tantas vezes quantas necessárias, onde ficava a morada. Incansável, os olhos sorriam de bondade.

Também assim sorriam os olhos de quem nos hospedou. Uma verdadeira lição de vida, ainda só estamos nós a viajar à pouco mais de dois meses. Quatro amigos, turcos, recém chegados a Batumi, publicitam num grupo de facebook que se mudaram, e que podem receber quem os queira visitar. Nós! Um couchsurfing informal, mas muito gratificante.

Não há referências, não temos como expressar publicamente como fomos recebidos: mas mais uma vez, cederam-nos a cama e parte do seu tempo. Entre jantar e pequeno-almoço, entre gestos e turco, partilhámos o que pudemos.

Mas sabemo-nos mal habituados. No ocidente ouvimos sempre dizer que “ninguém dá nada a ninguém”. Aprendemos, intuitivamente, a ser desconfiados. Vivemos assim sem nos questionarmos; mas questionamos todos os que nos rodeiam e as suas ações. E chamamo-nos cuidadosos.

Aqui não mudamos aquilo que somos, mas aprendemos a ser mais alguma coisa.

Mais que não seja, generosos.

E ontem, pela manhã , partimos rumo a Tbilisi, onde estamos agora. Sabemos que prometemos atualizar o blogue, mas a viajar, nunca nada é previsível.

O tempo estava incerto, mas seguimos à aventura. Por entre nuvens e ameaças de chuva, sentíamo-nos num dia de inverno. Há dias assim.

Também os nossos corações estavam incertos. Resmungões e insatisfeitos. Que nem nuvens a estragar um dia de sol. Há dias assim.

O peso das mochilas incomodava-nos; doíam-nos os ombros, as costas, o pescoço. E o peso dd Batumi também nos incomodava. Ruas e ruas sem alcatrão, esburacadas e sujas. Prédios e prédios, metade betão, metade chapas de zinco. Prédios e prédios com andares construídos e habitados, e tantos outros completamente abertos e por construir. Uma pobreza escondida em cada esquina. Visível na forma de estar, de andar, de vestir, de ser. Muito difícil de descrever e muito fácil de sentir. Mas, junto ao mar, uma riqueza de fachada: mesmo por entre a descrição acima, grandes hotéis e um casino. Para quem? Perguntamos nós.

E cabe-nos relembrar que por aqui, o ordenado mínimo é de 150 euros. Isto quando há trabalho. Porque cabe-nos também relembrar que a taxa de desemprego aqui é superior a 30%. E não, as coisas não são mais baratas que na europa – só mesmo o tabaco. É por isso impossível não nos questionarmos sobre como vivem.

E numa pequena casa, onde se vendiam hambúrgueres e trocavam também dinheiro, aproveitámos para trocar alguns euros e fizemo-nos ao caminho. Depois, depois de quase 1 hora à espera da primeira boleia do dia, São Pedro fez das suas, e desabou a chover. Cupiosamente.

Corremos para nos abrigar, por entre chapas e telhas, chapéu de chuva e capa, e lá nos desenrascámos. Mas o dia não estava de todo a correr bem! E já não bastava estar a ficar tarde, como aqui temos 1 hora a mais no fuso horário, e sabíamos ainda ter pelo menos 6 horas de viagem. Sim, estávamos a 380 quilómetros de Tbilisi, mas conseguem imaginar o estado das estradas até lá.

(In)Resignados, esperámos que a chuva abrandasse.

E quase duas horas depois, voltámos à estrada. Mais calmos e confiantes, erguemos a nossa placa com convicção. E por entre o trânsito que se fazia sentir, encostou um carro tipo carrinha, e seguimos juntos por 50 quilómetros. Valeu-nos o turco aprendido (que especialista!) e foi fácil a comunicação!

Quando nos deixou, a chuva estava longe. Avistávamos as negras nuvens ao fundo, mas nada que nos intimidásse. E lá, foi muito rápido de apanhar a segunda boleia: um senhor ucraniano que ia até meio caminho. Fraca comunicação, mas com muita simpatia à mistura, deixou-nos já quase de noite a 180 quilómetros do nosso destino.

Ali, um senhor que nos avistou, insistiu para que fossemos para um hostel descansar. E poucos minutos depois, já nos havia oferecido o seu colar e convidado a comer e dormir em sua casa. Apontava para o céu e dizia que a noite estava a chegar. A seu ver, era hora de recolher! Levámos mais de 10 minutos a agradecer-lhe e a recusar. Sabíamos que ali conseguiríamos apanhar uma boleia direta e tínhamos uma amiga de uma amiga à nossa espera! Por isso, só precisávamos de ficar sozinhos para o conseguirmos, e assim foi! Quando nos deixou, não demorou 1 minuto até que parasse um novo carro: conduzia-o uma jovem, e permanecemos juntos por 3 horas, até ao nosso destino.

Entre inglês e turco, contámos histórias e partilhámos hábitos. Comemos pão típico da Geórgia, comprado na estrada; e passámos também momentos de aperto! Não, a condução caótica não diz só respeito a homens. É cultural e para todos. Passadeira? O que é isso? Cruzamento? Rotunda? Ultrapassagens? Duas faixas? Traço contínuo? O que é isso? Tudo para enfeitar. Até mesmo os limites de velocidade e os radares. Se diz 30 com sinal de perigo em baixo, ou obras na estrada, vai-se a 80. Ou 120 se houver necessidade de ultrapassar uma fila de camiões. Portanto, e em suma, podemos dizer que nos mantivemos acordados e animados.

E estava já perto da 1 hora da manhã quando pusemos os pés em casa: rodeados de natureza, com duas amigas incansáveis, numa casa maravilhosa, e com petiscos típicos à nossa espera. Que bom que é quando assim é, quando tudo acaba em bem!

Por hoje, hoje esgotámos energias a percorrer a cidade. Tbilisi é muito diferente de Batumi. Com um calor duro durante o dia, descobrimos o seu lado lindo, o seu lado diferente. Até a língua, estranha de ouvir, fez os seus encantos. Com muitas igrejas ortodoxas, conhecemos também novas realidades. Embora envolta de muita precariedade e miséria, é uma cidade muito bonita.

Encantou-nos, de braço no ombro e caminhar junto.

Amanhã é dia de seguir viagem. De voltar a carregar as mochilas às costas. De abraçar novos mundos. Novos sorrisos – decerto. Amanhã é dia de mais uma fronteira, de mais umas borboletas na barriga.

É dia de entrar na Arménia.

E em breve, será dia de entrar no Irão.

Quem nos sabe de cor, sabe que transbordamos felicidade.

Saudades já também – mas por entre quem ama, quem não as sente?  ♡

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