e depois de Istambul

“Gosta de futebol? Fenerbahçe? Besiktas? Galatarasaray? Portugal, Benfica! Cristiano Ronaldo. Figo. Nani. Çok güzel!”

E assim se começam as mais longas (ou curtas) viagens, as mais longas (ou curtas) conversas. Assim se trocam os primeiros sorrisos. As primeiras gargalhadas!

A espera pelo visto do Uzbequistão em Istambul levou-nos a por lá ficar durante 15 dias; 15 dias que voaram numa cidade assim.

Abraçámos a Turquia e a cultura que por ali aprendemos e começámos a conhecer.

Faz como vires fazer – tornou-se o nosso maior lema. Nem sempre é fácil ou intuitivo, mas corre sempre bem.

Vive-se de leve o receio do terrorismo; esconde-se entre quatro paredes, frases meio faladas e olhares escondidos. Partilha-se que ali é mais perigoso, acolá mais calmo. Mas que nunca se sabe. Evita-se passar por aqui, passear por ali. Aos fins-de-semana deixa-se a cidade e durante a semana finge-se que não se sente. O receio.

Mas ele existe.

Mas a vida continua, lá em Istambul. Não há remédio, nem solução. Há vida para ser vivida.

Foi já na última sexta-feira que optámos por visitar os lugares mais turísticos; as mais belas mesquitas e os mais belos recantos (as fotografias encontram-se no post anterior).

Quando a deixámos para trás, seguimos rumo ao Mar Negro, sem paragem em Ankara. Não foi uma decisão fácil, ponderámos dia após dia. Os maiores conflitos acontecem no Sudeste da Turquia, mas a capital não é agora altura de a visitar: nunca se sabe.

Seguimos então para Bolu, meio caminho para a costa de forma a não fazermos tantos quilómetros num só dia.

O plano seria pernoitar e seguir viagem. Não que estejamos “atrasados”, mas há sede de andar! E chegar a Bolu foi fácil. Não, fácil não é de todo a palavra certa; foi…

Saímos de casa completamente fora de horas. Preparar lanche. Almoço. Trocar roupa; de inverno no fundo, verão por cima. Fechar mochilas. Água. Saco das tralhas. (…) O turno da manhã já lá ia, e quem nos conhece bem consegue imaginar como foi! Um corre corre para despachar e um soninho descansado para acalmar. Os opostos atraem-se, não é?

Caminhámos de casa até onde sabíamos que nos iríamos por à boleia. Lá, esticámos os dedos e a nossa placa. E do alto de uma via que passava mais à frente, pudemos avistar um taxista a acenar.

Os táxis levam os seus dias a buzinar-nos. A ideia é transmitir-nos que estão livres e que nos podem levar. Mas longe de nós apanhar um. Tentámos por gestos recusar. Mostrámos a placa. Gritámos “autostop”. Mas nada. Continuava ali, a acenar-nos.

Agarrámos nas mochilas e subimos. Não tínhamos alternativa, com tamanha insistência.

Era realmente um táxi e um taxista; mas não queria dinheiro. Queria ajudar-nos! Queria levar-nos! Dar-nos boleia. E deu! E a primeira boleia do dia foi então de um taxista, que recheado de bondade e simpatia nos levou até à autoestrada. Tendo em conta que de diâmetro Istambul tem (imaginemos) 200 quilómetros, estávamos ainda no centro, mas estávamos totalmente encaminhados.

Não que tivéssemos tido tempo para conversar, mas sabíamo-nos felizes. O silêncio entre nós é cúmplice e denuncia-se. Tal como nós dois.

A primeira coisa que avistámos, foi um carro da polícia. E a primeira coisa que o senhor agente fez quando nos viu, foi saudar-nos! Sim. Saber de onde éramos, para onde íamos. Sorrir-nos e oferecer-se para nos levar a passear. Acenar-nos e desejar-nos boa sorte e boa viagem! Sim, em pela autoestrada. Turkish style!

Ali a pedir boleia não estávamos nada seguros. Também ao Turkish style pertence o caus no trânsito. Qualquer berma serve de faixa. Todo o carro lento leva uma buzinadela. Ultrapassagem que é ultrapassagem tanto se faz pela esquerda como pela direita. E acelerar mesmo quando está tudo parado é o melhor truque para se arranjar um espacinho a mais lá à frente. Portanto, volta e meia, e tínhamos que nos encolher porque (na berma) lá vinha alguém disparado.

Ainda assim, foi graças a este belo estilo que um camião atravessou duas faixas para parar e nos levar. Se achávamos que era possível? Não! Se aconteceu? Sim!

E ainda bem, porque nos levou por várias horas e praticamente até à porta de casa. Pelo caminho, ainda parou para nos oferecer um chá, o que por aqui é mais comum que o café em Portugal.

Já em Bolu sabemos bem o que parecíamos: cheios de tralha e sacos e saquinhos e mochilas e mochilinhas! Mas estávamos muito muito perto da morada que tínhamos. Ainda assim, não foi fácil encontrar o nosso couchsurfer, mas na rua um senhor ajudou-nos de bom grado. E embora seja muito difícil (e raro) encontrar alguém que fale ou perceba inglês, aqui o mestre das línguas já se inteirou do turco também, e por isso conseguimos desenrascar-nos sem grande esforço. Mas, claro, a grande questão prende-se com a hospitalidade das pessoas!

E a noite que íamos passar em Bolu, transformou-se. Acabámos por ficar 3 noites e mais ainda se estenderia se assim o quiséssemos.

Médico, o nosso couchsurfer trabalhava durante o dia; mas garantiu que uma amiga (que falava inglês!) nos guiaria e levaria a conhecer a cidade e redondezas. Com algum constrangimento no início, sabemos que desta estadia resultou uma grande amizade. Há pessoas que têm o coração no lugar certo é sempre com espaço para mais agúem. Há pessoas que dão o que têm e não têm e ainda arranjam mais para dar. Assim foi.

Passeámos. Cozinhámos. Vimos futebol. Respirámos natureza. Cantámos. Aprendemos. Partilhámos. Que difícil é descrever! E que bom foi viver.

Aproveitámos ainda a ajuda imensa hospitalar e fizemos análises; que isto de ser vegetariano é muito mais que uma seita (como a mãezinha Alexandra gosta de chamar!). É cuidar e saber cuidar!

E no fim ainda fomos a casa de amigos, com amigos e família, para um serão verdadeiramente turco. Para nós, é mesmo isto que nos preenche. Fazer parte. Penetrar esta gente. Viver na cultura, pertencer-lhes e fazer como fazem. Descalçar os sapatos a porta. Ir à casa de banho numa latrina. Beber muito chá turco. Numa tulipa. Comer salgados, doces típicos. Batatas cozidas. Café turco, com um copo de água. Bolas de amendoins. Pevides. E no fim, receber um lenço para cobrir o cabelo; porque querem que nos relembremos deles no futuro e durante a nossa jornada. É ou não é isto o mais lindo lado da vida? Deixarmo-nos viver no outro. Nos sonhos do outro!

Mas de avião e em hotéis nada disto seria possível. Podíamos conhecer muito, mas não podíamos viver tanto! E em tom de brincadeira, os nossos amigos agradeceram por não sermos ricos e termos optado por conhecê-los. Mas a verdade é que nunca nenhuma quantia pagaria o que vivemos. E às vezes o mais estranho está no facto de as pessoas nos agradecerem por as termos vindo visitar. Como se não fosse o contrário: nós gratos por nos abrirem as portas de suas casas e as janelas das suas vidas!

E assim nos despedimos de Bolu hoje. Com um pequeno pormenor: aqui é ainda inverno. 16 graus voltam a ser a máxima. Chuva. Granizo. Muita chuva. Trovoada. E fresquinho! Valeu a pena despejar as mochilas e reorganizar para o calor. 🙂 Ai mundo mundo.

E hoje já com as estrelas no céu chegámos a Samsun: e se nos puséssemos agora a contar como foi, nem amanhã terminaríamos. Mais tarde o faremos. Mas uma coisa é certa, estamos hoje mais ricos que ontem. Muito mais.

E mais felizes (somos) também!

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