a magia de ISTAMBUL

Há tanto sobre Istambul para contar, que o mínimo é mesmo a forma como aqui chegámos. Mas como as histórias se começam pelo princípio, não podemos fazê-lo diferente.

(Mas apetece-nos muito)

Fez no sábado uma semana que chegámos: partimos de Alexandroupoli, na Grécia, já tarde. Tarde, não. De tarde. Não era suposto, mas descobrimos pela manhã que não poderíamos tirar o visto da Turquia na fronteira – hoje em dia é online e chama-se e-visa. Lá está, o mundo gira, não pára, e nós andamos com ele. Acabámos por nos defrontar com alguns problemas logísticos, como o pagamento do mesmo atraves da Internet, sem MBnet feito… pensamos que conseguirão imaginar.

Bom, quando nos fizemos à estrada, era já hora de estarmos a chegar a Istambul – no nosso pensamento!

Ainda no centro da cidade, e mesmo em jeito de brincadeira, iamos andando de costas e de dedo esticado. Entre nós, trocavamos sorrisos e malandrices, gritávamos aos ventos que sabíamos que se na Grécia nos viamos gregos para andar à boleia; na cidade nem valia a pena tentar. Mas brincar também faz parte! Testar também faz parte.

E supresa das supresas: encostou uma senhora que nos levou até à entrada da autoestrada.

Não adianta dizer que era simpática, que foi um anjo ou que tudo o que nos partilhou nos foi gratificante. Não adianta porque naquele momento estávamos vidrados: vidrados no que tinha acabado de acontecer. E quando nos deixou, rimo-nos. De nos próprios. Um do outro! Rimo-nos por entre sorrisos e gargalhadas soltas.

Afinal, moral da história. Podemos achar que nos vemos gregos na Grécia e na Itália; mas também pode ser um verdadeiro mar de rosas. Aqui, ali, ou em qualquer parte do mundo: depende apenas (e só) daqueles que se cruzam no nosso caminho.

À entrada da autoesta acabámos por esperar algum tempo. Mais de uma hora decerto.

Não havia muito trânsito; e os carros que por nós passavam, nem para nós olhavam. Mas a nossa aura era verdadeiramente positiva, estávamos confiantes. Limitámo-nos a esperar. Como sempre. E como sempre também, acabou por parar um carro.

Trazia o sonho de viajar pela Europa a pedalar. Ciclista de coração, pesavam-lhe agora os seus mais de 50 anos e a frustração associada à idade. Lembrámo-lo que a idade só traz experiência; não nos impede de nada.

E como muıtas vezes por aí lemos (e sentimos – como sendo prova disso): quem quer realizar um sonho, arranja uma maneira de o fazer. Quem não quer, arranja várias desculpas.

Deixou-nos em plena autoestrada, antes mesmo de sair desta com rumo ao seu destino.

Lá, ficámos de pé atrás. A Grécia pertence à União Europeia, é suposto que as regras não sejam assim tão divergentes daquelas a que estamos habituados. E por isso, estar à boleia em plena autoestrada não parecia grande ideia. Mas não demorou muito até que passassem por nós dois carros de polícia. E nada.

Estávamos portanto a nosso belo prazer.

Ali ficámos por várias horas e por ali assistimos a tudo. Na autoestrada, vimos carros parar, carros em marcha-atrás e até pessoas a encostar, sair e pedir informações (a nós dois, com certeza).

Uma panóplia infindável de contraordenações. Pérolas – ainda na Grécia.

Ali mesmo conseguimos a terceira boleia do dia. E última! Um jovem da Geórgia parou. Apressamo-nos a entrar e foram precisos apenas 2 minutos para nos sentirmos confortáveis. E descansados.

Falava com alguma dificuldade, mas não por falta de competências linguísticas: tinha uma cicatriz indicativa de fenda do palato, já sarada, mas que influenciava a dicção. Mas nem por isso nos entendemos menos bem.

Caminhámos juntos até ao centro de Istambul. Mas até lá, foram 250 quilómetros de muitas aventuras.

A maior, na fronteira. Ultrapassámos juntos cinco postos de controle, todos eles exigentes e minuciosos. E revistaram tudo, até mesmo as nossas mochilas. É por isso que atravessar uma fronteira não tem como não ser um momento tenso. Mais, quando a comunicação se faz rudimentar e onde o inglês deixa de ser um porto de abrigo. No fim, respiramos sempre de alívio – mesmo quando não há por que temer.

Foi com pena que nos deixou na via rápida que atravessa Istambul e segue com destino a Geórgia. Sim, naquele dia (ou naquela noite), tinha ainda mais de 1500 quilómetros para fazer. Parece surreal, mas é assim mesmo. E por isso, nós dois, éramos companhia e conversa e partilha para cada hora da longa viagem que estava ainda por vir.

Mas a nossa caminhada é assim; e a pior parte dela é mesmo termos de dizer adeus. Controverso: são as pessoas que fazem valer a pena e são as pessoas quem deixamos para trás.

Mas menos controverso é o facto de rechearmos assim os nossos corações: só se sente saudade e aperto quando se gosta. Gostamo-nos muito e trazemo-nos sempre por perto; mas temos também gostado muito de todos os que se têm cruzado em nós!

Esta jornada não é só a do mundo na mão. É também a do amor no mundo e entre as nossas mãos.

E aqui em Istambul não tem sido diferente.

Se tivermos de descrever até aqui a nossa estadia, há uma palavra que lhe assenta: luxo. Temos sido afortunados.

Estamos há mais de 10 dias a viver com uma família turca, nascida e criada em
Istambul; numa casa linda e recheados de amor. Nao há forma mais bonita e completa de conhecer uma cultura e de viver uma cidade. Um verdadeiro luxo.

E não é cliché quando dizemos que nos têm dado tudo. Porque têm mesmo! E ainda mais um bocadinho. Desde passeios, jantares, encontros de família, almoços, viagens, partilhas… “Auuff” – como por aqui se diz.

Quando pensamos que falta já pouco para termos o nosso visto para o Uzebequistao (sim, é à ele que devemos esta longa estadia), ficamos até divididos: queremos muito partir, mas estava a ser tão bom ficar.. 😊

A magia que aqui presenciamos não percebemos ainda a que se deve. Talvez aos nossos arkadaslar (amigos). Talvez à cidade em si. Talvez à mistura, à diferença. À magia! Há tantas característica que valem a pena ser partilhadas, que é difícil sintetizar. Melhor, vivendo.

Os sapatos não entram em casa. Ficam à porta. Há chinelos para todos, ninguém tem de se preocupar! E por isso, andar descalço é decerto como pisar nuvens no céu.

Despedem-se com um abraço e muitos sorrisos. E güle güle!

Andar pelas ruas mais movimentadas é uma aventura. Não param quando alguém está parado para atravessar a passadeira. A única solução é tentar a sorte e pisar a estrada. E hão-de parar – esperamos nós e esperam todos! E Istambul é uma cidade tão grande que equivale a 50 Lisboas. Sim. 50.

É tanta gente, tanto trânsito, que da periferia ao centro, um percurso de 15 minutos leva 2 horas. Sempre!

Istambul, cidade, permite-nos ir da Europa à Ásia. Literalmente. Divide-se por uma ponte. E as diferenças sentem-se!

Entretanto, vive-se e sente-se o medo dos atentados, mesmo que ninguém fale abertamente sobre o assunto (ainda assim os mais próximos confirmam-no por entre os conselhos mais sábios).

Embora a maioria da população seja muçulmana, percebe-se que a prática do Islamismo é bastante peculiar. A religião adaptou-se aos tempos modernos e as demais religiões são respeitadas.

Cinco vezes por dia é cantanda nas mesquitas e para toda a cidade uma reza em árabe; nesse momento cabe a todos respeitar o som. Quem está deitado, senta-se. Quem está refastelado, endireita-se. Quem está a ouvir música, desliga-a. Para os mais religiosos, é um momento de reza. Para todos os outros é um momento de respeito.

De qualquer forma é tão comum ver alguém de alças, como coberta da cabeça aos pés. Mas mais comum é o lenço na cabeça ou o hijab. Até à pouco, era proíbido entrar na escola, ou na faculdade, assim. Hoje em dia foi liberado.

Por aqui, o vegetarianismo é difícil de entender: explicaram-nos que o Corão diz que os animais são o alimento do homem. Têm uma vasta cozinha tradicional (e são várias as iguarias vegan, sem que pensem nisso!). Deixámo-nos apaixonar pelas receitas com bulgur, lentilhas ou leguminosas. Uma típica e deliciosa é o Çiğ köfte, é amassado à mão, come-se frio, embrulhado num wrapp ou numa folha de alface, com umas gotas de limão. Também sobre o assunto e a título de curiosidade: o tofu custa 24tl por 200g, o que equivale a perto de 7€.

No que toca a dinheiro, moeda é a lira turca (tl) e as moedas fazem lembrar euros. A economia embora também baseada em mercados de rua, sustenta-se claramente em superfícies comerciais. Nos supermercados, é possível e normal encontrar pessoas com os seus próprios negócios pessoais; e gritam como se numa feira estivessem, incentivando a compra dos seus produtos.

Mas entretanto, é difícil encontrar alguém que fale inglês, mesmo que se trate de gente jovem. Pedir indicações, ajuda numa loja ou fazer compras é uma aventura.

Por fim, existem ainda duas tradições que nos marc(ar)am:

Por cortesia, cabe aos homens cumprimentar as senhoras mais idosas com um beijo na mão; depois a mão deve ser levada à testa e pode então dar-se os dois beijinhos habituais.

Por bem-estar, bebem chá preto pelo menos 3 vezes ao dia. É fervido puro e só no copo diluído em água. É servido num copo em forma de túlipa. Sempre que alguém termina, é de imediato oferecido outro.

E por entre fantasias, assim se vive em Istambul.

Fascinante. Encantadora. Sedutora.

Misteriosa.

Mais uma, pelo mundo, que marca a nossa (linda) história. E que fica na história da gente.

:::::::: Fotografias em upload

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