viram-se gregos, na Grécia

S de Skopie. Skopie de sorriso. Skopie de soalheira. Skopie de sensível. Skopie de super. Skopie de sentido. Skopie de saudar.

Em Skopie passámos 6 noites, um novo record. Trocámos os euros pelos denares e a nossa cultura pela deles. Passeámos, deixámo-nos absorver por cada história, cada novidade, cada diferença. E quantas diferenças!

Por lá ficámos todo este tempo em casa de dois EVS – programa de voluntariado europeu, onde fomos tão bem acolhidos quanto recebidos.

Mas por lá o nosso coração batia descontrolado: era tempo ou receio, era ansiedade. Era o nosso visto para o Irão.

Quando contactámos pela primeira vez a embaixada do Irão, ainda em Belgrado, disseram-nos que lá seria impossível obtê-lo. Também em Skopie foi assim.

Mas desta tivemos sorte. O Cônsul aceitou receber-nos e até lá conhecemos uma amiga do Irão. E esta sim, foi luz. Foi a sorte! E a fonte dos nossos sorrisos. Ajudou-nos de tal forma, que em dois dias tínhamos os vistos colados nos nossos passaportes!

Foi por isso que logo na manhã de quarta-feira, dia 13, depois de saídos da embaixada, nos fizemos ao caminho.

Com vista à Grécia, queríamos ainda naquela tarde chegar a Thessaloniki, a poucos quilómetros da fronteira. Apanhámos por isso um autocarro urbano para nos tentarmos afastar o mais possível do centro da cidade e lá conseguimos a primeira boleia para abandonar a Macedónia.

A boleia não foi longa, como aliás todas as que caraterizaram esta viagem. Por isso foram tantas. Mas continuemos!

Este jovem que nos levou, falava inglês tanto quanto basta e havia estudado num escola Turca. Pudemos perceber que pelos Balcãs muitos o fazem – estudar numa escola turca!

Quando nos deixou, já numa cidade longínqua, conseguimos sem grande demora apanhar outra boleia.

Esta, com um senhor tão simpático quanto consigam imaginar: o inglês não era o seu forte, mas esforçava-se em cada palavra! Deu-nos comida, bebida. Deu-nos partilhas, histórias de vida. Deu-nos sorrisos! E a boleia. E deixou-nos a 10 quilómetros da fronteira com a Grécia! Já não faltava tudo.

Quase quase com os olhos postos em território grego. Em pulgas para lhe sentirmos o cheiro. Cheiro a mar!

E, com o entusiasmo guardado nas nossas mãos, esticámos os dedos.

Parecia magia.

Apareceu então um carro. Um grande carro. O jovem acenou-nos para que entrássemos e levou-nos até a fronteira. Percebemos que não ia para lá, mas que nos quis levar: e pelo caminho partilhou os seus negócios pouco explícitos e os seus gostos internacionais!

Até aqui, parecíamos bichinhos dentro das conchas, a ser levados pelo mar.

Umas boleias atrás de outras. Passavam por nós ondas e areias. E víamos tudo passar por nós, rápido. Velozmente.

E limitavamo-nos a sorrir. Felizes.

A felicidade é assim; vive-se nela. De corpo e alma. E quando se partilha, com amor, são dois corpos e uma alma a viver nela. Na felicidade!

Já na fronteira, fizemo-nos ao caminho; mas a pé. Sabíamos que a podíamos atravessar assim, e assim o fizemos. Passámos três guardas fronteiriços, em diferentes postos. Todos nos deram um sorriso; todos nos deram o seu lado bom! Não que seja estranho, mas atravessar uma fronteira é sempre um momento tenso; de poucas palavras e poucos sorrisos. Limitam-se habitualmente a dizer “passaport”, “bag”, “where are you going”, “why”. E pouco mais.

Mas a pé foi diferente. Pareciam entusiasmados! Talvez os nossos olhos falassem por nós. Mesmo com as mãos suadas entre-nós, do nervoso miudinho de mais uma etapa.

Concluída!

Estávamos pois na Grécia!

O sol já ameaçava pôr-se.

E, o pior – dizem!, o Benfica jogava dali a duas horas, contando já com o fuso horário. É que uma equipa portuguesa (na liga dos campeões), é concerteza, é concerteza uma equipa portuguesa. 🙂

Acabámos por nos deliciar com um crumble de maçã, que tínhamos feito em Skopie, e pouco esperámos pela nova boleia: dois rapazes mais destravados, com uma condução não tanto prudente, mas simpáticos e amáveis. Inglês não era o forte de nenhum dos dois, mas chegou bem para nos entendermos!

Do local em que nos deixaram, ainda que perto da fronteira, estávamos bem encaminhados para chegar a Thessaloniki. Embora até casa faltassem ainda cerca de 80 quilómetros, e a lua já estivesse luminosa céu adentro, não nos restava mais que esperar de dedo esticado. É assim o fizemos.

Até parar um novo carro. Percebemos pelas primeiras palavras trocadas que seria francês, mas deixámos que se apresentasse. Era realmente de Paris, produtor num canal televisivo nacional e estava ali para fotografar o campo de refugiados de Idomeni, por onde depois passámos.

Tendas. Fogueiras. Tendas. Mais tendas. Luzes perdidas.

Gente. Mais gente. Crianças. Histórias de vida. Professores. Médicos. Mães. Pais.

Mulheres grávidas. Recém-nascidos.

Mais gente. E uma dor na alma. E um campo de refugiados.

Chegámos a Thessaloniki ainda meio atordoados, mas chegámos bem. Já tarde, cansados e fora de horas. O peso das mochilas vincava já os nossos ombros, quando percebemos que tínhamos pela frente ainda uma caminhada de 3 quilómetros muito especiais: sempre a subir! Restava-nos pouco mais que apelar à nossa força interior. Não foi fácil, mas no fim soube bem. Soube bem chegar a casa; à casa do couchsurfer que nos hospedou!

Cozinhámos muito, descansámos e passeámos nos doís dias que lá passámos. Caminhámos também muito, sempre a subir e a descer; sempre a descer e a subir.

Acreditámos por estarmos numa cidade europeia, que estaríamos em casa. Mas essa é a que trazemos às costas! Não mais iremos reconhecer por aí uma cultura assim. Mais que não seja porque de mota não usam capacete, mesmo lado a lado com a polícia. E andam com as motas pelos passeios, como se de estrada de tratasse. E é este apenas um exemplo!

Mas é bom, é interessante caminhar assim: na imensidão da novidade e da diferença. Só saindo da nossa zona de conforto podemos e conseguimos dar valor ao que temos; e só quando nos confrontamos com realidades diferentes, conseguimos sair do nosso mundinho, tão pequeno quanto o nosso umbigo. Insignificante e irrisório. E só assim podemos crescer. Na verdadeira essência do ser.

E a nós, permite-nos crescer juntos; amantes. Por entre medos e conquistas. Sorrisos destemidos e abraços silenciosos, que por si falam. Por vezes no meio do nada, sem nada; sabemos que temos tudo. Porque nos temos.

Na manhã de sexta-feira, 15, apanhámos dois autocarros para chegar à periferia da cidade: e o dia estava cinzento.

Começámos por caminhar muito mais que o previsto. E, no fim, estivemos mais de 6 horas à boleia, no mesmo lugar, com o sol quente e o céu azul. Percebemos assim o verdadeiro sentido da expressão 《viram-se gregos para lá chegar》.

Não houve um só carro interessado em ajudar. E foi só quando o cansaço venceu a esperança, que um carro parou! Repleta de boas energias, apressou-se a levar-nos e a ajudar-nos. Partilhámos muitas coisas, ficámos a conhecer a sua família e a sua vida, os seus projetos e as suas conquistas. E tudo sem saírmos do carro.

Optou depois por nos tirar da autoestrada e por nos deixar na estada nacional, por ter paisagens lindas e apaixonantes. E acreditou que seria mais facil para nós, ali, conseguir uma nova boleia.

A verdade, a verdade é que ficámos cheios até cima de uma paz interior inexplicável. Mas ao mesmo tempo, olhámos em volta: um lugar paradisíaco! Montanhas, o mar, flores. Natureza pura. Silêncio. E uma bomba de gasolina ao fundo.

E depois de nos termos visto gregos para chegar ali, achámos que nos veríamos também gregos para dali sair.

Passaram por nós vários camiões, mas não demorou mais que 10 minutos até parar um para nós! Um camião do Irão.

O motorista, Iraniano, entre gestos e poucas palavras; apresentou-se e apressou-se a dar-nos tudo o que tinha: uma banana, frutos secos, chá, sumo. E pouco depois, quando percebemos que falava um bocadinho de Italiano, sentimo-nos completos e capazes para comunicar. É-nos difícil descrever tamanha hospitalidade; mas vamos tentar. Por todas as horas que passámos juntos, ofereceu tudo o que tinha e mais ainda. O seu sorriso e o seu olhar diziam tudo: era um homem bondoso. Generoso! Humilde. Ofereceu a cama para que pudéssemos descansar e dormir (assim foi!!!), ofereceu  alimentos, café e ofereceu até a sua casa no Irão! Quando nos deixou, deixou-nos também um papel com a sua morada Iraniana e telefone; restou-nos prometer que à chegada lhe ligaríamos e que o visitaríamos. A ele, e à sua família.

Até a escrever e a recordar nos sentimos arrepiados.

Naquele momento poderíamos ter seguido até ao Irão – teria sido uma boleia longa e direta. Mas não quisemos – a Turquia, a Geórgia e a Arménia têm ainda muito que ver.

E ficámos então em plena autoestrada. Novamente à boleia e desejosos de chegar a casa do nosso novo couchsurfer! Mas ali, ali não precisávamos de conseguir uma boleia: estávamos a poucos quilómetros de casa e a caminhar também lá chegaríamos.

Palmilhámos a entrada da cidade: Alexandroupoli. O cheiro a mar. O som do mar. As estrelas no céu. A luz da lua. Mais nada interessava! E o calor, o calor desta primavera enriquecida em nós… Embora tão tarde, caminhámos sem grande afogo. E mesmo a caminhar, mantínhamos o dedo esticado.

Já perto do centro da cidade parou uma carrinha. Só lhe vimos uma boina: a do condutor. Era jovem. Como nós talvez. E simples. E simpático. E amável. Contou-nos que já nos havia visto mais atrás, mas que tinha ido primeiro deixar a esposa a casa; porque com só dois lugares na carrinha comercial, era impossível ajudar. Assim, um no colo do outro e lá fomos mesmo até à porta de casa!

Lá, sentimo-nos mesmo em casa: passava das 2 horas da manhã e estávamos a cozinhar e a conversar. Fomos recebidos de braços abertos, com muita ternura e cavalheirismo. E a noite voou! Na manhã seguinte, tirámos o visto electrónico para entrar na Turquia e voltámos à estrada.

Chegar a Istambul não foi uma aventura menor; e por isso fica para a próxima partilha.

Vimo-nos gregos para atravessar a Grécia, mas vimo-nos também felizes e enamorados até aqui. E assim o pretendemos (mais que estar) ser!

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