Hvala, Croácia. Hvala, Servia.

Eslovénia. Croácia. Sérvia. Macedónia.

O mundo não pára. E nós também não!

Que rodopio. Nem demos por ela, mas num abrir e fechar de olhos temos milhentas partilhas por fazer, milhentas histórias por contar. Fomos avançando, destemidos e encantados. Agora, agora resta-nos começar pelo principio. Por onde havíamos ficado:

A 4 de abril estávamos nós em Liubliana, prontos para dar asas à nossa caminhada.

Da Eslovénia até à Croácia é um pulinho, e por isso achámos que seria um instantinho. Enganados. Estávamos tão enganados.

Levámos quase um dia inteiro, mas achamos também que estávamos relaxados. Sabíamos que tínhamos muitas horas e portanto não nos deixámos preocupar. Portanto, tipicamente à portuguesa, só quando começámos a ficar mais aflitos é que começámos a trabalhar.

Para sair de Liubliana caminhámos uma hora e meia, com um intervalo para irmos ao supermercado abastecer-nos: na Croácia não pretendíamos trocar dinheiro e ali na Eslovénia as coisas também eram baratas. Portanto, tratámos da merenda e continuámos caminho fora.

Parámos algumas vezes na tentativa de apanhar boleia na via que permite sair da cidade, mas sem sucesso. Fomos por isso caminhando até uma bomba de gasolina local e aí perguntámos a algumas pessoas se poderiam levar-nos até à entrada da autoestrada. Com pouco acolhimento, voltámos a pôr as mochilas às costas. Quando nos preparávamos para caminhar mais 30 minutos, chegou um verdadeiro doutor. Um carro vistoso. Fato e gravata. Sapatinho branco brilhantina. Cabelo penteado.

Sorriso no rosto, coração aberto. Aceitou levar-nos sem qualquer prejuízo e ainda nos deixou o seu cartão para que nos encontrássemos mais tarde – quem sabe em Belgrado para ver o Liverpool jogar, a sua equipa de eleição. Deixou-nos então numa estação de serviço já na autoestrada. Bastante concorrida, com uma boa afluência de carros.

Mas nós parecíamos anestesiados. Percebemos que tínhamos wifi e aquilo que fizemos foi deixar-nos estar, a enviar alguns pedidos no couchsurfing e a mostrar a placa com o nosso destino: Zagreb.

Sabemos de antemão que numa bomba não é boa ideia estar de dedo esticado ou de placa esticada. Sabemos de antemão que numa bomba a estratégia perfeita é abordar as pessoas.

Estávamos tão anestesiados que deixámos que passassem por nós tempos e tempos.

Horas.

Até que percebemos que nos tínhamos de por mexer; tínhamos de nós fazer à vida.
Porque andar à boleia é como sonhar. É bom de pensar. Mas se não fizermos para acontecer, também não nos vai cair aos pés. Sem esforço e sacrifício nada se consegue.

E sem amor também não!

Acabámos pois por conseguir uma boleia de um jovem informático, que nos levou ainda por vários quilómetros e até uma nova estação de serviço. Nesta, nem tempo tivemos para pousar as mochilas e os sacos. Sem sequer pensarmos muito, o primeiro senhor que abordámos, meio em croata, meio em inglês, aceitou levar-nos. Nele e no seu colega, vimos generosidade. Pelo caminho, descobrimos que um deles falava italiano, e assim a barreira se quebrou.

É tão bom quando conseguimos comunicar. Quando conseguimos fazer-nos entender! Compreender e ser compreendidos!

À entrada da Croácia enfrentámos a primeira fronteira. Passaportes. Pediram para nos ver a cara. E interrogaram: o que vêm fazer? Quanto tempo? Porquê? Onde vão ficar? Qual a morada? E só depois nos deixaram seguir. Teve tanto de intimidador, quanto de desconforto. Mas passou, e acabou – como tudo – em bem.

Já mesmo à entrada de Zagreb, deixaram-nos onde não podiam: ainda na autoestrada. Corremos tanto quando conseguimos pela berma. Passos acelerados e atrapalhados. Já ofegantes, atentos. E de sorrisos no rosto. Chegar é sempre uma alegria tão grande, que mesmo ali no meio do nada e meio fugitivos, estávamos satisfeitos.

E foi um verdadeiro instantinho até conseguirmos seguirmos a última boleia do dia. Não nos levou ao centro de Zagreb, mas levou-nos para a periferia onde pudemos apanhar o tram. Uma jovem com um doce discurso, mostrou-nos interessada pela vida e pelo mundo. Falava além de croata, também inglês e italiano.

Nessa noite cozinhámos um petisco vegetariano, jantámos e pernoitámos na casa de um amigo italiano, amigo de uma amiga croata, de uma amiga nossa portuguesa, que está por agora a fazer um programa de voluntariado europeu (EVS). Vêm como é o mundo pequeno e gracioso?

Na manhã seguinte acordámos com o sol forte e radioso a chamar pelo nosso olhar.

Sem estore, cortina ou persiana, passava pouco das 6 horas da manhã quando abrimos os olhos pela primeira vez, atraídos pela claridade. Deixámo-nos dormitar por mais um pouco e acabámos por nos despachar ainda cedo, mesmo depois de um pequeno-almoço em família (como carinhosamente apelidamos, quando o fazemos com quem nos hospeda e com toda a calma do mundo).

No site do hitchwiki (onde consultamos partilhas de outros viajantes à boleia, como cotações de lugares para estar à boleia ou conselhos de viagem), pudemos perceber que de Zagreb a Belgrado a dificuldade era mínima. O lugar onde deveríamos ficar de dedo esticado estava bem definido ena maioria os relatos definiam-no como maravilhoso , com um máximo de 5 a 10 minutos de espera para se conseguir seguir uma boleia direta entre os dois países, as duas cidades.

Optámos por isso por nos afastar do centro da cidade novamente de tram, e à entrada da via rápida pedimos boleia para o tal ponto estratégico.

Apanhou-nos então um jovem, calmo e com um tom de voz tranquilizante. A forma como o conduzia e conversava era tão transparente e bondosa, que era impossível não gostar. Mas foi quando passámos pelo exato local estratégico onde deveríamos ficar, que ele sugeriu levar-nos um pouco mais à frente. Sem que pudéssemos imaginar, achou que seria bom deixar-nos nas portagens da autoestrada. Mas ali, ali era completamente impossível. Proibido. E o pior, estava a fazer uma mão cheia de quilómetros por nossa causa, para nos deixar num lugar que, achava ele, seria melhor. Mas não.

Não era.

De mal a menos, avistámos uma estação de serviço e dissemos-lhe que ali estaria perfeito.
Quando nos deixou, queríamos tanto agradecer-lhe pela sua generosidade, como pedir-lhe para voltar atrás aqueles 10 quilómetros. Sim, a bomba estava deserta.

Nem um carro.

Nem uma pessoa.

Nem ninguém.

Nem nada.

E o nosso lugar extraordinário lá atrás. Aquele, onde em 10 minutos conseguiríamos uma boleia direta para a Sérvia. Sim, esse mesmo, já lá ia.

Rabujámos.

Questionamos como tínhamos deixado aquilo acontecer.

Refletimos. Pensámos. Contámos carneiros. Lanchámos. E rabujámos mais um pouco.

Mas refilar não adiantava de nada. E por isso, mãos à obra.

Cada escasso carro que parava, era potencial luz no nosso caminho, e portanto dávamos tudo por tudo. Sorriso no rosto.

E de sorriso no rosto íamos ensaiando como perguntar entre croata e inglês. Não podíamos correr o risco de perder uma boleia que fosse porque não nos fazíamos entender. E fizemos. E conseguimos boleia.

Simpático era. Conversador também, no seu fluente Inglês. Mas no seu carro não tinha sofagem. Nem ar condicionado. Nem possibilidade de levar vidros abertos (a 160km/h). Então, no auge do dia, com sol e temperaturas a rondar os 30 graus, permanecemos fechados no seu carro tanto tempo, quanto o tempo da boleia. Não ia para Belgrado, mas ia na nossa direção até certa parte. Pelo caminho, o suor escorria-lhe e escorria-nos pelo corpo. As t-shirts que trazíamos vestidas já não tinham manchas de suor; já eram uma só tonalidade, molhadas por completo. E o jovem lamentava, limpava a testa com a mão e seguia caminho.

Não queríamos nem acreditar quando nos deixou, já a pouco menos de 200km de Belgrado, numa grande estação de serviço. Deserta também, mas com ar. Ar puro.

Nós estávamos completamente destilados. Sentíamo-nos como saídos de uma sauna de mais de 2 horas. O bater dos nossos corações dizia tudo. Tínhamos decerto a tensão baixa. E o pior, restava-nos pouca água no cantil.

Mas respirávamos. Tão fundo quanto podíamos. Do passeio fizemos assento. E já não nos lembrávamos da última vez que havíamos dado tanto valor a uma brisa fresca. De 28 graus, mas fresca ainda assim, naquele momento.

Num ápice as temperaturas estavam a mudar. E sem repararmos bem, o resfriado deu lugar ao a abafado.

Ali esperámos uma infinidade. Vimos chegar e partir autocarros turísticos. Vimos chegar e partir carros cheios, com famílias e famílias. Vimos chegar e partir camionistas.

Tivemos até tempo para ter acesso à password da internet do restaurante e a encher o nosso cantil. No fundo, já estávamos por ali como prata da casa. Até mesmo o garçon, o rapaz da bomba e os camionistas nos diziam para ir falar com este e com aquele, para nos levarem.

Pelo meio pedimos boleia a um rapaz que aceitou levar-nos na primeira instância, mas que depois de falar com o companheiro, se recusou. Era uma carrinha, espaçosa. Mas não reconsiderou. E mesmo indo para Belgrado, não nos levou.

Talvez tenhamos esperado pouco menos de 3 horas nesta estação de serviço.

Não que estivéssemos ansiosos ou fartos. Não que estivéssemos entusiasmados ou energéticos. Se tivéssemos que nos descrever, estávamos assim-assim. Tínhamos latente no pensamento que bastava-nos ter ficado no lugar mágico inicial para ter dado certo à primeira. Mas depois, depois pensamos sempre que nada acontece por acaso. Que se assim foi, foi porque tinha de ser.

E aí, aí entrelaçamos os dedos e olhar. E sentimo-nos unidos. Em sintonia. E com fé. No mundo. No amor. E nesta nossa caminhada.

Foi então que conseguimos uma boleia encantadora. Fato e gravata, estavam ambos a esticar as pernas da longa viagem. Iam exatamente para Belgrado e conseguiam comunicar em inglês. Não fluente, mas o suficiente para nos querermos conhecer, mais, e mais um bocadinho. E assim foi, de tal forma, que antes de nós deixar, quis levar-nos a passear.

Levou-nos a um jardim junto ao rio e na periferia da cidade, onde sozinhos dificilmente iríamos. Passeou-nos e conversou tanto quanto conseguiu. Para a despedida um “obrigado” parecia pouco! Mas era tudo o que tínhamos. Isso e desejos: desejos de que o melhor se encarregue de a si voltar.

E estávamos então na Sérvia, com o primeiro carimbo no passaporte e 60 boleias apanhadas desde que saímos de casa. E na fronteira, vimos infelizmente o rapaz da carrinha que por fim não nos quis levar, com esta aberta e desoejada, a ser exaustivamente revistada. É, nada acontece por acaso.

Já em Belgrado não encontrámos amigos de outrora, mas fizemos novos. Recorremos ao couchsurfing, e sem esperarmos por isso, acabámos a jantar e pernoitar com a filha do ex-Primeiro Ministro da Bósnia. Com uma mão cheias de aventuras para partilhar, fizemos dos serões livros de histórias.

E pela cidade, encontrámos as primeiras diferenças culturais. A Europa já não estava tão empregnada como outrora. O alfabeto cirílico. Os vendedores de rua de tudo e alguma coisa. As lixeiras e contentores comuns. A ausência do inglês. A sujidade. O cheiro.

A confusão urbanística e a hospitalidade do povo.

Por duas vezes, parados, veio até nós gente. Procuravam perceber se precisávamos de ajuda. E apressavam-se a aconselhar-nos ou a propor visitar o que de melhor sabiam. A troco de um sorriso.

Talvez seja esta a melhor moeda de troca do mundo. A mais poderosa. E a mais bonita.

O sorriso.

E com um sorriso na alma, prometemos depois partilhar com foi então partir da Sérvia e chegar até aqui, à Macedónia.

Por agora temos de dormir, descansar as pernas, as costas, o corpo e a mente. Temos de descansar este olhar atento pelo mundo. E temos de nos preparar para amanhã conhecer Skopie de sorriso no rosto.

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