Mamma mia!

Mamma mia! 

Faz já alguns dias que escrever tem ficado para segundo plano. Não que nos tenhamos esquecido, não que não tenhamos vontade de escrever. Mas porque os dias têm tido poucas horas para tudo o que temos vivido.

Dia 25, ainda no turno da manhã (e pela primeira vez!), saímos de Cannes, com o objetivo de chegar ao Mónaco. Este país, embora pequenino, é um verdadeiro mundo deslumbrante. E por isso decidimos ir até lá durante o dia e regrassar à noite para Nice, onde pela primeira vez nesta viagem utilizámos o couchsurfing.

Pouco passava das 9:00h e já o sol estava muito quente. Sentíamos os ombros quentes e desejosos de largar as mochilas, mas a primeira boleia do dia não tardou assim tanto. Era um senhor sorridente que, depois de ter estado a viver no Brasil, nos cumprimentou com um “Olá!”. A boleia foi curta, mas a conversa animada! Deixou-nos depois numa nova entrada para a autoestrada que seguia com direção ao nosso destino.

Lá,  conseguimos a segunda boleia e direta para o Mónaco. Um Mercedes, dos grandes. Confortável e alto, de onde se avistava o mar e toda a paisagem a que tínhamos direito. As partilhas foram tantas, que tivemos até pena de deixar o carro. Os assuntos comuns, os gotos, as histórias; foi gracioso.

O Mónaco, palmilhamo-lo de cima a baixo. Com mais ou menos cansaço, entre a beira-mar, o casino, o porto ou os jardins; conseguimos por 1 hora ter onde deixar as mochilas, o que nos aliviou e deixou mais à vontade. A verdade é que com toda a instabilidade deste mundo, não é fácil que aceitem guardar as nossas tralhas. Mas, no fundo, tivemos sorte.

Já ao final do dia, de depois de algumas aventuras juntos, tratámos de regrassar para Nice, onde queríamos pernoitar e onde nos esperava uma couchsurfer. Mas foi quando nos tentámos pôr ali à boleia, que percebemos que no Mónaco era proibido fazê-lo. Já nos tinham tentado avisar, mas nenhum de nós havia percebido!! Afinal, tinham-nos dito que deveríamos ir para depois da fronteira, mas até lá apenas tínhamos compreendido que um bom sítio para pedir boleia seria uma rua “…..border“. Que dois.

Caminhámos então, montanha acima, até que vimos uns caixotes do lixo com indicação francesa, podendo nós decerto a partir daí pedir boleia.

Bandeira de Portugal às costas, e enquanto esperavamos, percebemos que a sinalizar o trânsito estava um português! Saudou-nos, desejou-nos boa sorte. E pois que a tivemos! Não queremos mentir, mas foi muito rápido! Duas senhoras, meia idade. E iam mesmo para Nice e para a mesma zona da cidade!

À chegada, e assim que deixámos o carro, deparámo-nos com leões enjaulados. Cães. Animais. Era um  circo. Que triste. Ficámos triste com este primeiro impacto, que claro, poderia ter sido em qualquer outro lado, ou infelizmente, até mesmo em Portugal. Que infelicidade. Que mágoa. Como podem ainda algumas pessoas acreditar que os animais ali são bem tratados? Que são felizes no circo?

E seguimos. Seguimos com aquela imagem latente no pensamento. E na alma.

Demos uma pequena volta por Nice, já com as estrelas no céu e com o peso das mochilas insuportável. E terminámos numa casa acolhedora, com um manjar dos deuses português – alho francês à Brás e cogumelos grelhados, e uma companhia muito agradável!

Na manhã seguinte, o sol raiava pela janela do quarto. Pouco passava das 6 horas da manhã e já a luminosidade era forte, tão forte que nos despertava dos sonhos e nos fazia confirmar constantemente o relógio.

Pouco passava das 10 horas, e estávamos novamente à boleia. Caminhámos pouco para sair de Nice. Pouco porque em França encontrámos com muita facilidade ruas onde é proibido caminhar. Proibido para segurança das pessoas, mas não deixa de ser proibido. O que nos leva a ter de ir dar uma grande volta, ou a ter de esperar pacientemente no início da estrada, ou rua.

Neste caso, o lugar não era o melhor, mas não tínhamos para onde ir. Era naquela direção que estava a estrada que queríamos apanhar para seguir caminho, e por isso limitámo-nos a esticar o dedo.

E no imediato, parou um carro! Nem estávamos bem atentos ou prontos, ou à espera que acontecesse. E no carro, estava apenas uma senhora, com um hijab – espécie de véu que as muçulmanas usam, que lhes cobre o cabelo, orelhas e pescoço. Envergonhada, mas amável. As palavras não lhe fluíam, mas o olhar era ternurento. Ter parado, demonstrava a sua generosidade. Porque no fundo, não nos levou para longe; mas deixou-nos mesmo à entrada da autoestrada que seguia para Itália. E era mesmo em Itália que tínhamos a próxima casa. A próxima família. O próximo destino.

Da entrada da autoestrada, conseguimos outra boleia. Desta, era um jovem numa carrinha, que havia reconhecido a nossa bandeira por já ter estado no festival BOOM – e bom, nunca pensámos que este festival fosse tão internacional. Deixou-nos depois, numa estação de serviço,  já a poucos quilómetros da fronteira.

E lá pernacemos ainda uma hora, ou um pouco mais. Muitos dos que por ali passavam iam apenas a um mercado perto da fronteira e fora da nossa rota. Muitos eram já Italianos e não tanto acolhedores. Muitos iam com o carro cheio.

E decidimos deslocar-nos para o fim da estação, para petiscar alguma coisa e ao mesmo tempo esticar o dedo. Ali, não tínhamos placa. Não adiantava, porque se escevessemos uma cidade, a maior parte não conhecia. Se escrevessemos Itália, era desperdiçar cartao: por ali, não tinham hipótese, todos iam passar a fronteira.

Estavamos por isso, é literalmente, com o mundo na mão. Dependia do nosso dedinho, esticado, seguir mundo fora.

E dependia também do nosso estado de espírito. Da nossa vontade. Dos nossos desejos.

Sorrisos esperançados, ainda o dia ia a meio.

Pararam depois vários camiões. E estranhámos. Sabiam que éramos dois, e mesmo assim paravam – o que ocidentalmente não é comum. Mas como eram romenos, achámos possivel. Os dois primeiros, embora a comunicação fosse rudimentar, acabaram por dizer que não iam na nossa direção dentro de Itália , mas o último foi o que se fez entender melhor. Infelizmente, gesticulou que esperava favores sexuais ao levar-nos. Ou mesmo que não fosse a troco da boleia, achou que os incluiría.

E aí, sentimo-nos pequeninos, pequeninos. Agonizados. E consciencializados do motivo pelo qual todos estavam a parar…

Acabámos por nos deslocar para a a zona de abastecimento e abordámos as pessoas. Pode levar mais tempo, ou menos, nunca sabemos. Mas a crença é simples: cabe a nós escolher a quem perguntamos e alguém nos há-de levar. E assim foi! Conseguimos boleia para Savona, que ficava depois a pouco mais de 100km de Bra – uma pequena cidade antes de Torino, onde uma amiga nos esperava. Levaram-nos dois jovens da casa dos 40, e um deles estava a concluir a sua volta ao mundo: imaginam pois a quantas partilhas deu aso. Maravilhoso!

Já em Savona, acabámos por por ficar numa outra estação de serviço,  mesmo antes da nova autoestrada onde pretendíamos seguir. Aí, como sabíamos perfeitamente qual a direção, optámospor escever na placa “A6 TO” – autoestrada 6 com direção a Torino e colocar-nos no fim da estação; pois na bomba havia também restaurante, e quando abordavamos uma pessoas, perdíamos outras.

No fim da estação estivemos talvez 2 horas, até aparecer um viajante Eslovaco – como nós, que além de humilde, queria ajudar-nos. Entre Italiano, Francês e Espanhol, com um verdadeiro mix de línguas, conseguiu explicar-nos que havia um sitio um pouco melhor para estarmos; e acabou por levar-nos até lá!

Lá, eram as portagens. As portagens que davam  acesso à autoestrada e onde era permitido estarmos. Lá, os carros tinham espaço para parar. Lá, estávamos abrigados. Lá, tinha luzes (caso escurecesse). Era realmente melhor! Mas foi lá que permanecemos mais 4 horas.

Mamma mia!

Valia-nos que agora, com tamanha modernice, em todo lado encontrámos wifi. E ali, não era exceção. Conseguíamos por isso estar conectados, e a receber força. O que não deixou de ser engraçado, porque há uns anos era impensável. Recebemos até uma video-chamada de Portugal, onde alguns amigos se reuniram para nos deixar um abraço. Que amores!

Mas mesmo com essa força extra, começavamos a deixar-nos esmorecer. Eram centenas e centenas os carros que já tinham passado por nós. Eram mais de 6 horas no mesmo sítio. Eram estrelas no céu.

Mas parou, parou uma senhora iluminada. Podemos chamar-lhe até mãe galinha, porque estava mesmo preocupada connosco. Avisou-nos vezes sem conta que iria seguir apenas 20 quilómetros na nossa direção. E embora tenhamos aceitado, não estávamos de acordo. Havia de um lado o desejo de deixar para trás aquele lugar; do outro receio de ir para um sítio pior, sem trânsito e sem abrigo. Mas fomos.

Fomos e pelo caminho pediu-nos que apanhássemos um comboio para o nosso destino. É difícil explicar a uma senhora, a uma mãe ou alguém que nunca saiu da sua zona de conforto que a nossa viagem não é feita de autocarros,nem de comboios, nem de táxis. É dificil, e por vezes duro. Para todos.

Porque se alguém acha que é fácil estar à boleia, várias horas, com mochilas de 15 quilos às costas, com neve à volta, e de noite; desengane-se. Não é fácil. Não é (tudo) bonito.

Talvez a culpa seja também nossa, porque quando contamos as histórias, já está tudo tão bem, que o que foi mau fica para trás. Mas não é por isso que deixou de acontecer. Porque aconteceu.

É que no fim, acaba sempre tudo bem! Mas e até lá?

Pois é, quando a senhora nos deixou, numas novas portagens, o frio era implacável. Parecia que nos penetrava! Os narizes pingavam. Em poucos minutos tínhamos as capas das mochilas molhadas. A neve à nossa volta fazia-nos questionar em que país estávamos. Como é que 20 minutos de estrada faz o clima tão diferente?

Esperámos.  E continuámos a espera.

Mamma mia!

Quase gelados, já com meias extra por cima de meias, não percebiamos como é que com carros a passar apenas de 5 e 5 minutos, nenhum queria saber de nós. Até que parou um carro. Abençoado!

Abençoados jovens! Da nossa idade, genuinamente simpáticos. Iam mesmo na nossa direção por mais 60 quilómetros, para esquiar. E foi uma sensação indescritível entrar naquele carro, quentinho e repleto de boas energias.

Quando nos deixaram, despedimo-nos com beijinhos e abraços. Sentimo-los felizes por nos terem ajudado. E nós, uma vez mais, tão, mas tão gratos.

Mas no mesmo instante em que tiravamos as mochilas, parou um carro atrás. Percebeu que éramos viajantes e tentou oferecer-nos boleia a troco de combustível. Uma vez mais, recusámos. Mas por entre a conversa, acabámos por perceber que falávamos todos português e que o senhor era de Angola. Com tamanho patriotismo, quis então ajudar-nos e acabou por nos levar até Mareme, a 8 quilómetros do nosso destino; passava já  das 23:30h.

Foi uma boleia animada. Ia buscar um amigo a Torino, mas queria também muito ajudar-nos. Tanto, que em 5 minutos já queria arranjar-nos uma carta de chamada para visitarmos Luanda! O único senão, dos grandes, foi que nos deixou em plena autoestrada, junto à saída da cidade para onde íamos. E nós, carregados de tralha, e carregados de alegria por estarmos a chegar, caminhámos. Limitámo-nos a caminhar vigorosamente, depois de termos avisado a nossa amiga que estávamos a chegar. Combinámos pois um ponto de encontro numa rotunda que daria acesso à autoestrada, e caminhámos até lá.

Caminhávamos de formá acelerada, que agora que verbalizamos,não sabemos ao certo tudo o que nós movia. Se o desejo de chegar. Se o medo de sermos apanhados pela policía a andar ali. Se o cansaço. Se a alegria. Certo é que fizemos 3 ou mais quilómetros sem questionar um único passo.

Mas já mesmo com a rotunda ao fundo, avistámos luzes azuis. Mamma mia!

E aí corremos. Corremos como se não houvesse amanhã. Não sabemos onde estavam essas forças guardadas, mas o instinto e a sobrevivência são realmente uma força da natureza.

E quando os encontrámos, já os senhores agentes estavam a tentar autuar a nossa amiga por estar estacionada na rotunda. Só que quando ela lhes explicou que esperava por nós, acreditamos que ficaram sem saber o que dizer. Porque ela havia dito a verdade: esperava ali dois amigos vindos de Portugal, à boleia, e que estariam a chegar a pé. De tão milaborante, quando nos viram chegar perto, mesmo com um ar pouco amistoso, limitaram-se a dizer que era proibido caminhar na autoestrada e estar estacionado ali. E seguiram.

E seguimos nós também, felizes! Inacreditavelmente felizes.

Incrédulos com a dificuldade que é andar a boleia em Itália: porque para pouco mais 180 quilómetros, levámos horas infinitas. Um dia, do nascer ao pôr do sol e ao erguer da lua. 180 quilómetros em Portugal fazem-se num punhado de horas. E Portugal não é de todo o paraíso das caronas.

Por Bra ficámos uma noite e um dia. Deliciámo-nos com uma típica família italiana e com uma típica pasta ao almoço. E ao fim do dia de ontem, viemos até Torino. Uma cidade magestosa! Mas que hoje não conseguimos ainda conhecer. É que hoje tínhamos horas de sono, e muitas partilhas, em atraso. Aqui, estamos com um amigo de uma amiga, também couchsurfer e com um mundo de partilhas.

Em breve, seguimos na direção de Milão, de Verona, de Veneza e de Trieste. Com rumo a Liubliana, na Eslovénia – com a certeza de que, dia após dia, somos mais unidos e mais fortes.

Nos entretantos, desejamos uma Páscoa Feliz e vegana a todos os que nos seguem. ❤

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5 thoughts on “Mamma mia!

  1. Olá amigos ficamos radiantes em ter noticias vossas pois já nos tardava, que grande aventura essa da Italia😯
    Fiquem prudentes e vigilantes sem estragar os vossos sonhos.
    Boa continuação. Beijinhos
    😍 Cristina e Mário

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  2. Olá Primos, é bom ter notícias vossas e que sejam sempre boas e positivas.
    Tenham muito cuidado, e já sabem se for preciso alguma coisa, cá estamos.
    Desejo que esta aventura continue a correr bem e tudo dentro do esperado,
    Uma Bjoca e um coração sempre apertadinho.
    Rita Conde

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