Marseill et Cannes

Ruas sujas. Muito sujas.

Na passada manhã de dia 21, despedimo-nos de Aix en Provence. Mochilas fechadas, corações palpitantes, e fizemo-nos à estrada. Caminhámos por pouco mais de 2 quilómetros e encontrámos a entrada da autoestrada que seguia para Marseille – o nosso próximo destino.

Na noite anterior fizeram-se apostas: quanto tempo levaríamos a apanhar boleia?

Nenhum dos recordes se bateu. Esperámos mais que o previsto, mas apanhou-nos um Senhor. Trazia em si com certeza mais de 60 primaveras e algures na sua história de vida uma viagem à boleia, até à Turquia. Sabia de cor o que nós dois estávamos ali a viver e quis por isso ajudar-nos! A boleia foi curta, mas amorosa.

Deixou-nos numa nova entrada, mais à frente e onde esperámos por entre os raios de sol que escapavam pela sombra das árvores. Recordamo-nos que cantámos: e quando nos dá para cantar, é à portuguesa e com animação. E por entre tons agudos e desafinados, parou um carro.

Pensámos que seria português, porque tínhamos a bandeira pendurada numa das mochilas e o jovem parecia entusiasmado. Mas não. Não era português. Não estava entusiasmado. Ou estava, mas queria afinal dar-nos boleia a troco de gasóleo.

Recusámos.

Não é esta a nossa aventura, não é a troco de nada que queremos que nos dêem boleia. Ou é, mas bens não mensuráveis: histórias, partilhas, cultura. Sorrisos. Da mesma forma que não é nosso objetivo que haja desvios para que nos deixem no nosso destino. O objetivo é sim que possamos aproveitar quem vai na nossa direção, para que possamos ir juntos e trocar pelo caminho o que de melhor há: entrega.

Esperámos então. Mas não esperámos assim tanto até que tenha parado um novo carro.

Foi tudo muito rápido, mas sentimos confiança. O tom de pele, o aspeto e a forma de falar, não nos intimidou. Não nos deixou desconfortável. E seguimos juntos, até Marseille.

Pouco mais de cinco minutos e já dentro do carro aprendíamos, ou relembrávamos: marhabaan! Al-hamdu lillãh. Era Argelino! Espelhava simpatia no rosto, na forma como dirigia cada frase. A emoção com que falava do seu árabe, demonstrava o orgulho que tinha nas suas origens!

Despedimo-nos com um carinhoso masalah ham, shukraan e ficámos já perto do centro de Marseille.

Um mundo por descobrir, Marseille. Com ruas sujas. Muito sujas! Gente de todo a parte. Mais, não nos cruzámos com 5 pessoas iguais: tons de pele, vestes, modos de estar, cortes de cabelo, línguas, olhares, pinturas. Culturas. Que multicultureidade. Por lá, só nos conseguíamos lembrar nos nossos passeios por entre o Rossio e o Intendente. Martim Moniz. O verdadeiro mix. Uma loucura. Pessoas por todo o lado. E um desprendimento único.

Haviam-nos já avisado de que se tratava de uma verdadeira cidade cosmopolita. E perigosa. Mas encontrámo-la maravilhosa. Subimos a Notre-Dame de la Garde. Cansados, com o peso das mochilas vincado nos ombros, vimos o sol descer o horizonte. O anoitecer, lá do alto.

E fomos felizes, ali.

Conhecemos por lá também um viajante, que a nós se juntou na descida. Marcou-nos e por isso o partilhamos: humilde e genuíno, estado unidense e com apenas 19 anos. Queria aprender português, aprender a viajar à boleia, aprender a poupar, aprender a estar, aprender a ser, aprender… Queria aprender! Queria absorver! E partilhar. E percebemos que nos identificávamos e que adorariamos ajudá-lo em tudo aquilo que estivesse ao nosso alcance. Esperamos por isso que, on the road, os nossos caminhos mais tarde se cruzem. Até lá, trazemo-lo no pensamento.

Ainda em Marseille,  fomos hospedados por um casal, amigos de uns amigos. Que doce é a Europa neste capítulo! E do seu apartamento, não só tínhamos uma vista deslumbrante, como estávamos perto do novo ponto de partida.

Já passava por isso do meio dia quando nos fizemos à estrada. O peso da casa que traziamos às costas já se fazia sentir como carga. Dura. Mas a distância era curta.

Já à entrada da autoestrada, percebemos que o lugar para estar à boleia não era o melhor. O trânsito fluía com velocidade, os carros não tinham espaço conveniente para parar, não tínhamos onde colocar as mochilas e estávamos sem hipótese de encontrar um abrigo.

Posto isto, estavam reunidos vários fatores de sacrifício: mas viajar a dedo é mesmo assim.

Estivemos concentrados e empenhados talvez mais de uma hora. Mas nenhum carro parou. Avistámos vários portugueses,  mas nenhum nos levou.

Foi então que no espaço de uma hora, trocámos umas 3 vezes de lugar. Fomos para uma nova entrada de autoestrada, caminhámos de novo para o primeiro lugar, mudámo-nos de seguida para outro, subimos mais um pouco, e voltámos ao segundo. Aturdido!

A exaustão começava a ocupar o nosso pensamento.

E no meio do desespero, com o passar do primeiro carro, esticámos a placa com enfase, esticámos o dedo com enfase: e o carro parou! Parou! Era uma Senhora e ia praticamente para o nosso destino. Inacreditável! Seguimos entre conversas, partilhas e soninho.

Pouco mais de 1 hora depois, estávamos a 50 quilómetros de Cannes. A 50 quilómetros de uma casinha. A 50 quilómetros de uma família! Sim, uma família de uma amiga que nos hospedou com amor, que nos recebeu com um sorriso do tamanho do mundo e com uma lasanha vegana deliciosa! Estávamos por isso a 50 quilómetros de um lar.

Bandeira portuguesa pendurada, placa de Cannes esticada. E o céu jazia azul.

Vários carros portugueses apitaram. Uma carrinha com portugueses parou, e embora não tivesse espaço para nos levar, afortunou-nos a alma! Sabíamos que os deuses das boleias estavam connosco.

E não tardou tanto assim. Trouxeram-nos até mesmo ao centro de Cannes, duas jovens. Conheciam Portugal pelo festival BOOM. Pouco faladoras, mas generosas – a bondade habitava-lhes o coração!

Aliás, com 1950 quilómetros, 33 boleias e 3 semanas de caminho, sentimos que temos sido afagados de corações magestosos. E a gratidão é o que em nós transborda.

Já Cannes não tem ruas sujas. Parece o Algarve no seu plano turístico. Caro. Chique. E um passeio à beira-mar. Romântico.

Amanhã cedo partimos para visitar o Mónaco e pretendemos pernoitar em Nice. Depois, depois espera-nos Itália, e espera-nos o mundo inteiro!

Au revoir, France!

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