multiculturamizade AIX

5 boleias para 150 quilómetros.

Uma verdadeira loucura, que deu até espaço para nos perdermos: que nem verdadeiros viajantes.

Começámos por sair do centro da cidade com um pequeno passeio. Para nos afastarmos tínhamos mesmo de palmilhar ruas desconhecidas e tivemos assim oportunidade de descobrir ainda dois ou três recantos, afinal imperdíveis – mas nunca nos sentimos desanimados por não conhecer tudo; achamos que se trata até de uma boa oportunidade para voltar um dia mais tarde!

Mas ainda meio no centro histórico, meio afastados, percebemos que uma rua nos poderia levar à autoestrada. Nela havia também espaço para qualquer carro parar. Tirámos então as mochilas, escrevemos num cartão pequeno a abreviatura de Aix en ProvenceAIX-EN P., e esperámos. Esperámos mais do que contávamos e, por isso, comentámos entre nós que assim que terminassem de passar os próximos carros, iríamos mudar-nos.

Achámos sempre (embora não tenhamos sequer falado sobre isso!) que por estarmos a apenas 150 quilómetros do nosso próximo destino , não levaríamos assim tanto a lá chegar.

Estávamos descontraídos, calmos. Tanto de entusiasmados, como de serenos.

E foi quando já estávamos prestes a colocar as mochilas, e nas últimas apostas, que parou um carro! Uma família. Três sorrisos. Uma criança. Gentileza em pessoas. Não iam para longe, mas queriam ajudar-nos. Levaram-nos por isso até à estação de serviço mais próxima.

Na estação, optámos por abordar as pessoas. Acreditamos que pode sempre ajudar a quebrar barreiras, tal como partilhámos já anteriormente. Mas aqui, tínhamos duas condicionantes: se a primeira nos confundia, já que permitia aos condutores pagar com cartão no local onde abasteciam; a segunda esclarecia-nos, sendo que todos os carros aqui em França têm um número na matrícula, que indica a cidade de onde são. Mentalizados, limitamo-nos a estar atentos.

Mas estarmos atentos não chega. Há a linguagem. Há a vergonha. Há a atenção. Há o instinto. Há o aspeto. Há a motivação.

A atenção é só uma, no meio de tantas.

Mas juntos fica mais fácil. Se um fala de tudo, o outro sorri. A parceria do amor.

E foi quando vimos mais um carro com o tão desejado número 13 na placa. Ia realmente na nossa direção, ainda que apenas por 50 quilómetros, mas aceitou levar-nos sem qualquer constrangimento. Por nós, que decidimos aborda-lo, também não havia nenhum constrangimento – propriamente dito. Mas o tom de pele e a forma como falava, podia até dar aso (e deu) a algum preconceito. Mas um preconceito infundado.

Percebemos que se tratava de um senhor Argelino, muito simpático e podemos dizer que a viagem decorreu com muita conversa e partilha (tanto quanto a língua o permitiu e o embalar do carro também!). E já nos últimos quilómetros acrescentou outros tantos ao seu destino, só para nós deixar já no fim da sua cidade, Nime, de forma a que mais facilmente apanhássemos de novo boleia.

Deixou-nos por isso numa rotunda, à entrada da autoestrada. Lá, por sabermos que nas redondezas havia muitos portugueses, decidimos tirar a nossa bandeira para fora e pendura-la numa das mochilas. Foram ainda alguns os carros que apitaram e acenaram, ouvimos ainda um “Viva Portugal!!”, mas nenhum parou para nos levar. Não conseguimos já ter a certeza de quanto tempo esperámos, mas esperámos o suficiente para aceitar a boleia do carro seguinte, mesmo sem ter a certeza de que seria o melhor para nós em termos de localização, tendo em conta o seu destino. Mas às vezes, é preciso mudar de lugar. É preciso mudar de posição. É preciso procurar novas energias, novos ares.

E fomos!

Era um BMW, espaçoso e vistoso. Confortável. Trazia pendurado no espelho retrovisor o mesmo terço que havíamos visto no carro anterior. Um masbaha. E em poucos minutos percebemos que era também da Argélia.

A boleia que nos deu foi realmente curta. Dirigiu-nos um pouco mais para norte, mas mais do que imaginámos – pudemos nós perceber quando olhámos para o mapa. E quando esticámos o dedo e erguemos a nossa pequena placa, parou em poucos segundos uma jovem dizendo que por ali dificilmente alguém iria no nosso destino. No fundo, deixou-nos numa cidade pequena, com três entradas. E daquela, só apanhando uma autoestrada secundária é que conseguiríamos chegar à que nos levaria ao nosso destino, no sentido de Marseille. Estávamos completamente perdidos.

Ou encontrados, mas desorientados. E a noite ameaçava.

Continuávamos a 100 quilómetros de casa. Ansiosos. Apreensivos.

Restava-nos caminhar. E caminhámos . Vigorosamente.

Mas enquanto caminhávamos, mostrávamos a placa. E ainda bem! Porque na confusão do caminhar, na confusão do inesperado, na confusão do barulho das nossas mentes; parou um carro. Iluminado!

Duas cadeirinhas de bebé. Uma senhora. Cabelo liso e muito penteado. Magra e alta. Sorridente. Bonita.

Foi tudo muito rápido e talvez tenha sido o palpitar dos nossos corações que apressou o momento. Quando percebemos que ia mesmo, mesmo, mesmo e mesmo na nossa direção: que desafogo!

E deixámo-nos levar no conforto daquela sensação.

Mesmo quando os deuses das boleias nos abanam, não nos largam. E só nos resta ter espírito de sacrifício até ao último minuto, para que tudo corra bem. Porque correr bem não é uma questão de sorte. Correr mal é que é uma questão de azar.

É preciso fazer acontecer, depois de sonhar.

E a viagem foi sobre nuvens. Faladora e animada, dividimos tudo quanto pudemos. Tinha dois filhos, pequeninos. Era a segunda ou a terceira vez que dava boleia. O marido era chef num bom restaurante. Ela era mãe a tempo inteiro. E em pouco menos de uma hora partilhámos uma vida.

E é este o melhor exemplo do que é estar ligado. Poder fazer de cada palavra um aproximar. De cada olhar e cada entreajuda, uma relação. Porque mesmo quando não conseguimos falar, conseguimos comunicar. Gestos, abraços, olhares e sentimentos. Somos feitos disto tudo.

E despedimo-nos com três beijinhos.

Estávamos então a pouco mais de 20 minutos de casa. Da casa de um amigo que pudemos conhecer no Brasil e com quem partilhámos mais que um teto. E aí, mesmo com o brilhar das estrelas no céu, estávamos felizes.

Com fervura. Energia. Paixão. Entusiasmo.

Nem largámos as mochilas! E ainda bem. Foram dois minutos, ou pouco mais. E estávamos nós a entrar no quinto carro do dia. Desta, uma carrinha, um jovem de olhar simpático e recheado de boa vontade. Deixou-nos praticamente à porta de casa e, mais ainda, deixou-nos telefonar a avisar que havíamos chegado.

Chegado e bem! A tempo e horas.

Preparados para cozinhar um petisco vegetariano maravilhoso, numa casa grande e maravilhosa, recheada de pessoas maravilhosas, em Aix en Provence. Uma indiana, uma romena, três franceses, uma americana, dois portugueses. Um ambiente multicultural muito acolhedor! E cozinhámos juntos. E jantámos juntos! E hoje repetimos.

Porque à portuguesa, é ao redor de uma mesa que se fazem amizades.

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