Salut Montpellier FR

Salut France!

Um olá grandioso.

Estávamos com tanta vontade de a tocar, que tardava. Não que em Barcelona estivéssemos mal, mas sentimo-nos tão melhor em andamento, a palmilhar o mundo, que os nossos pés descalços já chamavam pelas sapatilhas.

A contracurva que nos trocou as voltas deu tréguas – não totais, mas as necessárias para que a mochila coubesse nas costas. E partimos. Partimos e saímos ontem de Espanha.

Acordámos pelas 9h. Atentos a cada dor a mais, despertos e esperançosos. Abrimos os estore, mas chovia. Chovia. E a água que corria pela rua levou-nos de novo para a cama. É que a chuva não nos impede de nada, mas interpela. Poucas coisas são mais desconfortáveis que estar a pedir boleia com a chuva a bater na cara: com as mochilas molhadas, a roupa ensopada, o frio entranhado. E deixámo-nos dormir. Num sono leve. Mas deixámo-nos dormir.

Já o turno da manhã tinha ficado sem efeito, percebemos que as ruas haviam começado a secar. Apressámo-nos. E saímos.

Foi daqueles dias que qualquer mãe diria que ia dar errado (perdoem-nos!).

Pouco faltava para anoitecer quando apanhámos a primeira boleia do dia, por pouco mais de um quilómetro. Estávamos ainda perto do centro de Barcelona, mas igualmente perto da sua saída. Descarregámos as mochilas, escrevemos no cartão que tínhamos conseguido há minutos “Girona” e deixámo-nos estar. Os carros iam passando, a chuva ameaçando e foi quando parou um carro, com uma senhora e duas crianças: que raro! Partilhou connosco que parou para nos ajudar, mas não tinha visto o nosso cartão e, que embora não fosse de todo na nossa direção, nós deixaria um pouco mais a frente, numa boa estação de serviço. E assim foi. Uma pequena boleia. Uma grande ajuda.

Mas os nosso corações tinham tanto de entusiasmo, como de receio.

Costas sensíveis. Frio. Chuva. Anoitecer.

Mas aqui entra o equilíbrio: quando um está descrente, o outro encara a crença em pessoa.

Já na estação, começámos por colocar as mochilas à porta e logo fomos advertidos para que não o fizéssemos. Fomos então deixar as mochilhas abrigadas e mais longe, e começámos a abordar as pessoas quando se deslocavam para realizar o pagamento do abastecimento. Aí, fomos novamente advertidos: poderíamos estar no fim da estação de dedo esticado, mas pedir, não.

Compreendemos. Não queríamos de todo causar constrangimentos. A verdade é que falando mais facilmente se consegue uma boleia. Contudo, a verdade também é que poucas são as pessoas que se sentem confortáveis ao ser abordadas. E afastámo-nos.

Aproveitámos e escrevemos do outro lado do cartão “Montpellier”, o nosso destino final – não fosse por ali aparecer um carro francês.

Não havia sol, mas havia luz. Essa, começava a descer no céu. Como se o fossem pintando à mão, sem que dessemos por ela. O tom de cinzento era cada vez mais carregado. O nosso coração também. Carregado de esperança.

E voltámos a avistar o senhor da estação de serviço – com uma farda muito familiar, em tudo idêntica à da GALP 🙂 – e caminhava na nossa direção. Estremecemos. O que seria agora?

Pois bem, tudo o que damos, a nós volta. Respeito. Compreensão. Veio dizer-nos que ali estávamos à vontade, poderíamos ficar uma hora, um dia, uma semana, ou até na semana santa; mas que mais à frente, havia uma zona melhor para pedir boleia. Mais à frente, as faixas da estrada tomavam direções diferentes. A nossa, seria a faixa da esquerda. Lá, mais a frente, havia um semáforo, com uma possível zona de paragem. Lá, poderíamos mostrar a placa. Por lá, só passariam carros com o nosso destino. Agradecemos. Mas hesitámos.

Hesitámos porque ameaçava chover. Mas hesitámos pouco mais que 30 minutos.

Mochilas às costas. Caminho no olhar. Mãos dadas.

O melhor, estávamos juntos!

E juntos conseguimos a nova boleia. Girávamos o cartão entre “Girona” e “Montpellier”, conforme as matrículas. O destino era um só, mas se nos levassem um pouco mais a frente, a ajuda já era grande. Mas claro, brilhava qualquer carro francês!

O sinal ficou vermelho. Os carros abrandaram. E o primeiro, mesmo à nossa frente, brilhava nos nossos olhos. E brilhou mais ainda quando nos gesticulou que nos levava! Era um jovem, 22 anos, e ia fazer mais de 600 quilómetros. 200 deles, comuns connosco. E assim se consagrou a segunda boleia deste dia. Quase noite!

A chuva reinstalou-se. Choveu o caminho todo. E um de nós dormiu também o caminho todo (as meninas têm destas coisas!) – e uma nova barreira linguística havia começado.

Já a pouco mais de 100 quilómetros de Montpellier, ficámos novamente numa nova estação de serviço. Esta, parecia caída do céu. Vamos ver se conseguimos explicar-nos: mesmo antes da verdadeira bomba, havia uma espécie de hall de entrada, antes mesmo da zona de restauração, das casas de banho ou da própria zona de supermercado e pagamento. Uma espécie de hall de entrada, com ar condicionado e internet. Não podíamos desejar nada mais. Tínhamos abrigo e comunicações. De lá, com calma e fé, mais cedo ou tarde, alguém nos levaria.

Mas, para começar, abordámos um senhor, entre outros, que nos disse que sim, que ia na nossa direção. Contudo, quando lhe perguntámos se nos levaria, olhou-nos de alto a baixo e disse que ia decidir. Na volta e sem rodeios, disse: Vocês deixam-me fazer uma chamada do vosso telefone para Itália, e eu levo-vos para Montpellier. Ficámos tão desconfortáveis. Sentimo-nos tão abusados. Recusámos, automaticamente e em sintonia. E ainda assim o senhor insistiu, descartando a chamada e querendo levar-nos. Mas não fomos.

Ao instinto, chamamos-lhe estrela-guia. E se brilha para nós, não vamos ignorá-la.

E esperámos por, pelo menos, mais 2 horas.
2 horas pequeninas, estávamos confiantes. E quentinhos, do corpo e da alma. Guardávamos em nós sorrisos. Sorrisos que também nos aqueciam. E trocámo-los entre nós. Como amantes. Felizes!

Eis quando a terceira boleia apareceu. Já passava das 22 horas. Um casal. Ele Francês. Ela Serva. E pelos quilómetros seguintes desafiámos o nosso francês. E num abrir e fechar de olhos estávamos com a amiga, de uma amiga a quem estamos muito gratos, que nos hospedou. Numa residência de estudantes, da SupAgro de Montpellier.

Hoje, continuamos por aqui, em casa do amigo de um amigo, já a pensar no amanhã. Deixámo-nos ficar, apaixonados por esta cidade, por este centro histórico.

Amanhã partimos para nos apaixonar por mais um cantinho deste mundo. O mundo que levamos na mão, avec le stop.

2016-03-18 23.03.552016-03-18 23.01.062016-03-18 23.00.072016-03-18 23.00.37

                                                                                       Já com 24 boleias, a 1600 quilómetros de casa. 

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