Madrid & Zaragoza

Escrever sobre o que sentimos é muito diferente de escrever sobre o que guardamos do que já sentimos. É por isso que é tao bom e ao mesmo tempo tão importante partilhar aqui no blogue tudo e em primeira mão. Só que com este modo de viajar, é muito difícil. Todos os que nos levam, todos os que nos hospedam, todos os que partilham o seu tempo connosco, absorvem-nos e sobra-nos pouco mais que o tempo para descansar – o que é bom, é bom sinal, é enriquecedor, é do melhor que podemos querer. E se a isto somarmos o facto de querermos conhecer e palmilhar cada nova cidade, e deixarmo-nos apaixonar pelos cheiros e sabores, rotinas e sons, pores-do-sol de cada uma, então confessamos: escrever fica para depois.

Mas depois, depois queremos tanto partilhar tudo, que sonhamos com a forma como vamos pôr em palavras o que vivemos!

Estivemos em Talavera de La Reina 3 dias, 3 dias em que nos deixámos embaraçar pelo carinho da família que nos recebeu. O gosto que demonstravam por estarmos juntos ultrapassava qualquer bom pensamento pré-construído que pudessemos já levar, e foi por isso mesmo que só no final do terceiro dia nos fizemos a estrada. O sol já estava a deixar-se cair, lentamente, na linha do horizonte.

Optámos por ficar numa bomba de gasolina mesmo à saída da cidade e, ao mesmo tempo, à entrada da autoestrada. Tínhamos duas opções, como temos sempre: abordar quem esteja a pôr combustível, ou ficar de dedo esticado na estrada. Decidimos perguntar a quem estava a atestar a carrinha aquando a nossa chegada, e a resposta foi simpática e direta – não ia para o nosso destino. Acabámos então por caminhar até à estrada. Esperámos pouco mais de cinco minutos, passaram pouco mais que cinco carros. E apareceu de novo a carrinha que estava a atestar na bomba. Encostou. Queria explicar-nos que não ia diretamente para o nosso destino, mas que poderia deixar-nos mais perto de Madrid, com um pequeno desvio até lá.

Aceitámos de sorriso no rosto, entusiasmados. Com algum receio de ficar mais perto, mas ao mesmo tempo num pior lugar, e noite a dentro, para estar a pedir boleia. Mas é mesmo assim, não podíamos recusar. Conversa, mais conversa; partilhas, mais partilhas. A história da nossa aventura estava em cima da mesa! E eis que, como resumo, nos acabou por levar a conhecer Toledo (que cidade linda! Relembrou-nos da nossa Vila de Óbidos) e ainda nos deixou em Madrid e mesmo à porta de casa! A bondade humana não tem limites. Una casualidad se puede tornar en una causalidad – disse. Agradeceu-nos a experiência de nos ter conhecido, estava grato por nos ter encontrado. E nós, nem sabemos. A nossa gratidão não cabia em nós.

Em Madrid, demos corda às sapatilhas. Foram dois dias de loucura, vários quilómetros a pé. Pode dizer-se que conhecemos a cidade, e dois museus, pela metade. Ficámos na casa do tio de um amigo, onde vivia também um amigo da família: mais uma prova da bondade humana. Sentimo-nos cada vez mais ricos. Porque darmos o que é nosso, àqueles de quem gostamos, é normal. Mas darmos o que é nosso, e ainda mais bocadinho, àqueles de quem nem sabemos se gostamos, é uma dádiva.

De Madrid, saímos dia 11, já novamente no turno da tarde. Não que tenhamos acordado tarde, mas primeiro que chegássemos onde queríamos… que moroso! Caminhámos, caminhámos, e caminhámos ainda mais um bocadinho. Na verdade, para quem conhece Madrid, e para quem não conhece também,  queríamos apanhar boleia para sair da cidade, e por isso tentámos posicionar-nos numa entrada da M30, que pode equiparar-se à segunda-circular de Lisboa, com um limite de velocidade um bocadinho superior. Na verdade, tinha tudo para dar errado. Poucos carros a seguirem por onde queríamos, nós num passeio entre semáforos e tensos pelas horas. E a placa que havíamos escrito, ao contrário das outras, estava (diga-se a verdade) muito mal amanhada!

Eis que ouvimos um camião  (dos pequenos!) buzinar. E buzinou de novo. Olhámos sem perceber porque buzinava, enquanto permanecia parado na faixa da esquerda da via rápida. Foi então que avançou,  e mesmo com o movimento da estrada, encostou na faixa da direita e voltou a buzinar. Percebemos que era para nós!  Apressamo-nos a agarrar as mochilas, os sacos, as mochilas pequenas, e a olhar em volta. Não tínhamos deixado nada para trás! Corremos! Tudo em fracções de segundo! E nisto, já estava uma senhora a abrir a porta do camião, para que largassemos a tralha toda e subissemos.

Foi uma boleia curta,  mas sentimos que tinha sido um anjo na terra em tirar-nos dali. Deixou-nos depois numa boa entrada para a autoestrada que seguia com direção a Saragoça, e tardou pouco até parar um carro. O que esperámos deu-nos para comer de corrida o nosso petisco vegetariano – umas lentilhas maravilhosas!, e pouco mais.

Levou-nos até à estação de serviço da autoestrada um senhor, professor de 1°ciclo numa escola onde a maioria dos alunos são de etnia cigana. Partilhou algumas das suas histórias e cativou-nos pela tranquilidade do seu discurso.

Já na estação de serviço esperámos. Esperámos muito junto à sua saída. Cantámos, rimos, conversámos. Estivemos entusiasmados. Sempre em paz. Também nos fartámos: mas sabemos que é assim, às vezes mais fácil, as vezes mais difícil. Temos sempre em mente que, até hoje, esta viagem e cada troço da mesma, têm sido santos.

Quando a frustração já começava a inquietar o nosso estado de espírito, mudámo-nos. Voltámos a pôr as mochilas, agarrámos em tudo, e fomos até à bomba. Não havia assim tantos carros a abastecer, mas embora fraco, havia movimento! Começámos um por um, a abordar todos os condutores. Nem sempre é fácil. O medo reina, o preconceito também. Mas a pergunta dá espaço à recusa – Hola, perdon! Vosotros van en dirección de Zaragoza? Nosotros estamos intentando llegar a dedo hasta alli.

Não sabemos bem se depois de muitas ou quantas perguntas, mas depois de ainda algum tempo de espera, abordámos mais um senhor. Vimos o seu Mercedes lá ao fundo. Tinha um ar simpático e acolhedor. Bingo! Disse-nos que ia na direção e que nos levaria, mas que achava não ter espaço no carro, pois ia para a neve e levava o carro atulhado com o equipamento. Mas convidou-nosa ir espreitar e ver o que achávamos. Ora pois claro, nem que com as mochilas na cabeça, não queríamos perder aquela boleia nem por nada. Sabem as borboletas na barriga? Isso mesmo!

Quando nos aproximámos, a sua esposa sorriu-nos. Parecia até que tinha ouvido a nossa conversa com o marido! Ajudou-nos a ver como poderíamos colocar tudo dentro do carro. Ajudou-nos. Reorganizou as suas malas e colocou as nossas. E foram uma lufada de ar fresco. Bom, foram-no para um de nós: é que há quem entre nos carros e nem espere que comecem a funcionar para adormecer (mas isso fica para outra partilha 😊!).

Deixaram-nos então perto de Saragoça, exactamente onde pretendíamos. Lá, encontrámos o irmão de um amigo, da família de Talavera de la Reina. Jantámos os três, passeámos pelo pueblo e pernoitámos. Nós dois, quentinhos e apaixonados! Em poucas horas, era hora de levantar cedo, hora de rumar a Barcelona, e de somar mais algumas às já 18 boleias apanhadas.

Começam pois a esgotar-se as palavras para agradecer. É que a hospitalidade é tamanha. O nosso coração não tem como não transbordar! O mundo na mão começa a não ser só porque o vamos percorrer pedindo boleia – com a mão, mas porque em cada canto deste, decerto encontraremos a quem só conseguiremos agradecer abraçando – juntando as mãos.

(to be continued)

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