até Elvas

O caminho, esse, faz-se caminhando.

Se por um lado, crescia o desejo miudinho de partir, por outro reside(ia) o medo miudinho do desconhecido, e resta(va) ainda a angustia miudinha de deixar tudo para trás. São sentimentos ambíguos, difíceis explicar, difíceis de gerir.

Mas saímos. Saímos já fora de horas (e com o tempo vão perceber que é habitual – por mais que digamos que partimos ‘no turno da manhã’, dificilmente passa de um desejo!).

Algés foi a nossa casa durante vários anos, durante os quais namorámos, crescemos, estudámos… e durante os quais fomos também felizes! Nesta manhã, chegámos até lá trazidos pelos amigos que nos hospedaram na noite anterior, e a entrada do Ic17 esperava por nós.

A ansiedade palpitava-nos no peito, o nervoso de sair da nossa zona de conforto, do que tão bem conhecemos; tudo jazia em nós. E tudo nos perturbava o pensamento.

A partida concretizou-se. Conseguimos a primeira boleia, rumo ao fim da segunda circular – uma pequena boleia, mas muito importante para sair de Lisboa. O primeiro passo estava concretizado, ainda assim esperámos algum tempo. Chuva, chuviscos, vento, nuvens e algum sol. O peso das mochilas começava a massacrar-nos os ombros.

De lá, já nós estávamos pouco crentes com o lugar escolhido para estarmos de dedo esticado, quando ouvimos pelas nossas costas “para onde vão?”.  Era militar e a curiosidade imperava-lhe o discurso. Queria saber mais sobre este estilo de vida, esta forma de viajar. Queria descobrir um mundo desconhecido, inundou-nos de perguntas repletas de simpatia e dedicação, com (muita) preocupação à mistura. Deixou-nos, com um pequeno desvio à sua rota, em Vila Franca de Xira.

Aproveitámos o sol à chegada para um almoço dos nossos: um taparware preparado de véspera, com tofu salteado e grão à mistura, e umas belas sandes de seitan. Um verdadeiro petisco vegetariano.

Caminhámos depois até à entrada da ponte que atravessa o Tejo e, sem sequer nos termos posicionado ou conversado sobre o que nos encantava o pensamento, demos por um carro a encostar. “Where are you from?”, perguntaram sorridentes. Eram dois jovens, da nossa idade, satisfeitos por nos terem encontrado no seu caminho; acreditavam que não podíamos ser portugueses e partilharam que já haviam tido dificuldade em atravessar aquela mesma ponte à boleia – e que portanto não hesitaram em parar para nos levar! E em dois minutos de conversa, já tínhamos descoberto pelo menos uma amiga comum. O mundo é pequeno.

Depois então, chegados ao Porto Alto, sentimos o peso da nossa bagagem, da nossa alma e das nossas motivações. Avistámos uma longa avenida, com vários quilómetros. Percorremo-la com estaleca, o sol ainda brilhava (e quando por momentos o deixou de fazer, conseguimos abrigar-nos) e embora já cansados, só parámos quando considerámos que o lugar era o melhor. Permanecemos de dedo esticado algumas horas. Deixámos o sol baixar; o frio começou a fazer-se sentir, e um camionista acabou por nos aconselhar, sugerindo que caminhássemos mais um pouco, pois na rotunda seguinte, haveríamos de ter mais sorte. Assim o fizemos.

E assim foi. Apanhámos então uma boleia de uma carrinha, com dois viajantes. Ele português, ela holandesa. Foi curta, mas mais uma boleia imprescindível (sim, é certo, como todas as outras!). Havíamos chegado perto de Pegões: já não faltava tudo!

A noite já tinha caído. E quando assim é, temos sempre receio que os deuses das boleias deixem de nos iluminar…

Caminhámos, caminhámos vigorosamente (tanto quanto a carga da bagagem nos permitia), e colocámo-nos por baixo de um foco de luz da estrada nacional em que nos encontrávamos. Os nossos corpos estavam quentes, mas as mãos já estavam frias. As luvas acabaram por fazer o seu serviço na perfeição e optámos por escrever num pedaço de cartão “ELVAS”. Podia ser que quem para lá fosse, não hesitasse em parar. E assim foi. Parou um camião.

O camionista desceu, o seu olhar trazia ternura. Afeto! Cumprimentou-nos de forma calorosa e apressou-se a convidar-nos a subir e a sair do frio. Levou-nos até Borba. Foi uma viagem mais morosa, mas foi música para os nossos corações ouvir cada história e partilhar cada quilómetro. É que para nós, é gratificante apanhar boleia de alguém bom, com boas energias. Mas ali, dentro daquele camião, percebemos que também aquele Homem estava grato por nos ter encontrado.

Chegados a Borba, já as estrelas se tinham aconchegado. O frio via-se, o ar branco que expirávamos denunciava a temperatura baixa que se fazia sentir. As luvas já não nos protegiam tanto quanto desejaríamos. As camadas de roupa que outrora nos aqueciam, já deixavam que a humidade penetrasse. O socalco do passeio servia já de step por entre os minutos largos durante os quais não passavam carros. A crença nos deuses das boleias já não era a mesma entre nós dois.

Mas a esperança era imensa. A vontade de chegar, alimentava-nos o espírito.

Em Elvas, sabíamos que havia à nossa espera uma família muito querida e ansiosa por nos ver. Em Elvas, sabíamos que havia à nossa espera um lar.

E a luz não se apagou. A última boleia foi já de amigos da casa!

Somados mais 220km e 6 boleias, conseguimos chegar a mais um destino. Elvas.

Hoje, descansámos. Recuperámos energia. E demos ainda um pulinho à rádio local, Rádio Elvas para uma entrevista; e partilhámos esta aventura com o site de notícias TudoBem.

A gentileza, a cortesia, o entusiasmo e a amabilidade que por aqui vivemos, dar-nos-á alento para o que há-de vir.

Amanhã, rumamos a Espanha. Porque o caminho, esse, faz-se caminhando.

Não esquecendo nunca – e que fique registado – que levamos a nossa família, SEMPRE e em todo o momento, no mais fundo que há dos nossos corações.

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12 thoughts on “até Elvas

  1. Primeiros dias já foram…:)
    Vou vos “seguir até ao Canadá”..
    Se passarem pela SuíÇa…digam desta vez já não estou em montreux.mas sim em Yverdon-les-bains…perto da fronteita de Besançon…;)
    Good luck..e cuidado…:)

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  2. Joana e Tiago o meu coracao aperta cada palavra que leio, e quero chegar rapidamente ao proximo paragrafo para saber o desfeixo ! Quando realizei que estavam novamente em seguranca, em Elvas, numa cama quente o meu coracao trasbordou de alegria! Joana Minha bebé, que se fez crianca, adolescente e mulher. És e serás sempre a minha princesa que sei que tem de voar! Milhoes de beijos Titi

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  3. Bom dia para vocês! Ler as vossas palavras deixa um sentimento de alegria imenso. É fabuloso o que estão a fazer e ao mesmo tempo o que estão a proporcionar a quem vos segue…Obrigado por nos deixarem ir nesta viagem convosco…! Tudo de bom para vocês…e quando regressarem a Portugal…se precisarem de casa na aldeia de Amor ( entre Leiria e Monte Real)…não hesitem em dizer . Abraços, muita força e boas boleias! 🙂

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  4. Não vos conheço, mas sou de terras vizinhas… Temos amigos em comum… Obrigada por partilharem este vosso sonho… Pois assim também podemos “viajar” um bocadinho pelo mundo. Se por acaso no vosso regresso precisarem de casa para os lados de Coimbra digam alguma coisa! A nossa porta está aberta para vos receber!

    Nônô

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